sábado, abril 20, 2013





Postal  9 da «Casa do Bico»
 
Estórias da Companha
 
Pois: um dia teria de acontecer. O inverno ceder à sua bastarda violência. A Costa-Nova, descubro agora, é louçã mesmo com a invernia; com a lareira acesa, ver o fustigo da chuva varrer a vaga, ler um bom livro, e estender a mão para um whisky suave (mesmo um four roses adocicado), e até um casmurro descrente, como eu, acredita que não havendo «deuses» mandantes, um homem pode-se revirginar, eu sei lá (?!), eternamente. E em cada que amanhece querer ter a lua na palma da mão.  
Mas hoje acabou-se. Salto para fora e logo deparo com uma cena de antologia: cinco bateiras «amarradas» aqui aos pedregulhos, atiram-se ao «ameijoal» que este ano parece semeado, mesmo à borda. De «cabrita» ao ombro, num trabalho danado, cuspindo nas mãos de pele dura, vão lavrando o fundo da ria. «Puxa», «cede», «puxa» …e aos saltinhos a «cabrita» varre o fundo. Chegada à borda, virado o saco no tabuleiro, o labutante atira o mexoalho fora, para proceder, logo ali, a primeira escolha. Paro deliciado, embora interiorizando o esforço esgalmido do camarada. Que feita a apanha ir receber´ escassos  três/cinco «euritos» por quilo de amêijoa «macha» que, à falta de compradores espanhóis, este ano, se vende ao preço de «uva mijona».
Bem …era tempo de ir ao encontro da Zefa e da Bernarda. Com a minha paragem  para apreciar a pescaria, elas já ali vinham. E o encontro deu-se a «meia-água».
-Atão (?!) gentes: – dias destes, nem de encomenda. Hoje é só azul, de azul. Ficamos encharcados de tanta macieza… fui  eu adiantando…..
-Pois. Este tempinho do Senhor até nos brune por dentro. Vá, axi xe-se aqui que hoje trago-lhe uma estória e das boas – ó larilas.
 -Avance mulher. Desembuche que eu sou todo fiel de ouvidos. Que os olhos perco-os na ria. Vá que eu dou-lhe todo o meu crèto.
- Vá…então,
olhe nos meus tempos de garota, na companha do Arrais Magano, havia um abegoeiro, murtoseiro rijo entroncado, já homem de idade meã, muito sério e conspícuo de palavras e actos, que vivia num recanto da abegoaria onde recolhia o gado, finda a faina, e aí, dele tratava. Nas mãos do abegoeiro as juntas andavam num folgo vivo, duna abaixo, duna acima, numa guita do caraças. De seu nome, de bautismo ou por crisma, conhecido por ti Brígido.
Ora na companha, andava uma rapariga, ou melhor, uma raparigaça, bonita, mançanzeira de face, esguia de corpo e abocada de ancas que balouçavam, pecadoras, no andarilho da lideira da escolha do pilado. De seu nome e alcunha,  Fernanda «a Fininha».
Havia um zamparilha, um tal Albino « o Escuro», rapazote mal encarado de vida ao rossaló, sem rumo e tino, tipo azedo e brigão, que por umas naifadas dadas numa briga, a um paciente, fora deportado para uma prisia lá do Porto. E muito embora a Fernanda não  lhe permitisse nenhum avanço, certo é que o Escuro desinquietava a rapariga, acoimando-a, impedindo-a por ameaços, que desse cúnfia fosse a quem fosse. Como se ela fosse propriedade sua.
Num fim de tarde, a horas de recolho para dar descanso ao corpo por umas escassas horas, na palha da abegoaria, o Ti Brígido dera com «a Fininha» encolhida no areal, deitada de borco,chorando compulsivamente.
-Que é lá isso, raios ; porque estás para aí arrolada? inquiriu o Brígido.
-Ai deixe-me, tio, que a minha desgraça está escrita. O «Escuro» irá cumprir a ameaça…
-Que me dizes? Atão esse xabuqueiro já voltou?
-Já. E disposto a tirar-me a vida se eu não lhe entregar o meu corpo. Que a minha alma, essa!, nunca será dele. Mais valia dá-la ao diabo, Ti Brígido. Afaste-se de mim, santo homem !..., desta desgraçada que parece que tem  peçonha. Olhe que ele pode vir aí cumprir a promessa, e  atira-se a si.
- Isso é que era bom !!! vá anda daí. E baixando-se, agarrou-a pelos ombros levantando-a facilmente, levando-a para o palheirão. Depois de a acomodar, foi  ao borralho de onde tirou uns peixitos que aloiravam no brasido ateado. A Fernanda recuperara o ânimo, e contara ao Brígido, em pormenor, a tragédia do seu viver. De repente ouvem-se socadas violentas no portão do palheirão.
-Quem é lá, a besta que escoiceia assim? – atira o abegoeiro.
- Veem ! …já me reconheceu diz o alarve d’o « Escuro» para a camarilha. Abra a porta que eu sei que está aí com a Fernanda; ou ponho-a abaixo. Vou aí e espeto os dois.
