quinta-feira, agosto 21, 2014


«Amor» ….é o quê?

O tempo tem-me ensinado, em boa verdade, que a palavra «amor» entre duas pessoas, não existe. Não amamos ninguém, mas tão somente a ideia que fazemos do outro.
Na vida do dia a dia, o erro de pensarmos estar a amar, o outro, advém do sentir prazer pela aceitação das nossas ideias. Chamamos a isso um comungar de ideias.E uns confundem,isso, com amor.
No prazer sexual, buscamos o prazer. O nosso, dado pelo corpo do outro(cito sem saber de onde)
Quando em jeito de despedida digo:
-Amo-te,
E ela me responde:
-Gosto de Ti, homem…
Pensamos coisas totalmente diferentes, que contabilizamos como iguais. Mas a verdade é que são duas interpretações diferentes, dois estados de alma diferentes. E até de vidas…..
Sim não confundamos vida…com amor.
Um dia perceberemos que vida é a soma dos «reais» acontecidos; amor é a soma abstracta de impressões da alma.

SF

terça-feira, agosto 19, 2014


«NESTE MAR É SEMPRE INVERNO»



Por razões, para aqui  sem interesse, não estive no lançamento do livro de Tibério Paradela, «Neste Mar é sempre Inverno».
Isso não me impediu de ler o livro, tão cedo quanto possível.
E assim, cumprir a delicada tarefa a que todos fogem, a de exprimir, publicamente, a minha ideia sobre o trabalho.
Começo por dizer que me surpreendeu, agradavelmente, o sentido e a qualidade expressiva da narrativa, em algumas das suas partes. Num primeiro trabalho de fundo, é difícil fazer melhor. Há momentos belos, em que somos retirados ao texto, convidados a fazer comparações de valor estético, muito surpreendentes e agradáveis.

Ao conteúdo romanesco….

A história do «Nova Esperança» enferma, a meu ver, de alguns erros que lançam pardacento nevoeiro sobre a qualidade da escrita. Dois que reputo, fundamentais:
                        1-Ao expor – num local conhecedor – relações hipotéticas da viagem do «Nova Esperança» como a dos «Novos Mares», datando, até, o acontecimento, o autor ata o seu romance, ao tempo e ás personagens reais, que são facilmente identificáveis (talvez sem querer, a dele próprio).Ora ao longo do livro, o leitor, despertado para essa (não)  pura coincidência dos factos, acaba por, instintivamente, colocar em causa personagens «ainda vivos», pelo menos  na nossa memória (ainda que alguns já mortos).Acresce que  o autor descreve-nos perfis,  por demais conhecidos. E depois insere-os de uma maneira livre (sua) em cenas do romance, onde o perfil anteriormente delineado, não coincide nada com a cena . Ah!...pode o autor  dizer que é livre de fazer o que entender com a sua personagem ?  Sim, se a personagem for só dele.. E se nada tivesse sido de véu levantado, com  « Os Novos Mares», então aquelas personagens poderiam ser, com total liberdade,suas. Pior é quando   desenha o «Cap.Valério», e o vai buscar à realidade actual, e depois, no romance, o mostra  com falta de coragem para dar más noticias a Quico (capitão é Deus a bordo…) ou até, pensar o que ele estaria a pensar, no turbilhão da tempestade, um pouco acagaçado, aí as coisas não serão lineares. Deixasse ser o «cap.Valério» totalmente incógnito, saído inteiramente da pena do autor, e aí seria correcto.
                          2- O autor faz desabar, o tudo, o quase impossível, sobre o infeliz «Nova Esperança». E por isso o leitor é levado a desvalorizar… e duvidar de tanta desgraça numa viagem só. Tê-las-á havido. Eu sei. Mas para palco restrito de um romance ,não é boa ideia a meu ver .O que sucedeu poderia ser distribuído, levando o leitor  a viver melhor, os desideratos   O leitor tem necessidade de acreditar piamente que o romance, é mesmo verdadeiro .Tantas desgraças, só no Fernando Mendes Pinto… …Distribui-las, trazendo à boca de cena, novas personagens em novos locais, talvez desse outra intensidade ao romance, e o objectivo final sairia reforçado, deixando de ser ,o que não quer ser, caderno de viagem .                              A literatura francesa, no particular da pesca do bacalhau, está pejada de grandes trabalhos, de  famosos autores.

