terça-feira, junho 28, 2011





O lanço na Xávega
2ª Parte
Pousado e aquietado o meia-lua que fica a dormir na sua cama de areia estreme, quente e asseada, emborcada uma cervejola, eis que todos se preparam para o alar da rede.

Sem movimentos nem correrias tudo é feito com método e precisão (a mais!). A correr devagarinho.

Dois tratores vão colocar-se voltados a Sul, distanciados um do outro, cerca de trezentos metros. Ambos na parte de trás (a ré como lhe chama o arrais) têm montado um engenhoso sistema de tambores accionados pelo veio motor, dispostos segundo um triangulo isósceles de modo a diminuir a tensão sobre os cabos de alar. Numa velocidade constante o «guincho» improvisado vai metendo cabo: o «reçoeiro» a norte e a «mão da barca», a sul, distanciados cerca de duzentos/trezentos metros. De imediato dois camaradas vão colhendo para um carroço (a cada cabo) o cabo alado, enrolando – o, preparando-o para nova emposta.

Não demora muito (30 minutos, talvez) a serem avistadas as bóias (que substituem os pipos- as «calimas» brochadas de branco alvo - de antigamente) que sinalizam os «càlões». Os veraneantes, que são muitos, aproximam-se, curiosos ,da beira do mar.

Entretanto o trator lá do norte, paulatinamente, vai-se aproximando do que ala a «mão da barca», de modo a ir fechando a «bocada». Surgem os «càlões» e logo a seguir o «claro» e o «regalo»,

   

 das mangas(«tralha»), cuja cor do encascamento» ,de um vermelho salmão a deslizar sobre a areia, oferece uma excelente imagem.

   

 Logo dois camaradas metem por baixo o «estacão» de modo a evitar que a rede sofra o desgaste na areia.Quando as mangas chegam ao tambor de alar, dada a volta, deslizam como que enroladas (um chouriço).

A «bocada» sai já do mar e monta o declive da praia. Quando o saco está já todo no areal (mas não tanto que não recebe beijos da água fresca das ondas que escachoam para manter vivinha a pescaria), o arrais monta-lhe em cima, plantado em pose de gladiador sobre a presa, postada a seus pés.

Surge – lhe na mão um navalhão bem afiada. Um desconhecedor da faina ao olhar para aquela figura, rapando da naifa de umas cinco polegadas, ficará a pensar que a presa se terá revoltado. Coitados dos peixitos cuja cabeça aflora por entre as malhas, bocas escancaradas, olhos a querem saltar-lhes do corpo aprisionado, aflitos, à procura de mar que lhes fugiu.

Desta vez o saco negro pouco bole. Advinha-se a escassez do que contém. Como dizia aquele celebre capitão quando via surgir assim uma tão escoada sacada: «Olha caga no lanço». Tantas vezes o repetiu que hoje carrega com a alcunha.



Pescadores e mirones rodeiam o saco como que a avaliar o seu conteúdo. Os veraneantes vindos a banhos, olham indiferentes; os pescadores, os actores de todo aquele quadro humano, esses, de cara magoada, espelham o desalento estampado na tez tisnada pelo
Confrange olhar aquele espectáculo, simultaneamente belo pela intensidade expressiva como medonho pela dor que o atravessa. Retenho-o, pensando para comigo que o medonho é uma face do belo. E que estes minutos ficarão para sempre gravados em mim. Amanhã eles estarão de novo com a mesma alegria, com o mesmo entusiasmo, com a mesma fé, prontos a partir de novo. A vida destas gentes é uma ode ao querer, à perseverança.

Mas seja com seja, o arrais de um supetão rompe a virgindade da coada, extirpando-lhe o «porfírio»,


                          

 deixando á mostra o ventre onde saltita, estrebuchante, o peixe de um prateado (e por vezes dourado) que se aviva ao reflectir a luz intensa do sol. Miríades faiscantes refulgem daquele amontoado de vida a pedir que a devolvam ao mar. O saltitar do peixe produz um barulhento rumor que pouco a pouco se esvai.
 
Aproxima-se já o trator trazendo a reboque um carroço, que faz a vez  de «enxalavar» de outrora,de rodas largas puxados por uma parelha de cornígeros animais, e onde se alinham cabazes de plástico, amarelos, que vieram substituir os «jigos» de outrora.
                            
 
 Um moço empunha o «xalavar» (uma das poucas ferramentas que ainda subsiste) e mergulha-o no peixe, trasfegando-o para os cabazes. Estes alinham-se e todos começam a efectuar a operação da escolha: sardinha (tão pouca!) para ali, biqueirão (substancial apanha) para outro, tainha de pinta amarela (negrão), vivinha, para aquele do canto. Mas o «pilado», aquele espécime de caranguejo de um rosa marfim, que no antigamente ia para «escasso» adubar as terras, e com que nós, miúdos, enchíamos o balde de praia, para depois os coser, agora é escolha de primeira. Arrecadado do primeiro ao último. Porque é escassa a quantidade que vai direitinha para iscar o anzol dos pescadores de assento, que o pagam principescamente.
                    


Feita a escolha a venda é feita logo, ali. É tão pouca a quantidade que o turista pega em tudo. Nem sequer a disputa do pregoeiro que cantarolava os números em decrescente, e atentava aos sinais dos mercantis, gritando «Chui!», agora merece a pena. O esfalfe. Guarda-fiscal, nem Vê-lo. Ao menos a pescaria tornou-se mais democrática.

Estranha e surpreendentemente, o biqueirão, é o espécime que desaparece num instante. A sardinha, este ano, ainda não pinga no pão. E da mulher só tem a pequenez. Falta-lhe ser gordinha. Pequena e com falta de gordura, não é, ainda, de todo em todo, aquele petisco que emprenhe um home.

Duas enormes medusas gelatinosas ficam na praia. Alguém tocado de alma, as virá devolver ao mar.

Olho para as contas. E arrepio-me. Num repente ponho-me a calcular. Concluo que o apuro pouco mais terá dado do que para pagar o combustível.

Então interrogo-me: porque é que aqueles arrais, que de inverno andam nas robaleiras da Costa-Nova, onde fazem belíssimas marés de milhares de euros de retorno, saltam para a beira do mar, engolfando-se com o meia lua, a dançar com ele na vagalhoça, num destemido e por vezes desatinado desafio ao mar, tendo por paga tão escasso aviamento ?!.A empobrecer alegremente?

