quinta-feira, maio 31, 2012


No Blog - Restos de Colecção (simplesmente notável!) editado por José Leite –

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/05/epopeia-do-caca-minas-augusto-de.html

encontrei a histórica epopeia do «Augusto de Castilho».Na qual o artilheiro José Crua Branco, natural de Ílhavo, escreveu uma página de heroicidade que nos faz, a todos, pôr de pé e saudar.

Transcrevo com a devida vénia.

Nota: podemos crer que Crua Branco estará na fot nº5.Será que alguém ajudará a identificá-lo?


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Epopeia do Patrulha “Augusto de Castilho”

O comando do primeiro cruzador-submarino alemão, o U-139, de 1930, com 2.483 toneladas, foi atribuído ao maior ás da respectiva arma, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére que trouxe consigo o seu inseparável e experiente comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr. Foi, talvez, o último dos submarinos alemães a travar combate com os inimigos do Império Alemão até ao dia 24 de Outubro de 1918 em que recebeu a mensagem rádio para cessar toda a actividade bélica e regressar à base. As três unidades desta classe foram, sem dúvida, os submarinos mais poderosos da marinha alemã, equipados como estavam com duas peças de 150 mm e um telémetro retractável, exemplar único em submarinos, além dos 6 tubos para a dotação de 19 torpedos.


                
Submarino alemão U-139

 

Foi este U-139 que enfrentou, na madrugada de 14 de Outubro de 1918, o pequeno navio patrulha português “Augusto de Castilho”, apetrechado com duas minúsculas peças, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. A denominação de navio patrulha revela bem a natureza da unidade enquanto navio de guerra.

Originalmente a embarcação era o arrastão de pesca “Elite”, pertencente à empresa Parceria Geral de Pescarias, Lda. mandado construir em Inglaterra.. Lançado em 1909, foi o primeiro arrastão português para a pesca do bacalhau. Como arrastão não provou bem por variados factores; máquina apesar de grande, era fraca para puxar as redes; elevado consumo de carvão, a técnica da pesca com a rede estava na mão do mestre de redes, um Francês contratado que não colaborava com o capitão do arrastão, o pessoal não estava preparado para este tipo de pesca, pelo que o navio foi retirado do bacalhau, experimentou pescar no Cabo Branco, com sucesso, mas acabou por ser substituído por navios mais pequenos.

A 13 de junho de 1916, devido à Primeira Guerra Mundial, o “Elite” foi requisitado pela Marinha Portuguesa para ser usado em missões de patrulha e escolta oceânica, entre o Continente a Madeira e Açores. Com cerca de 315 toneladas de deslocamento, accionado por uma máquina a vapor de tríplice expansão atingia a velocidade de 10 nós, sendo classificado como navio-patrulha de alto mar, o navio recebeu uma peça de artilharia de 65 mm à vante e outra, de 47 mm à ré. O navio foi rebatizado em homenagem ao almirante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha.



                           Navio patrulha “Augusto Castilho”

 

Antes do combate que lhe provocou o afundamento, o “Augusto Castilho” já, por duas vezes tinha enfrentado submarinos inimigos. A 23 de Março de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Augusto de Almeida Teixeira, escoltando o vapor Loanda entre Lisboa e o Funchal, atacou a tiro um submarino inimigo que, imediatamente, mergulhou. A 21 de Agosto de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Fernando de Oliveira Pinto, ao largo do cabo Raso, bombardeou um submarino inimigo de grandes dimensões que rapidamente desapareceu.

Naquele dia fatídico, o navio português escoltava o paquete “San Miguel” (da Empresa Insulana de Navegação) que seguia da Madeira para os Açores com 206 passageiros e 54 tripulantes, entre os quais mulheres e crianças. Este navio patrulha tinha já escoltado de Lisboa para o Funchal o paquete Beira e, como a autoridade marítima da ilha não permitiu o desembarque da guarnição antes do período de quarentena, dado que em Lisboa grassava a peste, o 1º tenente José Botelho de Carvalho Araújo ofereceu-se para fazer a escolta ao “San Miguel” e assim aproveitar de uma forma útil os "dez dias da tabela" em que os seus homens teriam de ficar encerrados no vapor bélico. Depois, voltariam ao Funchal com direito a deambularem pelo morro da cidade. A canhoneira “Mandovi”, escalada para a protecção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de Dezembro do ano anterior pelo também cruzador-submarino U-156.



Navio vapor “San Miguel” (1905-1930), da Companhia Insulana de Navegação

O encontro com o gigantesco submarino-cruzador deu-se pelas duas da madrugada, como escreveu Kurt von Piotr no seu relatório do combate artilheiro: "Estava de guarda no quarto do meio e havia um luar claro quando às 2.00 da madrugada avistei duas embarcações, uma maior e um vapor mais pequeno que o comandante, entretanto chegado à torre, resolveu atacar a tiro de canhão. Levámos três horas a aproximarmo-nos dos dois navios que tentavam escapulir-se com quanta força tinham as suas máquinas. Pelas 5.00 da madrugada, o comandante deu-me licença para abrir fogo, o que fiz com a peça de 15 cm de vante, apontando-a para o vapor mais pequeno, por tomá-lo como o navio escolta".

Carvalho Araújo já tinha tomado a decisão de enfrentar o inimigo para permitir a fuga do “San Miguel”, apesar de o U-139 estar a disparar a uma distância totalmente fora do alcance das pequenas peças do “Augusto de Castilho”. Toda a guarnição correu para os seus postos de combate. Fogueiros e chegadores esforçavam-se até às últimas consequências para atingir os 10 nós, enquanto os marinheiros levam mais cunhetes para as peças e caixas de fumo para atirar à água e fazer fumo de encobrimento, caso seja necessário retirar, ajudados nessa tarefa pelos três passageiros militares e outros quatro civis, todos impedidos de desembarcarem no Funchal pela leis da quarentena.



