domingo, setembro 04, 2011


Hoje ,dia do S.Paio primei pela ausência,cortando com o ritual.

Mas para os que não sabem aqui vai saborosa prenda

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ONDE SE DÁ CONTA DOS

ACONTECIMENTOS

DO



«ROUBO» DO S .PAIO.



PERPRETADO PELOS IRREDUTÍVEIS «ílhavos» DE NOVECENTOS

E DE Como



REAGIRAM OS «murtoseiros» A TAL AFRONTA






O «desvio» do S.Paio da Torreira



Onde se dá conta a aventura dos «ílhavos» no rapto do orago galego
Um dos episódios mais rocambolescos, praticado pela irrequieta rapaziada de Ílhavo, de então (primeira década do século XX), foi o «roubo» do S.Paio. Esse orago menino que vindo lá da Galiza – há quem afirme que a imagem deu à costa no mar da Torreira – se tornou santo (afamado) protector das gentes daquelas beiradas, sita lá para o norte da laguna. A festa do S. Paio, com destaque primaz no calendário das festas mítico-pagãs da ria, justificava presença obrigatória para renovação anual da crendice dos devotos, na boa e pronta intercepção do orago nas veredas nem sempre fáceis da vida destas gentes tementes, mais a Deus do que ao mar. A devoção é pior que sarna : atrás de uma coçadela logo apetece outra. Por essa razão os festejos em honra do santo virava verdadeiro estendal, cardápio recheado de gentes vindas de todas as hansas esconsas da Laguna, arribadas nos moliceiros, mercantelas, mercantéis, chinchorros e outras embarcações requisitadas para o efeito. Tudo quanto vogasse e onde coubessem as gentes mai-las cestadas de conduto - que a demora era para três dias e a madrugada já entrava na conta. Sem esquecer as essenciais e indispensáveis «canadas» de vinho, fartas e bem atestadas do precioso néctar bairradino – e mesmo do «enforcado» se posses não houvera para o dito – que a esturriqueira do Sol, o afã do bulício do arraial e o desentaramelar da língua a pôr em dia as novidades e trautos, fazia secura maior que baixa mar de maré viva.



Era tradição de então, cumprida a rigor, dar banho ao orago, regando-o a «tinto» em celha botada junto ao altar para o banho santo – bendito sacrifício! – para o qual todo o bom romeiro contribuía, despejando-lhe, cabecita abaixo, um bom quartilho da melhor pomada embarcada, previamente benzida - in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti Amen…verte, dizia o tonsurado assistente.

Tão copioso era o baptismo, que o santo-menino apesar da presteza das devotas irmãs virgoleiras que acorriam a secá-lo com toalhas franjadas, debruadas a bonitas bordaduras, executadas do mais alvo e virginal linho, apresentava já, uma arroxeada maquilhagem que não escondia a farta –

ainda que santa – undação vínica.



Da Costa Nova, mal o dia despontara, e quando ainda o sol não dourara a natureza, já um grupo de irreverente rapaziada, bem aperaltada, folgazões inveterados, se aconchegara em barca fretada para demanda daquelas paragens lagunares, encalhadas lá para a beira das quintas do norte.

A meio da emposta laçara-se vara aos golfiões, baixando-se o velame. Com o envergue armara-se estendal por debaixo da qual se atravessou a toste para fazer de mesa.Sobre a qual, suspenso do cambador, baloiçava o pipo, de modo a facilitar o acesso à torneira, ali à nassada de uma mão, para atesto dos pucarinhos que se requeriam sempre cheios. E enquanto se esperava pela reponta da maré, preparara-se a bordo uma raia de pitáu, uma daquelas iguarias que levanta o moral dos peregrinos, se bem molhada para atenuar as agruras dos gorgomilos queimados pelo apimentado da sua molhanga, precioso auxiliar do orago no alivio aos que sofrendo de nó da tripa, a ele se dirigem solicitando, a sua desatadura.

Prosseguiu o repasto no “copo a mim depois de ti” – que neste jogo o empate é regra – e do meio da algarviada surge a dicha. Claro que o autor teria de ser o Manuel Mano, useiro e vezeiro em tropelias do género, um verdadeiro agitador com larga folha de serviços no registo de acontecimentos de perturbação da concórdia pública.

O desaforado propunha-se, nada mais nada menos, a raptar o S. Paio, trazendo-o para junto da Nª Srª da Saúde, deste modo acabando, dizia, com a primazia da melhor festarola. E quem sabe, pensando num possível «enlace» dos dois santinhos, pondo fim à solidão a que nem Santo consegue fugir. Há quem diga – vá lá saber-se a justeza de tal dedução – ser essa a razão da escassez dos ditos!....

- Que nem pensasse em tal asnada ! ..., advertiram os mais sisados. Se é que queriam voltar com o canastro inteiro, à Costa Nova.



Já no arraial, rodeando a celha para dar cumprimento à promessa do banho ao santinho, logo o Manuel Mano, o inveterado brincalhão, aproveitou a confusão da rega vínica para surripiar o santo, enfiando-o no bolso do varino, largueirão e abotoado de cima a baixo, do camarada Zé Guerra, sem que este se apercebesse do facto. Lesto, logo o puxa para fora da Capela, e só cá fora lhe segreda o feito. Era mais que tempo para abandonar o local do crime, pois que ninguém, ao que parece, no estricote, se tinha (ainda!) apercebido, de imediato, de tal ousio.Tão caudalosa era a torrente despejada sobre o orago que nada deixava ver, névoa tinta rubi cerrada, esparramada na celha..



Mas não há pecado que sempre dure: - antes houvera, que a vida seria bem mais gozona!



E a confusão estalou. Gritaria daquele maralhal de gente alvoroçada, um babaréu dos demónios espicaçado pelos sinos repuxados a rebate. Num verdadeiro despautério, clamava-se :



- “Aqui del Rei que o S.Paio sumiu-se” .



Obra de Galegos infiltrados – pensou-se – que teriam vindo resgatar o santinho da sua terra.

Logo se vasculharam as caras dos circunstantes, pretendendo-se com isso descortinar sinais dos ditos, que por serem gente de parentesco tão próximo – os nossos antepassados foram frequente visita daquelas bandas, deixando larga prole nas galegas perdidas na solidão dos seus homens ausentes, metidos nas guerras infindas de Castela – todos e nenhuns, o pareciam ser. Do santo nem o cheiro, pois se algo tresandava por aquele corrupio de gentes, e empestava a atmosfera, esse era o da vinhaça que fartamente tinha sido emborcada pelos folgões peregrinos, senhores de apurados dotes destilatórios.



Foi então que um murtoseiro mais atino dá de olhos no peregrino que em dia de esturreira se cobre, desconforme, com pesadão varino.



- Ná !... - pensou o catita - que promessa tão aziada, só para redimir pecador de tamanho calacre.