 
(Cont)

domingo, junho 26, 2011


Um lanço na Xávega



No sentido de relembrar tempos antigos e saber como funciona a Xávega nos dias de hoje, aprazei com o arrais Zé um embarque, para dar um lanço, no mar da Vagueira, onde o que resta do que foi uma grande companha, vara ainda hoje, ali, o seu barco de Xávega.

    

Às cinco da manhã já lá estava, como me fora ordenado. Cedo demais. O arrais deu para brincar comigo. No areal apenas eu e o barco, no lusco fusco da madrugada, que prometia um dia de sol intenso. Atentando melhor dei com um espectáculo interessante e pouco vulgar por estas bandas. Um casalinho aproveitava a noite quente(!) deliciando-se com a frescura das ondas, no matar(ou atenuar) o fogo que neles ardia impetuosamente. Nus lavar  se deixam na água pura. E brincavam (se brincava!...) na cálida cecém da matina ,dispensando qualquer cobertura para «as suas vergonhas»Claro que nada se importaram comigo. E eu retribui o gesto…(ainda que com babada inveja) .Adiante…

                      

Com o mestre que só apareceu lá para as oito, aprazei, finalmente e seriamente, a hora de embarque. Duas da tarde, logo após almoço.

Às duas e meia ,o trator que substitui os bois que antigamente puxavam o xávega pelos «arganéus» ( o trator  dispensa tudo isso, e mesmo a « muleta») leva de zorro o meia lua, «O Novo S. José». Um pequeno meia-lua de 2R (que só leva os remos por precaução,não para uso),pouco maior que uma «robaleira».
 Chegado o S.José à borda ,   



                 
com a água a chegar-lhe à focinheira, logo obedeço à ordem peremptória: «Salta».E logo eu e mais quatro «camaradas», lestos e decididos, galgámos o bordo, e entrámos na embarcação .
          À ultima da hora ainda se juntam a nós mais dois rapazes. O local que me é destinado é o do antigo «vareiro»: na bica ,com os pés na «sacada» que agora segue no paneiro de proa(aonde antigamente iam os «camboeiros»),bem arrumada .

                           

O trator, tal como a parelha de bois de antigamente fazia, entra mar adentro dando um ultimo empurrão, o que o obriga a ficar com boa parte do rodado anterior e motor, debaixo de água (como sucedia antigamente aos bois).O moço ao meu lado que olha atentamente a vaga que «lá vem» grita: é agora.Vamos!...Vamos… dá-lhe gás.E a embarcação impulsionada pelo potente motor de 80CV (os remos vão amarrados pelos punhos aos «trastes») rompe a vaga ,encabritando-se ao de leve, com umas meigas e pouco convictas vagalhoças, dando pouco tempero à aventura (para mais tarde recordar).

           
   Dia espantoso, com o sol a esparramar-se por todo o mar de um azul intenso e vivo, que mostra uma ondulação fraca de 1m. O mar nada bole.Apenas uma ligeira ondulação como a querer  dizer-nos que está vivo.Só que adormecido.E a luz intensa parece concentrar-se numa larga estrada que vai até ao fim do mundo.O mar é imenso!Maior (!), só céu que nos cobre ,azul ,muito azul,só que um pouco mais desmaiado .
O «reçoeiro» que liga a embarcação a terra, corre veloz sobre a alheta de BB, de ré, enquanto nos dirigimos um pouco para norte. Vogamos paralelos á praia, dela distanciados uns bons 100 metros. Percorridos cerca 300m a norte, guina-se para fora, rumo a Oeste .

  
Largam-se os 1200 metros do «reçoeiro» antes do «càlão» ir borda fora. A este liga-se uma bóia de sinalização, presa a um chicote de 30/40 metros. .A «manga» da rede difere das antigas por não ter «cortiçada» (sendo por isso «menos boieiras»), pois que o cabo de nylon flutuante faz o mesmo efeito.Tem 300 metros de comprimento. Na parte inferior,no «promeu», leva a «chumbada» para arrastar a varredoura pelo fundo. Neste aparelho já não existem as «pandas»,malhas de barro de três furos, que antecederam as chumbadas fazendo o mesmo efeito que estas(afundar o «promeu»).

É chegado o momento de o arrais gritar ao moço: «à borda».Com isso quer dizer que a «sacada» e a «coada» devem ser ajeitadas sobre a borda de estibordo, de um modo impecável, para permitir o seu corrimento sem ensarilhar. Guina-se entretanto para sul. Chegada a vez, o saco sai pela alheta de bombordo a toda a força (nota-se neste momento um particular e intenso esforço, pedido ao motor, com o fim de abrir a «bocada» ).Colocada  a sacada no mar , segue a «alcalena», e o resto da manga do sul:- «caçarete» ,«regalo» até chegar ao «claro» que antecede o «càlão».

     
Presa a este, começa a sair a «mão da barca»,o cabo por onde a rede vai ser puxada para terra (e pelo «reçoeiro»). O «Novo S. José» ruma então já a terra. Para trás as bóias: da «coada» ao centro ,e as dos «càlões» ,a norte e a sul. Quase chegados o arrais faz a pergunta :
-Astão mestre (que sou eu..)!.Eu até me esqueci de lhe praguntar : vossemecê sabe nadar ou não?.

Apeteceu-me responder-lhe como o Ançã : pissalho!
Eu um descendente (?!) do arrais Tomé Rhonca,o tal que ia ali às Américas a nado enquanto a Maria preparava o conduto,não havia de saber nadar? Hòmessa ,crendas lá ber ...Mas o bom homem não o fez por mal. Melhor seria prová-lo .Rápido tiro o boné a e T-shirt e mergulho do «castelo» no mar. Faço os últimos 100 metros a nado ao lado do S.José. Outro camarada, entusiasmado, salta, ele também, e acompanha-me.
                    



Na praia um monte de veraneantes recebe a embarcação que rapidamente é atrelada ao trator que a leva até às dunas.Lá no cimo é voltada ,prôa ao mar,pronta a meter de novo o redame.
                          

