sábado, novembro 30, 2013





 

De: Mim

Para.: Ninguém

(Qualquer semelhança entre este exercício, e  alguém, é pura coincidência. Ninguém é  de ninguém.)

 
Sábado do meu descontentamento

 
Começo a despertar e a dispensar-te do meu pensamento.

O que fazes ostensiva em nome dum «mata à fome»,começa a deixar que se não refugie, em  mim,  a «minha» imagem de  Ti ( não o que és...)

Afinal constato, tu nunca poderias ser, o amor que idealizei, tu poderes ser. Verdadeiro lapso, que a mentira deixou sobreviver. O fazer de conta não duraria.....uma mentira continuada.

 
E é assim: amo-te como aos poentes. Ou o luar à noite. Com o desejo que o momento exista, mas que não fique. Gosto da sensação de vê-lo ,mas já não, de o ter .

 SF  NOV 2013

domingo, novembro 17, 2013



Mapa  de 1783(5?)

Se os anteriores mapas publicados,referentes à Laguna de Aveiro e às vicissitudes ocorridas na zona mais instável  da sua área geográfica,são  preciosos –porque pouco ou nada divulgados –o presente mapa é,a nosso ver,de extrema raridade.
 
Mapa da Barra da Vagueira de 1783
 
Tenho mesmo pena de, aquando da edição de João Sousa Ribeiro[1] não ter possuído esta imagem cartográfica –e tanto a procurei! – pois ela é,sem duvida,a melhor representação que conheço da Barra da Vagueira. Que veio resolver a grande crise lagunar do Séc. XVIII, salvando vidas, libertando as populações da tragédia das pandemias -que dizimaram cerca de 2/3 da população na região – trazendo de novo vida á Laguna.Permitindo o reinicio do sonho das gentes.
Mas  o mapa levanta algumas questões curiosas, que assinalo:
1-      A representação incide com clareza e evidência, sobre a barra da Vagueira, aberta em 1757 a expensas totais por essa figura ímpar aveirense, o Capitão  mor João Sousa Ribeiro, para nós a maior figura da história de Aveiro. Ombro com ombro a José Estevão.
2-      A representação  assinala com rigor a  veia do canal mais profundo. A largura da barra que chegou a ultrapassar as 250 braças, permitia, ainda à data,   fácil acesso e boa manobra interior a navios de alto bordo.
3-      Contudo detectava-se já um problema de instabilidade nas imediações da Barra.O cabedelo norte começava a desaparecer, e corria-se o risco de romper, desfazendo a barra.
4-      E é por isso que olhando atentamente o mapa se nota marcado em duas linhas XX (avermelhadas),  uma obra projectada de intervenção, que consistiria em fazer um paredão de ligação do cabedelo à ilhota central, o que desviaria certamente as águas, evitando a pressão sobre o cabedelo. 
Aqui  envio esta preciosidade, mapa que como os anteriores(e outros a chegar) me foram gentilmente cedidos por Rui Bela, do seu acervo RIALIDADES:
 S F  Nov 2013





[1] Fonseca,Senos in «O Pai da Pátria João Sousa Ribeiro»

sexta-feira, novembro 15, 2013


Mapa de 1867


No seguimento do mapa ,cópia rara,que mostrámos no ultimo blog,vimos agora  trazer nova carta representativa da zona da Ria de Aveiro,em data próxima ao final do Séc XIX(1867),registo muito curioso  a  que raramente se tem acesso,e onde se podem analisar as seguintes particularidades da zona envolvente da  barra aberta, em 1808.
 
 
Registemos:
1-      Nesta representação pode ver-se o dique que cortava as águas para o Canal de Mira (comportas).E foi sobre ele que irá ser executada a 1ª ponte das DUAS ÁGUAS (1861).
2-    Nesta representação é já assinalada a ponte da Cambeia, que dava acesso á estrada para Aveiro,construida em 1865.
3-      O Farol da Barra de Aveiro, logicamente, não nos aparece representado,pois  à data, estaria em construção (que só terminaria em 1893).
4-     O Canal de Mira aparece-nos praticamente assoreado,sem ligação franca ao mar.Situação que só seria corrigida com as obras no «Triangulo» da separação das duas águas,e o retirar das comportas.
5-      Curioso ,sem duvida,é o  rigoroso desenho da ilha do Posso,que foi pertença de João Sousa Ribeiro[1]e a ilha do Monte Farinha.
6-      Pode detectar-se o que mais tarde viria a ser o esteiro(canal ) de Oudinot,embora  com um traçado ligeiramente diferente do existente até ao século passado.
7-      Muito curiosa, a restinga situada atrás do Forte (Novo),praticamente dividida em duas por uma entrada de águas.Esta restinga corresponde à zona onde hoje se situa o Porto Comercial.
Pelas razões expostas,e porque o mapa é uma raridade(feito chegar ás minhas mãos por Rui Bela),julgo de interesse a sua divulgação e as  minhas chamadas de atenção.

