sexta-feira, maio 31, 2013


 

«Cantiga de amor»

 Por esta ria adiante
Vai vogando o meu olhar…

Ai vai atrás de ti, meu amor,
Com ele vai o meu penar.

 
Por esta ria adiante
Vai meu coração dorido
Ai vai atrás de ti, meu amor,
Dizer-te  que estou perdido.

Por esta ria adiante
Vão minhas palavras ao vento
Ai vão atrás de ti, meu amor,
A chorar o meu lamento.

 
Por esta ria adiante
Vão a correr minhas lágrimas
Ai vão atrás de ti, meu amor

Meus olhos  cegos de mágoas.

 
Por esta ria adiante

Vai  com ela o  meu alento
Vai atrás de ti, meu amor

Matar meu olhar sedento. 

 
Por esta ria adiante

Vogo eu pelas estrelas guiado
Vou atràs de ti, meu amor,

Enlaçar teu corpo amado.

 
 Por esta ria adiante…

Vai o meu choro, vai meu pranto.

Vão atrás de ti, meu amor.
 Eu fico aqui no meu canto.

 
Fico aqui à tua espera;

Na ilusão da aurora
Ou no crepúsculo da noite,

Fico aqui, só, desejando

Que o labirinto do tempo
Desfaça a terrível demora.

 
Volta amor; volta!
Ai amor… foste no vento

Deixaste-me  tão vazio e só

A lamentar minha dor,
De não ter outra dor

Que a de não te ter eternamente.

 SF (Maio 2013)

terça-feira, maio 28, 2013


 

O meu tamanho visto ao espelho, de facto, engana-me.

Cada vez que tudo «isto» avança -e ai, avança…avança….- vem–me à ideia uma frase que,ou li em qualquer parte ,ou a criei no meu espírito. Vá lá saber-se tanta coisa que já li…
Ora é verdade: a vida é coisa séria demais para ser vivida sem intensidade. E sem honestidade ética. Só  vivendo-a nesses estados de graça permanente, vale a pena o sacrifício de «aqui» aportar por uns tempos.

E ter por isso direito a belos momentos. Como este em que martelo a máquina infernal, á janela, em silêncio a percorrer o ondulado da ria. Silêncio livre que olha os vales e os ecos da montanha lá ao longe,sem medo de ser perturbado.

Sempre á espera de cantares novos. Venham eles… ou não …

Percebo pois, cada vez menos, que haja pessoas (como muitas que conheço), que passaram uma vida a olhar, única e exclusivamente, para o seu umbigo. Não digo até que não tenham sido bons(excelentes desempenhadores de oficio).Mas só isso…e mais nada.
Sentido ? Nenhum….Viver servo  de uma contemplação do seu redor.«Isso» chega?

Não  viver (?) mais do que a simples vulgaridade :– «levar a vida».
Levar para onde e para quê?

Ora gaita! Se falassem, os cães também diriam o mesmo .E até as flores.
Esta inconsciência absoluta, materialista, de alguns, choca-me.

E falo com eles circunstancialmente, porque para despertá-los …já é tarde.

E lá vou para outra palestra. Faço já isto,como quem bebe um fino….e no fim: arrota (com licença!).
Que raio: se ao menos as ditas fossem  pagas ,como as  do Mário Soares….
Ele a vender a «banha de cobra» com aplauso e com umas coroas para a Fundação.Eu sem aplauso (que se veja) e afundando-me…Pois nem sonhando com outra vida, mesmo assim ela me parece merecedora de deleite.

O meu tamanho visto ao espelho, de facto, engana-me.   

SF (Maio 2013)

segunda-feira, maio 13, 2013







Postal da «Casa do Bico» nº12

A Joana Maluca

 

Aqui sentado no meu canto à beira ria plantado por mim, com um sonhado e não escondido propósito de um dia poder gozar a velhice, desgastado do corpo que não dos sentidos, inebriado por esta ria tão inquieta quanto eu, mas muito mais prodigiosa na oferta de sensações que dela podemos extrair e guardar. Esplendorosa em si,uma espécie de ante sossego do além, mas aqui já. Hoje «Imenjà» das águas vivas, reluzentes, cheias de vida.. E agora que já pouca beleza extraio da vida, é ela que (me) consola nestes momentos – eu sei lá?! – se os poderei chamar de criativos. Pelo menos, aqui, criar, significa sonhar, querer, desejar. Sonhar com as palavras que gostaria de dizer, e que, se afinal não digo, é porque me falta o estro.

Mesmo defronte aos meus olhos – ali mesmo! –, ficam as terras da Joana «Maluca», figura histórica por quem sempre tive largo apreço. Como  tive –ao menos – «talento» para cimentar amizades que duraram uma vida, essa qualidade historicamente registada na figura da Joana, atrai-me. E há muito, depois de ter  contado a «estória» das visitas do José Estevão à grande senhora (vide www.senosfonseca.com clicando na janela Factos & História, em Palheiro de José Estêvão),  apetece-me dar um retrato mais preciso da Joana. 