    

Reunidos antes de se começar a alar o redame, digo-lhe:

-Tome para uma cerveja com os camaradas---

-Rosa! Vá … vai à loja buscar umas cervejolas. C’a este camarada é companheiro. Vai num pé e vem no outro.

Esta simples mas tão acertada, como subtil, diferença, martelou-me os ouvidos pelo dia fora. Vá-se lá perceber como é que um homem simples clarifica tão bem a dicotomia entre camarada e companheiro. Que grande lição….Anda para aí tanta gente sem o perceber.
Fico a matutar.Que gente é esta,o pescador da xávega, hoje?O lavrador que desceu á borda,humanizando e ruralizando o areal, já partiu ,hà muito(?!).E levou com ele os bois.O espetáculo perdeu força e movimento.Perdeu beleza. 

(Cont)









                             




                         







terça-feira, junho 21, 2011

Dia curioso


Atente-se:
1-na resposta do novo Ministro das Finanças quando inquirido como iria ser:

- Oxalá tenha sorte.

Bom pronúncio. Um que já percebeu que aquele lugar já não depende das suas decisões …mas da sorte. Quer dizer: do que a Alemanha e investidores sem rosto, decidirem. Chama-se a isso :-sorte.

Mostrou saber.Promete.  A sorte não lhe falte.

2- Jorge Coelho na entrevista dada a RTPN dizia que em todas as Organizações é preciso que os exemplos venham de cima. Não entendi o que aquele camarada e colega quis dizer.

Que raio de exemplo dará J Coelho na sua empresa, que sirva aos de baixo  ?!. Especialmente nas remunerações.

É preciso lata…

3- Pinto da Costa deu lição que deveria levar o nosso Primeiro-ministro a repensar. Uma crise resolve-se com decisões rápidas e calculadas. Pinto da Costa deu um baile à classe política. Estratega, calculista e previdente, sabe tornar as potenciais derrotas, em superiores e incontestáveis vitórias. A única coisa em que os políticos parecem ter aprendido com ele é a da recolha de trocos.

Que raio : com tão excepcionais treinadores, porque os não aproveitamos colocando-os nos Ministérios mais sensíveis? Já viram o que seria um Mourinho Primeiro Ministro? Alguma vez Mourinho escolheria um Nobre para ponta de lança? E claro a um Portas o lugar seria o do banco ,e pouca conversas. Estratégia?- : pressão alta, boa cobertura na área decisiva e depois ir lá fora mostrar como se ganha.

4-Defino uma mulher pelos tornozelos. Por isso fui ver a nova Ministra da Agricultura de perto para lhe apreciar a crista. E embora a dita pareça ter a crista deslocada, o certo é que moça promete. Tens uns tornozelos do outro mundo. Prometedores de que tudo com ela será possível….

Terá pois, é, de pensar com os pés…

Não percebendo nada de agricultura, dixit, garantiu aprender tudo muito depressa. Vamos lá a ver como aprende no bouquet.Claro nas provas dos vinhos. Ou no que estão por aí, já a pensar.

Aladino

























domingo, junho 19, 2011

Já assim era em 1540


Uns andam convencidos que só agora, este país se defronta com gravíssimos problemas.

Um desconhecimento absoluto da nossa história, o que é grave.

Atentemos no que nos dizia Luís Mendes de Vasconcelos:

«Nós (dizia) deixando tudo á disposição da natureza …se a não a ajudarmos com o nosso artíficio e diligência ,virá a faltar por culpa nossa a abundância que da sua Providência estava certa. Por não adaptarmos o trabalho agrícola às condições do país em que vive a Grei, e por não corrigirmos o ambiente geográfico com o nosso artificio e diligência não colhemos da terra o que se deveria colher; por pouca elaboração dos problemas da pesca, não nos dá o oceano o que nos poderia dar; por carência de um bom sistema de educação pública, por falta de difusão de uma instrução primária (pois não está o povo desde que existe deixado à disposição da natureza?)não tiramos partido dos dotes inatos de numerosas aptidões que a natureza pródiga faz surgir nas vilas de Portugal»

Ora isto foi escrito cerca de 1540.
Hoje poderia repetir-se o discurso.Assim foi e vai continuar,a ser, este nosso país.

Aladino

quarta-feira, junho 15, 2011


A vida continua…apesar de…




A vida –e de que me queixarei eu (?!),que outros não tenham muito maiores razões - parece-me cada vez mais aquela entediante viagem ao encontro da «ilha» perdida, barco a navegar entre vagas descontroladas, açoitado por ventos por vezes medonhos. Fatigado pela solidão de tanto mar, por vezes apetece-me mesmo que a viagem finde.E o farol se apague.

Continuo porém…Não vá alguém ousar dizer que de outros não «cuidei».

O tempo vai correndo. Esvai-se e não torna mais. E se tornasse, pior!Não tornava a idade.

E eu ficaria sózinho na praia, a olhar para o mar o silêncio da luz!

SF  (junho 2011)

terça-feira, junho 14, 2011

Quando o sal,não salga…






Todos os nossos maiores das letras tiveram a perspicácia q.b. para entenderem e reflectirem sobre o «seu» tempo. Incrível como ao ler Camilo, Eça, Ramalho e ou Aquilino na análise que fizeram ao seu tempo (à porca da politica do seu tempo) encontramos, mais coisa menos coisa, retratada a sociedade de hoje. Por isso aquele autores parecem-são!- intemporais.


Ontem , já bastante tarde, tratava eu para o livro de João Sousa Ribeiro ,um dos mais notáveis aveirenses de sempre -senão o maior como tentarei demonstrar - do sal negro que deixou de salgar na crise lagunar do Séc.XVIII. Acudiu-me o sermonário do P.António Vieira.


Veio-me á ideia esse extraordinário cerzidor das letras portuguesas – quiçá o maior - o Padre António Vieira, que leio quando afrontado com as porcarias que se vão publicando por aí, revisitando-o amiúde para me retemperar. Nunca me farto de o reler na apreciação do idealista, do político, do missionário, do patriota, na sua incrível dialética ágil e inteligente . Apeteceu-me pregar-lhe uma partida .E adaptar um sermão seu – um caldo como diria Camilo -á minha leitura actual dos acontecimentos .


E então é assim, na minha versão livre:




O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está este País, havendo nele tantos que têm oficio do sal, qual pode ser a razão desta corrupção.?

