terça-feira, outubro 05, 2010


A BARCA DA PASSAGE na «MALUCA»



- Raios partam o ladrão do tempo – esconjurado[1]! - que me empata a vida - ia dizendo de si para si, a Maria, encharcada até aos ossos, engaranhida[2] pelo frio. Com uma mão lá ia segurando o canastro, enquanto que com a outra se afadigava no desbravar das contas da reza, invocando a Senhora dos Aflitos e a protectora, a Santa Bárbara, para a livrarem dos raios medonhos que riscavam em zigue zagues o céu chumbeiro, logo seguidos do ribombar assustador da trovoada que parecia capaz de esfanicar[3], tud’òmenos[4], o que tivesse forma ou expressão material na natureza. 


     Certo é que Maria não se preocupava demasiado com o estramboto[5] do temporal, que a rapariga não se enleava [6] com tão pouca coisa. Preocupava-a, isso sim, ter deixado para trás o irmãozito mais novo, que uma tosse mais parecendo esgana dos bofes, atacara. Tinha-o levado à botica do «ti Manuel Cunha», para que este lhe desse um xarope melaço e um cáustico, capazes de afadigar o malzinho[7], ao garoto. Antes de se pôr a caminho, a Maria agasalhou o Luisito que ficou bem aconchegado, e tratou, ainda, de deixar um «caldito de conduto» na lareira, e a traganeira[8] de milho, com que os restantes irmãos, e a mãe, a Efigénea, a «Pederneira», pudessem aconchegar o encostado[9] do estômago.
Tudo isto fora a causa de faltar à hora combinada, para, em grupo – o que sempre era mais prazenteiro, e naquele dia, até aconselhável – demandar o caminho da Maluca. Afadigou-se, por isso, a aligeirar o passo, mas o certo é que, nem ao longe, olhar atirado lá para as funduras do caminho, divisou as colegas. E nem sequer outra alma penada se divisava por aqueles endireitos[10], que naquele dia – pensava – mais pareciam os caminhos do purgatório. Ninguém com canastra de venda à cabeça, ou burricos carregados, ajoujados de lenha, sal ou outra mercancia, acartadas para a vila, se avistava. Ninguém se afoitara ao caminho com aquela trabuzana[11] medonha, que parecia imprópria para seres vivos.  
A Maria da Anunciação não era mulher de desistir. Era uma mulher de còrage[12]. E, mesmo só, não hesitou em atirar-se ao caminho, e atravessar aquele deserto de areias maninhas, onde aqui e ali se distinguiam tufos raquíticos de vergônteas enfezadas, castras gafadas[13], povoadas por vezes (já) por uns enfezados milheirais. Os tinhosos pinheiros com que se pensava fixar as areias, e desse modo proteger os aluviões, que se acreditava poderiam vir a ser a terra prometida, separavam os prados arenosos para onde o esfalfado colono cachiava[14] carradas de pilados e outro escasso, e muito moliço, com que ousava esfalfadamente cumprir o desígnio de «agarrar um povo», àquele deserto nascido do mar.  
Quando desembocou no prado da Maluca, terra já verdenta, e avistou ao longe a torre da Capela da Srª da Encarnação. Maria «Pederneira» pensou com os seus botões que não levaria mais de meia hora para que o sol descesse ao nível do mar. Tempo suficiente que lhe seria necessário para chegar ao cais da passage[15]. Parecia-lhe ter ouvido o longínquo ressoar do búzio[16]que assinalava a partida da carreira, o que sendo improvável, dada a distância a que se encontrava, inté[17] podia acontecer com o escarampêto[18] do tempo. Já não tinha ideias de apanhar a última barca. Com este temporal desfeito, era até provável que não houvesse carreira. Se calhar, nem o Tóino «Murtoseiro», o mais atrevido e esturto[19] barqueiro da carreira do Ti Ambrósio, se astreveria [20]a tal escaramuça.


O Labareda

Por pensar no Tóino …, acudiu à Maria, um sorriso maroto:
A passage[21] para a outra banda servia para raparigas e rapazes daquele tempo descontraírem do fardo que é a vida, e se entreterem ao jogo do beliscão, ousio que para os tempos era a antecâmara de outros atrevimentos, a sós. 

                 Sola, sapato, rei rainha
                 Foi ao mar buscar sardinha
                 Põe o pé na pamplina
                 O rapaz que jogo faz?
                 Faz o jogo do capão
                 Diz à velha do condão
                 Que arrecade o seu pézinho
                 Que arrecade o seu pézão
                

                  Salta a pulga da balança
                  Os cavalos a correr
                  As meninas a aprender
                  Diz-me lá minha menina
                  Qual será a mais bonita        
                  Que se há-de recolher?