1º tenente Carvalho Araújo Guarnição do “Augusto Castilho”


O imediato, o jovem guarda-marinha Manuel Armando Ferraz, dirige o tiro, correndo da peça da proa para a da ré. Ambas eram disparadas a olho, pois o pequeno “Augusto de Castilho” não possuía telémetro. Enquanto isto, o U-139 disparou um primeiro tiro contra o escoltador português que não acertou e um segundo contra o paquete que cai a 10 metros da proa do S. Miguel.
                                          
 Os dois tecnocratas da guerra alemães, De La Priére e Von Piotr, estavam no seu meio. Ambos tinham uma predilecção pelo combate artilheiro e sabiam estar em condições de superioridade, pelo que podiam poupar os torpedos que restavam. Julgavam mesmo que o problema seria resolvido em instantes; até trouxeram para a torre uma máquina de filmar. Queriam fixar no celulóide a morte daqueles portugueses perdidos e praticamente indefesos em pleno Atlântico para a glória posterior de um "Reich" que pouco mais teria afinal do que umas parcas semanas de existência.


             
        Guarnição das peças de artilharia de 65 mm à vante,
                                e de 47 mm a ré (CB ??)

A terceira granada do U-139 rebenta na amura de estibordo do “Augusto de Castilho”, como relatou o sargento-ajudante Luís Simões em artigos publicados posteriormente no Diário de Notícias e reproduzidos pelo escritor e director da Biblioteca Nacional, João Palma Ferreira, na sua obra memorialista "Viagens, Fantasias & Batalhas".

Vendo o S. Miguel prestes a ser atingido, o bravo Carvalho Araújo ordena ao seu timoneiro que aproe directamente ao submarino, o que levou La Priére a mandar fazer marcha à ré, enquanto dispara salva sobre salva contra o pequeno pesqueiro a vapor. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do navio, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloy de Freitas. A cabine do telegrafista desfez-se quase ao mesmo tempo que a peça de vante é posta fora de acção. Ficou só o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Entretanto, o S. Miguel vai-se afastando mais, daí a pouco estará fora do alcance dos canhões do U-139. Mesmo assim, os artilheiros do caça-minas não desarmam; continuam a disparar e o seu navio a receber granada sobre granada. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do “Augusto de Castilho” morta ou ferida. Do S. Miguel já nada se via. Por ordem de Carvalho Araújo, o sargento Simões ainda vai disparar o último cunhete sobre o submarino alemão que se encontrava a curta distância. Esgotado o último cartucho, o U-139 ainda dispara contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República.

                    

                     Exemplo dum rombo provocado por torpedo

 

Carvalho Araújo não quis ir para o fundo com uma bandeira branca, por isso foi atingido por uma das últimas granadas que explodiu junto ao local em que se encontrava na cabine de comando. O herói cai no convés, morto, enquanto o imediato fica gravemente ferido.

Terminado o fogo pelas 08.30, os sobreviventes lançam a custo o escaler salva-vidas ao mar, fazendo-se a ele cheio de gente. O resto do pessoal, sob o comando do guarda-marinha Ferraz muito ferido, totalizando vinte homens tentava, quase sem o conseguir, pôr a baleeira na água. Os do salva-vidas ainda tentaram ajudar, mas receberam ordens com armas apontadas do submarino alemão para se afastarem imediatamente do local. Os sobreviventes desesperavam; não conseguiam mover a baleeira, pelo que aproveitaram um bote que estava dentro do picadeiro, mas também sem o conseguir. Por fim, 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço.




                        Página da revista Ilustração Portuguesa, em 1923


                           (fotos anteriores in: Hemeroteca Digital)

Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses e, depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e bóias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo apareceu e, ajudado por uns camaradas, começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram.

              

           “Augusto de Castilho” junto ao submarino U-139

 

Tiveram o consentimento dos alemães, mas não permitiram que os náufragos portugueses levassem um sextante e uma bússola. Obviamente, temiam que aparecesse algum navio das esquadrilhas aliadas de S. Miguel, entretanto avisadas pelo paquete português e não queriam o local e o rumo do submarino devidamente assinalado. Os alemães limitaram-se a apontar a direcção da ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à ponta do Arnel na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas. Foi um autêntico martírio e esforço inaudito, a viagem por mais de duzentas milhas em seis dias quase sem água nem mantimentos. Eram 12 náufragos, dos quais 8 estavam feridos, sendo que um morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no Augusto Castilho, entre eles, o do bravo comandante Carvalho Araújo que quando soube que as munições estavam no fim disse ao imediato: -"Deixá-lo! Morro como português". O artilheiro Von Piotr ainda escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".

- Texto anterior baseado em excerto do livro “Um Século de Guerra no Mar” de Dieter Dellinger





































                             Guarnição do «Augusto de Castlho»











             




quarta-feira, maio 09, 2012

Naufrágio da barca da «passage»


A passagem da barca da carreira, habitual desde os primeiros passos das gentes sobre o areal da Costa-Nova, e que se prolongaria até ao ultimo quartel do séc.XX era, na mor das vezes, um momento de descontracção que servia  aos passantes para galhofar, cantar e até dançar,se animados com a prodigalidade da natureza a proporcionar reconfortante sustento.

                                                   
                                                   A Barca amoiroada na 1ª mota(1907)

Mas certo é que por vezes as coisas não corriam, bem assim. E dias houve em que a travessia, perante a necessidade inadiável de a levar a efeito, era feita em condições adversas de tempo, exigindo aos arrais das barcas, muito saber, destreza e arte.E afoiteza..


                                                    
                                                         A Barca atracada na 2ª Mota (1936)

Em Agosto de 1907 a tragédia esteve à beira de suceder quando perante um desbragado e não esperado temporal (pelo menos com tanta intensidade) se abateu por toda a região de Ílhavo, e em particular sobre a Costa-Nova.

