terça-feira, outubro 05, 2010


A BARCA DA PASSAGE na «MALUCA»



- Raios partam o ladrão do tempo – esconjurado[1]! - que me empata a vida - ia dizendo de si para si, a Maria, encharcada até aos ossos, engaranhida[2] pelo frio. Com uma mão lá ia segurando o canastro, enquanto que com a outra se afadigava no desbravar das contas da reza, invocando a Senhora dos Aflitos e a protectora, a Santa Bárbara, para a livrarem dos raios medonhos que riscavam em zigue zagues o céu chumbeiro, logo seguidos do ribombar assustador da trovoada que parecia capaz de esfanicar[3], tud’òmenos[4], o que tivesse forma ou expressão material na natureza. 


     Certo é que Maria não se preocupava demasiado com o estramboto[5] do temporal, que a rapariga não se enleava [6] com tão pouca coisa. Preocupava-a, isso sim, ter deixado para trás o irmãozito mais novo, que uma tosse mais parecendo esgana dos bofes, atacara. Tinha-o levado à botica do «ti Manuel Cunha», para que este lhe desse um xarope melaço e um cáustico, capazes de afadigar o malzinho[7], ao garoto. Antes de se pôr a caminho, a Maria agasalhou o Luisito que ficou bem aconchegado, e tratou, ainda, de deixar um «caldito de conduto» na lareira, e a traganeira[8] de milho, com que os restantes irmãos, e a mãe, a Efigénea, a «Pederneira», pudessem aconchegar o encostado[9] do estômago.
Tudo isto fora a causa de faltar à hora combinada, para, em grupo – o que sempre era mais prazenteiro, e naquele dia, até aconselhável – demandar o caminho da Maluca. Afadigou-se, por isso, a aligeirar o passo, mas o certo é que, nem ao longe, olhar atirado lá para as funduras do caminho, divisou as colegas. E nem sequer outra alma penada se divisava por aqueles endireitos[10], que naquele dia – pensava – mais pareciam os caminhos do purgatório. Ninguém com canastra de venda à cabeça, ou burricos carregados, ajoujados de lenha, sal ou outra mercancia, acartadas para a vila, se avistava. Ninguém se afoitara ao caminho com aquela trabuzana[11] medonha, que parecia imprópria para seres vivos.  
A Maria da Anunciação não era mulher de desistir. Era uma mulher de còrage[12]. E, mesmo só, não hesitou em atirar-se ao caminho, e atravessar aquele deserto de areias maninhas, onde aqui e ali se distinguiam tufos raquíticos de vergônteas enfezadas, castras gafadas[13], povoadas por vezes (já) por uns enfezados milheirais. Os tinhosos pinheiros com que se pensava fixar as areias, e desse modo proteger os aluviões, que se acreditava poderiam vir a ser a terra prometida, separavam os prados arenosos para onde o esfalfado colono cachiava[14] carradas de pilados e outro escasso, e muito moliço, com que ousava esfalfadamente cumprir o desígnio de «agarrar um povo», àquele deserto nascido do mar.  
Quando desembocou no prado da Maluca, terra já verdenta, e avistou ao longe a torre da Capela da Srª da Encarnação. Maria «Pederneira» pensou com os seus botões que não levaria mais de meia hora para que o sol descesse ao nível do mar. Tempo suficiente que lhe seria necessário para chegar ao cais da passage[15]. Parecia-lhe ter ouvido o longínquo ressoar do búzio[16]que assinalava a partida da carreira, o que sendo improvável, dada a distância a que se encontrava, inté[17] podia acontecer com o escarampêto[18] do tempo. Já não tinha ideias de apanhar a última barca. Com este temporal desfeito, era até provável que não houvesse carreira. Se calhar, nem o Tóino «Murtoseiro», o mais atrevido e esturto[19] barqueiro da carreira do Ti Ambrósio, se astreveria [20]a tal escaramuça.


O Labareda

Por pensar no Tóino …, acudiu à Maria, um sorriso maroto:
A passage[21] para a outra banda servia para raparigas e rapazes daquele tempo descontraírem do fardo que é a vida, e se entreterem ao jogo do beliscão, ousio que para os tempos era a antecâmara de outros atrevimentos, a sós. 

                 Sola, sapato, rei rainha
                 Foi ao mar buscar sardinha
                 Põe o pé na pamplina
                 O rapaz que jogo faz?
                 Faz o jogo do capão
                 Diz à velha do condão
                 Que arrecade o seu pézinho
                 Que arrecade o seu pézão
                

                  Salta a pulga da balança
                  Os cavalos a correr
                  As meninas a aprender
                  Diz-me lá minha menina
                  Qual será a mais bonita        
                  Que se há-de recolher?

Lá estavam as costumazes  comadres da galhofa: a Xerobia ,a Ana Gaiteira- danadinha prá brincadeira maldosa -, a Prazeres «Anunciada»,e a Pardala «Biqueira».Mulheres a quem a vida dura não conseguia retirar uma certa jovialidade, por mais atormentadas que fossem as agruras. As mais recatadas e menos faladeiras  abusacavam-se nos bancos a bombordo e estibordo ,para junto do cagarete onde o arrais  Toino dirigia a manobra.A Anunciação ,era sabido tinha lugar bem junto ao ao varão da escota aquando da manobra da atracção ,sempre de cortar a respiração ,o Labareda enquanto calava a porta do leme a estibordo, dava a escota á Maria que habituada aquelas lides bem sabia o momento exacto para pôr a vela a panear ,facilitando o encontro aos moirões.




O rapazio, filharada daquelas mazio ,filharada daqueoiras de trabalho, que ainda traziam um ao colo e já outro se assentara no interior da barriga, dispersava-se pela barca. Uns empoleirando-se no bico da proa atracados aos   golfiões [1] .Outros faziam companhia ao ZéZé, um pobre e manso rapagão, vogando de lugar em lugar em passo marcial, sempre agarrado ao seu pífaro de cana verde: um entalhe feito logo abaixo da norsa, no lenho, deixando um membrana fina que produzia  uma sonoridade fonha.  O ZéZé, um pobre diabo incapaz de fazer mal a uma mosca, era induzido pelo rapazio a  abeirar-se das moças a  pedir: -éh! chopa mostra-ma a tua coisa.
As mais ozeiras [2]resolviam dar trela ao pobre homem. E não se desmanchando, respondiam na galhofa: -amostro pois atão, amigo! ; mais vale mostrá-la a ti que não importunas nem ofendes, c’ó Padre Engrácio que é atrevido e mexeriqueiro. Aqueles fraldocos[3] que ta mandaram, que peçam às tísicas das  irmãs  escolhambradas[4], para tas mostrarem. Haviam de ser bonitas de se ver.
 Quando alguma se ofendia e arrenegava como o pobre, logo a voz de trovão do Labareda se fazia ouvir:
-Veja lá a ofensa ó «Ti Essa[5]»; havia de se ver a sua sarda [6]que deve ter mais pregas que o manto que o Sr. Jesus leva na procissão.


[1] Peças no castelo que servem para calar o ferro de fundeio.
[2] Ousadas.
[3]  Tipos sem importância.
[4]  Descomposta, com mau aspecto.
[5] Uma qualquer.
[6] Peixe mole, peganhento, de bigodes.


Passantes habituais o amolador,  o « Ti Chinquilho»,homem dos cem ofícios ,exímio gateiro de malgas e alguidares, prático colocador de varetas nos guardas chuvas e amolador de instrumental de cortar. Certo que a Pardala dava um caquinho[22] para se meter com o pobre homem que sossegadamente se sentava no traste junto ao mastro em faladura com outros passantes.
 - É «ti Chinquilho» há-de passar lá por casa que o meu Xico diz que o meu alguidar já tem a «racha» muito  aberta de tanto pucelo [23].Precisa de uns gatos ,que eu não quero botar chana ,desafiava a língua da Pardala.
- Pois que vou..catão[24] ?!mas é melhor levar um sevela [25]não vá de teres por lá algum ilhose [26]da cônchara[27]  entupido.
Risota geral e já o «ti Cantante» puxava da concertina e a preceito tocava uma de roda.

                               Indo eu ,eu ,eu
                               A caminho de Viseu
                               Encontrei um novo amor
                               Ai Jesus que pra lá vou eu…

Logo o grupo soltava o chinelo e, pé descalço nos paneiros, rodopiava em desafio.
 -Eh! gente…tomai freio, que ainda me botais a borda debaixo d’auga  suas colamantroas[28] ..Artas[29] com elas que me esfanicam o barco. Berregas [30]malinas ,gritava o Labareda.

A  Berta «Pimpoa» -a alcunha viera-lhe  do seu jeito de andar sempre exuberante e garridamente atafada[31] , viúva  do José Cachino que deus  tem!- mulher escofenada[32] ,de carnes rijas,  bem mantida – no alimento que  aconchega os interiores  esfomeados , mas e também , dizia-se entre xailes!, no alimento  espiritual que o Padre Malaco lhe prodigalizava em visitas a horas incomuns -, levava   sempre consigo ,debaixo do encerado ,na canastra, uma saquinha  onde metia uma traganeira[33] de broa de milho ,saída do forno da Ti Josefa Rendida, e ainda, embrulhados em papel pardo amarelecido pelo molhanca [34] gordurosa deles saídos ,dois coiratos bem avinhados  por via da vinha d’alhos[35] em que eram conservados no pote de barro. Não faltava uma garrafita que outrora fora do fino[36] , aberta pelo Supero, e que agora continha uma pomada tinta de que comprara um quartilho lá na loja do «ti Traquete», afamado taberneiro com altar montado [37] lá no Urjal, que tinha fama de vender vinho  extreme, sem baptismo d’auga da fonte dos amores ( a melhor , mais límpida e a mais frescal [38] água para tal sacramento baptismal).
De navalha de astripar [39]e escorchar[40] a sardinha, em punho ,a «Berta» cortava a broa para onde encaminhava  o coirato[41] que lhe ia servir de conduto para o resto do dia. Logo que aberta a garrafita para pingolar[42] o conteúdo,  era sabido que a Berta só abria excepção para o Labareda que,  cuspindo e limpando a boca às costas  da mão, trilhava entre lábios a dita e deixava que «o sangue de Cristo[43]» lhe escorresse gorgomilos abaixo.
Quem se amofinava toda com esta deferência era a Anunciação  que entre dentes murmurava: raio da viúva gaiteira, parece que o padreca não lhe arrefece os calores.


