segunda-feira, julho 25, 2011


«Ria» adormecida



Desligo-me do mundo real

E volto a sonhar com o deixar-me entrelaçar

Nos teus cabelos.

E em ti pousar. Mergulhar.

Meu corpo sobre o teu, ofegante,

Bate em uníssono de desejo

Não há brisa.Para o momento ser ainda maior.

A brancura falsa do luar toma muitas cores

No suave anoitecer concedido aos amantes.

As casas de risquinhas coloridas

já se cobriram de um cinzento em redor

Basta de demora com as palavras fora de nós;

É chegado o momento de comunhão apetecida.

Porque melhor que o sonho da vida em cenário falso

É mesmo concretizar o sonho quando acordados

Antes que a noite se aposse do nada da minha vida.





Vejo-te chegar : Vens!.

Os teus lábios carnudos oferecem -me

O céu.

Os teus braços correndo ao meu encontro

Trazem-me as tuas mãos, primeiro.

Enlaço-me nelas, percorro o teu peito

Obedecendo ao teu puxar suave.

E em gestos de pressa arrebatadora

Louco, corpo febril em procura ardente

Desnudo-te, puxando a ponta do teu véu,

Para assim poder sorver a tua seiva nascente.



Já não há tempo para nada.

Deixamos de ser os dois para ser um só;

Ouço o teu sussurro, sinto o teu espasmo

E todas as suaves variações do teu corpo

Ah! como é bom tanta coisa fazer

No cúmulo do prazer

A loucura da vida esquecer.



Sinto – me igual por dentro como por fora: -nú

Procuro refúgio de náufrago resgatado

E colo-me a ti languidamente.

O mundo não existe: só eu e tu!,

Na suavidade dum enlaço sossegado.

Como pode um mar assim tão bravo

Virar, ainda que tão brevemente

Ria adormecida ?

Ah ! como é bonito este poente de hoje:

As suas cores nevoentas a esconder que a vida corre

                                                            [ e foge.

sexta-feira, julho 22, 2011


Intrigante - no mínimo – ou talvez não. Esclarecedor?


Em 1968 Mário Sacramento escrevia o K.

Devo dizer que este foi o apontamento mais deslumbrante que encontrei no livro «Sementes de Liberdade».Eu sempre o subentendi. Mas não sei -nem devo – fazer qualquer tipo de interpretação livre.

Aqui deixo para reflexão o poema de MS:(itálicos são meus)



Choro por ti Checoslováquia,

Caminhos de assombro

Encruzilhadas de medo

Terra calcada por todos os ditadores do erro,

Chave da Europa à mercê dos ladrões

Que culpa terás de ser mais evoluída?!

De teres a capitação de 1200 dólares

E a URSS,a de 980 apenas?

Choro por ti Checoslováquia,

Irmã gémea e lutuosa do Vietname,-

Os dois pinhais da Azambuja!

Meu amigo Zdenek,

Que traduziste o Camões, o Eça,

E vieste ao meu encontro numa rua de Aveiro,

Só porque tinhas lá longe,

Um mau retrato meu!

Que posso fazer pelos teus?

Choro por ti Checoslováquia,

Vitima da cupidez nazista

E dos seus post-justiceiros-

Os filisteus estalineptos.

Se tiver de morrer «errado»

Morrerei como tu, Checoslováquia,

Socialista socialenado!

Foram cem erros (já)do socialismo?

Fossem cem mil –e socialistas seríamos!

Choro por ti Checoslováquia!

Exige que o reprima o presente,

-ironia trágica e pútrida!

Escarro vivo

De cintilantes sóis, noite gelada

De rumorosa manhã.

Fátuo ser!

Poteau

K

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Diz-nos ainda MS «a partir daí o racionalismo acentuou-se e ganhou profundidade com o acesso à disciplina cientifica (….) mas o idealismo perdurou».
Esclarecido ou intrigante? Ser por dever ser, ou ser que deixa de ser?
Doloroso encontro com uma realidade.
Choro por Ti ,Mário Sacramento.Esta realidade não muda...


SF Julho 2011

quarta-feira, julho 13, 2011


A Biografia de Mário Sacramento: «Sementes de Liberdade».



Foi-me hoje proporcionado, finalmente, contactar com a biografia de Mário Sacramento, recolhida por Eunice Malaquias Voulliet, num trabalho que já tinha vindo parar às minhas mãos, vai para quatro anos, numa tentativa de se saber onde recolher os meios para uma edição livreira.

Conheço pois o trabalho da Dr.ª Eunice.Muito metódico, interpretando o intelectual e o activista, síntese que quase retrata duma «penada» o que Mário Sacramento quis ser : intelectual e preferencialmente escritor.E nestes, para estar correcto com a praxis do neo-realismo que definiu como expressão artística que pressupõe (….) o materialismo dialéctico – interventor no desenho de um neo-humanismo. Para tal o intelectual deveria ter participação - intervenção que conduzisse ao mesmo. O escritor,produtor de arte,não se deveria  preocupar, só e apenas com a escrita, mas concretizar ideologia pelo estar.

Creio que Eunice Malaquias observa bem o percurso de Mário Sacramento. E regista, embora sem interpretar ou lançar uma pista, para o conflito que MS afirma ter tido com «a família» quando esta o desvia do curso de Letras para a carreira médica. Tenho pensado muito neste ponto. Não encontro outra razão para o explicar, que não a sensatez de Artur Sacramento (Pai), que sabia perfeitamente quem tinha em casa. Deixar o filho seguir uma carreira que o atirasse, definitiva e irremediavelmente para uma carreira de intelectual contestário, não era precisamente o que Artur Sacramento( um Comissário de bordo benquisto, em contacto com muitos e diferentes grupos sociais) pretenderia para um filho que desde cedo, logo na Escola Primária, se tinha distinguido como um sobredotado aluno. De quem mestres como Guilhermino Ramalheira, afirmavam, ter sido o mais notável e criativo aluno que lhes passara pelas mãos.

