sábado, abril 27, 2013




Postal  da «CASA do BICO» Nº 10

 O parto na «labrega»

E lá voltou o tempo tristonho, de uma paz podre, belicoso, que mais do que incomoda, envelhece (nos).

Há que reagir à maldade dos deuses. E saltar fora do afecto modorroso dos lençóis quentinhos, e … «navegar».

A ria está quieta como um gato enrolado, esquecido de si e do que se passa à sua volta. No nosso tempo, meses que tinham R, eram meses de «cricalhada». Esta semana, apesar do dito R estar no mês, agora, as autoridades vieram decretar proibição do «crico», fora de casa. Parece que aquela alga que pinta de vermelho, adiantou o período de proibição. Por isso a ria está vazia, como mulher visitada pelo dito. E logo posta de lado pelos amantes. Raio desta cambada. Bem podiam afagá-la, acarinhá-la, e renderem-lhe visita. Ao menos de cortesia. Ingratos.
Mas hoje era dia de charla. E muito me admirei, quando ao meu encontro, além da Zefa e da Bernarda, vinha uma outra vistosa faininha. Logo apresentada como a Joana «Labrega».

-Olhe cá: para mudar de conversa, trouxemos a Joana «Labrega». Para ouvir uma história, linda. Mesmo linda, Vai ver. Aqui, a Joana, foi filha do arrais Agostinho «O Capa Cavalos». Home daqueles que dizia:
-Ah! mar estás a roncar (?)… espera que já  te mijo  em cima….
O Agostinho era casado com a Deolinda «Patacão». Ora às tantas esta emprenhou, e o certo é que passou muito mal, a rapariga.

E vai um dia a coisa complicou-se. Chamada a manobradeira do sítio, a ti Tuna «a Parideira»,  esta logo  percebeu que a criança estava atravessada na «vaga», aos baldões, e não havia maneira de a trazer cá para fora. Nem com «reboque». Chamando o Agostinho de parte, segredou-lhe:

-Temos aqui um estipor de lanço que ficou no peguilho. Senão levamos a Deolinda, a Aveiro,  e já, ao hospital, vossemecê fica sem rede e sem peixe.

- Mas como (?) …balbucia o arrais que nunca se vira num momento daqueles. Sem estrada, sem transporte, só lá para a noite dentro…se

-É tarde, interrompe a Tuna. Muito tarde. Temos uma, duas escassas horas. C’a Deolinda não óguenta mais. Vá pedir ao Ti Rigueira «o Murtoseiro», que ele leva a pobre, a Aveiro, na sua bateira «Labrega». Não há outro como ele, a voar sobre a ria, Ti Agostinho. Vá (!) meneie-se raio de homem, parece um xana, aí especado.

O Agostinho deu da perna e passado um pouco voltou com o Rigueira «Murtoseiro» que logo ordenou:

-Vá peguem na cachopa e levem-na ali à borda, que eu vou preparar o «camarote». A «Labrega» era uma daquelas bateiras que os murtoseiros traziam com eles, para os lanços do «saltadouro». Elegante na sua bica, toda «embreada», servia de «casa» ao pescador. Que lhe armava, no castelo de proa, o toldo espalmado (pata de rã) com que se protegia do vento frio da noite. O Rigueira aconchegou a manta, armou o toldo, e quando trouxeram a Deolinda, foi só poisá-la ao de mansinho na «Voadora». Assim se chamava a «Labrega». Toda pretinha, só com o raminho a enfeitar a cruz erguida na bica da sua elegante proa. A «Labrega» do Rigueira era a única que tinha uma vela bastarda, calcada à proa, na sarreta, e verga atirada bem lá para o alto.
                                            A «labrega» voadora
Vela enfunada, bem calcada no punho a esticar a testa da vela, escota na mão a comandar a «enchidela», toste bem ferrada, e a «Voadora», era, nas mãos do experimentado Rigueira, uma galgadora da ria.

