sábado, janeiro 18, 2014




A «ílhava»   Parte II

As visitas tinham um ponto muito curioso. Quando lá chegávamos, já a Etelvina Almeida, uma interessada e excelente fotógrafa – e mais do que isso (!) uma amante das vivências da Ria – por lá cirandava, alcandorada ao escadote ou metida pelos recantos da embarcação, procurando o melhor ângulo, a «disparar» para  registar todos os pontos da execução do projecto (as suas fotografias, em boa hora expostas no MMI, são preciosas).
Ora uma das fotos despertou-me a curiosidade. Atente-se …
 
 
Esta perspectiva recorda a lenda que já insistentemente referi noutros locais. Numa visita Viking, os temíveis nórdicos, no sentido de libertar uma princesa do clã, cativa lá bem para montante do rio, teriam construído, aqui, embarcações pequenas de fundo chato bicudas nos extremos para poderem navegar nos rios estreitos, nos dois sentidos (etc…etc.)
Esta feliz imagem não pode deixar de nos trazer à memória a tal lenda. Então não está ali criada a ilusão de estarmos perante um pequeno «Knarr» de fundo chato?
Pode dizer-se que a construção decorreu em ritmo acelerado.
 
A feitura da vela, cujo plano era um pouco diferente das velas actuais, levantou ligeira preocupação. Desapareceram, praticamente, todos os mestres veleiros. Foi então lembrado o Marco Silva, arrais da Xávega da Torreira, uma excelente personagem que tem velejado no moliceiro da Junta de Freguesia de S. Salvador. Um campeão nato. Desafiado no seu Armazém à borda do mar pela AML, logo ele, auxiliado pela esposa, se agarraram aos planos fornecidos e, na garagem, iniciaram a feitura. Difícil hoje encontrar pano (10 ou semelhante) para a execução, como nos tempos antigos. Houve, assim, que aproveitar pano de duas outras velas de bateira. E mesmo assim, a vela da «ílhava» ficou sem menos uma teada do que se pretendia.







Tal facto fez-me concordar com a montagem do calcador. Creio (ou estou certo) que a vela de pendão inicial das «ílhavas» não tinha calcador, pois armavam na amura de barlavento. Claro que houve evolução, e as últimas tinham já velas tipo das desenvolvidas nos moliceiros (sei-o bem!)
 
 

 
Outra decisão onde foi necessário encontrar unanimidade, foi na finalização: abandonou-se a aplicação do breu, com excepção da coberta da proa, preferindo uma tinta (subcapa) fosca, sem brilho (como no modelo), o que deu um acabamento talvez demasiadamente perfeito (mas muito bonito). Por dentro, preferiu deixar-se a madeira ao natural, apenas coberta por um protector incolor. O realce (contraste) parece-me (é minha opinião) muito bom.

Dado que nesta embarcação não existia o varão para a escota, porque tal atrapalharia a manobra da rede (e porque a vela era apenas para deslocação aos largos), a mesma manobrava através de dois furos abertos na borda a ré. Admito que a posição desses furos, depois de armada a vela, reflecte que, para boa manobra do leme de xarolo (gualdropes), os mesmos deveriam avançar cerca de 20 cm. Coisa sem grande importância.
Claro que a Sala da Ria é exígua para a quantidade de embarcações que alberga. Mas isso é um outro problema.
E volto à ideia que venho defendendo desde há muito. A criação, num outro local (e nenhum será melhor que a Costa-Nova) para aí implantar, um simples mas folgado Museu da Ria e da Xávega, onde se incluísse a exposição de todas as artes inventadas e usadas na Laguna. Já imaginaram o plano (turístico) de visita museológica aos três Museus: da Ria, MMI, e VA, feito sobre água, com programa de entretenimento (Palácio VA) apelativo?

Ora…ora. Temos os diamantes e não sabemos, é, vendê-los.

Estou a terminar (depois de longo tempo) o II Vol. das Embarcações Lagunares. Agora no capítulo das Bateiras. Trato nesse livro, uma a uma, em 2D. Mandei fazer modelos à escala, de todas. E depois, desenhei-as todas em 3D. Mas não satisfeito, atirei-me a tratar de todas as «artes» de pesca lagunares. UfaA!!!!!. Recuperá-las, desenhá-las, descrevê-las, também elas para memória futura, já que a maior parte desapareceu, e de algumas ter sido  mesmo difícil encontrar referências exactas : nem Vos digo! Consegui a sua reprodução a uma escala dessas artes, para apreciação visual concreta.

