sábado, setembro 22, 2012


 

Foi Você que pediu um «d.sebastião»?:
Sem duvida estamos a viver um período decisivo para o futuro deste País, como Nação independente, liberta de peias e teias «troykianas » (confusas, erráticas, ideologicamente dirigidas contra o elo mais fraco, muito dolorosas).Um país servil.
Importa-me pouco os erros que se cometeram. Todos(digo todos!) cometeriam os mesmos erros ,como aconteceu com todas as famílias deslumbradas com as facilidades de crédito ,que, quase de um modo  forçado lhe  foram impingidas. Nem sei onde estaria se não tivesse s ido sempre indiferente às loucuras que me foram oferecidas de bandeja .Os bancos pareciam ter ensandecido. Em vez de darem  uma corda a quem lhes desse um porco, inverteram: deram porcos a quem nem corda tinham para o amarrar. E até ofereciam porcas já prenhas (carros, cortinados, férias etc . etc,)
Como sair agora desta tramoia?
Pensam muitos bem intencionados que  vejo (e ouço) nas manifestações,  que sairemos do buraco alavancados por  uma democracia onde todos terão  representatividade nas opções a tomar. Já temos experiência suficiente para não acreditar em «boas» (na maioria), e disfarçáveis  intenções (nuns poucos..por lá misturados).
Quem o pensar cai em puro engano.
Não há modo de viver democraticamente com pouco ou nada para dar.Muito menos quando há (ainda) muito a retirar para pagar (como e a quem?!) .O caminho do desenvolvimento acelerado é vereda tortuosa, que só uma ignorância tonta julga ser sempre a descer em roda livre .Por isso nenhuns dizem por onde é esse caminho(creio que muitos já o perceberam) .Quanto mais formos ao fundo –e estamos a ir! –mais difícil vai ser recuperar o espaço perdido.
Não sei, pois, como sairemos  desta situação. Sei apenas que adiar nada resolve. E que teremos de passar, por momentos e tempos, ainda bem mais difíceis.
Na minha vida vivi e defrontei  situações reais  a que me coube(empurrado às vezes) resolver. Sempre   situações que pareciam irreversíveis. Tive sempre o cuidado de explicar  aos proponentes, o que iria fazer e, mais importante: – o modo  como iria proceder ,o que queria alcançar, como iria lá chegar,  e os prazos que   me concedia. Ninguém mo exigia.Mas era eu que me queria amarrar ao compromisso .Pedi crédito para as decisões que iria tomar..Fixei sempre –mas sempre! –prazos claros: ou conseguia ou vinha-me embora. E fixei sempre – mas sempre !– o tempo da minha intervenção. Para mim sempre houve uma clara necessidade de todos saberem o tempo que precisava para aplicar as «minhas regras»(?)por vezes bem duras, correctivas, às vezes (aceito) no limiar do procedimento dito democrático. Era conhecida a minha decisão, sempre inabalável, de me não prolongar depois das coisas resolvidas. A mim competia-me resolver o momento difícil (o que confesso sempre me motivou e deu gozo),mas não viver depois o tempo de vacas gordas, que vinha a seguir. Deixar as coisas bem gordinhas era o meu gozo supremo. A minha recompensa .
Ora isto vem a propósito da minha convicção :

                  1-Ou a Europa reformula radicalmente a ideia de prazos curtos  e dolorosos para os «paises pobres» pagarem a divida(vivemos essa situação de divida publica desde D. João II),  dando condições de desenvolvimento  e assegurando limites de endividamento compatíveis com o mínimo de bem estar colectivo  (pois não se podem ultrapassar limites sensíveis, incompreensíveis ),ou não iremos a aprte alguma. Em asuntos deste tipo quem não souber chegar-se será o perdedor.
(É inadmissível que esta não seja a preocupação primeira de quem nos dirige, só explicável por falta de experiência de liderança. Uma liderança convicta compromete-se ,mas exige em contrapartida, crédito para as suas decisões. Os que no dirigem capitularam. Renderam-se…)

                    2-ou a tal não acontecer, ressurgirão (aqui e lá fora) acontecimentos  sebastianistas.
O nevoeiro  cobre já este País. Depois não nos queixemos.
As manifestações acontecidas ,aqui e em outros países, são,  não  só dirigidas contra um governo de «rapazolas» imberbes e impreparados, tontos,que em vez de estarem a servir de porteiros numa empresas decente ( emprego bem mais compativel com os seus conhecimentos de Jotas de um qualquer democrático partido, do chega para lá) se apropriaram do poder representativo partidário, desinteressado e distraído,fora da bagunça eleitoral.
 As manisfestações grandiosas,não corporativas,  são  claramente uma rejeição do  sistema partidário que entre nós cresceu e se enquistou.E deita puz por todos os poros. De todo,ninguém já não acredita em ninguém.
E quem se julgar fora do acto de rejeição, está perfeitamente enganado.
SF

                                 

 

 

(E lá chega o Outono de novo)

«OUTONIÇO»

Acordo hoje
Nesta manhã que sendo linda
A mim, doente me parece.
Como as folhas das árvores que o Outono amarelece.
Olho o céu que se mostra, aqui, pequeno
Sem lonjuras onde pouse o meu olhar
Além! 
Estou triste,ao olhar a minha gente deprimida
E eu ,outoniço, também…