A embarcação atravessara já o Canal do Desertas e orçava ganhando o vento para não se deixar descair.
Era tempo de Josefa «Caixina» inquisilar [44]com o  «Quim Trolaró» que no carroço levava umas mercancias para venda ,porta a porta. Chambres, camisotes, ceroulas, cuecas de perna e barguilha[45] abotoada, linhas e derivados, enfim uma loja ambulante.
-Èh ti Jaquim,  vossemeçê[46] não leva aí uma camisinhas, daquelas sem mangas nem abotoadura, de enfiar pela cabeça ao zamparilho[47]? A Zefa «Lavada» está mesmo a precisar, que logo entra a barra o seu home, o Toino «Espiga», e é certo que rapaz vai querer botar a jaja  [48]no sitio.Vai ser uma laburdia [49],que o Toino parece um simprinhas[50] mas é um marjavante[51] afiançado e deve trazer o chamiço[52] em brasa.
-Cal’ te mulher. Delambida [53]invejosa. Eu e o meu Toino cá nos arranjamos ó natural  ,desmantados.[54]O que tu querias sei eu bem ,astipôr. Num me injerizes chopa,que desinquietada já estou eu.
-Pois pudera. O festim vai ser d’arromba[55].

A mota estava ali a dois passos. A manobra era sempre de arrepiar. A dois comprimento, uma ligeira arribadela para ganhar velocidade, e logo todo o leme a barlavento, em orça de aterragem. A Maria larga escota, o pano bate, trava a embarcação e a força da corrente, faz o resto atirando-o mansamente para o pousio.
É a debandada. Ainda os cabos de amarração não estão passados e já bando  granizeo salta lesto para a mota. Posta a canastra á cabeça, ala que se faz tarde. O peixe prateado espalha-se já pelo areal: é preciso conluiar-se com os mercantis para que o quinhão fique a preço menos contribado.[56]   



[1]  Amaldiçoado
[2] Tolhida
[3]  Fazer em bocadinhos
[4] Tudo
[5] Extravagância
[6] Atrapalhava
[7] Maleita
[8] Pedaço de broa
[9] Vazio
[10] Paragens
[11] Temporal
[12] Coragem
[13]  Tifosas
[14] Acarretava
[15] Passagem para a outra banda ; carreira da barca
[16] O sopro do búzio era o sinal de chamada para a largada da barca
[17] Até
[18] Escarampanteado
[19] Teso, valente
[20] Atreveria
[21] Vide  19)
[22] Fazia tudo para…
[23] Furo aberto com um bico agudo
[24] Porque não.
[25] Instrumento afiado com que se abrem furos na madeira ,couro ou até no barro.
[26] Peças de latão que se colocavam nos sacos por onde passavam os atilhos.
[27] Concha.
[28] Desleixadas.
[29] Raios.
[30] Que fazem muito barulho.
[31] Vestida; bem arreada.
[32] Limpaça.
[33] Pedaço de broa de milho.
[34] Molho gorduroso avinhado.
[35] Processo de conservação da carne consistindo em regá-la com vinho ,e apondo-lhe muito alho.
[36] Vinho doce ( do Porto)
[37] Balcão onde se bebiam os copos de três.
[38] Fresquinha.
[39] Tirar a tripa ao peixe.
[40] Cortar a cabeça e esventrar o peixe, para o salgar em tinas.
[41] Pedaços da pele do porco com alguma entremeada agarrada.
[42] Bebericar.
[43] O vinho de missa.
[44] Intrometer-se;desinquietar.
[45] Abertura nas cuecas para verter águas.
[46] Vossa mercê.
[47] Coisa desajeitada.
[48] Peça tronco cónica que se coloca no fundo da embarcação tapando o bocal de escioamento.
[49] Enfartadela.
[50] Simplório,incapaz de fazer mal.
[51] Maroto.
[52] Tição.
[53] Presumida.
[54] Com a camisa retirada.
[55] Assinalável.
[56] Proibido.

SF  5.10.2010

sábado, outubro 02, 2010


HOMENAGEM DO ILLIABUM AO CAMPEÃO DO MUNDO

No intervalo do jogo Illiabum- Ovarense, quis o Clube de Ílhavo prestar uma publica e muito carinhosa homenagem ao campeão do Mundo,o Paulo Miguel(entre nós conhecido pelo diminutivo carinhoso, de Paulinho).

Foi bonita ,cheia de intenção ,carinhosa mesmo, a simpatia com que foi distinguido este notável atleta do CASCI, com direito a nome gravado no local dos famosos distinguidos por aquele Clube.
Sinto por vezes que é pena desconhecerem-se certas particularidades deste «miúdo» por quem todos nutrem um devotado carinho. Entrado para  a Instituição com apenas onze anos de idade, o Paulo é um «filho da casa», uma figura que  na sua diferença, irradia simpatia  tornando fácil a tarefa de quem vela por ele. Não terá sido difícil aos educadores na parte física perceber desde logo que aquele miúdo que  em criança afirmava querer ser campeão, queria mesmo sê-lo. E para isso diariamente aproveitando todos os momentos entregava-se á corrida com uma vontade indómita, fazendo espantosamente prever que o iria ser. Dias antes da deslocação ao México do Paulo, o Prof.Henrique Santos que sempre o acompanhou, garantia-me que tal era possível. Que o Paulo iria ser campeão do Mundo. Que iríamos ter outro Campeão entre nós, tal como já sucedera com o Augusto Pereira. 
O Paulo seria – estamos convictos – campeão do mundo em todas as circunstâncias. A vontade , a perseverança ,o sacrifício, a entrega ao treino ,levá-lo-ia a ser um novo   Carlos  Lopes, se as circunstâncias da sua vida fossem outras e a sorte o não tivesse penalizado.
Campeão do Mundo nos 800m e 1500m ,pulverizando os records das distâncias referidas, atestam o seu feito. Um feito de dimensão surpreendente, só igualável ao título de Campeão Europeu de ciclismo conquistado por Augusto Pereira (também este atleta do CASCI).Ambos os maiores feitos de sempre de qualquer outro atleta ilhavense.
O  CASCI agradece ao Illiabum, a homenagem. Vinda de um Clube com um passado(e presente) dignos do maior elogio no respeitante à formação de jovens , a homenagem  tem ainda maior relevo. O  Illiabum quis (assim) chamar a atenção para a importância da prática  desportiva como factor importante  de vivência e integração do individuo na sociedade.  Catalisador para a elevação da auto estima, parta esta do nível que parta. Ao promover a homenagem o Illiabum incita á reflexão da  obrigatoriedade de  todas as instituições contribuírem para que essa prática não conheça qualquer tipo de barreiras, limitações e ou restrições, sociais.   
De fora, ostensivamente e malcriadamente alheia a esta onda de apreço, esteve (ou está) a CMI. Estranhamente – ou talvez não, de facto - a Câmara Municipal de Ilhavo   alheou-se da proeza, fazendo de conta que a desconhece, ou atribuindo-lhe insignificância chilra. Nem sequer com um disfarçado telegrama de felicitações ao atleta tentou encobrir o incómodo. Porque nem vale a pena dizer quão justa e merecida seria  a publica homenagem que o feito justificava, agraciando o atleta com uma merecida distinção.
Interessou-se a Câmara por conhecer as despesas que foram necessárias para levar o atleta ao México para aí competir no Campeonato do Mundo, disponibilizando  UM! Euro para as mesmas?
Não!. O orçamento tinha-se já esgotado com a distribuição às ISSC «Instituições Importantes e Significativas Concelhias». Mesa lauta de vitualhas, à qual o CASCI não tem assento.
E quanto a medalhas?  Foram-se certamente  todas gastas a ambear os caudilhos locais. Nem de cortiça já aboiam….
Ainda bem… Pouparam-me o incómodo de lhes estender, obrigatoriamente, a mão. E assim me poupar o gasto em álcool, para a dita desinfectar. Que a cupidez é maleita pegadiça.            


Aladino

segunda-feira, setembro 20, 2010

O «BARCO DE LANHEZES»

O 2º Encontro de Embarcações Tradicionais do Rio Lima despertou-me a vontade de rever Viana, uma cidade de que guardo gratas recordações.

Num dia espectacular o Rio Lima estava majestoso. Embarcações tradicionais deste rio , muito poucas. Propriamente do rio Lima só o «barco de Lanhezes». Recuperação notável de uma embarcação de carga, de 13,5 m de comprimento, que no passado, segundo relatado, teria chegado aos 20 m. Na dimensão dos 13,5 m calculo que terá um deslocamento de cerca de 5 ton. Era uma embarcação usada no transporte, de pessoas e carga, «rio abaixo rio acima» ,deslocando-se com as marés (ou à vara) e aproveitando ,de manhã o vento leste para descer o rio com a vazante e, pela tarde ,enchendo a vela quadrangular com a aragem do norte que encana, rio acima.





«Barco Lanhezes» com Construtor Embarcado( Foto: AML)

Trata-se de uma embarcação esguia – barca - de casco trincado, envergando uma original (e complexa) vela de pendão, manobrada por seis escotas que se vêm fixar nas cadilhas ou fueiros (peças de madeira desmontáveis para permitir o uso de varas).

A embarcação é muito abicada de proa, tendo na ré um painel de popa que não ultrapassará os 0,40m.Neste inserem-se as fêmeas onde trabalham uma porta de leme de cana, de feitio muito estranho mas e também muito curioso.