Ou é porque o sal não salga -é preto -,ou porque o País se não deixa salgar. Ou será porque o sal não salga e os políticos não pregam a verdade das suas ideias; ou porque o País se não deixa salgar ,e o Povo ,ainda que sendo verdadeira a doutrina que lhes é oferecida, não a querem? Ou porque o sal não salga e os Políticos dizem uma coisa e fazem outra; ou porque o País se não deixa salgar e o Povo quer, antes, imitar o que eles fazem e não o que eles dizem ?!

Ou é porque o sal não salga, e os Políticos pregam não a doutrina, mas a si mesmos ?

Ou porque o País se não deixa salgar e o Povo em vez de o servir, serve os seus apetites?

Suposto então que o Sal não salgue ou o País se não deixe salgar o que se há-de fazer a este sal, e o que se há-de fazer a este País?

Ora terminava Vieira respondendo à pergunta: se o sal perder a substância e a virtude e o politico faltar á doutrina e ao exemplo, melhor é lançá-los fora.

SF Junho 2011














sexta-feira, junho 10, 2011

Poder de novo voltar a ser...Mar...



Olho a tua grandeza
A imensidão das tuas lonjuras
E de um modo absurdo
Sinto que (ainda) existo
Num passado que foi teu.


 Sinto-o no desassossego que me causas
Sinto-o na pequenez que me rodeia
E apetece-me perguntar:
Porque nos não ajudas
De novo a cumprir Portugal ?

A partir para achar,
Cá dentro,
A árvore, a flor, a praia, a ave e a fonte
A encher de esperança as horas navegadas
Para assim ultrapassar o medonho.


Galgar valas, subir encostas, ondear os montes
Em conquista de novo o sonho
A recuperar altivez,
E entre o chão encontrado e o império perdido
De novo, tão só, voltar a ser português.

A desejar querer
Poder de novo ser
Povo de um País amanhecido.


SF (Junho 2011)





domingo, junho 05, 2011


Alternância não é exactamente prática de «alterne»



Os resultados eleitorais mostraram uma vontade inequívoca dos votantes. Mas também –e não menos importante -mostraram uma vontade inequívoca dos abstencionistas,que tiveram -eles só!-maioria absoluta.

A Democracia segue – ou espera-se que siga- ,por outros caminhos .Esperemos que é chegada a hora de a ex-oposição fazer o que sempre afirmou saber muito bem.

Sócrates saiu pela porta enorme. O discurso dele só terá comparação nos de Churchill,quandosaiu para voltar aos ombros ano mais tarde.

Viva a Democracia.

AH!!! Eu devo dizer que, desde que me conheço, sempre fui do Belenenses. Hoje ainda exulto e ou sofro com as suas vitória ou derrotas, ande por onde andar. Transfuga é que nunca. Cá ficarei.

Sou assim mesmo : já vi tantos a passarem por mim para a esquerda que hoje é altura de ver muitos mais trânsfugas a correr para ver se ainda apanham o andor da direita.

E pronto: querias mais comentários? A moral deste acto eleitoral onde uma esquerda do mais estúpido que há deixa conduzir o País neste sentido irreversível, merece avaliação histórica no futuro. AH!!!!!! agora já ameaçam com a força da rua. É o que lhes dá sobrevivência.

Caros: se sentem azia, raptos febris, ígneas visões sobre o futuro: -dissolvam cânfora numa colher de óleo de rícino, e tomem a mistela de meia em meia hora. Verão os efeitos.

Aladino

domingo, maio 15, 2011

Pois . Já se percebe como tudo isto vai acabar...

Pois é verdade. Um dia ainda chegaremos à conclusão que Sócrates foi o maior.

Reparem na excelente lição, de como falando tão simplesmente chegaremos à triste conclusão de que caminhamos para o abismo. Não apenas nós e não por causa do Sócrates. Mas por causa do sistema. Como venho alertando as campainhas já soam nos EUA. De volta a crise, aproxima-se Foi lá que em 2008 tudo começou. Agora vai ser pior.

Em 2008 a receita era mesmo a do défice publico.

Aqui uns doidivanas mal aconselhados atiraram-nos para a fogueira. E agora?


No dia 5 ,ou me engano muito ou vamos ter mais do mesmo. Estaremos pior do que estávamos. Continuo pois a pensar: ainda a procissão vai no adro. O pior está para chegar.

E é verdade:tarde ou cedo temos de renogociar algo.A divida ? Os Juros? Quando tudo entrar em incumprimento ,não resta mais nada....Nós e todos!!!

Aladino

 

segunda-feira, abril 25, 2011






Há emoções que perduram, indiferentes ao tempo.



E que esperam até hoje


O desfecho.


Pois estou decidido:

Fico por cá …sempre no mesmo sítio, a aguardar.


Preso ao chão - a voar….

SF 25 Abril 2011

domingo, abril 17, 2011


Descrição de Ílhavo em 1758

( Em tradução livre inserimos uma curiosa descrição de Ílhavo feita em 1758)



Antes que façamos o detalhe e descrição dos lugares da Freguesia, pede a razão e boa ordem que primeiro a façamos da vila .Consta esta de uma grande e Principal rua ,que principia no sítio ,ou bairro chamado de cimo de villa ,e se estende ,e discorre por quase meio quarto de légua até á malhada ,ou posto geral de barcos. Em toda esta extensão tem infinitos becos de um e outro lado ,que chamam carris ,e vielas, com inúmeras casas ,e casinhas ,quanto baste limpas ,e asseadas à maneira de células de abelhas, habitação da plebe. Tem alguns edifícios e casas de sobrado com distinção ,mas poucas. ao longo das casas, ue fazem face para o poente corre a calçada por onde a gente ordinariamente se serve com bastante largueza; e por baixo é o resto da serventia de carros ,que vulgarmente chamam o rego, a causa da água que por ele continuadamente corre, nasce, e transpira dos lados por ser o centro húmido, e por essa razão menos saudável..Tem mais outra grande rua chamada de Espinheiro ,que corre de nascente a poente e vai acabar pouco distante do rio, em um porto chamado Juncal Ancho ..Quase no meio da villa fica a Praça publica bastante pequena para o tráfego das gentes, e comerciantes, que a ela concorrem. É contudo provida de todos os víveres assim da terra como de fora. Ali estão a casa da Câmara ,e Paços do Concelho, tudo muito suficiente, e capaz principalmente depois que se lhe acrescentou um quarto novo pela parte de trás. Nas lajes ficam as enxovias, excepto do quarto novo que se destinou para açougue.
(...)
Adverte-se que o nome de Ílhavo se deve pronunciar esdrúxulo , com acento na primeira e não na ultima como alguns menos advertidos na Corte erradamente pronunciam.