O Agostinho sentado no «traste» olhava pela Deolinda deitada a seus pés. E os três embarcados atiraram-se à emposta. Punho da escota bem ferrado, cabo do xarolo de sota vento laçado na sarreta de barlavento, trilhado nos dedos de pé para jogar a orça, num ápice chegaram ao canalete do «Oudinot». Mas aqui a Deolinda, fosse pelas batidelas da bateira a adoçar a vaga, fosse pelo respingos da ria que entravam, bateira adentro, diz sentir que:
-Ai meu Deus e nossa Senhora do Bom Momento, «ela» já deu volta e vem aí……
O Rigueira acosta a «Labrega», fundeia numa revessa e pede ao Agostinho (que lívido, hirto, ficara, para ali ,especado).
-Vá, que a «rede está à borda» e é preciso separar o «mexoalho» do peixe branco. Salta lá para trás homem, estipor que só tens chaniço para o mar. De resto és um empecilho cheio de trízia.
E lavando as mãos nas auga, que aquecida pelo vento suão estava morna, abeirou-se da Deolinda e ordenou:
-Vá lá cachopa: ferra aqui as mãos nos escalamões, retesa-me esses pés no paral, e acospe-me  cá para fora o regordido que trazes aí dentro. E tu Agostinho (!): forra a macola com este camisote de linho, com que fui ao altar, e prepara-te para aparar o rebento. Passa-me aí a naifa de rasgar o porfio para cortar a mão da barca ao redame, e «a» libertar. 

E se melhor dito, melhor feito. Eis que de entre as pernas da Deolinda se escapa uma pimpolha a berrar como uma esgalmida. Logo o Rigueira mete o vertedouro na ria, e eslavaça a paxoneira (pois de facto era uma bonita pimpolha que acabara de nascer na «Labrega».
-Ora, diz a Zefa… e virando-se para a Joana que sorridente ouvira toda a história do enredo do seu nascimento, diz toda delambida: – agora veja, aqui tem o pimpolho nascido às mãos do parteiro Rigueira: – a Joana «Labrega».

Eu olhei para a Joana, embeiçado. Os seus olhos d’água eslavaçados pelas águas da ria, amêndoas doces a boiarem, inquietos, num rosto muito moreno, melaço,vivo e brilhante, eram sublinhados por um cabelo revolto. Negro…negro  como o embreado da «labrega» do Ti Agostinho.

                                          Na «labrega» do Rigueira
                                           Nasceu a Joana dos olhos d’água
                                           Foi na barca toda negra
                                           Que nasceu o meu amor;
                                           Estar longe sem a ver,
                                           Desdita a minha e minha mágoa.

 SF – Abril 2013                                          

quinta-feira, abril 25, 2013




ABRIL  20 13                                                                

Sobre a campa deste País desgovernado

Ocupado,   
Hoje já não existe um cravo florido:
Morreu a florista, a Bina,
Que pôs o cravo na ponta da carabina.
 
Hoje regar os cravos, só com o amargo
Do sal
Das lágrimas com que choramos
Este país querido
Chamado Portugal.
 
Hoje todas as flores estão secas,
Do mal;
Já não há vivos de esperança
Há só mortos, alevantados, vencidos
Espoliados.
 
Hoje já não choro….
Que adianta chorar(?!)
Mais forte que esperar

É saber que imperioso

É mudar….


 Hoje sou (todo) um silêncio

De um Abril distante ,esquecido.



SF (Abril 2013)

sábado, abril 20, 2013





Postal  9 da «Casa do Bico»
 