Lá estavam as costumazes  comadres da galhofa: a Xerobia ,a Ana Gaiteira- danadinha prá brincadeira maldosa -, a Prazeres «Anunciada»,e a Pardala «Biqueira».Mulheres a quem a vida dura não conseguia retirar uma certa jovialidade, por mais atormentadas que fossem as agruras. As mais recatadas e menos faladeiras  abusacavam-se nos bancos a bombordo e estibordo ,para junto do cagarete onde o arrais  Toino dirigia a manobra.A Anunciação ,era sabido tinha lugar bem junto ao ao varão da escota aquando da manobra da atracção ,sempre de cortar a respiração ,o Labareda enquanto calava a porta do leme a estibordo, dava a escota á Maria que habituada aquelas lides bem sabia o momento exacto para pôr a vela a panear ,facilitando o encontro aos moirões.




O rapazio, filharada daquelas mazio ,filharada daqueoiras de trabalho, que ainda traziam um ao colo e já outro se assentara no interior da barriga, dispersava-se pela barca. Uns empoleirando-se no bico da proa atracados aos   golfiões [1] .Outros faziam companhia ao ZéZé, um pobre e manso rapagão, vogando de lugar em lugar em passo marcial, sempre agarrado ao seu pífaro de cana verde: um entalhe feito logo abaixo da norsa, no lenho, deixando um membrana fina que produzia  uma sonoridade fonha.  O ZéZé, um pobre diabo incapaz de fazer mal a uma mosca, era induzido pelo rapazio a  abeirar-se das moças a  pedir: -éh! chopa mostra-ma a tua coisa.
As mais ozeiras [2]resolviam dar trela ao pobre homem. E não se desmanchando, respondiam na galhofa: -amostro pois atão, amigo! ; mais vale mostrá-la a ti que não importunas nem ofendes, c’ó Padre Engrácio que é atrevido e mexeriqueiro. Aqueles fraldocos[3] que ta mandaram, que peçam às tísicas das  irmãs  escolhambradas[4], para tas mostrarem. Haviam de ser bonitas de se ver.
 Quando alguma se ofendia e arrenegava como o pobre, logo a voz de trovão do Labareda se fazia ouvir:
-Veja lá a ofensa ó «Ti Essa[5]»; havia de se ver a sua sarda [6]que deve ter mais pregas que o manto que o Sr. Jesus leva na procissão.


[1] Peças no castelo que servem para calar o ferro de fundeio.
[2] Ousadas.
[3]  Tipos sem importância.
[4]  Descomposta, com mau aspecto.
[5] Uma qualquer.
[6] Peixe mole, peganhento, de bigodes.


Passantes habituais o amolador,  o « Ti Chinquilho»,homem dos cem ofícios ,exímio gateiro de malgas e alguidares, prático colocador de varetas nos guardas chuvas e amolador de instrumental de cortar. Certo que a Pardala dava um caquinho[22] para se meter com o pobre homem que sossegadamente se sentava no traste junto ao mastro em faladura com outros passantes.
 - É «ti Chinquilho» há-de passar lá por casa que o meu Xico diz que o meu alguidar já tem a «racha» muito  aberta de tanto pucelo [23].Precisa de uns gatos ,que eu não quero botar chana ,desafiava a língua da Pardala.
- Pois que vou..catão[24] ?!mas é melhor levar um sevela [25]não vá de teres por lá algum ilhose [26]da cônchara[27]  entupido.
Risota geral e já o «ti Cantante» puxava da concertina e a preceito tocava uma de roda.

                               Indo eu ,eu ,eu
                               A caminho de Viseu
                               Encontrei um novo amor
                               Ai Jesus que pra lá vou eu…

Logo o grupo soltava o chinelo e, pé descalço nos paneiros, rodopiava em desafio.
 -Eh! gente…tomai freio, que ainda me botais a borda debaixo d’auga  suas colamantroas[28] ..Artas[29] com elas que me esfanicam o barco. Berregas [30]malinas ,gritava o Labareda.

