quarta-feira, setembro 25, 2013


 
Somos ou não um país ocupado?
 
 
Somos!. Ocupação muito pior que as mordomias,roubos e  dislates praticados pelo sargento Junot (ao menos este roubou a quem o tinha, mal ganho)

 Somos -não duvidem! -um País que perdeu a liberdade governativa.
Quem duvida, ao ver um inapto a ser Primeiro-ministro, e a  continuar a sê-lo mesmo das calinadas praticadas onde não existe ponta de vergonha. Ou pudor!!!
Claramente: hoje somos um protectorado.
cabemos, pois,  com a farsa, que só veste aos cobardes. Estamos com um pé em cima da nossa garganta. Haverá um 2ºresgate e depois um terceiro….e....

 Perdermos a liberdade de nos governar segundo as nossas ideias, segundo as nossas opiniões.
 Dão-nos dinheiro para o racionamento. Ora eu lembro-me de ir muitas vezes para a bicha, em 45,para ir buscar o açúcar e o azeite, lá para casa. E jurei que nunca mais me veriam numa bicha. Toda a gente que me conhece sabe que não suporto estar numa bicha. Nunca mais provei o açúcar… Uma bicha para mim são dois.....

Então, perdida a liberdade, não entendo como é que estes super– economistas, tipo bruxos da Pedriscosa, pagos principescamente (BCE,FMI,EU etc. etc.) para funcionarem como lobbies na TV, ainda não chegaram ao momento de, abertamente, dizerem com sapiência que até parece deles: vamos ter que mudar a Constituição, à cautela, ou no próximo mês não há pilim  .(lá chegaremos, olhos nos olhos)
Mudada a dita, é chegado o tempo para «a vilanagem se governar á farta!». Eles andaram a doutorar-se na matéria, num processo de que um dia saberemos os contornos).

E depois, os de sempre, vão ter de trabalhar por uma côdea…
Uma côdea?!…Vá lá….vá lá !!!. E não se queixem, se querem ser competitivos. (Devo aqui declarar: o trabalhador português é ,enquadrado,o mais genial , produtivo-e competitivo -trabalhador da Europa. As élites que os comandavam ,é que eram-hoje houve uma clara melhoria - uma MERDA .Provo-o á saciedade. Poucos, muito poucos, o experimentaram como eu).
Somos, neste momento, um País de cobardolas. Ainda virá o tempo em que verei muitos «revolucionários» a votar a nova Constituição.

SF – Set 2013

 

 

segunda-feira, setembro 23, 2013



Votar para quê?       


É vulgar ouvir dizer que esta capacidade de «pensar» foi o maior bem que Deus nos deu, quando botou o homem à Terra.

Eu  cá  por mim, não sei ?!….Tenho duvidas .Talvez fosse escusado, e o mundo seria bem melhor. Às vezes penso que a minha cadela, a «China», é muito mais feliz, porque não tem que pensar. Quando muito exprime-se pelo ladrar. Não por pensar, mas porque algo saiu do sítio (ou do horário) onde sempre esteve.

É verdade que muitos que por aí andam não pensam ( se houvesse duvidas, basta olhar para os cartazes que pululam por aí a mostrar uns putativos candidatos a sherif de qualquer coisa, sempre a rirem-se. Não sei de que se riem(?!)… nem  porque se riem(?!).Só sei que aqueles  tipos, vindos de uma qualquer  gelfeira juventude, de um qualquer alinhamento abecedário partidário ) não foram feitos para pensar. Empurrados pelo sistema, aí chegaram aos cartazes tipo  WANT's.

E depois o Povo !... que também não pensa. Não pensa, e ainda por cima não parece saber escolher quem o faça por si. Isto é trágico: nem pensa…. nem escolhe quem por ele pense.

 Se nos putativos candidatos não há nenhum que sirva, não se vote em ninguém. Porque o do lado, ainda é pior que mau.
 Pensar é claramente separar e escolher. Ora pensar nesta complexidade que é a vida  comunitária, e dar um voto a um calhau daqueles, é um perigo. Felizes, pois, os que não têm o hábito de pensar.
 Quem não pensa, não se suicida. Ora aqui está algo de positivo, no não pensar. Porque quem não pensa nem sequer age. Deixa correr….
Mas......

Queiramos ou não, a democracia esvaiu-se na sua própria essência: – os Partidos. Todos! já não suporto o nonsense de nenhum deles. Eu e certamente, muitos. Há um cansaço nítido (que o votar ainda esconde) uma consciência abstrata que ainda nos parece obrigar a ir ás urnas ,em nome da dita   democrácia. Vamos votar, como em putos íamos à missa ao domingo.

Desta vez nem com um frasco de álcool de litro (para lavar as mãos da porcaria), vou fazer de Pilatos.

SF-Set 2013
NB- pois...pois...chamem-me nomes...

domingo, setembro 22, 2013



Fim de tarde…

leve, ameno, suave e até aqui radioso, ao inicio do lusco fusco.