Senos Fonseca

 

sexta-feira, setembro 21, 2012



Ora digam lá…..
  Ultimamente têm circulado na Internet excertos  de textos provindos da pena  de monstros sagrados das escrita portuguesa: Eça ,inimitável na forma e conteúdo, ironicamente certeiro e contundente como nenhum outro, um  «farpador» exímio;  Torga ,telúrico, de uma tempera vibrátil, de uma força impetuosa   e vivência ofegantes ; Saramago, inconformado  fugitivo  de uma cegueira colectiva,   questionador  do iberismo na  europa dos ricos,um «Blimunda» vidente dos novos tempos . Catando esses nacos de prosa excelentes, vivos e contundentes,  cola-se o seu conteúdo  a uma leitura dos tempo actuais de crise profunda. Crise de um País à beira do soçobro, por infantilidade de uns impreparados politicos, inconscientes rapazotes que foram conduzidos a uma ratoeira  ideológico ,soberanamente montada, onde uns poderosos de rosto desconhecido, mas intenções escandalosamente bem conhecidas, pretendem,de uma vez,  vergar a dignidade do «trabalho». A luta de classes levada ao extremo.
 Se a referida crise serviu ao menos para reencontro com   as preciosidades literárias –ricas e ajustadas – dos  nossos maiores ,então ironicamente, poderemos dizer que nem tudo foi mau.
Depois :a barricada é lá em baixo na rua da  Bistega, indicava Eça.O (des)governo está morto e embalsamado.
Ora o certo é que eu sempre me deslumbrei –e por isso li e releio, assiduamente- aquele que para mim é,inquestionavelmente, o príncipe das letras lusas ,o P. António Vieira(sendo eu um descrente absoluto,o que não me impede de o eleger,príncipe dos príncipes).Ler Ant.Vieira cria-me sempre fervor e amargura.A amargura advém de me sentir canhestro e desprezivel escrevinhador de horas (e matérias) vagas. O fervor está em  em descobrir,permanentemente, um deslumbrante exercício de retórica humanista indestrutivel.Nem sequer confrontável. 
Não é preciso ir muito longe na sua leitura para encontrarmos quadros ,eles também, assustadoramente ,actuais.
Retiremos um ….
A primeira coisa  que me desedifica (…) é que vós vos comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros ,senão que os grandes comem os pequenos .Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comerem os grandes bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem ,nem mil para um só grande.
(….) porque a  a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos ,os que menos podem(…) são os comidos.(P .A.V.)
Oram digam lá,que não é actual.
SF
SF

sábado, setembro 15, 2012


Manif
É claro que este Governo que tão mal, desastrada e tão incompetentemente nos (des)governa, está ferido de morte. As brutais manifestações populares,genuínas, carregadas de emoção,autênticas,despidas de institucionalização corporativa, são a sua certidão de óbito.Paz à sua alma,sé é que a merecem.Sejamos piedosos.
Mas..,
 esta manifestação(global) é claramente  anti-partidária.Pretende ser uma espécie de reedição do «Povo Unido». E manifesta o seu repúdio por «toda » a classe politica partidária.
Ora assim sendo (foi assim que a senti…),estamos perante  um  complexo problema, tipo quadratura do circulo.
E quando assim é, poderá,num repente, aparecer um novo D.Sebastião.
 Isto é alguém que mande. Porque o governo, esse, está na rua.
Difíceis os tempos que aí virão.
Não nos podemos esquecer que se este governo lá está,grande culpa disso deve ser assacada ao BE e ao PCP. Por isso estes dois partidos também estão claramente debaixo de fogo.Ainda que o disfarcem feitos pombas brancas de papel.
Isto pode ser o dia zero,mas não, apenas e só, para o governo.
 
 
SF

domingo, setembro 09, 2012


 

Ílhavo: Terra de túmulos vazios….

E depois de uns tempos – curtos, muito curtos,e este ano muito amargos – eis que volto á terrinha da  Nôcha.
Desinteressante, a terrinha arrasta-se neste lamaçal onde ninguém parece interessar-se pelo  estado de espirito que a corrói.
Indignados (cá) não existem.
Existe apenas um  jornal (Ilhavense) que, sozinho, vai lucidamente registando para a história, como um peralvilho( gigânteo serôdio populista) se apossou  dos destinos desta terra de pachorrentos  e  acomodados indígenas,  esbanjando –lhe o património material (foi á falência a «tasca» do Senhor da Maluca), cultural ( afogado no tanque dos bacalhaus que lhe deu volta à tontinha farófia que nele substitui o  miolo pensante do erectus); e social (dividindo os indígenas em «meus e os outros»).E a dita que outrora era excelente, se viva fôra,é hoje carcaça de navio  encalhado: apodrecida(moral e materialmente)cheia de carepas, de musgos ,decrépita, sem cordame, mastreação carcomida e história pálida e obscura. Sem tripulação, espera para ser desmantelada como foi o  «avé maria».
A Oposição (?)  aos costumes (e por costume) nada diz. Meteu o fole entre pernas e foi a banhos(maria & comp).Tão lestos quanto puderam. Palrarão sim, mas lá para o ano: a chinfrineira habitual de que «agora é que vai ser». Hão-de charilo, os cachopos! Serão os putativos e eternos candidatos, a candidatos. E nunca serão mais do que «petit patapons». Debalde passeiam. Debalde falam. Debalde se mostram (escondidos).  Finaram-se. Isto de ter opinião, cansa. É necessário inteligência, imaginação e vontade para o trabalho. Eles tomam o seu tempo por um tempo de capitulação. e por isso desertam. Estão mortos embalsamados,prontos para ressuscitarem. Não ao terceiro dia,mas para o ano, para as calendas eleitorais. Por ora mudos, inertes,  apodrecem entediados. Mortos.
Ninguém hoje na terrinha da nocha, tem  espirito e muito menos vontade. E  nem sequer consciência. Aqui não se escreve ,não se lê, nem se conversa.E qualquer dia já nem se fala.
Hoje em ílhavo não se pensa e muito menos ninguém se interroga (salvo o J.A no FaceBook).Há um silêncio terrível que cobre o burgo. Silêncio dos cemitérios, onde se não pensa e apenas se está.
Ou falando ilhavês:-um porão carregado de bacalhau, contaminado de «rouge alaranjado».Podre e mal cheiroso.
Ílhavo é, isso não se duvide, uma terra de túmulos vazios. Os «ocupantes» vagueiam por aí.
   SF

