domingo, novembro 03, 2019






 Porque estou com a mão na massa,revendo a 3ª edição do ENSAIO MONOGRÁFICO-ÍLHAVO Séc.X-Séc.XX,e porque sempre por ELAS tive grande orgulho, mesmo paixão, deixo aqui esta nota.
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As "matriarcas" ilhavenses, Séc.XIX
A permanente ausência, uma actividade feita ao sabor de tempos e marés, um cansaço de uma luta titânica com os elementos agrestes da natureza que não permite cumprir horários, acabou por criar na sociedade familiar ilhavense um tipo de matriarcado, bem mais consentido que pretendido. A mulher assumiu, aqui, por força da ausência dos seus homens, o verdadeiro papel de chefe de família, sendo-lhe remetida a quase totalidade das deci- sões que noutros grupos sociais cabem, normalmente, ao homem. A mu- lher de Ílhavo (século XIX) vai ser um claro produto do meio onde vive, da sociedade onde se integrou. As suas faculdades, por ancestralidade expe- ditas, as aspirações e desejos escancarados na sua alma irrequieta ou bro- tando da sua boca em torrentes de incontida perseverança, não conseguem ser abafados por uma vida de dificuldades que a parece querer submeter. E se por infelicidade a roda da vida corre ao contrário, era vê-la empunhar o remo, tentando, com o seu afadigado labor, suprir e remediar as faltas, procurando que ,da sua lufa lufa mortificada – nunca (!) – transpire para as vizinha ou inimigas,o seu mal.Pois com o seu, podem as outras bem.
Não raro, se necessário, recorre ao segredo da família ou, pela noitinha, lá vai pela calada das sombras, ao penhorista, para em segredo se desfazer de prendas de estimação.H erdadas ou recebidas nos momentos de fartura, que irão servir de garantia de um adiante inté ao avanço da matrícula, ou inté, que a roda da sorte gire para o outro lado. Em casa, o marido nem so- nha com esta dolorosa iniciativa.

Se a questão advém da perda de lugar na companha e o seu homme tarda em arranjar alternativa, é ela que, altiva, digna e desembaraçada, exibindo matreiramente a lágrima que enfeita um olhar a que todo o homem fica impossibilitado de dizer não, vai bater à porta dos que podem dar solução e, quase sempre, consegue os seus intentos. Se é preciso papelada, é suficientemente esperta e desempoeirada para a conseguir junto do regedor para, chegada a casa, dizer ao seu Tónio: vai homem, vai, e que Deus te traga com sorte, que eu por cá me arranjarei com os teus filhos. E o homem parte, sabendo que àqueles não faltará agasalho, comidinha farta e o desvelo amoroso de mãe assumida que, para lá do essencial, não lhes faltará com uma educação rigorosa, exigente, e até com a ambição para um mudar de vida que evite momentos como aqueles, tão dolorosos. É sublime como Mãe, na ternura prodigiosa devotada aos seus filhos; mas austera na educação, como se de um Pai exigente se tratasse.
Ela educa sózinha a prole que quase sempre é muita.Procura a escola, pois não perde a ambição de a levar por diante, e com o produto do seu afa- digado labor lá vai comprando o necessário para os trazer minimamente decentes. Limpos e asseados... e de barriguinha cheia esta é a primeira preo- cupação que satisfaz –, procurando com um moirame desbragado o neces- sário para os prover. Quando é a hora de o seu homem voltar, é ainda ela quem prepara a roupa, lhe compra uns sapatitos novos, umas camisas na Feira dos Treze, ou até, se as notícias são boas, um fatito mandado fazer ao alfaiate – a quem dá as medidas precisas –, ou não conheça ela, melhor do que ninguém– e de cor, bem alembradas por tanto nele pensar – as meças do seu homme. Chegado este, é ela – a arrecadadeira – que recebe por intei- ro o produto da safra, deixando-lhe apenas o indispensável para uma ou outra ida com os companheiros, a beber um copo, pois há muito para pa- gar: levantar as arrecadas no penhor, pagar à senhora mestra, ao alfaiate, ao açougue e, feitas as contas, comprar umas roupitas para a miudagem. E para ela? Nada! A sua beleza natural, a prodigalidade com que a natureza a esculpiu, tornam dispensável o uso de enfeites estranhos. Ela vive para os outros, esquecendo-se por vezes, quase sempre, de si própria.
Certamente, se este sentido de sobrevalorização feminino terá tido, como não poderia deixar de ser, a sua origem na classe piscatória, verdade é que o mesmo se estendeu, mais ou menos generalizadamente, a toda a sociedade ilhavense, sendo ainda bem patente na vivência familiar de todas as casas e classes, em pleno século XXI.