 

 SF- Nov 2013

 

 

 

 



[1]  Fonseca,Senos -«O Pai da Pátria»- João Sousa Ribeiro

domingo, novembro 10, 2013



 Ao  crico....

Em um destes dias da semana, que hoje termina, logo de manhãzinha, aprestava-me eu para o exercício físico diário, matinal, fiquei pasmado como espectáculo que se me deparou, ainda mal tinha transposto a porta.


Dezenas e dezenas de pequenas embarcações apinhavam-se na c’roa da Biarritz. Na sua beirada  uma multidão de gentiaga gadanhava com as cabritas as areias que a maré punha a descoberto.

Olhando mais para Sul,constatei existirem outros dois grandes bancos de pesca  da apanha do crico: – um em frente à antiga mota das barcas, e um outro já embrenhado no canal de Mira.

Fui observá-los, tentando fazer um calculo das embarcações envolvidas neste esforço de pesca :  eram cerca de 250,num total de MIL!!!!!mariscadores(e mariscadeiras) embarcados.
Espectáculo deslumbrante. Uns nas bateiras(ou chatas que hoje substituem o bateirame),cabritando de dentro; outros na c’roa, gadanhando,enquanto o mulherio  passava o crico   para as nassas,  para logo depois o lavarem à borda,ensacando-o de imediato.

Abordando uma tripulação, inquiri qual seria a média da apanha por embarcação. Cerca de 200kg!!!.Isto significa, apenas, que neste canto da Ria se pescam por maré mais de 5 Ton,que segue logo para Espanha.

Ora se pensarmos que do outro lado (canal de Ovar) o esforço de pesca é igual, senão maior, constata-se  como ainda hoje a Ria é, um celeiro  pródigo para a sustentabilidade da pesca artesanal.Cujos réditos  superam  o valor vendido em lota, da pesca costeira. E há que admitir que se calcula que no referente à apanha da ameijoa, apenas um quinto do valor apanhado passa pelas malhas do controlo.

Durante toda a semana tem sido uma azáfama. A apanha continua e o berbigão está simplesmente esplendoroso.










Esta apanha do crico (trato deste assunto no livro «Bateiras», em fase de conclusão), vem de tempos longínquos, tendo sempre uma importância fundamental na actividade piscatória (tendo  sido  criada, mesmo, uma embarcação própria para a sua apanha:- a Berbigoeira.


 

 

                                                                     Berbigoeira c/sarilho

Enfim: do meu terraço o dia surge esplendoroso de vida. Bendito o sítio que em tempos escolhi .Aqui sinto-me defendido das agressões da vida. Rendido à  grandiosidade  da natureza, com o olhar encharcado  desta   luz     imaculada,a   sublinhar e dimensionar  estas figuras            humanas. Por vezes dando-me a ilusão da eternidade.
SF  Nov 2013
 

quarta-feira, novembro 06, 2013





   Mapa de 1801


Através do Rui Bela que consistentemente vai acumulando o mais extraordinário espólio sobre a Região, vieram parar-me ás mãos ,para decifrar, três preciosidades.

Hoje exponho e comento,a primeira: o  mapa de David Rumsey e Jonh Carry que se pretende seja de 1801.


                 



 Ora este mapa, datado de 1801,curiosissimo,de uma raridade assinalável , levanta-me uma série de dúvidas:

           1- Atente-se que o nome de Aveiro,refere uma hipotética designação de ou Nova Bragança  .No meu livro «O Pai da Pátria- João Sousa Ribeiro» relato este acontecimento p 137. E se é certo que o Prior da igreja de S Miguel,com medo das represálias do Marquês de Pombal  após o regicídio de  1758 sobre D  José I, alvitrou a hipótese da mudança de nome, o certo é que oficialmente, tal propósito nunca tal aconteceu, E como referido no livro  referido, foi precisamente  por interferência de João Sousa Ribeiro que Aveiro -Villa, foi elevada a Cidade. Não é pois compreensível a referência  no Mapa.
 