Porta do leme da embarcação (Foto AML)

Olhando para a embarcação assaltou-me a ideia de que esta curiosa e um pouco tosca embarcação teria sido claramente inspirada nas embarcações nórdicas, que, se sabe visitaram, perpetrando pilhagens sanguinárias, nos rios Lima e Vouga antes de aportarem a Lisboa .

Na cavaqueira com participantes do «Encontro» ,alguém sugeria que tinha visto embarcações semelhantes(com casco trincado)na Ria de Aveiro. Apressei-me a desfazer o equivoco. Na Laguna não há, nem houve, embarcações de casco trincado para lá dos «Dories».Mas estes não são embarcações da Laguna.
Ora curioso é que o construtor da embarcação estava presente .Assaltado por um pressentimento perguntei-lhe como se desenvolve a feitura do casco, na construção. E o meu pressentimento confirmou-se com a resposta .Tal como os nórdicos, primeiro dava-se a forma aos tabuado trincado e só depois se colocava o cavername(shell first). Claramente o contrário da técnica naval Lagunar, esta de inspiração árabe(skeleton first), onde se parte da ossatura (cavername) da embarcação para depois lhe aplicar o tabuado encostado.



O casco trincado(foto:AML)

Voltei então, de novo, a deter-me sobre outros vários pormenores aspectos que me despertaram intensa curiosidade.

A embarcação está feita com muito respeito histórico. Percebe-se que a feitura da mesma denota um certo empirismo, mas recupera com fidelidade histórica aqueles barcos, pelo menos como seriam no século XIX (extinguiram-se no segundo decénio do Séc.XX). A duvida que me assalta é: -teriam sido sempre assim, desde tempos remotos?

A manobra da vela de pendão é exactamente reproduzida. Amarrações,escotas,aparelho, poliame, adriças, cadilhas, etc, tudo relembra, em rigor, as embarcações normandas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a troça (aconchego da verga ao mastro) executada por dois cabos atados na verga que se vão inserir numa peça curva de madeira que corre aconchegada por aqueles, ao mastro, facilitando a subida (ou descida) e a mareação da vela.



Vela de pendão e aparelho de manobra(Foto AML)

Se as semelhanças são assim tantas, porque motivo não teria a embarcação, originariamente, as duas bicas(proa e popa) ,sem existir painel de popa? (Afirma o construtor e quem o ajudou, que, de facto, parece que os barqueiros mais velhos falavam que antigamente os painés de popa eram muito reduzidos, quase inexistentes ).Exactamente! O que veio ao encontro do que deduzimos.



«CADILHAS» (Foto AML)

Admitimos, que, provavelmente, esta embarcação oriunda de tempos remotos poderia ter usado espadela lateral , originariamente, em vez da actual porta de leme(que praticamente não permite manobra). E (admitimos)que só posteriormente, para facilidade de manobra, se terá mudado a espadela para a porta de leme prolongada para ré ( com muito pouco calado e por isso má manobradeira) trabalhando no estreito painel de popa.

Esta embarcação despertou-me, pois, muito interesse. Explico desde logo as razões.

No livro que sairá em breve «Embarcações Que Tiveram o Seu Berço na Laguna» ,abordo e ensaio uma teoria onde refuto as influências nórdicas nas embarcações Lagunares que Jaime Cortesão(e outros citadores),sugeriram. A meu ver as semelhanças das embarcações lagunares são ténues demais para tal se poder afirmar.

Ao contrário ,no caso do barco de «Lanhezes» não tenho qualquer dúvida da influência. Aqui sim: - a influência é evidente demais para sequer se duvidar. Algumas dúvidas sobre visitas normandas ao Vouga, restam certezas de visita daqueles irredutíveis povos ao rio Lima.

Não pude estar presente ao Colóquio. A Ana Maria Lopes marcou presença, Espero que traga mais informações e fotografias para as quais a câmara do telemóvel não é bastante.

Remato : - tudo o que acima refiro é puro domínio de especulação minha, pois nunca tinha visto a referida embarcação. Desconheço se outros ensaiaram (já) estudos mais aprofundados que clarifiquem a questão.

Os nórdicos teriam visitado a Corunha e o rio Lima aquando da terceira investida para o Mediterrâneo (966-971).Considera-se que nos locais onde fixaram arraiais ,o máximo de estadia não terá ultrapassado os três anos. Nos Knarrs traziam pequenas barcas para remontar os rios.





Réplicas de pequenas embarcações vickings para trabalho nos rios.

Teria sido tempo de contacto suficiente para transmitir conhecimentos ?


Réplica pequeno «Knarr» vicking.



Nota : Fotografias cedidas gentilmente cedidas pela Ana Maria Lopes que esteve presente no Encontro.

SF



sexta-feira, setembro 03, 2010


A realidade «Humana» concelhia

De vez em quando faz bem rever o que dissemos num outro dia qualquer, e avaliar se o que dissemos é, ainda, o ajustado ao dia de hoje.
Vem isto a propósito das comemorações do Centenário da Gafanha da Nazaré como urbe.
Já referimos, há dias, neste Blog, ter sido editado um livro comemorativo da efeméride, da autoria do Prof. Fernando Martins registando, ordenando e comentando, as datas que, segundo o critério do autor, mais significado tiveram nos cem anos de vida comunitária do mais destacado centro gafanhão.
Não se fez - essa certamente não era a intenção do autor - uma abordagem no sentido de definir e caracterizar o perfil das gentes que estiveram no centro desses acontecimentos, os demiurgos que lhe deram rosto, alma e corpo. Isto é: descreveram-se os factos e não quem os protagonizou.
Já em tempos abordámos este assunto que reputamos fulcral para conhecermos a singularidade constituída por grupos bem diferenciados no tipo, na maneira de estar, no ser e no actuar.
Relembremos o que então dissemos.
O concelho de Ílhavo depois da divisão territorial administrativa, com a anexação das Gafanhas (1835/56), passou a ser integrado por dois tipos humanos de características tão especificas como dissemelhantes. Em todo o caso, determinantes para a sua actividade e modo de estar quando, cada um deles, procurou com mão segura no leme o rumo do seu próprio destino… Determinantes, pois...

Os «ilhavos» e os «gafanhões», pouco ou nada têm de comum.

Não importa, nem interessa para aqui, o saber-se qual o tipo mais valoroso, pois cada um a seu modo e jeito, foi-o em todas as circunstâncias e de sobremaneira influente na humanização da paisagem lagunar, onde o destino os depôs lado a lado. A laguna está cheia de suor humano, exsudado no revolver de cada leira da borda, em cada tabuleiro faiscante das salinas, em cada remada com que se impulsionou o chinchorro. Todas estas afadigadas ocupações tiveram em comum, independentemente de quem as praticou, em todas as circunstâncias, serem tarefas esfalfantes.
O «Ílhavo» e o «gafanhão», dum jeito ou de outro, intervieram no meio geográfico circundante, nele deixando marcas indeléveis dessa acção.

Mas há claramente diferenças morfológicas e temperamentais de tomo, entre cada um dos tipos referidos.
O «ílhavo» foi marnoto desde há milénios e até há bem pouco. Calcorreou infatigavelmente sob torreira assoladora as traves e barachas no amanhar amargurado das marinhas; foi em simultâneo, o pescador que povoou conjuntamente com o murtoseiro a laguna, enchendo-a de embarcações, cruzando-a em todos os sentidos; mais tarde, noutra saga, foi o colonizador do litoral português onde fundou, costa acima costa abaixo, da Afurada a Quiaios, de Buarcos a Lavos, da Nazaré a Sesimbra, chegando ao Algarve, colónias piscatórias onde deixou vincado traços marcantes que ainda perduram, dos seus usos e maneiras. E quando a pesca rareou, «o ílhavo», lesto e decidido, lançou o seu olhar de altieiro para paragens longínquas que calcorreou, embarcando mar dentro em rotas comerciais. Entretanto foi escrevendo em simultâneo, belas páginas da Faina Maior nos mares gelados da Terra-Nova e Groenlândia.

Vem de longe aos «ílhavos» a vocação para as lides do mar; de tão longe com certeza como a terra de onde são oriundos e que já figurava como villa de iliavo num vestuto pergaminho de 1037, vindo-lhes as barbas brancas do tempo de Fernando Magno” (F.M.)

O «gafanhão», esse chegou às areias ingratas e gafas muito depois do recuo do mar. Arriscamos:- aí por volta de 1677. Foreiros do Conde de Aveiro, Senhor de Vagos, trouxeram apenas os seus enxadões para revolver com determinação inquebrantável o vidro das areias. Estava-lhes destinada a infatigável e ciclópica, quão ingrata como augurante tarefa: a de esventrar incansavelmente dia após dia, ano após ano, as dunas ventosas dos areais gafos, achacados, transformando-os nos prados verdejantes dos dias de hoje.
Naquela ignota paisagem, então, «o gafanhão» atirou-se a abrir o rego para nele depositar a enfezada vergôntea. Traço vestal no areal que antes de nova investida, já a areia voltava a fechar teimosamente. Foi uma tarefa árdua, esgotante, ”danada” por vezes, essa de esgrimir com a terra, encharcando-a de moliço e escasso, na esperança de, um dia, a mesma, lhe retribuir dádiva generosa. Tempos de penúria, que tantas vezes o obrigaram a encontrar sobrevivência noutra arte quando se achou, ele terráqueo, joelhos metido no mar, a emprestar o (seu) suor à arte da xávega.



Há pois dois tipos humanos, diferentes até, na morfologia, nesta mistura humana concelhia...
«o ílhavo» é, no dizer de Luís de Magalhães, um ser de uma esbelteza nobre, ágil, determinada e valente. Ele é em si mesmo notado, pela atitude e nobreza do seu porte,
«o gafanhão», diz-nos ainda Luís de Magalhães ostenta ao contrário uma robustez maciça, um pouco tosca e rude, de feições vulgares e incaracterísticas.