Assim MS é empurrado (pela família) para a carreira médica, que materialmente permitiria o desafogo para outras aventuras – talvez o pensasse o precavido Pai. E claro, mesmo nessa contrariada actividade, MS distinguiu-se, afirmando-se nela em duas facetas: um médico que pouco se lembrava de apresentar contas(de todo não apresentava, aos mais necessitadose um «Vesalio» de valor firmado).
Claro que a sua fixação na Província o afastou das tertúlias (Lisboa principalmente) que só com dificuldade conseguia, esporadicamente, frequentar.E onde cedo fora acolhido. Primeiro com uma certa desconfiança dadas algumas posições polémicas assumidas pelo jovem crítico:  - caso da estética de ironia de Eça, ou a análise que nunca o satisfaria de Fernando Pessoa --uma poesia verídica num mundo sem verdade !, ou ainda a sua não total comunhão com a estética da escrita do colega Namora – fugindo ao itinerário ideológico, para só ficar no literário.Certo é que depressa se iria impor entre os seus pares com a colaboração regular no Diário de Lisboa.

Mas o viver provinciano não o disporia para uma inactividade contra o bafiento regime Salazarista: – 40 anos de salazartimanha, de salazarfar, de salazartrose, como diz. Aprendeu, jovem, o anátema do regime e confrontou-o como poucos. Pagou caro a obstinação no seu derrube, assistindo ao folhetim da «cadeira benfeitora», que fez mais para o fim do ditador que toda a oposição. Mas não viu o fim do regime.

Quando me defrontei com a morte de MS – que dois ou três dias antes, a mim e ao Artur,em sua casa  me explanara a hipótese do fim eminente, trazendo á colação a possivel  repetição do caso de sua mãe – surpreendi-me com o facto de a nossa diferença de idades (19 anos), não ter reflexo no aspecto prematuramente velho com que sempre o tinha imaginado nas inúmeras vezes em que com ele convivi (nos grupos do «reviralho» em que participavam meus pais). Descrevo esses tempos noutro local. Influenciou-me muito MS. A ele devo um incitamento para a descoberta do materialismo (dialéctico e científico) que muitas vezes me explicou com detalhe.

Pouco depois da sua morte (1970), e num período de grande debilidade, não pude negar o apelo de Cecília Sacramento para uma palestra no Illiabum Clube de evocação do seu nome. Nos limites de saúde para o fazer, havia, contudo, uma necessidade imperiosa de pôr fim a uma movimentação que procurava «achincalhar» a dimensão da sua figura. Mesmo na cama, em convalescença, atirei-me ao trabalho, e no dia marcado, mesmo suando as estopinhas, lá estive. Não enjeito nada do que então disse. Antes bem pelo contrário. E creio que foi mesmo a primeira acção desse tipo. Refiro-o no site http://www.senosfonseca.com/

Mais tarde lutei bravamente, a meu modo, para perpetuar o seu nome em Ílhavo, pormenor que esta Biografia, como constatei na pag. 265,parece desconhecer!.Foi uma luta desarcada, assanhada. Mas bonita e com resultados.

Foi contudo muito pouco. A dimensão deste «Ilhavense» terá muitas outras oportunidades para ser celebrada com o andar dos tempos. Estou certo.

Mário Sacramento dizia-se ensaísta porque desde miúdo via passar os músicos da banda para o «ensaio»,fazendo da arte uma devoção.

A devoção de MS era arte da Liberdade.

MS usou sempre, mesmo nos momentos amargos, a ironia como a arte de «fingir sem fingimento».

Saúdo o livro. Saúdo a autora. Fez com mestria, o que eu, sinceramente ensaiei, não convictamente(!)
,é certo, por diversas vezes. À falta de fôlego para tal monta.

E parafraseando MS, eu por meu lado tentei cumprir e «fazer um mundo melhor».Só que estes tipos não deixam. Mas lançar sementes de Liberdade à terra, é tarefa de renovo continuo.Obrigatório.

SF

domingo, julho 10, 2011

O novo Miguel de Vasconcelos


Em contínuadas e insistentes  aparições retratadas na comunicação social, tão frequentes e sucessivas que até parecem encomendadas, Ribau Esteves tenta montar a albarda e escarranchar-se na Câmara Municipal de Aveiro.

Nada temos a ver com isso.É «bom» castigo para Aveiro.

Só que para o fazer, vende «Ílhavo».Tal como se apregoava o bacalhau no antigamente: -a pataco.

A haver a anunciada reformulação municipal ela começará pelo mais fácil. E o mais fácil é começar por uma anexação onde o Presidente se põe de cócoras e vende a alma de uma gente – nem melhor nem pior que outra, mas diferente! - a troco de um cadeirão.

O Esteves contrabandeia-se, e atraiçoa a memória de todos os ilhavenses. E mais que todos, em particular, aqueles que em 1889 libertaram o concelho de do jugo aveirense. Da névoa do tempo, os mortos se erguerão para abjurar o novo «miguel de vasconcelos». E se este foi defenestrado e voou aterrando no lajedo, a este Esteves, só pela apregoada intenção, deveria ser-lhe indicada- e já!- a porta dos traidores.