            2- A Barra, na posição que tem hoje, e que corresponde ao que está representada no mapa, só foi aberta em 1808.Como poderia então estar já formada como se representa no mapa? Nessa data -cerca de 1800 -em melhor ou pior estado, a barra, era a aberta pelo referido Cap-mor João Sousa Ribeiro  (1757) próximo da Vagueira. Por isso a data de 1801 parece-nos absolutamente errada.

             3-Muito interessante é sem duvida  a baía referida com alguma exactidão no Porto de Mira.
Duvidamos contudo que nessa data a  baía, tão larga e espaçosa (foi um portinho de média dimensão que serviu a Gândara),ainda existisse com aquele aparato. Esta representação parece-nos recolhida do mapa de Joan Blau (1665),onde aí sim, o Porto de Mira é assim desenhado.

              4-O Mapa ,contudo, tem uma preciosidade. Marca como nenhum outro até à data ,que conhecemos, o nome de todos os lugarejos.E salvo uma ou outra discrepância ,parece-nos correcto.
 
                    E assim sendo, apenas duvido da exactidão da data que lhe é atribuída.

     SF (Nov 2013)

 

sexta-feira, novembro 01, 2013


E porque hoje fazias anos.....lembro-Te


Olha amor!
Anda! … junta as tuas mãos
Mete-as aqui aconchegadas nas minhas
E vem fazer o que tantas vezes fizemos, sós:
Vamos falar aqui baixinho
Como que a rezar ( o que eu nunca soube fazer)
Mas baixinho ouves melhor a minha voz.

Partiste há uma imensidão de tempo.
E nesse tempo turbulento e desesperante
Nunca soube ao certo de onde soprava o vento.
No recanto dos  teus encantos, procuro-te a cada momento.
Olho para a ria, onde vejo cintilar os teus olhos verdes
E neles o reflexo das estrelas, estilhaços do coração
Então o nada será tudo…serão farrapos da emoção(?)

Tenho trabalhado, mas sem ter a tua crítica
Não consigo distinguir o bom do mau.
Ai daqueles que como eu perdem o ajuste!
Nunca mais o seu trabalho será alegria.
Nem o sono, acredita, disfarce de doçura
Não há  mais  noites de ternura,

Exprimir-me mesmo ,para quê?
O muito que tinha ainda para te dizer
Melhor será nunca ficar dito.

Olha amor:
A renuncia por vezes é bela!
Mesmo que por vezes seja dolorosamente fria
Porque aqueles que me ouvirão
Não amarão o que eu digo
Com os ouvidos com que tu me ouvias.
Se era erro: – lixo. Se era fantasia, amor, loucura paixão
Iam para o álbum.
Tu foste sempre a decisora das minhas grandes decisões
Tu foste a doçura de um longo passado
E se o recordo é porque Tu estás sempre presente.

SF- 1.11.2013 (dia teu aniversário)

terça-feira, outubro 29, 2013




 

À  janela da vida

A vida vive-se, é certo, vivendo-a. Só assim podemos perceber quem nos ama e quem nos finge amar.
Aqui chegados, experimentados até limites pouco entendíveis, concluo que o grande mal esteve em mim.
Concluo que sempre que estive de acordo com a vida, estive de mal comigo mesmo. Ao contrário, quando me senti procurar a vida, de novo ,esta fugiu-me.
Nunca fiz nada para mostrar o que não sou, ou não quero ser. Sempre que quero mostrar poder ser algo diferente, sei quanto isso me custa.
E hoje quereria ter a capacidade de me sorrir de toda a trapaça em que me vi, repentinamente, envolvido. Mas na verdade continuo a sentir um mal estar por não perceber.
Recorro por isso  a qualquer coisa que me faça não pensar na crueza da insensibilidade mentirosa, que continua a ser a verdadeira chave do  mistério. E enquanto não obtiver a resposta cabal, lógica, entendível, durmo e desdurmo,  sonho e acordo, recriando suposições. Histórias confusas,  que me fazem sentir vogar num mar emporcalhado. Fisicamente a mentira, queira ou não, oprime-me. Há certas horas que tudo parece parado à minha volta. O mundo e os seus acontecimentos chocam-me, e pouco m ais. O mal que acontece ,parece-me agora indiferente, quando dantes me sobressaltava.
Tento a todo custo recuperar a inteireza da minha personalidade, neste estado de consciência de não ter sonhos.Nem  sequer consciência deles.
SF-Out 2013

sexta-feira, outubro 25, 2013




TO BE OR NO TO BE….