A  Berta «Pimpoa» -a alcunha viera-lhe  do seu jeito de andar sempre exuberante e garridamente atafada[31] , viúva  do José Cachino que deus  tem!- mulher escofenada[32] ,de carnes rijas,  bem mantida – no alimento que  aconchega os interiores  esfomeados , mas e também , dizia-se entre xailes!, no alimento  espiritual que o Padre Malaco lhe prodigalizava em visitas a horas incomuns -, levava   sempre consigo ,debaixo do encerado ,na canastra, uma saquinha  onde metia uma traganeira[33] de broa de milho ,saída do forno da Ti Josefa Rendida, e ainda, embrulhados em papel pardo amarelecido pelo molhanca [34] gordurosa deles saídos ,dois coiratos bem avinhados  por via da vinha d’alhos[35] em que eram conservados no pote de barro. Não faltava uma garrafita que outrora fora do fino[36] , aberta pelo Supero, e que agora continha uma pomada tinta de que comprara um quartilho lá na loja do «ti Traquete», afamado taberneiro com altar montado [37] lá no Urjal, que tinha fama de vender vinho  extreme, sem baptismo d’auga da fonte dos amores ( a melhor , mais límpida e a mais frescal [38] água para tal sacramento baptismal).
De navalha de astripar [39]e escorchar[40] a sardinha, em punho ,a «Berta» cortava a broa para onde encaminhava  o coirato[41] que lhe ia servir de conduto para o resto do dia. Logo que aberta a garrafita para pingolar[42] o conteúdo,  era sabido que a Berta só abria excepção para o Labareda que,  cuspindo e limpando a boca às costas  da mão, trilhava entre lábios a dita e deixava que «o sangue de Cristo[43]» lhe escorresse gorgomilos abaixo.
Quem se amofinava toda com esta deferência era a Anunciação  que entre dentes murmurava: raio da viúva gaiteira, parece que o padreca não lhe arrefece os calores.


A embarcação atravessara já o Canal do Desertas e orçava ganhando o vento para não se deixar descair.
Era tempo de Josefa «Caixina» inquisilar [44]com o  «Quim Trolaró» que no carroço levava umas mercancias para venda ,porta a porta. Chambres, camisotes, ceroulas, cuecas de perna e barguilha[45] abotoada, linhas e derivados, enfim uma loja ambulante.
-Èh ti Jaquim,  vossemeçê[46] não leva aí uma camisinhas, daquelas sem mangas nem abotoadura, de enfiar pela cabeça ao zamparilho[47]? A Zefa «Lavada» está mesmo a precisar, que logo entra a barra o seu home, o Toino «Espiga», e é certo que rapaz vai querer botar a jaja  [48]no sitio.Vai ser uma laburdia [49],que o Toino parece um simprinhas[50] mas é um marjavante[51] afiançado e deve trazer o chamiço[52] em brasa.
-Cal’ te mulher. Delambida [53]invejosa. Eu e o meu Toino cá nos arranjamos ó natural  ,desmantados.[54]O que tu querias sei eu bem ,astipôr. Num me injerizes chopa,que desinquietada já estou eu.
-Pois pudera. O festim vai ser d’arromba[55].

A mota estava ali a dois passos. A manobra era sempre de arrepiar. A dois comprimento, uma ligeira arribadela para ganhar velocidade, e logo todo o leme a barlavento, em orça de aterragem. A Maria larga escota, o pano bate, trava a embarcação e a força da corrente, faz o resto atirando-o mansamente para o pousio.
É a debandada. Ainda os cabos de amarração não estão passados e já bando  granizeo salta lesto para a mota. Posta a canastra á cabeça, ala que se faz tarde. O peixe prateado espalha-se já pelo areal: é preciso conluiar-se com os mercantis para que o quinhão fique a preço menos contribado.[56]   



[1]  Amaldiçoado
[2] Tolhida
[3]  Fazer em bocadinhos
[4] Tudo
[5] Extravagância
[6] Atrapalhava
[7] Maleita
[8] Pedaço de broa
[9] Vazio
[10] Paragens
[11] Temporal
[12] Coragem
[13]  Tifosas
[14] Acarretava
[15] Passagem para a outra banda ; carreira da barca
[16] O sopro do búzio era o sinal de chamada para a largada da barca
[17] Até
[18] Escarampanteado
[19] Teso, valente
[20] Atreveria
[21] Vide  19)
[22] Fazia tudo para…
[23] Furo aberto com um bico agudo
[24] Porque não.
[25] Instrumento afiado com que se abrem furos na madeira ,couro ou até no barro.
[26] Peças de latão que se colocavam nos sacos por onde passavam os atilhos.
[27] Concha.
[28] Desleixadas.
[29] Raios.
[30] Que fazem muito barulho.
[31] Vestida; bem arreada.
[32] Limpaça.
[33] Pedaço de broa de milho.
[34] Molho gorduroso avinhado.
[35] Processo de conservação da carne consistindo em regá-la com vinho ,e apondo-lhe muito alho.
[36] Vinho doce ( do Porto)
[37] Balcão onde se bebiam os copos de três.
[38] Fresquinha.
[39] Tirar a tripa ao peixe.
[40] Cortar a cabeça e esventrar o peixe, para o salgar em tinas.
[41] Pedaços da pele do porco com alguma entremeada agarrada.
[42] Bebericar.
[43] O vinho de missa.
[44] Intrometer-se;desinquietar.
[45] Abertura nas cuecas para verter águas.
[46] Vossa mercê.
[47] Coisa desajeitada.
[48] Peça tronco cónica que se coloca no fundo da embarcação tapando o bocal de escioamento.
[49] Enfartadela.
[50] Simplório,incapaz de fazer mal.
[51] Maroto.
[52] Tição.
[53] Presumida.
[54] Com a camisa retirada.
[55] Assinalável.
[56] Proibido.