  Os que não creem e erram –tal e qual como eu –, reconhecendo que erram, porque  errar é humano, continuam a ganhar forças neste fim de dia, para amanhã ,humanos, recomeçarem a carregar, de novo, a sua cruz. Não creem nesta ordem natural de sobreposições de dia e noite, obedecendo a desígnios Divinos. Mas como eu, não deixarão de, espantados, reconhecer que por detrás da natureza visível, existe uma ordem ( um programa a correr…),num servidor imenso ( impensável de dimensionar ou definir em mega-giga-bites). E a partir daí todas as lucubrações são possíveis. Cada um sirva-se da explicação, mais próxima, mais á mão.

O sol vai caindo ali para as bandas do mar. Começa um cinza claro a inundar o horizonte. Traz a melancolia de fim da tarde.

O remanso das águas, soprado por ligeira brisa, encrespa-se de pequenas marolas cintilantes, que contrastam com a pureza virgem das margens deixadas pela maré. O azul –ou melhor – todos os azuis, desmaiam. Sinal para paragem das actividades  humanas sobre as águas. Os peixes têm direito a um pouco de sossego.

Há ainda um silêncio, em que o sol, morno, parece trazer lucidez às coisas em que pensamos.

Tudo em volta tende a perder a exactidão dos seus contornos: barcos, malhadais, casas da outra banda, pinhais, serranias.

Em outros  tempos eram horas dos «malhadinhas» partirem com os seus burricos pelas veredas serranas ,a levar a fresca sardinha, ajoujada nos costados dos rocinantes jericos, para que chegasse, ainda  de sangue na guelra, ao outro dia, lá para o interior das beiras.

Começam a surgir umas nuances sanguíneas. É o sol que ao chegar ao fim da caminhada se incendeia de um fogo vermelhão, que tinge tudo quanto está à sua volta.

 

As pálpebras parecem aceitar, e acomodarem-se ao tom morno do fim da tarde. A pedir repouso, no lusco-fusco do entardecer.

Hora dos crentes dedilharem umas Avé- Marias, agradecidas.

Hora de outros, que não foram bafejados pela peleja divina, agradecerem a si mesmo, o ainda estarem «vivos». Não no sentido de ainda respirarem, mas sim no sentido de ganharem forças para juntar mais carga emotiva à vida.Para que amanhã o dia seja diferente (melhor?) do que hoje.

Com a Troika e Cª cá, isso não será possível. Estes tipos vieram depenar frangos. E depois de nos depenar, põem-nos, na grelha, a tostar.
É bem certo: não se pode comer um bolo sem o perder....não se podem depenar os frangos sem lhes acabar com a raça...

Choca-me ao ver este Povo sem irritação. Ver um Povo infeliz, parecer ser feliz, é terrifico e desolador. Roubar um pão por ter fome, é mais do que moral, é legitimo.   


SF-SET 2013
SF  - SET 2013
 

terça-feira, setembro 17, 2013


É Verão;  ainda há poucos anos estávamos, ainda agora, a pouco mais do meio de devaneio estival.

 

 Há que  retomar o Verão
 
Não sei  explicar a razão. Mas há momentos  em que estando ainda a temperatura amena sinto um frio inexplicável e torturante a percorrer-me. As horas nessa altura perdem o encanto  do tempo que vai lá fora (por vezes bonito e glorioso)e parecem revestir-se de um cinzento pálido ,doentio, amarfanhante. E os momentos que desejamos corram ,parecem parar no tempo.
 
E não raro pareço sentir uma mão que já foi quente, apertar-me como que a dizer: salta para fora disto…..
 
Nesses momentos, parece que o sentido da vida se esvai. Teimo então olhar lá para fora, e nas imagens ainda quentes, encontrar as forças para resistir.
Teimo….teimo….e sei que tenho de ultrapassar isto. Se eu já não sonho com nada ,porque me importo.
Desligo a luz.
Os dói- dói  do sentimento, doíem mais do que os da inteligência.
Porque a verdade é que quando desprezamos a inteligência, todos os males que fazemos,parecem não ter grande importância. Ora manda a verdade dizer, que  a dignidade humana deveria exigir outro tipo de comportamento.
Mas eu ,por mim, já desisti de acreditar nessas coisas bonitas
 
SF

sábado, julho 20, 2013




 

 

Católico anticristão ,ou cristão anticatólico?

 

Hoje divago sobre assunto muito sério.

Falávamos de religião .Creio que me foi imperioso dizer:

-Estás pois, contente, com a tua fé? Pois.. ainda bem. Mas aceita que eu esteja contente com a minha  não crença.
O que de modo algum nos impede de fazer parte em igualdade da construção humana. A questão é de ambição: eu creio que o mundo terreno me basta. Os crentes são mais ambiciosos.