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Às vezes não chega, a um indígena, ser maluco. Para sê-lo é preciso parecê-lo. Ora a Joana Rosa de Jesus «a Maluca» não só o não era, como nem o parecia. A alcunha, coitada, ter-lhe ia vindo de ter casado com um dos primeiros foreiros do Senhor de Vagos, o pastor José Domingos da Graça «o Maluco».
A Rosa de Jesus era uma «Gramata». Nascida em Ílhavo, em 1788, era originária da família dos Gramatas, lá do Arnal, cujo avô, o Tomé Francisco, fora um dos primeiros foreiros que nos fins do século XVII se teria vindo estabelecer para aqueles terrenos arenosos que bordejavam o canal que ia lá para os lados de Mira. Ora o certo é que o Tomé Francisco tomou o nome de «Gramata», que era o nome por que eram conhecidos aqueles terrenos lodacentos que tinham vindo lá das entranhas da ria, e onde apenas parecia capaz de nascer e se desenvolver, uma erva marinha, conhecida por gramata: «diz-se a qual mó do meio produz junco e hoje pela continuação da maré salgada já o não produz, mas sim erva que chamam de “gramata”, apetitoso manjar para o gado».

Em 1883, a Joana «Gramata» e o marido «o Maluco», que teria vindo lá do sul de Vagos, fazem, o aforamento da «Quinta do Feijão», local preciso onde hoje se encontra situada a Capela da Sr.ª da Encarnação(aqui mesmo exctamente no «azimute» da minha proa.
A Joana, já então conhecida por Joana «Maluca», cedo ficará viúva. Não sem ter botado à vida nove rebentos, que lhe darão a bonita prole de 66 netos. Viúva aos 48 anos, irá casar com António Sousa Pata.
Não teria sido fácil ao José da Graça convencer a sogra a dar-lhe a filha. «A Gramata», já gente de sinal, olhava para o rapaz, pastor das castras enfezadas e raquíticas, e tentava inquirir o que «ele» teria de «seu».Ou  dos seus, tanto fazia.
Ora numa noite estrelada enquanto fixava as luzinhas lá no alto, acudiu ao José – rapaz esperto – uma ideia que logo ao outro dia botou em prática. E enquanto na eira da «gramata» ia respondendo aos «quesitos» da mãe de Joana, não esteve com meias medidas.Colhendo na mão umas espigas de trigo, atirou à «Gramata»:
-Olhe Sr.ª amiga: eu pareço um pelintra a vadiar aqui com o gado por estes areais. Mas não colha o gato pela cor do pêlo. Que a casa de meu pai é tão abastada e tão rica, que à noite há tantas luzes a iluminá-la, como grãos que tenho aqui entre mãos».
E logo ali, a convencida e crédula sogra, aprazou casório.

A Joana, embora de perfil varonil em que uma teimosa barba lhe cobria o queixo realçando-lhe o tipo, era, contudo, uma aprazível e simpática mulheraça. Mulher ridente, faladeira e sempre bem disposta, fumava viciosa e deleitadamente charutos, que amigos e comensais, da sua lauta e farta mesa, lhe faziam oferta, mantendo o stock sempre abastado.

Abria com regozijo a porta aos políticos, recebendo amiúde José Estêvão que se fazia acompanhar pelos ilustres que o vinham visitar ao seu palheiro da Costa-Nova. Indo de barca, passava a ria atracando na mota da passagem, em terrenos que confinavam com as terras da Joana.

Mulher activa, empreendedora, boa na arte de negociar, rapidamente a sua casa emerge como das mais poderosas e ricas da região. Benfeitora, é ela que cede os terrenos da sua quinta onde se virá a instalar a capela da Sr.ª da Maluca, dotando-a com algumas imagens de oráculos, devotos, que amigos de Aveiro lhe teriam oferecido.

A Joana «Maluca» virá a falecer em 28 de Janeiro de 1878.

 

SF (Maio 2013) 

sexta-feira, maio 10, 2013


 

A morte da Cina «Resende» ou

O ZIG-ZAG da vida

Esse temível anunciador de más noticias a cuja companhia por causa dos outros me submeto ,tocou cedo para me dar a má nova (?)  que também a Cina Resende ,não tinha conseguido furtar-se à  morte anunciada. Que a  é aquela terrível doença.
É mais uma amiga da geração anterior que desaparece. Vão começando a escassear os poucos que ainda navegam aos empurrões, por cá.
Nos últimos contactos tidos com a Cina, a propósito da doença da Zida, admirava a firmeza da sua convicção,que me parecia alicerçada numa fé inquestionável. Eu ficava amargurado se por acaso lhe dava nota da insinceridade com que amargamente lhe queria demonstrar que também ainda «acreditava», quando o certo é que nunca acreditei desde o primeiro dia.
Mas a verdade é que nunca sabemos quando somos sinceros nesta vida do faz de conta. Eu talvez nunca o seja. Custa-me dizê-lo : mas é a verdade.
Porque continuadamente dá-me a impressão que sou outro, que penso como outro, que vejo a vida como outro.
Olho para o que se passa á minha volta e vejo-me mero espectador de um espectáculo para que não paguei.
A Cina sempre me pareceu uma rapariga que amava demasiadamente a vida.
Não sei onde li um dia qualquer, um poeta  dizer que se se amou qualquer coisa, pode bem morrer-se. Estas  poetas são de um lirismo confrangedor.
Eu que não sou – nem quereria ser – poeta, digo o contrário: quem assim ama a vida, não tem  dia para morrer. Nunca!
E assim vai aqui mais um intervalo doloroso da minha vida. Não por ser uma pessoa muito chegada à Cina ; mas porque me custa ver morrer quem não merece.