O Ti Brígido abre o portal, e do alto da sua figura larga e emproada, olhos mansos mas a despedir chispa com a zanga, marmeleiro erguido, olha o «Escuro» que  se fazia acompanhar por dois gálicos mal-encarados. Ao verem  a cara de poucos «amigos» do homenzarrão – só agora repararam que o Brígido não é um homem correntão –, instintiva e medrosamente arrecuam.
-Olhai bigorrilhos: ides entrar e ver se está a Fernanda (que entretanto mandara esconder-se no rolo do cordame do reçoeiro). E se não estiver, vamos tratar do assunto e acabar com a fanfarronice de vez. Ides zangalhar ao som do marmeleiro, que tenho o fole cheio de tanta avaria.
O «Escuro» e acólitos entram, olham, olham …e nada.
-Bem:  astão, vamos lá fora.
O «Escuro nem espera. E rapando da naifa, gritou:
-Vou-lhe escachar a alma desgraçado…
O Brígido, rápido, tira do marmeleiro com ponta a luzir, e aponta à orelha do berrega, escarchando-o de alto abaixo. «O Escuro» cai redondo como perdiz atingida por tiro certeiro. Sem hesitar, marmeleiro zune e bate certeiro, ora num, ora nos outros bardais.
Agarrando o «Escuro» pela piolheira ergue-o e dispara:
 - Se voltas a pôr os pezunhos na companha esgalho-te de alto abaixo. Agora foi só a amostra. Da próxima, rapo da foice de dar palha aos bois, corto-te por onde mijas, e penduro-te nos cornos do «Asdrúbal» (que era o cobridor da abegoaria, manso de farta e recurvada cornadura, bem afiada de pontas). Sim, quando me decidir, limpo-te.
Com uns valentes pontapés e pauladas corre com o grupelho. E o certo é que o «Escuro», bem aconselhado sobre, afinal, quem era aquele homem solitário, vindo lá da Murtosa: que bom por bom,…era bom, como mar manso. Mas por mau, deus nos livre: era um toiro desembolado.O  «Escuro» bem avisado, desapareceu de vez do acampamento dos Xávegas.
A vida continuou, a « Fininha» foi-se afeiçoando em silêncio àquele «santo homem», até que um dia o Brígido lhe atira:
-Olha Fernanda; eu estou para aqui sozinho. E se viesses viver comigo sempre nos amparávamos, um ao outro. Mas se vieres, só depois de juntos por Deus. Queres?...
-À ti Brígido: eu, pouco a pouco, fui-me aquietando e afeiçoando a si, bom  home. Há benícias que gosto de si. Eu querer, queria. E já!...mas sabe que o Padre Jerónimo é muito esquisito. É um inxum, que não casa murtoseiros com gente de cá. Diz que não quer misturas de vinhos.
-Ah não?! Então vamos lá…
E lá foram. Na capela onde a «Senhora da Saúde», substituíra o S. Pedro, como orago local, estava o sacrista d’«o Bexigoso». E na sacristia o frei Jerónimo. O Brígido com «a Fininha» pela mão, entra.E resoluto diz ao pobre sacrista:
-Salta lá para fora e dá cá a chave da casa. Não foi preciso repetir. «O Bexigoso» : ala que se faz tarde.
Fechando o «portaló» da Senhora, o Brígido chama o F. Jerónimo. Que comparece, lépido, ao ouvir a voz de trovão no templo:
- Olhe, abade Jerónimo: à face da lei do Senhor que nos vê, despache-se e case-nos. Depressa. A porta está fechada. E vossemecê, ou escolhe a bênção, ou vai depressa é direitinho para os anjinhos. Ou de muletas para o inferno, se não me fizer a vontade. Basta uma cruz sobre a gente, dois pai-nossos, e umas lengas-lengas de faladura. E pronto. Chega. E olhe :acabada a cerimónia vá mudar de batina que a «maré» chegou –lhe aos ditos. Inté’prece que nem acredita no que prega, e afinal o céu nem boa coisa é para morar.
E ainda que trémulo e gago ,o fradoco consuma o enlace cristão.
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E assim, diz a Zefa, chegámos ao fim da «estória» que afinal teve um fim feliz. O que é raro, digo-lhe eu…
-Pois: o Brígido que ainda tinha nele muito de homem – não sei se me entende?- (entendo, entendo, disse-lho eu…) - ainda fez dois filhos à «Fininha».Mulher respeitada, que depois da morte do Ti Brígido, pôs mãos à empresa, e foi a primeira «abegoeira» cá do sítio. Não havia mulher mais governadeira e despachada. E sempre pronta a tirar do mealheiro, para acudir aos que mais precisavam. Quanto ao «Escuro» foi um ar que lhe deu. Parece que se meteu noutra desgraça, e foi degredado para África. O +Escuro» que devia ser filho de marroquino aqui naufragado, dada a sua tez, pouco se distinguia dos de lá….
SF (Abril 2013)     