Sócrates, ontem e de uma penada destruiu os mitos com que o pretenderam assassinar.

Eu gosto de homens que lutam atá ao fim. Não esqueço os seus erros. Mas não conheço nenhum primeiro Ministro que os não tenham feito. Bem piores....bem  piores...
Mas vamos lá ...
Em primeiro, Sócrates mostrou que poderia ter tirado todos os cursos, quaisquer que fossem de uma qualquer Universidade das muitas que se arrastam por aí a vender mestrados e doutoramentos (para encaixilhar).

Sócrates é um Indivíduo  voluntarioso,lutador e irritadiço. E é destes que eu gosto. Amorfos é que nunca.

Nos Governos de Sócrates sabia-se quem mandava. Agora é que descobrir quem manda, é obra de monta.

O País e Sócrates, foram tramados. Por dois indivíduos: Cavaco Silva e Passos Coelho (ontem num programa da RTP, isso foi confirmado, pois há muito se sabia. Esta capitulação á Troika, foi pura e única responsabilidade daqueles tipos. Ambos uns pingentes da politica.

E claro: Sócrates não anda por aí como aquele  faz-de-conta politico  Santana Lopes. Não Sócrates está aí, e só uns tontos é que não percebem onde Ele quer ir.

Eu sempre gostei do Sócrates: antes e depois. Tínhamos um politico. Agora temos uns rapazitos à espera que a casa lhes caia em cima. E Seguro, tem de se definir. Já demora muito em se impor   como alternativa

 E esta de não admitir que um individuo volte ao que sempre fez, parece-me um verdadeiro atentado, Para uns saudosista direi: até Salazar o fez

SF
Este papa dinheiro, com cara de burriqueiro, ,chamado Cartroga, a mamar despudoradamente na teta  da vaca que criou, veio com  aquela do julgamento. Ora a haver alguém a ser julgado, é  este almocreve que mensalmente enche os alforjes.

terça-feira, outubro 15, 2013



VALDEMAR AVEIRO e os seus murmúrios


Já o tinha referido: na passada tarde de dia 10 fui à LELLO, monumento de uma beleza perturbante, carregadinha no seu porão de tudo quanto, de escrita, se publica neste País, onde um autor faz o possível e os impossíveis para se ver na frontaria do livro esparramado na montra…

Escrever….escrever….sem nunca mostrarmos verdadeiramente quem fomos e o que somos. Porque a verdade é que o que fazemos ou dizemos, é apenas uma parte de nós.

Ora eu fui assistir à apresentação do livro com que o meu amigo Valdemar Aveiro, encerra (por ora) a sua trilogia sobre a pesca do fiel amigo, não já no capítulo da Faina Maior (título soberanamente copiado do «Grand Métier», francês) mas na Faina Menor, onde curiosamente, aqui sim, o Capitão era o maior, o único.

Não sei porque Valdemar (ou alguém por Ele) escolheu o título poético «Murmúrios do Vento».

Basta ir à página 121 e ler:

Quando ao vento, insensível ao estratagema, bufava iracundo (…) rasgava em pedaços as velas, partia mastaréus…

Ou

 O primeiro, de humores muito variáveis, passava de uma postura pachorrenta, de calma podre, a um ciclone medonho…  

Não; não há naquela vida que o Valdemar nos consegue contar de um modo leve, misturando para isso a dureza com as saborosas estórias do rancho, como que a dizer-nos… «bem a vida era assim, mas aquela gente tinha coração, alma, e até…sabia rir….». Um homem não é de pau. E por isso «as garinas» aparecem e desaparecem, mas curiosamente, sempre respeitosamente, cumprindo a sua missão.

Na pesca não há lugar para eflúvios poéticos. Aquilo é para quem deixa a poesia em interlúdio, página marcada, à espera de voltar à paz quente da lareira familiar, que Valdemar sempre teve nos intervalos da rudeza descabelada daquela vida.