Estórias da Companha
 
Pois: um dia teria de acontecer. O inverno ceder à sua bastarda violência. A Costa-Nova, descubro agora, é louçã mesmo com a invernia; com a lareira acesa, ver o fustigo da chuva varrer a vaga, ler um bom livro, e estender a mão para um whisky suave (mesmo um four roses adocicado), e até um casmurro descrente, como eu, acredita que não havendo «deuses» mandantes, um homem pode-se revirginar, eu sei lá (?!), eternamente. E em cada que amanhece querer ter a lua na palma da mão.  
Mas hoje acabou-se. Salto para fora e logo deparo com uma cena de antologia: cinco bateiras «amarradas» aqui aos pedregulhos, atiram-se ao «ameijoal» que este ano parece semeado, mesmo à borda. De «cabrita» ao ombro, num trabalho danado, cuspindo nas mãos de pele dura, vão lavrando o fundo da ria. «Puxa», «cede», «puxa» …e aos saltinhos a «cabrita» varre o fundo. Chegada à borda, virado o saco no tabuleiro, o labutante atira o mexoalho fora, para proceder, logo ali, a primeira escolha. Paro deliciado, embora interiorizando o esforço esgalmido do camarada. Que feita a apanha ir receber´ escassos  três/cinco «euritos» por quilo de amêijoa «macha» que, à falta de compradores espanhóis, este ano, se vende ao preço de «uva mijona».
Bem …era tempo de ir ao encontro da Zefa e da Bernarda. Com a minha paragem  para apreciar a pescaria, elas já ali vinham. E o encontro deu-se a «meia-água».
-Atão (?!) gentes: – dias destes, nem de encomenda. Hoje é só azul, de azul. Ficamos encharcados de tanta macieza… fui  eu adiantando…..
-Pois. Este tempinho do Senhor até nos brune por dentro. Vá, axi xe-se aqui que hoje trago-lhe uma estória e das boas – ó larilas.
 -Avance mulher. Desembuche que eu sou todo fiel de ouvidos. Que os olhos perco-os na ria. Vá que eu dou-lhe todo o meu crèto.
- Vá…então,
olhe nos meus tempos de garota, na companha do Arrais Magano, havia um abegoeiro, murtoseiro rijo entroncado, já homem de idade meã, muito sério e conspícuo de palavras e actos, que vivia num recanto da abegoaria onde recolhia o gado, finda a faina, e aí, dele tratava. Nas mãos do abegoeiro as juntas andavam num folgo vivo, duna abaixo, duna acima, numa guita do caraças. De seu nome, de bautismo ou por crisma, conhecido por ti Brígido.
Ora na companha, andava uma rapariga, ou melhor, uma raparigaça, bonita, mançanzeira de face, esguia de corpo e abocada de ancas que balouçavam, pecadoras, no andarilho da lideira da escolha do pilado. De seu nome e alcunha,  Fernanda «a Fininha».
Havia um zamparilha, um tal Albino « o Escuro», rapazote mal encarado de vida ao rossaló, sem rumo e tino, tipo azedo e brigão, que por umas naifadas dadas numa briga, a um paciente, fora deportado para uma prisia lá do Porto. E muito embora a Fernanda não  lhe permitisse nenhum avanço, certo é que o Escuro desinquietava a rapariga, acoimando-a, impedindo-a por ameaços, que desse cúnfia fosse a quem fosse. Como se ela fosse propriedade sua.
Num fim de tarde, a horas de recolho para dar descanso ao corpo por umas escassas horas, na palha da abegoaria, o Ti Brígido dera com «a Fininha» encolhida no areal, deitada de borco,chorando compulsivamente.
-Que é lá isso, raios ; porque estás para aí arrolada? inquiriu o Brígido.
-Ai deixe-me, tio, que a minha desgraça está escrita. O «Escuro» irá cumprir a ameaça…
-Que me dizes? Atão esse xabuqueiro já voltou?
-Já. E disposto a tirar-me a vida se eu não lhe entregar o meu corpo. Que a minha alma, essa!, nunca será dele. Mais valia dá-la ao diabo, Ti Brígido. Afaste-se de mim, santo homem !..., desta desgraçada que parece que tem  peçonha. Olhe que ele pode vir aí cumprir a promessa, e  atira-se a si.
- Isso é que era bom !!! vá anda daí. E baixando-se, agarrou-a pelos ombros levantando-a facilmente, levando-a para o palheirão. Depois de a acomodar, foi  ao borralho de onde tirou uns peixitos que aloiravam no brasido ateado. A Fernanda recuperara o ânimo, e contara ao Brígido, em pormenor, a tragédia do seu viver. De repente ouvem-se socadas violentas no portão do palheirão.
-Quem é lá, a besta que escoiceia assim? – atira o abegoeiro.
- Veem ! …já me reconheceu diz o alarve d’o « Escuro» para a camarilha. Abra a porta que eu sei que está aí com a Fernanda; ou ponho-a abaixo. Vou aí e espeto os dois.