sábado, setembro 08, 2012


DESPEDIDA ….hoje…

Cansado
De  mim, ou da vida por mim,

Venho aqui ao meu terraço

Para me despedir de ti, fim deste  ano tão ruim,

Que não deu nem para um pequeno namoro

Nem para te dizer as palavras que para ti guardei;

Não houve tempo. Coitado de mim.



Vieste bonita para o adeus.
Encharco o olhar no brilho que reflectes nesta noite.

 Embevecido
Pouso os olhos no prateado
Que flutua em ti

São miríades de estrelas a brilhar
No vestido com que me convidas

Para em ti nadar

 
É então que me  decido;
Lanço-me nos teus braços,
Aconchego-me ao teu corpo húmido

Bebo do  teu  perfume  
Afogo-me na doçura dos teus enlaces

Embriago-me no licor dos teus beijos
Teço a rede com que entrelaço teus olhos.

Faço-me teu, assim

Na inteireza do  meu nu
Como nunca me fiz,

Para assim melhor te sentir

E possuir;
Teu desejo  a desaguar em mim
Meu desejo  a morrer em ti.

 

E sei..sei  que amanhã   já não virás
Viverei  então de recordações: voltarei a ser eu

O mesmo de sempre
Inconstante a desatar  o nó cego,
Lucidamente a repudiar quanto não enxergo

A voltar, lentamente, à realidade.

A sonhar contigo, o mar, e o longínquo firmamento

Serei eu, sozinho

A cantar o azul do meu encantamento;

Contigo no pensamento nunca morrerei  dentro de mim!

 
Mas compreendo uma vez mais
Que não posso ser só teu,

E que a ilusão me venceu

Por ora.

Descansa; não sou de ninguém
Não posso mais dar-me

Pois não posso moldar-me

A ser outro que não eu,
Tão longe de ti, como de mim.

Não …

Não posso ser mais nada
Só eu…

Só eu

No intervalo das aventuras
A procurar-me

Por entre o vazio das palavras

Que guardo para ti.
SF(7 ag. 2012)

sexta-feira, agosto 17, 2012


As penas que sinto de mim…



Escurece

Mas eu vejo aquele voo da gaivina

Em dança fandangueira

Voa rente e logo se eleva,

Vadia e graciosamente ligeira

Rasando o farfalho da vaga que persegue

E onde refresca

As «penas» das suas asas.



E eu aqui fico por perto

À espera do momento de te ver.



Enquanto espero e sorvo a poção da maresia

Que me embriaga.

Já a provei…

Sabe-me a pouco

E só tu matarás este desejo louco

Da saudade que quero

Em ti afogar.

Anda !... vem daí

Vem em segredo,

Que eu prometo

Não contar a ninguém

O que vamos celebrar.

Anda !...vamos voar….

Para eu matar em ti


As penas que sinto de mim….

SF (ag 2012)



quarta-feira, agosto 15, 2012

Demasiadamente ...demasiado...

Todos os dias nasce comigo a ambição.Entenda-se : no bom sentido. Nada de materialidade.


Mas espiritual. Tenho uma ansia de me ultrapassar todos os dias. Tem o tamanho exacto da minha imperfeição em tudo o que faço.

Mas ao menos eu fustigo-me com essa imperfeição reconhecida. Sou um bastardo bravo da imperfeição que nasce em mim com o sol que me desperta e adormece todos os dias: –

A sonhar que amanhã encontrarei uma maneira de reduzir essa imperfeição.

OH! Se não fora eu imperfeito!!!!

SF

terça-feira, agosto 14, 2012

Tacanhez ...à solta..

Cada vez (ou à medida que o tempo corre) me dou conta de que, bem dolorosamente, sou o que não queria ser:- dependente e nunca completamente livre.

Uma tragédia que disfarço como posso.

Olho-me (para dentro claro!) e descubro o que poucos se terão dado conta. Talvez mesmo ninguém.Sou delirantemente sensível. Por isso por vezes descubro inesperadamente uma postura de sensibilidade que não veste a minha roupa. A natureza atirou-me com uma dose de farta brutos. E obrigou-me a uma atitude de artificialização dessa mesma sensibilidade. E eu embarquei…

Por isso me dou extremamente mal com a tacanhez.

E vou-a encontrado amiúde. Onde menos esperava…

SF

quinta-feira, julho 19, 2012


Namoro renovado


E brinquei…brinquei
Enlevado
Quando depois de longa ausência
Te vi de novo.Amanhecia!
Logo te namorei com os meus olhos
Inquietados
À procura de amor nos teus;
Da tua pele amanhecida, beijada pelo sol
Vi surgirem miríades de estrelas
Que pareciam pousadas em teus olhos
Para fazer de mim, teu cativo.
Com mil brilhantes farpas me ferias,
Ou era assim tanto, o quanto me querias?


Apeteceu-me contá-las…
Mas depois achei loucura;
Para cantar a beleza e o teu encanto
Nem todas as estrelas do céu chegariam
Porventura.