Era a tarde do dia 12 de Agosto do referido ano.
O céu mostrava-se escuro, as nuvens toldadas por um cinzento enfarruscado e empurradas por forte sulada, revolviam-se endoidadas, fazendo prever condições pouco apetecíveis para atravessar da Maluca para a Costa- Nova.Sobre a ria descarregava uma forte trovoada, pré anunciada por raios que rasgavam, em zig-zags caprichosos e fantásticos, o céu, iluminando a superfície da laguna, que surgia revolta, com farfalho a galopar, quebrada a crista das ondulação que teriam mais de um metro de cava.

Dir-se-ia que o diabo andava à solta, a brincar com a natureza assarapalhada com tanto barulhar, por vezes aterrador.

As barcas tinham encostado á mota, e depois de bem amoiroadas, os arrais refugiados na tasca da Ti Norta iam matando o tempo, escorropichando uns copitos de bagaceira, que lhes matava a inquietação.

Entre eles o António Roquete, colega do Labareda, gafanhão de tempera rija, resistia aos apelos da Ti Cacheira.Que desesperada tinha ao colo uma filhita de um ano.Tanto quanto o tempo da sua viuvez.Agarradas ao saiote, uma sobrinha de 4 anitos e uma filha da Júlia Rainha, peixeira como ela, lá dos Sete Carris, que teria pouco mais que os dez anos. A Cacheira bem moía o Roquete, pedindo-lhe pelas alminhas que a levasse ao outro lado, pois, tinha lá todo o rapazio, uma leva de filhos tidos do seu defunto, à espera, esgalmidos com fome.Desde o dia anterior apenas deixara aos seus meninos um caldito com um cheiro de conduto. Coitaditos, os orfãos de pai, a chorarem pela mãe, seu único amparo.: - ia dizendo ao Roquete, no sentido de lhe amolecer a hesitação.


                                    
                                                                  O Arrais

O Roquete bem hesitou.
O esculhambado  tempo, dizia, não aconselhava a mareação à Senhora da Saúde mesmo que «esta« desse prometesse dar uma olhadela por aquelas almas penadas. Mas a Cacheira tanto insistiu-ai Ti Roquete os meus meninos finam-se com o meu delatar! - que o bom arrais dando uma última olhadela à tramontana, decide embarcar a pobre viúva e largar amarras.

Até meio da ria, a viagem é feita com a toste bem metida, pano folgado a um largo, calcador solto, como solto ia o bolinão para que o mastro não fosse muito castigado. A borda entrava na cava da onda permitindo que a seguinte lhe entrasse aos golfões, fazendo boiar os paneiros.Nada contudo, que fizesse temor ao Roquete, mão segura na escota para, em caso de necessidade a soltar de um sopetão; o leme ia caído um pouco a barlavento para que a barca recebesse a vagalhoça pela alheta de proa. A maré, que já enchia, ia de encontro à ventania, encrespando e enrolando, a vaga, que desfazia  em linhas de espuma alva correndo para o norte, velozes.

Mas o inesperado surgiu. Um violento golpe de vento do SW, apesar do arrais soltar de imediato toda a escota, envolveu a barca, atravessando-a à vaga, virando-a de borco. Gritos lancinantes desprendem-se do peito daquelas  almas desgraçadas, que vêm a morte, ali, preste a levá-las consigo.

Roquete dá a mão á Cacheira e coloca-a na borda agarrada ao mastro. Com o pequerrucho preso nos dentes, mergulha, e consegue alcançar as outras duas crianças, trazendo-as para que se agarrem à borda da barca.
A barca é feita de tábuas...as tábuas aboiam...logo a barca flutua,concluiu um dia o Thomé Ronca, silogisticamente. E flutua, qual estranha baleia boiando sobre as águas que pareciam endoidadas.
Com o bebé preso nos dentes, o Roquete tem ainda, uma e outra vez, de ir recuperar uma das crianças que exausta não aguentara as batidelas da vaga e o frio da água, mãozitas hirtas, enregeladas.

Só um milagre poderia salvar aqueles infelizes.

Eis que da Costa-Nova os banheiros ti Pardal e o Ti Ricóca, com mais três camaradas, se metem numa caçadeira, daquela de nove cavernas, e tentam defrontar o turbilhão das águas. Impossível era, contudo, que uma bateirinha rompesse com aquela desarcada tempestade. Impotentes não têm outo remédio que o de se deixar descair para o Bico, onde aterram.

A esperança parecia perdida. Mas..

Eis que do sul o Arrais Serino, o Agostinho Pataneca, o José Agualusa, o Gordinho e o António Russo, se metem numa chincha e, remando forte, homens conhecedores e afoitos, lá conseguem chegar junto da barca e recolher os náufragos. Iam já três quartos de hora que aquela gente enregelava nas águas batidas pela sulada, prestes a desistir da vida ,exaustas ,enregeladas..

O António Roquete pelo seu feito mereceu a distinção de El-Rei que lhe concedeu a medalha de Mérito.
Pretendeu-se ainda que todos aqueles que se tinham atirado às aguas na tentativa de salvar aqueles infelizes, fossem, eles também, agraciados pelas autoridades concelhias.Sem resultado,nem ao menos uma medalha de cortiça.

Senos da Fonseca

Julho 2008

terça-feira, maio 08, 2012


Horas….



Dia passado, monótona e dolorosamente, nos corredores do I.P.O.

Não se deixa de ter a impressão –ou sensação – de estar no corredor da morte, por muitos avanços que a ciência prometa. Corpos que se arrastam –outros arrastados – caras vincadas, maceradas pelo sofrimento, gelhadas e vincadas, exprimindo mais do que sofrimento :-a derrota. Não é difícil, num ou noutro rosto, naqueles que aguardam sentença, vislumbrar um esgar que parece querer significar, por ali ancorar, ainda, uma ténue esperança. Aqui certifico-me que o género humano foi destinado ao sofrimento, porventura em troca da razão concedida. Os animais sofrem sem consciência. Abençoados..

A ciência avança. É inegável. Mas desesperadamente lenta para aqueles que já compraram bilhete, alguns mesmo dando a entender que quanto mais depressa melhor. Porque lutar naquelas condições, é de facto, desumano.