(…)

Um certo Domingos da Cruz, sacristão que foi da Matriz que se gastava de bom humor fleumático, costumava ,e a próprio cérebro ,formar e fingir etimologias dos nomes das terras. E chegando a Ílhavo dizia ele que a origem (fora) porque sendo a Chousa Velha (um lugar vizinho),povoação mais antiga, era nesse tempo Ilhavo,Ilha ,ou terra aplanada e pantanosa, e que na tal ilha ,ou paul criavam muitas AVES,OU ADES,E COSTUMAVAM OS MORADORES DA Chousa Velha ir tirar-lhe os ovos. Sucedia pois que uma velha ir com um neto que tinha a mesma diligência, e quando se descuidava, o neto costumado

Notas - A praça era o largo do Outão.A casa da Câmara era a actual casa dos herdeiros do dr José Balseiro.O Juncal Ancho, perto do Curtido, deu o nome à ponte.

SF Abril 2011



quarta-feira, abril 06, 2011

Ora aí está :a tempestade perfeita.

Tenho vindo a pregar no deserto. O problema das dívidas soberanas, versus especulação, está a tingir dimensão tal que acabaremos mergulhados numa catástrofe trans- nacional.

Anda para aí numa discussão do sexo dos anjos. Há muito que clamo que o problema é Europeu, e que a bancarrota não é de um país periférico, e pequenino, mas de todos eles, uns atrás de outros .A moeda euro cairá por aí abaixo e o colapso bancário será inevitável.

Ma atente-se. Hoje já começou o assalto especulativo á divida soberana dos EUA.E aqui é que poderá ser a tempestade mais do que perfeita.

Os que nos têm tentado convencer que a divida soberana de Portugal é uma enormidade(94% do PIB - até não é exactamente assim-) ,escamoteiam(porque não creio que o não saibam ) que ela está, até, abaixo do nível de uma grande parte dos Países Europeus.

O problema é outro.

É o sistema capitalista levado ao extremo que se está a afunda.Faliu (Marx dixit). Agora não há muro de Berlim para pôr abaixo.A verdade é que agora serão muitos muros ,tantos quantos os países do mundo capitalista ocidental ,a derrubar os seus muros.

Por isso, ou muda-se o sistema ,ou teremos um sublevação catastrófica, por acção daqueles que foram levados ao total extermínio económico-financero .

É inevitável .E o que espante e me leva à revolta é que os causadores desta situação especulativa, que encheram as maquias venham agora com desplante absoluto exigir ao Estado que peça (para eles, certamente dando o Estado(nós!) as garantias ) uma boa maquia de dinheiro. Ora de vez as responsabilidades dos accionistas dos Bancos e as suas fortuna é que deverão responder pelos empréstimos tal como eles negoceiam com as empresas suas clientes. Dando uma corda a quem lhes der um porco.
Ou se arranjo um novo sistema ,ou o descalabro estará aí para o ano. E as eleições imbecis que andamos a tratar só virão atrapalhar..

SF

quarta-feira, março 30, 2011

MAR




Canto 1 – Partir nunca mais…



Olho assombrado para ti

Mar!

Não sei das lonjuras de onde vens,

Nem razão do desassossego que trazes contigo.

Sei que mora em ti permanente inquietação

E uma eterna crispação

Quando vens apressado

No regresso de outras paragens.



Que novos mostrengos viste tu: - MAR!


Dos que Portugal sonhou primeiro,

Que ainda os não tivéssemos aquietado?!.

Diz-nos! - Não por querermos voltar a ousar,

A navegar de mar em mar, em ti todo: Mar !


A fundar o 5º Império, nem outros tais

Que por desvarios nos perderam demais.

Mas para refazer a pátria, há que de novo ficar

Plantar de novo as raízes dum Portugal

Que se esqueceu de ser jardim florido

De rosas, de cravos, de papoilas,

Meu olhar no seu rubro detido.



Partir nunca mais!



Canto 2- Anúncio da chegada



Vens de azul vestido guiado pelo voo da gaivota

Que te convida a descansar no leito da praia,

Para que melhor possas olhar o céu.

Num repente ensombras o teu ondular

A gaivota desatina e vem pousar em terra

Na esperança que emudeça o teu escarcéu.

E eu sei apenas que só por te chamar,

Mar! …

Percebo a tua dimensão

No vislumbre das montanhas ocultas no teu corpo

A erguerem-se cobertas de farfalho

Revolto véu branco que te serve d’ agasalho.



És abismo profundo em dialecto de carícias

Quando enrolas na praia, a vaga, ao entardecer,

Bailas ao compasso do vento, num fazer e desfazer.

És sonho, és dor, és acaso, provocador de notícias

Sombra dos que sepultaste, desafio aos vivos,

Que um dia partiram para longe daqui.

Como poderia deixar de gosta de ti (?!)

Se o teu nome basta para me abismar,

MAR!....

Fera cansada

O rugir na noite assombrada

Lá de longe avisando a sua chegada,

                                   [de madrugada.





Canto3-Vai sózinho. Eu fico…



Com cega brutalidade

Acordas azul, envolto na bruma da ilusão.

(e os meus olhos ficam azuis, imensos,

Na febre de querer ir contigo: - navegar).

Vieste antes da palavra

Na rara intenção de provar

A existência da eternidade.

Antes dos tempos tu já eras

Depois dos tempos tu serás.

Nada que eu faça sou eu

O mundo é teu,

De ti todo inteiro; de mim nada,

Mar!

Se eu te chamar não voltes para trás;

Eu sou como o vento na forma incompleta

Vai. Deixa que nele se esvaía meu longínquo apelo.



SF (Março 2011)

terça-feira, março 22, 2011


E então vai ser assim…

É bem chegada a hora de se demonstrar que, embora sendo má – a democracia -é verdade que não há melhor.