Não faria nada mal aos nossos autores, que pretendem embrenhar-se no mundo descritivo de uma história com profundas raízes, sociais, económicas e culturais, fazer-lhes uma visita. Também não se pode ser romancista em Portugal ,se o putativo autor não visitar e estudar, os  eças, camilos, vieiras, saramagos, etc etc.  
 Em França parece bem ao contrário do que acontece aqui, ninguém querer  ajustar contas com ninguém. Bem ao contrário. E por isso aqueles têm tido o saber de levar o leitor de um lado para o outro(livro para livro), para lhes explicar que o santo graal da pesca do bacalhau( até muito tarde pensou-se mesmo que o seria), não poderia ter deixado de ser o que foi, e como foi. « Ceux des Tempetes» (Manoir) tiveram uma «Vie Miserable» (Barrault)porque ao tempo não podia deixar de ser assim. Verdadeiras «Galères  des Brumes» (Convenant) onde se lutava pela pura sobrevivência . «L'impitoyable mètir»(Bresson) era isso mesmo.A vida tinha de ser mesmo assim. É que em cada época, não havia condições para ser melhor. Há pois que contar a(s) história(s) inserindo-a(s) no tempo.
 A história da pesca do bacalhau, á linha, na maior frota (Terre- Neuvas) do mundo, diferiu no tempo (andou á frente) mais ou menos 40 anos, da nossa. Sou dos que pensam, por conhecer bem, uma e outra, que com, ou  sem Salazar, tudo seria na mesma. Até ao momento em que insistimos na pesca à linha, sem dar o salto (quem souber que fale disso…) seguimos os passos dos mais adiantados. De todo lógico. Os problemas sentidos, vividos, as correcções  introduzidas na pesca do bacalhau, se compararmos a obra «Les Dernières Terre-Neuvas» com o que se passou nos primeiros decénios do Séc.XX, em Portugal, foram um  quase integral decalque. Um seguidismo absoluto, até ao momento da viragem para a pesca de arrasto. Nos barcos à linha franceses (Terre-Nueuvas) as condições  de vida foram sempre piores que as nossas. O grau de formação dos oficiais (daquele País) no fim do Séc.XIX e princípios do Séc. XX, e o que deles se exigia, era muito semelhante à nossa situação em 1930 (e tais).
A história, ou o facto histórico, não pode ser analisado desenquadrado do seu tempo. Senão, não é mais do que narração.

O livro «Neste mar é sempre inverno» talvez não atinja (não pode!) o que Paradela queria. Mas o autor coloca-se na linha da frente dos que têm qualidade, para cerzir os meandros de um romance, coisa bem diferente dos de um caderno de viagem. A nossa apreciação vale o que vale. Importante é que esteja atento e saiba ouvir. Só assim poderá fazer melhor na próxima
Parabéns, pois, ao autor. Nota francamente positiva.


Senos Fonseca

Nota : A tradução dos titulos dos livros franceses é de minha autoria e responsabilidade.

sábado, agosto 16, 2014

(Parte III)


Eu e a SRª do Pranto



Com o tempo, veio o desmembrar da família. Já praticamente só resto eu.

Cada vez mais, me fui separando do meu sítio. Tenho lá a casa dos meus ancestrais, que tento manter, una. Difícil. E na certeza que comigo ela desaparecerá. A não ser que uma Instituição promova algo de concreto e e sólido, e a requeira. 

Ao visitá-la, vem-me à ideia o percurso onde me fiz homem – com montes de virtudes e mais defeitos –, e onde bebi que o gesto de Cristo, de oferecer a outra face, é lindo mas inútil. A todo o acto de violência, venha de onde, ou de quem vier, reage-se de que maneira for, mas reage-se. Entre a espada e a parede…a espada.  