quinta-feira, abril 18, 2013


    Nesta noite há luar

     De súbito o inverno parece ter morrido,
     Esta noite é primavera.
     OH! esta noite vou abrir a janela
     Para deixar entrar  por ela
     O doce  afago da maresia,
     Que vem no sussurro da brisa
     Trazer –me o cheiro de ti.
     Vou levá-lo comigo para a cama
     E guardar no nocturno da noite
     Todas as palavras que amanhã Te direi.

    No ar há um doce sabor a mar
    Lá fora navegam os barcos no espelho da ria;
    Vão viajar. Gaivotas  pairam no ar.
    Eu (?!),
    Vou saber esperar por ti.
     Na viagem da tua ausência
    Vou sentir o desejo a latejar
    Da fome de ti 
    Nesta noite-oh! nesta noite !-
    Felizmente há luar.

    SF (Abril 2013)
  


  

quinta-feira, abril 11, 2013



                                                                           

POSTAL DA CASA DO BICO  nº8
                                                              
O Senhor Zé e o «Visconde»
Raios: tempo desalmado,esgalmido. Mácista e mal sádio. Por bor do dito cujo, deixei de encontrar  a Zefa e a Bernarda ,e de,  com elas, ter  prazer de charlar e rir. Rir sim!.Porque na minha idade rir é o melhor «xanax» para a alma retorcida. E eu,confesso, já estava farto de estar  aqui encanteirado, confinado (e desafinado) neste «estar à janela» .Parado, especado a olhar  as serranias,dorido de tanto «sobe e desce» que as curvas serranas  mostram. Neste pousio, enquanto chove e eu aqui especado, pareço estar só: eu e  o mundo. E fico cansado de tanto sonhar. Sonhar é bom.Mas sonhar, intervaladamente. Poema que me saia, fala invariavelmente da mulher amada. Começo a ficar tão farto de fingir, que até  me apetece dizer : quero-te só para sonhar contigo.

Mas uma sota, nesta segunda-feira, permitiu-me o reencontro. Eu, a Zefa e a Bernarda, falámos de muita coisa. De entre elas catei uma bonita «estória».Vo-la conto….
-Olhe –diz a Bernarda :este tempo desembestado faz-me recordar a nossa vida em pequenas. O palheiro onde nos abrigávamos do tempo, feito de um tabuado mal encostado, deixava passar o vento frio por entre as frinchas, que até zunia. Então nas noites de surriada tiravam-se os cobertores serranos da enxerga  e punham-se  a fazer de anteparo.E para não ir para a a enxerga e ter frio,  abusacávamo -nos em volta do borralho À luz de um candeeiro trémulo,  por vias da fisga ventosa que escapulia entre frinchas,íamos ouvindo os maiorais,enquanto uns cavaquitos apanhados do outro lado,no matagal da Maluca, ardiam, mitigando o frio.E entre conversa lá íamos assalgalhando, quebrando o jejum.
Numa lenga- lenga familiar, ouvíamos «histórias» do antigamente. Lembro uma que fez o encanto da minha meninice. Sabe?!: sempre pensei,  porque fui testemunha viva da heroicidade demente daqueles «arraises», que, ás vezes,até parecia não regularem bem, quando no meio do areal, frente ao desalmado mar,  gritavam : - «bota» prómar, que este mar enxogalhado não mete medo a hommes».E  nós,  que ficávamos especadas na praia arrepiadas a ver o meia lua encabritar-se na 1ª vaga, e logo atrás dela vir a segunda ainda  mais danada, arrepanhávamos os cabelos e só sabíamos gritar:- aii o meu Pai,coitadinho, que lá fica!  
Ora um dia, contou o meu avô,o Chico «Cuteta»,o Sr José (José Estevão) tinha vindo, como habitualmente, à borda a conversar com as «nossas» gentes.A saber da nossas vida. Trazia com ele uns «fidalgotes» da cidade, que se viam astrapalhados, dizia o Ti Cuteta, com a areia a entrar-lhes para as polainas. «Que inté» pareciam um barco alquebrado «a meter auga»...

E parando apresentou –os ao arraias Thomé. Um dos fidalgos, homem de larga bigodeira engomada e retesada que mais parecia imitar o «meia lua», dirigiu-se sorridente ao Thomé  dizendo-lhe:

-Atão vossemecê é que é um dos tais «ílhavos» que o «Visconde» diz, pedirem meças ao campino, a saber qual mais valente (?):  se o que defronta o touro, se o que investe o mar!!!!....Sim senhora, finalmente vejo um dessa  espécime.  E Vossemecê que pensa do que diz «Visconde»(?) pergunta o fidalgo letrado, ao Thomé.

-Ora saiba óspois que eu penso que esse tal Visconde- ósculpe mas não o conheço- é zamparilha . Ora essa :- olhe ….

E zás !!! A um boi que vinha dar o chicote ao  «càlão»,fila-o pelos cornos ,torce... torce...torce...  até que o boi ajoelha e cai de borco na areia, resfolegando e espumando, preso pelas manápulas do Thomé.
Este levanta-se, sacode as mãos, põe o boné, e diz para o amigalhaço do Sr. José:

- Ora  diga agora ao tal «Visconde» que faça isto com o mar.E veja quantos hommes eram precisos para o abraçar. Todos que há no mundo. O «manso«, esse (!), como-o eu em bifes. Sem sal parecem feitos de palha. O mar, esse (!)--e ao dizê-lo tira respeitosamente o boné - bebe-se aos golinhos, senão afogamos no seu sal. Essas gentes de que fala o dito, enfarpelam-se de vermelho e são bailarinos. Morre-lhes pouca gente, por certo. Olhe em volta Vossa Senhoria, e repare na nossa gente :  vê-os quase todos de preto. Vestem-se assim pelos que ali (apontando o mar) ficaram. Mas isso não os quita de «zangalharem» com ele, as vezes que forem precisas
Enquanto a conversa decorria, o Sr José, ria a bom rir.
-Pois …. Ó Pinheiro!!!, meteste-te com boa  rês. Logo com este gladiador do mar.  

SF   (Abril 2013) 

 

 

 

                                                                                                                                                               .

segunda-feira, abril 08, 2013


Chove lá fora …e eu  a «cabular»
Pela Terra da Lâmpada

O Ribau é «lixado». A escolher pensou:

- De entre os  melhores piores vou  escolher o  pior…. pior…. Depois de mim o dilúvio.

E se assim o pensou, assim, melhor,  o fez: escolheu o« Caçoilo». Ao ponto a que chegámos. Uma sem vergonha.

Olhando contudo em volta para as candidaturas, reconheço:  este anos são «os piores». Inimaginável .

Diz que ninguém quis ser. Pois….qualquer dia  nem o boi do «Paço» quer chegar-se  à Vaca, tão escanzelada ela está….