Confesso-me cansado de tanto dislate.
Ouvi-OS a todos.

Ao Primeiro-ministro. Cansado e baralhado com tanta confusão  adiantadamente provocada.Há culpas que, dificil será eximir-se. Um dia gostaria de perceber porque conduziu, assim, o processo da crise política.

Ao putativo (e apressado) candidato ao tal lugar: Passos Coelho. Mais vale ser rei por um dia…do que príncipe o tempo inteiro-pensará. Assume o peso de já se sentir Primeiro.Ah! o peso de sentir é bem capaz de ser diferente, se tiver que sentir. Empurrado, lá vai sem saber por onde, nem para onde. Breve será o seu destino.Há pessoas que entram na morte ,já mortas.

Ouvi o esquizofrénico Louçã. Que incapacidade politica, que delírio inconsequente, que enormidade demagógica.Que magnificos são os castelos de areia.

Ouvi o Paulo «Feirante» que acredita ter chegado a hora!

Mas …. Talvez esteja aqui a chave da questão ideológica. A Europa vai perceber que, provavelmente, a hora de pagar os erros de uma esquerda de colarinhos engomados, terá chegado mesmo.O próximo futuro vai conviver com os extremos ideológicos.

Ah! Não ouvi o Cavaco. O marechal…fez uma retirada estratégica. A soldadesca que se lixe…

Bem: vou tomar banho…. Estou encharcado em porcaria...

Aladino

segunda-feira, março 21, 2011

A BARCA DA “PASSAGE”


A barca da passage era ,desde os primeiros tempos em que as xávegas vindas da Costa Velha, da Srª das Areias, aportaram à Costa Nova, o único meio de acesso ao areal para onde tinham vindo fainar as companhas da pesca. Eram centenas, os pescadores empregues nas mesmas; mais o mulherio que ajudava no desembaraço e na escolha do peixe, e ainda os mercantéis. A que se juntavam os muitos almocreves que pela noitinha, burricos carregados  alombando com a sardinha, se embrenhavam por esses caminhos perdidos da serra.Ladeando vales e barrancos, para ao outro dia, logo de manhã, não faltar com a venda da prateada sardinha, lá para as beiras interiores e bairradas.

No início, ainda as companhas usaram enviadas para facilitar o transporte ao seu pessoal .Mas a confusão gerada, cedo indicou que o bom sentido era o da privatização (?!) daquele meio de transporte, deixando-o nas mãos de barqueiro, que, dono da sua própria embarcação, estava sempre disponível para fazer várias vezes ao dia –e até de noite – o transporte, de pessoal e material.



A largada da barca, sem hora rigorosa marcada, era anunciada por um toque singular, roufenho, saído de um búzio que se ouvia -nesses tempos isentos de outros arruídos incómodos -a um bom quarto de légua de distância.
Antes de largar dos moirões, o arrais dava uma olhadela lá para o fundo do caminho, a ver se divisava alguma alma atrasada. E quando tal sucedia, se a distância a percorrer não demorasse mais do que escassos cinco minutos – pelo cálculo do arrais, entendido nesse assunto! - adiava-se a partida .Certo é que tal adiamento, gerava, de imediato, uma zanguizarra dos diabos, com os passantes já embarcados escalabrados pela demora:

- Eh Ti Labareda . Astão vossomecê quer-nos fazer perder a maré ?...estipôr malino!…Por causa duma marafona atrasada ,que esteve, foi, entre pernas mais tempo códebido ,e agora nos faz esperar ?!.Largue mas é …homem dum raio!. Largue que temos freima de chegar á outrabanda .
-Calende-vos ou ides a nado, que ides mais depressa – respondia o arrais,moído de tanta algaraviada .

Chegada a Rosinha «Escudeira», a conversa mudava de tom e forma.Era imediatamente outra .Aquela gente era muito sabida.E então no fingimento :- umas doitoras !

-Ah Rosinha ,q’uim fim q’ue sempre achegastas ;filha ! Se não fossamos nós,o raio do Labareda não esp’rava por ti .Raios do home, c’anda sempre com o fogo entre pernas. E não há quem lhe acalme a marola.

                                     

                        O Labareda ( des. J.Antonio Paradela)

-Credo!...Fosse eu nova, e, cachopas!,….o pavio do Toino derreava -faiscava a Alzira «Saltoa»,mulheraça já cansada,enxuta, de convés corrido por tanta vaga, moradora lá para os Sete Carris. Só para adiantar conversa, para bisnagar .Para a galhofa.
O Labareda ria-se com tal desfaçatez.Ele sabia que era tudo boa gente.Aquilo eram tudo facécias.Pois numa astrapalhação, num momento mais doloroso, eram bem capazes de despir a roupa, para com ela agasalharem uma delas. Gente de acudir, solidária e amiga. Mas gente simultaneamente brincalhona, ladina, tarrinca, naqueles momentos de descontracção em grupo.
Ordem de largar,
o ajudante á proa enterrava a vara no ombro para aproar a barca a oeste .O arrais deixava-a descair um pouco, para logo dar ordem de meter a pá da borda. Leme a meio, caçava a escota retesando a vela com a dupla laçada na draga, fixando a mareação numa proa apontada ao trapiche da outra banda,ali ao lado do Salão do Arrais que, se o noroeste ajudava ,poderia ser alcançado em dois bordos.
Já por diversas vezes, o Labareda chamara a atenção, ao regedor, de que a mota devia ser deslocada para sul, aí uns cem passos, pois, se assim fosse, num só bordo, fazia-se a travessia .Se o vento era frescote – e quase sempre o era, bufando lá do noroeste - cinco a dez minutos eram mais que suficientes para laçar moirão na Costa Nova .

Durante a travessia era uma algazarra; a miudagem correndo a sentar-se no bico da proa, sonhando com o dia em que se sentasse ao leme, a retesar a escota ,e rumar ponteiro ao outro lado.