SF  5.10.2010

sábado, outubro 02, 2010


HOMENAGEM DO ILLIABUM AO CAMPEÃO DO MUNDO

No intervalo do jogo Illiabum- Ovarense, quis o Clube de Ílhavo prestar uma publica e muito carinhosa homenagem ao campeão do Mundo,o Paulo Miguel(entre nós conhecido pelo diminutivo carinhoso, de Paulinho).

Foi bonita ,cheia de intenção ,carinhosa mesmo, a simpatia com que foi distinguido este notável atleta do CASCI, com direito a nome gravado no local dos famosos distinguidos por aquele Clube.
Sinto por vezes que é pena desconhecerem-se certas particularidades deste «miúdo» por quem todos nutrem um devotado carinho. Entrado para  a Instituição com apenas onze anos de idade, o Paulo é um «filho da casa», uma figura que  na sua diferença, irradia simpatia  tornando fácil a tarefa de quem vela por ele. Não terá sido difícil aos educadores na parte física perceber desde logo que aquele miúdo que  em criança afirmava querer ser campeão, queria mesmo sê-lo. E para isso diariamente aproveitando todos os momentos entregava-se á corrida com uma vontade indómita, fazendo espantosamente prever que o iria ser. Dias antes da deslocação ao México do Paulo, o Prof.Henrique Santos que sempre o acompanhou, garantia-me que tal era possível. Que o Paulo iria ser campeão do Mundo. Que iríamos ter outro Campeão entre nós, tal como já sucedera com o Augusto Pereira. 
O Paulo seria – estamos convictos – campeão do mundo em todas as circunstâncias. A vontade , a perseverança ,o sacrifício, a entrega ao treino ,levá-lo-ia a ser um novo   Carlos  Lopes, se as circunstâncias da sua vida fossem outras e a sorte o não tivesse penalizado.
Campeão do Mundo nos 800m e 1500m ,pulverizando os records das distâncias referidas, atestam o seu feito. Um feito de dimensão surpreendente, só igualável ao título de Campeão Europeu de ciclismo conquistado por Augusto Pereira (também este atleta do CASCI).Ambos os maiores feitos de sempre de qualquer outro atleta ilhavense.
O  CASCI agradece ao Illiabum, a homenagem. Vinda de um Clube com um passado(e presente) dignos do maior elogio no respeitante à formação de jovens , a homenagem  tem ainda maior relevo. O  Illiabum quis (assim) chamar a atenção para a importância da prática  desportiva como factor importante  de vivência e integração do individuo na sociedade.  Catalisador para a elevação da auto estima, parta esta do nível que parta. Ao promover a homenagem o Illiabum incita á reflexão da  obrigatoriedade de  todas as instituições contribuírem para que essa prática não conheça qualquer tipo de barreiras, limitações e ou restrições, sociais.   
De fora, ostensivamente e malcriadamente alheia a esta onda de apreço, esteve (ou está) a CMI. Estranhamente – ou talvez não, de facto - a Câmara Municipal de Ilhavo   alheou-se da proeza, fazendo de conta que a desconhece, ou atribuindo-lhe insignificância chilra. Nem sequer com um disfarçado telegrama de felicitações ao atleta tentou encobrir o incómodo. Porque nem vale a pena dizer quão justa e merecida seria  a publica homenagem que o feito justificava, agraciando o atleta com uma merecida distinção.
Interessou-se a Câmara por conhecer as despesas que foram necessárias para levar o atleta ao México para aí competir no Campeonato do Mundo, disponibilizando  UM! Euro para as mesmas?
Não!. O orçamento tinha-se já esgotado com a distribuição às ISSC «Instituições Importantes e Significativas Concelhias». Mesa lauta de vitualhas, à qual o CASCI não tem assento.
E quanto a medalhas?  Foram-se certamente  todas gastas a ambear os caudilhos locais. Nem de cortiça já aboiam….
Ainda bem… Pouparam-me o incómodo de lhes estender, obrigatoriamente, a mão. E assim me poupar o gasto em álcool, para a dita desinfectar. Que a cupidez é maleita pegadiça.            