E se melhor o pensou, mais rápido desfez a dúvida, estaqueando à navalhada o varino do Zé Guerra, burel feito em fanicos, deixando o pobre «ílhavo» em manaias, exposto à devassa do olhar habitualmente guloso – mas no momento mais inclinado à vingança que à gulodice – das belas murtoseiras, a que nem o buço da benta é capaz de reduzir o feitiço das amêndoas apetitosas coladas no rosto. E o pobre do Zé Guerra, que lá ficou em posição tão escurra, especado em ceroulas, rodeado por tantos sacripantas de olhares contaminados prenunciando feroz vingança, deitava contas à sua sorte, ao tempo que pudicamente encobria as suas expostas intimidades, que certo era, correrem verdadeiro risco de serem separadas do dono, tantas as naifas que bailavam ameaçadoras, em frente do seu olhar, diga-se, um pouco inquietado. Pudera ! …um escrivão de tribunal metido em tal alhada …Um homem capado não era lá muito aconselhado para cumprimento da tarefa que exige uso intensivo da «caneta»…

Valeu a pronta reacção do resto da rapaziada de «íbalho», que logo rodearam o companheiro inocente, decididos em o protegerem da turba açulada. Dando-lhe para isso as costas – que é o máximo que um homem pode dar por um amigo –, incharam o peito à turba mostrando-se arrenegados, dispostos a castigar a desfaçatez insultuosa de uns tarolos que ousaram pôr um «ílhavo» a exibir, na via pública, as suas partes podengas, por mais viris e prometedoras que fossem. Varas, varapaus, estadulhos, navalhas, tudo serviu para fazer frente à horda dos espoliados do Santo, que julgaram por bem medir o grupo daquela gente cuja fama de tesura era história por demais conhecida por toda a laguna. Balbúrdia delirante da horda, que arrecuando, sempre ia gritando ….



- Matem-nos!… Capem-mos!… Cortem-lhe os ditos!..., gritava endoidado o mulherio açulado, em estrilo estremunhado que se ouviu – constou ! – no Rossio, em Aveiro.

Olhai! : - a vergonha do gozo dos cagaréus… Já nos não bastava a história da Lâmpada.

Um banho de sangue estava prestes a eclodir. Com tal sarrabulhada, previsível, pretendia-se regar o S.Paio e com a mesma lavar a sua honra –de criança! – só que desta vez em representação real, com sangue igual ao de Cristo.Pois só dessa maneira, vertido o sangue dos profanadores do templo – gentes de pacto com o diabo! –- se conseguiria a remissão para a afronta dos hereges.



Valeu estar por ali em peregrinação mais pacifica, o então Administrador do Concelho de Ílhavo, que fez valer as suas prorrogativas de chefe das Ordenanças, e com o seu vozeirão deu ordem de prisão ao «maralhal dos larápios», recambiando-os para Aveiro, onde prometeu, lhes seria aplicado severo castigo. Assim prometeu e assim se confiou na palavra da autoridade. E a barca lá carregou os infiéis, a caminho do degredo.Com tal decisão exultaram os murtoseiros.

Claro que se tratou, apenas e só, de uma manobra de diversão, pois o Regedor, Sr. José Vaz, fazia, ele também, parte do grupo. Passada a ilha de Sama, logo a barca rumou à Costa Nova onde desembarcou os desavergonhados sacrílegos, recebidos em verdadeira apoteose, como heróis. Pois a noticia correra célere com o vento.

À noite, no Salão da Assembleia, a peripécia foi contada (asseguro a Vossorias, como vo-la conto, só que com mais pormenores de tão frescos estarem os acontecimentos) regada por cântaro de palhete bairradino, daquele que parece veludo enquanto banha o céu da boca dum mortal, até se escapar, goelas abaixo, para regar o repasto - Chambão das Maias da Pedricosa mai-los Petits Poissons de La Lagune en sauce de vinagrette- que o acontecimento exigia capricho na nomenclatura das vitualhas. Acorreram as mulheres dos heróis, as primas das mulheres, as amigas das primas das mulheres, todas!...as mulheres, a quem saltavam aos olhos – libera me domine – que forneceram adequado enquadramento à alegre bailação. Juntos, com o regedor, bailaram até de manhã. Até que o cântaro ficou vazio
Certo é que para aquele grupo, o S. Paio acabou-se.


 
Nota do contador - Tendo-nos vindo parar às mãos uma fotografia dos brincalhões por amável deferência do filho de um deles - O Cap. Manuel Guerra - logo a entregámos ao Cap. São Marcos - verdadeira caixa de memória viva - para que nos identificasse o grupo. Nem de todos, tal, foi possível fazê-lo. Pode ser que venham ajudas, agora que a fotografia aqui fica para a História.






1. Labrincha

2.

3.

4.

5. Ademar Ramalheira (Piloto da Barra em Lisboa).

6. Marcos Ramalheira (Penhorista em Lisboa, futuro proprietário da vivenda «S. Marcos» na Costa Nova).

7.

8. Ângelo Chuvas (Funcionário da Vista Alegre)

9.

10.

11. Prof.Remígio Sacramento (Casado com D. Georgina Ramalheira irmã do Prof. Guilhermino Ramalheira).

12.

13.

14.

15. Zé Guerra (Escrivão do Tribunal de Aveiro, pai do capitão Manuel Guerra).

16.

17. Prof. Marta (Sogro do Dr. Alcino Couto)

18.

19. Eduardo Craveiro (Ourives e relojoeiro, pai do Dr. Eduardo Craveiro).

20.

21. Manuel Mano

22.

23. Eduardo Ançã (Futuro Director Geral de Finanças)

24. Manuel Sacramento (Casado com a D. Silvina funcionária dos CTT de Ilhavo).



Senos da Fonseca

2007


terça-feira, agosto 30, 2011

Este mundo está,deveras, perigoso….



Bem Vos tenho dito e avisado: os deuses devem estar loucos para consentir tais desmandos.

Então agora não se apregoa o fim dos «ricos»?

Ora isto preocupa-me:


1- Porque acabando os «ricos» acaba-se com os «pobres». Evidente. Só há «pobres» porque há «ricos».

Passando os «pobres» a ser considerados – «ricos» - será tempo de os esmifrar  até ao tutano. Os mesmos de sempre, sacarão da cassete e apregoarão : os «novos ricos» que paguem a crise». A bíblia bolchevique di-lo e a luta de classes continuará até ao último dos novos  «pobres ricos».



2- Mas preocupa-me ainda mais que sejam estes novos «pobres ricos» que tenham de sustentar os «velhos ricos» que aceitaram empobrecer.Sorridentes, colaborantes, e sem fazerem um manguito.
Poderemos então de  criar uma nova taxa que vá permitir que os ex-ricalhaços continuem ricos a valer.Por assim o merecerem. E há o perigo de que, como trabalhadores (Amorim dixit) venham pedir indemnizações por despedimento de classe, o que poderá atingir números assinaláveis.É mais fácil um tubarão comer carapau em vez de cherna,que um rico dispensar a sua dose diária de caviar.Desconfiem...   

3- É verdade! Ou pelo menos parece: - os «ricos» anda por aí  a oferecer-se para dar uma corda a quem lhes der um porco (cevado).

Eu ando preocupado porque com este abaixamento de ratting ainda um dia posso aparecer, na Forbes, entre os mil «pobres ricos», e exposta a minha fortuna em dez patacos furados.

Não podem voltar atrás e arranjarem um subsidiozinho para manter os «ricos» ainda mais «ricos»?

Se os «pobres» já se habituaram a pagar as crises (esta e todas)…porra… é só mais uma.

E os rapazes ricalhaços lá continuariam a carregar com o fadário. Porque isto de se ser

«podre de rico» deve cheirar que fede.



Aladino

terça-feira, agosto 16, 2011

E hoje a noite apossa-se de mim.