Desapoquento-me escrevendo isto. Se eu tivesse fá zangava-me com Deus. Como não tenho, fico-me : –  cansado de descrença.
SF

quinta-feira, maio 09, 2013



                                              
                                                                           

 
Postal da «Casa do Bico»- nº 11
Maio chega e com ele a época do tresmalho. Abro a porta, respiro o ar da alva, fresco e poderoso, e assisto ao despertar da ria. Atiro os olhos para a água enquanto o corpo não ganha coragem para os acompanhar. Os meus olhos sempre foram uns felizardos: têm sempre tudo o que por vezes nego ao corpo.
Na paisagem que desde logo se encharca de sol, reparo (ou imagino) como deveria ser bonito, outrora, o avistamento do prado da Joana «Maluca». Sem nada que colhesse a linha do horizonte, nessa atapetada planura onde teimosamente despertavam umas vergônteas enfezadas que demoraram gerações até se transformarem nos verdejantes milheirais lagunares, o olhar só esmorecia nas faldas serranas do Caramulo. Que hoje ainda daqui avisto por cima do casario da Srª da Maluca. A maresia invade-me os poros limpando-me do cheiro «a raposinhos» de uma noite entre vale de lençóis, curando-me dos achaques das viradelas (que travessuras já as não há!...) nocturnas.
Manhãzinha cedo e já lá vai uma azáfama no estender dos tresmalhos do «choco» no lençol azul das águas lagunares. Mesmo aqui, à minha porta, a um braço de distância. Colho a máquina de imagens paradas, e disparo. Maré enche, e é tempo de metodicamente desenrolar a meada e estendê-la numa lonjura que ultrapassa os 300 m. Atravessada a bateira, esta vai descaindo; e o arrais, agora que já usa o motor e é o único tripulante a bordo, deixa correr, entre a concha da mão, o cabo e bóias superiores. E o cabo e lastros inferiores, que depois na água, com a ajuda da corrente ficarão na vertical, fundeados pelos ferros e poitas intermédios, levantados pelas bóias sinalizadoras. Aboiadas a cada pano mergulhado. O «choco» que nestes meses invade a laguna (num prodígio de vida que as mutações lagunares não matou, e renova a cada época) virá paulatinamente em procura do «manjar dos céus» que sabe posto na mesa, com pompa e circunstância, nesta borda poente lagunar, onde desovará. E eis que, de repente, o pobre que se julgava convidado «vip», se enfia pela malha larga das albitanas; numa aflição com o traiçoeiro convite, procura recuar, libertar-se, e fugir. Quanto mais gesticula com os «braços» mais se enreda na malha miúda entralhada nos cabos superiores e inferiores.
Estendida a «arte» – aqui a palavra ajusta-se perfeitamente ao ofício – o arrais mergulha ferro e fundeia. Momento para descanso a  enredar-se nos pensamentos da vida. Fumando cigarro após cigarro, ficava  à espera que a maré vire para recolher o redame.    
 
          
E vai pensando no estupor da vida...
 
Na véspera tinha ouvido um pissofoque, na TV, a pregar aos «peixes». E o Zé «Lavanco» –  assim se chama este «camarada» da manhã – começa a pensar nestes «pissalhos» que lhe atormentam as noites perdidas em frente da sua prosápia, com que  atiram a «tinta de choco» aos olhos do zé povinho, para lhes encaldeirar a vista. E o que é certo é que os peixes – pensa o «Lavanco –, andam muito eslabaçados. Esfraldilhados de todo, parecendo como o choco deixarem-se enrodilhar no redame do palavreado chinca.
 Estes codres só olham para cima, e nunca – mas é que nunca, porra! – os fraldocos olham para baixo. ! – pensa o «Lavanco»: este cardume não é como o de peixes. Que olham para cima para baixo, e p’ró lado. Isto é cardume  de «chaputas»...
Nesta cambada há mesmo uma peixaria, matuta o «Lavanco» : os ditos «roncadores» que só têm prosápia, arrogância e chança: pissalhos!!!!. Mas também há dos «pegadores».É o que há mais. Parasitas, labajões; cambada de inchuns. E os «voadores» que só têm ambição no sentar do cu … Mas há também –oh! se há! – muitos «polvos»: traiçoeiros … badalhocos. Monte de boseiros.
E com isto a maré vira. Um dia a maré também há-de virar…. sacanas!…. foi pensando  o «Lavanco», alevantando-se , cuspindo  nas mãos, disposto a ir à rede.
E de volta, trazido com a maré, bateira atravessada à corrente, deixa-se descair a norte, enquanto mete os panos dentro. Emalhados lá vêm os «chocos» que ainda darão um trabalhão do «caraças» a libertar para a caixa.De interior enegrecido pela tinta que as presas vão largando no estertor final…  ( como o povo, atirado para o caixote… pronto para ser vendido a «merkel & companhia»).
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E estava eu pronto a recolher a penates, como um xana, e eis que chega a Zefa. Hoje, sem companhia da amiga, é quando a língua mais se lhe destrava….
-Ah rico!!!! Vossemecê está esgalfo dos olhos.
-Pois Ti Zefa.Aqui a ver o «tresmalhar» dos «chocos»…
-Olhe que o tresmalho é como mulher na cama, diz a Zefa, maldosa no olhar ainda malandreco. E continua : «alinha-se» com a enchente (e só nesta), encosta-se e dá as albitanas a charir. O home augadinho, marra. A gente, auguenta e faz que foge.O calhandras bardaleiro, atiça-se, e depois é um badanal. A vagalhoça invade-nos a cama, espincha que espincha, e só desemalhamos quando estamos derreados. Ás vezes  arrecuava. E eu logo lhe dizia:
-Ah! Nem adregues….livra-te ! Atão não dizas tu que peixe que passa a borda…já não sai. Vá maneia-te, antes c’a maré vire.
 