Pelo País…

O Cavaco, já tinha dito tudo na véspera : isto é mesmo para durar. Os «portugas» são espécimes de lavar e durar. E auguentam…auguentam ….Se ainda não chegámos ao fundo do poço, porque nos havemos de queixar?

Este « contabilista» de Boliqueime, é o pior de sempre. Cagarola, madraço e aldrabão.

A dizer que só come uma torrada ao lanche….Ele que engole elefantes ao pequeno almoço ,almoço, lanche e ceia. Basta o Passos  mandar.

É cada pedrada

Gaita: o Sócrates manda cada pedrada de se lhe tirar o chapéu. Temo pelo «seguro» do Toino Seguro. Ná pá ,assim não te aguentas. O melhor é desistires já….

O Marcelo parece um menino do Coro ao pé do Sócrates. Nervoso ontem …c’um diabo (parafraseando-o) .

Bem : preparem-se. O Tsunami que aí vem é de grau 7. Nem os patos ficarão a boiar.
O TC fez um jeitão ao Passos &Cia. Assim, «cortar» vai ser à facada….

«Coitados»!!!. O que aqueles «anjos» vão ser «obrigados» a fazer. Tudo derivado  da

«irresponsabilidade» dos  «vários» srs Juízes .

 Eles  (Gov.) só queriam uns trocos. Agora (?) vão –nos virar de pernas para  apanhar as moedas que ainda restam.
Jogada de mestre. E há quem diga que foi uma jogada do Relvas. Ainda vão ter saudades do rapaz..

Ai aguentamos ….aguentamos. Se não formos vivos, aguentaremos melhor. A troika só sai quando apagar a luz do cemitério. 

SF

quinta-feira, março 28, 2013




 

Curiosidades sobre o navio-escola SAGRES

 



«SAGRES»



Num dos últimos números da «Chasse Marèe»,que assino(e que aconselho a todos os amigos que privilegiem o contacto com o historial náutico),vinha inserido um interessante artigo sobre alguns pontos da  história do navio-escola Sagres, que desconhecia.
Toda a gente «náutica» conhece esta «barca de três mastros», um dos últimos dinossauros  do tempos áureos das grandes navegações à vela. Emblema nacional, este navio-escola insere no seu velame a  cruz da Ordem de Cristo, insígnia que já as caravelas dos Descobrimentos levavam mar adentro.E com ela fomos por «mares nunca dantes navegados…nem sequer pensados».
Ora como curiosidade (para mim foi-o ) fiquei a saber que este navio ,lançado à água em 30 Outubro de 1934,fazia parte da encomenda de quatro  veleiros-escola  feita pela Kriegsmarine,depois da perda do Niobe.Navio–escola que se voltou no Mar Báltico em 1932(causando a morte de 68 instruendos). Os veleiros encomendados foram :o Gorch Fock(lançado em 1933), o segundo o Horst Wessel (lançado em 1936),o terceiro o Albert Leo Schlageter  (que é o actual Sagres) e o quarto, o Herbert Norkus,lançado em 1939.

                                              1º Gorch Forck 2-Horst Wessel  3-Albert Leo Schlageter
 A sua construção,levada a cabo debaixo dos requisitos mais severos, levou  a que as chapas (rivetadas e soldadas ) do seu casco atingissem o 10mm; o navio possuía  seis compartimentos estanques e a sua quilha  foi fortemente lestada.

                                                       
                                                                            Construção                                         

O Albert Leo Schlageter  terá sido construído em apenas três meses e meio. Fez a sua primeira viagem de instrução em 20 de Março de 1938. Não foi muito feliz nesta viagem. Ao fim de poucos dias abalroou  o paquete Trojan Star, tendo  de regressar ao estaleiro. O navio realizou, depois de reparado, várias viagens,  em 1944.Cinco meses depois ,navegando no Baltico, com 200 tripulantes,colide com uma mina  russa. Dezoito dos cadetes que estavam a amainar as velas (o tempo era mau) caíram.Uns sobre o tombadilho e outros água do mar gelado.Rebocado ,vai para Kiel. E  será depois transferido para Flensburg ,devido aos bombardeamentos ingleses.

 
                                                                
                                                                       Bota-abaixo
E como veio para a Portugal ?
Depois da perda da guerra as grandes embarcações  da Alemanha  foram entregues a diversos Países do lado vencedor. O GranFock  atribuído a URSS(rebatizado Tovarisch ); o Horst Wessel foi entregue aos americanos ; e o «nosso» Albert  Leo  Schlageter foi vendido por 5.000 Dollars  ao Brasil.Que o rebatizará  com o nome de Guanabara. O Guanabara ficará em mãos brasileiras durante treze anos, percorrendo 64.000 milhas em viagens de instrução, participando em várias regastas de grandes veleiros.
O embaixador de Salazar, António Teotónio Pereira foi quem conduziu  as negociações para que o Guanabara viesse substituir o velho Sagres. Salazar terá pago 150.000 dollars pelo navio- escola.

 SF  (Abril 2013)
Fotos: «Chasse Marèe» nº 248 ; aguarela do pintor de Marinha,Roger Chapelet.

                                                               

 

 

  

sexta-feira, março 22, 2013



 

Nova Mensagem

Hoje, amigo, deixa-me falar de um País
Que foi soldado pelo braço forte de Afonso

Curto da perna mas longo na bravura

Correu  com o moiro iroso que só da vida já cura,

E olhando para a praia ocidental

Afirmou: aqui vai nascer Portugal !