Ditosa esta, a sorte de assim te amar;
De nunca te olvidar
Indiferente ao tempo da separação.


Se a arte de amar eu não soubera
E nem contigo a aprendera,
Eu não seria louco, tão pouco,
Pois que a vida sem de amor enlouquecer
Não é vida,
É pálido entardecer.


SF (regresso 2012)



quinta-feira, julho 05, 2012

De vez em quando , neste País em agonia de carácter, acontecem coisas interessantes



         1 - A dita (diva!) Câncio

Esta Câncio de há muito que me impressiona.

Se mais nada se pudesse elogiar a Sócrates(e vai haver, preparem-se!) o simples facto de ter «cambalhoteado»(espero!) com um puro sangue destes, era motivo para lhe render os maiores encómios. Ser diplomado, e por distinção ,por apreciação de uma Cãncio, vale por vinte diplomas de um engenheireco qualquer.

Vi-a ontem no seu decote sabiamente desenhado, deixando á imaginação recrear tudo quanto imaginável ou delirantemente se pode funambular estar para lá dele.

Mas a inteligência felina com que atingiu (... ) esta cáfila de mentecaptos que uma democracia exige suportar,fez-me exultar pelas certeiras críticas formuladas:



1ª- Pois se há um ano se apregoava o dislate de um desvio monumental no défice(7,2%) ,o que havemos de chamar,quando depois de desvairos criminosos de assaltantes de estrada, o défice é ainda maior (7,8%).Monumental ?!Não galáxio...

2º Se uma entidade pública comete uma ilegalidade(caso o TC venha assim a classificar a locupletação de dois meses de salários e ou pensões),que deve acontecer ao actual Governo: perder ou não o mandato (?!) como sucede com outras situações (Macário & Comp. por exemplo).

3º-Então–disseram os sábios deste governo (Relvas incluido) – as «Novas Oportunidades» terão sido uma clara e vergonhosa trapaceira. Se o foram(?!) como devem ser chamadas as «Excelsas Oportunidades» que permitiram a Miguel Relvas ser doutor,num ano ,e com um único  «banco» feito  com dez  valores !!!!?


Vamos pois seguir na TVi24,esta rapariga. Não apenas pelo decote –e já não era mau de todo – mas por aquilo que tem dentro da cabeça.

 

          2- Durão Barroso

Gostei muito do discurso de Durão Barroso. Ouvi com redobrado interesse a sua repetição. DB parecia ter voltado aos tempos «maoistas» onde se empolgavam as multidões com chavões de adesão fácil.E fez bem em lembrar que há uns paises ricalhaços que ainda usam «cueiros»...

Ontem pareceu mesmo ser o estadista de que a Europa urgentemente precisa. Gostei de o ver a pegar pelos «ditos», aqueles trapaceiros políticos que em Bruxelas se acocoram, e, chegados às terrinhas, cantam de galo (na caça ao voto).

É tempo de acabar com esta farsa. Se é para deitar abaixo, então vamos todos juntos. Que isto de morrer de caldeirada (dizia o arrais), não custa nada…

A Europa precisa de políticos «generais ». Porque sob as ordens de generais bravos não há soldados fracos.

E não me venham com confusões. Sei e assumo o que disse.

            3- O Diploma de Relvas

Positivamente estou-me marimbando para se o homenzinho, tem ou não, um diploma. Se tem que se alimpe ao dito.

Diplomas são certidões de nada. Ter um diploma de engenheiro, nada assegura que o indígena o seja.

Ora eu não exijo que os meus governantes(?) sejam doutores ou engenheiros, O que exijo é que saibam governar. E como não há diplomas de bom governante, senão aqueles tirados na prática da vida, nas provas dadas, eu o que quereria, é que quando o fossem, apresentassem o currículo que comprovasse a sua idoneidade para o cumprimento do cargo.No caso vertente não sei se algum passaria no exame,pois aos «créditos»,diziam- NENHUNS!!!! 

O que me incomoda de sobremodo nesta manada, é a arrogância de pensarem saber que tudo sabem .Por obra e graça do divino….



SF

(Pensam então Vossências que Relvas é caso unico:pois esperem.Pior é o caso do nosso Primeiro).



































quarta-feira, junho 27, 2012


(nunca ando de canon a tiracolo.Porque eu gosto é de ver e registar por mim,e não pela máquina.A Costa-Nova provoca-me sempre que chego...)


Cores de vida nenhuma.







A tarde parece tardar


Adormecer.


A luz branda do sol


Esbate-se lentamente até que a lua,


Cheia na sua redondez


Vem espalhar o empalidecer pelo areal.






Os últimos raios de um Sol a esconder-se


Esvaem-se por todo o céu;


Reflexos indefinidos, cores brandas, suaves


Cores de coisa alguma


Cores de vida nenhuma.






Uma leve brisa percorre o meu corpo;


Atento ao sussurro do vento


Vou matando a agonia desta tarde


De um tempo sem sentido


De uma vida cuja chama já não arde.






Tempo perdido de espera


De um amor que ficou de vir


E já não vem. Já é tarde…


Olho a montanha ao longe


Recortada no contraluz a sua verdura:


Na tua ausência acho-a negra


Sombra de uma procura


Que deixei em farrapos do nada.










Se tu viesses…


Pousado no teu regaço apetecido


Vê-la-ia


Com esperança renovada.


Em um tempo logo acordado


Olharia o céu, a água, os montes


A natureza viva e apetecida


Refletida no teu olhar.






A lua vai alta,


Grande na noite morna de angustia


E tu ausente.