- Ah! Ti Zefa que você deve ter sido chaleira de bom lume, atirei eu….
-Olhe amigo: se não há bom lume assoprasse-lhe. A carne não é como o peixe: é pecadora. E só um santo de pau carunchoso é capaz de resistir ósdepois dos louvados (lambiscos está Vossemecê a entender?)
-Ora...ora... se entendo. O pecado foi a melhor coisa que o homem inventou depois que Deus (um bom sarrazina), dele se fez desentendido.
SF (Maio 2013)

sábado, abril 27, 2013




Postal  da «CASA do BICO» Nº 10

 O parto na «labrega»

E lá voltou o tempo tristonho, de uma paz podre, belicoso, que mais do que incomoda, envelhece (nos).

Há que reagir à maldade dos deuses. E saltar fora do afecto modorroso dos lençóis quentinhos, e … «navegar».

A ria está quieta como um gato enrolado, esquecido de si e do que se passa à sua volta. No nosso tempo, meses que tinham R, eram meses de «cricalhada». Esta semana, apesar do dito R estar no mês, agora, as autoridades vieram decretar proibição do «crico», fora de casa. Parece que aquela alga que pinta de vermelho, adiantou o período de proibição. Por isso a ria está vazia, como mulher visitada pelo dito. E logo posta de lado pelos amantes. Raio desta cambada. Bem podiam afagá-la, acarinhá-la, e renderem-lhe visita. Ao menos de cortesia. Ingratos.
Mas hoje era dia de charla. E muito me admirei, quando ao meu encontro, além da Zefa e da Bernarda, vinha uma outra vistosa faininha. Logo apresentada como a Joana «Labrega».

-Olhe cá: para mudar de conversa, trouxemos a Joana «Labrega». Para ouvir uma história, linda. Mesmo linda, Vai ver. Aqui, a Joana, foi filha do arrais Agostinho «O Capa Cavalos». Home daqueles que dizia:
-Ah! mar estás a roncar (?)… espera que já  te mijo  em cima….
O Agostinho era casado com a Deolinda «Patacão». Ora às tantas esta emprenhou, e o certo é que passou muito mal, a rapariga.

E vai um dia a coisa complicou-se. Chamada a manobradeira do sítio, a ti Tuna «a Parideira»,  esta logo  percebeu que a criança estava atravessada na «vaga», aos baldões, e não havia maneira de a trazer cá para fora. Nem com «reboque». Chamando o Agostinho de parte, segredou-lhe:

-Temos aqui um estipor de lanço que ficou no peguilho. Senão levamos a Deolinda, a Aveiro,  e já, ao hospital, vossemecê fica sem rede e sem peixe.

- Mas como (?) …balbucia o arrais que nunca se vira num momento daqueles. Sem estrada, sem transporte, só lá para a noite dentro…se

-É tarde, interrompe a Tuna. Muito tarde. Temos uma, duas escassas horas. C’a Deolinda não óguenta mais. Vá pedir ao Ti Rigueira «o Murtoseiro», que ele leva a pobre, a Aveiro, na sua bateira «Labrega». Não há outro como ele, a voar sobre a ria, Ti Agostinho. Vá (!) meneie-se raio de homem, parece um xana, aí especado.

