quinta-feira, janeiro 30, 2014


Exame da  Prostata

Andava mijando errado
Com a urina em atraso

Era uma gota no vaso,
Três ou quatro na lajota

Quando não era nas botas,

Nas cuecas ou no selim,

Ou mesmo mijando em mim!
Que tamanha porcaria
E o meu rico parecia
Uma mangueira de jardim
 

O pensamento passava
O pau não obedecia
Quando a bexiga enchia
Eu mijava a prestação
P’ro banheiro em procissão.
Uma ida atrás da outra
Numa mijada marota
Contrastando com meu zelo:
P’ra beber era um camelo
P’ra mijar um conta-gotas
 
Depois de passar um bom tempo
Convivendo com esse horror

Fui procurar o  Ricardo, doutor

P’ra atender meu pedido

Julguei me desse algum comprimido
P’ra empurrar, goela abaixo
Tenho a certeza não acho
Que antes que eu prossiga
É importante que diga
Que não deixei de ser macho

 
Mas agora voltando ao caso
É natural que reclame,
Depois de um monte de exames
De urina e ecografia
E até fotografia,
Da minha arma de trepa
Me pôs a baixar
Ajoelhado em penico
Enfiando-me  um troço, no dito
Que me dói só de lembrar.

Ainda dei o meu sangue
P’ra vampira diplomada
E pensei : tinha acabado (!);
Só me faltava a receita
Eu já tinha ideia feita
Ponho-a  no bolso… e adeus doutor,
Recupero o mijadouro
Não sonhava concluir
Que alguém  iria invadir
Meu buraco expulsor.

Fiquei por isso lixado
Apanhei mesmo tremendo choque
Quando me falou em um toque
Que achei desagradável;
Para macho é coisa impensável
Um dedão(!) furando a vaga.
Vejam pois o meu dilema
É o pau que dá problema
E meu cú é que o paga.

 
Tentei todos os argumentos
Esquivei-me o quanto pude
Mas…se é por bem da saúde
Não me deve fazer mal
Expor assim meu anal,
A fazer papel de mulher
É coisa que a gente não quer;
Mas de acordo (?) com os planos
 fui abaixando  os panos,
Salve-se lá o que puder.

 
De cotovelo na mesa
E com o rabo empinado
 No meu cú não entra nada
Nem dedinho apertado…
Mas o dedo estava treinado
Acostumado a furar
E eu que nunca dei as costas
P’ra desaforo de macho
Pensava de cabeça p’ra baixo:
O pior é se da coisa  gostar.


Pra mim foi mais que  estupro
Aquilo entrou ardendo
E fiquei então sabendo
Como se caga p’ra dentro.
Aquele dedão nojento
Que fere sem piedade
E me entra:  que barbaridade!
Foi alívio quando saiu
Garanto p’ra quem não viu
Que não vou sentir saudade

Enfiei as calças ligeiro
Com vergonha e bem corado
Vai que o doutor abusando
Sem pena das minhas pregas
Chamasse um outro colega
P’ra segunda opinião
Porra !....apertei o cinturão
Fiz uma cara de bravo
Dois mexendo no meu rabo
Alto( !): isso seria diversão.

 
Depois daquela tragédia
Pior p’ra mim não há
Não comentei com ninguém
P’ra evitar falatório
Se me falam em consultório
Fico logo  cheio de medo
E disso não faço segredo
Da macheza que  alardo
Mas cada vez que eu cago
Lembro-me logo do tal dedo.

sábado, janeiro 25, 2014




A «ílhava» - Parte III

Tenho sido interrogado com alguma insistência, sobre se a «ílhava» ia por mar para Lisboa (?). Creio que a leitura de algumas referências trapalhonas, pouco assertivas (quase nunca!), cheias de confusão e  certa ignorância, têm permitido a  duvida.