E eu (?!) :-presente mas sozinho …


Alheado, tudo para onde olhe


Me parecem olhares escuros


Desta luz empobrecida de fim do dia;


Vejo perfeitamente o que não quero ver


Sem ver o que quero ver


Pareço sonhar sem querer acordar


É preciso que chova


Para me tirar deste tempo entediante


Onde tudo parece morrer,


Tudo me parece inútil, frustrante


Exceto o desejo de te ter perto de mim.






SF ( Junho 2012)









quinta-feira, junho 14, 2012

Porque o melhor estava em nós...




Passaram primaveras e ardentes estios,

Passou a vida por nós;

Fados e fados que nos poderiam ter trocado

As voltas

Fruto de enganos ou até desvarios.

A tudo fomos resistindo

Porque o melhor estava em nós

E não no uso que fizemos do nosso corpo

Mas tudo e só o que prometemos apenas.

Lembras-te (?) : começava a noite

Barcelona a nossos pés,

E nós em «Atenas»


SF 20 /6/2012

quinta-feira, maio 31, 2012


No Blog - Restos de Colecção (simplesmente notável!) editado por José Leite –

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/05/epopeia-do-caca-minas-augusto-de.html

encontrei a histórica epopeia do «Augusto de Castilho».Na qual o artilheiro José Crua Branco, natural de Ílhavo, escreveu uma página de heroicidade que nos faz, a todos, pôr de pé e saudar.

Transcrevo com a devida vénia.

Nota: podemos crer que Crua Branco estará na fot nº5.Será que alguém ajudará a identificá-lo?


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Epopeia do Patrulha “Augusto de Castilho”

O comando do primeiro cruzador-submarino alemão, o U-139, de 1930, com 2.483 toneladas, foi atribuído ao maior ás da respectiva arma, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére que trouxe consigo o seu inseparável e experiente comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr. Foi, talvez, o último dos submarinos alemães a travar combate com os inimigos do Império Alemão até ao dia 24 de Outubro de 1918 em que recebeu a mensagem rádio para cessar toda a actividade bélica e regressar à base. As três unidades desta classe foram, sem dúvida, os submarinos mais poderosos da marinha alemã, equipados como estavam com duas peças de 150 mm e um telémetro retractável, exemplar único em submarinos, além dos 6 tubos para a dotação de 19 torpedos.


                
Submarino alemão U-139

 

Foi este U-139 que enfrentou, na madrugada de 14 de Outubro de 1918, o pequeno navio patrulha português “Augusto de Castilho”, apetrechado com duas minúsculas peças, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. A denominação de navio patrulha revela bem a natureza da unidade enquanto navio de guerra.

Originalmente a embarcação era o arrastão de pesca “Elite”, pertencente à empresa Parceria Geral de Pescarias, Lda. mandado construir em Inglaterra.. Lançado em 1909, foi o primeiro arrastão português para a pesca do bacalhau. Como arrastão não provou bem por variados factores; máquina apesar de grande, era fraca para puxar as redes; elevado consumo de carvão, a técnica da pesca com a rede estava na mão do mestre de redes, um Francês contratado que não colaborava com o capitão do arrastão, o pessoal não estava preparado para este tipo de pesca, pelo que o navio foi retirado do bacalhau, experimentou pescar no Cabo Branco, com sucesso, mas acabou por ser substituído por navios mais pequenos.

A 13 de junho de 1916, devido à Primeira Guerra Mundial, o “Elite” foi requisitado pela Marinha Portuguesa para ser usado em missões de patrulha e escolta oceânica, entre o Continente a Madeira e Açores. Com cerca de 315 toneladas de deslocamento, accionado por uma máquina a vapor de tríplice expansão atingia a velocidade de 10 nós, sendo classificado como navio-patrulha de alto mar, o navio recebeu uma peça de artilharia de 65 mm à vante e outra, de 47 mm à ré. O navio foi rebatizado em homenagem ao almirante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha.



                           Navio patrulha “Augusto Castilho”

 

Antes do combate que lhe provocou o afundamento, o “Augusto Castilho” já, por duas vezes tinha enfrentado submarinos inimigos. A 23 de Março de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Augusto de Almeida Teixeira, escoltando o vapor Loanda entre Lisboa e o Funchal, atacou a tiro um submarino inimigo que, imediatamente, mergulhou. A 21 de Agosto de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Fernando de Oliveira Pinto, ao largo do cabo Raso, bombardeou um submarino inimigo de grandes dimensões que rapidamente desapareceu.

Naquele dia fatídico, o navio português escoltava o paquete “San Miguel” (da Empresa Insulana de Navegação) que seguia da Madeira para os Açores com 206 passageiros e 54 tripulantes, entre os quais mulheres e crianças. Este navio patrulha tinha já escoltado de Lisboa para o Funchal o paquete Beira e, como a autoridade marítima da ilha não permitiu o desembarque da guarnição antes do período de quarentena, dado que em Lisboa grassava a peste, o 1º tenente José Botelho de Carvalho Araújo ofereceu-se para fazer a escolta ao “San Miguel” e assim aproveitar de uma forma útil os "dez dias da tabela" em que os seus homens teriam de ficar encerrados no vapor bélico. Depois, voltariam ao Funchal com direito a deambularem pelo morro da cidade. A canhoneira “Mandovi”, escalada para a protecção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de Dezembro do ano anterior pelo também cruzador-submarino U-156.