 

Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

Que teve um rei trovador

Que trovou cantigas de amigo

 Por Isabel perdido de amor;

Que as rosas não eram o bastante de lhe bastar

 Mas urgente fazer uma Pátria para ao mundo a dar.

 

Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Feita de um punhado de arraia- miúda

A erguer-se para dizer ao mundo inteiro

Que aqui não há lugar para nefandos andeiros

 Portugal não foi feito para vender

Portugal foi feito para ser; e a vida para o defender.

 

Hoje amigo, deixa-me falar de um império

Filho de uma pátria que queria ser maior que o mundo

Que teve um rei, pai de longínquos mares

Maiores de todo o olhar que fosse bem lá até ao fundo;

Neles rei algum mandava. Viu-se terra nunca sonhada

Que tanto a queria, o nosso El rei D. João Segundo.

 
Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

À procura dos berços onde o sol nasce

Seus feitos espalhados em canto imortal

Camões a mostrar ao mundo que o globo era Portugal;   

E Pessoa a dizer que a fé foi instinto da acção

De serem possíveis todos os caminhos impossíveis   

 

   Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

 Onde intrusos mostrengos ousaram entrar e porfiar.

Três vezes o francês entrou

Muitas mais o espanhol veio na noite de breu

Sonhando um povo conquistar

 De um país que não era o seu.         

 

Hoje amigo deixa-me falar de uma pátria

Que deuses malévolos um dia castigaram:

Que desgraça que vileza fazer gládio da natureza.

Para baixo a morte; para cima a vida, ordenou Pombal

E de novo se fez, fazendo –se,  Portugal.

Renascia o sonho de revelar o Santo Graal.

 

 Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Que desde enão caminhou pela bruma

No sonhos de um quinto império acreditado,

Desfeito no farfalho da maré, à praia atirado

 Tempo foi. Séculos correram

Nem primeiro nem segundo, tudo se foi à uma.

 
Hoje amigo, deixa-me falar de uma pátria

Onde entraram robots sem rosto, homens sem alma

A espezinhar o seu povo, a calcar as suas gentes

Uma troyka de mostrengos vinda lá dos confins do mundo

Para nos dizer que já nada é certo, senão saber o que se não quer:

Que tais mostrengos deitem a nau ao fundo.

 
Mas hoje amigo, já chega de te falar desta pátria

Amedrontada à beira mar posta a entristecer

Sem trabalho e sem pão. É tempo de dizer basta

 É tempo de dizer não. Fazer da voz uma canção

E da canção uma arma, Não para ser império de novo então.

Mas para se ser livre e dono da sua pátria.

                                                        [ Escravo, isso(!) não!

SF

segunda-feira, março 18, 2013


 

Amigos,Senhoras e Senhores:

 Contactado para saber da minha disponibilidade em colaborar com o Chio Pó Pó, em esta nova e muito louvável  iniciativa,  perpassou pela minha cabeça a interrogação: porquê eu a abrir, tão intencional quanto honroso ciclo?

Encontrei de imediato resposta para a minha questão: é das normas começar-se pelo mais fraco, e em crescendo, apresentar aqueles de mais significativa dimensão e notoriedade. Assim sendo, aqui estou humildemente, na tarefa de dar o pontapé de saída para este recuperar do tempo perdido. Que bem pode desenhar, se tiver a continuidade  previsível, o àgora  .O fim do período mais negro da história cultural das gentes de ílhavo.

Desde logo o meu agradecimento: e com ele o meu abraço aos mentores desta relevante instituição: o Chio PóPó, instituição de tão velhas e largas tradições. Desde a irreverência que levou á sua aparição, já lá vão mais de uma centena de anos ,até ás acções (Carnaval e outras)num passado ainda presente  na memória de todos nós. A minha gratidão  e a minha inteira disponibilidade para o que entendam possa ser útil á Instituição .De igual modo o muito obrigado a todos quanto colaboraram neste esforço de, na verdade, consertar algo que vai mal.

Aqui estou amigos, nos minutos qua a «régie» destinou, para me apresentar (?!) e responder á momentosa questão: o que tenho feito pela Cultura Ilhavense e Suas Gentes?

Ao que tenho feito (?), respondo: – vou fazendo! Pouco. Será certo. Mas que força tem um homem na caneta para lutar com o mostrengo de onde sopraram os ventos apocalípticos que foram vergando o embondeiro da cultura dos «ílhavos», até o colocar de rastos? Tenho-o feito, pois, modestamente. Mais por apego afectivo que por  mestria  de artesão da escrita. Mas já Torga o dizia: escrever é o maior risco, pois se constitui réu no Tribunal  em que serão juízes os leitores futuros das gerações vindouras. Serão pois, a esses, que deixo a tarefa de me avaliar.

Nasci há 74 Anos. Naquela histórica casa da Arcebispo Bilhano: – não porque lá tenha nascido, mas pelos painéis monumentais  de azulejaria que exibe na frontaria, os mais belos que conheço retratando as minhas gentes. Nascer então, aqui, em Ílhavo, não era bem o mesmo que ir ali ao S.Pedro, de Aveiro, e vir depois a assumir a alforria de ser «um ílhavo nado e criado» na terrinha da lâmpada. Criado, ainda vá. Mas não, «nado». Desculpem lá, mas os ílhavos de hoje são cagaréus diluídos Eu não, sou de Ílhavo de corpo inteiro. Nado para ir de mar em mar, a sonhar.