Desta minha janela, lugar de privilégio que idealizei e fiz para mim (e para mais ninguém) vejo acontecer a tarde estranhamente escura. Plúmbea, tristonha, toldada de uma luz pardacenta que parece – só! – existir superficialmente. Olho e pareço tentar perceber este estranho determinismo que leva a natureza a comportar-se como um ser humano. Tão risonhos éramos ontem, esquecidos da amargura de ser consciente quando não fingimos. Sofre-se sempre mais com a consciência de que os outros sofrem, do que com a ilusão que só nós é que sofremos.

Hoje não encontro nada de belo no que me chega e envolve. Indisposto, vou e fecho a janela. Tento assim ficar só eu ….comigo , com a minha realidade interior. De fora não vem nada que me ajude a acordar. A perceber que uma flor qualquer está neste momento a despontar, não sei em que jardim. De certeza num jardim que não é o meu. Ligo a música: espero algo que me alimente e desperte, e me crie a ilusão de que não vale a pena pensar.

A tarde está tão carregada que as minhas penas com ela comparada parecem (tão) leves. E bondosas. Hoje não virão as estrelas. Das serranias a luz alourada da ria não virá fazer a estrada que vem bater no meu degrau. Será uma noite de luar oculto, noite adormecida cheia de nada.

A ria está um molhado indiferente. Sombras aqui e ali recortadas, sonolentas, carregadas de uma monotonia inquietante. Não há cheiro. Nem sequer há vida. Até os barquitos desapareceram. Ah! se eu me pudesse como eles amoirar, e, indolente, deixar-me rodopiar numa valsa à deux temps» a sonhar com o me substituir a mim próprio?!

Tento ficar desperto, a pensar sem pensar. Pois só pensa quem é iluminado por dentro.

Já nem os poentes fazem vogar em mim as caravelas da descoberta. Parece que já não consigo descobrir nada lá fora, pois já nem em mim descubro coisa que valha.

Estou farto de mentir para o prazer, para a glória, para o poder (tudo a que miseravelmente não consegui escapar apesar de de tudo). Só desejo em cada dia que passa, ganhar a liberdade de ser eu.

Tudo o que faço para fora de mim me parece inútil.



SF Agosto 2011

quinta-feira, agosto 11, 2011

Andorinha do mar




Detenho-me

Neste fim de tarde ensolarada

Sentado no murete que me separa da ria

Encho os olhos com o azul vivo das suas águas.

E trago lá de longe as asas da gaivota que graciosamente

Esvoaça.

Conto uma a uma as conchas sem perceber

Para onde foi o seu morador.

E desperto com o chap- chap da tainha que me faz negaças.



Sentado aqui, solitário, vejo mais céu.

Intriga-me esta enormidade sem fim

onde as estrelas se penduram.

Sinto no confronto com a sua grandeza

Que a vida parece custar menos, a mim.

Ou que é menos fria, e que nela há (ainda) acenos frescos:

Uma andorinha do mar veio pousar a meu lado.

Apetece-me viver apenas com os sentidos.

Sentir sem possuir, guardar cá dentro;

A vida na essência do momento.



SF (Agosto 2011)

sábado, agosto 06, 2011

Nestes acode-me revisitar a dupla,inenarrável

PITATO& BENJAMIM, Ltd


Em final da década de cinquenta era habitual ficarmos por ali, junto ao café TAMAR, (actual Luso) a conversar até altas horas da noite. Saber quem levava a chave, era saber quem eram os últimos a recolher a penates.

Entre os contadores de estórias, no inicio da noite, tinha lugar privilegiado o «Benjamim Pardal», que era a delicia de todos nós, tantas eram as patranhas recriadas, inventadas ou concretizadas, por esta figura que juntamente com «O Pitato», constituíram um dos mais famosos e mais conhecido, duo de manipuladores de simpras, crédulos, que embuchavam qual bacalhau esfomeado por sandilho, toda a trapalhice com que aqueles estimáveis «malandrecos» os engodavam.



Eram duas boas pessoas, apesar do muito que se badalava.

O feitio de brincalhão, impenitente e compulsivo, fez com que Benjamim, oficial náutico, nunca tivesse ido além de Piloto. Porque mesmo no desempenho desta responsável tarefa, e em ambiente tenso da dureza da pesca, não deixava de exercitar os seis dotes de enloilador – mor.

A ponto de numa viagem ao bacalhau ter convencido a tripulação que a má pescaria, feita até ali, advinha do facto do Sr. Capitão estar possuído por alma penada, sendo necessário para virar a sorte, «picá-lo», para assim o libertar do Lúcifer que dele tinha tomado conta. E o certo é que a dada altura a tripulação embuchou o isco e anzol, e fez praça à porta do camarote do capitão, de navalha na mão, dispostos ,caridosamente, a libertá-lo da maleita. Não fora a intervenção de um nosso patrício (Sr. Parada) e o Capitão -feito lobisomem - ver-se-ia em apuros para evitar a picadela – a sangria – mais que certa...



«O Manuel Pitato» – o mais ferrenho belenenses de Ílhavo, depois de mim!!, emblema de ouro e brilhantes do Clube de Belém – era o fiscal do Mercado Municipal. Juntamente com o «Manuel das Senhas» zelava pela recolha das taxas que as, tiGalante, tiPata e a ti Tuna, e outras, tinham de pagar para exercer a venda dos produtos, na praça. O «Manuel Pitato» seria, aliás, a figura central de uma monumental polémica da politica local, ocorrida ao tempo da Câmara de Dinis Gomes, que se dizia ser seu Padrinho. Da auditoria ao modo como vinha desempenhando as suas funções, resultaria ter sido castigado(?!) com a ida para a Costa-Nova, para aí exercer as mesmas funções de zelador, no novo mercado local. Diga-se que foi castigo(?!) que apreciou em particular, pois logo a dupla Pitato&Benjamim trocou a «Gruta» pelo «Coração da Praia», para, no salão deste último, disputar renhidas «suecadas».Houvesse – e até havia! - quem se atrevesse a aceitar o desafio da temível parelha.




     
                                                           O BENJAMIM PARDAL

Os Pitato & Benjamim tinham jogo perfeitamente combinado.

(…)

-Atão compadre, como estavam os tomates do tiPio? …perguntava com naturalidade o

Benjamim.
-A cinco a dúzia -respondia o Pitato, a dar o sinal de que tinha cinco trunfos.
-Mas então ontem não estavam a sete?.. compadre...ia dizendo o Benjamim enquanto encartava o jogo, querendo com o relambório perguntar se o colega tinha o sete (a manilha).
- Pois era …mas era ontem – retorquia o Pitato, querendo dar o sinal que não senhor, não a tinha.
Sempre que a xita (o fazer a totalidade das vasas) era evidente, «Pitato & Benjamim» levantavam-se, cumprimentavam -se reverencialmente, e iam cantando:

-Dictum et factum, depenato est,
-Dominum Vos bispo….
-Domi suae est rex
-Et spiritoò… Oremos…

-Amem!...Amém – e batiam a ultima mão na mesa, perante os adversários que, apalermados e fragilizados com tal retórica, por vezes desistiam, ali, na hora.
Os mapas onde iam apontando – e traçando quatro a quatro (como os almudes) – as mãos, eram de regalar a vista; quando sucedia a xita, e conforme esta se tinha desenrolado, havia direito a pintar o diabito de cavanhaque e, até, de cavanhaque e rabo. Eram verdadeiras pinturas naifs de que alguns guardavam amostra, e outros tentavam, sem êxito, imitar.
(…)
Ora um dia o Cap. Zé Negócio abordou-me para me dizer que o Benjamim tinha convencido um «vagueiro», que andava por aí à solta um lobisome; só que –teria dito o Benjamim – não havia picadores em Ílhavo com «os ditos» suficientes para libertar o desgraçado da alma penada que o mortificava. Logo o rústico, ao ouvir o queixume do Benjamim, que punha, entretanto, uma cara de compaixão pela inditosa desgraça do olarapo, ao tempo que levava o tabaqueiro aos olhos parecendo, assim, limpar uma lágrima vertida, se alteava e alorpado, ia dizendo chançudo:

-O que é lá isso; pois saibam V. senhorias :- se querem um picador ele aqui está à vossa frente. É só dizer o sítio onde se mostra a alma penada.