Um, o primeiro – continua L.M.- é bem filho da onda, leve, fluido movediço; o outro, o da gleba espessa e imóvel é, em compensação, um trabalhador robusto e infatigável; das suas mãos nasceu uma das maiores maravilhas da agricultura portuguesa.
Sendo pois claramente diferentes, tiveram (obrigatoriamente e consequentemente) modos diferentes de estar e de se posicionar na aventura de intervir.
«o ílhavo» que já cá estava, plenamente enraizado numa comunidade já estabelecida, com uma vida e cultura próprias, com história e costumes já escritos no rolar dos anos - havia pelo menos seis séculos - nem sempre soube assimilar «os» que foram chegando; e amiúde lhes virou as costas. Encontraram-se, ocasionalmente na Xávega. Primeiro esporadicamente.
Logo depois aquando da adaptação do lavrador ao remo. E só mais tarde, (ainda) se encontrariam de novo na grande faina do bacalhau.

Historicamente, nos derradeiros dois Séculos de vida comum entre as mesmas fronteiras, «o ílhavo» teve sociologicamente preponderância. Foi empregador do «gafanhão» na xávega; foi seu “superior hierárquico”, na mor das vezes, na Faina Maior.
Na estrutura Social e Política até 74, «o ílhavo» teve assim clara preponderância. Tratou «o gafanhão», sem por vezes se dar conta disso, como “gente” de segunda. Virou-lhe as costas. Pouco fez para com ele se mistura, tendo sempre uma postura de distinção.
«o gafanhão» só raramente se caldeou em laços familiares com «o ílhavo», de que resultaram consequências nefastas para a assimilação que se queria natural e espontânea.
E se num passado mais ou menos longínquo isso teve pouca importância, por falta de consciencialização do “segregado”, dramático e nefasto foi que em tempos ainda recentes, essa situação tenha sido mantida.
No Século XX ainda, as Gafanhas (todas as Gafanhas ) estavam claramente afastadas da vida Concelhia, muito para lá das distâncias geográficas. Que eram e são, geograficamente insignificantes.

Não se estreitaram laços. Não se produziram interligações. Não se estabeleceram cumplicidades comunitárias; nunca as distâncias sociais eliminaram as fronteiras virtuais das urbes: - «o gafanhão» vinha à Vila só para cumprir os seus deveres com a fazenda, e para pouco mais...
Aveiro estava ali (mais) à mão.
Quando procurou novas formas de vida foi lá que «o gafanhão» esgravatou; a organização administrativa concelhia mantinha praticamente afastada dos mais primários anseios a comunidade dos gafanhões. Pouco ou nada se fez para aplanar o fosso que identidades dispares na sua origem foram cavando entre si, sem preocupação de o aplainar.
A comunidade de Ílhavo cedo sentiu a prosperidade da Faina Maior. Porque ocupou nela, como investidor e ou participante, os postos de maior retorno económico. A Vila captou riqueza. Os seus filhos de nova geração foram acedendo a graus de cultura notáveis para a época; absorveram-se novos hábitos, novas formas de estar, ganharam-se novas ambições, importaram-se novos conhecimentos. Os «ílhavos» seguiram no pelotão da frente nos novos tempos.
Das Gafanhas a primeira a arrancar foi a Gafanha da Nazaré (Calle da Vila). Por mor da indústria do Bacalhau. Por via das suas exigências a montante e jusante, sentiu-se ali o beneficio das sua influência. Mas é bom sublinhar que a maior fatia da riqueza criada, talvez o maior quinhão, esvaiu-se para outras paragens, tal a singularidade da organização empresarial subadjacente à indústria bacalhoeira.

Surge então a revolução de Abril: com ela a decadência vertiginosa da pesca do fiel amigo. Singularmente, «o gafanhão» vê chegada a sua hora. Descobre que tem direitos. E que de entre eles, sobressai como um dos mais notáveis que então lhe é outorgado – não por favor mas por direito - o de intervir no seu próprio destino. Isto é: o de participar activamente numa comunidade da qual até ali parecia não fazer parte. Tão só sócio de segunda escolha, participando na “empresa” mas não tendo retorno ajustado para o seu empenhamento.

E repentinamente procurou com avidez e sofreguidão, ganhar o tempo perdido. Agora (nos anos subsequentes da revolução), primeiro tímido depois determinado, «ele» queria com a mesma determinação com que os seus antepassados revolveram as areias, imbuir-se no húmus politico gerador de um novo destino.
As ferramentas já não então os enxadões de outrora, mas o diKtat.

«O ílhavo», bem ao contrário, mostrou-se atordoado com os novos tempos e com a perda de um desígnio comum; veio ao de cima a sua originalidade individualista num posicionamento distanciado, afastado, como que desinteressado das coisas do mundo comunitário. Como sempre esteve.
«o ílhavo» tinha, já, marcado encontro com outra aventura.

Os seus filhos estavam espalhados por esse país fora fazendo valer os seus reconhecidos méritos e capacidades individuais. Via a terra lá de longe, sem uma necessidade de intervenção. Como em tempos idos -os da saga histórica - em que tinha deixado uma sociedade matriacal a resolver-lhe os assuntos - todos os assuntos - agora deixava para outros a tarefa de fazer de novo história. Demitiu-se... como outrora... Só que desta vez para estranhos. Retirou-se assim por vontade própria, do palco. Sem perceber bem, e ou avaliar consistentemente, as consequências futuras do seu gesto.
Hoje um novo e diferente desenvolvimento centra-se nas gafanhas: - com indústria, turismo – a grande aposta do futuro - palco de trocas comerciais intensa advindas dos Portos Comercial e de Pesca etc, etc, com novos e diferentes apports, é patente uma nova ordem de desenvolvimento, que inevitavelmente conduzirá a novas centragens da esfera do poder local. Ilhavo desarticula-se. Morre aos poucos; definha, agoniza. Perde centros de produção, esvazia o seu comércio. Perde preponderância económica. E inevitavelmente política. Desaparece atrás da cortina, afasta-se como que envergonhada. Esvazia-se num comodismo patético, inibidor, descrente. A sua componente cultural, inexoravelmente, tende a desaparecer do mapa. Reduzida a sua cultura «ao bacalhau», já este ano (2010) foi sorrateiramente-e saloiamente!- iniciado o processo da mudança simbólica de capital do dito (mesmo que seja no prato), para a Gafanha da Nazaré. Como comunidade, Ílhavo assiste desinteressada e apática, ao embaciamento da sua história e tradição.
Estamos pois à beira de uma grande mudança estrutural da comunidade Concelhia.
Quais serão os novos caminhos da mesma?
Urge equacionar a questão. Importa avaliar as possíveis vias que se nos deparam, num novo equilíbrio sócio – económico concelhio que se esboça.
Não nos podemos demitir de intervir para evitar o irreversível.

SF
Setembro/2010


segunda-feira, agosto 23, 2010

«Gafanha da Nazaré» 1910-2010


A celebração do Centenário da Gafanha da Nazaré, levou a que o Prof. Fernando Martins elaborasse um trabalho que deu á estampa onde alinhou, numa ordem cronológica, algumas das datas mais marcantes do historial da hoje cidade Gafanhoa. Um século de existência ; uma história que ainda não é chegado o tempo de contar.
Certamente que objectivo do Prof.Fernando Martins não era o de enveredar por esse caminho,mas tão só fazer um registo cronológico dos acontecimentos ,sem deles retirar qualquer tipo de ilação (senão méritos).
Trabalho,pois, de enaltecer , cheio de oportunidade, que veio enriquecer os festejos da celebração dos cem anos de existência - uma data sempre bonita e digna de ser celebrada - nem sempre fácil.
Aquela frase, que houve um tempo era comum ouvir-se - se os holandeses fizeram a holanda,os gafanhões fizeram as gafanhas,continha muita verdade.
O Prof. Fernando Martins-um assumido humanista- segue há muito, com muita atenção,muito interessadamente e numa perspectiva de permanente de valorização dos aspectos positivos – por isso o seu Blog «Pela Positiva»-o dia a dia da comunidade– a realidade local e tudo que lhe é envolvente: no social,humano e religioso .Fê-lo desde longa data.E fê-lo de várias maneiras, utilizando para tal as mais variadas e diversificadas ferramentas,no exercício nobre de comunicar. E continua hoje ,ainda, muito atento. Foi bom que deixasse este testemunho que como poucos estava em condições de fazer. São aliás este tipo de testemunhos que servirão de base, um dia,para se tecer a história destas gentes cuja origem e preservação de identidade desde logo levanta curiosas interrogações a merecer estudo aprofundado,dando continuidade (e para o completar) esse notável trabalho monográfico do P.Vieira Resende.
Positivo ,pois,este trabalho de Fernando Martins.
Senos da Fonseca

segunda-feira, agosto 02, 2010

Caros amigos:

O baú que se deixa na Costa-Nova,tipo «Reserva» é surpreendente.

Encontrei lá este.Porque não o hei-de compartilhar com os amigos?

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A VIDA É «soma e segue»

Pudesse eu sentir o bafo dos dias quentes
(para deixar de sentir a dor
A dor tremenda de me ver ainda acordado
(em tudo o que escrevi.
Nessas folhas em que amei e fui amado
(ainda que noutras, não sei (?), odiado..


Sinto a dor tremenda de nelas não ver gestos,
(seria que lá não couberam?
Ou estando lá, eu não os vi, tão escassos eles eram?
(a vida é «soma e segue».
Por isso quem me dera morrer num instante
(antes que o inverno mos negue.

Ateio as poucas brasas que ainda há em mim
(frias dos beijos que não recebi
E recuso o sono, a paz e a solidão que só hei-de querer no fim
(quando então longe daqui;
Mas não deixo, hoje, de escrever num cravo ruivo para Ti
(o que já não sei dizer a mim.

SF (s/d)

segunda-feira, julho 19, 2010

O Barco da Ilusão


Terminada a tarde
Feita braseira de mil sóis
Veio a noite primeva
Sem sopro nem sombra
Errando na ria, neste praiar do mar;
Os meus olhos, outrora sonhadores,
Olhando o que
Aos outros trará vida.
A mim, apenas vejo sorrir a morte.