Foi um facto que retrata a singularidade desta comunidade, e que hoje, muito embora um pouco mais amortecido pelos novos padrões da vida, ainda tenuemente aflora nas mais pequenas coisas da vida familiar, fazen- do-se sentir ainda amiúde.
A mulher, por regra mais expedita e inteligente que o homem, era quem o acompanhava ao letrado, ao padre, ao escrivão ou ao médico, substituindo-o nas explicações que ele devia dar ao phisico. Era ela, ainda, quem tomava em devida conta os conselhos e aplicava o tratamento prescrito. Esta característica de comportamento acabou por ser comum a toda a mulher de Ílhavo, tendo, como dissemos, perdurado ainda no século XX, mesmo nas famílias que não tinham homem de mar; eventualmente, nestes casos, mais atenuado esse pendor.Eem todo o caso, patente, indisfarçável. E o curioso é que o homem de Ílhavo de então sentia-se bem com esse repartimento de responsabilidades, onde detinha o menor quinhão, alheando-se por vezes, egoisticamente, de assumir atitudes que lhe diriam, por norma, mais directamente respeito.

Talvez este pendor matriarcal, expresso na extrema preocupação da mulher como dona da educação dos seus filhos (a quem juravam: hei-de fazer de ti doutor ou tu não és burro, hás-de dar capitão), tenha estado na base da escolaridade onde sempre descortinou ser esse o caminho para os fazer diferentes. Preocupação que desde muito cedo levou filhos de mareantes ou de lavradores a frequentarem as escolas primárias. Daí que, no século XIX fossem já evidentes, na terra, capacidades invulgares para o tempo, numa parte das suas gentes. Élite dotada de uma riqueza cultural invejável para a época, que a levaria a distinguir-se de outras da sua igualha e dimensão, mas menos ricas em saberes. Muitos dos que se começaram a distinguir na política, nas artes e/ou nas letras, ou tão simplesmente no exer- cício profissional onde se alcandoraram a lugar de destaque, nem sempre, ou quase nunca, eram oriundos de famílias de posses. Eram antes, amiúde, filhos de gente sem recursos que procuravam e obtinham a solidariedade dos seus conterrâneos de maiores cabedais, ou, muitas vezes, dos usurários a quem entregavam o cordão ou arrecadas, em troca de uns dinheiritos para suportar as despesas do rapaz nos estudos para doutor.
A mulher tratava da casa, fazia rendas com que amealhava alguns pro- ventos depois de vendidas em Aveiro. Ou costurava, trabalho para que mostrava intensas aptidões. Carregava a canastra e percorria, a passo de gaivina, lépida e desembaraçada, as ruas da vila para amealhar uns reis.
As suas casas eram simples: cozinha, quarto da enxerga, uma caixa ou arca para as roupas e uma mesa com quatro cadeiras, era a guarnição habi- tual das casas escondidas nos becos da vila. Durante a ausência dos mari- dos, comiam frugalmente, desprezando a carne, substituindo-a por peixe salgado, acompanhado de hortaliça. Poupando em tudo, com o único fito de fazer dos seus, gente diferente.
E fizeram!..
Senos da Fonseca
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domingo, outubro 13, 2019


Caros Amigos e conhecidos do FACE.