O Ti Brígido abre o portal, e do alto da sua figura larga e emproada, olhos mansos mas a despedir chispa com a zanga, marmeleiro erguido, olha o «Escuro» que  se fazia acompanhar por dois gálicos mal-encarados. Ao verem  a cara de poucos «amigos» do homenzarrão – só agora repararam que o Brígido não é um homem correntão –, instintiva e medrosamente arrecuam.
-Olhai bigorrilhos: ides entrar e ver se está a Fernanda (que entretanto mandara esconder-se no rolo do cordame do reçoeiro). E se não estiver, vamos tratar do assunto e acabar com a fanfarronice de vez. Ides zangalhar ao som do marmeleiro, que tenho o fole cheio de tanta avaria.
O «Escuro» e acólitos entram, olham, olham …e nada.
-Bem:  astão, vamos lá fora.
O «Escuro nem espera. E rapando da naifa, gritou:
-Vou-lhe escachar a alma desgraçado…
O Brígido, rápido, tira do marmeleiro com ponta a luzir, e aponta à orelha do berrega, escarchando-o de alto abaixo. «O Escuro» cai redondo como perdiz atingida por tiro certeiro. Sem hesitar, marmeleiro zune e bate certeiro, ora num, ora nos outros bardais.
Agarrando o «Escuro» pela piolheira ergue-o e dispara:
 - Se voltas a pôr os pezunhos na companha esgalho-te de alto abaixo. Agora foi só a amostra. Da próxima, rapo da foice de dar palha aos bois, corto-te por onde mijas, e penduro-te nos cornos do «Asdrúbal» (que era o cobridor da abegoaria, manso de farta e recurvada cornadura, bem afiada de pontas). Sim, quando me decidir, limpo-te.
Com uns valentes pontapés e pauladas corre com o grupelho. E o certo é que o «Escuro», bem aconselhado sobre, afinal, quem era aquele homem solitário, vindo lá da Murtosa: que bom por bom,…era bom, como mar manso. Mas por mau, deus nos livre: era um toiro desembolado.O  «Escuro» bem avisado, desapareceu de vez do acampamento dos Xávegas.
A vida continuou, a « Fininha» foi-se afeiçoando em silêncio àquele «santo homem», até que um dia o Brígido lhe atira:
-Olha Fernanda; eu estou para aqui sozinho. E se viesses viver comigo sempre nos amparávamos, um ao outro. Mas se vieres, só depois de juntos por Deus. Queres?...
-À ti Brígido: eu, pouco a pouco, fui-me aquietando e afeiçoando a si, bom  home. Há benícias que gosto de si. Eu querer, queria. E já!...mas sabe que o Padre Jerónimo é muito esquisito. É um inxum, que não casa murtoseiros com gente de cá. Diz que não quer misturas de vinhos.
-Ah não?! Então vamos lá…
E lá foram. Na capela onde a «Senhora da Saúde», substituíra o S. Pedro, como orago local, estava o sacrista d’«o Bexigoso». E na sacristia o frei Jerónimo. O Brígido com «a Fininha» pela mão, entra.E resoluto diz ao pobre sacrista:
-Salta lá para fora e dá cá a chave da casa. Não foi preciso repetir. «O Bexigoso» : ala que se faz tarde.
Fechando o «portaló» da Senhora, o Brígido chama o F. Jerónimo. Que comparece, lépido, ao ouvir a voz de trovão no templo:
- Olhe, abade Jerónimo: à face da lei do Senhor que nos vê, despache-se e case-nos. Depressa. A porta está fechada. E vossemecê, ou escolhe a bênção, ou vai depressa é direitinho para os anjinhos. Ou de muletas para o inferno, se não me fizer a vontade. Basta uma cruz sobre a gente, dois pai-nossos, e umas lengas-lengas de faladura. E pronto. Chega. E olhe :acabada a cerimónia vá mudar de batina que a «maré» chegou –lhe aos ditos. Inté’prece que nem acredita no que prega, e afinal o céu nem boa coisa é para morar.
E ainda que trémulo e gago ,o fradoco consuma o enlace cristão.
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E assim, diz a Zefa, chegámos ao fim da «estória» que afinal teve um fim feliz. O que é raro, digo-lhe eu…
-Pois: o Brígido que ainda tinha nele muito de homem – não sei se me entende?- (entendo, entendo, disse-lho eu…) - ainda fez dois filhos à «Fininha».Mulher respeitada, que depois da morte do Ti Brígido, pôs mãos à empresa, e foi a primeira «abegoeira» cá do sítio. Não havia mulher mais governadeira e despachada. E sempre pronta a tirar do mealheiro, para acudir aos que mais precisavam. Quanto ao «Escuro» foi um ar que lhe deu. Parece que se meteu noutra desgraça, e foi degredado para África. O +Escuro» que devia ser filho de marroquino aqui naufragado, dada a sua tez, pouco se distinguia dos de lá….
SF (Abril 2013)     