As horas, ali, correm lentamente, tal como o cloreto de sódio corre(?) ,pingando, para dentro do corpo do paciente.Dizem que para matar as células más. Ainda não percebi, como é que esta mistela distingue as boas das más.

Perpasso um olhar pelas leituras onde se empata (prendendo) o tempo, e noto paradoxalmente que a maioria dos pacientes traz revistas cor-de-rosa para se abstrair da realidade. Estranha preferência, esta, de quem perdeu a fantasia de viver, continuando-se  a enfetichar com as ilusões que se vendem a pataco.

Ao meu lado vem sentar-se alguém que, como eu, não vai por aí. Prefere falar. E eu que estava doidinho para isso mesmo. E a conversa flui á volta da doença. Ultrapassada a barreira do desconhecimento, atira-me:

-Tem um bom aspecto...; no início é sempre assim... .

Fico um pouco perturbado, apetece-me dizer-lhe: – não, não estou (vá lá saber-se ?!)...Mas logo entendo que por respeito e solidariedade não devo desmentir-lhe a impressão.

-Pois, doente ou não, há que sobreviver. Na nossa idade qualquer dia é dia, incluídos os dias santos. E fico-me pelas meias verdades.

-Na sua ou em qualquer outra. Olhe tive um filho de vinte anos. E a danada adiantou-se e veio buscá-lo. Porque me não levou a mim?

-É porque a dita cuja é cega.... fui adiantando. Cega e escabrosa, sentindo um prazer redobrado quando leva um mais novo. Por isso deve-se dar-lhe pouca cunfia. A vida é uma viagem só de ida, com destino certo. Às vezes ao longo da viagem ainda podemos sair num ou outro apeadeiro. Mas logo recomeçamos viagem. Olhando pela janela, vemos a vida parada e nós a «correr».

-Pois, diz-me - eu já me habituei à ideia de morrer. Morrer não custa; o que custa é não saber como. Se fosse só sair do comboio,vá lá…Mas o raio é que a parte final é a mais indesejável. Ao contrário das viagens de ida e volta, em que à chegada temos sempre alguém à nossa espera, na grande «viagem» não há ninguém para abraçar ou sequer sorrir.

-Pois eu por mim, queria mesmo encontrar-me com o criador deste mundo de horas angustiosas. Para Lhe dizer, cara a cara, que para fazer esta maldade mais valia ter estado a mandriar nos restantes seis dias.

-Poça …você é mesmo descrente, diz-me.

-Empedernido. Se o não fosse seria então descrer do Homem (à minha imagem e semelhança), e nesse, eu acredito. Mesmo duvidando. Mas pensar que «alguém» foi tão cruel que para parecer piedoso, tem de mostrar tanta impiedade, isso ultrapassa-me.

Neste momento o alti- falante chama o Sr. X ao Hospital do Dia. Levanta-se, sorri-me, despede-se com um – até sempre (que ironia na situação!), e lá vai receber o Cloreto de Sódio & Venenos.

Fiquei a pensar: valeria a pena ter-lhe ocultado?

Mas a verdade é que enganar a vida é fácil. Mas a magana, essa (!) é que nós não enganamos. Podemos trocar-lhe ainda por imaginados dias, as voltas. Mas isso é apenas adiar o inevitável.

Dá-me a impressão que a partir de certa altura vivemos horas clandestinas.



SF 2012

quinta-feira, maio 03, 2012


CONVERSA  NO C.E.T.A.



O Grupo «arcádico» de Poesia d’Aveiro solicitou-me para fazer de poeta, por umas curtas horas.



Quem já não sonhou sê-lo?


O pedido da Zita, trouxe com ele, ordenança.


Um pouco intimidado aqui estou.


                                      Oh triste engano.

 
                             Córo de vergonha .só de pensar parecê-lo .


                                        Mais fácil seria sê-lo.


2 -
Disse F.Pessoa : - não o prazer; não a glória; não o poder;

Eu acrescento: a LIBERDADE unicamente. Só a liberdade de ser ou querer ser. Por isso gosto de escrever livremente, sem complexos. Gosto de escrever o comum, mas com singularidade. Ou pelo menos tento-o fazer sem peias.

                                       Sei apenas que quero zarpar


                                        Sair de mim, cortar raízes


                                        Ir tão longe, que impossível


                                        Seja voltar.



3-
E assim, entro, de vez em quando, em arremedos poéticos que chegam nos intervalos de matar o stress da procura permanente.


Da procura?! Não sei se não será antes a (minha) desconstrução, pois na verdade, quem pensa destrói-se


                                      Paguei à vida chorudo preço


                             O de quem quis, sempre ser, só e apenas


                                                                                      Eu….


4-


Vamos lá desnudar-me.

Gosto da poesia a intervalos. Porque o eu gosto sempre é de prosa. Perdoem-me os poetas presentes. Um texto de Vieira, Aquilino, Camilo, Saramago e outros, penetra mais profundamente. Sorvo-o. Tantas vezes, mais interessante que um bom poema de Pessoa – e de que eu gosto mais- é do seu sossego, desassossegado. Como o meu


                            A encontrar a natureza redoirada


                            Guardá-la no silêncio recolhido


                            Dos meus olhos amanhecidos

5-
A prosa está para a poesia,como um «lenço» de Caravagio, Rubens ou Veremeer está para o pontilhado impressionista de Monet, Renoir ou Van Gogh.

Na prosa pode-se ser inteiramente livre. Na poesia há mais rituais a cumprir. Na prosa um corpo nu de mulher descreve-se em todos os seus acidentados percursos. Na poesia basta descrever um dos seus quatro pontos cardeais.

                                 Ah(!) como é bom tanta coisa fazer


                                No cúmulo do prazer, na tua boca


                                A loucura da vida, esquecer.
7-
Na poesia em que por vezes toco, gosto de tratar metaforicamente, as impressões. E vou arrumando no papel as palavras soltas que irão compor o quadro. A maresia doce que a brisa me traz saída do ventre morno da ria (ou de outro talvez) incita as gaivotas mais leves que o ar, a noivarem num claro desassossego.