Silêncio coalhado de prata,
Solidão estendida no sono impaciente
Cortada pelo pio de uma ou outra gaivota.
No meu choro correm bagas de gritos:
Já não virá o dia, algum dia(!)
Que há-de ser «novo dia».
A vida, magana :- não pára, enfim!
Avança ao som do toques marciais
Comandados pelo soar estridente do clarim.

Amanhã haverá nova alvorada
Azul ,enevoada, ou imprecisa
Pouco já me importa, ou colhe ,
Que chegue a fria madrugada
E apague e dê por finda
Esta errante caminhada.
Sou gaivota de asa ferida
Na borda do mar irado, enxerida
Esperando o barco da ilusão.
Colher amarras, alar a vela, largar do cais
E vogar além…ainda mais além... sempre além,
Partir como ave de arribação
Voltar ou não ?!

SF (19 /7/2010)

terça-feira, junho 22, 2010

CAVACO BANAL ...sempre igual.

No comentário ao desaparecimento de Saramago expressei alguma compreensão (?!) pela falta de comparência do senhor Presidente da Republica (parece que por proposta do PSD vamos deixar de o ser…), no funeral.
Então referenciei uma certa, e para mim correcta apreciação de Saramago a Cavaco, a qual foi o de considerar aquele «um livro de banalidades».
Ora Cavaco veio, de imediato, dar razão a Saramago.
Questionado acerca da polémica sobre a sua ausência, o Presidente da Republica, disse, não pode comportar-se como os amigos do defunto. Estes devem ir ao funeral. O PR não!».
Banalidade execranda.
Porque os amigos até poderiam faltar, mas o PR: - esse, não!
Porque representando a Nação, o PR devia manifestar com a sua presença, o reconhecimento da dita a um seu notável filho. Só Ele poderia, por inteiro e universalmente, fazer. Não era Cavaco que estaria presente, mas o representante de «todos» os portugueses, o PR (que tantas vezes gosta de evocar o nome do Povo em vão.
Banal q.b.
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Réplica ao meu comentário ( v.Saramago)

Foram muitos e diversos os comentários que me foram enviados. Tomei atenção a todos, e, claro agradeceu, mesmo os desfavoráveis. Eu sabia que estava a tocar numa matéria que não era universalmente consensual.
Registo aqui o comentário (que tentou inserir directamente no Blog, mas falhou) do amigo, nosso conterrâneo, Cte Paulo Corujo;
Olá João Fonseca

O que lhe dizia no blogue era mais ou menos o seguinte:
Concordo que José Saramago era um grande escritor e prestou um grande serviço aos pais projectando a língua portuguesa para uma visão cultural mais alargada. Eu li com alguma dificuldade em 1996 dois livros que julgo serem os melhores que ele escreveu: O Memorial do Convento e o ano da morte de Ricardo Reis. Gostei dos dois e achei sobretudo que constituíam efabulações surpreendentes. Mas não li mais pois achei que os seguintes tratavam de temas que colidiam grandemente com a nossa cultura. Não havia necessidade, como dizia a personalidade de Hermano José. Eu fui sempre liberal, política e economicamente falando. Recordo-me com imenso desgosto de um pobre homem, julgo que sapateiro, muito alto que tinha a modesta oficina defronte do Salão Cinema, creio que se chamava Pinho. As pessoas diziam: cospe meu menino, que é maçónico, julgo que no sentido de incréu.. A intolerância era selvagem e a lavagem dos cérebros manifesta.
Neste ponto chegamos a outra faceta do homem José Saramago: era um homem amargo e intolerante. O que ele disse no Diário de Noticias em 1975, quando saneou seus camaradas. Foi mais ou menos o seguinte. É preciso eliminar os nossos adversários pela violência para a vitória da revolução. Puro Leninismo e Estalinismo na sua forma mais requintada, com apelo às checas de Djerzinsky. O homem era mau e isto não lhe perdoo pelo facto de ele ter morrido.
Por pudor, não lhe retransmiti Maios de extrema-direita com que não concordo. Mas vou fazê-lo para o João tomar nota do mundo em que vivemos. Deve-se ler tudo, Freud or foe.
PC
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Já respondi ao Comandante.
Reconhecendo o acertado da sua apreciação quanto aos livros citados e respeitando a sua apreciação sobre os restantes.
E como ganhou «coragem» para vencer o pudor de me enviar os ditos comentários «foes» de extremistas- e mandou-os - garanti-lhe que os li com atenção. Garanti-lhe que leio e aceito tudo, e que até leio com particular atenção os fanáticos, pois assim percebo melhor a minha razão.
E que até aceito extremistas…desde que poucos…

SF

domingo, junho 20, 2010

Da vida para a galeria dos veneráveis



Plagiando Saramago direi:
- aquilo que a morte nunca poderá ser acusada é de ter deixado indefinidamente no mundo algum esquecido velho… não porque, no caso vertente, a velhice lhe tivesse retirado merecimento, mas porque a dita - dizem -tem hora marcada para retirar da prateleira dos vivos os que vão sendo empurrados para o seu topo .

Neste tempo de crise o País ficou ainda mais pobre. Porque construir o futuro sem a ajuda de homens lúcidos, críticos, socialmente presentes, eticamente exemplares, é muito mais difícil e problemático.
Escritores com a dimensão universal de Saramago, não se repetem geracionalmente, senão de intervalos a intervalos, por vezes tão longamente afastados que não há outra maneira de os perpetuar senão em estátua de argila.
O contacto com a escrita de Saramago não era fácil. Pelo menos para mim não foi. Bem ao contrário foi-me necessária teimosia para me adaptar e penetrar no autor. Habituado a uma leitura clássica, de ponto e vírgula esperados, de conjugação intuitiva temporal, ao principio tudo me pareceu em Saramago subversivo. Foram precisas uma , duas …seis vezes -sei lá, já não me lembro! - para vencer a distância entre o leitor vulgar e o escritor que rescrevia as regras. Lembro-me, até, de algumas criticas avulsas e cavernosas, que ao tempo, diziam, não saber Saramago escrever porque o não teria aprendido nos bancos da universidade.
Verifiquei contudo, não sem espanto, que depois de habituado à leitura, esta se tornava sôfrega, imparável, impondo-se o desejo de não mais a largar até a esgotar. Houve, assim ,livros lidos numa só noite. Como eu gosto…
Desde muito cedo tive a percepção de estar perante um autor universal e intemporal. Para tal ser – ou aceder - era importante que, não só os temas deixassem de ser redutoramente fechados(referenciados) ao rectângulo pátrio (por muito bons que fossem ) mas transportados para a universalidade das preocupações do devir do homem num momento histórico de reconstrução, carregado de nuvens de mau agoiro. E era ainda imprescindível, para alcançar tal catalogação, que o ritmo verbal dessa expressão preocupada fosse liberta do espartilho de uma língua difícil ,onde só mestres discípulos de P. António Vieira, no verbo e no ponto, se fizeram aceitar.
A escrita de Saramago era do género: -se és capaz de olhar e ver ,atenta. Se não fores capaz:-faz de conta. Para melhor o exemplificar , descreveu-o no seu « Ensaio sobre a Cegueira».
Claro que há obras melhores e outras menos boas em Saramago. Mas no seu todo o que a obra saramaguiana reflecte, e fez jus ao Nobel - mesmo contra a «cegueira» de uns tantos excluídos pátrios - foi ter na base a permanente inquietação do homem que se confundia com o escritor, assumindo-se na vida cívica um espírito critico que não temia dizer - o quê, quando ,e sobre - o que pensava.
Podíamos, pois ,e á vontade, discordar de Saramago. Lê-lo ou não. Mas a verdade é que mesmo discordando – a não ser que fossemos cegos de todo – éramos levados a pensar. E isso era exactamente o que Saramago pretendia ousar: pôr todos nesta Pátria - mais do que no espaço redutor do País -a pensar, cada um por si. Mesmo que de um modo diferente. Tanto melhor….se assim fosse.
Saramago foi hoje cremado por sua vontade, própria, expressa. A referência que hoje lhe é feita no órgão oficial da Igreja Católica, em Roma , faz-nos antever que se os tempos fossem, ainda, o de trevas inquisitórias, Saramago seria cremado ,não por vontade sua ,mas por ordenança condenatória dos esbirros do templo, na praça publica, por ousio blasfemo .
Quando Saramago resolveu dilucidar sobre se que a existência humana não era ,afinal, a prova da inexistência de Deus, ao fazer da cabeça escritório da razão, entrou por veredas perigosas. Afinal quando se limitara a exemplificar que existe um profundo abismo entre o dictat de Cristo e a práxis da Igreja que se acolheu á sua sombra.
Creio que todos estiveram bem ,neste dia de homenagem ao escritor que continuará entre nós ,pois dos seus feitos se libertou desse acidente que é a morte física. Todos?
Sim :-até Cavaco, de quem Saramago disse um dia, ser um livro de banalidades, confrangedoras, esteve igual a si mesmo. Um tipo banal que por acaso é
Presidente de um País, que não de uma Pátria.
SF

sábado, maio 15, 2010


Pois… pois… estava á vista….