Assim, a Laguna é o único meio geográfico, em que todos os tipos de embarcações tradicionais que nela trabalharam, ou navegaram, estão, completa e rigorosamente recuperadas, para memória futura. É minha intenção oferecer todos os modelos e Planos (e seus direitos) ao MMI.

 

(CONT).
 

 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

 

«Ílhava»

 
Agora que a «ílhava» navega nas águas remansosas do MMI, onde pode ser apreciada em toda a grandeza e beleza das suas geniais linhas, acabados os festejos, atirados os foguetes (e recolhidas as canas), julgo útil deixar aqui um testemunho de quem um dia a descobriu (?) entre papéis, e se apaixonou pela sua grandiosidade e graciosidade. Uma embarcação é como uma mulher: nas suas linhas descortina-se, ao primeiro olhar, se é ou não embarcação de boas mareações. Depois….Bem! depois…..é preciso  mão firme no leme e escota bem aconchegada.

 Mas voltando à «ílhava». A paixão levou-me a seguir o seu historial e a descobrir a saga dos irredutíveis «ilhos». Gentes que só tinham medo de não ter medo. Que respeito...isso é outra conversa!

Vamos então à história.

Já lá vai quase meio século, quando preparámos um trabalho sobre Ílhavo (para um concurso levado a cabo pelo Illiabum, que ganhei, e cuja importância material, ao tempo assinalável, deu origem à sustentação do prémio Mário Sacramento).Criado  para premiar o melhor aluno da Escola Secundária de Ílhavo – ainda então, sem o nome de João Carlos, manteve-se durante vários anos.

Ora foi no desenrolar desse trabalho que tomei contacto com a «ílhava».

Possui – comprei, recuperei e tratei amorosamente – muitas embarcações lagunares, incluindo um moliceiro. Bateiras, muitas. Dóris, etc., etc. Estava então a viver o pico de paixão pela laguna, e sua história. A «ílhava» veio aumentar a paixoneta.

Interroguei toda a gente e constatei que ninguém – mas é que mesmo ninguém (!) - se lembrava de tal  bateira. Meu Pai recordava-se que meu Avô tinha por costume, levar numa delas ( que alugava) a numerosa família, às festas lagunares. Contudo meu Pai, que era então ainda um rapazinho, não tinha ideia concreta das formas. Olha!... dizia-me: era parecida com um moliceiro, mas não tão curvada na proa. Mais bonita… Frederico de Moura foi outro dos inquiridos, sem ter qualquer ideia precisa. O mesmo direi de Amadeu Cachim, este um pouco confuso, lembro-me, com a «Preta Murtoseira» do Ti Tainha.

 Fui observando, recolhendo elementos, e, há cerca de vinte e tal anos, fui falar com a D. Ana Maria Lopes (então directora do Museu) para saber se no mesmo existiam elementos identificadores. A Ana Maria desconhecia. Passados uns tempos, a Ana teve a amabilidade de me enviar umas folhas fotocopiadas, do livro de Castello Branco que tinha encontrado, e onde a ílhava é referenciada (sem dúvida, a referência que foi bastante para fazer luz e permitir ordenar as minhas ideias).

Na visita já feita ao Museu de Marinha, não vi nada de clarificador (o modelo de barco  que o Cap. Marques da Silva reproduziu mais tarde, com o rigor habitual, não estava em exposição.Ou não o descortinei).

Não desisti e da recolha feita (com todas as fotografias que encontrei nos alfarrabistas de Lisboa e Porto, e de outras referências, julguei estar em condições de desenhar, em 2D, as linhas que supunha, serem suficientes  para construir à escala 1/1, uma «ílhava».

Resolvidos os primeiros problemas depois de assumida a Direcção do Clube de Vela da CN, depois de conseguirmos a dadiva do moliceiro, «O Ilhavense», recuperado e posto a navegar, como novo, propus que em partenariado com a SIMRIA, se levasse  a cabo a construção de uma «ílhava». Para o efeito contratámos o mestre Conde, na Gafanha, fornecendo-lhe os planos (muito ténues).Adquirida a madeira, fechámos acordo: – 400 contos, então.