Esta semana não estarei poraqui.Cumpri um plano rigoroso de trabalho árduo, com a intençao de terminar os elementos para a nova edição ( . a 3ª) do Ensaio Monográfico de ìlhavo.
Cumpri.E  portanto por mim já ninguém espera. Com ele segue o PREIA-MAR,pequenos arrufos poéticos que terei gosto em oferecer aos amigos.
Ora no Ensaio (aumentado substancialmente), e revisto, decidi incluir umas figuras  marcantes da nossa cultura(letras .artes,vida cívica)que nas edições anteriores não inclui,por razões que agora explico. Deixo hoje, para que alguns ainda recordados da eminente figura que foi Mário Sacramento ,atentem na versão longa (há outra reduzida para outro fim), e corrijam.Ou sugiram algo que me possa ter escapado.Podem criticar à vontade que, para a semana ,olharei com atenção.Boa semana...e cá vai MÁRIO Sacramento..
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MÁRIO SACRAMENTO (1920-1969)






Mário Sacramento nasceu em Ílhavo, em 7 de Julho de 1920,na casa da sua família, ali ao Largo do Oitão.

Filho de Artur Sacramento, comissário de bordo na Marinha Mercante (homem muito culto, possuidor de um grande carácter e sentido de vida, figura altruísta e solidária – será um dos primeiros Comandantes dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo) e de Rita Sarmento , cuja família vinha de pesado tributo pago nas lutas Liberais ,enforcados que foram dois dos seus  tios, em Aveiro, pela camarilha absolutista. O convívio desta família materna, muito próximo de  figuras proeminentes nas lutas por uma nova ordem de liberdade, igualdade e fraternidade que  tinham ido beber à Revolução Francesa (de onde se destaca o tribuno José Estêvão cuja esposa era madrinha de D. Rita Sarmento), teria tido, certamente, influência no jovem Mário que, habitualmente, passava grandes temporadas em casa da família materna, como ele mesmo  recorda no seu « Ave Aveiro »:
 Sob os lampiões dos Arcos, Rua dos Mercadores abaixo, vogavam bateiras conduzindo os teus íncolas (ia a dizer os teus doges) às soleiras das portas. E eu batia palmas de menino com brinquedo, na janela da avó. Casa escura, com mofo a rato, olhares do José Estêvão no louceiro antigo, um opúsculo do Marques Gomes a dizer-me que um tio de antanho fora decapitado pelo D. Miguel, grades de pimpons nas sacadas de pedra antiga — em que um dia entalei a cabeça (para retomar essa tradição, quem sabe?), tendo sido liberto, depois de muito suor e ferros, por um serralheiro do Mindelo”..


 Desde miúdo Mário Sacramento atira-se à bem recheada biblioteca que seu pai, metódica e permanentemente  organiza,  embrenhando-se em autêntica sofreguidão na  leitura de livros que lhe irão conferir uma notável e precoce  cultura, muito direccionada para teses vanguardistas, especialmente no campo humanista. Esta precoce aptidão é, desde muito cedo,  reconhecida e valorizada pelos  mestres com quem contacta, seja na Escola primária onde o prof. Guilhermino Ramalheira  lhe atribuiu o primeiro lugar de todos os alunos que lhe passaram pela mão na sua longa  carreira docente ,quer  por José Tavares e Agostinho da Silva, que, reparando - deslumbrados! - no jovem Sacramento e no jornal que edita sozinho ‑ “O Furão”- logo o convidam -tinha ele imberbes catorze anos -para Director do Jornal do Liceu de Aveiro –A Voz Académica. Neste vai como principal colaboradora, aquela que seria mais tarde a sua mulher,companheira de uma vida, a escritora  Cecília Sacramento .