Aladino

segunda-feira, setembro 20, 2010

O «BARCO DE LANHEZES»

O 2º Encontro de Embarcações Tradicionais do Rio Lima despertou-me a vontade de rever Viana, uma cidade de que guardo gratas recordações.

Num dia espectacular o Rio Lima estava majestoso. Embarcações tradicionais deste rio , muito poucas. Propriamente do rio Lima só o «barco de Lanhezes». Recuperação notável de uma embarcação de carga, de 13,5 m de comprimento, que no passado, segundo relatado, teria chegado aos 20 m. Na dimensão dos 13,5 m calculo que terá um deslocamento de cerca de 5 ton. Era uma embarcação usada no transporte, de pessoas e carga, «rio abaixo rio acima» ,deslocando-se com as marés (ou à vara) e aproveitando ,de manhã o vento leste para descer o rio com a vazante e, pela tarde ,enchendo a vela quadrangular com a aragem do norte que encana, rio acima.





«Barco Lanhezes» com Construtor Embarcado( Foto: AML)

Trata-se de uma embarcação esguia – barca - de casco trincado, envergando uma original (e complexa) vela de pendão, manobrada por seis escotas que se vêm fixar nas cadilhas ou fueiros (peças de madeira desmontáveis para permitir o uso de varas).

A embarcação é muito abicada de proa, tendo na ré um painel de popa que não ultrapassará os 0,40m.Neste inserem-se as fêmeas onde trabalham uma porta de leme de cana, de feitio muito estranho mas e também muito curioso.




Porta do leme da embarcação (Foto AML)

Olhando para a embarcação assaltou-me a ideia de que esta curiosa e um pouco tosca embarcação teria sido claramente inspirada nas embarcações nórdicas, que, se sabe visitaram, perpetrando pilhagens sanguinárias, nos rios Lima e Vouga antes de aportarem a Lisboa .

Na cavaqueira com participantes do «Encontro» ,alguém sugeria que tinha visto embarcações semelhantes(com casco trincado)na Ria de Aveiro. Apressei-me a desfazer o equivoco. Na Laguna não há, nem houve, embarcações de casco trincado para lá dos «Dories».Mas estes não são embarcações da Laguna.
Ora curioso é que o construtor da embarcação estava presente .Assaltado por um pressentimento perguntei-lhe como se desenvolve a feitura do casco, na construção. E o meu pressentimento confirmou-se com a resposta .Tal como os nórdicos, primeiro dava-se a forma aos tabuado trincado e só depois se colocava o cavername(shell first). Claramente o contrário da técnica naval Lagunar, esta de inspiração árabe(skeleton first), onde se parte da ossatura (cavername) da embarcação para depois lhe aplicar o tabuado encostado.



O casco trincado(foto:AML)

Voltei então, de novo, a deter-me sobre outros vários pormenores aspectos que me despertaram intensa curiosidade.

A embarcação está feita com muito respeito histórico. Percebe-se que a feitura da mesma denota um certo empirismo, mas recupera com fidelidade histórica aqueles barcos, pelo menos como seriam no século XIX (extinguiram-se no segundo decénio do Séc.XX). A duvida que me assalta é: -teriam sido sempre assim, desde tempos remotos?

A manobra da vela de pendão é exactamente reproduzida. Amarrações,escotas,aparelho, poliame, adriças, cadilhas, etc, tudo relembra, em rigor, as embarcações normandas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a troça (aconchego da verga ao mastro) executada por dois cabos atados na verga que se vão inserir numa peça curva de madeira que corre aconchegada por aqueles, ao mastro, facilitando a subida (ou descida) e a mareação da vela.



Vela de pendão e aparelho de manobra(Foto AML)

Se as semelhanças são assim tantas, porque motivo não teria a embarcação, originariamente, as duas bicas(proa e popa) ,sem existir painel de popa? (Afirma o construtor e quem o ajudou, que, de facto, parece que os barqueiros mais velhos falavam que antigamente os painés de popa eram muito reduzidos, quase inexistentes ).Exactamente! O que veio ao encontro do que deduzimos.



«CADILHAS» (Foto AML)

Admitimos, que, provavelmente, esta embarcação oriunda de tempos remotos poderia ter usado espadela lateral , originariamente, em vez da actual porta de leme(que praticamente não permite manobra). E (admitimos)que só posteriormente, para facilidade de manobra, se terá mudado a espadela para a porta de leme prolongada para ré ( com muito pouco calado e por isso má manobradeira) trabalhando no estreito painel de popa.

Esta embarcação despertou-me, pois, muito interesse. Explico desde logo as razões.