Passados meses, o Mestre Conde contactou-nos, informando que, dadas as dificuldades, desistir da empreitada, propondo-se (honestamente) devolver o dinheiro do custo da madeira.

Que remédio…tivemos de aceitar.

Com a feitura do livro «Embarcações que Tiveram o seu Berço na Laguna», aprofundámos os saberes. Desenhámos já com rigor, então, os planos em 2D de todas as embarcações nele  tratadas (os ex-libris lagunares). Mas talvez influenciado pela necessidade de facilitar a vida a quem quisesse construir, lancei-me, auxiliado por um profissional,  na aventura de arquitectar os planos a 3D. No final, eu próprio fiquei deslumbrado com o resultado do trabalho final.Que demorou três longos anos a concretizar (mas que valeu a pena com o prémio da Academia de Marinha que lhe foi atribuído).

O modelo da «ílhava» à escala 1/27 foi executado (como o foram todos os restantes para estudo pormenorizado). Pareceu-nos na altura correcto, pois havia diversos pormenores (plano vélico, manobra deste, remos, encosto do mastro, etc.), que foram objecto de um longo aprofundamento.

Foi, entretanto, mostrado no Museu o modelo do Cap. Marques da Silva. Reproduzindo exactamente  o modelo existente no Museu de Marinha, que nessa altura era já do meu conhecimento (julgo que no Museu da Marinha está –ou estava – identificado como «Saveiro»). No Blog de então, fiz uma comparação entre as diferenças vislumbradas no meu modelo e aquele. No fundamental, residiam no plano vélico e nas linhas da bica. No resto eram coincidentes.

No ano passado recebi uma convocatória dos AMMI. Foi- me então dado a conhecer a pretensão de mandar construir uma «ílhava». E solicitada a informação sobre a possibilidade, foi-me inquirido se aceitava orientar o mestre construtor e se os planos que tinha eram exequíveis.

Sobre o mestre não havia dúvidas. A minha longa experiência e relação com o mestre Esteves,de Pardilhó, fazia-me indicá-lo, sem qualquer rebuço, como o mestre mais capacitado para a execução. Quase diria, único ,capaz de tal proeza.

 A questão  colocou-se  em tirar os planos da embarcação a uma escala 1/1. Contactada a Martinfer, houve que pôr de parte a ideia. Lembrei-me, então, de procurar junto das empresas em Aveiro, o maior scanner instalado. E encontrei finalmente um, que permitiu tirar, num plano único que mais parecia um lençol ,toda a embarcação (as cavernas no tamanho real tiveram de ser tiradas ao correr com o papel, pois o scanner não permitia outro artificio).

Mas a embarcação no seu tamanho natural, em todas as suas formas e dimensões, plano vélico incluído, estava ali. Era colocar, peça a peça o «desenho» sobre a madeira...e cortar… E depois usar a técnica de construção ancestral. Uma coisa foi desenhar os planos a 3D.Outra foi testar que os mesmos correspondiam ás expectativas. Foi um dia muito gratificante, em que constatei que o tempo nunca me retirou a vontade inabalável(por vezes doentia) para me desafiar em ir mais longe.

Com a D. Ana M. Lopes (nomeada para coordenar a ligação com o mestre) fomos a Pardilhó apresentar os planos. Havia um certo receio de uma nega. Bem ao contrário, ao ver os ditos,o mestre  ficou de imediato encantado e desafiado: nunca tendo ouvido falar naquela embarcação, os desenhos à escala real,facilitavam toda a tarefa: era apenas colocar os desenhos e riscar na madeira. O resto (técnica de construção) sabia o Mestre Esteves, de cor e salteado. Era a mesma técnica da construção das embarcações Lagunares. Mas interessante é que o Mestre mostrou-se vivamente interessado em executar. Apaixonado... para nosso espanto. E ainda mais interessante, constatámos no decorrer da construção que, ao contrário da nossa longa experiência, de nesta ou noutra actividade, ao fazer-se algo novo, ser por vezes  difícil obter a abertura e aceitação do mestre executor, em deixar-se conduzir, certo é que, aqui, nunca verificámos  o mínimo de resistência às indicações dadas. Dizia amiúde: eu quero fazer aquilo que Vos satisfaça.