É do conhecimento, registo, e até fotos, a construção na Laguna de «Varinos», «Barcos de Água Acima», «Fragatas» e «Enviadas»[1], na área Lagunar. As quais eram levadas para Lisboa, na chamada aventura de «varar o mar» de que há muitas (e excelentes!) referências. Eram embarcações de tonelagem já elevada, embarcações quase fechadas, de borda alta, de 40, 60, 80, até 120 ton. (leia-se tonéis)


                             
               Enviada (Gravura Ilustração Portuguesa -Diniz Gomes)

Era nestas embarcações que se aproveitava para carregar lenha, sal, peixe… e claro as bateiras abertas, embaratecendo o frete. Nestas e nas de cabotagem…e até nos lugres do bacalhau. Há até fotografias de um Varino carregado com duas bateiras no seu tombadilho.

 


                                                                Varino com duas bateiras

A ílhava era uma embarcação de baixo pontal (60 /70 cm). Frágil e completamente aberta.Sem qualquer reforço longitudinal. Os «ílhavos» eram gente irredutível que só tinham medo do santo cair do altar. Mas não eram loucos…

Por outro lado a capacidade real  (de segurança)  de carga da «ílhava» não ultrapassaria as 2,5 a 3 toneladas. Não confundir esta com a arqueação, coisa como sabem, os que da matéria mais do que a simples Wikipédia, é coisa bem diferente. Se nem lastradas quanto mais carregadas com 5 toneladas ????????

Por isso embora pudesse admitir que nas idas para o Douro, a viagem pudesse ser feita por mar, não há um único registo que prove a loucura de a levar até Lisboa.

Esta é a minha convicção…. A convicção de quem preparou a viagem de um «moliceiro» a Lisboa… mas concluiu pela loucura inconsciente de tal aventura (ainda que acompanhada, em viagem de conserva) .
A outra hipótese é boa para urdir lendas… tão só.
Bem, concluindo:

 Ílhavo começou a contar a sua história pelo princípio (que nada tem a ver com o seu (embora) bonito, mas delirante Brasão).

O MMI, os AMMI, todos os que viveram este projecto, estão, pois, de parabéns. Agradeço a oportunidade que me deram de comprovar que estava certo. O que nem sempre sucede a quem pede demasiado à vida e vê muitos projectos seus, mortos e enterrados na gaveta. Nas felicitações destaco o mestre Esteves que não me desiludiu (bem pelo contrario) a família Marco ( e desembaraço e paixão da mulher e filhos, por estas coisas, e o entusiasmo e qualidade de trabalho  fotográfico da Etelvina  Almeida. A AML foi boa companheira de jorna,e creio que para ela foi uma boa fonte de aprendizagem, com os constante s apontamentos e registos, feitos. Do Cap. Marques da Silva já falei acima. Simplesmente impecável. E por fim o entusiamo do Presidente dos AMMI que viveu a o «feito».   

Agora que todos se agarrem à matéria e corrijam, melhorem, ou refaçam, o que outros até aqui fizeram.
Levem-se por mim: há sempre a possibilidade de melhorar os nossos conhecimentos. Façam-no!
SF 




[1] A palavra «enviada» foi confundida generalizando-se a qualquer embarcação ida da Laguna. Mas «enviada» era no Tejo um tipo próprio de embarcação, barco redondo de quilha, e vela bastarda.


 
 

terça-feira, janeiro 21, 2014


Tanto tempo a não ter tempo….
 
 
Mais um pobre poema;
Hoje para assinalar os quinze lustros
De uma vida sem lustro
Ainda que não à fome de tanto a lustrar.
Mas há vidas que por mais lustro que se puxe
Mais baças vão ficando, na poeira do tempo,
Levantada ao percorrê-la.
 
O tempo caminha inexorável.
Quinze lustros!...tanto tempo…..
Privilégio concedido de tempo tal
Que sobrar tempo, parecia afinal.
E hoje ao ter de fazer as contas ao tempo,
Perco-me no passado vezes sem conta
E não tenho tempo de fazer as contas.
 
 
Creio que a vida me fez gastar tempo
Não comigo, pouca coisa (!),
Mas com os outros esbanjei tanto tempo
Que agora chegado o tempo
De fazer contas,
Choro por não ter tempo
De voltar atrás uns tempos.
 