Contaram-me que acabada a ocorrência – feliz para os meus, já que a mim ninguém me perguntou (?!) – abri os olhos desmesuradamente ao meu Pai a quem a «Alicinha» tinha passado o puto loiraço. Já gordinho e anafado logo à nascença. Como a perguntar: e agora pá? O meu Pai, que sempre me falou, só e apenas verdade, ter-me-à olhado e dito: Oh rapaz prepara-te; olha que a vida traz muitos trambolhões. Promitentes estas palavras. Ainda eu gatinhava e dei um trambolhão que bem poderia ter sido o primeiro e o ultimo. A «Ana Padeira», que me idolatrou até ao seu desaparecimento, deixou-me cair pelas escadas abaixo, e vim parar ao passeio. E conta-se o milagre (os milagres, é bem certo, acontecem sempre aos que neles não acreditam). Quando pensavam o pior, o puto não chorou. Estava, era, como que distraído. A olhar, espantado, para os azulejos. Como que absorto, interiorizando aquelas gentes .Apaixonado. E lá veio outra profecia: o rapaz vai ser homem de paixões mudas, interiores.E hoje revejo: todas as afeições  guardo-as bem no interior. Só finjo o que de facto não amei. E só não amei o que me não valia a pena amar.

A partir desse dia, os trambolhões sucederam-se. Começava então a minha vida que seria, bonita mas insólita, coquette q.b., desafiadora, plena de aventura. Nela convergiram e se misturaram desafios que hoje, olhando para trás, me arrepiam. Mas sempre nos maus momentos me lembrei do aviso: as guerras só terminam no fim. As batalhas ganham-se e perdem-se. E só no fim se faz a contabilidade.

Claro que os grandes desafios estiveram intimamente ligados á vida profissional. Tenho a consciência absoluta de que pouco ou mais nada, havia, aí, para fazer. Foi lindo e preenchido demais o sonho de quem achava que nem no céu há limites. E como não os encontrei, houve tempo para me ensaiar de outras maneiras.

Enche-me de orgulho o tempo que dei de mim à vida cívica. Quis o desafio, sempre e só o desafia – e nunca porque me ofereci ou promovi – conduzir-me ao epicentro de várias e decisivas batalhas nas mais significativas Instituições de Ílhavo. Trinta anos, com algo de comum: com elas ultrapassar momentos de crise profunda. Todas as Instituições que me vieram para à mão, curiosamente ou talvez não!, encontravam-se à beira do precipício. Nunca me convidaram para um passeio de facilidades. Nelas não fui – longe disso!- um presidente visitante, mas um presidente próximo, presente. Nos trinta anos em que me dei às Associações da minha terra, em cada uma delas, a minha presença e actividade, toda a gente o sabe, foi diária. Em cada uma delas houve uma guerra a vencer. General que se preze não deixa a linha da frente a cabo raso para se esconder na trincheira. Por isso foi sempre a mim – e só a mim! – que me coube lutar contra o desinteressado, ignoto e despeitado poder. Começou em 68 e só acabou em 2012.  

No desempenho dessa actividade estiveram sempre presentes as minhas gentes.Com o passar dos anos esse deslumbramento pela cultura dos «ílhavos» (não se confunda nem restrinja, mas inclua-se, a actual saga histórica bacalhoeira) seduziu-me pela sua dimensão e grandeza. E pela sua singularidade.

Começou essa paixão, quando aluno da minha Tia Vicência, na Gafanha de Aquém, percebi logo que aquelas eram outras gentes. Mas elas também singulares e autónomas. No Colégio, a minha pesporrência literária cedo se desenhou com o Prémio Dinis Gomes. Dizem os livros (o prémio) que guardo, e leio religiosamente vezes sem conta, os «Costumes e Gente de Ílhavo» : ao Joãozinho Fonseca pela sua precoce admiração e exaltação dos valores de ílhavo»                                              

A vida não me deu tréguas mas eu sempre lhe roubei tempo para alinhavar ideias no papel. Que ia, anarquicamente, arquivando. Lia tudo quanto fosse livro para me amanhar com essas grandes figuras do ílhavo de um outro tempo.

Nas Instituições, paralelamente ao seu engrandecimento e afirmação, procurei que os aspectos culturais estivessem sempre – mas sempre em todas elas,- em paralelo com a sua afirmação. Quis sempre levar as Instituições às gentes, porque não há Instituições vazias de pessoas. Não é este o momento para revisitar esses tempos e essas lutas. Apenas dizer que no tempo da outra senhora (a actual não me parece nada melhor) o Illiabum enriqueceu-se com a presença das mais eminentes figuras da cultura lusa. E até as marchas S Joaninas, então iniciadas, visavam uma iniciativa de recolha de trajos. Orientada pelo Arq Quininha para criar o Museu do Trajo de Ílhavo. Que seria grandioso. Trajo que em nenhuma parte vi melhor, nem vislumbrei maior identificação entre a fatiota e quem a enverga. Adiante...quer na AHBVI, quer no CVCN, quer no Casci, todas viveram tempos para, de um ou outro modo, promover a cultura e a solidariedade entre as nossas gentes.

E os trambolhões …continuaram.

 Homem avisado vale por dez. A cada um deles seguia-se a raiva de fazer mais e melhor. Guardado estava – com data marcada se as asneiras da vida o não obviassem – começar a verter para o papel, em definitivo, o «saber» (o meu, por isso utilizável para o fim que entendesse). Dei início a essa nova etapa, um ano depois do programado. Mas com ganas de pelo menos chegar à minha «Monografia de Ílhavo». Nunca trabalho num só livro. Por vezes interrompo para deixar acamar as palavras e as ideias. Certo de que um dia ali voltarei. Os meus livros são as amantes de nunca me consegui afastar. Olho para eles com um misto de orgulho e admiração. Como olhei para o primeiro corpo nu de mulher amada, de um modo apaixonado, sabendo que um dia qualquer me iria dele (e deles!) separar. Dou-lhes toques e retoques, carinhos. Conto-lhe segredos todos os dias. Por isso, antes da Monografia, trabalho de evidente fôlego, fruto de anos de conquistas de saberes, interpretação e interiorizações, foi surgindo ao público «Nas Rotas dos Bacalhaus». Sei o pecado original deste livro. O desafio empolgou-me. Creio ser este, um livro completamente diferente de tudo quanto foi editado na matéria. Tem uma Parte II. Não sei se haverá tempo para lhe dar corpo e fim.