Semana após semana, lá fomos. Umas vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.


 

 Semana após semana, lá fomos. Umas (poucas) vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.
 
 

 
 



Recordo a primeira visita que fiz ao estaleiro depois de iniciados os trabalhos. Deparei com as bicas alinhadas e as cavernas mestras colocadas no picadeiro sobre a tábua da quilha. Fiquei extasiado. Ao natural, a embarcação era soberba.
 


 E o mestre também admirado, ia-me relatando as suas impressões. Com a muita confiança tida com o amigo «Pardaleiro» – alcunha do mestre – um dia disse-lhe:
Venha cá Mestre!...olhe-me para estas linhas do fecho da ré. Isto é obra dos «ílhavos»!!!!. Vocês aqui, depois, tentaram copiar e fazer o moliceiro, mas as linhas deste parecem feitas à enxó. (Claro exagerei, pois o moliceiro é também ele, uma obra de arte, inspirada na «ílhava»).
 O « Pardaleiro» riu-se…….
(Cont)   
  



 

 

                  
 
 

segunda-feira, dezembro 30, 2013

De novo a Joana Gramata





De novo  a «Joana Gramata»


Estávamos no dealbar do séc. XIX.
Joana Rosa de Jesus, descendente do velho Gramata, um dos primeiros que tinha posto pé por aquelas beiras disposto a «lançar ferro», e ali ficar, tinha naquela noite em que o luar espargia, quente e prateado aquele «mar dunar», decidido ir ao encontro do vento. Que se tinha esquecido de espinotear como garrano selvagem, permitindo que o bafo quente saído da terra, ainda a cheirar a salsugem, penetrasse, bofes adentro, como sussurro de búzio. A noite estava calma. Vindo lá do suão a aragem leve, estival, tinha tomado conta da planície, fustigando ao de leve os caniços secos e as hastes de milho que começavam a enverdecer aquelas paragens maninhas. A planura era um mar de silêncio que só o bulício dos milheirais quebrava.

Joana deu por si espreguiçada na duna, a olhar a lua e as estrelas, sonhando com aquela terra prometida, de que se sentia parte, estremecendo de prazer ao descortinar os tufos dos milheirais que começavam a surgir na planura extensa, lodosa e saliente que o mar deixara a descoberto. E sonhou com o dia em que as lonjuras se pintarão de verde forte,  mar alqueivado de vegetação fresca e rebelde, produto da teimosia vigorosa de quem por ali se quedara, acreditando na promessa da terra tenra. Joana estava decidida a fazer parte desse mundo novo, ainda só adivinhado.Custasse o que custasse, fosse qual fosse o cansaço, ou amarga desilusão,  que essa feitura trouxesse com ela.    

De repente foi subitamente despertada pelo barulho de um tropel  de uma manada que se aproximava. O luar reflectido nos olhos  ziguezagueantes dos animais em correria aturdida, fazia parecer que sobre a duna voavam pirilampos incandescentes. Gambuzinos de corpanzis negros avantajados, sacolejando bravios no areal que espirrava do seu tropel,  logo feito  nebulosa faiscante…

Na égua negra de pêlo lustroso, o José Domingos, o «Maluco», rodopiava. Saracoteando-se em rodeio bravio. Para cá e para lá, ora apartando ora repondo no trilho, a manada, enquanto vai gritando: eh!…«Bonita»; eh! «Malhada!»…Chê!..«Desertora» …achegai-vos …ide ao caminho, raios!… 

Joana corre ao seu encontro. Tanto fora já o tempo de espera!.... Dias de sol a sol adiados na esperança de ver chegado o momento. Levantou-se estendendo  a cabaça de água fresquinha, pronta a ser oferecida para dessedentar o condutor da manada da baforada da noite. Maneia-se lépida, saia curta pelo meio da coxa morena. Na cara vai um sorriso malandro, meio envergonhado, meio picante, que sabe fazer apetecer coisas simples. Que por vezes parecem esquecidas na lufa-lufa da vida.
Joana vai mais fresca que a água que leva na cabaça,e o Domingos  tem é sede  da mocetona.Fome dos seus beijos, saudades  daqueles olhos que, doces como amêndoas, cegam. Desejo daquela pele escura, cor de canela macia temperada pela maresia. A noite parecia repentinamente iluminada por aquele fogo. Era fogo a lamber outro fogo, que água alguma era bastante para apagar. Vento forte faz estremunhar, mas aragem cálida da noite, essa(!), atiça