Se não fora o mal de a história referenciar períodos de violência extrema por parte das religiões(e neste momento abeiramo-nos de um período negro de um certo niilismo),ambos, crentes e não crentes, deveriam apenas preocupar-se como o problema ético do empenhamento de cada um na beleza das relações humanas.

Mal que a religião em períodos negras tenha regressado à barbárie.
O facto de Deus existir ou não, pouco importa. Por enquanto. Importante é que na ética comportamental de cada um, se saiba discernir o bem do mal
Eu não posso é  entender que existindo Deus-um qualquer das religiões dos profetas –este deixe um dos seus perfilhados praticar um acto contra um ou qualquer filho de uma outra qualquer religião. Seja filho ou enteado.

Por isso digo convictamente: eu não garanto que «Deus» não exista….sei é que essa falta de convicção não me faz falta nenhuma, para me mover e agir, dentro de parâmetros que persigo. Parâmetros  profundamente –talvez exacerbadamente éticos.

E por não ser crente, tal não significa, de modo nenhum, que me falte espiritualidade. Claro que isso exige uma busca interior muito profunda.

Ora á minha volta vejo montes de católicos, anticristãos . A sua fé está apenas no emblema que lhe apuseram na lapela.

 A mim  não me repugnava a ideia de ser um cristão anticatólico.
 

SF

domingo, junho 30, 2013



Só o chamar à noitinha por ti


O chamar à noitinha por ti

É qualquer coisa que não sei explicar:

Mas todo o meu interior amansa

E até o desespero parece amainar.

 

Não paras um só momento

Afadigada a carrear vida de um lado para o outro.

Aves sobre ti vão a voar

Levando consigo as tuas penas.

Ai quem me dera as minhas lavar

Para Te olhar de outro modo, amor

E contigo me deixar levar.

 

A estrela lá no céu flutua

No espaço.

De longe vem o odor dos pinos

E por cima de todos os ruídos o mar!

Já nele não vogam marinheiros cegos

À procura do desconhecido.

Eles, as aves, tu e eu, voltamos ao mesmo destino.

 

 

Ir e vir, a contar as horas, em profundo desatino.

Só tu sabes a minha história;

Dá-me a leveza das asas das tuas aves

Cobre-me com o manto com que te defendes do vento.

Acalma o mar encrespado que nem a sede mata,

E vem aliviar a tristeza incurável que invade meu coração:

A minha tristeza é não caberes dentro de mim, adormecida,

Para juntos irrompermos pela madrugada

A ver o dia e as suas cores pela cor dos teus olhos.

 

SF. 13.Junho.2013

 

 

 

 

quinta-feira, junho 27, 2013



Romance…

 
Nunca escrevi um Romance. Dirão: - por não o saber fazer. Talvez.
Mas para mim o romance «nasce» no autor, fruto de múltiplas relações. Ora em mim essas relações foram sempre desligadas umas das outras (ou raramente).Nunca se entrelaçaram,colidiram, ou até, se defrontaram. Isto é : vivi com tranquilidade, diferentes relações posicionando-as onde cada uma  deveria estar. No essencial nunca deixando de esclarecer logo á partida as premissas, para não gerar equívocos. Assassinava o «romance»  logo ali, é verdade, mas ficava tranquilo.
Fácil de entender ? Uma ova…por isso sei bem as classificações que por detrás da cortina me vão(ainda !!!) atribuindo.
Isto é meus caros, e eu me confesso: –«vivi» romances serôdios. De cordel. Que não  me sujaram senão por fora. Então manda a verdade dizer: não vivi,passei por eles.  
Romances pategos, de esquina. Vou ali e já venho. Se olhar para trás, muito pouco me resta de saudade por esses atrevimentos .
Vem isto a propósito de quê?  (perguntarão, os  amigos que ainda me aturam…)
Ora bem : a propósito de ter ouvido um intelectual livresco na TV,  dizer que nunca tivemos um romancista a sério.
Pois : isto é um País de pategos. Bem se esforçou Camilo em fazer «amores de perdição» a cordel.

Ele bem se poderia esforçar. Mas os personagens, esses eram sempre os mesmas(ou quase)