SF -22 Jan 2014
 
 
 
SF -22 Jan 2014

domingo, janeiro 19, 2014




«ILHAVA»

Enquanto não publico a III  Parte(e ultima) da «ilhava» no MMI ,posso informar que uma brochura 8especial) que contém todo o historial desta histórica bateira, aliás o conteúdo do capitulo do Livro «Embarcações Que Tiveram o seu Berço na Laguna» ,está já á disposição dos leitores no SITE, podendo ser impressa

Para aceder basta

Visitar o site www.senosfonseca.com

Aparece uma foto e AVANÇAR(clicar)

Aparecem diversas janelas tais (conteúdos) como

LIVROS,BLOG,FIGURAS,HISTÓRIA E GALERIA

Clique em livros. A« Ílhava» é a primeira


.

sábado, janeiro 18, 2014




A «ílhava»   Parte II

As visitas tinham um ponto muito curioso. Quando lá chegávamos, já a Etelvina Almeida, uma interessada e excelente fotógrafa – e mais do que isso (!) uma amante das vivências da Ria – por lá cirandava, alcandorada ao escadote ou metida pelos recantos da embarcação, procurando o melhor ângulo, a «disparar» para  registar todos os pontos da execução do projecto (as suas fotografias, em boa hora expostas no MMI, são preciosas).
Ora uma das fotos despertou-me a curiosidade. Atente-se …
 
 
Esta perspectiva recorda a lenda que já insistentemente referi noutros locais. Numa visita Viking, os temíveis nórdicos, no sentido de libertar uma princesa do clã, cativa lá bem para montante do rio, teriam construído, aqui, embarcações pequenas de fundo chato bicudas nos extremos para poderem navegar nos rios estreitos, nos dois sentidos (etc…etc.)
Esta feliz imagem não pode deixar de nos trazer à memória a tal lenda. Então não está ali criada a ilusão de estarmos perante um pequeno «Knarr» de fundo chato?
Pode dizer-se que a construção decorreu em ritmo acelerado.
 
A feitura da vela, cujo plano era um pouco diferente das velas actuais, levantou ligeira preocupação. Desapareceram, praticamente, todos os mestres veleiros. Foi então lembrado o Marco Silva, arrais da Xávega da Torreira, uma excelente personagem que tem velejado no moliceiro da Junta de Freguesia de S. Salvador. Um campeão nato. Desafiado no seu Armazém à borda do mar pela AML, logo ele, auxiliado pela esposa, se agarraram aos planos fornecidos e, na garagem, iniciaram a feitura. Difícil hoje encontrar pano (10 ou semelhante) para a execução, como nos tempos antigos. Houve, assim, que aproveitar pano de duas outras velas de bateira. E mesmo assim, a vela da «ílhava» ficou sem menos uma teada do que se pretendia.







Tal facto fez-me concordar com a montagem do calcador. Creio (ou estou certo) que a vela de pendão inicial das «ílhavas» não tinha calcador, pois armavam na amura de barlavento. Claro que houve evolução, e as últimas tinham já velas tipo das desenvolvidas nos moliceiros (sei-o bem!)
 
 

 
Outra decisão onde foi necessário encontrar unanimidade, foi na finalização: abandonou-se a aplicação do breu, com excepção da coberta da proa, preferindo uma tinta (subcapa) fosca, sem brilho (como no modelo), o que deu um acabamento talvez demasiadamente perfeito (mas muito bonito). Por dentro, preferiu deixar-se a madeira ao natural, apenas coberta por um protector incolor. O realce (contraste) parece-me (é minha opinião) muito bom.

Dado que nesta embarcação não existia o varão para a escota, porque tal atrapalharia a manobra da rede (e porque a vela era apenas para deslocação aos largos), a mesma manobrava através de dois furos abertos na borda a ré. Admito que a posição desses furos, depois de armada a vela, reflecte que, para boa manobra do leme de xarolo (gualdropes), os mesmos deveriam avançar cerca de 20 cm. Coisa sem grande importância.
Claro que a Sala da Ria é exígua para a quantidade de embarcações que alberga. Mas isso é um outro problema.
E volto à ideia que venho defendendo desde há muito. A criação, num outro local (e nenhum será melhor que a Costa-Nova) para aí implantar, um simples mas folgado Museu da Ria e da Xávega, onde se incluísse a exposição de todas as artes inventadas e usadas na Laguna. Já imaginaram o plano (turístico) de visita museológica aos três Museus: da Ria, MMI, e VA, feito sobre água, com programa de entretenimento (Palácio VA) apelativo?