quinta-feira, abril 18, 2013


    Nesta noite há luar

     De súbito o inverno parece ter morrido,
     Esta noite é primavera.
     OH! esta noite vou abrir a janela
     Para deixar entrar  por ela
     O doce  afago da maresia,
     Que vem no sussurro da brisa
     Trazer –me o cheiro de ti.
     Vou levá-lo comigo para a cama
     E guardar no nocturno da noite
     Todas as palavras que amanhã Te direi.

    No ar há um doce sabor a mar
    Lá fora navegam os barcos no espelho da ria;
    Vão viajar. Gaivotas  pairam no ar.
    Eu (?!),
    Vou saber esperar por ti.
     Na viagem da tua ausência
    Vou sentir o desejo a latejar
    Da fome de ti 
    Nesta noite-oh! nesta noite !-
    Felizmente há luar.

    SF (Abril 2013)
  


  

quinta-feira, abril 11, 2013



                                                                           

POSTAL DA CASA DO BICO  nº8
                                                              
O Senhor Zé e o «Visconde»
Raios: tempo desalmado,esgalmido. Mácista e mal sádio. Por bor do dito cujo, deixei de encontrar  a Zefa e a Bernarda ,e de,  com elas, ter  prazer de charlar e rir. Rir sim!.Porque na minha idade rir é o melhor «xanax» para a alma retorcida. E eu,confesso, já estava farto de estar  aqui encanteirado, confinado (e desafinado) neste «estar à janela» .Parado, especado a olhar  as serranias,dorido de tanto «sobe e desce» que as curvas serranas  mostram. Neste pousio, enquanto chove e eu aqui especado, pareço estar só: eu e  o mundo. E fico cansado de tanto sonhar. Sonhar é bom.Mas sonhar, intervaladamente. Poema que me saia, fala invariavelmente da mulher amada. Começo a ficar tão farto de fingir, que até  me apetece dizer : quero-te só para sonhar contigo.