A maneira privilegiada com que Valdemar recria as relações humanas, que promove até ao cuidado extremo de distinguir o lugar do «camião cisterna» a que por matreiro interesse senta à sua direita, permite perceber como teria de ser um excelente e matreiro pescador. Valdemar só nunca ofereceu um vintage ao bacalhau, para melhor o enloilar, foi porque o ganídeo é comprovadamente alérgico ao dito. Senão…   

O Dr. Aguiar foi de novo o apresentador. E fê-lo bem, de um modo inteligente, capaz de captar a atenção aos presentes (o actor não é o apresentador…): foi buscar ajuda ao Arq. Paradela, para partilhar a sensação de que este livro é mais do que lá está. É uma partilha de quem, (talvez abusando da primeira pessoa – o Valdemar é isso mesmo!, todos o sabemos!),  no momento próprio,  divide  com «os  seus rapazes» a vitória,  que foi a sua vida profissional.

O Valdemar é um mão cheia de virtudes (e uma das principais características, é a soberana atitude de pedir para os que precisam).
 Claro que alguns gostam de lhe catar um ou outro defeito. Pudera!!!!!  A vida do Valdemar era um campeonato: havia os bons, os assim-assim, e os «trutas». Por estes se aferia o que os outros faziam. Valdemar expressa despudoradamente nos seus livros – mas era assim mesmo – com que grupo (fechado) de capitães pescadores mantinha «a ratice» de brincar ao gato e ao rato.  

 Por isso...
 
Senos Fonseca

 

sábado, outubro 12, 2013




 

O sol, afinal apareceu

 

Acordo desta sonolência em que ,de tarde, sozinho ,me deixei cair.

Lá fora uma existência serena, a que falta bulício e vida. A tarde foge e acaba imperceptivel. E eu vou-me com ela.

Olho o céu e não lhe vejo o azul claro; há um azul vago.Vago como é a minha vida, hoje. Começa a aparecer um rosado ,a anunciar o ocaso. E o meu ocaso? Será que também tem um rosa desvanecido, só para dizer: ainda cá mora….

Fixo a ria. Tingida de um uns tons inexplicavelmente submissos, perante a sonolência que nos envolve: a mim e a ela.

E encontro repentinamente o esclarecimento: o que existe em mim é tédio. E por isso vejo tudo empardecido. Nesta tarde em que me deixei vencer, percebo como o tédio logo deu para conviver comigo. O tédio sou eu mesmo. O mundo exterior está lá. Eu é que não consigo sair de dentro de mim.

Não me apetece fazer nada. Um torpor de existência sem sentido.
Não gosto, sinceramente, deste azulado indefinido.
Mas eis que repentinamente se abriu o pano de cena. E veio a diva: de vermelhão…

E atrevida, descalça um sapato (ele vermelho, também …) e pergunta:-Posso?
E logo as sensações decorativas da minha alma mudaram de tom. E acordei…
Sinto que ao acordar, estou a sentir uma grande esperança:  a   de viver o momento que passa.

Depois que o pano baixe. O sol, afinal apareceu. Bastante….
SF Out 2013
 

sexta-feira, outubro 11, 2013




CALDO ENTORNADO

Ontem fui ao Porto, não por acaso, mas intencionalmente, para assistir no maravilhoso site cultural da cidade- a livraria Lello-  à apresentação ,do livro do Waldemar Aveiro –«Murmúrios do Vento».

Falarei disso noutra altura.

Cheguei com horas apertadas, fui á bilheteira comprar ingresso, mas o funcionário disse-me que não era preciso tirar bilhete, pois tinha três viagens no cartão. Quando entrei no comboio veio o revisor, que fez cara estranha ao cartão. Disse-lhe o  que o colega me tinha transmitido. Mas não! O problema, informou em proposição tipo policial o zeloso funcionário da CP,é  que eu deveria ter «validado?»  o bilhete antes de entrar no comboio.

Caldo entornado…
-Mas então Você não está aí para validar?
-Não,eu estou para «rever»…
- E revendo você verifica que eu ainda tenho três viagens ,pagas!!!!!
-Pois…mas tenho de o multar…
-Olhe multe, se isso lhe dá gozo…

E passa-me uma factura de 176,00€!!!!!!