Ora…ora. Temos os diamantes e não sabemos, é, vendê-los.

Estou a terminar (depois de longo tempo) o II Vol. das Embarcações Lagunares. Agora no capítulo das Bateiras. Trato nesse livro, uma a uma, em 2D. Mandei fazer modelos à escala, de todas. E depois, desenhei-as todas em 3D. Mas não satisfeito, atirei-me a tratar de todas as «artes» de pesca lagunares. UfaA!!!!!. Recuperá-las, desenhá-las, descrevê-las, também elas para memória futura, já que a maior parte desapareceu, e de algumas ter sido  mesmo difícil encontrar referências exactas : nem Vos digo! Consegui a sua reprodução a uma escala dessas artes, para apreciação visual concreta.

Assim, a Laguna é o único meio geográfico, em que todos os tipos de embarcações tradicionais que nela trabalharam, ou navegaram, estão, completa e rigorosamente recuperadas, para memória futura. É minha intenção oferecer todos os modelos e Planos (e seus direitos) ao MMI.

 

(CONT).
 

 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

 

«Ílhava»

 
Agora que a «ílhava» navega nas águas remansosas do MMI, onde pode ser apreciada em toda a grandeza e beleza das suas geniais linhas, acabados os festejos, atirados os foguetes (e recolhidas as canas), julgo útil deixar aqui um testemunho de quem um dia a descobriu (?) entre papéis, e se apaixonou pela sua grandiosidade e graciosidade. Uma embarcação é como uma mulher: nas suas linhas descortina-se, ao primeiro olhar, se é ou não embarcação de boas mareações. Depois….Bem! depois…..é preciso  mão firme no leme e escota bem aconchegada.

 Mas voltando à «ílhava». A paixão levou-me a seguir o seu historial e a descobrir a saga dos irredutíveis «ilhos». Gentes que só tinham medo de não ter medo. Que respeito...isso é outra conversa!

Vamos então à história.

Já lá vai quase meio século, quando preparámos um trabalho sobre Ílhavo (para um concurso levado a cabo pelo Illiabum, que ganhei, e cuja importância material, ao tempo assinalável, deu origem à sustentação do prémio Mário Sacramento).Criado  para premiar o melhor aluno da Escola Secundária de Ílhavo – ainda então, sem o nome de João Carlos, manteve-se durante vários anos.

Ora foi no desenrolar desse trabalho que tomei contacto com a «ílhava».

Possui – comprei, recuperei e tratei amorosamente – muitas embarcações lagunares, incluindo um moliceiro. Bateiras, muitas. Dóris, etc., etc. Estava então a viver o pico de paixão pela laguna, e sua história. A «ílhava» veio aumentar a paixoneta.

Interroguei toda a gente e constatei que ninguém – mas é que mesmo ninguém (!) - se lembrava de tal  bateira. Meu Pai recordava-se que meu Avô tinha por costume, levar numa delas ( que alugava) a numerosa família, às festas lagunares. Contudo meu Pai, que era então ainda um rapazinho, não tinha ideia concreta das formas. Olha!... dizia-me: era parecida com um moliceiro, mas não tão curvada na proa. Mais bonita… Frederico de Moura foi outro dos inquiridos, sem ter qualquer ideia precisa. O mesmo direi de Amadeu Cachim, este um pouco confuso, lembro-me, com a «Preta Murtoseira» do Ti Tainha.

 Fui observando, recolhendo elementos, e, há cerca de vinte e tal anos, fui falar com a D. Ana Maria Lopes (então directora do Museu) para saber se no mesmo existiam elementos identificadores. A Ana Maria desconhecia. Passados uns tempos, a Ana teve a amabilidade de me enviar umas folhas fotocopiadas, do livro de Castello Branco que tinha encontrado, e onde a ílhava é referenciada (sem dúvida, a referência que foi bastante para fazer luz e permitir ordenar as minhas ideias).