                                 Nelas invento a minha desdita


                                 De não ter asas e voar


                                Ao encontro das palavras


                               Que compõem o verbo amar .


8-


Há.Tem de haver!!!! uma das três luzes com que ilumino o «lenço»: a luz branca do sol, a amarela morna da lua, ou numa ou noutra, diluída, o azul das águas de onde virá ao meu encontro (sonhado) quem procuro na vida que não há em mim.


                                     Anda !


                                    Vem matar a minha sede


                                    Deste secreto sofrer.


                                   Antes que o estio cesse


                                   Vem! Vem me aquecer.
9-

Gosto; gosto mesmo perdidamente da Ria.

Gosto dela prenha de azul, um azul muito azul, que me encharca o olhar.

Gosto dela, nua, na maré baixo onde lhe descubro todos os doces e macios contornos, e toco em seus escondidos segredos.

Gosto dela irritada, pele eriçada pela sulada, farfalho branco a cavalgar na vaga das águas acastanhadas, ofendidas por tanto fustigo.

Gosto das suas tardes cinzentas, luz intensa que me parece de uma claridade pálida, a prenunciar o estilhaçar dos céus solto das suas entranhas; e logo a luz formidável do raio a fender os ares e a estarrecer os cães que amedrontados se refugiam entre as quatro patas, escondendo o focinho.

E eu por ali fico até que o sussurrar marulhento da trovoado se afaste.


E enquanto isso vou ouvindo os barulhos do mar. A querer que as nuvens que acinzentam o céu, se vão.E o azul volte


Um barco passa ali á minha frente voando nas asas do vento. Parece que estou a ouvir o ranger das suas tábuas.


O vento forte enche a vela e de repente vem outro golpe de uma outra direcção. Sabeis o que é?! …É a volta de cão.


O arrais segura com pulso forte a cana do leme. E o barco pula e avança. Dança. E eu fico á espera


                       De quem ousar chegar


                       Ao terraço dos encantos que não desvendo


                      Moça fugida há-de velar por meu encanto


                    Já a vejo lá longe.Vem para mim, correr.
10-

E o momento chega:

O segredo que certamente há por baixo da minha vida, ou fora dela. Quando olho parece que tudo me escapa.

Se me distraio passo a ver a realidade com uma exactidão perturbadora.

                    Vejo os rios que quis levar ao mar


                     Deixados encalhados na praia…


                     Feitos espuma……
11-

Por isso, a sensação que flui em momentos em que fixo o olhar para longe e, repentinamente, resto absorto, distraído, é quando retrato a ideia. Sem corrigir dou-lhe a forma do no compasso com que me penetra.

E depois olho. E impressiono-me: não me vislumbro – não sou eu !– no que estou a ler. Mas sinto que sou eu que estou no papel a ligar, a soltar, as palavras que queria dizer. Gosto de palavrar. No arranjo das palavras existe sensualidade.

        E em gesto de pressa, arrebatador


        Desnudo-te puxando-te para mim


        Ouço o teu sussurro, sinto o teu espasmo.

        Ah !....como é bonito este poente meu, no teu corpo, hoje…




12-
Nesses intermezzos poéticos misturo realidade –ria, mar, momentos ,corpos, raízes – com sonhos. E o que são estes? Apenas sentimentos que não se sentem na vida. Por isso sempre não concretizados, mortos no fim do poema, é licito amanhã voltar a sonhar de novo.

Cada poema que nasce é, pois, e por isso, sempre o primeiro.

                       Aprouvesse eu ser flor


                       E no teu regaço lindo poria


                        Não um dedal


                        Mas um jardim todo feito d’amor…
13-

Os olhares nascem, por norma, no meu terraço. De onde vejo, mais ria e mais céu. A olhar para eles a vida dói-me menos.

Ali estou tantas vezes, eu e apenas Tu; príncipe eu, Tu a princesa, a olhar como a beleza resulta do encontro da luz da lua com as águas.

Olho-as fascinado deslumbrado. Como olho para o teu corpo de amada, desnuda, inquieto por saber que em cada olhar o vejo de um outro modo, mas sem me cansar de o desvendar. Como a lua faz à ria. E o verso sai mais quente, mais sonhador.

                           Encaixados ,


                           Somos como o sol a penetrar a sombra


                           Para trazer a madrugada.
14-

Gosto por isso das manhãs, angustiam-me os poentes que pretendo sejam rápidos. E que a manhã da noite chegue apressada, com o aparecimento da lua brilhante.

Tenho sede de olhar; descobrir novas manhãs. Sempre a fugir à mágoa inútil de não ter valido a pena. E a manhã chega,
                              
                         Ninguém sabe o que trará


                         E que importa?

                          Fados serão.


15-






Há quem viva a vida em insónia permanente. Eu vivo-a aos estremeções. Inquieto. Adorando o desafio. A minha mãe perguntava-me com frequência: Porque queres ser assim?

Eu respondia-Lhe: porque Tu, Mãe (!), não querias que eu fosse doutro modo.

                          A ousar, ousando


                         A construir, construindo,


                         A amar, amando.


SF -CETA





segunda-feira, abril 23, 2012



25 Abril 2012


E foi neste caminho tortuoso
Mais longo que as curvas da vida,
Que  o resto das tuas promessas se desvaneceu.
Já não há cravos nem rosas, nem espingardas
nem sonhos  gritados aos céus,
Tudo é nebuloso.
O Povo desunido, foi claramente vencido.
Meu canto é triste;
Choro em cada verso a desilusão
Dos  sonhos que não cabiam na mão.
 De todas as mãos.


Hoje é véspera do não chegar nunca a ser.
Vou por aqui ficar a velar
À espera de que aconteça o que quer que seja;
Ao longe ouço tambores, mas não os vejo
E eu queria vê-los e ouvi-los rufar
 A anunciar
Que é lenta a marcha, mas há que recomeçar.
No ar paira uma promessa
De um dia se voltar a cantar
Os versos da primavera, de novo florida.