Este ano fui observando os esforços de dar, à festa, uma nova roupagem. Depois de uns anos de escalabroso e escandaloso, esquecimento, do «troglodita esteves», que no meio da pipa de massa que andou a desbaratar, nem uns míseros tostões encontrou para a recuperação do Arco,as gentes de lá de cima encheram-se de brios e criatividade. 
Aquele peralvilho, não sabia que o Arco da Srª do Pranto é mais genuíno, que o encomendado, delirante e fantasioso, brasão de Ílhavo.
Já se foi.Bons olhos o vejam,hoje, cagaréu devotado.



Ora uma Comissão genuína, ofereceu à parte pagã da festa, uma nova vestimenta.Reinventou o atractivo  Surpreendeu-me a ideia e gostei do que vi, como primeiro ensaio. Pode vir a fazer-se muito mais, e melhor (!).Estou certo que tal será o desejo da Comissão, com repetidas experiências.



Parabéns.





E aqui vão imagens garridas de um «novo Cimo de Vila».

Um lugar de gentes diferentes, gentes que surpreendem.









E o ARCO,IMPONENTE, É A LIGAÇÃO DO PASSADO AO PRESENTE. 


Os de lá de baixo devem estar a roer as unhas e a pensar ,como os chefes das bandas: e agora o que vou eu tocar?????



SF Agosto 2014 

sexta-feira, agosto 15, 2014



(Parte II)

Eu e a Srª do Pranto

 
À tarde era a procissão. As Irmandades, ladeavam os anjinhos de vestimenta a condizer, onde pontificavam as asas brancas, que era imaginado levá-los a
 
 
 
 passear pelo céu. Vinham os andores, enfeitados, jardins prodigamente floridos, sendo o da Senhora, o último. Era seguido pelo «pálio» que albergava o Priorado, conduzido por figuras gradas da comunidade. A banda marcava o compasso, e era seguida por multidão que engrossava a fileira dos adeptos do Orago.
 
 
                                                                                                                               
 
A propósito do andor….
tinha acabado o sétimo ano, e comigo, o Zé Balseiro, o Malaquias e o Álvaro, rapaziada estudante de Cimo de Vila. Convencidos do bom olhado do Orago, todos prometemos, se as coisas corressem bem, levar o andor na procissão. Quando fomos buscar (a miniatura,veja-se bem!!!!) à «Capela do Morgaqdo da Srª da Nazaré, constatámos que apesar de miniatura,o Orago ( que diziam ser uma réplica pequena) era todo feito de pedra de granito, tendo um peso de se lhe tirar o chapéu. Vamos desenrascar isto… se bem o pensámos, logo o fizemos A primeira coisa foi tirar as costas, ao dito, substituindo-as por palha. Ainda por cima,  a procissão, nesse ano, ia dar a volta ao Cruzeiro (o que nem sempre sucedia). E lá começámos …o nosso calvário. Levar a Senhora a percorrer as vias sacras do Cruzeiro, vir à Igreja  Matriz, e voltar a Cimo de Vila. Foi um caso sério. Eu e o Malaquias, à frente, mais baixos, apanhávamos com o peso, acrescido da  componente da deslocação, inclinada. E por vezes andávamos aos baldões. Foi preciso recorrer aos garfeiros (?) (devem ter um nome próprio, as varas com a muleta para pousio nos momentos de paragem, metidos nos varais) amiúde para nos acudir.
Lembro-me que só não chorei por vergonha. Mas raios (!), um «Fonseca» ir-se abaixo das canetas, era miserável. Depois soube, que, afinal, todos estivemos com vontade de desistir. Mas pela mesma razão, por respeito aos nossos nomes, cerrámos dentes, retesámos músculos e levámos a Senhora, sã e salva, a bom porto…(ando a descontar pecados desde então…).À noite estávamos todos encangados, a tratamento de pachos quentes, para safar as pisaduras. 

O arraial da festa tinha lugar à «sombra» do Arco imponente.