Mas Esteves,  um dia o dissemos, é, de facto, um mamão da porca da política.

Mas isto transcende a politiquice.Isto é pura canalhice.

Estamos perante um sério problema: - Esteves destruiu a cultura ilhavense, escorchou-a, salgou-a, e agora sabe ter chegado o momento de lhe dar o golpe da misericórdia. E levará atrás dele uns farsantes que ainda lhe baterão palmas.

Esteves não tem as mínimas condições para continuar a gerir os destinos de «Ílhavo». Se lhe restasse um mínimo de dignidade – coisa que nele nunca pairou, quanto mais existiu! - saía.



Aladino

sexta-feira, julho 08, 2011

As Guerras já não se fazem com canhões….



Por vezes - vezes demais, convenhamos – penso que vivo num País onde todos os figurantes foram atingidos por Alzheimer.

Pior que terem esquecido o ontem, foi ontem não terem percebido o amanhã.

Parece que só agora – ontem e hoje -descobriram que a III Guerra Mundial -decretada por, O Capital - tinha começado vai para quatro anos. E que como na anterior, quem começou por se «invadido» e espezinhado foram os que pouco ou nada poderiam fazer para o evitar. Porque fracos vão apenas servir para avisar os maiores.À falta de um Churchil & Comp ( que já não temos) o Capital vai avançando.

Hitler que apesar de tudo tinha um rosto ( embora patético!) invadiu e espezinhou a Áustria; «O Capital», que não tem rosto nem nome, atirou-se aos países periféricos da Europa. E experimentou a reacção. Ora parece que não se percebeu que o objectivo desta III Guerra é mesmo a «invasão» de toda a Europa.

Claro que aqui, nestes pais alzheimado arranjou-se um bode expiatório. Que antes era culpado de tudo, até das notificações das agências de ratting, postos avançados desse invasor sem rosto. Só ontem descobrimos( parece que até a Maria Cavaco Silva, que o disse ao marido), que afinal a culpa é da MoodY & Comp. Corre já para aí, que, no próximo dia 10 de Junho do ano que vem ,Sócrates vai ser medalhado.

E agora? Vai ser um chorrilho de Pec's ,até que um dia damos por nós ,indigentes e em cuecas a dizer : -. AH!pobres mas livre.

É que andamos mesmo com a mania que somos livres.

Porra! para esta «ampla» liberdade.

Mas então ainda não tinham percebido que estes palradores, estrategas económicos, são, todos eles, agentes infiltrados das referidas agências, pagos principescamente como seus funcionários avençados (e dos fmi's e quejandos)?

Oh my god!...País de céguinhos (bem dizia Saramago).

Sabeis o que Vos digo?: -um dia a história registará a pandilha de imbecis em que nos transformámos, à sombra de pensarmos que mandávamos alguma coisa nos destinos deste País.

SF

quinta-feira, junho 30, 2011

(cont)



Começa o «ala arriba» da rede. Que demora um par de horas: - duas a quatro, conforme a distância a que se largou a rede. As várias juntas de bois fortemente aguilhoadas, impiedosamente batidas nos lombos com as varas de tocar, são, pela laçada do chicote



































 «atadas» aos cabos do reçoeiro e da mão da barca.Que inicialmente separados por umas boas centenas metros, pouco a pouco, se vão «achegando», até que à vista dos primeiros «pipos» - as calimas -
                                      


                                 As calimas ou pipos

                                       


                                                               Ajeitando as mangas

(que indicam a posição das mangas da rede), não distam mais do que uns cinquenta metros, entre si. Os animais - uma boa dúzia de juntas -, libertos no cimo da duna são largados em louca correria, em tumultuosa balbúrdia, passando possantes por entre paisanos e «olheiros» que, de repente, se dão conta de estarem na linha de corrida de uma parelha.É tempo de correr para escapar, lestos, aos «cornigeros» animais. Os tocadores incitam-nos em gritaria alarve, fustigando-lhes os costados dum modo violento. «foge... foge... arreda!...», é o grito que se vai ouvindo no meio daquela confusão extrema.

Esforço supremo!..Ó!..Ó!.., arriba …riba …riba …vá .. vááá!. grita o Arrais já rouco de tanto rojar…Eh!.. raios... diabos!... puxa... puxa, vá riba !

E os bois e homens, buscando as últimas migalhas de forças conseguem tirar a sacada do mar que “re de enorme baleia agitadalá aparece, qual vent por convulsivo tremor

Eis que o saco (a coada) sobe na areia; todos vão por detrás dele, pés na água da arrebentação, dar-lhe uma espreitadela para avaliar da dimensão da sacada.

     


















   A coada arriba à praia






Raramente o pescador se satisfaz, pois que espera - sempre !... - melhor sorte.

É apenas um momento de ansiedade, tempo para um simples esgar e para rogar a praga do seu desencanto, porque logo esquece a estiporada sorte para de novo se envolver na árdua tarefa de levar a rede acima. O Arrais vem sobre o saco, soberano, calcando a pesca até ao «local» onde grita: - alto!; e aí, de navalhão em punho, corta-lhe «o porfírio» esventrando o «ajuntadouro da rede», deixando ver uma miríade de reflexos, provocados pelo sol a bater no peixe que saltita num derradeiro esforço para se libertar da prisão.

Num primeiro acto, homens e mulheres mergulham as nassas (os xalavares) na sacada, atirando «o peixe» para montes onde são separados por tipo, e depois, metido em cabazes de vime, para de seguida, ser apregoado.