O Agostinho deu da perna e passado um pouco voltou com o Rigueira «Murtoseiro» que logo ordenou:

-Vá peguem na cachopa e levem-na ali à borda, que eu vou preparar o «camarote». A «Labrega» era uma daquelas bateiras que os murtoseiros traziam com eles, para os lanços do «saltadouro». Elegante na sua bica, toda «embreada», servia de «casa» ao pescador. Que lhe armava, no castelo de proa, o toldo espalmado (pata de rã) com que se protegia do vento frio da noite. O Rigueira aconchegou a manta, armou o toldo, e quando trouxeram a Deolinda, foi só poisá-la ao de mansinho na «Voadora». Assim se chamava a «Labrega». Toda pretinha, só com o raminho a enfeitar a cruz erguida na bica da sua elegante proa. A «Labrega» do Rigueira era a única que tinha uma vela bastarda, calcada à proa, na sarreta, e verga atirada bem lá para o alto.
                                            A «labrega» voadora
Vela enfunada, bem calcada no punho a esticar a testa da vela, escota na mão a comandar a «enchidela», toste bem ferrada, e a «Voadora», era, nas mãos do experimentado Rigueira, uma galgadora da ria.

O Agostinho sentado no «traste» olhava pela Deolinda deitada a seus pés. E os três embarcados atiraram-se à emposta. Punho da escota bem ferrado, cabo do xarolo de sota vento laçado na sarreta de barlavento, trilhado nos dedos de pé para jogar a orça, num ápice chegaram ao canalete do «Oudinot». Mas aqui a Deolinda, fosse pelas batidelas da bateira a adoçar a vaga, fosse pelo respingos da ria que entravam, bateira adentro, diz sentir que:
-Ai meu Deus e nossa Senhora do Bom Momento, «ela» já deu volta e vem aí……
O Rigueira acosta a «Labrega», fundeia numa revessa e pede ao Agostinho (que lívido, hirto, ficara, para ali ,especado).
-Vá, que a «rede está à borda» e é preciso separar o «mexoalho» do peixe branco. Salta lá para trás homem, estipor que só tens chaniço para o mar. De resto és um empecilho cheio de trízia.
E lavando as mãos nas auga, que aquecida pelo vento suão estava morna, abeirou-se da Deolinda e ordenou:
-Vá lá cachopa: ferra aqui as mãos nos escalamões, retesa-me esses pés no paral, e acospe-me  cá para fora o regordido que trazes aí dentro. E tu Agostinho (!): forra a macola com este camisote de linho, com que fui ao altar, e prepara-te para aparar o rebento. Passa-me aí a naifa de rasgar o porfio para cortar a mão da barca ao redame, e «a» libertar. 

E se melhor dito, melhor feito. Eis que de entre as pernas da Deolinda se escapa uma pimpolha a berrar como uma esgalmida. Logo o Rigueira mete o vertedouro na ria, e eslavaça a paxoneira (pois de facto era uma bonita pimpolha que acabara de nascer na «Labrega».
-Ora, diz a Zefa… e virando-se para a Joana que sorridente ouvira toda a história do enredo do seu nascimento, diz toda delambida: – agora veja, aqui tem o pimpolho nascido às mãos do parteiro Rigueira: – a Joana «Labrega».

Eu olhei para a Joana, embeiçado. Os seus olhos d’água eslavaçados pelas águas da ria, amêndoas doces a boiarem, inquietos, num rosto muito moreno, melaço,vivo e brilhante, eram sublinhados por um cabelo revolto. Negro…negro  como o embreado da «labrega» do Ti Agostinho.

                                          Na «labrega» do Rigueira
                                           Nasceu a Joana dos olhos d’água
                                           Foi na barca toda negra
                                           Que nasceu o meu amor;
                                           Estar longe sem a ver,
                                           Desdita a minha e minha mágoa.

 SF – Abril 2013                                          

quinta-feira, abril 25, 2013




ABRIL  20 13                                                                

Sobre a campa deste País desgovernado

Ocupado,   
Hoje já não existe um cravo florido:
Morreu a florista, a Bina,
Que pôs o cravo na ponta da carabina.
 
Hoje regar os cravos, só com o amargo
Do sal
Das lágrimas com que choramos
Este país querido
Chamado Portugal.
 
Hoje todas as flores estão secas,
Do mal;
Já não há vivos de esperança
Há só mortos, alevantados, vencidos
Espoliados.
 
Hoje já não choro….
Que adianta chorar(?!)
Mais forte que esperar

É saber que imperioso

É mudar….


 Hoje sou (todo) um silêncio

De um Abril distante ,esquecido.



SF (Abril 2013)

sábado, abril 20, 2013





Postal  9 da «Casa do Bico»
 