 Entretanto havia que cumprir a promessa dada, em jovem, ao Prof Guilhermino. Feita em um dia em que organizávamos a Biblioteca daquele seu aluno que o deslumbrara ainda no banco da sua Escola:- Mário Sacramento. Foi aí, então, que prometi cumprir o seu pedido (ou sugestão),de um dia relembrar esse grande «ílhavo» Alexandre da Conceição. Sublinhando aquilo que considerava um anátema no historial de Ílhavo: – referir  o pecado original desta terrinha, hoje mais do que nunca reafirmado em toda a sua dimensão, de Ílhavo ser melhor madrasta que mãe. E fiz, ainda, outra e maior, porque bem mais difícil promessa a cumprir: repor a verdade sobre Filinto Elíseo (outro «ílhavo», poeta maior entres os maiores, pátrios). Ando com ele há sete anos. Das minhas mãos está (praticamente) acabado.

Mas no entretanto, prestei modesta, mas sentida e verdadeira homenagem a esse «grande….grande» mestre de civismo e «ilhavismo», o Prof. Guilhermino Ramalheira, meu particular inspirador. 

 Foi aí que o arraias «Labareda » me saltou ao caminho : o tipo e as gentes que rodopiaram á sua volta, e a recuperação dos «ilhavismos», todo este enleio,toldou-me a programação.

E como fugir a retratar a minha «Costa Nova», luxuria desavergonhada para os meus sentidos? E fi-lo dum folego. Um mês creio. Pouco mais. A Costa Nova tem um papel preponderante de pousio benfazejo para as maleitas da alma. Um céu esplendoroso, um mar azul infinito onde só o farfalho da onda destoa. A Ria vaporosa e fresca cativa-me. Gosto de a espreitar. Sou um empedernido «voyeur» seu. Ali cumpri o meu destino. Não aquele que as ciganas leem na palma da mão, mas aquele que nos está gravado na profundeza do ser. Determinado apenas pelo modo como deixamos os sentidos reagir ao mundo que nos envolve. A Costa-Nova envolveu-me. E deixei o Filinto em conserva, à espera. Deixei-me envolver, e perder a cabeça, pela «amada». O que é raro. Mas a Costa-Nova, e em especial a ria, foram o regaço que sempre encontrei disponível, acolhedor e terno, em todas as horas. Regaço onde lavei as chagas que o surrar da vida me foi abrindo. Aprecio-a tanto na pujança da prenhez da preia-mar, como desperto para a resistência dos lenhos de água sobrantes que o seu choro, despejado diariamente no mar, deixa a descoberto. Gosto tanta de a ver toda vestida de um azul fulgurante,como de a desnudar para lhe deixar aparecer a intimidade das suas linhas que parecem desenhadas a compasso, tal a harmonia das suas curvas e contra curvas. Gosto de apreciar a sinfonia do nascer do dia: vislumbrar aquele barbazanas a espenujar-se dos restos do algodão da neblina matinal, que a serrania lhe impõe para melhor o esconder. Para logo aparecer por cima do espelho da ria, disco de zarcão iluminado a ouro, a projectar-se no palheiral riscado a rigor, encharcando-o de luz. Gosto de recordar a lomba dos meus tempos. Dessa lomba de segredos de amor jurados para a eternidade, a não durarem mais do que um escasso verão; dessa lomba de um areal alourado, semeado de «carneirinhos» perfumados, testemunha de tantos beijos roubados, num depenicar de avezinhas a sair do ninho. E tantas vezes, aconchego nupcial para atrevidamente se ir mais longe, influenciados pela maresia que funcionava lascivamente como afrodisíaco provocador. Mas gosto sobretudo do seu luar. Quando o sol se apaga no poente, e a ria é um banho prateado que nos tolhe e amarra. Inebria. Sinto-a como um descrente que entra na capela Sistina, olha o «céu», e fica absorto, alma em oração titubeante, sentidos perturbado pela grandeza, em silêncio interrogando-se. E  se ????

 Demorou-me um Verão a retratá-la. Foi o livro mais fácil de escrever. Pois se eu a conhecia de cor e salteado (!). Já lá vão quatro edições. Como todos os outros livros, esgotadas. Sou pois um autor feliz. Por as minhas gentes, afinal, interessarem a tantos outros.

Senti por essa altura o desespero de quase não ter tempo para clarificar e registar para os vindouros, essa grande aventura das gentes lagunares (onde os «ílhavos» foram cartaz de proa).E a sua genialidade em criar embarcações únicas. Desfazer mitos e asneiras ditos pelos maiorais da história pátria, nesse caso errados, foi tarefa que me não entibiou. Na vida sempre o afirmei: ou sabe-se, ou se está calado. E tive a rara felicidade de dar à estampa as embarcações sublimes, na sua forma e na finalidade. Qual delas a mais bonita e elegante. Um engenheiro que sempre privilegiou a forma e a adequação á finalidade, não poderia deixar de se galvanizar com a descoberta. Por isso, saiu o livro «Embarcações que tiveram o seu berço na Laguna». A vida esperou e houve tempo. E até tempo de ganhar um prémio da Academia de Marinha, enfileirando na saga de Sarmento Rodrigues.