Seremos então tantos, seremos todos
De braço no ar a empunhar de novo a flor
A gritar a raiva que nos move
A perguntar «aos tais»:
De novo enganados ?!
Não!!!  Nunca mais.                  

                                  SF (Abril 2012)

segunda-feira, abril 09, 2012



(Sim! .eu sei que tudo são recordações...)


Lindos eram os teus  olhos
Vivos !
Rasgados em tua  cara, eram de amora gostosos bagos
Davam-te um ar mais que  formusura
Uma graça de mil agrados


Tua voz era mistura de som e doçura
Saídos
De uns lábios, mais do que a cor, sugeriam o amor
Férvidos beijos prometiam
Sugestões para horas de  louco  ardor


Os teus cabelos eram fios de ouro 
Caídos
Enrolados, desciam sobre alvo peito, suave enleio
Onde dois rubis sanguíneos 
Desafiavam da meiguice, credenciado  jeito.    


São desse retrato as saudades que padeço
Vivas!
Teus olhos roubadores na face de carmim, sendo
Prenda que não sei sequer merecê-la
Meus olhos, outros olhos, olhar  não pretendem.
  Sf

sexta-feira, março 30, 2012



(Nota prévia : só agora me chegou às mãos,  uma pasta de documentos (meus), arquivados desde há vinte ou trinta anos. De que nem sabia a existência, mas que pessoa amiga foi arquivando,e agora me fez a entrega. De entre os documentos escritos, saltou-me este, referenciando a apresentação da reedição do livro de Mário Sacramento, «Fernando Pessoa –Poeta da Hora Absurda». É agradável passados tantos anos, saber que não retiraríamos uma palavra ao que então escrevemos. E desagradável, reconhecer que nada mudou por aqui).

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Ainda e uma vez mais Mário Sacramento

Viemos de assistir ao lançamento da 3ª Edição do livro de Mário Sacramento, "Fernando Pessoa Poeta da Hora Absurda".   E, uma vez mais, a interrogação surge : porquê o alheamento de Ilhavo a mani­festações sobre Mário Sacramento?; porquê este "não assumir" de paternida­de daquele que foi sem dúvida - a clara e inquestionável distância - o inte­lectual de maior dimensão e projecção de entre os que tiveram a nossa Terra por berço?

Entre a numerosa assistência, dois ou três ílhavos presentes; nada mais. De­solador, este ostracismo a que “votamos" Mário Sacramento. Porquê? …interrogamo-nos: ­

- Teria sido Mário Sacramento um mau "cidadão ilhavense" apesar de ser um "cidadão" de eleição ao nível do País?

A resposta - um categórico não: como cidadão ilhavense ele foi um  interessado, constante e participativo  nos problemas da sua Terra natal: deu-se às Associações, como seu Pai se deu aos Bombeiros de ÍIlhavo, de quem foi um dos principais pilares; interveio no Illia­bum Club onde foi um dos dinamizadores da sua legalização e estruturação, de­finitivas; foi seu animador ao longo dos anos, sempre disponível para o hon­rar - para o Honrar, sim! - com notáveis conferências que ali proferiu. E ainda na­queles tempos bem difíceis esteve na Misericórdia de Ilhavo, dedicando-se ao seu Hospital, tendo para ele planos bem objectivos  que a política da época logo cerceou...

- Teria sido, então Mário Sacramento, um profissional desinteressado que tenha deixado sequelas nos seus doentes?

Não, não foi. Categoricamente. Foi antes um notável profissional com êxitos assinaláveis - quem não se lembra de alguns deles, na fase  de lu­ta contra o flagelo da tuberculose (?!); de uma dedicação extrema aos mais carenciados, era o “médico dos pobres". Assim era conhecido :Diziam-no todos os que, necessitados, dele se abeiravam, um ror deles dispensados (por falta de meios) de pagar a consulta.

- Teria sido o Mário Sacramento um intelectual desligado dos problemas con­cretos do seu tempo, mantendo-se numa observação distanciada dos mesmos, e por isso afastado dos seus concidadãos?­

Precisamente o contrário. O que teve de extraordinário este Homem, talvez como nenhum outro intelectual da sua geração, é que sacrificou o seu amor pe­la literatura - a grande paixão da sua vida! - em benefício duma intervenção directa,  sacrificada, permanente e arriscada. Envolvimento cívico que o martirizou. E o matou!...precocemente. 
O que existe de assombroso na estatura enorme desta figura, é que não se reconhece com nitidez o campo onde Ela derramou com mais fulgor a sua tor­rente de intervenção: se na sua oficina de escritor de fim de semana, se na sua oficina do artífice construtor dum novo País, se na “forja" onde pretendeu moldar o novo Homem: o Homem do devir com quem já não caminhou lado a lado no dia da liberdade, em presença física, mas em presença espiritual, pela certeza de que esse dia iria chegar.Que  não apenas desejou ...mas pelo qual  lutou e arriscou , como só alguns poucos, o fizeram..
Em Mário Sacramento conviveu em permanência a grandeza moral do homem com a firmeza do cidadão,que nenhuma ditadura persecutório conseguiu deitar abaixo.Em Mário Sacramento nunca houve vacilação: a liberdade não tinha preço, e eu 

Então porquê este alheamento?

Quando no momento de "psicose Pessoana", perante uma torrente nem sempre inovadora de trabalhos de abordagem ao poeta do desassossego, quer feita por nacionais quer feita por especia­listas estrangeiros, é sentida a ne­cessidade de reeditar o trabalho feito há trinta anos por aquele jovem ensaísta, que, sem referências e sem a companhia de livros de consulta, preso em Caxias, fez uma abordagem polémica (e como muito bem assinalou Vital Mo­reira) sem preconceitos da incomodidade de posicionamento do grande poeta pe­rante a visão do mundo do autor, é porque o trabalho é de sobra valoroso, reflectindo a seriedade da abordagem e a justeza das ilacções no contexto da apreciação. Como já tinha si­do a abordagem a Eça, como o foi a abordagem às obras de muitos outros (Flor­bela Espanca, Raul Brandão, etc. etc.).Discutível – e MS virá a reconhecer a necessidade de a ajustar, sem em momento algum a enjeitar.