A situação é grave. Era minha perfeita convicção, e disse-o aqui , ser a dita muito mais grave do que aquilo que por aí se ia falando. Há um claro défice qualitativo de informação em Portugal. Os problemas são debatidos, estritamente numa posição de confronto. E há poucos -muito poucos - analistas capazes de despirem as vestes partidárias e exercerem uma acção informadora/formadora. E assim não se sai do digo agora eu, desmente logo tu, relegando-se a leitura dos problemas do País para um plano secundário. Enquanto andávamos nesta,mais preocupados se o 1º Ministro mentiu ou não ao Parlamento,parece que ninguém relevava o facto de as coisas terem mudado – finalmente! - de um dia para o outro.
Eu avisei ,aqui no meu cantinho..O problema era muito mais grave do que aquilo que se andava a imaginar. O problema não se esgotava no risco de bancarrota de Portugal,Grécia ou Espanha. O ataque especulativo, a continuar , arrastaria não só esses Paises mas toda a União Europeia, e levaria o Velho Continente ao tapete. Inexoravelmente.
E por isso não se soube, ou se avaliou erradamente, o que aconteceu nesta ultima semana: a UE teve avançar com o sinal á Grécia,admitindo que isso iria acalmar os mercados..Mas foi logo intuido nas horas seguintes que isso não ia chegar.Foi então a hora de tocar a rebate,mas agora pela União Europeia.Percebeu-se-finalmente!- o erro de se ter avançado com uma união monetária antes de avançar com uma união económica (e ou até politica).Houve pois,que um sinal aos mercados e esse sinal impôs regras completamente novas. Para isso era preciso baixar abruptamente os defices, já objecto de correcção anterior. Mas agora drasticamente e em conjunto. Logo, todos os Primeiro Ministros se viram obrigados a desdizer o que tinham dito ,convictamente, há umas semanas(infelizmente não foi só o nosso,mas sim :-TODOS!!).
E agora a questão é mesmo a doer…

Se no ano passado se traçaram politicas de apoio ao emprego (tentando minorar a sua escalada,para isso desprezando os défices) agora quase que se vem dizer que é mesmo preciso apoiar o desemprego,incentivando-o (!)criando condições para o fazer aumentar ,especialmente na máquina do Estado. Aqui e em todos os Países.
Percam-se as ilusões: se estas(drásticas e penosas medidas ) não contentarem o «Big Brother» que manobra o ataque especulativo, um Ser invisível que ainda ninguém parece certo saber de onde provém - virão novas e muito mais penalizadoras medidas. Os tempos que se avizinham são dramáticos.
Ora pelos resultados da bolsa do dia de hoje, parece que as mesmas não chegaram para parar a especulação. As bolsas caíram de novo brutalmente. (Ao contrario do anunciado na TV ,a queda de Portugal não foi uma das mais altas mas uma intermédia. Grande ajuda a destes tipos inconscientes e péssimos analistas) .
Mas essa queda o que poderá querer dizer?
Precisamente:-que se o mal antes estava nas dividas soberanas, agora, o mal,estará na recessão que as medidas brutaisrestritivas ( mas necessárias ,imperativas!) irão certamente provocar.
A velha história :não foste tu ,mas o teu Pai…
E afinal o o que é que isto tudo quer dizer?
Pois uma coisa muito simples, que os nossos economistas parecem ainda não ter percebido: substituído o capital produtivo pelo capital que sem rosto que manobra na Bolsa, o sistema capitalista desmorona-se. O sistema está no estertor.
O Liberalismo selvagem estoirou; Marx previu este desenlace embora de um outro modo. Mas fosse de que modo fosse, era inevitável. O sistema acabaria por ruir logo que globalização explodiu e se desenvolveu anarquicamente e descontroladamente , na ausência de todo e qualquer controlo e a ritmo galopante.
SF
PS- Vamos continuar nos próximos Blogs a conjecturar, por conta própria, sobre esta questão quer do ponto de vista prático (reacção sindical) e teórico (novo paradigma económico)

quinta-feira, maio 13, 2010


Visita Papal– no timing certo….

Temos para nós que esta visita de Bento XVI a Portugal se deu em boa hora, com vantagens evidentes para ambas as partes.Concretizada no momento próprio, certo e adequado.
Já aqui o disse mais do que uma vez, mas é sempre bom repeti-lo: não sei o que é esse mistério da fé, na crença de uma qualquer divindade. Não me revejo nos que dizem a vida não ter sentido se não se acreditar numa outra (?!)- que ninguém sabe explicar o que será ou como se materializará, pois ao se materializar negava-se a si mesma .Mas nutro enorme respeito pela Igreja, pela prática religiosa ( excluído o beatério) que conduzida segundo finalidades cristãs ,pode trazer enormes benefícios à comunidade. E temo, até, que uma sociedade que não dá aos seus jovens uma educação básica (teórica),de princípios morais e éticos, se arrisca a desagregar-se rapidamente, por demasiadamente centrada numa lógica individualista .Fui educado dentro de princípios católicos, muito rígidos e fortes. Mas logo que chegada a idade de decidir por mim, foi-me dada total liberdade de escolha. Sem qualquer tipo de influência ,para um ou outro lado. A decisão foi inteiramente minha. E nunca a questão mereceu abordagem para se procurar entender o meu desvio.
Posto isto vejamos :
a) A igreja atravessa uma das maiores crises dos seus dois milénios de vida. Como disse Bento XVI, o grave da questão - a dimensão que a mesma tem no mundo - é que o ataque, a sabotagem, vem de dentro dela própria. Do vício -do pior dos vícios !- de alguns (?) dos seus representantes. É certo que a Igreja - e as Instituições dela emergentes - , conviveram sempre -e bem !– com a licenciosidade e o vicio. Muitos Papas encabeçaram a lista dos mais libertinos, viciosos, licenciosos e vis pulhastras, empunhando o báculo mais como gládio do que como símbolo doutrinal de Cristo. Só que pelo menos até ao século XIX a Igreja soube gerir dentro das suas paredes o vício carnal. Hoje não é o poder de um Rei, qualquer, que se atira ao Papa para lhe subtrair, esta ou aquela mordomia. É a Senhora toda poderosa da Comunicação Social que acolhe com intenso furor a denuncia do nefando e horrível crime da pedofilia.
Só os ingénuos não percebiam que o ambiente onde decorria a prática religiosa, católica, era fortemente propícia ao crime carnal. Só que enquanto o adultério se ficou pela frequência de camas das que se espenujavam, concessoras, frente dos pobres castos caídos na tentação das demoníacas ninfas , tudo era murmurado, passado no escondido do rebate dos templos entre as «ti zefas» das matinas,no abrigo do xaile que abafava o diz-se.Só desatentos poderiam ser levados a supor que o abrir do breviário era exorcismo bastante para afastar o diabo nos ataques ao terceiro pecado da alma.
Agora vem tudo escarrapachado, a bold, nos jornais, ou cacofoniado nas noticiários televisivos
com foro de moléstia onde já nada, nem ninguém, se aproveita.
Umas dezenas de casos viraram milhões. Hoje, pior que um Padre só um Politico.

O Papa precisava, por isso, de um banho de multidão que de um modo espontâneo lhe manifestasse a simpatia. Portugal e o fervor religioso das suas gentes e a sua identificação com Fátima, melhor do que nenhum outro poderia oferecer esse acolhimento afectuoso, quente e sincero.

b) Mas também é certo que o País precisava,também ele, de se reconciliar. Encontrar algo que unisse o seu Povo,afastando-o das querelas partidárias,encerrando por uns dias o coliseu dos gladiadores , onde diariamente se contam polegares. Para cima ou para baixo, matando ou esfolando, raramente percebendo. Todos estamos cansados do espectáculo.

Nas multidões que acolheram Bento XVI estiveram gentes de todas as cores partidárias(pois...pois!!!) estou bem certo. E nestes momentos terrivelmente difíceis que assolam a Europa - e não Portugal unicamente - é benéfico que exista um sentimento de unidade em torno de algo, mesmo que esse algo seja indecifrável..

O momento para o País foi pois de uma oportunidade flagrante. Parece mesmo que o País pôs a politica de lado e se sentiu capaz de se unir em torno de um sentimento comum. Salazar soube gerir bem o problema religioso no seu tempo. Usou a Igreja para pedir sacrifícios ao Povo, mas manteve aquela em respeito sempre que a mesma quis ultrapassar a sua vocação pastoral.

O tempo vai ser de pedir sacrifícios. E nada nos diz que seja por pouco tempo. Creio que o pior ainda está para vir. Para nós e para todos.

Claro que a fé não pode retirar ao Homem o sonho de um mundo mais igual. Infelizmente a Igreja condescendeu demasiado com o apetite da exploração dos mais fracos pelos mais fortes.
Talvez ainda seja tempo de se humanizar, mesmo que para isso, Cristo - um outro - «desça» à Terra. Ou seja, se afirme na Terra.
A Igreja sabe que não pode parar a Ciência. E sabe que a explicação está próxima.

Aladino

terça-feira, maio 04, 2010

Somos um verdadeiro país da treta…

No Parlamento, enquanto o País se confronta com uma crise que mais do que a real, é resultado de pressão especulativa vinda de investidores que apenas querem prolongar o que anteriormente vinham fazendo -uma verdadeira guerra dos tempos modernos - um grupo de Inquisidores, pré-anuncia até á exaustão,tal como nos tempos de Torquemada, a certeza, por mera convicção, que os actos heréticos do PM o terão de levar à fogueira. Ainda que nada de concreto fique provado..

E se se verificar que não foi ele que sujou a águia….prolonga-se a dita turma inquisitorial, nem que seja para dizer …

- pois sim mas a água vai suja e estamos convencidos que foi V Exª o provocador de tal. E se não foi, bem poderia ter sido.

Exibem os grotesco e façanhudos inquisidores gestos de juízes implacáveis,predispostos a mostrar que é ali, na assembleia do povo – facto que repetem até à exaustão - que reside, agora, a senhora de olhos vendados, justiceira ainda que céguinha, balança na mão sem que importe saber o lugar do fiel.

Ao fim de cada audiência os justiceiros saltam(!), agarram um qualquer microfone e olhos no publico, sorriso vitorioso clamam : está visto!...o crime é evidente .
Onde? Importa pouco.
Como?...pensamos nós de que, é bastante..
Quando? …ao jantar ou á ceia …ontem … pouco importa .Mas que houve…houve, essa é a convicção da Santa Mesa da Inquisição.

E o País que lhes paga as mordomias olha estupefacto para esta salada de politica e justiça, mixing explosivo.
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Só se forem à bruxa…é que acertam !!!

Mas do que eu estou a gostar mesmo, é daqueles descamisados economistas, todos ex Ministros.
Por acaso-ou talvez não - qual deles o pior!..
Pois agora vão em peregrinação a «fátima» falar com o papa Cavaco .
Este anunciou, esta semana, que já há sete anos tinha previsto o que ia acontecer a Portugal.
E até o escreveu. Tal feito ,só por si justificaria um prémio Nobel.