Mas uma sota, nesta segunda-feira, permitiu-me o reencontro. Eu, a Zefa e a Bernarda, falámos de muita coisa. De entre elas catei uma bonita «estória».Vo-la conto….
-Olhe –diz a Bernarda :este tempo desembestado faz-me recordar a nossa vida em pequenas. O palheiro onde nos abrigávamos do tempo, feito de um tabuado mal encostado, deixava passar o vento frio por entre as frinchas, que até zunia. Então nas noites de surriada tiravam-se os cobertores serranos da enxerga  e punham-se  a fazer de anteparo.E para não ir para a a enxerga e ter frio,  abusacávamo -nos em volta do borralho À luz de um candeeiro trémulo,  por vias da fisga ventosa que escapulia entre frinchas,íamos ouvindo os maiorais,enquanto uns cavaquitos apanhados do outro lado,no matagal da Maluca, ardiam, mitigando o frio.E entre conversa lá íamos assalgalhando, quebrando o jejum.
Numa lenga- lenga familiar, ouvíamos «histórias» do antigamente. Lembro uma que fez o encanto da minha meninice. Sabe?!: sempre pensei,  porque fui testemunha viva da heroicidade demente daqueles «arraises», que, ás vezes,até parecia não regularem bem, quando no meio do areal, frente ao desalmado mar,  gritavam : - «bota» prómar, que este mar enxogalhado não mete medo a hommes».E  nós,  que ficávamos especadas na praia arrepiadas a ver o meia lua encabritar-se na 1ª vaga, e logo atrás dela vir a segunda ainda  mais danada, arrepanhávamos os cabelos e só sabíamos gritar:- aii o meu Pai,coitadinho, que lá fica!  
Ora um dia, contou o meu avô,o Chico «Cuteta»,o Sr José (José Estevão) tinha vindo, como habitualmente, à borda a conversar com as «nossas» gentes.A saber da nossas vida. Trazia com ele uns «fidalgotes» da cidade, que se viam astrapalhados, dizia o Ti Cuteta, com a areia a entrar-lhes para as polainas. «Que inté» pareciam um barco alquebrado «a meter auga»...

E parando apresentou –os ao arraias Thomé. Um dos fidalgos, homem de larga bigodeira engomada e retesada que mais parecia imitar o «meia lua», dirigiu-se sorridente ao Thomé  dizendo-lhe:

-Atão vossemecê é que é um dos tais «ílhavos» que o «Visconde» diz, pedirem meças ao campino, a saber qual mais valente (?):  se o que defronta o touro, se o que investe o mar!!!!....Sim senhora, finalmente vejo um dessa  espécime.  E Vossemecê que pensa do que diz «Visconde»(?) pergunta o fidalgo letrado, ao Thomé.

-Ora saiba óspois que eu penso que esse tal Visconde- ósculpe mas não o conheço- é zamparilha . Ora essa :- olhe ….

E zás !!! A um boi que vinha dar o chicote ao  «càlão»,fila-o pelos cornos ,torce... torce...torce...  até que o boi ajoelha e cai de borco na areia, resfolegando e espumando, preso pelas manápulas do Thomé.
Este levanta-se, sacode as mãos, põe o boné, e diz para o amigalhaço do Sr. José:

- Ora  diga agora ao tal «Visconde» que faça isto com o mar.E veja quantos hommes eram precisos para o abraçar. Todos que há no mundo. O «manso«, esse (!), como-o eu em bifes. Sem sal parecem feitos de palha. O mar, esse (!)--e ao dizê-lo tira respeitosamente o boné - bebe-se aos golinhos, senão afogamos no seu sal. Essas gentes de que fala o dito, enfarpelam-se de vermelho e são bailarinos. Morre-lhes pouca gente, por certo. Olhe em volta Vossa Senhoria, e repare na nossa gente :  vê-os quase todos de preto. Vestem-se assim pelos que ali (apontando o mar) ficaram. Mas isso não os quita de «zangalharem» com ele, as vezes que forem precisas
Enquanto a conversa decorria, o Sr José, ria a bom rir.
-Pois …. Ó Pinheiro!!!, meteste-te com boa  rês. Logo com este gladiador do mar.  

SF   (Abril 2013) 

 

 

 

                                                                                                                                                               .

segunda-feira, abril 08, 2013


Chove lá fora …e eu  a «cabular»
Pela Terra da Lâmpada

O Ribau é «lixado». A escolher pensou:

- De entre os  melhores piores vou  escolher o  pior…. pior…. Depois de mim o dilúvio.

E se assim o pensou, assim, melhor,  o fez: escolheu o« Caçoilo». Ao ponto a que chegámos. Uma sem vergonha.

Olhando contudo em volta para as candidaturas, reconheço:  este anos são «os piores». Inimaginável .

Diz que ninguém quis ser. Pois….qualquer dia  nem o boi do «Paço» quer chegar-se  à Vaca, tão escanzelada ela está….