Navio vapor “San Miguel” (1905-1930), da Companhia Insulana de Navegação

O encontro com o gigantesco submarino-cruzador deu-se pelas duas da madrugada, como escreveu Kurt von Piotr no seu relatório do combate artilheiro: "Estava de guarda no quarto do meio e havia um luar claro quando às 2.00 da madrugada avistei duas embarcações, uma maior e um vapor mais pequeno que o comandante, entretanto chegado à torre, resolveu atacar a tiro de canhão. Levámos três horas a aproximarmo-nos dos dois navios que tentavam escapulir-se com quanta força tinham as suas máquinas. Pelas 5.00 da madrugada, o comandante deu-me licença para abrir fogo, o que fiz com a peça de 15 cm de vante, apontando-a para o vapor mais pequeno, por tomá-lo como o navio escolta".

Carvalho Araújo já tinha tomado a decisão de enfrentar o inimigo para permitir a fuga do “San Miguel”, apesar de o U-139 estar a disparar a uma distância totalmente fora do alcance das pequenas peças do “Augusto de Castilho”. Toda a guarnição correu para os seus postos de combate. Fogueiros e chegadores esforçavam-se até às últimas consequências para atingir os 10 nós, enquanto os marinheiros levam mais cunhetes para as peças e caixas de fumo para atirar à água e fazer fumo de encobrimento, caso seja necessário retirar, ajudados nessa tarefa pelos três passageiros militares e outros quatro civis, todos impedidos de desembarcarem no Funchal pela leis da quarentena.



1º tenente Carvalho Araújo Guarnição do “Augusto Castilho”


O imediato, o jovem guarda-marinha Manuel Armando Ferraz, dirige o tiro, correndo da peça da proa para a da ré. Ambas eram disparadas a olho, pois o pequeno “Augusto de Castilho” não possuía telémetro. Enquanto isto, o U-139 disparou um primeiro tiro contra o escoltador português que não acertou e um segundo contra o paquete que cai a 10 metros da proa do S. Miguel.
                                          
 Os dois tecnocratas da guerra alemães, De La Priére e Von Piotr, estavam no seu meio. Ambos tinham uma predilecção pelo combate artilheiro e sabiam estar em condições de superioridade, pelo que podiam poupar os torpedos que restavam. Julgavam mesmo que o problema seria resolvido em instantes; até trouxeram para a torre uma máquina de filmar. Queriam fixar no celulóide a morte daqueles portugueses perdidos e praticamente indefesos em pleno Atlântico para a glória posterior de um "Reich" que pouco mais teria afinal do que umas parcas semanas de existência.


             
        Guarnição das peças de artilharia de 65 mm à vante,
                                e de 47 mm a ré (CB ??)

A terceira granada do U-139 rebenta na amura de estibordo do “Augusto de Castilho”, como relatou o sargento-ajudante Luís Simões em artigos publicados posteriormente no Diário de Notícias e reproduzidos pelo escritor e director da Biblioteca Nacional, João Palma Ferreira, na sua obra memorialista "Viagens, Fantasias & Batalhas".

Vendo o S. Miguel prestes a ser atingido, o bravo Carvalho Araújo ordena ao seu timoneiro que aproe directamente ao submarino, o que levou La Priére a mandar fazer marcha à ré, enquanto dispara salva sobre salva contra o pequeno pesqueiro a vapor. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do navio, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloy de Freitas. A cabine do telegrafista desfez-se quase ao mesmo tempo que a peça de vante é posta fora de acção. Ficou só o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Entretanto, o S. Miguel vai-se afastando mais, daí a pouco estará fora do alcance dos canhões do U-139. Mesmo assim, os artilheiros do caça-minas não desarmam; continuam a disparar e o seu navio a receber granada sobre granada. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do “Augusto de Castilho” morta ou ferida. Do S. Miguel já nada se via. Por ordem de Carvalho Araújo, o sargento Simões ainda vai disparar o último cunhete sobre o submarino alemão que se encontrava a curta distância. Esgotado o último cartucho, o U-139 ainda dispara contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República.

                    

                     Exemplo dum rombo provocado por torpedo

 

Carvalho Araújo não quis ir para o fundo com uma bandeira branca, por isso foi atingido por uma das últimas granadas que explodiu junto ao local em que se encontrava na cabine de comando. O herói cai no convés, morto, enquanto o imediato fica gravemente ferido.

Terminado o fogo pelas 08.30, os sobreviventes lançam a custo o escaler salva-vidas ao mar, fazendo-se a ele cheio de gente. O resto do pessoal, sob o comando do guarda-marinha Ferraz muito ferido, totalizando vinte homens tentava, quase sem o conseguir, pôr a baleeira na água. Os do salva-vidas ainda tentaram ajudar, mas receberam ordens com armas apontadas do submarino alemão para se afastarem imediatamente do local. Os sobreviventes desesperavam; não conseguiam mover a baleeira, pelo que aproveitaram um bote que estava dentro do picadeiro, mas também sem o conseguir. Por fim, 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço.




                        Página da revista Ilustração Portuguesa, em 1923


                           (fotos anteriores in: Hemeroteca Digital)

Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses e, depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e bóias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo apareceu e, ajudado por uns camaradas, começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram.

              

           “Augusto de Castilho” junto ao submarino U-139

 

Tiveram o consentimento dos alemães, mas não permitiram que os náufragos portugueses levassem um sextante e uma bússola. Obviamente, temiam que aparecesse algum navio das esquadrilhas aliadas de S. Miguel, entretanto avisadas pelo paquete português e não queriam o local e o rumo do submarino devidamente assinalado. Os alemães limitaram-se a apontar a direcção da ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à ponta do Arnel na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas. Foi um autêntico martírio e esforço inaudito, a viagem por mais de duzentas milhas em seis dias quase sem água nem mantimentos. Eram 12 náufragos, dos quais 8 estavam feridos, sendo que um morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no Augusto Castilho, entre eles, o do bravo comandante Carvalho Araújo que quando soube que as munições estavam no fim disse ao imediato: -"Deixá-lo! Morro como português". O artilheiro Von Piotr ainda escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".