SF

domingo, junho 23, 2013



Vamos indo….
Grão caso, este, de sentir uma certa sonolência de dia, e uma quase lucida insónia ( de noite).
Bem : à falta de melhor, leio .E esta noite encontrei no meio da leitura esta pérola do P. António Vieira(revisitado continuadamente).
Queixava-se, Vieira, a determinado Senhor, de tão pouco se fazer de um negócio de tanta importância e consequência ;mas toda a culpa tem o nosso governo, que se ocupa com as regateiras e almotacés, sinal que não passam os seus olhos a outras lamas que mais enlodam, e a outros interesses que mais nos danam. Cedo seremos só Reis de Lisboa ,e queira Deus que ainda essa saibamos guardar como convém (carta a Duarte Ribeiro de Macedo,1827).
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Pergunta-me :porque fazes tantos poemas(?) à ria ?….
Olha: por vezes não é exactamente à Ria ,mas sim por intermédio dela. Metaforicamente.
A verdade é que muitos fazem versos á namorada, amante ou à mãe.
É como vesti-las de um modo diferente….
Eu não aprecio tal. Sou mau costureiro. Gosto mais de sonhar .
Por isso os meus arremedos são apenas a expressão de um desnudar continuado.
A Ria contém ela em si, um continuado sexo de formas sonhadas, sempre em mutação. Pano infindável para fazer as minhas trouxas.
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 O Ministro da Finanças nivela este país pela pobreza (retiradas meia dúzia de excepções). O Ministro da Educação propõe-se nivelar o país pela incultura e o não saber. O Ministro da Saúde propõe-se  nivelar o País pelos que já morreram(felizmente) e os que se apressa a deixar morrer, para poupar.
O Primeiro Ministro, esse , transforma este país em duas categorias: os que já tiveram dignidade, e os que encolhem os ombros. A dignidade perdeu-se na mansidão deste pacato e cordato povo.
Sf (Junho 2013)

sexta-feira, maio 31, 2013


 

«Cantiga de amor»

 Por esta ria adiante
Vai vogando o meu olhar…

Ai vai atrás de ti, meu amor,
Com ele vai o meu penar.

 
Por esta ria adiante
Vai meu coração dorido
Ai vai atrás de ti, meu amor,
Dizer-te  que estou perdido.

Por esta ria adiante
Vão minhas palavras ao vento
Ai vão atrás de ti, meu amor,
A chorar o meu lamento.

 
Por esta ria adiante
Vão a correr minhas lágrimas
Ai vão atrás de ti, meu amor

Meus olhos  cegos de mágoas.

 
Por esta ria adiante

Vai  com ela o  meu alento
Vai atrás de ti, meu amor

Matar meu olhar sedento. 

 
Por esta ria adiante

Vogo eu pelas estrelas guiado
Vou atràs de ti, meu amor,

Enlaçar teu corpo amado.

 
 Por esta ria adiante…

Vai o meu choro, vai meu pranto.

Vão atrás de ti, meu amor.
 Eu fico aqui no meu canto.

 
Fico aqui à tua espera;

Na ilusão da aurora
Ou no crepúsculo da noite,

Fico aqui, só, desejando

Que o labirinto do tempo
Desfaça a terrível demora.

 
Volta amor; volta!
Ai amor… foste no vento

Deixaste-me  tão vazio e só

A lamentar minha dor,
De não ter outra dor

Que a de não te ter eternamente.

 SF (Maio 2013)

terça-feira, maio 28, 2013


 

O meu tamanho visto ao espelho, de facto, engana-me.

Cada vez que tudo «isto» avança -e ai, avança…avança….- vem–me à ideia uma frase que,ou li em qualquer parte ,ou a criei no meu espírito. Vá lá saber-se tanta coisa que já li…
Ora é verdade: a vida é coisa séria demais para ser vivida sem intensidade. E sem honestidade ética. Só  vivendo-a nesses estados de graça permanente, vale a pena o sacrifício de «aqui» aportar por uns tempos.

E ter por isso direito a belos momentos. Como este em que martelo a máquina infernal, á janela, em silêncio a percorrer o ondulado da ria. Silêncio livre que olha os vales e os ecos da montanha lá ao longe,sem medo de ser perturbado.

Sempre á espera de cantares novos. Venham eles… ou não …

Percebo pois, cada vez menos, que haja pessoas (como muitas que conheço), que passaram uma vida a olhar, única e exclusivamente, para o seu umbigo. Não digo até que não tenham sido bons(excelentes desempenhadores de oficio).Mas só isso…e mais nada.
Sentido ? Nenhum….Viver servo  de uma contemplação do seu redor.«Isso» chega?

Não  viver (?) mais do que a simples vulgaridade :– «levar a vida».
Levar para onde e para quê?

Ora gaita! Se falassem, os cães também diriam o mesmo .E até as flores.
Esta inconsciência absoluta, materialista, de alguns, choca-me.

E falo com eles circunstancialmente, porque para despertá-los …já é tarde.

E lá vou para outra palestra. Faço já isto,como quem bebe um fino….e no fim: arrota (com licença!).
Que raio: se ao menos as ditas fossem  pagas ,como as  do Mário Soares….
Ele a vender a «banha de cobra» com aplauso e com umas coroas para a Fundação.Eu sem aplauso (que se veja) e afundando-me…Pois nem sonhando com outra vida, mesmo assim ela me parece merecedora de deleite.

O meu tamanho visto ao espelho, de facto, engana-me.   