          

 

As tendinhas dos bolos (suspiros – de que eu gostava particularmente –, bolos de gema ,cavacas, etc), as tasquinhas de «comes e bebes», a mesa da vermelhinha (onde eu perdia tempo para decifrar o enigma),a quermesse, o balcão do tiro às latas, eram  locais por onde o povo ia gastando  a noite.

Lá para as 11 da noite, havia o ponto mais esperado: -o concerto das bandas. Entre os temas reproduzidos, os assistentes deslocavam-se, de coreto em coreto  (lembra-me de ver a Musica Velha, sob regência do Prof.Guilhermino, e a Musica Nova, sob a batuta do maestro José Morgado, em franco despique que levava ao rubro a assistência ,sucedendo, não raro, o desforço físico),para melhor ouvir os acordes(e as desafinações…).Os maestros –ouvi dizer– tinham estratégias delineadas, em que  uma peça de uma das bandas, de determinada dificuldade, levava  logo o outro contendor, a  atacar, com peça, ainda (!), de mais complexa execução. Durante a exibição de cada peça reinava um silêncio sepulcral; no final, as palmas . A  intensidade e duração, das mesmas, levaria ao reconhecimento do vencedor do duelo.

 

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O dia seguinte era o que mais me atraía ao largo da Capela. Era tempo para divertimento popular: foguetes, que ao explodirem soltavam bonecos de papel que voavam; lançamento de cavacas á multidão. Subida ao mastro encerado, para trazer o bacalhau. O puxar da corda, a corrida de sacos, a disputa do jogo da malha.Um popular jogo, onde as equipas espalhadas pelo Concelho ou fora dele (até!),se batiam, exibindo virtualidades de precisão incríveis, e onde o posicionar do corpo, ligeiramente agachado, pés, um atrás do outro, braço esquerdo estendido, servindo de equilíbrio ao braço lançador, era um espectáculo de rara beleza, em que  apenas  no golf  encontro sincronização tão exigente.
No jogo da corda a equipa que contasse como Carlos Fonseca era a ganhadora; o Carlos, meu primo, filho do Manuel ,era um verdadeiro Apollo. Forte como um touro, de uma força braçal incomensurável, tronco hercúleo num corpo de quase dois metros,, não me recorda de alguma vez ter visto outra tão colossal figura  
 
E VIVA A PÁTRIA!!!!!! exultava a dançar, a encolher e esticar o fole da concertina, comandando o trio de exímios  Maneis Concertinistas : O Velho Ti Manel (com os seus 82 anos) ,o seu filho Manuel Fonseca, e o meu pai -sim o meu Pai safava-se bem na sanfona -de seu nome, ele também, Manuel Fonseca. Lá em casa só eu é que desbotei….

SF 15 agosto 2014




Nota .este blog é pessoal, e por isso ,de relativo interesse, senão para a sobrinhada,para memórias futura dos «Fonsecas» em extinção. 

Eu e …. a Srª do Pranto

 PARTE I

São em alguns momentos contraditórias as lembranças que me ocorrem, com o festejos da SRª do Pranto, acontecimento  religioso-pagão, a que, desde sempre,esteve muito ligado a minha família paterna: os «Fonsecas», naquele tempo em que a família era como que um clã, raça irredutivel, emproada e nervosa,que tinha fama de só terem medo de si mesma.

Não tive a felicidade de conhecer o patriarca do séc XIX, o Prof. Fonseca, meu avô, homem de uma personalidade(afirmam) muito vincada e própria, onde a dureza, a exigência e a ética, atingiam valores de excepção. Dizia ele: quando as coisas não se resolvem por convicção,resolvem-se á bengalada,e acabada esta,a tiro.Dele ouvi relatos que muito influíram na minha postura perante a vida. Muito ligado ao Convento, à Capela e à sua remodelação, professor da segunda Escola de Ílhavo, sua propriedade (como o eram as Escolas dos Moitinhos e Gafanha de Aquém) o Avô foi um dos maiores  de Cimo de Vila. Este «maior» ,era um apelido advindo de uma célebre história, a construção da estrada Ílhavo –Gafanha da Maluca, que se pretendeu ser financiada pelos «40 maiores», expressamente convocados para o efeito. Ora, o maior dos maiores, era então, dizia-se, o Padre Manuel Nunes da Fonseca, meu tio avô. Vamos lá saber como o Padre arranjou tal fortuna, e como a transmitiu. Nunca me falaram de tal história.