 Enchendo os «nassos»

Mulherio, curiosos, pescadores e «mercantéis», por razões diferentes, começam a «cobiçar» os quinhões, que logo ali são leiloados à voz do pregoeiro - do quem dá mais (?!) - sob o olhar atento do apontador do livro que regista as vendas. Estes pregoeiros tinham com os «mercantéis» códigos estudados, sinais de licitação: - o piscar de olhos, o coçar a cabeça, o tirar do boné etc. - inacessíveis aos curiosos que só participam na licitação do «restolho».











Guarda Fiscal apontando....ao lado o «sinal»














 O peixe nos xalabares ,alinhado para a  venda





O peixe é então transportado em cabazes, nos «enxalavares» , carros de bois de duas rodas, muito largas, permitindo-lhes com mais facilidade se deslocarem na areia, conduzindo o peixe para os barcos dos «mercantéis» ou para os armazéns de salga, na beira-ria; ou para ser carregado por almocreves que o irão levar, no mesmo dia, e nessa noite, percorrendo afadigados por entre vales e serras, os caminhos da Beira interior



 O burrico o rapaz e o almocreve

 

para o entregar, ainda fresco, «amanhã» para a venda. Outra parte do lanço segue para os «gigos» (cabazes) do peixeiro



O peixeiro de Ílhavo

«ombreados» numa vara de cerca de dois metros que leva, enfiados nas suas pontas o par dos ditos «gigos», em que se carregam cerca de 50 kg de sardinha para ser vendida no mercado da Vila, ou de Aveiro.

As «pescadeiras», depois de darem uma mão na «safa» do peixe, esperam pelo  pela



 A Peixeira da Costa-Nova

repartição do lotes .É tempo de encher as suas canastras, «atapetadas» por um oleado que evita o escorredoiro, e lá partem estugando o passo numa correria para apanhar a barca da passagem que as levará ao outro lado, à Maluca, de onde partirão ajoujadas ao peso do carrego. Que bem equilibrado sobre a rodilha ou sobre o chapéu de «penache», não necessita sequer de mão para o ajeitar ou segurar. Graciosas, descalças, mãos na cintura, seguem lestas em passo leve mas corrido, até que as primeiras casitas da vila aparecem lá ao longe; é então que da garganta fina, esbelta, orlada de belos cordões e libras d’oiro - seu único derriço! - sai o grito em voz sonora, clara e apelativa, no pregão: “Olha a sardinha da nossa costa! Freguesa!… venha «cumprar q’é do noisso mar”….


E assim vão calcorreando todas as ruas das redondezas até de noite, tempo de chegar a casa mortas de fadiga, mas ainda, com tempo, arte, e folguedo q.b., para fazer um «trauto» com «seu Arrais» no folhelho aconchegado onde se fez mulher… vai para um par de

Invernos»…, (…“que mulher «d’íbalho» não casa de verão!... não há tempo… nem homes em terra, para tal….”)

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Era assim no meu tempo de rapaz.
Lembro-me desse tempo.De muita e boa gente desta terra.De vez em quando repuxo-os à memória e brinco com eles.
Deambulava então pelo Curtido a fazer barquinhos de casqueira com o Ti Antoninho Ronca,saltava á Manguinha para chatear o bondoso Ti Cunha, e enfronhava-me nos Sete Carris à procura de uns olhos lindos.Havia tantos c'um homme (quase) nem sabia para onde cair.Ou caía em todos .
E às vezes dava de caras com o pai de uma,barrete negro encafuado na cabeça até ás orelhas,borla caida,com olhar de poucos amigos.Parava o atrevimento.
E eu olhava-lhe para o peito troncudo,cachimbo de pederneira abocado ao lado, e via o camisolete de flanela grosso,espicaçado de cores fortes,e sonhava ter um igual. Eu queria-lhe a filha ...e o camisote.Mas o olhar refreava-me os intentos.
Essa é a galeria de Homens e Mulheres que já não há.
Nesses tempos ,meus amigos,todo o Portugal deveria olhar para Ílhavo de calcanhares unidos e de chapéu reverencialmente tirado.Hoje andam para aí uns sanapaios engordados no aquacultura.
Os outros de antigamente era  gente nauda e criada aqui,nestes becos ,veias singulares onde pulsava vida e morte,capaz de dar cara para uma nova História Trágico Maritima.
Por isso me lembrei de lhes fazer justiça.
AH! arraias Parracho;ah! arrais Ançã,ah arrais Cajeira;ah arrais Batata;Piorro,Agualusa e Bicarada ;ah Càloa mulher «d'um carago»,relíquias de uma história que hoje se esconde,venham de novo contá-la.
E vós mulheres em cujos olhos ardentes  tantas vezes me enliei rondando a soleira das suas  portas- menos do que agora queria!-,meneiem esse esbelto perfil,afogueiem esses carnudos lábios,mostrem como o vosso ondular imitava o ondular do mar,e como o vosso corpo acolhia o Vosso arrais,como o mar acolhia a quilha do seu barco em momento de estrambolho desejado.

Senos da Fonseca(Junho 2011)

Nota: A grande maioria de fotos foi levada a cabo por Rui Bela.)