SF (Maio 2013)

segunda-feira, maio 13, 2013







Postal da «Casa do Bico» nº12

A Joana Maluca

 

Aqui sentado no meu canto à beira ria plantado por mim, com um sonhado e não escondido propósito de um dia poder gozar a velhice, desgastado do corpo que não dos sentidos, inebriado por esta ria tão inquieta quanto eu, mas muito mais prodigiosa na oferta de sensações que dela podemos extrair e guardar. Esplendorosa em si,uma espécie de ante sossego do além, mas aqui já. Hoje «Imenjà» das águas vivas, reluzentes, cheias de vida.. E agora que já pouca beleza extraio da vida, é ela que (me) consola nestes momentos – eu sei lá?! – se os poderei chamar de criativos. Pelo menos, aqui, criar, significa sonhar, querer, desejar. Sonhar com as palavras que gostaria de dizer, e que, se afinal não digo, é porque me falta o estro.

Mesmo defronte aos meus olhos – ali mesmo! –, ficam as terras da Joana «Maluca», figura histórica por quem sempre tive largo apreço. Como  tive –ao menos – «talento» para cimentar amizades que duraram uma vida, essa qualidade historicamente registada na figura da Joana, atrai-me. E há muito, depois de ter  contado a «estória» das visitas do José Estevão à grande senhora (vide www.senosfonseca.com clicando na janela Factos & História, em Palheiro de José Estêvão),  apetece-me dar um retrato mais preciso da Joana. 

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Às vezes não chega, a um indígena, ser maluco. Para sê-lo é preciso parecê-lo. Ora a Joana Rosa de Jesus «a Maluca» não só o não era, como nem o parecia. A alcunha, coitada, ter-lhe ia vindo de ter casado com um dos primeiros foreiros do Senhor de Vagos, o pastor José Domingos da Graça «o Maluco».
A Rosa de Jesus era uma «Gramata». Nascida em Ílhavo, em 1788, era originária da família dos Gramatas, lá do Arnal, cujo avô, o Tomé Francisco, fora um dos primeiros foreiros que nos fins do século XVII se teria vindo estabelecer para aqueles terrenos arenosos que bordejavam o canal que ia lá para os lados de Mira. Ora o certo é que o Tomé Francisco tomou o nome de «Gramata», que era o nome por que eram conhecidos aqueles terrenos lodacentos que tinham vindo lá das entranhas da ria, e onde apenas parecia capaz de nascer e se desenvolver, uma erva marinha, conhecida por gramata: «diz-se a qual mó do meio produz junco e hoje pela continuação da maré salgada já o não produz, mas sim erva que chamam de “gramata”, apetitoso manjar para o gado».

Em 1883, a Joana «Gramata» e o marido «o Maluco», que teria vindo lá do sul de Vagos, fazem, o aforamento da «Quinta do Feijão», local preciso onde hoje se encontra situada a Capela da Sr.ª da Encarnação(aqui mesmo exctamente no «azimute» da minha proa.
A Joana, já então conhecida por Joana «Maluca», cedo ficará viúva. Não sem ter botado à vida nove rebentos, que lhe darão a bonita prole de 66 netos. Viúva aos 48 anos, irá casar com António Sousa Pata.
Não teria sido fácil ao José da Graça convencer a sogra a dar-lhe a filha. «A Gramata», já gente de sinal, olhava para o rapaz, pastor das castras enfezadas e raquíticas, e tentava inquirir o que «ele» teria de «seu».Ou  dos seus, tanto fazia.
Ora numa noite estrelada enquanto fixava as luzinhas lá no alto, acudiu ao José – rapaz esperto – uma ideia que logo ao outro dia botou em prática. E enquanto na eira da «gramata» ia respondendo aos «quesitos» da mãe de Joana, não esteve com meias medidas.Colhendo na mão umas espigas de trigo, atirou à «Gramata»:
-Olhe Sr.ª amiga: eu pareço um pelintra a vadiar aqui com o gado por estes areais. Mas não colha o gato pela cor do pêlo. Que a casa de meu pai é tão abastada e tão rica, que à noite há tantas luzes a iluminá-la, como grãos que tenho aqui entre mãos».
E logo ali, a convencida e crédula sogra, aprazou casório.

A Joana, embora de perfil varonil em que uma teimosa barba lhe cobria o queixo realçando-lhe o tipo, era, contudo, uma aprazível e simpática mulheraça. Mulher ridente, faladeira e sempre bem disposta, fumava viciosa e deleitadamente charutos, que amigos e comensais, da sua lauta e farta mesa, lhe faziam oferta, mantendo o stock sempre abastado.

Abria com regozijo a porta aos políticos, recebendo amiúde José Estêvão que se fazia acompanhar pelos ilustres que o vinham visitar ao seu palheiro da Costa-Nova. Indo de barca, passava a ria atracando na mota da passagem, em terrenos que confinavam com as terras da Joana.

Mulher activa, empreendedora, boa na arte de negociar, rapidamente a sua casa emerge como das mais poderosas e ricas da região. Benfeitora, é ela que cede os terrenos da sua quinta onde se virá a instalar a capela da Sr.ª da Maluca, dotando-a com algumas imagens de oráculos, devotos, que amigos de Aveiro lhe teriam oferecido.

A Joana «Maluca» virá a falecer em 28 de Janeiro de 1878.