Mas então porquê? Porque é que esta Terra cujos horizontes culturais se resumem ao «vamos indo e vamos vendo” como escorre a moda, onde parece tudo no fundamental, parado, onde o essencial se atola no lameiro fétido do desinteresse, se alheia, agora e uma vez mais, de um dos seus mais proeminentes filhos:- Mário Sacramento?

Excelente madrasta, desnaturada mãe, Ílhavo é uma terra que parece perdida na sua história. Parece aceitar, comiseradamente o destino: fomos mas nunca mais voltaremos a sê-lo. Perdemos a memória e perdemos o desejo de ser. Recuperar a memória seria ir ao encontro de exemplos que já não há. Então, vulgarizou-se a ideia de conviver, comoda e interessadamente com os que há., E sendo estes arrivista, corifeus da traulitada verbal, medíocres, há que nivelar pela moda do triunfalismo trauliteiro. A mediocridade tem uma capacidade infinita de vir á tona; com as invejas a tomar de assalto o lugar do merecimento dos que foram grandes. Disso se encarrega a retórica diletante e balofa dos títeres que vão subindo à cena. 
Desse modo deixámos de tentar um futuro coerente com o passado. Vivemos num atolado imerecimento.  
A resposta às minhas perguntas é pois: PCDC .Pandemia Colectiva de Demissão de Consciências. Alheamento,indiferença.Ausência.

SF

(PS- Aqui não comentei  a qualidade do livro,feita,já então,  em outra altura. Aqui o que me importou foi realçar a ingratidão) 

quarta-feira, março 28, 2012



(Nota: Há dias o Ábio Lapa deu o mote.E alguém me mandou esta versalhada do saudoso Quintino.Verdadeira enciclopédia .Aqui vai o guia das tascas d'IBALHO)


 AS TASCAS

Muitos eu vi em beleza
Par'ciam dançar a valsa
A beber na TI TERESA
Ou a beber na TI SALSA

Anda beber um copinho
Que eu já o deixo ficar pago
Ou em casa do PAULINHO
Ou na tasca do SANTIAGO

O beber é um grande vício
É mesmo grande fadário
Bebia-se no MAURÍCIO
E bebia-se no HILÁRIO

A beber era fatal
Era mesmo o fim do mundo
Bebiam no PASCOAL
E também no EDMUNDO

Diziam sempre que sim
Fosse do Branco ou doPreto
Bebia-se no CACHIM
E em casa do LORÊTO

Fosse sentado ou em pé
Era de toda a maneira
Era em casa da TI FÉ
Ou na loja do RIGUEIRA

Só p'ra minha paciência
Eu nem sei como vou tê-la
Bebiam na TI VICÊNCIA
E bebiam na CABÊLA

P'ra cá e p'ra lá da ponte
Fosse à tarde ou de manhã
Copos no JOÃO DA FONTE
E copos no CAMPANHÃ

Nunca os vi ir ao Carôcho
O que seria até belo
Mas entravam no ZÉ NÔCHO
E também no PARALELO

Bebiam num desatino
O Ricaço e o Pedincha
Iam beber ao QUINTINO
Ou na MARIA LABRINCHA 

P'ra eles era um idílio
Podiam fazer a escolha
Ou bebiam no VIRGÍLIO
Ou em casa do TI SÔLHA

Minha alegria se expande
Dizia um dia o Razoilo
Aqui no JOÃO DO GRANDE
E ali no CATRAPOILO

Eu quase que apanho um susto
Porque esquecia, sou franco,
Essa do TI ZÉ AUGUSTO
E a outra do ZÉ BRANCO

Sempre o vinho faz milagre
Representou bom papel
Lá na tasca do VINAGRE
Mais tarede do ISMAEL

Digo-vos num instantinho
E nisso sou bem certeiro
Que havia o ESCONDIDINHO
E a tasca do ZÉ PADEIRO

O REDONDO (O Latoeiro)
E se não lhe falha a tola
Ponho a loja do RAFEIRO
E a casa da TI CAROLA

Bebiam de que maneira
Sou eu quem aqui o diz
Era em casa do MADEIRA
Ou na Tasca do TI XIS

Lembrar a todas é um frete
Mas vou andando contente
Com a da ROSINHA TOPETE
Das LÉLÉS e do VALENTE

E encontro ao fazer o giro
A da ILDA e da MATEIRA
Loja do TI CASIMIRO
Mas continua a canseira

Também para meu contento
A da IRENE pois então
A da ROSITA DO BENTO
Da LANCHA e MANEL PATRÃO

Só se eu fosse um Calhau
Deixava em anonimato
A GRUTA e o MÁRIO LAU
E também o ZECA PATO

COVA DA ONÇA na ementa
O MATOS e JOÃO GAIO
Assim faço CINQUENTA
Mais nada senão desmaio

JUNHO DE 1994
J. QUINTINO TELES
ÍLHAVO

segunda-feira, março 26, 2012



 MOLICEIROS-MEMÓRIA DA RIA

Na apresentação da reedição  do livro  O MOLICEIRO – Memória da Ria – de Ana Maria Lopes (concepção ,organização, recolha  e texto) e Paulo Godinho(fotografia),quase tudo terá sido dito(e bem ).
Sobre o livro que elogiei largamente aquando da sua primeira apresentação ,por motivos que incluo ,agora, no Prefácio da actual edição ,para que fui convidado  pela autora, julgo ter dito o bastante, e talvez, o adequado.  .E o que pudesse dizer,agora, não traria mais achega que constitua novidade.
Mas foi para mim muito interessante que o Arq.Paradela tenha sublinhado na sua (excelente) apresentação do livro, o seguinte:
 Belíssimo não só pela qualidade gráfica e da documentação fotográfica executada naquela época pelo seu filho, Paulo Godinho, a qual não se limitou a ser apenas um registo analítico da investigação, mas que aborda a fotografia no seu campo estético, enquadrando o objecto de estudo, o moliceiro, na paisagem das suas evoluções, explorando a luz diáfana da laguna quando o tema é mais livre, com a sensibilidade e o olhar de um artista.