(….)

E logo se combinou uma tramóia; um pipo velho que enchi de água, um frasco de mercuro-cromo retirado do stock da farmácia, uma corda longa fornecida pelo Capitão Zé, e, à meia-noite, lá fomos para a estrada das Oliveiras. Pusemos o pipo no chão ligado ao carro pela corda, e uma parte do grupo foi esperar o picador. O pobre homem lá apareceu, montado na bicicleta, munido de três grandes varas terminadas por espiche. Mostrado o lobisome – o pipo! - o rústico empunha a vara lançando-se como doido… e zás … espeta o barril. Eu arranco com o carro. O pipo aos baldões, salta, rebola, pincha e escangalha-se no paralelepípedo, desfazendo-se em sangue (água e mercurocromo).



Até ali o espectáculo não poderia ser mais fantástico. Inenarrável.



Só que, de repente, o lôfo vagueiro cai redondo a espumar pela boca, apopléctico, parecendo atacado por alma penada. Um escarcéu dos diabos. Rodeámos o homenzinho, e vá de saber o que se devia fazer. Galheta para aqui, abanões para ali e, valeu-nos, um farsante presente que se lembra, felizmente! – do Sr. Mário Lau – que tinha uma tasca ali ao lado. Lá se bateu à porta do dito, e, com um gole de cachaça enfiado pelos gorgomilos abaixo, o «vagueiro» veio finalmente a si. E de olhos esbugalhados, num esgar patético logo gritou:

-piquei-o…piquei-o …era o bruxo da Pedricosa. Eu sabia!..eu sabia! – gritava com o estupor estampado na cara.



Lá recompusemos o sacripanta, e, enfiada a bicicleta no AL (matricula do Ford) lá o fui levar a casa.

(…)

Claro que depois a história durou até de manhã. A garrafeira de meu pai estava lá para nos preencher as noites. E o canário, que na sala de jantar chilreava assim que se acendia a luz, sossegava -o:

- Dorme Eduarda que eles já estão cá dentro, aquietando, assim, a minha Mãe.

(…)

Mas voltando ao Pitato & Benjamim.


                                                             

                                                                        «O Manuel Pitato»

Um dia de Outubro, no «Coração da Praia», a dupla defrontava uns maçaricos que cedo mostravam não estar à altura de se bater com tão sábios suequeiros.Em volta da mesa iam-se achegando uns matolas que por aquela altura vinham a banhos, aproveitando para apreciar o desenrolar do match (ainda não havia ecrãs panorâmicos ). Um deles, um bisnagau com cara de finório, foi logo notado pelo Benjamim.Que não perdeu a oportunidade:

-Pois atão (?!) que me diz, compadre, daquela baleia que ali deu à costa – atirou em ar natural, para o Pitato.

-Homessa! compadre Benjamim, nunca visto, nunca visto. Coisa de Satanás, compadre (dizia benzendo-se, o Pitato). Quinze metros e mais de dez toneladas. Vem aí a tropa com uma cábrea para levar o monstro.

Isco lançado, logo o «matola» quis saber:
-Eh amigos então contem lá, raios!... Não deixem uma pessoa ficar em pulgas
-Oh camarada, «aquilo» nunca visto …. E logo o Benjamim desatava numa lenga – lenga, uma série de trampolinices que acabaram com o escanifrado a dizer:

-Vou buscar a minha Maria e vou lá ver, raios. Nunca vi uma baleia no raio a vida.
E lá partiu.
Para o fim da tarde alguém veio avisar o Benjamim que vinha lá (!) o matola, parecendo que trazia cara de poucos amigos. O Benjamim que armava as trapalhadas mas logo se escapulia se as coisas dessem para o torto, dá por se pôr ao fresco, saindo pelas traseiras do Salão Arrais Ançã.O «Pitato», esse, coitado, dada a sua deficiência, não podia ser tão lesto. Mas afoito, acariciou a muleta, preparando-se para tudo. Chegado o bizarrão, este diz:
-Olhe lá ó camarada: o seu parceiro? -pergunta de um jacto, ao tiManel.
- Olhe como era tarde, já se foi para a missinha. Ele é sacrista, sabe. Mas bom homem, deixe lá a brincadeira; ele gosta de ser brincalhão.

-Ora.ora…não é nada do que está a julgar. Eu vinha, era, agradecer. Está bem que não vimos nenhuma baleia. Mas eu e a minha Maria aproveitámos a maré, e olhe: - demos nas dunas desertas a melhor «cambalhota» da nossa vida. E eu vinha agradecer ao seu amigo, por mim e por ela, e até queríamos convidá-lo para ele ir lá casa provar da nossa pomada.
Até ao fim desse mês ,fim da época dos matolas ,o Benjamim nunca mais apareceu na Costa-Nova. O «Pitato» até pensava que o raio andava mau da tripa, com a jantarada que os bairradinos teriam oferecido ao Benjamim.
Mas passados uns dias apareceu ao «Pitato» ,o bisnagua, inquirindo:
-Oh camarada : - você sabe onde pára o Sr. Cap. Benjamim? È que ele prometeu levar-nos a voar no avião do «seu amigo» Zé Cadengo, e nunca mais apareceu…
Escusado será dizer que o Benjamim desapareceu da Costa-Nova. Dizia, na «Gruta» a quem o queria ouvir, que os ares do mar, nesse ano, estavam muito fortes, perigosos para a sua frágil saúde.

Era assim a dupla Pitato& Benjamim. Estaria aqui até amanhã a contar estórias, petas e tretas, saídos da imaginação delirante desta parelha de verdugueiros.

SF

segunda-feira, julho 25, 2011


«Ria» adormecida



Desligo-me do mundo real

E volto a sonhar com o deixar-me entrelaçar

Nos teus cabelos.

E em ti pousar. Mergulhar.

Meu corpo sobre o teu, ofegante,

Bate em uníssono de desejo

Não há brisa.Para o momento ser ainda maior.

A brancura falsa do luar toma muitas cores

No suave anoitecer concedido aos amantes.

As casas de risquinhas coloridas

já se cobriram de um cinzento em redor

Basta de demora com as palavras fora de nós;

É chegado o momento de comunhão apetecida.

Porque melhor que o sonho da vida em cenário falso

É mesmo concretizar o sonho quando acordados

Antes que a noite se aposse do nada da minha vida.





Vejo-te chegar : Vens!.

Os teus lábios carnudos oferecem -me

O céu.

Os teus braços correndo ao meu encontro

Trazem-me as tuas mãos, primeiro.

Enlaço-me nelas, percorro o teu peito

Obedecendo ao teu puxar suave.