«O Maluco» ergue-a do chão e coloca-a na garupa da égua que aceita o carrego de bons modos, ela também cansada da solidão. Joana aconchega-se à sua cintura e, sem palavras, dirigem-se para o palheirão onde um coxim de palha, forrado de papoilas vermelhas, não lhes vai dar tempo de ajeitar melhor recosto.

Passados os meses da conta, na palha, sob o bafo quente da «Bonita», da «Malhada», da «Desertora», e de outras tantas, aconchegado pela quentura da «Bonita», a égua negra do Domingos, nasce, na noite fria de Dezembro, o primeiro dos nove filhos que o casal dos «Malucos» fará vir ao mundo, naquele recanto da Galefanha.

Que em sua honra usará para distinção, o nome da terra da «Maluca».

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Nota importante: Sempre fui uma mau arquivista. Felizmente tive sempre grandes ajudas nesse ponto, e por isso, muitas coisas se salvaram. Ora sucede que há tempos, amiga de longa data trouxe-me uma sacola de papelada, onde encontrei –feitos há 40 anos(! )– textos, poemas,documentos e outros.

De ente eles espantou-me este texto que reproduzo acima. Não vinha acabado, não tinha assinatura etc. Mas a letra era minha. Apontamentos tirados? Admito. Mas na textura encontro muito (ou tudo) da minha maneira de escrevinhar. Não sei, mas gosto dele. E divulgo-o com as reservas que aqui deixo. Junto ao muito que tenho escrito sobre a Joana Gramata.
SF -30 Dezembro de 2013 

terça-feira, dezembro 24, 2013


 

NATAL 2013

 
O relógio não para
O tempo corre
Neste dia afinal, frio e zangado,
A ria palheteada de prata
Parece cansada
Da sua peregrinação
De tanto correr para o mar.
E eu também cansado
Fico a desouvir  o mundo
Onde reina humana  expiação.
 

É  frio este entardecer
Não vale a pena fingir
E rezar por mim.
Não, não o faças.
Cheguei à vida
Porque assim quiseram.
Cheguei a sorrir,
Eu não sei bem se o desejava.
Não sabia que ia cumprir
Um fadário em que me negava:
Mais  fazer pelos outros
Que por mim não ser.

 
Hoje  anseio
Nova noite de magia
Em que nasças de novo;
Não  para seres mais o menino
Mas para seres o Homem
Que com a palavra derrubasse o muro
Para que por ele passem
Aqueles para quem não há presente,
E muito menos futuro.

Quereria ainda antes de partir
Ter a doce ilusão
Uma ilusão do tamanho
Do  meu eu
Que a humana pequenez
Do espoliado revoltado
Ferisse a «fera» do mundo;
E quando a manhã nascesse
Não houvesse ricos nem pobres
E o homem fosse o centro da bandeira
A  querer ser sem condições
A olhar livre, todas as direcções.

 
E quando hoje deixasse de ser hoje,
Este obscuro poema
Transformado presépio real
Pudesse gritar ao mundo:

Afinal sempre há  Natal!

 Sf-Natal 2013

domingo, dezembro 22, 2013



 

Cantiga de amor  (Glosa)



 Ai eu, coitado , como vivo
Em tão gran cuidado…
 
Por minha amada,
Que foi de mim separada….
Muito me cuida
Não a ver aqui sentada


Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  desespero


 Por minha amada,
Que tarda  eu não a ver
Oh!  que  vida escangalhada
Ela não vem, e eu louco de a ter.  

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  amargura

 
Por minha amada,
Vou penando minhas agruras
Vem amor, vem depressa
No teu corpo traz-me a cura.

 

 Ai  eu, coitado, como vivo
Em tão gran  solidão

 
Por minha amada,
Aqui vou esperando em vão
Ai amor …ai amor
Vem - me dar teu coração.

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tan grande  penar

 
Por minha amada,  
Não vir trazer  seu amor.
Vem, traz o teu manto de linho
Para a minha dor embrulhar.