Pelo País…

O Cavaco, já tinha dito tudo na véspera : isto é mesmo para durar. Os «portugas» são espécimes de lavar e durar. E auguentam…auguentam ….Se ainda não chegámos ao fundo do poço, porque nos havemos de queixar?

Este « contabilista» de Boliqueime, é o pior de sempre. Cagarola, madraço e aldrabão.

A dizer que só come uma torrada ao lanche….Ele que engole elefantes ao pequeno almoço ,almoço, lanche e ceia. Basta o Passos  mandar.

É cada pedrada

Gaita: o Sócrates manda cada pedrada de se lhe tirar o chapéu. Temo pelo «seguro» do Toino Seguro. Ná pá ,assim não te aguentas. O melhor é desistires já….

O Marcelo parece um menino do Coro ao pé do Sócrates. Nervoso ontem …c’um diabo (parafraseando-o) .

Bem : preparem-se. O Tsunami que aí vem é de grau 7. Nem os patos ficarão a boiar.
O TC fez um jeitão ao Passos &Cia. Assim, «cortar» vai ser à facada….

«Coitados»!!!. O que aqueles «anjos» vão ser «obrigados» a fazer. Tudo derivado  da

«irresponsabilidade» dos  «vários» srs Juízes .

 Eles  (Gov.) só queriam uns trocos. Agora (?) vão –nos virar de pernas para  apanhar as moedas que ainda restam.
Jogada de mestre. E há quem diga que foi uma jogada do Relvas. Ainda vão ter saudades do rapaz..

Ai aguentamos ….aguentamos. Se não formos vivos, aguentaremos melhor. A troika só sai quando apagar a luz do cemitério. 

SF

quinta-feira, março 28, 2013




 

Curiosidades sobre o navio-escola SAGRES

 



«SAGRES»



Num dos últimos números da «Chasse Marèe»,que assino(e que aconselho a todos os amigos que privilegiem o contacto com o historial náutico),vinha inserido um interessante artigo sobre alguns pontos da  história do navio-escola Sagres, que desconhecia.
Toda a gente «náutica» conhece esta «barca de três mastros», um dos últimos dinossauros  do tempos áureos das grandes navegações à vela. Emblema nacional, este navio-escola insere no seu velame a  cruz da Ordem de Cristo, insígnia que já as caravelas dos Descobrimentos levavam mar adentro.E com ela fomos por «mares nunca dantes navegados…nem sequer pensados».
Ora como curiosidade (para mim foi-o ) fiquei a saber que este navio ,lançado à água em 30 Outubro de 1934,fazia parte da encomenda de quatro  veleiros-escola  feita pela Kriegsmarine,depois da perda do Niobe.Navio–escola que se voltou no Mar Báltico em 1932(causando a morte de 68 instruendos). Os veleiros encomendados foram :o Gorch Fock(lançado em 1933), o segundo o Horst Wessel (lançado em 1936),o terceiro o Albert Leo Schlageter  (que é o actual Sagres) e o quarto, o Herbert Norkus,lançado em 1939.

                                              1º Gorch Forck 2-Horst Wessel  3-Albert Leo Schlageter
 A sua construção,levada a cabo debaixo dos requisitos mais severos, levou  a que as chapas (rivetadas e soldadas ) do seu casco atingissem o 10mm; o navio possuía  seis compartimentos estanques e a sua quilha  foi fortemente lestada.

                                                       
                                                                            Construção                                         

O Albert Leo Schlageter  terá sido construído em apenas três meses e meio. Fez a sua primeira viagem de instrução em 20 de Março de 1938. Não foi muito feliz nesta viagem. Ao fim de poucos dias abalroou  o paquete Trojan Star, tendo  de regressar ao estaleiro. O navio realizou, depois de reparado, várias viagens,  em 1944.Cinco meses depois ,navegando no Baltico, com 200 tripulantes,colide com uma mina  russa. Dezoito dos cadetes que estavam a amainar as velas (o tempo era mau) caíram.Uns sobre o tombadilho e outros água do mar gelado.Rebocado ,vai para Kiel. E  será depois transferido para Flensburg ,devido aos bombardeamentos ingleses.