E em gestos de pressa arrebatadora

Louco, corpo febril em procura ardente

Desnudo-te, puxando a ponta do teu véu,

Para assim poder sorver a tua seiva nascente.



Já não há tempo para nada.

Deixamos de ser os dois para ser um só;

Ouço o teu sussurro, sinto o teu espasmo

E todas as suaves variações do teu corpo

Ah! como é bom tanta coisa fazer

No cúmulo do prazer

A loucura da vida esquecer.



Sinto – me igual por dentro como por fora: -nú

Procuro refúgio de náufrago resgatado

E colo-me a ti languidamente.

O mundo não existe: só eu e tu!,

Na suavidade dum enlaço sossegado.

Como pode um mar assim tão bravo

Virar, ainda que tão brevemente

Ria adormecida ?

Ah ! como é bonito este poente de hoje:

As suas cores nevoentas a esconder que a vida corre

                                                            [ e foge.

sexta-feira, julho 22, 2011


Intrigante - no mínimo – ou talvez não. Esclarecedor?


Em 1968 Mário Sacramento escrevia o K.

Devo dizer que este foi o apontamento mais deslumbrante que encontrei no livro «Sementes de Liberdade».Eu sempre o subentendi. Mas não sei -nem devo – fazer qualquer tipo de interpretação livre.

Aqui deixo para reflexão o poema de MS:(itálicos são meus)



Choro por ti Checoslováquia,

Caminhos de assombro

Encruzilhadas de medo

Terra calcada por todos os ditadores do erro,

Chave da Europa à mercê dos ladrões

Que culpa terás de ser mais evoluída?!

De teres a capitação de 1200 dólares

E a URSS,a de 980 apenas?

Choro por ti Checoslováquia,

Irmã gémea e lutuosa do Vietname,-

Os dois pinhais da Azambuja!

Meu amigo Zdenek,

Que traduziste o Camões, o Eça,

E vieste ao meu encontro numa rua de Aveiro,

Só porque tinhas lá longe,

Um mau retrato meu!

Que posso fazer pelos teus?

Choro por ti Checoslováquia,

Vitima da cupidez nazista

E dos seus post-justiceiros-

Os filisteus estalineptos.

Se tiver de morrer «errado»

Morrerei como tu, Checoslováquia,

Socialista socialenado!

Foram cem erros (já)do socialismo?

Fossem cem mil –e socialistas seríamos!

Choro por ti Checoslováquia!

Exige que o reprima o presente,

-ironia trágica e pútrida!

Escarro vivo

De cintilantes sóis, noite gelada

De rumorosa manhã.

Fátuo ser!

Poteau

K

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Diz-nos ainda MS «a partir daí o racionalismo acentuou-se e ganhou profundidade com o acesso à disciplina cientifica (….) mas o idealismo perdurou».
Esclarecido ou intrigante? Ser por dever ser, ou ser que deixa de ser?
Doloroso encontro com uma realidade.
Choro por Ti ,Mário Sacramento.Esta realidade não muda...


SF Julho 2011

quarta-feira, julho 13, 2011


A Biografia de Mário Sacramento: «Sementes de Liberdade».



Foi-me hoje proporcionado, finalmente, contactar com a biografia de Mário Sacramento, recolhida por Eunice Malaquias Voulliet, num trabalho que já tinha vindo parar às minhas mãos, vai para quatro anos, numa tentativa de se saber onde recolher os meios para uma edição livreira.

Conheço pois o trabalho da Dr.ª Eunice.Muito metódico, interpretando o intelectual e o activista, síntese que quase retrata duma «penada» o que Mário Sacramento quis ser : intelectual e preferencialmente escritor.E nestes, para estar correcto com a praxis do neo-realismo que definiu como expressão artística que pressupõe (….) o materialismo dialéctico – interventor no desenho de um neo-humanismo. Para tal o intelectual deveria ter participação - intervenção que conduzisse ao mesmo. O escritor,produtor de arte,não se deveria  preocupar, só e apenas com a escrita, mas concretizar ideologia pelo estar.

Creio que Eunice Malaquias observa bem o percurso de Mário Sacramento. E regista, embora sem interpretar ou lançar uma pista, para o conflito que MS afirma ter tido com «a família» quando esta o desvia do curso de Letras para a carreira médica. Tenho pensado muito neste ponto. Não encontro outra razão para o explicar, que não a sensatez de Artur Sacramento (Pai), que sabia perfeitamente quem tinha em casa. Deixar o filho seguir uma carreira que o atirasse, definitiva e irremediavelmente para uma carreira de intelectual contestário, não era precisamente o que Artur Sacramento( um Comissário de bordo benquisto, em contacto com muitos e diferentes grupos sociais) pretenderia para um filho que desde cedo, logo na Escola Primária, se tinha distinguido como um sobredotado aluno. De quem mestres como Guilhermino Ramalheira, afirmavam, ter sido o mais notável e criativo aluno que lhes passara pelas mãos.

Assim MS é empurrado (pela família) para a carreira médica, que materialmente permitiria o desafogo para outras aventuras – talvez o pensasse o precavido Pai. E claro, mesmo nessa contrariada actividade, MS distinguiu-se, afirmando-se nela em duas facetas: um médico que pouco se lembrava de apresentar contas(de todo não apresentava, aos mais necessitadose um «Vesalio» de valor firmado).
Claro que a sua fixação na Província o afastou das tertúlias (Lisboa principalmente) que só com dificuldade conseguia, esporadicamente, frequentar.E onde cedo fora acolhido. Primeiro com uma certa desconfiança dadas algumas posições polémicas assumidas pelo jovem crítico:  - caso da estética de ironia de Eça, ou a análise que nunca o satisfaria de Fernando Pessoa --uma poesia verídica num mundo sem verdade !, ou ainda a sua não total comunhão com a estética da escrita do colega Namora – fugindo ao itinerário ideológico, para só ficar no literário.Certo é que depressa se iria impor entre os seus pares com a colaboração regular no Diário de Lisboa.

Mas o viver provinciano não o disporia para uma inactividade contra o bafiento regime Salazarista: – 40 anos de salazartimanha, de salazarfar, de salazartrose, como diz. Aprendeu, jovem, o anátema do regime e confrontou-o como poucos. Pagou caro a obstinação no seu derrube, assistindo ao folhetim da «cadeira benfeitora», que fez mais para o fim do ditador que toda a oposição. Mas não viu o fim do regime.

Quando me defrontei com a morte de MS – que dois ou três dias antes, a mim e ao Artur,em sua casa  me explanara a hipótese do fim eminente, trazendo á colação a possivel  repetição do caso de sua mãe – surpreendi-me com o facto de a nossa diferença de idades (19 anos), não ter reflexo no aspecto prematuramente velho com que sempre o tinha imaginado nas inúmeras vezes em que com ele convivi (nos grupos do «reviralho» em que participavam meus pais). Descrevo esses tempos noutro local. Influenciou-me muito MS. A ele devo um incitamento para a descoberta do materialismo (dialéctico e científico) que muitas vezes me explicou com detalhe.