Estórias da Companha
 
Pois: um dia teria de acontecer. O inverno ceder à sua bastarda violência. A Costa-Nova, descubro agora, é louçã mesmo com a invernia; com a lareira acesa, ver o fustigo da chuva varrer a vaga, ler um bom livro, e estender a mão para um whisky suave (mesmo um four roses adocicado), e até um casmurro descrente, como eu, acredita que não havendo «deuses» mandantes, um homem pode-se revirginar, eu sei lá (?!), eternamente. E em cada que amanhece querer ter a lua na palma da mão.  
Mas hoje acabou-se. Salto para fora e logo deparo com uma cena de antologia: cinco bateiras «amarradas» aqui aos pedregulhos, atiram-se ao «ameijoal» que este ano parece semeado, mesmo à borda. De «cabrita» ao ombro, num trabalho danado, cuspindo nas mãos de pele dura, vão lavrando o fundo da ria. «Puxa», «cede», «puxa» …e aos saltinhos a «cabrita» varre o fundo. Chegada à borda, virado o saco no tabuleiro, o labutante atira o mexoalho fora, para proceder, logo ali, a primeira escolha. Paro deliciado, embora interiorizando o esforço esgalmido do camarada. Que feita a apanha ir receber´ escassos  três/cinco «euritos» por quilo de amêijoa «macha» que, à falta de compradores espanhóis, este ano, se vende ao preço de «uva mijona».
Bem …era tempo de ir ao encontro da Zefa e da Bernarda. Com a minha paragem  para apreciar a pescaria, elas já ali vinham. E o encontro deu-se a «meia-água».
-Atão (?!) gentes: – dias destes, nem de encomenda. Hoje é só azul, de azul. Ficamos encharcados de tanta macieza… fui  eu adiantando…..
-Pois. Este tempinho do Senhor até nos brune por dentro. Vá, axi xe-se aqui que hoje trago-lhe uma estória e das boas – ó larilas.
 -Avance mulher. Desembuche que eu sou todo fiel de ouvidos. Que os olhos perco-os na ria. Vá que eu dou-lhe todo o meu crèto.
- Vá…então,
olhe nos meus tempos de garota, na companha do Arrais Magano, havia um abegoeiro, murtoseiro rijo entroncado, já homem de idade meã, muito sério e conspícuo de palavras e actos, que vivia num recanto da abegoaria onde recolhia o gado, finda a faina, e aí, dele tratava. Nas mãos do abegoeiro as juntas andavam num folgo vivo, duna abaixo, duna acima, numa guita do caraças. De seu nome, de bautismo ou por crisma, conhecido por ti Brígido.
Ora na companha, andava uma rapariga, ou melhor, uma raparigaça, bonita, mançanzeira de face, esguia de corpo e abocada de ancas que balouçavam, pecadoras, no andarilho da lideira da escolha do pilado. De seu nome e alcunha,  Fernanda «a Fininha».
Havia um zamparilha, um tal Albino « o Escuro», rapazote mal encarado de vida ao rossaló, sem rumo e tino, tipo azedo e brigão, que por umas naifadas dadas numa briga, a um paciente, fora deportado para uma prisia lá do Porto. E muito embora a Fernanda não  lhe permitisse nenhum avanço, certo é que o Escuro desinquietava a rapariga, acoimando-a, impedindo-a por ameaços, que desse cúnfia fosse a quem fosse. Como se ela fosse propriedade sua.
Num fim de tarde, a horas de recolho para dar descanso ao corpo por umas escassas horas, na palha da abegoaria, o Ti Brígido dera com «a Fininha» encolhida no areal, deitada de borco,chorando compulsivamente.
-Que é lá isso, raios ; porque estás para aí arrolada? inquiriu o Brígido.
-Ai deixe-me, tio, que a minha desgraça está escrita. O «Escuro» irá cumprir a ameaça…
-Que me dizes? Atão esse xabuqueiro já voltou?
-Já. E disposto a tirar-me a vida se eu não lhe entregar o meu corpo. Que a minha alma, essa!, nunca será dele. Mais valia dá-la ao diabo, Ti Brígido. Afaste-se de mim, santo homem !..., desta desgraçada que parece que tem  peçonha. Olhe que ele pode vir aí cumprir a promessa, e  atira-se a si.
- Isso é que era bom !!! vá anda daí. E baixando-se, agarrou-a pelos ombros levantando-a facilmente, levando-a para o palheirão. Depois de a acomodar, foi  ao borralho de onde tirou uns peixitos que aloiravam no brasido ateado. A Fernanda recuperara o ânimo, e contara ao Brígido, em pormenor, a tragédia do seu viver. De repente ouvem-se socadas violentas no portão do palheirão.
-Quem é lá, a besta que escoiceia assim? – atira o abegoeiro.
- Veem ! …já me reconheceu diz o alarve d’o « Escuro» para a camarilha. Abra a porta que eu sei que está aí com a Fernanda; ou ponho-a abaixo. Vou aí e espeto os dois.