No livro que sairá em breve «Embarcações Que Tiveram o Seu Berço na Laguna» ,abordo e ensaio uma teoria onde refuto as influências nórdicas nas embarcações Lagunares que Jaime Cortesão(e outros citadores),sugeriram. A meu ver as semelhanças das embarcações lagunares são ténues demais para tal se poder afirmar.

Ao contrário ,no caso do barco de «Lanhezes» não tenho qualquer dúvida da influência. Aqui sim: - a influência é evidente demais para sequer se duvidar. Algumas dúvidas sobre visitas normandas ao Vouga, restam certezas de visita daqueles irredutíveis povos ao rio Lima.

Não pude estar presente ao Colóquio. A Ana Maria Lopes marcou presença, Espero que traga mais informações e fotografias para as quais a câmara do telemóvel não é bastante.

Remato : - tudo o que acima refiro é puro domínio de especulação minha, pois nunca tinha visto a referida embarcação. Desconheço se outros ensaiaram (já) estudos mais aprofundados que clarifiquem a questão.

Os nórdicos teriam visitado a Corunha e o rio Lima aquando da terceira investida para o Mediterrâneo (966-971).Considera-se que nos locais onde fixaram arraiais ,o máximo de estadia não terá ultrapassado os três anos. Nos Knarrs traziam pequenas barcas para remontar os rios.





Réplicas de pequenas embarcações vickings para trabalho nos rios.

Teria sido tempo de contacto suficiente para transmitir conhecimentos ?


Réplica pequeno «Knarr» vicking.



Nota : Fotografias cedidas gentilmente cedidas pela Ana Maria Lopes que esteve presente no Encontro.

SF



sexta-feira, setembro 03, 2010


A realidade «Humana» concelhia

De vez em quando faz bem rever o que dissemos num outro dia qualquer, e avaliar se o que dissemos é, ainda, o ajustado ao dia de hoje.
Vem isto a propósito das comemorações do Centenário da Gafanha da Nazaré como urbe.
Já referimos, há dias, neste Blog, ter sido editado um livro comemorativo da efeméride, da autoria do Prof. Fernando Martins registando, ordenando e comentando, as datas que, segundo o critério do autor, mais significado tiveram nos cem anos de vida comunitária do mais destacado centro gafanhão.
Não se fez - essa certamente não era a intenção do autor - uma abordagem no sentido de definir e caracterizar o perfil das gentes que estiveram no centro desses acontecimentos, os demiurgos que lhe deram rosto, alma e corpo. Isto é: descreveram-se os factos e não quem os protagonizou.
Já em tempos abordámos este assunto que reputamos fulcral para conhecermos a singularidade constituída por grupos bem diferenciados no tipo, na maneira de estar, no ser e no actuar.
Relembremos o que então dissemos.
O concelho de Ílhavo depois da divisão territorial administrativa, com a anexação das Gafanhas (1835/56), passou a ser integrado por dois tipos humanos de características tão especificas como dissemelhantes. Em todo o caso, determinantes para a sua actividade e modo de estar quando, cada um deles, procurou com mão segura no leme o rumo do seu próprio destino… Determinantes, pois...

Os «ilhavos» e os «gafanhões», pouco ou nada têm de comum.

Não importa, nem interessa para aqui, o saber-se qual o tipo mais valoroso, pois cada um a seu modo e jeito, foi-o em todas as circunstâncias e de sobremaneira influente na humanização da paisagem lagunar, onde o destino os depôs lado a lado. A laguna está cheia de suor humano, exsudado no revolver de cada leira da borda, em cada tabuleiro faiscante das salinas, em cada remada com que se impulsionou o chinchorro. Todas estas afadigadas ocupações tiveram em comum, independentemente de quem as praticou, em todas as circunstâncias, serem tarefas esfalfantes.
O «Ílhavo» e o «gafanhão», dum jeito ou de outro, intervieram no meio geográfico circundante, nele deixando marcas indeléveis dessa acção.

Mas há claramente diferenças morfológicas e temperamentais de tomo, entre cada um dos tipos referidos.
O «ílhavo» foi marnoto desde há milénios e até há bem pouco. Calcorreou infatigavelmente sob torreira assoladora as traves e barachas no amanhar amargurado das marinhas; foi em simultâneo, o pescador que povoou conjuntamente com o murtoseiro a laguna, enchendo-a de embarcações, cruzando-a em todos os sentidos; mais tarde, noutra saga, foi o colonizador do litoral português onde fundou, costa acima costa abaixo, da Afurada a Quiaios, de Buarcos a Lavos, da Nazaré a Sesimbra, chegando ao Algarve, colónias piscatórias onde deixou vincado traços marcantes que ainda perduram, dos seus usos e maneiras. E quando a pesca rareou, «o ílhavo», lesto e decidido, lançou o seu olhar de altieiro para paragens longínquas que calcorreou, embarcando mar dentro em rotas comerciais. Entretanto foi escrevendo em simultâneo, belas páginas da Faina Maior nos mares gelados da Terra-Nova e Groenlândia.