Mário Sacramento aprende, autodidacta, o Esperanto ,língua que então se sonhava vir a ser ,língua  universal:- “um só povo ,uma só língua “ ; e, jovem ainda, logo em Ílhavo, cria, nos AHBVI, uma turma aberta para divulgação da mesma. O Esperanto, acreditava  M.S., seria a antecâmara para a união dos povos sob o fim último das teorias marxistas da igualdade, de direitos e  oportunidades, que já então lhe despertavam a atenção e o empenho.
Desde cedo se descortina em M.S. um  ousado interveniente de elevada capacidade reflexiva, uma hiperlucidez (?!) ,vertida em inflamados discursos, conferências e tertúlias académicas : tudo que servisse de veículo a uma divulgação pedagógica que lhe era particularmente inata. Fazendo intensa e assumida propaganda de ideias  esquerdista no então,  Jornal o  «Diabo», a mais destacada tribuna nacional.
Em 1938 (dez de Junho) a PIDE prende-o pela primeira vez, ao mesmo tempo que proíbe a publicação e circulação da revista «A Voz Académica» .Tinha, tão só, dezoito anos, mas a prática, o empenho e aceitação das teses vertidas tão precocemente, começavam a ser perigosas –já! - e a importunar célere o regime Salazarista que antevia com perspicácia - diga-se - ali se encontrar um potencial e vertido subversor do regime fascista .    

Contrariado na sua vocação pelos pais, que o não deixam seguir letras, Mário Sacramento vai estudar Medicina para Coimbra,e completar, depois em Lisboa (1946), o curso. Tempo para aderir ao M.U.D  juvenil, movimento de unidade  cujo fim era o derrube do regime fascista, que  irá  levar a  P.I.D.E  a intensificar a vigilância , seguindo com redobrada atenção  todos os passos de M.S. Pronta para, ao menor sinal, decapitar  este empenho que sente provindo de um ideário  profundamente interiorizado e assumido, que   se mostrava imparável na acção, em busca de novos valores da liberdade. Liberdade de acção, de expressão, de reunião e associação, fundamentais para os cidadãos portugueses exercerem os seus direitos de cidadania, em pleno.


 A sua vocação para a escrita salienta-se em 1945,quando apresenta nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra o livro «Eça de Queiroz –Uma Estética de Ironia»,distinguido desde logo com o  prémio Oliveira Martins. Neste trabalho, Mário Sacramento  segue o percurso de Eça  (autor a que o ligavam afectos familiares próximos e e exultação pelo  exemplo do avô daquele,o Conselheiro Queiroz que, em 1828, levantara o povo de Aveiro(e do País) pela afirmação suprema  da Liberdade),procurando dilucidar sobre  a influência que nele teria tido a vivência de Coimbra – cadinho onde se fundem ideologias e novos rumos do pensamento– e,  assim, descobrir o genial escritor realista, “impressionado execravelmente com o que encontra em Lisboa”; o realismo com que Eça combate o romantismo acomodado de Camilo, e em que Mário Sacramento vê “o resgate do séc XIX” ao servir os propósitos da revolução das mentes e dos espíritos - a sua evolução,os caminhos, as mutações no pensar –tudo é dissecado por M.S. que, insiste, na necessária ligação entre a arte-escrita e a acção.E que nos vai descobrir o momento  exacto em que Eça (na carta a Carlos Mayer),parece “pegar pela primeira vez na pena para escrever genuinamente com ironia“. A mesma «ironia» que seguirá Mário Sacramento vida fora “como arma de arremesso” para denunciar a opressão e lhe resistir ferozmente. Hoje ainda, a análise crítica de Mário Sacramento ao autor de «Os Maias», emparceira com o que de melhor e mais válido se fez, em profundidade e exegese, ao escritor realista,  na «arte de combate e arte revolucionária»,  concluindo  que “uma sociedade sobre estas falsas bases não está na verdade ;atacá-la é um dever