-Você é parvo ou…quê?....e quer que eu assine isto?.....vá dar uma volta ….e encontramo-nos no tribunal se eu ainda for vivo(ou se os revisores da CP, não forem despedidos até lá…).
E assim fui até ao Porto.
Este tipo despertou em mim a gostosura de mandar estes gajos (tipo policias),imbecis, que nem se apercebem o que lhe estão a fazer:

À merda….
SF   Out 2013
 

terça-feira, outubro 08, 2013







   Delete



   Entrei no bar ,e sentei-me ao lado de um excelente fotografo  da nossa praça. Mais um free lancer à procura do seu….momment (está em moda)

   Copo atrás de copo, e saiu-me

 - E andei eu, dezenas de anos, atrás de um amor mítico ….queixei-me.

-E eu ando há mais – respondeu-me, bebericando e gesticulando. E olhe: não fixei nada de mítico. Tudo banalidades.

-Pois, mas  para tal, tu só tiveste de  carregar, só e apenas, no botão da tua Nikon. Eu esfarrapei-me.

-Olhe faça como eu: carregue no «delete»….e já está….apague o que não presta. Não pense mais nisso.
 
   SF  OUT 2013

domingo, outubro 06, 2013



   Ouves o mar a chamar por nós?

Fui passear à noite ao mar. Fui só para cumprir um ritual, pois parece mal, estar aqui há sete meses, e nunca me ter apetecido ir ao mar.

Vai-se ao mar, creio eu, olhando o passado, quando a vida é alegre e despreocupada.

Certo que em novo, fui dezenas de vezes, à noite, acompanhado (bem acompanhado!) ao mar. Estranhamente parecia que o som das ondas, à noite, tinha o seu quê de toque estranho. Parece que nós próprios, nos tornávamos diferentes ao ouvi-lo.

Parece naquele som vago da onda que rebenta e nos envolve, se resume a quantidade de esperanças que ganhamos ou perdemos.

Quando no mar a onda rebenta contra a areia, fica um longo sussurro (choro) que se prolonga, audível, pela noite fora.

Ontem pareceu que a vida tinha parado. Oh! que sentido de leveza. Coração e vida parados, vagueei no sonho, arremessei, desenhei formas e palavras, regressando àquelas brincadeiras de garotos, em que escrevíamos na areia:

 – AMO-TE (como se existisse de verdade, e em verdade, o amor).

Ou mais simplesmente se desenhavam dois corações dilacerados por impiedosa seta (unificadora na glória da ….). Todos aqueles símbolos (oi!!!!, tantos…tantos ….) eram uma expressão de sentir ou querer, logo – sei lá se felizmente apagados pela onda seguinte. Claro: a vida a apagar, nós a teimar, na afirmação. Quem sabe nessa idade o que pensa ou até o que deseja (fora do natural e humano desejo (?!).

A verdade era  que

aquela música sensual  ouvida, ritmada, com  a vaga a enrolar na areia da praia parada, parecia ser uma ordem para que os corpos se alinhassem ao comprido, e cumprissem a razão da sua diferença.

 
Amei muito ao som da música (enlevo do mar).Quando disso me recordo, não choro!....de saudade.  Ergo uma taça, brindo, e repito:
 
                                   Oh!  tempo bendito
                                    Tempo infantil;
                                    De duna em duna
                                    A sussurrar-te ao ouvido:
                                    Ouves o mar a chamar por nós?
 
 
                                     E a duna foi a nossa cama florida
                                     O doce colchão do nosso amor
                                     Em festa….de vida nua,
                                     No pulsar aflito sob a paz que vinha
                                     Do céu…
                                     E do mar, que a areia de branco
                                                                                   [debrua.
SF. Outubro 2013

 
 
 

sexta-feira, setembro 27, 2013


 

 

Pediram-no?

Pois  ele aí está: – o Inverno  do meu descontentamento (embora na comodidade da lareira, às vezes não o seja).
Dia pardacento, ria encrespada, irritada, vento barulhento  vindo lá de baixo, vento frio, mais parecendo-me um vento escuro a que nos apetece fechar a porta, e dizer : vai-te, arrenegado!

                     

Sentado em frente da ria, vivo momentos de tristeza introvertida, minha, só minha, que não quereria transmitir aos outros. Felizmente (?) estou só…
Esta quase sonolência, oprime. E por vezes acode-me a ideia da estupidez que é esta vida. Dificilmente se consegue extrair um sentido profundamente justificativo para a mesma.
Mas a questão é que eu, e quase todos aqueles que conheço, contamos os invernos  a ver se ainda cresce mais algum.
Amamos a vida mesmo que ela nos não ame. É estúpido…. mas é assim.
 
SF   

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...