O Ti Brígido abre o portal, e do alto da sua figura larga e emproada, olhos mansos mas a despedir chispa com a zanga, marmeleiro erguido, olha o «Escuro» que  se fazia acompanhar por dois gálicos mal-encarados. Ao verem  a cara de poucos «amigos» do homenzarrão – só agora repararam que o Brígido não é um homem correntão –, instintiva e medrosamente arrecuam.
-Olhai bigorrilhos: ides entrar e ver se está a Fernanda (que entretanto mandara esconder-se no rolo do cordame do reçoeiro). E se não estiver, vamos tratar do assunto e acabar com a fanfarronice de vez. Ides zangalhar ao som do marmeleiro, que tenho o fole cheio de tanta avaria.
O «Escuro» e acólitos entram, olham, olham …e nada.
-Bem:  astão, vamos lá fora.
O «Escuro nem espera. E rapando da naifa, gritou:
-Vou-lhe escachar a alma desgraçado…
O Brígido, rápido, tira do marmeleiro com ponta a luzir, e aponta à orelha do berrega, escarchando-o de alto abaixo. «O Escuro» cai redondo como perdiz atingida por tiro certeiro. Sem hesitar, marmeleiro zune e bate certeiro, ora num, ora nos outros bardais.
Agarrando o «Escuro» pela piolheira ergue-o e dispara:
 - Se voltas a pôr os pezunhos na companha esgalho-te de alto abaixo. Agora foi só a amostra. Da próxima, rapo da foice de dar palha aos bois, corto-te por onde mijas, e penduro-te nos cornos do «Asdrúbal» (que era o cobridor da abegoaria, manso de farta e recurvada cornadura, bem afiada de pontas). Sim, quando me decidir, limpo-te.
Com uns valentes pontapés e pauladas corre com o grupelho. E o certo é que o «Escuro», bem aconselhado sobre, afinal, quem era aquele homem solitário, vindo lá da Murtosa: que bom por bom,…era bom, como mar manso. Mas por mau, deus nos livre: era um toiro desembolado.O  «Escuro» bem avisado, desapareceu de vez do acampamento dos Xávegas.
A vida continuou, a « Fininha» foi-se afeiçoando em silêncio àquele «santo homem», até que um dia o Brígido lhe atira:
-Olha Fernanda; eu estou para aqui sozinho. E se viesses viver comigo sempre nos amparávamos, um ao outro. Mas se vieres, só depois de juntos por Deus. Queres?...
-À ti Brígido: eu, pouco a pouco, fui-me aquietando e afeiçoando a si, bom  home. Há benícias que gosto de si. Eu querer, queria. E já!...mas sabe que o Padre Jerónimo é muito esquisito. É um inxum, que não casa murtoseiros com gente de cá. Diz que não quer misturas de vinhos.
-Ah não?! Então vamos lá…
E lá foram. Na capela onde a «Senhora da Saúde», substituíra o S. Pedro, como orago local, estava o sacrista d’«o Bexigoso». E na sacristia o frei Jerónimo. O Brígido com «a Fininha» pela mão, entra.E resoluto diz ao pobre sacrista:
-Salta lá para fora e dá cá a chave da casa. Não foi preciso repetir. «O Bexigoso» : ala que se faz tarde.
Fechando o «portaló» da Senhora, o Brígido chama o F. Jerónimo. Que comparece, lépido, ao ouvir a voz de trovão no templo:
- Olhe, abade Jerónimo: à face da lei do Senhor que nos vê, despache-se e case-nos. Depressa. A porta está fechada. E vossemecê, ou escolhe a bênção, ou vai depressa é direitinho para os anjinhos. Ou de muletas para o inferno, se não me fizer a vontade. Basta uma cruz sobre a gente, dois pai-nossos, e umas lengas-lengas de faladura. E pronto. Chega. E olhe :acabada a cerimónia vá mudar de batina que a «maré» chegou –lhe aos ditos. Inté’prece que nem acredita no que prega, e afinal o céu nem boa coisa é para morar.
E ainda que trémulo e gago ,o fradoco consuma o enlace cristão.
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E assim, diz a Zefa, chegámos ao fim da «estória» que afinal teve um fim feliz. O que é raro, digo-lhe eu…
-Pois: o Brígido que ainda tinha nele muito de homem – não sei se me entende?- (entendo, entendo, disse-lho eu…) - ainda fez dois filhos à «Fininha».Mulher respeitada, que depois da morte do Ti Brígido, pôs mãos à empresa, e foi a primeira «abegoeira» cá do sítio. Não havia mulher mais governadeira e despachada. E sempre pronta a tirar do mealheiro, para acudir aos que mais precisavam. Quanto ao «Escuro» foi um ar que lhe deu. Parece que se meteu noutra desgraça, e foi degredado para África. O +Escuro» que devia ser filho de marroquino aqui naufragado, dada a sua tez, pouco se distinguia dos de lá….
SF (Abril 2013)     