Mas este Padre ,seu padrinho,acagaçou-se quando ele resolveu casar com a Maria Rosa (minha avó) ,sua criada,e por isso deserdado.Ora num dia aproveitou a presença do Padre na Capela,correu com o sacrista,agarrou na Maria Rosa,fechou a porta à chave,e mandou:
-Pois a coisa é facil: no conluio familiar, Você não quer.Eu também não queria que fosse meu padrinho e aguentei .Você agarrado à saca dos tostões.Eu aos trocos. Agora escolha : ou me casa aqui com a Maria Rosa,ou atiro-o do cimo da igreja...Vá ou case-me ou encomende-se que vai para as catâmbrias, para o inferno. Não me moa a paciência, e poupe aqui a Maria Rosa a espectáculos impróprios para Senhoras
E ao contar-me isto a Ti Vicência, inquiria: julgas que não? Atirava-o mesmo....
Quando um dia a vi, de machado em punho, rebentar com a porta ao Tourega (o mauzão lá de Cima),e este a «borrar-se» a pedir socorro, pensei: - gaita o Padreca devia ter ficado como este...

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A  Família esteve sempre envolvida nos festejos em honra da Senhora (a pietà  á portuguesa).

O meu tio Avô,o Tio Manuel, era um exímio tocado de concertina. E para lá disso, um «cantador ao desafio» de excelência, que parecia ter resposta para todos os introitos colocados na contenda. Vinham cantadores afamados das redondezas, bater-se com ele, em público, em local combinado. O Tio Manel, era o homem que guardava o Arco da Festa, e era na sua imensa eira que o mesmo era reparado, anualmente. Matador de porcos (para lá da sua lavra),quase que diríamos, oficial do ofício, de Cimo de Vila, a cegueira fe-lo passar as facas ao seu filho único, meu primo Manuel  Fonseca. Com a recomendação de, mais tarde, elas passarem para o mais novo «Fonseca».

 

Que era eu!!!...ora vai-te …eu que não me atrevia a matar um frango, ia um dia manusear aqueles facalhões (?!)….O pior é que a família parecia acreditar, e sempre que havia matadela, lá tinha eu de ir ajudar o Manuel, a limpar(lavar os gorgomilos)  ao pobre bicho,a ver se estava bem amarrado pelo pernil, segurar-lhe bem o «pezunho» encolhido para não atrapalhar a faca, e ver o espectáculo horrível do facalhão …uma…duas…três vezes…. ir buscar todo o sangue ao animal. Não aquilo não era espectáculo que me animasse a desejar ser, o herdeiro das facas ,se bem que demonstrasse nata aptidão para com elas proceder ao desmanchar do porco.

E bem: voltemos à Srª do Pranto…

Até certa altura tudo lindo. O pior é que, chegada a idade dos namoricos, estivesse onde estivesse, houvesse o que houvesse – e quase sempre havia: – regatas, bailes etc.  etc. – eu teria de comparecer, ainda que a mau gosto, em Ílhavo, e por ali ficar todo o tempo da festa.

Para lá da parte religiosa, em que não era obrigado a participar – à excepção de uma ou duas vezes acolitar o P.Angelo, na missa –,os festejos tinham o seu cartaz de marca, que os distinguia na emulação bairristra com os de «lá de baixo», na degustação excessiva de vitualhas e iguarias. Senhores de grandes e fartas casa, andava-se de uma para a outra, em visita «das capelinhas» dos primos, parecendo que já não nos víamos  há anos (quando o mais certo era ter lá estado na semana anterior).Só que agora  em visita mais demorada, com ida á «mesa da cozinha de dentro», se o primo ,nesse ano, tivesse recebido a «vara de Juiz».