 

SF (Maio 2013) 

sexta-feira, maio 10, 2013


 

A morte da Cina «Resende» ou

O ZIG-ZAG da vida

Esse temível anunciador de más noticias a cuja companhia por causa dos outros me submeto ,tocou cedo para me dar a má nova (?)  que também a Cina Resende ,não tinha conseguido furtar-se à  morte anunciada. Que a  é aquela terrível doença.
É mais uma amiga da geração anterior que desaparece. Vão começando a escassear os poucos que ainda navegam aos empurrões, por cá.
Nos últimos contactos tidos com a Cina, a propósito da doença da Zida, admirava a firmeza da sua convicção,que me parecia alicerçada numa fé inquestionável. Eu ficava amargurado se por acaso lhe dava nota da insinceridade com que amargamente lhe queria demonstrar que também ainda «acreditava», quando o certo é que nunca acreditei desde o primeiro dia.
Mas a verdade é que nunca sabemos quando somos sinceros nesta vida do faz de conta. Eu talvez nunca o seja. Custa-me dizê-lo : mas é a verdade.
Porque continuadamente dá-me a impressão que sou outro, que penso como outro, que vejo a vida como outro.
Olho para o que se passa á minha volta e vejo-me mero espectador de um espectáculo para que não paguei.
A Cina sempre me pareceu uma rapariga que amava demasiadamente a vida.
Não sei onde li um dia qualquer, um poeta  dizer que se se amou qualquer coisa, pode bem morrer-se. Estas  poetas são de um lirismo confrangedor.
Eu que não sou – nem quereria ser – poeta, digo o contrário: quem assim ama a vida, não tem  dia para morrer. Nunca!
E assim vai aqui mais um intervalo doloroso da minha vida. Não por ser uma pessoa muito chegada à Cina ; mas porque me custa ver morrer quem não merece.

Desapoquento-me escrevendo isto. Se eu tivesse fá zangava-me com Deus. Como não tenho, fico-me : –  cansado de descrença.
SF

quinta-feira, maio 09, 2013



                                              
                                                                           

 
Postal da «Casa do Bico»- nº 11
Maio chega e com ele a época do tresmalho. Abro a porta, respiro o ar da alva, fresco e poderoso, e assisto ao despertar da ria. Atiro os olhos para a água enquanto o corpo não ganha coragem para os acompanhar. Os meus olhos sempre foram uns felizardos: têm sempre tudo o que por vezes nego ao corpo.
Na paisagem que desde logo se encharca de sol, reparo (ou imagino) como deveria ser bonito, outrora, o avistamento do prado da Joana «Maluca». Sem nada que colhesse a linha do horizonte, nessa atapetada planura onde teimosamente despertavam umas vergônteas enfezadas que demoraram gerações até se transformarem nos verdejantes milheirais lagunares, o olhar só esmorecia nas faldas serranas do Caramulo. Que hoje ainda daqui avisto por cima do casario da Srª da Maluca. A maresia invade-me os poros limpando-me do cheiro «a raposinhos» de uma noite entre vale de lençóis, curando-me dos achaques das viradelas (que travessuras já as não há!...) nocturnas.
Manhãzinha cedo e já lá vai uma azáfama no estender dos tresmalhos do «choco» no lençol azul das águas lagunares. Mesmo aqui, à minha porta, a um braço de distância. Colho a máquina de imagens paradas, e disparo. Maré enche, e é tempo de metodicamente desenrolar a meada e estendê-la numa lonjura que ultrapassa os 300 m. Atravessada a bateira, esta vai descaindo; e o arrais, agora que já usa o motor e é o único tripulante a bordo, deixa correr, entre a concha da mão, o cabo e bóias superiores. E o cabo e lastros inferiores, que depois na água, com a ajuda da corrente ficarão na vertical, fundeados pelos ferros e poitas intermédios, levantados pelas bóias sinalizadoras. Aboiadas a cada pano mergulhado. O «choco» que nestes meses invade a laguna (num prodígio de vida que as mutações lagunares não matou, e renova a cada época) virá paulatinamente em procura do «manjar dos céus» que sabe posto na mesa, com pompa e circunstância, nesta borda poente lagunar, onde desovará. E eis que, de repente, o pobre que se julgava convidado «vip», se enfia pela malha larga das albitanas; numa aflição com o traiçoeiro convite, procura recuar, libertar-se, e fugir. Quanto mais gesticula com os «braços» mais se enreda na malha miúda entralhada nos cabos superiores e inferiores.
Estendida a «arte» – aqui a palavra ajusta-se perfeitamente ao ofício – o arrais mergulha ferro e fundeia. Momento para descanso a  enredar-se nos pensamentos da vida. Fumando cigarro após cigarro, ficava  à espera que a maré vire para recolher o redame.    
 
          
E vai pensando no estupor da vida...
 