- Texto anterior baseado em excerto do livro “Um Século de Guerra no Mar” de Dieter Dellinger





































                             Guarnição do «Augusto de Castlho»











             




quarta-feira, maio 09, 2012

Naufrágio da barca da «passage»


A passagem da barca da carreira, habitual desde os primeiros passos das gentes sobre o areal da Costa-Nova, e que se prolongaria até ao ultimo quartel do séc.XX era, na mor das vezes, um momento de descontracção que servia  aos passantes para galhofar, cantar e até dançar,se animados com a prodigalidade da natureza a proporcionar reconfortante sustento.

                                                   
                                                   A Barca amoiroada na 1ª mota(1907)

Mas certo é que por vezes as coisas não corriam, bem assim. E dias houve em que a travessia, perante a necessidade inadiável de a levar a efeito, era feita em condições adversas de tempo, exigindo aos arrais das barcas, muito saber, destreza e arte.E afoiteza..


                                                    
                                                         A Barca atracada na 2ª Mota (1936)

Em Agosto de 1907 a tragédia esteve à beira de suceder quando perante um desbragado e não esperado temporal (pelo menos com tanta intensidade) se abateu por toda a região de Ílhavo, e em particular sobre a Costa-Nova.

Era a tarde do dia 12 de Agosto do referido ano.
O céu mostrava-se escuro, as nuvens toldadas por um cinzento enfarruscado e empurradas por forte sulada, revolviam-se endoidadas, fazendo prever condições pouco apetecíveis para atravessar da Maluca para a Costa- Nova.Sobre a ria descarregava uma forte trovoada, pré anunciada por raios que rasgavam, em zig-zags caprichosos e fantásticos, o céu, iluminando a superfície da laguna, que surgia revolta, com farfalho a galopar, quebrada a crista das ondulação que teriam mais de um metro de cava.

Dir-se-ia que o diabo andava à solta, a brincar com a natureza assarapalhada com tanto barulhar, por vezes aterrador.

As barcas tinham encostado á mota, e depois de bem amoiroadas, os arrais refugiados na tasca da Ti Norta iam matando o tempo, escorropichando uns copitos de bagaceira, que lhes matava a inquietação.

Entre eles o António Roquete, colega do Labareda, gafanhão de tempera rija, resistia aos apelos da Ti Cacheira.Que desesperada tinha ao colo uma filhita de um ano.Tanto quanto o tempo da sua viuvez.Agarradas ao saiote, uma sobrinha de 4 anitos e uma filha da Júlia Rainha, peixeira como ela, lá dos Sete Carris, que teria pouco mais que os dez anos. A Cacheira bem moía o Roquete, pedindo-lhe pelas alminhas que a levasse ao outro lado, pois, tinha lá todo o rapazio, uma leva de filhos tidos do seu defunto, à espera, esgalmidos com fome.Desde o dia anterior apenas deixara aos seus meninos um caldito com um cheiro de conduto. Coitaditos, os orfãos de pai, a chorarem pela mãe, seu único amparo.: - ia dizendo ao Roquete, no sentido de lhe amolecer a hesitação.


                                    
                                                                  O Arrais

O Roquete bem hesitou.
O esculhambado  tempo, dizia, não aconselhava a mareação à Senhora da Saúde mesmo que «esta« desse prometesse dar uma olhadela por aquelas almas penadas. Mas a Cacheira tanto insistiu-ai Ti Roquete os meus meninos finam-se com o meu delatar! - que o bom arrais dando uma última olhadela à tramontana, decide embarcar a pobre viúva e largar amarras.

Até meio da ria, a viagem é feita com a toste bem metida, pano folgado a um largo, calcador solto, como solto ia o bolinão para que o mastro não fosse muito castigado. A borda entrava na cava da onda permitindo que a seguinte lhe entrasse aos golfões, fazendo boiar os paneiros.Nada contudo, que fizesse temor ao Roquete, mão segura na escota para, em caso de necessidade a soltar de um sopetão; o leme ia caído um pouco a barlavento para que a barca recebesse a vagalhoça pela alheta de proa. A maré, que já enchia, ia de encontro à ventania, encrespando e enrolando, a vaga, que desfazia  em linhas de espuma alva correndo para o norte, velozes.

Mas o inesperado surgiu. Um violento golpe de vento do SW, apesar do arrais soltar de imediato toda a escota, envolveu a barca, atravessando-a à vaga, virando-a de borco. Gritos lancinantes desprendem-se do peito daquelas  almas desgraçadas, que vêm a morte, ali, preste a levá-las consigo.

Roquete dá a mão á Cacheira e coloca-a na borda agarrada ao mastro. Com o pequerrucho preso nos dentes, mergulha, e consegue alcançar as outras duas crianças, trazendo-as para que se agarrem à borda da barca.
A barca é feita de tábuas...as tábuas aboiam...logo a barca flutua,concluiu um dia o Thomé Ronca, silogisticamente. E flutua, qual estranha baleia boiando sobre as águas que pareciam endoidadas.
Com o bebé preso nos dentes, o Roquete tem ainda, uma e outra vez, de ir recuperar uma das crianças que exausta não aguentara as batidelas da vaga e o frio da água, mãozitas hirtas, enregeladas.