Vem de longe aos «ílhavos» a vocação para as lides do mar; de tão longe com certeza como a terra de onde são oriundos e que já figurava como villa de iliavo num vestuto pergaminho de 1037, vindo-lhes as barbas brancas do tempo de Fernando Magno” (F.M.)

O «gafanhão», esse chegou às areias ingratas e gafas muito depois do recuo do mar. Arriscamos:- aí por volta de 1677. Foreiros do Conde de Aveiro, Senhor de Vagos, trouxeram apenas os seus enxadões para revolver com determinação inquebrantável o vidro das areias. Estava-lhes destinada a infatigável e ciclópica, quão ingrata como augurante tarefa: a de esventrar incansavelmente dia após dia, ano após ano, as dunas ventosas dos areais gafos, achacados, transformando-os nos prados verdejantes dos dias de hoje.
Naquela ignota paisagem, então, «o gafanhão» atirou-se a abrir o rego para nele depositar a enfezada vergôntea. Traço vestal no areal que antes de nova investida, já a areia voltava a fechar teimosamente. Foi uma tarefa árdua, esgotante, ”danada” por vezes, essa de esgrimir com a terra, encharcando-a de moliço e escasso, na esperança de, um dia, a mesma, lhe retribuir dádiva generosa. Tempos de penúria, que tantas vezes o obrigaram a encontrar sobrevivência noutra arte quando se achou, ele terráqueo, joelhos metido no mar, a emprestar o (seu) suor à arte da xávega.



Há pois dois tipos humanos, diferentes até, na morfologia, nesta mistura humana concelhia...
«o ílhavo» é, no dizer de Luís de Magalhães, um ser de uma esbelteza nobre, ágil, determinada e valente. Ele é em si mesmo notado, pela atitude e nobreza do seu porte,
«o gafanhão», diz-nos ainda Luís de Magalhães ostenta ao contrário uma robustez maciça, um pouco tosca e rude, de feições vulgares e incaracterísticas.

Um, o primeiro – continua L.M.- é bem filho da onda, leve, fluido movediço; o outro, o da gleba espessa e imóvel é, em compensação, um trabalhador robusto e infatigável; das suas mãos nasceu uma das maiores maravilhas da agricultura portuguesa.
Sendo pois claramente diferentes, tiveram (obrigatoriamente e consequentemente) modos diferentes de estar e de se posicionar na aventura de intervir.
«o ílhavo» que já cá estava, plenamente enraizado numa comunidade já estabelecida, com uma vida e cultura próprias, com história e costumes já escritos no rolar dos anos - havia pelo menos seis séculos - nem sempre soube assimilar «os» que foram chegando; e amiúde lhes virou as costas. Encontraram-se, ocasionalmente na Xávega. Primeiro esporadicamente.
Logo depois aquando da adaptação do lavrador ao remo. E só mais tarde, (ainda) se encontrariam de novo na grande faina do bacalhau.

Historicamente, nos derradeiros dois Séculos de vida comum entre as mesmas fronteiras, «o ílhavo» teve sociologicamente preponderância. Foi empregador do «gafanhão» na xávega; foi seu “superior hierárquico”, na mor das vezes, na Faina Maior.
Na estrutura Social e Política até 74, «o ílhavo» teve assim clara preponderância. Tratou «o gafanhão», sem por vezes se dar conta disso, como “gente” de segunda. Virou-lhe as costas. Pouco fez para com ele se mistura, tendo sempre uma postura de distinção.
«o gafanhão» só raramente se caldeou em laços familiares com «o ílhavo», de que resultaram consequências nefastas para a assimilação que se queria natural e espontânea.
E se num passado mais ou menos longínquo isso teve pouca importância, por falta de consciencialização do “segregado”, dramático e nefasto foi que em tempos ainda recentes, essa situação tenha sido mantida.
No Século XX ainda, as Gafanhas (todas as Gafanhas ) estavam claramente afastadas da vida Concelhia, muito para lá das distâncias geográficas. Que eram e são, geograficamente insignificantes.