 
Ai eu, coitado ,como vivo
Em tão grande perdição

 
Por minha  amada,
Que  ontem  eu ei perdido,
Grito a dor da sua ausência
 Viver assim, ai!...eu não quero, não…. 

 SF 2013

quarta-feira, dezembro 18, 2013



Vou fechar a portada....  




Porque tive eu a ver

Com senhoras que se vão lavar à missa,

Ou com homens «felizes»,

Porque lhes é dado o encanto da estupidez?





A minha vida nunca foi para mostrar

Nem sequer para trazer como amuleto

Pendurado ao pescoço.

Mas....

No ar, hoje, nesta calmaria aparente

Há uma dorida ausência de sol

Há, eu sinto,

Uma vibração latente, estranha

Pairando no ar, parecendo ausente,

          

Serão bruxedos?

Lá que os hay….hay….

Agora já não duvido.

A fé e o bruxedo são

Faces de moeda

Do mesmo enredo.



No pinheiro que tenho

Postado em frente de mim

Uma gaivota pousa, e geme.

Lá no largo, a ria é baça

Há asas a bater…a bater de mansinho

Gritos de passarada adivinhando a noite;

Em mim um vazio imenso

Que terei de sorver até ao fim,

Agora sozinho.

Vou fechar a portada

Despedir –me da ria amada

Cá dentro tudo está como era dantes.

 Um dia, prometo, vai haver

Uma noite diferente;

Nela só eu e tu, ria (!)

Bailaremos de novo a valsa da vida

Como tantas vezes o fizemos antes..



Nossa a noite largamos ferro

Desfraldamos velas

E partimos, então, sem rumo :

Que importa de onde viemos…

 Ou para onde vamos ?!

 Tudo o que quero é fugir

De dentro de mim;

Fugir à sede de me procurar

Com medo de me encontrar.
 
                Sf Dezembro 2013

             

     

terça-feira, dezembro 17, 2013


Eu e a minha má relação com os «Natais»

 
Gostaria de viver utopicamente num mundo onde não fosse necessário haver «natais», para, por vezes  e só aí, nos lembrarmos para fora. Para todos os que nos rodeiam. Uns  para quem olhámos mais. Não precisariam de…. Outros de quem até certamente, apesar de tão próximos, nem demos por eles.
Parece que só no Natal, nos apercebemos de que durante o ano errámos (inadvertidamente?) os gestos.
Bem : valha-nos ao menos termo-nos apercebido, momentaneamente, disso.
Os «natais» foram sempre um tempo de grande amargura. De mal-estar e inquietação. Tempo de avaliar que o que fui fazendo, que quase sempre esteve em desacordo com o que queria realmente fazer. Ou pelo menos longe…..
Afinal olho para trás, e concluo: fui um acomodado.
Aqui chegado, concluo que não vale a pena ter pena de mim, por me não atrever a mudar.
Também nos meus «natais» havia pratos fingidos, postos em cima de toalhas fingidas, com trenós e renas, cheios de vitualhas que, fingidamente, se acreditava existirem em todas as mesas. Porque o fingido «Pai Natal», não cometeria o sacrilégio de as dar só a alguns. E logo a mim…..
Andei uma vida a prometer-me, que um dia iria finalmente para um qualquer lado, onde houvesse um qualquer rio, para nele voltar a pôr a navegar os barcos de papel que levavam as pedras preciosas dos meus sonhos de criança.
Agora que já não há rios, nem barquinhos, e muito menos sonhos, abstraio-me, esperando que as horas corram. E minimizo , aqui e ali, só pontualmente, as coisas. Como já não estou em lugar algum que me permita modificar seja o que for, não o altero. E não me incomodo. Vou para a cama sem projectos .
 E percebo então porque há muitos que dormem sempre bem !São os que andam uma vida a acreditar que os «pais natais» chegam e sobram para resolver os problemas dos outros....
SF - Natais

segunda-feira, dezembro 16, 2013




Heterónimo…et voilà..

Com o aparecimento do livro «Maresias», sucedem-se os espantos daqueles que, conhecendo-me ao longo de uma vida, foram construindo uma ideia completamente diferente do meu eu, como personagem. Às vezes até – que diabo! – excessiva. Bem distorcida, muito hiperbolizante.