Ora isto é um facto que importa sublinhar. Porque por vezes o facto da autora ser a Mãe do excelente fotógrafo, Paulo Godinho, ofusca a justeza do elogio. O conjunto de trabalhos de Paulo Godinho, na Ria, seja na faina do Moliceiro, seja na do sal,é verdadeiramente notável. E se é certo que Ana Maria Lopes fugiu a fazer um corriqueiro livro sobre o Moliceiro como bem fez notar o Arq.Paradela ao afirmar :

Nesse âmbito, o livro dedica especial atenção aos elementos simbólicos e decorativos, tipificando-os, criando, talvez pela primeira vez, uma espécie de taxinomia dessas obras de arte popular.

Os painéis, bem como as bandas pintadas e as siglas com motivos geométricos, são uma ocorrência intermitente nas artes de pendor decorativo, pelo menos desde os frisos dos antigos gregos, até aos desenhos celtas e aos intricados geometrismos da civilização árabe, que por cá se detiveram durante vários séculos.

Mas esses elementos não são abordados no livro nos seus aspectos estéticos matriciais ou nas suas evoluções formais. Na verdade eles não correspondem a um substrato cultural erudito, mas  a uma moda decorativista popular, que se terá instalado em altura incerta, no norte da laguna.

Em vez disso, esses elementos foram objecto de uma organização sistematizada dos temas pictóricos e da sua interligação com os textos que os acompanham, que são também analisados e interpretados pela autora, recorrendo à sua formação linguística, para igualmente os agrupar e classificar tematicamente.

Os textos e os painéis correspondentes que no livro se contam por muitas centenas, constituem só por si um manancial enorme de património artístico de expressão popular que a autora nos oferece num deleitamento total, sem se alongar, como disse, sobre a génese de tais elementos evitando assim cair em especulações do tipo do ovo e da galinha”.

Certo é, porém, que também Paulo Godinho –então com  apenas 14 anos – foge ao trivial e já algo «estafado» cliché do Moliceiro, de frente, de lado …e até de «cócaras». PG   procura  mostrá-lo como instrumento de trabalho(e por isso focaliza pormenores acessórios, caso do vertedouro ,uma imagem notável) e por isso cata-lhe as entranhas. Utilizando com maestria invulgar a luz da Laguna, ora exuberante, ora  macia e doce,  obtém  imagens de extraordinária beleza. No seu conjunto, do melhor que conheço.  
Por tudo –do excelente traçado da apresentação  do livro feita pelo  Arq.Paradela, à  escorreita, sóbria, mas clarificadora explicação do que a autora pretendeu (e hoje de novo pretende) com o seu trabalho ,e à justa chamada «à boca de cena» do autor das imagens –tudo esteve bem.
E era precisamente ali que a sessão deveria ter acabado.  

SF

terça-feira, março 20, 2012



«BUSTEIRO» ou «BOSTEIRO»

Uma leitora faz-me um pedido de esclarecimento: a palavra «Busteiro» deve ser escrita com U ou com O.
Ora ainda bem que o novo  acordo ortográfico nada tem a ver com isto.
Mas a pergunta parece-me interessante, pois tenta esclarecer uma figura típica de Ílhavo, que ainda executava com verdadeiro profissionalismo a sua catividade no SÉC. XX.
Vamos pois se consigo elucidar a leitora.
Desde tempos longínquos (refiro Séc. XVII) que homens de Bustos (da Gândara) vinham com regularidade, a ílhavo, recolher a enorme quantidade de junco que quinzenalmente (ou mensalmente) se colocava às portas, junco que cobria o chão das casas simples alinhadas ao longo da rua Directa e Espinheiro. (lembro-me ainda da casinha de dentro da minha avó,que era coberta a junco fresco, semanalmente!) Esta herbácea, muito utilizada para fazer cama aos animais, era também utilizada nos chamados celeiros e cozinhas, concedendo-lhes uma agradável frescura. Assim os «BUSTEIROS» originais de Bustos, vinham com carroços recolher o junco amarelecido.E com ele faziam negócio, trocando-o ora por vinho, ora por outros produtos agrícolas Para eles o junco era fundamental para as «camas» dos animais. Eram também eles que tinham o monopólio da recolha dos juncos e erva-doce com que se suavizava os passos de quem conduzia o Senhor e Oráculos, nas procissões das festas locais. Vinham com uns carroços, demoravam-se um ou dois dias, albergados num ou outro palheiro da Vila, e depois partiam.
Ora no século XIX  esta gente  de Bustos deixou de se interessar pelos juncos.
E passaram o ofício a uns rapazes de Vale de ílhavo que vinham, de gabão enfiado e de tamancos, varal ao ombro onde pendiam uns cabazes de vergueiro (tipo «enxalabares»), percorrer rua a rua a recolher os excrementos dos animais, varrendo-os com uma vassoura de giesta para dentro do cabaz. Estes eram, de facto «OS BOSTEIRO», recolhendo a bosta dos animais, assim exercendo uma admirável tarefa de saúde pública, mantendo as nossas ruas bem limpas.

                                             «BOSTEIRO»

Resumindo: há as duas grafias: «BUSTEIROS» refere homens de Bustos a recolherem juncaria. «BOSTEIROS», rapaziada vinda de lá de cima, de Vale de Ílhavo e redondezas, a limpar as ruas da Vila, de excrementos(bosta),alimento fértil para as suas leiras.

 Infelizmente, hoje já os não há.
Porque hoje, «bosta»  é o que há mais pelas ruas citadinas.
E pronto. A explicação aqui vai ,ainda que trate de coisas mal cheirosas.

SF

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...