 
















                                                



                                                  









                                        





































                                     




















quarta-feira, junho 29, 2011




À laia de explicação

Com este revisita à Xávega quis, no fundamental, perceber-ou melhor,dar-me conta - do que tinha mudado nestas ultimas cinco /seis décadas.De uma atiividade febril,juntando homens e animais na borda, cena que deslumbrou  Unamuno,que a classificou  como «a ruralização do areal»,já nada resta. Das  que Raúl Brandão  descreveu,magistralmente, verdadeiras telas impressionista encharcadas de cores vivas e quentes ,em que  o  homem liberto das  brumas é apreciado e glorificado,, em  pontilhados andantes, breves, fortes e fugases,já só resta a natureza. As plavras de RB faziam emergir  desses homens  a luz  cujas côres( as palavras) retratavam as emoções.Agora ( já) só pressentimos fantasmas geometrizados, envolvidos em côres desfocadas, plasmados  numa paisagem quase desértica na qual se esvaiem gentes e animais, de antigamente. Quase tudo mudou .Concluo eu, triste e (ou) nostálgico. Já só resta o alteroso e desafiador, meia-lua : do qual  delírios mais febris   evocam  dever ter sido «a nave em que os aqueus arribaram a Tróia.As naves homéricas».


Ora, ora: nado e criado aqui na beirada, queiram vossências acreditar,eu o juro 
Julgo que a melhor maneira, depois de descrito canhestramente o que hoje vivi,nada  melhor que aqui deixar a recordação das Artes  Grandes (a Xávega de antigamente),e deixar ao leitor paciente o tirar conclusões .O exercício que Vos proponho e para o qual quero contar com a vossa boa vontade ,foi feito,já lá vão anos -muitos!- para uma  finalidade concreta.Coloco em confronto os dois clichès.

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O Lanço na Xávega em outros tempos(Iª Parte)


Era um espectáculo que atraía multidões, postadas ou alapadas no areal a ver os preparativos, a observar curiosas, as decisões tomadas pelos Arrais a olhar o mar, a tentar decifrar os seus arremessos e enleios. E que depois, atónitas e espavoridas, e até incrédulas, a observar os empinanços do meia-lua a romper a vaga por entre um coro de gritos e imprecações, vozearias e esgares das mulheres especadas, hirtas, erguendo braços e face ao protector, a clamar piedade ao Divino, até o mar deixar de zangalhar o barquito que lá ia, longe, deitar as redes, à sorte.

 
       
                                              «O Barco de Xávega»


Era deslumbrante no seu todo, o lanço da Xávega. Começava com intenso movimento, uma espantável e louca azáfama enrolada no turbilhão dos gritos e imprecações das gentes. E continuada com o portentoso clímax da entrada no mar, do meia-lua. Viviam-se momentos de ânsia partilhada, aquando do «estripar» do saco permitindo ver o inebriante espectáculo do peixe em «faiscante» estertor; e tinha momento de ingénua gratificação para os mais novitos, na «recompensa» de poderem encher o «baldito de lata da praia», com um ou outro lacrau subtraído à rede. Para os graúdos ficava a abundância do pilado fêmea com que enchiam os nassos para, à noite, se empanturrarem com o saboroso pitéu.

 Mas tentemos a descrição do «Lanço na Xávega».Ainda  sabendo ficarmos longe de o retratar com rigor, por carência de fôlego e arte, para dele dar a grandeza impressiva do estendal das emoções que perpassam ao longo do seu desenrolar.
                                    
 
 O arrais

 
À ordem do arrais, embarcadas as últimas voltas das «calas»
                          

trazidas em rolos nos varapaus pelos moços da Companha, desfilava a rede em «estranha procissão», carreada aos ombros por toda a tripulação.

     

                                          




                           procissão


             



           Embarque da tralha   
                           

Entra primeiro «a manga», depois «o saco» e, finalmente, segue-se «a manga» de retorno.A «tralha» :-assim se diz na gíria da beira mar. É chegada a hora do meia-lua, com todo o aparelho a bordo se fazer à pancada do mar.
 Para o levar á borda  é puxado pelos bois para a sua beirada,

 
                                             Bois e homens na água


deslizando sobre tarolos que vão sendo sucessivamente apostos na sua proa. Chegado mais perto da rebentação, os homens de terra metem-se pelo mar até aos joelhos, e colocam a embarcação já muito perto do farfalho da maré. O Arrais - que não tira o olhar do mar esquadrinhando todo o seu movimento -, espera pelo período das «três vagas sucessivas», a que se seguirá um espraiado. Passada a última vaga, ouve-se o grito: é agora… é agora!…


     

          Homens e animais entrando no mar

A Companha, em terra, dá então o último empurrão com a «muleta» (vara com aguilhão) que enfia na bica da ré (no descanso da muleta).Ou à mão, utilizando as bossas da embarcação ligadas as «armelas» - num esforço hercúleo para desenvencilhar o meia-lua da areia, e, desse modo, o colocar a flutuar. Com o cabo da fateixa enfiado nos «golfiões», evita-se a «atravessadela» fatal.
 Eis que a primeira vaga vem beijar a embarcação enquanto se grita num esgar de vozes roufenhas: agora… agora !!!

… e  o meia-lua lá vai, mar adentro …

     

         ....e lá vai mar adentro

até se sentir que o barco já abóia. Os remos entram então na água tentando em luta desesperada chegar o mais rápido possível à segunda vaga. O Arrais, que não larga o «reçoeiro» já que este lhe serve de controlo para o correcto posicionamento do barco, de frente para a vaga (evitando assim a «atrevessadela» que seria fatal) ordena, invectivando: - temos maré… força… força… seus calões… desse jeito «aguilhoando» o amor-próprio dos remadores e «camboeiros». Por vezes o barco parte lesto demais; é preciso travá-lo; cia… cia, ordena o Arrais, para que desse modo, «borregando», se espere pela vaga. «Trilha!… trilha», grita então, dando a ordem para fixar o remo, e assim se «amainar» o impulso.