quinta-feira, abril 18, 2013


    Nesta noite há luar

     De súbito o inverno parece ter morrido,
     Esta noite é primavera.
     OH! esta noite vou abrir a janela
     Para deixar entrar  por ela
     O doce  afago da maresia,
     Que vem no sussurro da brisa
     Trazer –me o cheiro de ti.
     Vou levá-lo comigo para a cama
     E guardar no nocturno da noite
     Todas as palavras que amanhã Te direi.

    No ar há um doce sabor a mar
    Lá fora navegam os barcos no espelho da ria;
    Vão viajar. Gaivotas  pairam no ar.
    Eu (?!),
    Vou saber esperar por ti.
     Na viagem da tua ausência
    Vou sentir o desejo a latejar
    Da fome de ti 
    Nesta noite-oh! nesta noite !-
    Felizmente há luar.

    SF (Abril 2013)
  


  

quinta-feira, abril 11, 2013



                                                                           

POSTAL DA CASA DO BICO  nº8
                                                              
O Senhor Zé e o «Visconde»
Raios: tempo desalmado,esgalmido. Mácista e mal sádio. Por bor do dito cujo, deixei de encontrar  a Zefa e a Bernarda ,e de,  com elas, ter  prazer de charlar e rir. Rir sim!.Porque na minha idade rir é o melhor «xanax» para a alma retorcida. E eu,confesso, já estava farto de estar  aqui encanteirado, confinado (e desafinado) neste «estar à janela» .Parado, especado a olhar  as serranias,dorido de tanto «sobe e desce» que as curvas serranas  mostram. Neste pousio, enquanto chove e eu aqui especado, pareço estar só: eu e  o mundo. E fico cansado de tanto sonhar. Sonhar é bom.Mas sonhar, intervaladamente. Poema que me saia, fala invariavelmente da mulher amada. Começo a ficar tão farto de fingir, que até  me apetece dizer : quero-te só para sonhar contigo.

Mas uma sota, nesta segunda-feira, permitiu-me o reencontro. Eu, a Zefa e a Bernarda, falámos de muita coisa. De entre elas catei uma bonita «estória».Vo-la conto….
-Olhe –diz a Bernarda :este tempo desembestado faz-me recordar a nossa vida em pequenas. O palheiro onde nos abrigávamos do tempo, feito de um tabuado mal encostado, deixava passar o vento frio por entre as frinchas, que até zunia. Então nas noites de surriada tiravam-se os cobertores serranos da enxerga  e punham-se  a fazer de anteparo.E para não ir para a a enxerga e ter frio,  abusacávamo -nos em volta do borralho À luz de um candeeiro trémulo,  por vias da fisga ventosa que escapulia entre frinchas,íamos ouvindo os maiorais,enquanto uns cavaquitos apanhados do outro lado,no matagal da Maluca, ardiam, mitigando o frio.E entre conversa lá íamos assalgalhando, quebrando o jejum.
Numa lenga- lenga familiar, ouvíamos «histórias» do antigamente. Lembro uma que fez o encanto da minha meninice. Sabe?!: sempre pensei,  porque fui testemunha viva da heroicidade demente daqueles «arraises», que, ás vezes,até parecia não regularem bem, quando no meio do areal, frente ao desalmado mar,  gritavam : - «bota» prómar, que este mar enxogalhado não mete medo a hommes».E  nós,  que ficávamos especadas na praia arrepiadas a ver o meia lua encabritar-se na 1ª vaga, e logo atrás dela vir a segunda ainda  mais danada, arrepanhávamos os cabelos e só sabíamos gritar:- aii o meu Pai,coitadinho, que lá fica!  
Ora um dia, contou o meu avô,o Chico «Cuteta»,o Sr José (José Estevão) tinha vindo, como habitualmente, à borda a conversar com as «nossas» gentes.A saber da nossas vida. Trazia com ele uns «fidalgotes» da cidade, que se viam astrapalhados, dizia o Ti Cuteta, com a areia a entrar-lhes para as polainas. «Que inté» pareciam um barco alquebrado «a meter auga»...

E parando apresentou –os ao arraias Thomé. Um dos fidalgos, homem de larga bigodeira engomada e retesada que mais parecia imitar o «meia lua», dirigiu-se sorridente ao Thomé  dizendo-lhe:

-Atão vossemecê é que é um dos tais «ílhavos» que o «Visconde» diz, pedirem meças ao campino, a saber qual mais valente (?):  se o que defronta o touro, se o que investe o mar!!!!....Sim senhora, finalmente vejo um dessa  espécime.  E Vossemecê que pensa do que diz «Visconde»(?) pergunta o fidalgo letrado, ao Thomé.

-Ora saiba óspois que eu penso que esse tal Visconde- ósculpe mas não o conheço- é zamparilha . Ora essa :- olhe ….

E zás !!! A um boi que vinha dar o chicote ao  «càlão»,fila-o pelos cornos ,torce... torce...torce...  até que o boi ajoelha e cai de borco na areia, resfolegando e espumando, preso pelas manápulas do Thomé.
Este levanta-se, sacode as mãos, põe o boné, e diz para o amigalhaço do Sr. José:

- Ora  diga agora ao tal «Visconde» que faça isto com o mar.E veja quantos hommes eram precisos para o abraçar. Todos que há no mundo. O «manso«, esse (!), como-o eu em bifes. Sem sal parecem feitos de palha. O mar, esse (!)--e ao dizê-lo tira respeitosamente o boné - bebe-se aos golinhos, senão afogamos no seu sal. Essas gentes de que fala o dito, enfarpelam-se de vermelho e são bailarinos. Morre-lhes pouca gente, por certo. Olhe em volta Vossa Senhoria, e repare na nossa gente :  vê-os quase todos de preto. Vestem-se assim pelos que ali (apontando o mar) ficaram. Mas isso não os quita de «zangalharem» com ele, as vezes que forem precisas
Enquanto a conversa decorria, o Sr José, ria a bom rir.
-Pois …. Ó Pinheiro!!!, meteste-te com boa  rês. Logo com este gladiador do mar.  

SF   (Abril 2013) 

 

 

 

                                                                                                                                                               .

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...