 
                                                                
                                                                       Bota-abaixo
E como veio para a Portugal ?
Depois da perda da guerra as grandes embarcações  da Alemanha  foram entregues a diversos Países do lado vencedor. O GranFock  atribuído a URSS(rebatizado Tovarisch ); o Horst Wessel foi entregue aos americanos ; e o «nosso» Albert  Leo  Schlageter foi vendido por 5.000 Dollars  ao Brasil.Que o rebatizará  com o nome de Guanabara. O Guanabara ficará em mãos brasileiras durante treze anos, percorrendo 64.000 milhas em viagens de instrução, participando em várias regastas de grandes veleiros.
O embaixador de Salazar, António Teotónio Pereira foi quem conduziu  as negociações para que o Guanabara viesse substituir o velho Sagres. Salazar terá pago 150.000 dollars pelo navio- escola.

 SF  (Abril 2013)
Fotos: «Chasse Marèe» nº 248 ; aguarela do pintor de Marinha,Roger Chapelet.

                                                               

 

 

  

sexta-feira, março 22, 2013



 

Nova Mensagem

Hoje, amigo, deixa-me falar de um País
Que foi soldado pelo braço forte de Afonso

Curto da perna mas longo na bravura

Correu  com o moiro iroso que só da vida já cura,

E olhando para a praia ocidental

Afirmou: aqui vai nascer Portugal !

 

Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

Que teve um rei trovador

Que trovou cantigas de amigo

 Por Isabel perdido de amor;

Que as rosas não eram o bastante de lhe bastar

 Mas urgente fazer uma Pátria para ao mundo a dar.

 

Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Feita de um punhado de arraia- miúda

A erguer-se para dizer ao mundo inteiro

Que aqui não há lugar para nefandos andeiros

 Portugal não foi feito para vender

Portugal foi feito para ser; e a vida para o defender.

 

Hoje amigo, deixa-me falar de um império

Filho de uma pátria que queria ser maior que o mundo

Que teve um rei, pai de longínquos mares

Maiores de todo o olhar que fosse bem lá até ao fundo;

Neles rei algum mandava. Viu-se terra nunca sonhada

Que tanto a queria, o nosso El rei D. João Segundo.

 
Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

À procura dos berços onde o sol nasce

Seus feitos espalhados em canto imortal

Camões a mostrar ao mundo que o globo era Portugal;   

E Pessoa a dizer que a fé foi instinto da acção

De serem possíveis todos os caminhos impossíveis   

 

   Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

 Onde intrusos mostrengos ousaram entrar e porfiar.

Três vezes o francês entrou

Muitas mais o espanhol veio na noite de breu

Sonhando um povo conquistar

 De um país que não era o seu.         

 

Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

Que deuses malévolos um dia castigaram:

Que desgraça que vileza fazer gládio da natureza.

Para baixo a morte; para cima a vida, ordenou Pombal

E de novo se fez, fazendo –se,  Portugal.

Renascia o sonho de revelar o Santo Graal.

 

 Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Que desde enão caminhou pela bruma

No sonhos de um quinto império acreditado,

Desfeito no farfalho da maré, à praia atirado

 Tempo foi. Séculos correram

Nem primeiro nem segundo, tudo se foi à uma.

 
Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Onde entraram robots sem rosto, homens sem alma

A espezinhar o seu povo, a calcar as suas gentes

Uma troyka de mostrengos vinda lá dos confins do mundo

Para nos dizer que já nada é certo, senão saber o que se não quer:

Que tais mostrengos deitem a nau ao fundo.

 
Mas hoje amigo, já chega de te falar desta pátria

Amedrontada à beira mar posta a entristecer

Sem trabalho e sem pão. É tempo de dizer basta

 É tempo de dizer não. Fazer da voz uma canção

E da canção uma arma, Não para ser império de novo então.

Mas para se ser livre e dono da sua pátria.

                                                        [ Escravo, isso(!) não!

SF

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...