E quando este prémio me honrou – eu que nunca esperei por outros prémios que não o meu gozo pessoal! – já então  alinhavava a figura desse «ilhavense/aveirense», João Sousa Ribeiro que me empolgara com  o seu  portentoso altruísmo. Homem de uma grandeza épica, de um saber antológico, e de uma afirmação ímpia de cidadão, S.R. conquistou-me a vontade e atenção. Vesti o gabão, e num ápice, fui buscá-lo ás profundezas do esquecimento. Todos o citavam. Poucos ou nenhuns, sabiam o seu historial, a sua grandeza humana. Enorme! Ora e pronto. Tinha de acontecer. Virgoleira que vai á guerra, volta mulher feita e experimentada. Senhora de todas as artes e manhas.

Não, não esqueci quem profissionalmente me deslumbrou. Quem me levou a saber coisas que me justificaram o aceitar, sem corar- muito pelo contrário! – Chamarem-me de engenheiro. É intolerável, inacreditável, e vergonhoso que  Ílhavo   não faça perdurar para os vindouros  um dos dois maiores engenheiros civis do seu tempo: o eng Ângelo Ramalheira. Prestei-lhe preito, homenagem e sincera amizade.

Amigos:

A minha estadia na Casa da Costa Nova permitiu-me (e permite-me) noites de regalada beleza. Deslumbramento com esse luar de feitiço em que um homem sonha intrometer-se, e ir com o cheiro da maresia à procura do impossível. Na cadeira postada na varanda que criei naquele absurdo paraíso, parecia-me (e parece) esquecer-me de tudo. Mesmo o de tocar a vida com a mão. A minha liberdade está na minha capacidade de isolamento. Deixo a vida e sinto que é possível viver o amor primeiro, a glória, a derrota. Fico ali longe das asperezas e da insinceridade do fingimento humano. Naquela cadeira estrategicamente posicionada na imensidão da ria, esqueci sempre o que me oprime. Ali ganho forças. Liberto-me.

Fui (e sou!), um ser desgarrado. Porque completamente livre: de tudo e de todos. Imagino-me um escravo que à força do pulso ganhou a liberdade. O maior bem da vida. Tive nesta uma posição estética. Não posso deixar de assim lhe chamar: os insultos ou até impedimentos com que me tentaram ofender, não chegaram a ultrapassar mais do que a soleira da minha indiferença.

Vivi (e vivo!) ali, noites em que a vida vai, foge, vem, e me enlaça. Desejei sempre ter artes para dar mão ao enlevo. Dar o amor às palavras: o mesmo que minha mãe deu quando me teve. Quietinho no sussurro dessas noites, chegam-me notícias de amores que não voltam; sonho que me poderiam fazer crer, utopicamente, ainda ser possível. Embalado na quietude dessas noites, parece-me ouvir tambores ao longe anunciando novos mundos. Onde não se fosse feliz por querer, mas por ser. Tão só!

Perdi-me em noites –e dias (!)- porque sol da Costa Nova traz com ele os orientes da imaginação, a contar as indeléveis pegadas que fui deixando para trás. Retratei-as. E intui o poeta quando nos diz da íntima certeza/ de que tudo é verdade /o que de nós disser/ a mudez da saudade. Fazia-me bem dizê-las, indiferente a ter ou não nascido para poeta. Sem vergonha de me ensaiar. Doía-me mais não as ter dito.

E sem ter propensão a estados poéticos delirantes – que fique claro!- arregimentei umas palavras, catei-lhes o fel e vinagre, e botei-as ao papel. Primeiro timidamente. Aquilo saía-me (e sai-me) num espasmo. Dava-as à Zida *uma excelente declamadora que nunca se quis afirmar publicamente, senão uma ou duas vezes, e pedia- lhe que mos lesse. E ou os rasgava ou os alinhavava no Blogue, ouvida uma ou outra opinião. Um dia alguém os juntou, chamando-me a atenção para a dimensão. Eram já centenas, sem que soubesse, um ao menos (!), de cor. Senti que tenho uma imaginação perigosa, porque volátil. Perco-a, porque são tantas as sensações que me deixo embaraçar pela quantidade.

Uma coisa fique claro: mesmo nessas horas de sonho, nunca perdi o norte:-a vida vive-se vivendo-a. Não a abastardando.

Aqui chegado, curvo-me perante a V/ amabilidade em terem vindo viver estes momentos comigo.

Atraso a vida sabendo que a morte tem pressa. A magana já me levou o que de melhor tive. Que espere.

Rotularam-me, vai para meio século, de «homem polémico». Perseguiu-me este rótulo. Que maneira porreira e simpática de me chamarem incómodo, ou até outras designações menos sociáveis. Fui preso três vezes por «agressão e ou desrespeito à autoridade. Julgado e ilibado. A Srª Pide distinguiu-me como «um elemento perigoso para a nação». Assim o atesta o processo e a inquirição. Mandou que o Comando da unidade onde me encontrava, exercesse sobre mim apertada vigilância. Era eu o Comandante. Respondi ao ofício garantindo que o referido oficial, será seguido dia e noite. Pudera!: eu até dormia com o referenciado e putativo revolucionário de pacotilha.

Com todas estes desvarios, não escrevi o livro que sempre quis –e quero !-escrever.

«PUTA DE VIDA»

SF – 2013 (CHIO PÓ PÓ )

 

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...