Os almocreves que tinham deixado os burricos a descansar na estrebaria da  «Bruxa» ,a recompor-se da jorna com palha fresca – pois que para cá tinham vindo carregados de azeite vindo lá das serranias,o melhor !- deitavam contas à vida na tentativa de ler o tempo. Imaginando como seria a noite, em que serra acima ,ladeando a ravina ,atravessando o riacho, metendo à desbanda por um atalho conhecido …toque… toque… , lá iam por entre pinheirais a zangalhar, assanhados com a ventania da noite que facilitava que por ali surgisse algum marmanjo da rapina. Percorrendo ligeiros os caminhos do interior a carrear a sardinha fresca. Por isso, e porque amanhecido o sol era tempo de entregar o carrego lá para as bandas de Viseu, havia que dar ao pé .Burro, e pimpão almocreve.

Por vezes aparecia para atravessar na barca, o João«Ruço»,exímio tocador da concertina que fazia as delicias dos embarcadiços. Encostado à barra da escota, atirava-se ao «vira que vira», esbofando a sanfona ,enquanto com dedos ágeis percorria os botões das notas .E logo duas pescadeiras saltavam, lestas, para o centro ,saltitando e rodopiando. Pés descalços «sapateando» nos paneiros ,enquanto a voz fina mas timbrada e maviosa da Joaninha «Cantadeira» se fazia ouvir, depressa denunciando a origem :



Meninas vamos ao bira
Ai ! que o bira
É coisa voa
Eu já bi dançar
O bira
Lá p’rós
Lados de Lisboa

Ai! bira» que bira,
E torna a birar,
As «boltas» do bira
São voas de dar

Enquanto isso, as cachopas num falazar grazina, aproveitando o ripanço daqueles breves momentos, lá iam em conversa onzeneira:

- Astão Rosinha? fostas a ultima a vir lá da vila .Deves saber nobidadas .Disque lá ,chopa !...

- Novas(?!), só que entrou na barra o iate do Ti Cachina, vindo lá da estranja .A Ana «Fradoca» foi esperar o homem, o Armando Ramízio .Logo à noite, lá p’ró Arnal, vai ser uma zanguizarra dos diabos .Sete meses de fastio, gentes !...,nem as pulgas incomodam. Chegada a hora, vai ser tempo de medrar menino .Idas ver - ia dizendo a Rosinha.

- E olha c’os tempos não estão nada p’ra isso, rapariga.Só vejo fidalgotas a cheirar o frescal, e a desdenharem. Que não presta, dizem !O que essas delambidas querem, é «dado» .Mas enganam-se .Que cá a Zefa, dado, só ò mêhome. E num é sempre !. C’ás vezes lá lhe caço uma felpa, a troco do festim. Que não é para o gabar – q’inté é p’rigoso com tanta serigaita a c’rer pastar - mas cá o meu Zé é danado p’rá brincadeira .Num é por ele ser o mêhome,mas aquele bardal prece c'anda sempre esgalfo pela jája.

- Ah!... Zefa ,c’alte …Tu sabes q’ué bom, porque nunca comeste doutra malga. Amorna-te aí…. raios! Tem relego nessa língua e não nos desinquetes,com essas toleimas.Mogadinha de mim que h´a benícias que nem escasso cheiro.

Outra figura que era habitual, de tempos a tempos aparecer a tomar o seu lugar na passagem, era o «amolador». Lá vinha empurrando o carrinho de roda com os apetrechos para colocar a gataria nos barros esfanicados, ou esmeril aconchegado. Pronto para afiar os navalhões da trupe das campanhas, ferramental indispensável ao exercício diário daquelas gentes, precisando do gume bem afiado, capaz de cortar papel em tiras de enfeitar .O ti Francisco da «Gaita», assim chamado por anunciar a sua presença de porta em porta, por uma gaita de beiços ,com sonoridade distinta e singular, que era o aviso para se ajuntar todo o material a necessitar de reparo, à porta dos palheiros, onde exercia o sei mister.

Ti «Gaita» –dizia maldosa a Berta «Lamaroa»- vossemecê não é capaz de me pôr três gatos numa racha, p’ra a aviar como nova?

-Asponho pois..não havia de m’astreber eu .Atão que é lá isso?. Cuida-te, ósdepois ,porque os gatos miam de noite, se incomodados, e gostam de tripa miúda - respondia sisudo o «Gaita», homem de pouca conversa fiada. Que fiado só os muitos calotes por trabalhos feitos àquela gente, a aguardar paga, à espera de melhor maré .

Tempo de chegar. O arrais media a distância, e, chegado o momento ,orçava, apontando a proa ao vento. Folgada a escota, recolhida a pá da borda para cima da tosta , o vento e a corrente levavam a borda da embarcação a beijar, suave, o trapiche a que acostavam, para descarrego das gentes.

Era um desaforo. Uma restolhada dos demónios .Todas queriam ser a primeira a colocar o pé descalço no tabuado da mota ,lestas para chegar à escolha e venda do peixe .Se o não havia fresco ,porque o mar não permitiu lanço ao meia lua ,carregava-se do escorchado. Que à falta de melhor ,também tinha clientela.
À volta, no regresso ai fim da jorna , era um queixumar de arrenega .

-Danado do mar! Escajunrrado.Aquele cão anda mais «seco» que trimbaldes de porco capado; o peixe branco está pela hora de morte, não se lha pode achegar .Mais caro c’ós pozinhos de maio, milagreiros , da botica do Ti Cunha – queixava-se a Ana «Espadela» maneando a cabeça num esgar de nojo, ascupindo para a borda..

Mal , acomparado, - que comparações só se podem fazer com os santos - era assim :
À ida :
- Maria,adonde vais tão pimpona ?!
-Para a «festa!!!»
À vinda :
- Maria ?:- de onde vens , cachopa triste:
-Da… «fe...sta…»
SF 8Março 2011)



















quinta-feira, março 17, 2011



E então vai ser assim….(II Parte)

 
Portugal é um país de «mourinhos».Isto é, um país de hábeis e geniais estrategas.

Começou a prole com o biganau  Alphonso,que tinha o vicio de assobiar aos mouros, imitando rouxinóis de noite (?).E quando estes se punham á procura ...pimba :  berrincha para cima dos infiéis,emigrantes desorfados da altura.Aqui d'el Rei,de foice ou forquilha, ia tudo na frente. 

Agora, exemplo claro disso ,a magistral jogada de Sócrates.Chamada pressão alta do terrivel campeador.

Há dias -lembram-se?! - previa-a. E dela dei conta no Blog  http://terralampada.blogspot.com/2011/03/e-entao-vai-ser-assim-1-socrates-forca.html . O primeiro passo, aí está.