 Em  casa dos  meus Avós, era uma catrefa de caçoilas pretas ,onde o «chibo» era cozinhado com todo o saber e arte:

 -Oh Virginia (a cozinheira) cuidado :olhe que o Sr Dr. é muito esquisito no carneiro. Oxalá que o Alpoim(o fornecedor do animal) ,nos tenha servido bem. Ferveu bem ,na hortelã? E esta era fresquinha, bem cheirosa ?

As caçoilas depois de prontas, muito tempo antes da festa, eram ensacadas, e depois penduradas, na frescura do poço. Um enorme poço  que mantenho ( embora sem as caçoilas….).


O almoço de 15,feito na casa da Escola, em Cimo de Vila, no pátio enorme, debaixo de frondosa parreira,e era reservado à Família mais chegada. À noite vinham jantar os amigos ( Dr Amilcar, Teiguinha, dr Julio Calisto, Tio Dorindo etc. etc.) Em qualquer das comezainas lá estava a caçoila, depois de previamente fervida três vezes. E tinha de chegar á mesa em cachão. Senão era logo recambiada

(cont)

domingo, agosto 03, 2014



(Como ontem foi forte, e impeditivo de enviar  a algumas Amigas,  o link.....hoje envio um suave e terno lírio negro)



Dizer o teu nome.

 

Gostava que o teu nome fosse

Um dos três últimos a pronunciar

Quando a lucidez da vida se esvaísse.

E a luz do sol me falhasse no brilho
 
do olhar.

Mas eu sei lá:

No fim não há

 voz nem alento
 
E por vezes nem sequer, momento.

 

Por isso hoje

Antes que a vida me traia

Vou gritar ao vento

O teu nome.  (I.....).

 

E diga- o, ou o não diga,

Naquela derradeira hora

Prometo essa lealdade última

E por isso quero afastados os engulhos

Todos esses pedregulhos

Que nos fizeram tropeçar na vida.

E quando  a lua pairar sobre a ria
 
Ou voar, correndo com o vento
 
Nessa hora fria,saberei,amor
 
Onde  tu estás .....Quero ir para aí.
 
 
 SF

 

O bacanal ainda só vai no príncipio…

Sempre tivemos a convicção absoluta,que a banca deste País estava toda rota.Se repararem,a Banca parecendo uma actividade difícil,tem tido a mamar ao longo destes quarenta anos todo um mundo de incompetentes -o que já seria grave! – mas mais grave,de notáveis corruptos : activos, passivos ou o que lhes queiram chamar.
O  caso do BES, volta a trazer ao de cima, a policia  bancária .Esta  colabora,ou tapa os olhos, permitindo que o regabofe dos  milionários filhos de boas famílias, ainda que sem culpa das mães,  dêem de si uma imagem de grandes filhos da puta.
O BdP e a CMVM, pareceram umas virgens  a deixarem-se enrolar na canção do bandido. Era com se o chefe de uma esquadra do bairro tivesse mais que provas que a camarilha ia de assalto em assalto ,até ao assalto final,e definisse  a estratégia :
 - Vamos-lhe  dar «guita», decide o Chefe Intendente(mas pouco entendido)…e depois apanha-mo-los .E o sub-chefe sorri e logo pensa:
 -Bem untado….Ou calas e comes….ou não comes e ainda vais para a rua.
 E deram  guita …e deram…e o gang foi roubando mesmo nas barbas da polícia.
 Mas haverá almoços grátis?
Isso é que ainda não ouvi ninguém perguntar…..
A propósito: a seguir bem o Montepio…..
Do Banif….é o que é….
E se começássemos a investigar ,Miras Amaral, João Salgueiro, Farias de Oliveira… etc etc.?

2- CLARA F..ALVES …e as «selfies»

Ontem a minha atenção tinha sido despertada, pelas imagens fotográficas do «orgasmo» da Clarinha Ferreira Alves. Bonitos. Orgasmos em que a «cavalgadura » –o termo é da escritora  - não cavalga a mula, apenas aboca. A Clarinha diz do alto da cátedra, grita : oh!!!! isto sim !!!…E lá empochou uma pipa de massa, pela cedência dos «selfies».Seriam ?
Bem....hoje no Expresso ,a putativa orgásmica,  achapou-se , e tratou das cavalgaduras deste País. Dos tassalhos….«Snifada», escouceia para todos os lados….
                                                         Oh Clarinha tão dura
                                                          Afinal  do que gostas tu…
                                                          Da  língua da cavalgadura
                                                          Ou que to metam….. 