Na véspera tinha ouvido um pissofoque, na TV, a pregar aos «peixes». E o Zé «Lavanco» –  assim se chama este «camarada» da manhã – começa a pensar nestes «pissalhos» que lhe atormentam as noites perdidas em frente da sua prosápia, com que  atiram a «tinta de choco» aos olhos do zé povinho, para lhes encaldeirar a vista. E o que é certo é que os peixes – pensa o «Lavanco –, andam muito eslabaçados. Esfraldilhados de todo, parecendo como o choco deixarem-se enrodilhar no redame do palavreado chinca.
 Estes codres só olham para cima, e nunca – mas é que nunca, porra! – os fraldocos olham para baixo. ! – pensa o «Lavanco»: este cardume não é como o de peixes. Que olham para cima para baixo, e p’ró lado. Isto é cardume  de «chaputas»...
Nesta cambada há mesmo uma peixaria, matuta o «Lavanco» : os ditos «roncadores» que só têm prosápia, arrogância e chança: pissalhos!!!!. Mas também há dos «pegadores».É o que há mais. Parasitas, labajões; cambada de inchuns. E os «voadores» que só têm ambição no sentar do cu … Mas há também –oh! se há! – muitos «polvos»: traiçoeiros … badalhocos. Monte de boseiros.
E com isto a maré vira. Um dia a maré também há-de virar…. sacanas!…. foi pensando  o «Lavanco», alevantando-se , cuspindo  nas mãos, disposto a ir à rede.
E de volta, trazido com a maré, bateira atravessada à corrente, deixa-se descair a norte, enquanto mete os panos dentro. Emalhados lá vêm os «chocos» que ainda darão um trabalhão do «caraças» a libertar para a caixa.De interior enegrecido pela tinta que as presas vão largando no estertor final…  ( como o povo, atirado para o caixote… pronto para ser vendido a «merkel & companhia»).
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E estava eu pronto a recolher a penates, como um xana, e eis que chega a Zefa. Hoje, sem companhia da amiga, é quando a língua mais se lhe destrava….
-Ah rico!!!! Vossemecê está esgalfo dos olhos.
-Pois Ti Zefa.Aqui a ver o «tresmalhar» dos «chocos»…
-Olhe que o tresmalho é como mulher na cama, diz a Zefa, maldosa no olhar ainda malandreco. E continua : «alinha-se» com a enchente (e só nesta), encosta-se e dá as albitanas a charir. O home augadinho, marra. A gente, auguenta e faz que foge.O calhandras bardaleiro, atiça-se, e depois é um badanal. A vagalhoça invade-nos a cama, espincha que espincha, e só desemalhamos quando estamos derreados. Ás vezes  arrecuava. E eu logo lhe dizia:
-Ah! Nem adregues….livra-te ! Atão não dizas tu que peixe que passa a borda…já não sai. Vá maneia-te, antes c’a maré vire.
 
- Ah! Ti Zefa que você deve ter sido chaleira de bom lume, atirei eu….
-Olhe amigo: se não há bom lume assoprasse-lhe. A carne não é como o peixe: é pecadora. E só um santo de pau carunchoso é capaz de resistir ósdepois dos louvados (lambiscos está Vossemecê a entender?)
-Ora...ora... se entendo. O pecado foi a melhor coisa que o homem inventou depois que Deus (um bom sarrazina), dele se fez desentendido.
SF (Maio 2013)

sábado, abril 27, 2013




Postal  da «CASA do BICO» Nº 10

 O parto na «labrega»

E lá voltou o tempo tristonho, de uma paz podre, belicoso, que mais do que incomoda, envelhece (nos).

Há que reagir à maldade dos deuses. E saltar fora do afecto modorroso dos lençóis quentinhos, e … «navegar».

A ria está quieta como um gato enrolado, esquecido de si e do que se passa à sua volta. No nosso tempo, meses que tinham R, eram meses de «cricalhada». Esta semana, apesar do dito R estar no mês, agora, as autoridades vieram decretar proibição do «crico», fora de casa. Parece que aquela alga que pinta de vermelho, adiantou o período de proibição. Por isso a ria está vazia, como mulher visitada pelo dito. E logo posta de lado pelos amantes. Raio desta cambada. Bem podiam afagá-la, acarinhá-la, e renderem-lhe visita. Ao menos de cortesia. Ingratos.
Mas hoje era dia de charla. E muito me admirei, quando ao meu encontro, além da Zefa e da Bernarda, vinha uma outra vistosa faininha. Logo apresentada como a Joana «Labrega».

-Olhe cá: para mudar de conversa, trouxemos a Joana «Labrega». Para ouvir uma história, linda. Mesmo linda, Vai ver. Aqui, a Joana, foi filha do arrais Agostinho «O Capa Cavalos». Home daqueles que dizia:
-Ah! mar estás a roncar (?)… espera que já  te mijo  em cima….
O Agostinho era casado com a Deolinda «Patacão». Ora às tantas esta emprenhou, e o certo é que passou muito mal, a rapariga.