Pouco depois da sua morte (1970), e num período de grande debilidade, não pude negar o apelo de Cecília Sacramento para uma palestra no Illiabum Clube de evocação do seu nome. Nos limites de saúde para o fazer, havia, contudo, uma necessidade imperiosa de pôr fim a uma movimentação que procurava «achincalhar» a dimensão da sua figura. Mesmo na cama, em convalescença, atirei-me ao trabalho, e no dia marcado, mesmo suando as estopinhas, lá estive. Não enjeito nada do que então disse. Antes bem pelo contrário. E creio que foi mesmo a primeira acção desse tipo. Refiro-o no site http://www.senosfonseca.com/

Mais tarde lutei bravamente, a meu modo, para perpetuar o seu nome em Ílhavo, pormenor que esta Biografia, como constatei na pag. 265,parece desconhecer!.Foi uma luta desarcada, assanhada. Mas bonita e com resultados.

Foi contudo muito pouco. A dimensão deste «Ilhavense» terá muitas outras oportunidades para ser celebrada com o andar dos tempos. Estou certo.

Mário Sacramento dizia-se ensaísta porque desde miúdo via passar os músicos da banda para o «ensaio»,fazendo da arte uma devoção.

A devoção de MS era arte da Liberdade.

MS usou sempre, mesmo nos momentos amargos, a ironia como a arte de «fingir sem fingimento».

Saúdo o livro. Saúdo a autora. Fez com mestria, o que eu, sinceramente ensaiei, não convictamente(!)
,é certo, por diversas vezes. À falta de fôlego para tal monta.

E parafraseando MS, eu por meu lado tentei cumprir e «fazer um mundo melhor».Só que estes tipos não deixam. Mas lançar sementes de Liberdade à terra, é tarefa de renovo continuo.Obrigatório.

SF

domingo, julho 10, 2011

O novo Miguel de Vasconcelos


Em contínuadas e insistentes  aparições retratadas na comunicação social, tão frequentes e sucessivas que até parecem encomendadas, Ribau Esteves tenta montar a albarda e escarranchar-se na Câmara Municipal de Aveiro.

Nada temos a ver com isso.É «bom» castigo para Aveiro.

Só que para o fazer, vende «Ílhavo».Tal como se apregoava o bacalhau no antigamente: -a pataco.

A haver a anunciada reformulação municipal ela começará pelo mais fácil. E o mais fácil é começar por uma anexação onde o Presidente se põe de cócoras e vende a alma de uma gente – nem melhor nem pior que outra, mas diferente! - a troco de um cadeirão.

O Esteves contrabandeia-se, e atraiçoa a memória de todos os ilhavenses. E mais que todos, em particular, aqueles que em 1889 libertaram o concelho de do jugo aveirense. Da névoa do tempo, os mortos se erguerão para abjurar o novo «miguel de vasconcelos». E se este foi defenestrado e voou aterrando no lajedo, a este Esteves, só pela apregoada intenção, deveria ser-lhe indicada- e já!- a porta dos traidores.

Mas Esteves,  um dia o dissemos, é, de facto, um mamão da porca da política.

Mas isto transcende a politiquice.Isto é pura canalhice.

Estamos perante um sério problema: - Esteves destruiu a cultura ilhavense, escorchou-a, salgou-a, e agora sabe ter chegado o momento de lhe dar o golpe da misericórdia. E levará atrás dele uns farsantes que ainda lhe baterão palmas.

Esteves não tem as mínimas condições para continuar a gerir os destinos de «Ílhavo». Se lhe restasse um mínimo de dignidade – coisa que nele nunca pairou, quanto mais existiu! - saía.



Aladino

sexta-feira, julho 08, 2011

As Guerras já não se fazem com canhões….



Por vezes - vezes demais, convenhamos – penso que vivo num País onde todos os figurantes foram atingidos por Alzheimer.

Pior que terem esquecido o ontem, foi ontem não terem percebido o amanhã.

Parece que só agora – ontem e hoje -descobriram que a III Guerra Mundial -decretada por, O Capital - tinha começado vai para quatro anos. E que como na anterior, quem começou por se «invadido» e espezinhado foram os que pouco ou nada poderiam fazer para o evitar. Porque fracos vão apenas servir para avisar os maiores.À falta de um Churchil & Comp ( que já não temos) o Capital vai avançando.

Hitler que apesar de tudo tinha um rosto ( embora patético!) invadiu e espezinhou a Áustria; «O Capital», que não tem rosto nem nome, atirou-se aos países periféricos da Europa. E experimentou a reacção. Ora parece que não se percebeu que o objectivo desta III Guerra é mesmo a «invasão» de toda a Europa.

Claro que aqui, nestes pais alzheimado arranjou-se um bode expiatório. Que antes era culpado de tudo, até das notificações das agências de ratting, postos avançados desse invasor sem rosto. Só ontem descobrimos( parece que até a Maria Cavaco Silva, que o disse ao marido), que afinal a culpa é da MoodY & Comp. Corre já para aí, que, no próximo dia 10 de Junho do ano que vem ,Sócrates vai ser medalhado.

E agora? Vai ser um chorrilho de Pec's ,até que um dia damos por nós ,indigentes e em cuecas a dizer : -. AH!pobres mas livre.

É que andamos mesmo com a mania que somos livres.

Porra! para esta «ampla» liberdade.

Mas então ainda não tinham percebido que estes palradores, estrategas económicos, são, todos eles, agentes infiltrados das referidas agências, pagos principescamente como seus funcionários avençados (e dos fmi's e quejandos)?

Oh my god!...País de céguinhos (bem dizia Saramago).

Sabeis o que Vos digo?: -um dia a história registará a pandilha de imbecis em que nos transformámos, à sombra de pensarmos que mandávamos alguma coisa nos destinos deste País.

SF

quinta-feira, junho 30, 2011

(cont)



Começa o «ala arriba» da rede. Que demora um par de horas: - duas a quatro, conforme a distância a que se largou a rede. As várias juntas de bois fortemente aguilhoadas, impiedosamente batidas nos lombos com as varas de tocar, são, pela laçada do chicote



































 «atadas» aos cabos do reçoeiro e da mão da barca.Que inicialmente separados por umas boas centenas metros, pouco a pouco, se vão «achegando», até que à vista dos primeiros «pipos» - as calimas -
                                      


                                 As calimas ou pipos

                                       


                                                               Ajeitando as mangas

(que indicam a posição das mangas da rede), não distam mais do que uns cinquenta metros, entre si. Os animais - uma boa dúzia de juntas -, libertos no cimo da duna são largados em louca correria, em tumultuosa balbúrdia, passando possantes por entre paisanos e «olheiros» que, de repente, se dão conta de estarem na linha de corrida de uma parelha.É tempo de correr para escapar, lestos, aos «cornigeros» animais. Os tocadores incitam-nos em gritaria alarve, fustigando-lhes os costados dum modo violento. «foge... foge... arreda!...», é o grito que se vai ouvindo no meio daquela confusão extrema.

Esforço supremo!..Ó!..Ó!.., arriba …riba …riba …vá .. vááá!. grita o Arrais já rouco de tanto rojar…Eh!.. raios... diabos!... puxa... puxa, vá riba !

E os bois e homens, buscando as últimas migalhas de forças conseguem tirar a sacada do mar que “re de enorme baleia agitadalá aparece, qual vent por convulsivo tremor

Eis que o saco (a coada) sobe na areia; todos vão por detrás dele, pés na água da arrebentação, dar-lhe uma espreitadela para avaliar da dimensão da sacada.

     


















   A coada arriba à praia






Raramente o pescador se satisfaz, pois que espera - sempre !... - melhor sorte.