3-    Pulhice

Uma revista que leio, ás vezes quando vou ao dentista, especialista em contra informação ,logo esborrata o  caso salgado (claro quem a alimenta ), assumindo a eminente prisão de Sócrates. O Ministério Público vem claramente rotular aquela versão de falsa. Mas há uns peralvilhos que vão mantendo a chama de que um dia…vai saber-se…..
OH!!!! …o gajo era tão bom, tão bom, que mesmo  nas reservas, tudo afinal  se resuma : quando é que ele vai voltar?
 Ai volta… volta….

   
SF (Agosto 2014)

quarta-feira, julho 30, 2014




 Até que o mar nos separe…

Razões de força maior, impediram-me, como contava, de estar presente ao lançamento do primeiro livro de Maria José Santana.
Apressei-me nesse mesmo dia, a dar, à autora, conta do impedimento. E a prometer que leria o livro, tão cedo quanto ele chegasse às minhas mãos. E que depois, com amizade, lhe daria a minha habitual e desassombrada opinião.
Creio que um grande problema com que se deparam os autores, em Ílhavo, é a falta de uma discussão acerca do que se vai publicando. Assim o autor terá imensa dificuldade em apreciar, no seu próprio interesse, o feedback dos leitores. E é claro. Há bons e maus trabalhos. E depois, sucede o vazio….o autor não sabe se lhe vale a pena teimar, e continuar a trabalhar, no sentido de fazer, mais  e melhor….

Vamos então à história de um amor galopante, que nasce, cresce… e fenece … como tantos que naquela altura (grande guerra) deverão ter morrido na praia. Durado apenas a emoção de um momento, em  que a intensidade da  realidade  que os rodeia, lhe recriam dimensões de eterna duração: para todo o sempre, como sói dizer-se. O que a realidade contesta.
E é verdade: o amor não se alimenta de tempo, mas de intensidade.
Maria José Santana escolhe um cenário para colocar as suas personagens (e fez bem … apelando à simpatia do cenário da pesca do bacalhau, sempre bem recebido pelos leitores tradicionais), sem contudo fazer sobreviver a sua história em episódios daquele historial. Não, aqui não há caldeirada…
A leveza do livro é patente. Poucas personagens (talvez poucas em demasia...),rapidez mágica na fase inicial da paixão, e depois, um talvez apressado esbatimento do provável (e ensaiado) conflito de cedências, para que tal amor sobrevivesse. O acto de posse amoroso, é um pouco forçado, pela caracterização (evolução) do conhecimento, nascido entre as personagens. E para meu gosto, rápido em demasia, um pouco em contraste com as figuras que (anteriormente) nos foram descritas. E teria sido certamente muito mais eloquente se acontecido entre o rolar dos calhaus na praia.
Lê-se bem o livro, o que é o mais importante. E a experiência abre as portas, à autora, para outros voos mais alargados e ambiciosos. Estamos claramente perante uma profissional da escrita. Talvez o que ainda não tenha chegado é a ousadia.
Parabéns MJS.

Senos Fonseca   

quinta-feira, julho 24, 2014





E a Ria...agora ...sorri...

Andava triste, triste comigo, a Ria.

Mas havia que refazer a joia centenária, o catraio do Tejo, o meu Costa-Nova.
 
Deu trabalho....
 
Mas desta vez houve um trabalho esmerado. O pintor do Moliceiros- o José Manuel - aceitou o meu repto. E «aproximou» a técnica da  sua pintura,à técnica apurada das pinturas do Tejo.



E ai está o Costa-Nova pronto a navegar ...e a deslumbrar.







A pintura (a técnica ) diz muito. E atesta  um facto primordial sobre :quem nasceu primeiro : o ovo ou a galinha?
Ou melhor :as pinturas naif dos Moliceiros,ou as pinturas elaboradas dos Varinos(primeiro), e das Fragatas depois ?