Só um milagre poderia salvar aqueles infelizes.

Eis que da Costa-Nova os banheiros ti Pardal e o Ti Ricóca, com mais três camaradas, se metem numa caçadeira, daquela de nove cavernas, e tentam defrontar o turbilhão das águas. Impossível era, contudo, que uma bateirinha rompesse com aquela desarcada tempestade. Impotentes não têm outo remédio que o de se deixar descair para o Bico, onde aterram.

A esperança parecia perdida. Mas..

Eis que do sul o Arrais Serino, o Agostinho Pataneca, o José Agualusa, o Gordinho e o António Russo, se metem numa chincha e, remando forte, homens conhecedores e afoitos, lá conseguem chegar junto da barca e recolher os náufragos. Iam já três quartos de hora que aquela gente enregelava nas águas batidas pela sulada, prestes a desistir da vida ,exaustas ,enregeladas..

O António Roquete pelo seu feito mereceu a distinção de El-Rei que lhe concedeu a medalha de Mérito.
Pretendeu-se ainda que todos aqueles que se tinham atirado às aguas na tentativa de salvar aqueles infelizes, fossem, eles também, agraciados pelas autoridades concelhias.Sem resultado,nem ao menos uma medalha de cortiça.

Senos da Fonseca

Julho 2008

terça-feira, maio 08, 2012


Horas….



Dia passado, monótona e dolorosamente, nos corredores do I.P.O.

Não se deixa de ter a impressão –ou sensação – de estar no corredor da morte, por muitos avanços que a ciência prometa. Corpos que se arrastam –outros arrastados – caras vincadas, maceradas pelo sofrimento, gelhadas e vincadas, exprimindo mais do que sofrimento :-a derrota. Não é difícil, num ou noutro rosto, naqueles que aguardam sentença, vislumbrar um esgar que parece querer significar, por ali ancorar, ainda, uma ténue esperança. Aqui certifico-me que o género humano foi destinado ao sofrimento, porventura em troca da razão concedida. Os animais sofrem sem consciência. Abençoados..

A ciência avança. É inegável. Mas desesperadamente lenta para aqueles que já compraram bilhete, alguns mesmo dando a entender que quanto mais depressa melhor. Porque lutar naquelas condições, é de facto, desumano.

As horas, ali, correm lentamente, tal como o cloreto de sódio corre(?) ,pingando, para dentro do corpo do paciente.Dizem que para matar as células más. Ainda não percebi, como é que esta mistela distingue as boas das más.

Perpasso um olhar pelas leituras onde se empata (prendendo) o tempo, e noto paradoxalmente que a maioria dos pacientes traz revistas cor-de-rosa para se abstrair da realidade. Estranha preferência, esta, de quem perdeu a fantasia de viver, continuando-se  a enfetichar com as ilusões que se vendem a pataco.

Ao meu lado vem sentar-se alguém que, como eu, não vai por aí. Prefere falar. E eu que estava doidinho para isso mesmo. E a conversa flui á volta da doença. Ultrapassada a barreira do desconhecimento, atira-me:

-Tem um bom aspecto...; no início é sempre assim... .

Fico um pouco perturbado, apetece-me dizer-lhe: – não, não estou (vá lá saber-se ?!)...Mas logo entendo que por respeito e solidariedade não devo desmentir-lhe a impressão.

-Pois, doente ou não, há que sobreviver. Na nossa idade qualquer dia é dia, incluídos os dias santos. E fico-me pelas meias verdades.

-Na sua ou em qualquer outra. Olhe tive um filho de vinte anos. E a danada adiantou-se e veio buscá-lo. Porque me não levou a mim?

-É porque a dita cuja é cega.... fui adiantando. Cega e escabrosa, sentindo um prazer redobrado quando leva um mais novo. Por isso deve-se dar-lhe pouca cunfia. A vida é uma viagem só de ida, com destino certo. Às vezes ao longo da viagem ainda podemos sair num ou outro apeadeiro. Mas logo recomeçamos viagem. Olhando pela janela, vemos a vida parada e nós a «correr».

-Pois, diz-me - eu já me habituei à ideia de morrer. Morrer não custa; o que custa é não saber como. Se fosse só sair do comboio,vá lá…Mas o raio é que a parte final é a mais indesejável. Ao contrário das viagens de ida e volta, em que à chegada temos sempre alguém à nossa espera, na grande «viagem» não há ninguém para abraçar ou sequer sorrir.

-Pois eu por mim, queria mesmo encontrar-me com o criador deste mundo de horas angustiosas. Para Lhe dizer, cara a cara, que para fazer esta maldade mais valia ter estado a mandriar nos restantes seis dias.

-Poça …você é mesmo descrente, diz-me.

-Empedernido. Se o não fosse seria então descrer do Homem (à minha imagem e semelhança), e nesse, eu acredito. Mesmo duvidando. Mas pensar que «alguém» foi tão cruel que para parecer piedoso, tem de mostrar tanta impiedade, isso ultrapassa-me.

Neste momento o alti- falante chama o Sr. X ao Hospital do Dia. Levanta-se, sorri-me, despede-se com um – até sempre (que ironia na situação!), e lá vai receber o Cloreto de Sódio & Venenos.

Fiquei a pensar: valeria a pena ter-lhe ocultado?

Mas a verdade é que enganar a vida é fácil. Mas a magana, essa (!) é que nós não enganamos. Podemos trocar-lhe ainda por imaginados dias, as voltas. Mas isso é apenas adiar o inevitável.

Dá-me a impressão que a partir de certa altura vivemos horas clandestinas.



SF 2012

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...