Mas a verdade é que eu - e todos ! - sabíamos muito antes do Prof Cavaco Silva o que viria a acontecer a este País .Desde o tempo em Ele que foi preclaro Ministro das Finanças, e, depois, 1º Ministro.
Da Europa vieram,então TIR’s de dinheiro. E o que fez ele nesses tempos de herança soarista?
Lembram-se?
Assim o que o Sr. Professor previu com antecedência de sete anos, eu previ com antecedência de vinte.
Isto de ser economista é bestial.
Só sabem explicar o que aconteceu , porque acertar no que vai acontecer, só se forem á bruxa.

C.S. vai receber o bando dos sete, e dar-lhes espaço televisivo .Para que digam, não o que eles pensam – o que pouco importaria aos portugueses que os conhecem de outras empostas -mas o que Ele pensa(?!) mas não se atreve a dizer, preto no branco.
Andou a dizê-lo no ultimo ano via Manelinha. Posta esta na prateleira arranja agora este grupelho de bruxos cuja paga será - eu o prevejo :
Um para Gov. do BP ,outro para Pres. da CGD, um outro para Ministro das Finanças, outro para chairman da PT, ainda outro para Ministro Economia, outro para a REN.(ou vocêspensam que eles estão mesmo preocupados com o destino da Pátria?)
E….o Medina perguntará o atento leitor ?
O Medina fica sem cargo.Com reforma antecipada por incapacidade mental, atingido que foi por esclerose múltipla em estado adiantado.

Aladino

Ps- Não meus caros;não é preciso ser bruxo. A continuarem as coisas como vão, não é só Portugal que vai á bancarrota. Vai toda a Europa. Porque a questão não é dos investimentos serem errados, grandes ou pequenos, prioritários ou não.
Não!- o que está errado é sistema.
Mas como dizia o outro: morrer de caldeirada nem custa
A.

sábado, maio 01, 2010

1º de Maio.
Recebo um texto.Aprecio-o e pressinto nele algumas sólidas particularidades.
Não sendo meu subscrevo a justeza do significado da leitura: o confronto presente no desafio que poderá ser sempre o ultimo.
Publico.
SF
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Dia do Trabalhador.

Manhã serena, maré baixa, laje descoberta, brisa refrescante.
Desço a calçada do Algodio e chegando à estrada, sigo para norte. Subo pelo passeio junto à praia. Mais ou menos a meio, o muro interrompe-se e umas escadinhas na rocha dão acesso à plataforma rochosa, a laje,. Desço-as e ando com cuidado.A rocha está molhada e escorregadia. Um homem está dentro de água, a pescar. Estou na areia. Encontro o abrigo confortável de uma grande pedra. Parece um “fauteuil”. Acomodo-me. O mar olha para mim. Percebo o que me está a dizer.
Primeiro Ele. Sempre. Descalço-me e vou ao encontro dos pés do mar, por enquanto só os pés. Ao sentir a quente frescura da água, é só o tempo necessário para levantar o ferro e ir fundeá-lo ao meio da praia onde as ondas já o são, embora timidamente
[Soube da detenção de Pinochet numa auto estrada italiana e, depois de a celebrar, apressei-me a telefonar à minha companheira.]
A esteira às riscas brancas e azuis,estirada sobre a areia. O saco em cima onde procuro um fato de banho. Hoje é o encarnado, só o encarnado pode ser. Os óculos, a touca.Por fim as botas de borracha. O mar espera-me. Está só. Na praia, em toda a praia apenas dois jovens. Deitados para se ampararem do vento. Começo por cumprimentar com cerimónia, baixando-me até que as mãos toquem com devoção na água. Lentamente vou avançando para que a temperatura do corpo e a do mar se harmonizem. Nunca sei quando é o ultimo encontro, por isso cada um pode ser esse. Nada se repete, muito menos no amor. A vida é um permanente recomeço.

[Foi longa a luta no Chile no exílio. Os camaradas da resistência interna não lhes deram um único dia de descanso.]
Vem a primeira onda, estou preparada para me entregar e para recebê-la. Elevo o corpo e sinto o embate do mar contra o peito.Tem força,o mar, tem muita força.O fogo é a cor do fato de banho, mas isso não é para vencer-te.Mas sim para te convencer. Estamos completamente sós:eu e o mar mar. Todo inteiro para mim e eu para ele . Os que estão na areia presenciam o nosso delírio. Invejam-me,com certeza. Uma mulher e um mar abraçados em desmesurada entrega.
[Agitámos, escrevemos artigos verdadeiramente agitadores, subversivos, porque a verdade é sempre subversiva……Mas tenho a certeza de que os nossos artigos foram apreciados pelos que sofreram, pelos que sofrem, pelos que ainda mantém a esperança e não se cansam de afirmar que um outro mundo é possível.]
Deixei o relógio em casa. Para que quero horas? Hoje não o largo enquanto não o vir saciado.
A maré sobe como um ventre grávido, primeiro lentamente e no fim do tempo avolumando-se como um gigante.
[Numa dessas pausas conheci as duas irmãs e o irmão mais novo de Oscar Lagos Rio. Os quatro possuíam uma beleza inquietante…E os quatro olhavam para o mundo através de umas pupilas que passavam velozmente do castanho a um verde suave e transparente.]
Ainda um mergulho, um afundar em busca do que está para além, há sempre um mais além a desafiar a imaginação. A despertar os sentidos para emoções novas.
[Oscar Lagos Rios tinha sonhos dos quais às vezes falava: gostava de ser piloto de Fórmula Um e era, além disso, um óptimo mecânico de automóveis. Também gostava de estudar agronomia me confessou uma tarde em casa dos pais durante uma festa familiar.]
Agora é tempo de sair, estamos tão bem que nem damos pelo Sol a esconder-se por detrás das nuvens. O mar quererá descansar? Ou tem receio que eu adormeça? Quem estava na praia deve ter ido almoçar ou merendar, que horas são mar?
[Algum dia se escreverá a verdadeira história daqueles dias ,algum dia escreverei sobre aqueles anos felizes de compromisso e entrega total…]
Lentamente dirijo-me ao lugar onde está o saco. Retiro a touca os óculos as botas o fato. Seco ligeiramente o corpo, visto o biquíni, penteio o cabelo, ponho o panamá , os óculos graduados e deito-me e de barriga para cima à espera que o sol reapareça para me aquecer.

[Oscar Lagos Rios foi visto pela última vez no regimento Tacna de Santiago. Ferido em La Moneda, juntamente com outros elementos do GAP, foi brutalmente torturado pela soldadesca.
Amarraram-lhes as mãos com arame farpado, suportaram os interrogatórios mais inumanos e degradantes…e nenhum deles falou, entregou ou traiu aqueles que ainda resistiam]

E enquanto assim estou vou pensando
[Algum dia se escreverá a verdadeira história e então os audazes ocuparão o lugar a que tem direito]
Sonho...levada pela mão de Sepulveda.Que não escreve.Esculpe a pedra da memória.
Chamo-me M.R.

domingo, abril 25, 2010

25 Abril 2010-04-25

Em Portugal
De novo os corvos debicam
Os restos.
O povo calado,
Já pouco ensaia o gesto.

Deixo secar as lágrimas
Mas não o sonho
Da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade,
De um mundo novo.
Só secando as minhas lágrimas
Poderei ver as do meu POVO.

Coragem Amigo
Coragem Companheiro
Chegada a hora,
Num outro «abril» qualquer
A gente ainda sabe o que quer
Ainda sabemos dizer não.
Sairemos de novo à rua.
Cravo rubro erguido
Passado de mão em mão,
A clamar
Grilhetas de volta ?!
Não!
SF(Abril 2010)

segunda-feira, abril 19, 2010

Por vezes acontece…

Engalinho com aqueles tipos que estão sempre a citar autores célebres.
Mas que faz um jeitão ás vezes tê-los na ponta da língua, lá isso vale. Nesta idade, de vez em quando ainda apetece ser simpático com as da nossa idade. É vício.
Sucedeu há dias ver uma cachopa toda esfrangalhada pelos anos e, julgando ser – ou querer ser – simpático, disse-lhe :
- Ainda estás toda jeitosona …,galante-ei,
Ao que, mal encarada como sempre foi, me respondeu:
-
já eu não posso dizer o mesmo de ti…
E foi então que me acudiu Bernard Shaw para lhe responder:
-
Podias ao menos mentir como eu..….
….e fui á vida,gaita.
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Sabedoria…

Ao ver aquela desgarrada da Comisssão de Inquérito, não deixo de me recordar e pensar na sabedoria dos velhos:

A sabedoria consiste em saber que se sabe o que se sabe, e saber que se sabe o que não se sabe..

Pois é .Hoje é raro encontrar dos primeiros. E dos segundos, então ?!..., nem pensar encontrar um para amostra.

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Porque se recorre ao palavrão?…

O que é que se diz quando um galo se põe em cima de uma galinha …e esta se agacha:

-Gala-a…

Ora assim sendo a natureza descrita, com tanta justeza e simplicidade no verbo, não se deveria dizer que quando um homem se deita com uma mulher:

- Home-a ?...

E pronto : assim acabavam-se os palavrões…e eu ao ouvir Pacheco Pereira na Comissão já poderia dizer ,alto e bom som:-
vai-te homer.

Aladino.

domingo, abril 18, 2010


Sócrates e Jardim
É bem certo.
Não faltará muito e ainda verei o Sócrates vestido (despido ..) de Zulu em saltadouro simiesco ,acompanhando o cafre da Madeira.
Agora é caso para nos interrogarmos: de quantos disfarces se veste a corrupção ?

A política é toda ela um agente activo de corrupção. Se mais não for :- de corrupção intelectual, e ou, ética.
Estás perdoado RE, quando me fizeste o convite. Eu é que ando errado.
A pensar que tanto se é «puta» aqui – na T.L- como em Lisboa ou na Madeira.