É apenas um momento de ansiedade, tempo para um simples esgar e para rogar a praga do seu desencanto, porque logo esquece a estiporada sorte para de novo se envolver na árdua tarefa de levar a rede acima. O Arrais vem sobre o saco, soberano, calcando a pesca até ao «local» onde grita: - alto!; e aí, de navalhão em punho, corta-lhe «o porfírio» esventrando o «ajuntadouro da rede», deixando ver uma miríade de reflexos, provocados pelo sol a bater no peixe que saltita num derradeiro esforço para se libertar da prisão.

Num primeiro acto, homens e mulheres mergulham as nassas (os xalavares) na sacada, atirando «o peixe» para montes onde são separados por tipo, e depois, metido em cabazes de vime, para de seguida, ser apregoado.

 Enchendo os «nassos»

Mulherio, curiosos, pescadores e «mercantéis», por razões diferentes, começam a «cobiçar» os quinhões, que logo ali são leiloados à voz do pregoeiro - do quem dá mais (?!) - sob o olhar atento do apontador do livro que regista as vendas. Estes pregoeiros tinham com os «mercantéis» códigos estudados, sinais de licitação: - o piscar de olhos, o coçar a cabeça, o tirar do boné etc. - inacessíveis aos curiosos que só participam na licitação do «restolho».











Guarda Fiscal apontando....ao lado o «sinal»














 O peixe nos xalabares ,alinhado para a  venda





O peixe é então transportado em cabazes, nos «enxalavares» , carros de bois de duas rodas, muito largas, permitindo-lhes com mais facilidade se deslocarem na areia, conduzindo o peixe para os barcos dos «mercantéis» ou para os armazéns de salga, na beira-ria; ou para ser carregado por almocreves que o irão levar, no mesmo dia, e nessa noite, percorrendo afadigados por entre vales e serras, os caminhos da Beira interior



 O burrico o rapaz e o almocreve

 

para o entregar, ainda fresco, «amanhã» para a venda. Outra parte do lanço segue para os «gigos» (cabazes) do peixeiro



O peixeiro de Ílhavo

«ombreados» numa vara de cerca de dois metros que leva, enfiados nas suas pontas o par dos ditos «gigos», em que se carregam cerca de 50 kg de sardinha para ser vendida no mercado da Vila, ou de Aveiro.

As «pescadeiras», depois de darem uma mão na «safa» do peixe, esperam pelo  pela



 A Peixeira da Costa-Nova

repartição do lotes .É tempo de encher as suas canastras, «atapetadas» por um oleado que evita o escorredoiro, e lá partem estugando o passo numa correria para apanhar a barca da passagem que as levará ao outro lado, à Maluca, de onde partirão ajoujadas ao peso do carrego. Que bem equilibrado sobre a rodilha ou sobre o chapéu de «penache», não necessita sequer de mão para o ajeitar ou segurar. Graciosas, descalças, mãos na cintura, seguem lestas em passo leve mas corrido, até que as primeiras casitas da vila aparecem lá ao longe; é então que da garganta fina, esbelta, orlada de belos cordões e libras d’oiro - seu único derriço! - sai o grito em voz sonora, clara e apelativa, no pregão: “Olha a sardinha da nossa costa! Freguesa!… venha «cumprar q’é do noisso mar”….


E assim vão calcorreando todas as ruas das redondezas até de noite, tempo de chegar a casa mortas de fadiga, mas ainda, com tempo, arte, e folguedo q.b., para fazer um «trauto» com «seu Arrais» no folhelho aconchegado onde se fez mulher… vai para um par de

Invernos»…, (…“que mulher «d’íbalho» não casa de verão!... não há tempo… nem homes em terra, para tal….”)

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Era assim no meu tempo de rapaz.
Lembro-me desse tempo.De muita e boa gente desta terra.De vez em quando repuxo-os à memória e brinco com eles.
Deambulava então pelo Curtido a fazer barquinhos de casqueira com o Ti Antoninho Ronca,saltava á Manguinha para chatear o bondoso Ti Cunha, e enfronhava-me nos Sete Carris à procura de uns olhos lindos.Havia tantos c'um homme (quase) nem sabia para onde cair.Ou caía em todos .
E às vezes dava de caras com o pai de uma,barrete negro encafuado na cabeça até ás orelhas,borla caida,com olhar de poucos amigos.Parava o atrevimento.
E eu olhava-lhe para o peito troncudo,cachimbo de pederneira abocado ao lado, e via o camisolete de flanela grosso,espicaçado de cores fortes,e sonhava ter um igual. Eu queria-lhe a filha ...e o camisote.Mas o olhar refreava-me os intentos.
Essa é a galeria de Homens e Mulheres que já não há.
Nesses tempos ,meus amigos,todo o Portugal deveria olhar para Ílhavo de calcanhares unidos e de chapéu reverencialmente tirado.Hoje andam para aí uns sanapaios engordados no aquacultura.
Os outros de antigamente era  gente nauda e criada aqui,nestes becos ,veias singulares onde pulsava vida e morte,capaz de dar cara para uma nova História Trágico Maritima.
Por isso me lembrei de lhes fazer justiça.
AH! arraias Parracho;ah! arrais Ançã,ah arrais Cajeira;ah arrais Batata;Piorro,Agualusa e Bicarada ;ah Càloa mulher «d'um carago»,relíquias de uma história que hoje se esconde,venham de novo contá-la.
E vós mulheres em cujos olhos ardentes  tantas vezes me enliei rondando a soleira das suas  portas- menos do que agora queria!-,meneiem esse esbelto perfil,afogueiem esses carnudos lábios,mostrem como o vosso ondular imitava o ondular do mar,e como o vosso corpo acolhia o Vosso arrais,como o mar acolhia a quilha do seu barco em momento de estrambolho desejado.

Senos da Fonseca(Junho 2011)

Nota: A grande maioria de fotos foi levada a cabo por Rui Bela.)















 
















                                                



                                                  









                                        





































                                     




















quarta-feira, junho 29, 2011




À laia de explicação

Com este revisita à Xávega quis, no fundamental, perceber-ou melhor,dar-me conta - do que tinha mudado nestas ultimas cinco /seis décadas.De uma atiividade febril,juntando homens e animais na borda, cena que deslumbrou  Unamuno,que a classificou  como «a ruralização do areal»,já nada resta. Das  que Raúl Brandão  descreveu,magistralmente, verdadeiras telas impressionista encharcadas de cores vivas e quentes ,em que  o  homem liberto das  brumas é apreciado e glorificado,, em  pontilhados andantes, breves, fortes e fugases,já só resta a natureza. As plavras de RB faziam emergir  desses homens  a luz  cujas côres( as palavras) retratavam as emoções.Agora ( já) só pressentimos fantasmas geometrizados, envolvidos em côres desfocadas, plasmados  numa paisagem quase desértica na qual se esvaiem gentes e animais, de antigamente. Quase tudo mudou .Concluo eu, triste e (ou) nostálgico. Já só resta o alteroso e desafiador, meia-lua : do qual  delírios mais febris   evocam  dever ter sido «a nave em que os aqueus arribaram a Tróia.As naves homéricas».


Ora, ora: nado e criado aqui na beirada, queiram vossências acreditar,eu o juro 
Julgo que a melhor maneira, depois de descrito canhestramente o que hoje vivi,nada  melhor que aqui deixar a recordação das Artes  Grandes (a Xávega de antigamente),e deixar ao leitor paciente o tirar conclusões .O exercício que Vos proponho e para o qual quero contar com a vossa boa vontade ,foi feito,já lá vão anos -muitos!- para uma  finalidade concreta.Coloco em confronto os dois clichès.