             

E eis que a montanha de água se abate com fragor na proa recurvada, altiva e desafiadora (!) do meia-lua, que se «encabrita» até às alturas, num ângulo medonho que chega a superar, por vezes, os 50/60 graus, ficando apenas apoitado de popa.

         
                                                  meia-lua encabritado

 O farfalho da vaga despedaçada pelo encontrão com a proa que a rasga, faz a água galgar e cobrir a embarcação, «esparralhando-se» por sobre os homens que não param de remar, pés retesados nas «recoveiras», em derradeiro supetão para fugir da quebra do mar. O Arrais, de barrete em punho, grita: rema, rema… estamos safos.

E o meia-lua, lesto, atrevido, toma o rumo do poente, lá para o largo, deixando atrás de si o «reçoeiro» que ficará «preso», entregue aos camaradas de terra.

 

                                   
                                       Juntas em «intervalo» 
Passada a pancada do mar - o ponto crítico de toda a manobra – onde se não percebe se é mais de enaltecer os bravos, se espantar com o seu demente atrevimento; ou tão só respeitar e admirar a intolerância da natureza agreste. Vencida aquela, o barco navega então em águas calmas, avançando compassadamente, parecendo espairecer do esfalfe da luta tremenda, desarcada e hercúlea; e lá vai empurrado pela força dos remos até ao calamento, momento em que, findo o cambo do «reçoeiro», depois de largado o saco, é tempo de «abicar» à praia. Não sem que antes se responda ao Pai Nosso reclamado pelo Arrais, que, cabeça descoberta, em acto de fervorosa prece, roga a intercepção do «Altíssimo» para que lhes conceda uma «boa pescaria», no que é imitado por toda a Companha.

Posta (toda) a rede na água ao correr do mar, está na hora de arribar. O «calado`» (espécie de segundo do Arrais, e seu prometido sucessor) vai largando o «cabo de mão da barca» até se chegar à praia. A manobra de aproximação é muito delicada, exigindo toda a atenção e destreza do Arrais, olhos permanentemente postos nas vagas que lá vêm. Se o mar é de lama, o Arrais ordena o volteio.E a embarcação vem nessa posição - de popa - varar (achapar-se) à praia, ficando de novo voltada para o mar, pronta para nova sortida. Se o mar está de «vagalhoça», o Arrais não arrisca; ferra «a volta na bica da  ré» e, de pulso firme, vai folgando ou retesando o cabo, conduzindo habilmente a manobra, «guiando o meia-lua» até encontrar a «folga da vaga» que permita varar de queixos, entrando pela praia dentro. A tripulação, lesta, salta para a areia, esfusiante de alegria; as parelhas de bois com o chicote solto - o «trambelho» - «chegam-se» para permitir enlaçar as guias, e assim, «alar» a embarcação, puxando-a para cima sobre os rolos. Para que depois de volteado - aproado ao mar - «descanse» bem lá no cimo da duna. Onde a maré não tem «esfolfe» para lhe chegar.

                                     

                                                                            meia lua varando de queixos

(cont)





















































terça-feira, junho 28, 2011





O lanço na Xávega
2ª Parte
Pousado e aquietado o meia-lua que fica a dormir na sua cama de areia estreme, quente e asseada, emborcada uma cervejola, eis que todos se preparam para o alar da rede.

Sem movimentos nem correrias tudo é feito com método e precisão (a mais!). A correr devagarinho.

Dois tratores vão colocar-se voltados a Sul, distanciados um do outro, cerca de trezentos metros. Ambos na parte de trás (a ré como lhe chama o arrais) têm montado um engenhoso sistema de tambores accionados pelo veio motor, dispostos segundo um triangulo isósceles de modo a diminuir a tensão sobre os cabos de alar. Numa velocidade constante o «guincho» improvisado vai metendo cabo: o «reçoeiro» a norte e a «mão da barca», a sul, distanciados cerca de duzentos/trezentos metros. De imediato dois camaradas vão colhendo para um carroço (a cada cabo) o cabo alado, enrolando – o, preparando-o para nova emposta.

Não demora muito (30 minutos, talvez) a serem avistadas as bóias (que substituem os pipos- as «calimas» brochadas de branco alvo - de antigamente) que sinalizam os «càlões». Os veraneantes, que são muitos, aproximam-se, curiosos ,da beira do mar.

Entretanto o trator lá do norte, paulatinamente, vai-se aproximando do que ala a «mão da barca», de modo a ir fechando a «bocada». Surgem os «càlões» e logo a seguir o «claro» e o «regalo»,

   

 das mangas(«tralha»), cuja cor do encascamento» ,de um vermelho salmão a deslizar sobre a areia, oferece uma excelente imagem.

   

 Logo dois camaradas metem por baixo o «estacão» de modo a evitar que a rede sofra o desgaste na areia.Quando as mangas chegam ao tambor de alar, dada a volta, deslizam como que enroladas (um chouriço).

A «bocada» sai já do mar e monta o declive da praia. Quando o saco está já todo no areal (mas não tanto que não recebe beijos da água fresca das ondas que escachoam para manter vivinha a pescaria), o arrais monta-lhe em cima, plantado em pose de gladiador sobre a presa, postada a seus pés.