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«Habemos Papa»

Pois tinha razão Ramalho Ortigão, quando perguntava aos seus leitores se conheciam o peixinho vermelho que anda ás arrecuas?
O Papa parece um peixinho vermelho. Porque continua a encobrir a porcaria ,a justificar os dogmas e a esquecer que se estes ficaram sempre na mesma , o ser humano, esse , foi avançando sempre…sempre .A ciência vai fazendo o seu caminho e quem não se adaptar a este progresso, cairá no negrume dos tempos.
O Papa -glosando Ramalho – finalmente (!) é mais vermelho do que o caranguejo. Porque este só o fica depois de ser cosido. E o Papa é vermelho, já em cru.
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As ideias deste tipo entopem manilhas de esgoto…..

Somos um país de tristes, de piegas despeitados, de choramingas.
Ouço aquele mentecapto do Medina Carreira a vomitar estatísticas que nada provam ,nem nada esclarecem – porque reduzem este País a um estado circular, imune ao que se passa á sua volta - ,a dizer semana após semana, mais do mesmo;este aplauso( pelo menos a merecer tempo de antena,semanal) cria-me vómito(gómito!).
Este tipo de reaccionarismo primário, onde se prenuncia o País sem conserto, e nos pretende fazer acreditar que naquele tempo onde se glorificava o inculto, « ontem» é que fomos …e nunca mais o voltaremos a ser… ,chateia-me.
OH…Medina lembras-te da tua receita (?!!!) : -para diminuir a divida publica vamos passar todos a andar de burro para não gastarmos gasolina ?!
Aposto que já não se lembravam (desta) genial ideia do então esperançoso Ministro pós-25 Abril?.
Este tipo é como as pilhas duracell :- dura…dura… ainda que sempre a piscar o olho(esquerdo!)

A
ladino

terça-feira, março 09, 2010

Hoje ainda …mais só…

A paz e a inquietação, habituais.
A paz de quem voltou costas à vida.
A inquietação de quem dela quer mais!.
Ir ou ficar?
Tomar a posição da inércia, ou assumir movimento?
Essa a difícil decisão deste solitário momento.
Paneio como a vela da barca da vida
Preso ainda ao chão, mas prestes a voar.
Oh! como seria boa a vida, a durar
E nós dois sempre, aqui, a não perceber que passava.
A fazer de conta,a olhar
Além do orvalho o gemido, o eco latente de quem se afastava.

SF (8 Março 2010)

segunda-feira, março 01, 2010

Para fazer esta borrada, bastavam dois dias…

Era meu dever visitar alguém muito próximo de quem temo ser evidente a separação próxima. É sempre arrepiante. Aquele género de conversa de querer convencer quem não está mesmo nada convencido das nossas esperanças. E como esteve sempre habituado á nossa sinceridade parece nos censurar, «agora».
Às tantas pergunta :
- Acreditas mesmo que «Ele» não existe?
Ensalivo , tento ganhar tempo, mas decido-me:

-Sim !...E cada vez mais. Olha !... se o encontrares primeiro diz-lhe da minha parte que para fazer «esta borrada» « podia ter, só e apenas, trabalhado dois e descansado os outro cinco». Podia ser que as coisas tivessem ficado mais entregues a cada um.

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Morte é fim único,superior?

Há quem pense -e eu já tive essa fase - de que a morte é um acto único. Morre-se naquele instante. Já está…
Ora eu penso que não. A partir de muito cedo começamos a morrer devagarinho. E depois ás tantas embalamos assustadoramente. Até que na continuação, acontece o ultimo acto.

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Responsável pela Natureza?...quem é afinal…

As declarações do Sr Bispo do Funchal deixam-me apatetado. Então ainda há argumento para culpar a Natureza e perdoar a «Deus»?
Mas quem é o responsável pela Natureza -como por tudo o resto?
Então se é responsável que Lhe preste mais atenção, é o mínimo exigido.
Porque não desviamos a conversa , acusando - sei lá!..-,o Primeiro Ministro de fazer chover ,proibindo o «Sol» de sair?
Ao menos assim, já teríamos um arguido.
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Escutas ao «Céu».JÁ!...

Que pena que as escutas ainda não tenham chegado ao Céu. Assim poder-se-iam detectar as ordens transviadas de uns amigalhaços que traem o chefe dando ordens em seu nome.
Porque eu vou lá acreditar que Deus pudesse dar ordens destas?!.

Aladino

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Em que por assim querer, estamos


Sou o homem de olhar acinzentado
Que segue a mulher insinuante
De cor de canela que surge do império.

Já não olho para a sua silhueta, surpreendentemente, pasmado.
Mas para o que retenho da imagem que se foi dissolvendo.
A luz não me ofusca porque dela apenas retenho a miragem.
Interessa-me pouco por onde foi, o que fez, ou onde andou. A sério…
É um enigma de que perdi o desejo. Voltar a descobri-la.


Vou jogando com ela à batota.
Falando de coisas que podiam ser, mas não são.
Como nós também já não somos, não há batota.
Há um terno de mãos que não se mostra. Finge-se.
Ela joga comigo estranhos jogos florais.
E às vezes a vida. Eu não.
Melhor deixar repousar a poeira do passado
Que ficar com os olhos doridos do presente, ausente.

Sinto por vezes que sorrimos. Ou choramos?
E que insinuando, sem nunca o dizer
Lembramos esses anos que nos fugiram.
A noite de ausência em que por assim querer, estamos.

Aladino (fev,2010)

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Regresso

Provo o sal do tempo
No teu corpo
Reencontrado.

Percorro as montanhas ocultas
No teu corpo
Recomeçado

O regresso.


SF (Fev 2010)

sábado, fevereiro 13, 2010


Matar a Democracia…parece ser« interesse público»

Reina a mais absoluta e desbragada..e intolerável, leveza do ser ,em Portugal.
Já ninguém tem vergonha. Já ninguém acredita em ninguém. Já todos perceberam que transformámos – ou deixámos transformar este País -no maior pardieiro, onde nem eu nem Tu ,temos o direito de dar um traque …Porque o dito..silencioso ou espatafurdiamente sonoro, ressonante e requebrado,flauteado, virá amanhã esparrachado no Orgão de Comunicação Social libertário(ou libertino?!),próximo.

Hoje é o dia dos namorados. Na comunicação social -não sei se repararam?! – apregoam-se mezinhas para tratar uma pandemia que parece grassar no País: - a disfunção eréctil…
Não sabia -felizmente! - que este surto pandémico grassava por aí com tal intensidade. Embora desconfiasse…pelas consequências.
É verdade.
Isto é já um País de sujeição à gravidade. Incapaz de se levantar. Perdido no diz-se. E alegremente sorridente na inconsciência com que vai para o cadafalso.
Recebo diariamente de (amigos)radicais, informação sobre textos «reaccionários».(sim porque o radicalismo é sempre reaccionário!) .Enviam coisas de que lêem ,e com que se masturbam.
Eles que me desculpem. Eu não transcrevo. Tento reflectir. Penso por mim ,não preciso que outros me indiquem o caminho.
Muitos desses já nem se lembram da PIDE:-entrávamos no «Trianon» e até sabíamos a mesa onde estavam os esbirros. Íamos ver a televisão ao «Santos», e logo que descortinávamos os «informadores» fascistas frequentadores do «Café Berlin».Tomávamos cuidado. Eu não. Afrontava-os. E cheguei mesmo a ir á cara de um deles, o cap Barreto, figura patética, embirrenta, lembrando as SS, que se deve ter mijado quando o afocinhei nos bolos do «Manuel Cova».
Ridículo foi o que aconteceu, muito mais tarde. Patético.Já aqui contei.Volto a...
Connosco ,semanalmente, confraternizava um «verdadeiro»revolucionário».No processo da PIDE recuperado pós Abril, boquiabertos(eu e família) demos com o nome do informador que era recebido, e recebia, os cabecilhas do reviralho distrital. O agente da Pide, o «Tavares Pinto».
Constatei no meu processo (recuperado) que afinal o tipo até me tinha em alta consideração!!!. Não só considerava e fazia anotar, eu ser um elemento «altamente» perigoso para o regime, como elogiava a biblioteca que dizia eu ter(Marx,Fidel,Rosa Luxemburgo,Engels etc etc), porque até era verdade, eu lhe emprestar uns livros, que em determinada altura tive de esconder em casa do meu sogro (do que ele deu conta aos patrões).Coitado: era um pobre diabo…
Vem isto a propósito desta nova PIDE instalada no País.
Agora,nem eu nem Tu,reconhecemos, ou desconfiamos do PIDE boçal .Agora és escutado por «uma PIDE» que tudo sabe. E que nem te leva para o calabouço. Não!...abatem-Te na praça publica sem direito -ou presunção – de defesa. A tortura física é muito mais suave. Esta agora mata, porque é indigna.
O País é um lameiro de corporações. Ora a corporação jornalística é das mais reles. Sei-o de fonte sabida. Quando foi preciso «vender», comprei muitas vezes o espaço. Esmolas. O que será,hoje, com os interesses na grande comunicação Social.
O País hoje rende-se a uma «desbocada» Manela & Marido. Que entrouxaram milhões de euros, e se estão a rir dos peralvilhos, preocupados com a perda da dedirrósea aurora da liberdade . O arrastado Crespo, segurou o programa onde defeca lugares comuns, apregoando …o que ..outro…ouviu. E um Saraiva putrido, que se vende aos interesses da família Santos, como se venderia aos interesses de Bin-Laden para fugir ao falido projecto «Sol» ,brinca com uma justiça em nome da «Liberdade».«Liberdade?...» afinal o que és tu...apetece perguntar chegados,aqui,ao fim da linha.
Dizem que o interesse publico, é quem mais ordena!!!
Pois : até em nome desse interesse se pode matar. O quê
?
A DEMOCRACIA…
Aladino

  VIDA CUMPRIDA:... Ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, desenvolvi,a convite honroso, a palestra: “ As Artes da pesca no Norte ...