Não se estreitaram laços. Não se produziram interligações. Não se estabeleceram cumplicidades comunitárias; nunca as distâncias sociais eliminaram as fronteiras virtuais das urbes: - «o gafanhão» vinha à Vila só para cumprir os seus deveres com a fazenda, e para pouco mais...
Aveiro estava ali (mais) à mão.
Quando procurou novas formas de vida foi lá que «o gafanhão» esgravatou; a organização administrativa concelhia mantinha praticamente afastada dos mais primários anseios a comunidade dos gafanhões. Pouco ou nada se fez para aplanar o fosso que identidades dispares na sua origem foram cavando entre si, sem preocupação de o aplainar.
A comunidade de Ílhavo cedo sentiu a prosperidade da Faina Maior. Porque ocupou nela, como investidor e ou participante, os postos de maior retorno económico. A Vila captou riqueza. Os seus filhos de nova geração foram acedendo a graus de cultura notáveis para a época; absorveram-se novos hábitos, novas formas de estar, ganharam-se novas ambições, importaram-se novos conhecimentos. Os «ílhavos» seguiram no pelotão da frente nos novos tempos.
Das Gafanhas a primeira a arrancar foi a Gafanha da Nazaré (Calle da Vila). Por mor da indústria do Bacalhau. Por via das suas exigências a montante e jusante, sentiu-se ali o beneficio das sua influência. Mas é bom sublinhar que a maior fatia da riqueza criada, talvez o maior quinhão, esvaiu-se para outras paragens, tal a singularidade da organização empresarial subadjacente à indústria bacalhoeira.

Surge então a revolução de Abril: com ela a decadência vertiginosa da pesca do fiel amigo. Singularmente, «o gafanhão» vê chegada a sua hora. Descobre que tem direitos. E que de entre eles, sobressai como um dos mais notáveis que então lhe é outorgado – não por favor mas por direito - o de intervir no seu próprio destino. Isto é: o de participar activamente numa comunidade da qual até ali parecia não fazer parte. Tão só sócio de segunda escolha, participando na “empresa” mas não tendo retorno ajustado para o seu empenhamento.

E repentinamente procurou com avidez e sofreguidão, ganhar o tempo perdido. Agora (nos anos subsequentes da revolução), primeiro tímido depois determinado, «ele» queria com a mesma determinação com que os seus antepassados revolveram as areias, imbuir-se no húmus politico gerador de um novo destino.
As ferramentas já não então os enxadões de outrora, mas o diKtat.

«O ílhavo», bem ao contrário, mostrou-se atordoado com os novos tempos e com a perda de um desígnio comum; veio ao de cima a sua originalidade individualista num posicionamento distanciado, afastado, como que desinteressado das coisas do mundo comunitário. Como sempre esteve.
«o ílhavo» tinha, já, marcado encontro com outra aventura.

Os seus filhos estavam espalhados por esse país fora fazendo valer os seus reconhecidos méritos e capacidades individuais. Via a terra lá de longe, sem uma necessidade de intervenção. Como em tempos idos -os da saga histórica - em que tinha deixado uma sociedade matriacal a resolver-lhe os assuntos - todos os assuntos - agora deixava para outros a tarefa de fazer de novo história. Demitiu-se... como outrora... Só que desta vez para estranhos. Retirou-se assim por vontade própria, do palco. Sem perceber bem, e ou avaliar consistentemente, as consequências futuras do seu gesto.
Hoje um novo e diferente desenvolvimento centra-se nas gafanhas: - com indústria, turismo – a grande aposta do futuro - palco de trocas comerciais intensa advindas dos Portos Comercial e de Pesca etc, etc, com novos e diferentes apports, é patente uma nova ordem de desenvolvimento, que inevitavelmente conduzirá a novas centragens da esfera do poder local. Ilhavo desarticula-se. Morre aos poucos; definha, agoniza. Perde centros de produção, esvazia o seu comércio. Perde preponderância económica. E inevitavelmente política. Desaparece atrás da cortina, afasta-se como que envergonhada. Esvazia-se num comodismo patético, inibidor, descrente. A sua componente cultural, inexoravelmente, tende a desaparecer do mapa. Reduzida a sua cultura «ao bacalhau», já este ano (2010) foi sorrateiramente-e saloiamente!- iniciado o processo da mudança simbólica de capital do dito (mesmo que seja no prato), para a Gafanha da Nazaré. Como comunidade, Ílhavo assiste desinteressada e apática, ao embaciamento da sua história e tradição.
Estamos pois à beira de uma grande mudança estrutural da comunidade Concelhia.
Quais serão os novos caminhos da mesma?
Urge equacionar a questão. Importa avaliar as possíveis vias que se nos deparam, num novo equilíbrio sócio – económico concelhio que se esboça.
Não nos podemos demitir de intervir para evitar o irreversível.

SF
Setembro/2010


AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...