Eu justifico:  nós… todos nós!... não podemos ser exactamente como gostaríamos de ser. E a vida comanda muito da nossa postura, e até, dos nossos actos.

O mundo-dizia o poeta- é de quem não sente. Eu por mim encontrei uma boa dose de insensíveis. Dizem essas pessoas que são assim por assumirem uma atitude essencialmente pragmática. Outros até chegam ao dislate de serem assim, ou assim procederem, por racionalidade:  dizem !

Ora comigo numa ansia de querer ser tudo quanto a vida me deixasse ser, houve momentos que me exigiram determinação, risco, e logo, acção. Por vezes foi preciso fazer escolhas dolorosas. Toda acção tem em si uma provocação da nossa personalidade sobre  os que nos circundam: às vezes ocorre falharmos. E então magoarmos, ferir alguém que se atravessa no nosso caminho. Quem quer ser, apenas e só simpático, não sai do mesmo sítio.

Houve pois momentos doridos. Não tinha a certeza que as minhas decisões estivessem certas.

E sabia que um dia teria de o confessar, mesmo publicamente. E foi o que aconteceu, agora que me desnudei, tal desfaçatez não deixa de criar engulhos a alguns. Expor-me assim...?!

Uma sensibilidade híper activa esteve sempre presente. E por isso houve momentos em que necessariamente tive de ser frio, calculista e até exceder as barreiras convencionais.

Todos nós carregamos um «crime» feito, ou um crime que a vida nos pede para praticar. Hoje sinto-me com as contas em dia.   

Concluo que deveria ter assinado o «Maresias» com um heterónimo. Assim talvez estivéssemos mais perto da realidade.

Uma parte exigiu que fosse de uma maneira; outra parte permitiu-me ser um outro que talvez sempre tenha desejado ser, mas que me foi impossível ser….

SF   Dez 2013

sexta-feira, dezembro 13, 2013




Prolongando a vida num poema


Tarde pardacenta em que tudo parece suspenso. Até  a ria está deserta. Nem a cricalhada  de que normalmente um homem não se enjoa, os parece atrair de todo. Não os vejo a lavrar o areal.
Tempo de desesperos :  o desespero do desespero é sentir que mesmo estes dias inertes, contam para o calendário. O que não está,de todo, certo.
O tempo enfarruscado parece adivinhar uma consoada fria, onde apenas e só conta e pesa, o que não pudemos ser, daquilo que queríamos ser . E o peso das nossas omissões pesa como chumbo.

Ano de desencanto ,onde o presente desmerece do passado, e parece já não haver lugar para (algum futuro).Tudo o que se fizer daqui para a frente é um matar de solidão. Pareço  siderado num passado que já foi meu, temendo que  hoje, Só, a vida pouco tenha de encanto.

Que fazer? Rabiscar um poema para me  sentir um pouco mais  vivo? Vamos lá  ver....                                                     
 
                                                Sinto-me hoje abandonado
                                                 Não sei quem está
                                                 Sei apenas que não está
                                                  Quem desejava.
                                                  A vida  traiu-me                                                
                                                  E  hoje apenas namoro
                                                  A paisagem da ria,
                                                 
                                                  Absorto
                                                 
                                                  Escondo no olhar
                                                 
                                                  O meu abandono.
                                                 
                                                  Apetece-me emprenhar
                                                 
                                                  O mundo
                                                  
                                                  De sábia harmonia
                                                  
                                                  Transferida de meus olhos,
                                                 
                                                   Para pauta em serena melodia.

                                                     
SF  Dez 2013

domingo, dezembro 01, 2013




 Na Apresentação do livro «MARESIAS», li o poema abaixo ,como agradecimento a todos quantos colaboraram no espectáculo, que ,segundo o feed -back  conhecido foi do agrado de todos.

Amigos:


Dei à magana da vida

Tudo o que tinha.

E às vezes mesmo 

O que não tinha,

Para isso reinventando-me.

Enchi o alfobre do sofrimento

Ajoujei o cabaz das alegrias

Mas sempre – sempre!

A vivi em suor honrado,

Sem uma cedência sequer que fosse.

Pergunto- me hoje para quê?

Neste tempo em que se aproxima o adeus

Pergunto-me se valeu a pena

Todo este montão de vida imaginada

Sonhada

Mas nem sempre sabiamente usada?