 Terminado o curso,  M.S. vem exercer a profissão para Ílhavo - onde de imediato tem casos clínicos notáveis que o fazem sobressair da mediania instalada – abrindo consultório na  Rua José Estêvão onde passa a viver com a família. O consultório transforma-se no local que  vai servir de ponto de reunião a políticos do contra,  reviralhistas e ou revolucionários. Por isso sempre atentamente debaixo dos olhares  da PIDE que amiúde vigia – escancaradamente - os pontos de acesso ao mesmo.Ponto contudo de referência  como local de atendimento para os mais necessitados que, graciosamente – e  tantas vezes ainda reconfortados com alguns tostões no bolso para a compra dos medicamentos – dali saíam bem agradecidos, reconstituídos  física e materialmente .E que, por  vias disso, o  irão glorificar ao atribuir-lhe   o epíteto  de «Médico dos Pobres» ,como passa a ser conhecido. Mário Sacramento rejeita definitivamente todos os laços de pequeno burguês -grupo social de onde proviera-que deixará, clara, definitiva e  assumidamente, para trás.
O ano de 1953 leva-o de novo aos calabouços políticos.Lúgubres interiores onde irá sofrer as  sevícias da tortura do sono, ou do plantão em «estátua».Responde às agressões enviando à família escritos cheios de ironia, sabendo de antemão  que, a primeira leitura dos ditos, será dos esbirros. E assim os aguilhoa. Resiste, física, anímica e ironicamente, desesperando-os, bandarilhando-os, como se faz à besta cega. Nos «Contos», que dedica e envia da prisão pidesca aos filhos, fá-los acompanhar de desenhos onde exprime uma sensibilidade artística de certo modo apreciável, por onde faz perpassar tenebrosas figuras de vilões, sujeitos a final da história adequado ao fim pedagógico que pretendia atingir, mas servindo de recado para a molesta  embófia, que era obrigada a lê-los, na sua idiota missão controleira. E, na cela, apesar de lhe  chegarem a negar a simples consulta de livros, elabora  um trabalho intitulado «Fernando Pessoa -Poeta da Hora  Absurda » que será publicado em 1958. Um trabalho de que, mais tarde, disse, gostaria de refazer, dadas as condições em que foi elaborado. Nele leva-nos à descoberta da essência comum entre o poeta e os heterónimos - embora assuma serem individualidades diferentes–e a  concepção geral da vida do vate :– um beco sem saída ! onde Reis  procura não se lembrar de que o beco pode não ter  saída ; onde Caeiro até acha desnecessário saber se a há… ou não ;e onde Campos é o único a procurá-la. Não pela saída e o que isso  significará. Mas apenas e só,  pela procura.
Põe-nos perante o logro que, embora “reconhecido logo se aceita”,pois  considera os ditos “ não como autores ,mas como Pessoa escreveu a Campos, a Caeiro ,e ou a Reis”.
O «tempo de Pessoa» –a hora absurda !- o cume do génio que nele existia, só poderia ser alcançado se, “absurdamente, se invertesse ou alterasse o conceito de génio”,pois, diz-nos “no génio não pode haver Ironia”

Entretanto a  actividade profissional segue os seu desenrolar por vezes  recheada de algumas desilusões –patéticas e angustiantes – provindas da atitude corporativa dos colegas, mas e também, consequência  dos hiatos a que os seus doentes se vêm constrangidos, dadas as ausências assíduas, consequência  das prisões que sobre ele sucessivamente se consumam.
Em Ílhavo os «próceres» locais impedem-no de trabalhar na Misericórdia, tentando coarctar-lhe a carreira profissional. As denúncias de colegas e as maledicências empurram-no para o exercício médico em Aveiro (1955),onde se  irá  estabelecer em consultório aberto, mesmo em frente do café Trianon, local onde  diariamente reúne com a sua tertúlia politico-literária, sob o olhar e ouvidos atentos dos esbirros obtusos e palúrdios  da polícia politica do regime que, ávidos de presas, vigiam de perto o grupo nas mesas contíguas. Sem por vezes se darem conta de que são identificados, e por isso, mimoseados com a vulgata  comum, da maledicência e brejeirice .O que não impede de nesse ano ,em 1955, voltar – por duas vezes -  a ser levado para a António Maria Cardoso. O então inspector chefe dos esbirros pidescos, o grotesco  Sachetti (cujas origens se situam em Aveiro),sabe do perigo que representa Mário Sacramento e ordena a sua vigília  dia e de noite, atribuindo-lhe uma perigosidade preocupante para o regime, pois, Mário Sacramento, ao mesmo tempo em que se assume intelectual da mais fina água, embrenha-se numa tenaz  acção politica,de uma maneira entusiasta, pedagógica, incitadora e aglutinadora, que preocupava o açulado e empertigado bufo .
Isso não  impedirá  M.S. de  ser o obreiro que torna possível, em 1957, o Iº Congresso Republicano, de que foi o Secretário Geral.
Em 1959 publica «Ensaios de Domingo» e inicia com Óscar Lopes -intelectual de quem ideologicamente se manterá muito perto – uma colaboração literária no jornal «O Comércio do Porto».
Em 1961,como bolseiro do Estado Francês, vai para Paris.No Hospital de St. Antoine tira a especialidade de gastro-enterologia, apesar de gravemente doente.( pois que durante a estadia–por deficiência alimentar e ou excesso de labor - contrai a tuberculose. Por ousada ironia, uma das doenças que, com mestria, soube combater nos seus primeiros anos de prática  clínica).
Regressa em 1962, para  voltar a ser preso, ainda nesse ano .
Em 1966, assume-se crítico literário, colaborando no caderno de Literatura do «Diário de Lisboa» .E também, na revista «Seara Nova». Nesta colaboração destaca-se o debate sobre a procura de uma «Estética Neo Realista»,e a inventariação dos autores nacionais que a perseguem; era importante para Mário Sacramento, encontrar nas diversas propostas artísticas –poesia ,teatro ,novela, romance, ou até na literatura juvenil (e ou  feminina),formas de expressão da arte – um retrato das preocupações sociais, um conflituar com a realidade, um assumir objectivo de uma vivência “ideo-sensivel” na posição social  dos autores na neo-revolução (que teria de ser inevitável).
Será em 1967 que publicará  «Fernando Namora ‑ Obra e o Homem» logo seguido de «Há uma Estética de Ironia?», em 1968.
Perscrutando no percurso do escritor Namora em  via sacra pelo mundo rural, no exercício da profissão de médico, Mário Sacramento vai explicar a evolução criadora de Namora nas deambulações sociais do autor até chegar ao estádio de autor neo-realista .