Surge – lhe na mão um navalhão bem afiada. Um desconhecedor da faina ao olhar para aquela figura, rapando da naifa de umas cinco polegadas, ficará a pensar que a presa se terá revoltado. Coitados dos peixitos cuja cabeça aflora por entre as malhas, bocas escancaradas, olhos a querem saltar-lhes do corpo aprisionado, aflitos, à procura de mar que lhes fugiu.

Desta vez o saco negro pouco bole. Advinha-se a escassez do que contém. Como dizia aquele celebre capitão quando via surgir assim uma tão escoada sacada: «Olha caga no lanço». Tantas vezes o repetiu que hoje carrega com a alcunha.



Pescadores e mirones rodeiam o saco como que a avaliar o seu conteúdo. Os veraneantes vindos a banhos, olham indiferentes; os pescadores, os actores de todo aquele quadro humano, esses, de cara magoada, espelham o desalento estampado na tez tisnada pelo
Confrange olhar aquele espectáculo, simultaneamente belo pela intensidade expressiva como medonho pela dor que o atravessa. Retenho-o, pensando para comigo que o medonho é uma face do belo. E que estes minutos ficarão para sempre gravados em mim. Amanhã eles estarão de novo com a mesma alegria, com o mesmo entusiasmo, com a mesma fé, prontos a partir de novo. A vida destas gentes é uma ode ao querer, à perseverança.

Mas seja com seja, o arrais de um supetão rompe a virgindade da coada, extirpando-lhe o «porfírio»,


                          

 deixando á mostra o ventre onde saltita, estrebuchante, o peixe de um prateado (e por vezes dourado) que se aviva ao reflectir a luz intensa do sol. Miríades faiscantes refulgem daquele amontoado de vida a pedir que a devolvam ao mar. O saltitar do peixe produz um barulhento rumor que pouco a pouco se esvai.
 
Aproxima-se já o trator trazendo a reboque um carroço, que faz a vez  de «enxalavar» de outrora,de rodas largas puxados por uma parelha de cornígeros animais, e onde se alinham cabazes de plástico, amarelos, que vieram substituir os «jigos» de outrora.
                            
 
 Um moço empunha o «xalavar» (uma das poucas ferramentas que ainda subsiste) e mergulha-o no peixe, trasfegando-o para os cabazes. Estes alinham-se e todos começam a efectuar a operação da escolha: sardinha (tão pouca!) para ali, biqueirão (substancial apanha) para outro, tainha de pinta amarela (negrão), vivinha, para aquele do canto. Mas o «pilado», aquele espécime de caranguejo de um rosa marfim, que no antigamente ia para «escasso» adubar as terras, e com que nós, miúdos, enchíamos o balde de praia, para depois os coser, agora é escolha de primeira. Arrecadado do primeiro ao último. Porque é escassa a quantidade que vai direitinha para iscar o anzol dos pescadores de assento, que o pagam principescamente.
                    


Feita a escolha a venda é feita logo, ali. É tão pouca a quantidade que o turista pega em tudo. Nem sequer a disputa do pregoeiro que cantarolava os números em decrescente, e atentava aos sinais dos mercantis, gritando «Chui!», agora merece a pena. O esfalfe. Guarda-fiscal, nem Vê-lo. Ao menos a pescaria tornou-se mais democrática.

Estranha e surpreendentemente, o biqueirão, é o espécime que desaparece num instante. A sardinha, este ano, ainda não pinga no pão. E da mulher só tem a pequenez. Falta-lhe ser gordinha. Pequena e com falta de gordura, não é, ainda, de todo em todo, aquele petisco que emprenhe um home.

Duas enormes medusas gelatinosas ficam na praia. Alguém tocado de alma, as virá devolver ao mar.

Olho para as contas. E arrepio-me. Num repente ponho-me a calcular. Concluo que o apuro pouco mais terá dado do que para pagar o combustível.

Então interrogo-me: porque é que aqueles arrais, que de inverno andam nas robaleiras da Costa-Nova, onde fazem belíssimas marés de milhares de euros de retorno, saltam para a beira do mar, engolfando-se com o meia lua, a dançar com ele na vagalhoça, num destemido e por vezes desatinado desafio ao mar, tendo por paga tão escasso aviamento ?!.A empobrecer alegremente?

 
(Cont)

domingo, junho 26, 2011


Um lanço na Xávega



No sentido de relembrar tempos antigos e saber como funciona a Xávega nos dias de hoje, aprazei com o arrais Zé um embarque, para dar um lanço, no mar da Vagueira, onde o que resta do que foi uma grande companha, vara ainda hoje, ali, o seu barco de Xávega.

    

Às cinco da manhã já lá estava, como me fora ordenado. Cedo demais. O arrais deu para brincar comigo. No areal apenas eu e o barco, no lusco fusco da madrugada, que prometia um dia de sol intenso. Atentando melhor dei com um espectáculo interessante e pouco vulgar por estas bandas. Um casalinho aproveitava a noite quente(!) deliciando-se com a frescura das ondas, no matar(ou atenuar) o fogo que neles ardia impetuosamente. Nus lavar  se deixam na água pura. E brincavam (se brincava!...) na cálida cecém da matina ,dispensando qualquer cobertura para «as suas vergonhas»Claro que nada se importaram comigo. E eu retribui o gesto…(ainda que com babada inveja) .Adiante…

                      

Com o mestre que só apareceu lá para as oito, aprazei, finalmente e seriamente, a hora de embarque. Duas da tarde, logo após almoço.