Levo nos olhos marejados de uma teimosa lágrima

O azul da ria, a nobreza do mar, a inquietação do vento

Tudo me preenche a alma desnuda;

E levo…levo acima de tudo, uma vénus semi- nua

Que me acompanha, de cada beijo fazendo uma estrela

Onde está escrito : Viva a Liberdade.

 
SF 
 
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De todas as felicitações destaco uma gratificante apreciação ,de um amigo , O Prof.Fernando Martins ,que em determinada altura ,foi um dos incitadores para que eu vencesse a indecisão de publicar o livro
Podem ler em http://pela-positiva.blogspot.pt/2013/11/maresias-poesia-de-senos-da-fonseca.html e ficarem a conhecer aquele que é sem duvida um dos mais prestigiados Blogs ,por cá publicados.

E pronto: ao Chio-Pó-Pó, à Zita ,`a Ana Maria Lopes,à Ana Maria Moraes,ao Rui Bela, à Fundação Prior Sardo, ao Grupo Poético de Aveiro, um abraço do meu Obrigado.

SF

sábado, novembro 30, 2013





 

De: Mim

Para.: Ninguém

(Qualquer semelhança entre este exercício, e  alguém, é pura coincidência. Ninguém é  de ninguém.)

 
Sábado do meu descontentamento

 
Começo a despertar e a dispensar-te do meu pensamento.

O que fazes ostensiva em nome dum «mata à fome»,começa a deixar que se não refugie, em  mim,  a «minha» imagem de  Ti ( não o que és...)

Afinal constato, tu nunca poderias ser, o amor que idealizei, tu poderes ser. Verdadeiro lapso, que a mentira deixou sobreviver. O fazer de conta não duraria.....uma mentira continuada.

 
E é assim: amo-te como aos poentes. Ou o luar à noite. Com o desejo que o momento exista, mas que não fique. Gosto da sensação de vê-lo ,mas já não, de o ter .

 SF  NOV 2013

domingo, novembro 17, 2013



Mapa  de 1783(5?)

Se os anteriores mapas publicados,referentes à Laguna de Aveiro e às vicissitudes ocorridas na zona mais instável  da sua área geográfica,são  preciosos –porque pouco ou nada divulgados –o presente mapa é,a nosso ver,de extrema raridade.
 
Mapa da Barra da Vagueira de 1783
 
Tenho mesmo pena de, aquando da edição de João Sousa Ribeiro[1] não ter possuído esta imagem cartográfica –e tanto a procurei! – pois ela é,sem duvida,a melhor representação que conheço da Barra da Vagueira. Que veio resolver a grande crise lagunar do Séc. XVIII, salvando vidas, libertando as populações da tragédia das pandemias -que dizimaram cerca de 2/3 da população na região – trazendo de novo vida á Laguna.Permitindo o reinicio do sonho das gentes.
Mas  o mapa levanta algumas questões curiosas, que assinalo:
1-      A representação incide com clareza e evidência, sobre a barra da Vagueira, aberta em 1757 a expensas totais por essa figura ímpar aveirense, o Capitão  mor João Sousa Ribeiro, para nós a maior figura da história de Aveiro. Ombro com ombro a José Estevão.
2-      A representação  assinala com rigor a  veia do canal mais profundo. A largura da barra que chegou a ultrapassar as 250 braças, permitia, ainda à data,   fácil acesso e boa manobra interior a navios de alto bordo.
3-      Contudo detectava-se já um problema de instabilidade nas imediações da Barra.O cabedelo norte começava a desaparecer, e corria-se o risco de romper, desfazendo a barra.
4-      E é por isso que olhando atentamente o mapa se nota marcado em duas linhas XX (avermelhadas),  uma obra projectada de intervenção, que consistiria em fazer um paredão de ligação do cabedelo à ilhota central, o que desviaria certamente as águas, evitando a pressão sobre o cabedelo. 
Aqui  envio esta preciosidade, mapa que como os anteriores(e outros a chegar) me foram gentilmente cedidos por Rui Bela, do seu acervo RIALIDADES:
 S F  Nov 2013





[1] Fonseca,Senos in «O Pai da Pátria João Sousa Ribeiro»

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...