Como crítico - e porque a crítica ao contrário da história é do que é,e não do que foi M.S tem de se integrar com o  tempo e de se assumir com o momento histórico em que vive. E fê-lo em todas as vertentes e sentidos. Vivendo-os como se lhe impunha. Mais do que escrevê-los, como desejaria. Mário Sacramento foi isso mesmo: um autor do neo-realismo, fiel a um humanismo concreto em que  dilacerou uma vida.

O Concilio Vaticano II com  as suas conclusões e indicações  que pareciam definir uma evolução no pensamento da Igreja, mais aberto e mais preocupado, mais suportável para o ateu assumido, levam Mário Sacramento a procurar nas páginas do  jornal «O Litoral»,interlocutores para com eles estabelecer um diálogo com o «credo», numa  procura de pontos e empenhamento comuns ,apesar de tudo; artigos que, mais tarde –já depois da sua morte, em 1971 -, seriam  reunidos em volume publicado sob o titulo «Frátia –Diálogo com os Católicos ».

Morre em 1969, nas vésperas do 2º Congresso Republicano de que, uma vez mais, foi o principal obreiro – o fogo que ateou a labareda no requerimento, ainda por ele redigido -  e que se viria a realizar sob o patrocínio do seu espírito, permanentemente presente  do primeiro ao ultimo instante, no «Teatro Aveirense»,onde teve lugar .

Salazar, é certo, estava moribundo. Politicamente morto. Mário Sacramento já não veria a queda do regime para a qual tinha sido um dos mais férreos contribuintes, um dos  mais entusiastas e dos mais lúcidos combatentes. Infatigável e persistentemente activista,ousou lutar contra tudo quanto de retrógrado representava e continha, o caduco regime  salazarista.   

Mário Sacramento adivinhou na sua «Carta Testamento», redigida em Abril de 1957, onde lúcida e certeiramente faz uma premonição rigorosa do tempo  sobrante que,  certamente, lhe iria  faltar para ver a queda do regime salazarento:
Não viu o que quis;mas quis o que viu “ disse-nos nessa missiva em que ,dum modo terno mas incisivo, nos lança um aviso:

“Façam um Mundo melhor ! Não me façam voltar cá”  
   

Senos da Fonseca
  

NB – Estas notas foram extraídas da Palestra realizada em  1970 no Illiabum Clube,na evocação de Mário Sacramento.





AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...