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O Lanço na Xávega em outros tempos(Iª Parte)


Era um espectáculo que atraía multidões, postadas ou alapadas no areal a ver os preparativos, a observar curiosas, as decisões tomadas pelos Arrais a olhar o mar, a tentar decifrar os seus arremessos e enleios. E que depois, atónitas e espavoridas, e até incrédulas, a observar os empinanços do meia-lua a romper a vaga por entre um coro de gritos e imprecações, vozearias e esgares das mulheres especadas, hirtas, erguendo braços e face ao protector, a clamar piedade ao Divino, até o mar deixar de zangalhar o barquito que lá ia, longe, deitar as redes, à sorte.

 
       
                                              «O Barco de Xávega»


Era deslumbrante no seu todo, o lanço da Xávega. Começava com intenso movimento, uma espantável e louca azáfama enrolada no turbilhão dos gritos e imprecações das gentes. E continuada com o portentoso clímax da entrada no mar, do meia-lua. Viviam-se momentos de ânsia partilhada, aquando do «estripar» do saco permitindo ver o inebriante espectáculo do peixe em «faiscante» estertor; e tinha momento de ingénua gratificação para os mais novitos, na «recompensa» de poderem encher o «baldito de lata da praia», com um ou outro lacrau subtraído à rede. Para os graúdos ficava a abundância do pilado fêmea com que enchiam os nassos para, à noite, se empanturrarem com o saboroso pitéu.

 Mas tentemos a descrição do «Lanço na Xávega».Ainda  sabendo ficarmos longe de o retratar com rigor, por carência de fôlego e arte, para dele dar a grandeza impressiva do estendal das emoções que perpassam ao longo do seu desenrolar.
                                    
 
 O arrais

 
À ordem do arrais, embarcadas as últimas voltas das «calas»
                          

trazidas em rolos nos varapaus pelos moços da Companha, desfilava a rede em «estranha procissão», carreada aos ombros por toda a tripulação.

     

                                          




                           procissão


             



           Embarque da tralha   
                           

Entra primeiro «a manga», depois «o saco» e, finalmente, segue-se «a manga» de retorno.A «tralha» :-assim se diz na gíria da beira mar. É chegada a hora do meia-lua, com todo o aparelho a bordo se fazer à pancada do mar.
 Para o levar á borda  é puxado pelos bois para a sua beirada,

 
                                             Bois e homens na água


deslizando sobre tarolos que vão sendo sucessivamente apostos na sua proa. Chegado mais perto da rebentação, os homens de terra metem-se pelo mar até aos joelhos, e colocam a embarcação já muito perto do farfalho da maré. O Arrais - que não tira o olhar do mar esquadrinhando todo o seu movimento -, espera pelo período das «três vagas sucessivas», a que se seguirá um espraiado. Passada a última vaga, ouve-se o grito: é agora… é agora!…


     

          Homens e animais entrando no mar

A Companha, em terra, dá então o último empurrão com a «muleta» (vara com aguilhão) que enfia na bica da ré (no descanso da muleta).Ou à mão, utilizando as bossas da embarcação ligadas as «armelas» - num esforço hercúleo para desenvencilhar o meia-lua da areia, e, desse modo, o colocar a flutuar. Com o cabo da fateixa enfiado nos «golfiões», evita-se a «atravessadela» fatal.
 Eis que a primeira vaga vem beijar a embarcação enquanto se grita num esgar de vozes roufenhas: agora… agora !!!

… e  o meia-lua lá vai, mar adentro …

     

         ....e lá vai mar adentro

até se sentir que o barco já abóia. Os remos entram então na água tentando em luta desesperada chegar o mais rápido possível à segunda vaga. O Arrais, que não larga o «reçoeiro» já que este lhe serve de controlo para o correcto posicionamento do barco, de frente para a vaga (evitando assim a «atrevessadela» que seria fatal) ordena, invectivando: - temos maré… força… força… seus calões… desse jeito «aguilhoando» o amor-próprio dos remadores e «camboeiros». Por vezes o barco parte lesto demais; é preciso travá-lo; cia… cia, ordena o Arrais, para que desse modo, «borregando», se espere pela vaga. «Trilha!… trilha», grita então, dando a ordem para fixar o remo, e assim se «amainar» o impulso.

             

E eis que a montanha de água se abate com fragor na proa recurvada, altiva e desafiadora (!) do meia-lua, que se «encabrita» até às alturas, num ângulo medonho que chega a superar, por vezes, os 50/60 graus, ficando apenas apoitado de popa.

         
                                                  meia-lua encabritado

 O farfalho da vaga despedaçada pelo encontrão com a proa que a rasga, faz a água galgar e cobrir a embarcação, «esparralhando-se» por sobre os homens que não param de remar, pés retesados nas «recoveiras», em derradeiro supetão para fugir da quebra do mar. O Arrais, de barrete em punho, grita: rema, rema… estamos safos.

E o meia-lua, lesto, atrevido, toma o rumo do poente, lá para o largo, deixando atrás de si o «reçoeiro» que ficará «preso», entregue aos camaradas de terra.

 

                                   
                                       Juntas em «intervalo» 
Passada a pancada do mar - o ponto crítico de toda a manobra – onde se não percebe se é mais de enaltecer os bravos, se espantar com o seu demente atrevimento; ou tão só respeitar e admirar a intolerância da natureza agreste. Vencida aquela, o barco navega então em águas calmas, avançando compassadamente, parecendo espairecer do esfalfe da luta tremenda, desarcada e hercúlea; e lá vai empurrado pela força dos remos até ao calamento, momento em que, findo o cambo do «reçoeiro», depois de largado o saco, é tempo de «abicar» à praia. Não sem que antes se responda ao Pai Nosso reclamado pelo Arrais, que, cabeça descoberta, em acto de fervorosa prece, roga a intercepção do «Altíssimo» para que lhes conceda uma «boa pescaria», no que é imitado por toda a Companha.

Posta (toda) a rede na água ao correr do mar, está na hora de arribar. O «calado`» (espécie de segundo do Arrais, e seu prometido sucessor) vai largando o «cabo de mão da barca» até se chegar à praia. A manobra de aproximação é muito delicada, exigindo toda a atenção e destreza do Arrais, olhos permanentemente postos nas vagas que lá vêm. Se o mar é de lama, o Arrais ordena o volteio.E a embarcação vem nessa posição - de popa - varar (achapar-se) à praia, ficando de novo voltada para o mar, pronta para nova sortida. Se o mar está de «vagalhoça», o Arrais não arrisca; ferra «a volta na bica da  ré» e, de pulso firme, vai folgando ou retesando o cabo, conduzindo habilmente a manobra, «guiando o meia-lua» até encontrar a «folga da vaga» que permita varar de queixos, entrando pela praia dentro. A tripulação, lesta, salta para a areia, esfusiante de alegria; as parelhas de bois com o chicote solto - o «trambelho» - «chegam-se» para permitir enlaçar as guias, e assim, «alar» a embarcação, puxando-a para cima sobre os rolos. Para que depois de volteado - aproado ao mar - «descanse» bem lá no cimo da duna. Onde a maré não tem «esfolfe» para lhe chegar.

                                     

                                                                            meia lua varando de queixos

(cont)





















































R evisitando Colón E de novo,lá veio mais um livro abordando o enigmático Colón. Desta vez, uma extensa e esg...