Às duas e meia ,o trator que substitui os bois que antigamente puxavam o xávega pelos «arganéus» ( o trator  dispensa tudo isso, e mesmo a « muleta») leva de zorro o meia lua, «O Novo S. José». Um pequeno meia-lua de 2R (que só leva os remos por precaução,não para uso),pouco maior que uma «robaleira».
 Chegado o S.José à borda ,   



                 
com a água a chegar-lhe à focinheira, logo obedeço à ordem peremptória: «Salta».E logo eu e mais quatro «camaradas», lestos e decididos, galgámos o bordo, e entrámos na embarcação .
          À ultima da hora ainda se juntam a nós mais dois rapazes. O local que me é destinado é o do antigo «vareiro»: na bica ,com os pés na «sacada» que agora segue no paneiro de proa(aonde antigamente iam os «camboeiros»),bem arrumada .

                           

O trator, tal como a parelha de bois de antigamente fazia, entra mar adentro dando um ultimo empurrão, o que o obriga a ficar com boa parte do rodado anterior e motor, debaixo de água (como sucedia antigamente aos bois).O moço ao meu lado que olha atentamente a vaga que «lá vem» grita: é agora.Vamos!...Vamos… dá-lhe gás.E a embarcação impulsionada pelo potente motor de 80CV (os remos vão amarrados pelos punhos aos «trastes») rompe a vaga ,encabritando-se ao de leve, com umas meigas e pouco convictas vagalhoças, dando pouco tempero à aventura (para mais tarde recordar).

           
   Dia espantoso, com o sol a esparramar-se por todo o mar de um azul intenso e vivo, que mostra uma ondulação fraca de 1m. O mar nada bole.Apenas uma ligeira ondulação como a querer  dizer-nos que está vivo.Só que adormecido.E a luz intensa parece concentrar-se numa larga estrada que vai até ao fim do mundo.O mar é imenso!Maior (!), só céu que nos cobre ,azul ,muito azul,só que um pouco mais desmaiado .
O «reçoeiro» que liga a embarcação a terra, corre veloz sobre a alheta de BB, de ré, enquanto nos dirigimos um pouco para norte. Vogamos paralelos á praia, dela distanciados uns bons 100 metros. Percorridos cerca 300m a norte, guina-se para fora, rumo a Oeste .

  
Largam-se os 1200 metros do «reçoeiro» antes do «càlão» ir borda fora. A este liga-se uma bóia de sinalização, presa a um chicote de 30/40 metros. .A «manga» da rede difere das antigas por não ter «cortiçada» (sendo por isso «menos boieiras»), pois que o cabo de nylon flutuante faz o mesmo efeito.Tem 300 metros de comprimento. Na parte inferior,no «promeu», leva a «chumbada» para arrastar a varredoura pelo fundo. Neste aparelho já não existem as «pandas»,malhas de barro de três furos, que antecederam as chumbadas fazendo o mesmo efeito que estas(afundar o «promeu»).

É chegado o momento de o arrais gritar ao moço: «à borda».Com isso quer dizer que a «sacada» e a «coada» devem ser ajeitadas sobre a borda de estibordo, de um modo impecável, para permitir o seu corrimento sem ensarilhar. Guina-se entretanto para sul. Chegada a vez, o saco sai pela alheta de bombordo a toda a força (nota-se neste momento um particular e intenso esforço, pedido ao motor, com o fim de abrir a «bocada» ).Colocada  a sacada no mar , segue a «alcalena», e o resto da manga do sul:- «caçarete» ,«regalo» até chegar ao «claro» que antecede o «càlão».

     
Presa a este, começa a sair a «mão da barca»,o cabo por onde a rede vai ser puxada para terra (e pelo «reçoeiro»). O «Novo S. José» ruma então já a terra. Para trás as bóias: da «coada» ao centro ,e as dos «càlões» ,a norte e a sul. Quase chegados o arrais faz a pergunta :
-Astão mestre (que sou eu..)!.Eu até me esqueci de lhe praguntar : vossemecê sabe nadar ou não?.

Apeteceu-me responder-lhe como o Ançã : pissalho!
Eu um descendente (?!) do arrais Tomé Rhonca,o tal que ia ali às Américas a nado enquanto a Maria preparava o conduto,não havia de saber nadar? Hòmessa ,crendas lá ber ...Mas o bom homem não o fez por mal. Melhor seria prová-lo .Rápido tiro o boné a e T-shirt e mergulho do «castelo» no mar. Faço os últimos 100 metros a nado ao lado do S.José. Outro camarada, entusiasmado, salta, ele também, e acompanha-me.
                    



Na praia um monte de veraneantes recebe a embarcação que rapidamente é atrelada ao trator que a leva até às dunas.Lá no cimo é voltada ,prôa ao mar,pronta a meter de novo o redame.
                          

    

Reunidos antes de se começar a alar o redame, digo-lhe:

-Tome para uma cerveja com os camaradas---

-Rosa! Vá … vai à loja buscar umas cervejolas. C’a este camarada é companheiro. Vai num pé e vem no outro.

Esta simples mas tão acertada, como subtil, diferença, martelou-me os ouvidos pelo dia fora. Vá-se lá perceber como é que um homem simples clarifica tão bem a dicotomia entre camarada e companheiro. Que grande lição….Anda para aí tanta gente sem o perceber.
Fico a matutar.Que gente é esta,o pescador da xávega, hoje?O lavrador que desceu á borda,humanizando e ruralizando o areal, já partiu ,hà muito(?!).E levou com ele os bois.O espetáculo perdeu força e movimento.Perdeu beleza. 

(Cont)









                             




                         







  VIDA CUMPRIDA:... Ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, desenvolvi,a convite honroso, a palestra: “ As Artes da pesca no Norte ...