E vai um dia a coisa complicou-se. Chamada a manobradeira do sítio, a ti Tuna «a Parideira»,  esta logo  percebeu que a criança estava atravessada na «vaga», aos baldões, e não havia maneira de a trazer cá para fora. Nem com «reboque». Chamando o Agostinho de parte, segredou-lhe:

-Temos aqui um estipor de lanço que ficou no peguilho. Senão levamos a Deolinda, a Aveiro,  e já, ao hospital, vossemecê fica sem rede e sem peixe.

- Mas como (?) …balbucia o arrais que nunca se vira num momento daqueles. Sem estrada, sem transporte, só lá para a noite dentro…se

-É tarde, interrompe a Tuna. Muito tarde. Temos uma, duas escassas horas. C’a Deolinda não óguenta mais. Vá pedir ao Ti Rigueira «o Murtoseiro», que ele leva a pobre, a Aveiro, na sua bateira «Labrega». Não há outro como ele, a voar sobre a ria, Ti Agostinho. Vá (!) meneie-se raio de homem, parece um xana, aí especado.

O Agostinho deu da perna e passado um pouco voltou com o Rigueira «Murtoseiro» que logo ordenou:

-Vá peguem na cachopa e levem-na ali à borda, que eu vou preparar o «camarote». A «Labrega» era uma daquelas bateiras que os murtoseiros traziam com eles, para os lanços do «saltadouro». Elegante na sua bica, toda «embreada», servia de «casa» ao pescador. Que lhe armava, no castelo de proa, o toldo espalmado (pata de rã) com que se protegia do vento frio da noite. O Rigueira aconchegou a manta, armou o toldo, e quando trouxeram a Deolinda, foi só poisá-la ao de mansinho na «Voadora». Assim se chamava a «Labrega». Toda pretinha, só com o raminho a enfeitar a cruz erguida na bica da sua elegante proa. A «Labrega» do Rigueira era a única que tinha uma vela bastarda, calcada à proa, na sarreta, e verga atirada bem lá para o alto.
                                            A «labrega» voadora
Vela enfunada, bem calcada no punho a esticar a testa da vela, escota na mão a comandar a «enchidela», toste bem ferrada, e a «Voadora», era, nas mãos do experimentado Rigueira, uma galgadora da ria.

O Agostinho sentado no «traste» olhava pela Deolinda deitada a seus pés. E os três embarcados atiraram-se à emposta. Punho da escota bem ferrado, cabo do xarolo de sota vento laçado na sarreta de barlavento, trilhado nos dedos de pé para jogar a orça, num ápice chegaram ao canalete do «Oudinot». Mas aqui a Deolinda, fosse pelas batidelas da bateira a adoçar a vaga, fosse pelo respingos da ria que entravam, bateira adentro, diz sentir que:
-Ai meu Deus e nossa Senhora do Bom Momento, «ela» já deu volta e vem aí……
O Rigueira acosta a «Labrega», fundeia numa revessa e pede ao Agostinho (que lívido, hirto, ficara, para ali ,especado).
-Vá, que a «rede está à borda» e é preciso separar o «mexoalho» do peixe branco. Salta lá para trás homem, estipor que só tens chaniço para o mar. De resto és um empecilho cheio de trízia.
E lavando as mãos nas auga, que aquecida pelo vento suão estava morna, abeirou-se da Deolinda e ordenou:
-Vá lá cachopa: ferra aqui as mãos nos escalamões, retesa-me esses pés no paral, e acospe-me  cá para fora o regordido que trazes aí dentro. E tu Agostinho (!): forra a macola com este camisote de linho, com que fui ao altar, e prepara-te para aparar o rebento. Passa-me aí a naifa de rasgar o porfio para cortar a mão da barca ao redame, e «a» libertar. 

E se melhor dito, melhor feito. Eis que de entre as pernas da Deolinda se escapa uma pimpolha a berrar como uma esgalmida. Logo o Rigueira mete o vertedouro na ria, e eslavaça a paxoneira (pois de facto era uma bonita pimpolha que acabara de nascer na «Labrega».
-Ora, diz a Zefa… e virando-se para a Joana que sorridente ouvira toda a história do enredo do seu nascimento, diz toda delambida: – agora veja, aqui tem o pimpolho nascido às mãos do parteiro Rigueira: – a Joana «Labrega».

Eu olhei para a Joana, embeiçado. Os seus olhos d’água eslavaçados pelas águas da ria, amêndoas doces a boiarem, inquietos, num rosto muito moreno, melaço,vivo e brilhante, eram sublinhados por um cabelo revolto. Negro…negro  como o embreado da «labrega» do Ti Agostinho.

                                          Na «labrega» do Rigueira
                                           Nasceu a Joana dos olhos d’água
                                           Foi na barca toda negra
                                           Que nasceu o meu amor;
                                           Estar longe sem a ver,
                                           Desdita a minha e minha mágoa.

 SF – Abril 2013                                          

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...