Entretanto o País continua a melhorar e a entrar num rumo de onde nunca se deveria ter afastado.

 Sacrifícios? Pois claro, ou pensamos que isto é para brincar…

É altura para os outros dizerem como vão fazer…ou então cambalhotar…Que raio :- quem nunca deu uma cambalhota que se acuse.

 (gaita também não era preciso avançar o pelotão inteiro...que diacho.)

Crise é crise,mas há muitas maneiras de a controlar :- poupem com o que é Vosso. Ou julgam-se todos Berlusconni's.

Aladino

quarta-feira, março 16, 2011

Pegadas …



Pela beirinha do mar sigo as pegadas

Infindáveis,

Por outros, deixadas no areal;

Muitos outros, tantos!

Que como eu perseguem

A procura de se reencontrarem.

Esquecer o passado meu

É o mesmo que correr atrás do vento que me fustiga;

Nele pouco encontro de que valeu.



Vem o farfalho branco da vaga

E tudo que está para trás apaga.

Como se a vida recomeçasse de novo

Tento olhar em frente e seguir caminhada.

Para onde vou(?) Não sei.

Sem o peso dos erros vou mais leve,

A deixar de novo as minha pegadas,

As minhas marcas, na vida ainda que breve.

O passado foi-se

O importante é que desperte um novo dia

Em que volte de novo a ser eu,

Mas um outro eu.

Agora, inteira e totalmente: LIVRE !

SF  -Março 2011

sábado, março 12, 2011


E então vai ser assim:



1-Sócrates força o PSD a mandá-lo embora,


2-Cavaco fica à rasca,


3-Convocam-se novas eleições,


4-Santana Lopes constitui um novo Partido,


5-Portas perde com Santa Lopes,


6-PS E Santana L. têm a maioria absoluta,






O Filme da nova geração «ROSCOF» começa dentro de momentos.


END .



ALADINO  (TERRA DA LÂMPADA)

sexta-feira, março 11, 2011


O passado …passou…



Sentado no terraço

Afundo o olhar na ria,

Ao querer saber tudo a meu respeito.

Sinto a brisa quente que me traz o aroma da saudade

Vejo no espelho do seu azul prateado

Enigmático sorriso estampado no meu rosto baço;

Afinal , a vida pode ser olhar…e nada mais.



Neste fim de tarde quero lembrar
As últimas ofertas de sonhos
Os últimos momentos em que me dei
As derradeiras palavras que escrevi
Os últimos afectos com que matei a tua sede ..

 
Não consigo reencontrar-me ;
Recolho o olhar
E regresso para dentro de mim.
Nesta desconstrução que persigo;
Mas não consigo dilucidar,
Pareço não ter deixado rasto
Naquilo de que me afasto.
Nem ao menos dos momentos que contigo
                                                          [ vivi



SF  Mar 2011

terça-feira, março 08, 2011


CADA GERAÇÃO QUE ASSUMA O SEU TEMPO.


É o tempo de se andar mascarado. O País parece aproveitar a ocasião, e vive a fazer de conta.


-Geração Rasca…ou à Rasca …ou Parva, são várias dos slogans «pimba» que suportam  encenações para que a juventude possa de diferentes maneiras, chamar sobre si, a atenção.


Devo contudo começar por afirmar que os dizeres da canção dos Deolinda, agora na berra, feita hino geracional, são em si mesmo, uma «parvoíce».Fiquei desiludido. E os cantadores da «Luta Continua», imagem rasca de Zeca Afonso & Branco, são de uma pobreza diletante. Imagem popularucha, de uma demagogia que arranca a custo, ligeiros sorrisos, mais pelas figuras tipo emplastro, do que pela lenga-lenga.


Ser-se «parvo» por estudar e aprender (sempre e todos os dias), é de todo em todo,  uma mensagem perfeita mente parva.


O que esta geração teve foi o que outras anteriores, ainda recentes, não tiveram: a solidariedade nacional para permite a todos, em igualdade e de borla, poderem adquirir os conhecimentos para…


(Aqui é que a porca torce o rabo….)


...,não para arranjar emprego, mas sim para trepar na vida, conforme o merecimento e capacidades. Que isto de igualdade (para lá das oportunidades concedidas) não conduz a ilha paradisíaca nenhuma.


Muitos –a maior parte! – dos que compunham a geração a que pertenci, não tinham possibilidades de aprender. E aos quinze, dezasseis anos - ou antes! - já trabalhavam bem no duro por uma côdea de pão. Essa sim, era uma geração (quase) sem oportunidades. E quando emigrou, a salto, foi para habitar os bidonvilles.  Agora quer se cante quer não - essa geração nem podia cantar, senão, o «Lá vamos cantando e rindo...»- o mundo está cheio de oportunidades (agora é que eu queria recomeçar)  mas é preciso trepar e a pulso, para as agarrar.E a pulso, esta nova geração só sabe fazer outras coisas. 
Não são os parcos conhecimentos obtidos num curso superior qualquer (andam por aí ás centenas diplomas de nada) que dão direito ao putativo emprego.É o que se aprende no trabalho,no dia a dia, que irá definir o êxito.


Mas que é bom ouvir a juventude a pronunciar-se, entendamo-nos: - é bom e pode ser que do hábito nasça uma postura de abordagem da vida bem diferente.


(achei especialmente oportuna, e até inteligente, a cena de interromper o 1º Ministro)

2- «Descontentes»

 
Descontentes …há muitos. Uns bem intencionados, outros nem por isso.


Preparem-se…não acreditavam que esta confusão toda era, principalmente, produto de uma crise (uma completa subversão das regras da economia), vinda de fora, dos mercados(?!) invisíveis que ninguém controla ou sabe identificar? Vão então ver no que isto vai dar. A crise já não está só por aqui perto, pela Europa. O estouro vai chegar a todos os lados.


Crise?... Há ainda quem não tenha percebido o que aí vem. Pois que se preparem …


Aladino


PS- Na minha vida profissional nunca aceitei fazer um contrato com o empregador.Um unico que existiu por insistência do patrão, ficou guardado no cofre do mesmo.Livre como o passarinho.

R evisitando Colón E de novo,lá veio mais um livro abordando o enigmático Colón. Desta vez, uma extensa e esg...