Deu-me um «cabo dos trabalhos» explicar isto, aos que por aí vão falando, e assoando-se à gentil ignorância.

Quem quiser passear no Costa Nova,  que marque vez















Gentilmente o José Manuel fez mais. E fez umas pinturas cá para o meu casebre,que Vos mostrarei, em breve. 

 
 
                                                             



      Depois vos direi...
      

               SF  Julho 2014

sábado, julho 19, 2014




Espesso silêncio..



Nesta primavera
Que   custa a nascer
O dia esvai-se
Entre o tédio
E o desejo aceso,
Num espasmo pardacento.

Fim triste
De um dia triste
Que se fecha  
Numa luz que dói.

O teu corpo
Desnudado
Despojado,
Aqui deitado a meu lado,
É o único sol
Que resta do dia.

Sedutor
Puxa- me para teu lado.
Apetece-me inclinar a boca
E entre beijos
Murmurar
As palavras
Que a mim prometi
Nunca tas dizer

Vá!.. deixa-me penetrar
A tua cintura;
Eu prometo tudo te dizer
Tão lentamente

         Como te penetro
         Lento...
         Oh! Tão lento...

Para  que  o meu corpo
Fique gravado em ti.
Morto
De tanto ser
E ter.

         E para que as palavras
         Mortas no espesso silêncio
         Que envolve
            O nosso amor

                    Restem vivas....


SF (in tempo)

sábado, junho 21, 2014





 
Sol na paisagem, e sombra dentro de mim.
 
Manhã cedo, ainda meio a dormir, olhei, extasiado e algo confuso, para o que tinha diante de mim: - a ria vestida de um azul, tão azul, que encharcava o olhar, inebriando-o. Ao largo, uns esfarrapados restos da neblina matinal, repousavam, aquietados, sobre tanto azul.Cobertos por outra imensidão azul.
Queres lá ver que me passei sem dar por isso, e  já cheguei ao céu: - pensei eu, confuso.
Claro que era no mínimo, intrigante. Primeiro porque a viagem tinha sido muito rápida. Afinal o céu não estava tão longe assim...
Segundo, e mais intrigante:  como é que um impenitente pecador sem remorsos bem pelo contrário, com pena, é, de não ter pecado mais! tinha vindo parar àquelas paragens, por tantos, procuradas e desejadas, mas ao que se diz, por tão poucos, encontradas.
Lá de baixo no céu não há sul, nem norte vejo vir uma bateira. Era com certeza pensei eu S. Pedro, o pescador, a deitar as suas redes. .
Bem, disse cá para mim, afinal no céu também se comee certamente não é manjar tipo gourmet, só para os olhos verem. Não!...deve ser do tipo conventual, de boas e reconfortantes vitualhas. Para os olhos e estômago.
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E foi só quanto o António do Ló rumou direito a mim,  à margem, onde (perto) vem habitualmente lançar a primeira bóia do tresmalho, que saí da confusão matinal.
O Toino do Ló não buscava os bons, os eleitos, mas tão só uns negros chocos para com eles matar a fome. Tudo o que vem à rede é peixe
 -Então quando é que põe aí a escada...que nos faz um jeito do caraças, para mandar trazer umas cervejolas (?!), inquire o Toino(de facto, este ano, ainda não pus lá a referida escadinha (ilegal),que substituiu a anterior, de degraus feitos na muralha.Posta abaixo pela  requalificação da margem).
 - Amanhã..,disse-lhe eu.... a pensar que, de facto, é chegada a altura de tomar umas banhocas, ao lusco fusco. A melhor hora para saborear a ria.
 
Este céu era, afinal, o habitual panorama que tenho defronte ao meu terraço, onde saboreio, guloso, os beijos salgados da ria. Que me libertam do pensamento da tragédia humana que vai pelo mundo.
 E assim vou vivendo. Entre a paz exterior que tenho diante dos olhos, e a inquietude interior que me rouba essa paz.
Sol na paisagem, e sombra dentro de mim.        
 SF
 
 

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...