Na visita já feita ao Museu de Marinha, não vi nada de clarificador (o modelo de barco  que o Cap. Marques da Silva reproduziu mais tarde, com o rigor habitual, não estava em exposição.Ou não o descortinei).

Não desisti e da recolha feita (com todas as fotografias que encontrei nos alfarrabistas de Lisboa e Porto, e de outras referências, julguei estar em condições de desenhar, em 2D, as linhas que supunha, serem suficientes  para construir à escala 1/1, uma «ílhava».

Resolvidos os primeiros problemas depois de assumida a Direcção do Clube de Vela da CN, depois de conseguirmos a dadiva do moliceiro, «O Ilhavense», recuperado e posto a navegar, como novo, propus que em partenariado com a SIMRIA, se levasse  a cabo a construção de uma «ílhava». Para o efeito contratámos o mestre Conde, na Gafanha, fornecendo-lhe os planos (muito ténues).Adquirida a madeira, fechámos acordo: – 400 contos, então.

Passados meses, o Mestre Conde contactou-nos, informando que, dadas as dificuldades, desistir da empreitada, propondo-se (honestamente) devolver o dinheiro do custo da madeira.

Que remédio…tivemos de aceitar.

Com a feitura do livro «Embarcações que Tiveram o seu Berço na Laguna», aprofundámos os saberes. Desenhámos já com rigor, então, os planos em 2D de todas as embarcações nele  tratadas (os ex-libris lagunares). Mas talvez influenciado pela necessidade de facilitar a vida a quem quisesse construir, lancei-me, auxiliado por um profissional,  na aventura de arquitectar os planos a 3D. No final, eu próprio fiquei deslumbrado com o resultado do trabalho final.Que demorou três longos anos a concretizar (mas que valeu a pena com o prémio da Academia de Marinha que lhe foi atribuído).

O modelo da «ílhava» à escala 1/27 foi executado (como o foram todos os restantes para estudo pormenorizado). Pareceu-nos na altura correcto, pois havia diversos pormenores (plano vélico, manobra deste, remos, encosto do mastro, etc.), que foram objecto de um longo aprofundamento.

Foi, entretanto, mostrado no Museu o modelo do Cap. Marques da Silva. Reproduzindo exactamente  o modelo existente no Museu de Marinha, que nessa altura era já do meu conhecimento (julgo que no Museu da Marinha está –ou estava – identificado como «Saveiro»). No Blog de então, fiz uma comparação entre as diferenças vislumbradas no meu modelo e aquele. No fundamental, residiam no plano vélico e nas linhas da bica. No resto eram coincidentes.

No ano passado recebi uma convocatória dos AMMI. Foi- me então dado a conhecer a pretensão de mandar construir uma «ílhava». E solicitada a informação sobre a possibilidade, foi-me inquirido se aceitava orientar o mestre construtor e se os planos que tinha eram exequíveis.

Sobre o mestre não havia dúvidas. A minha longa experiência e relação com o mestre Esteves,de Pardilhó, fazia-me indicá-lo, sem qualquer rebuço, como o mestre mais capacitado para a execução. Quase diria, único ,capaz de tal proeza.

 A questão  colocou-se  em tirar os planos da embarcação a uma escala 1/1. Contactada a Martinfer, houve que pôr de parte a ideia. Lembrei-me, então, de procurar junto das empresas em Aveiro, o maior scanner instalado. E encontrei finalmente um, que permitiu tirar, num plano único que mais parecia um lençol ,toda a embarcação (as cavernas no tamanho real tiveram de ser tiradas ao correr com o papel, pois o scanner não permitia outro artificio).

Mas a embarcação no seu tamanho natural, em todas as suas formas e dimensões, plano vélico incluído, estava ali. Era colocar, peça a peça o «desenho» sobre a madeira...e cortar… E depois usar a técnica de construção ancestral. Uma coisa foi desenhar os planos a 3D.Outra foi testar que os mesmos correspondiam ás expectativas. Foi um dia muito gratificante, em que constatei que o tempo nunca me retirou a vontade inabalável(por vezes doentia) para me desafiar em ir mais longe.

Com a D. Ana M. Lopes (nomeada para coordenar a ligação com o mestre) fomos a Pardilhó apresentar os planos. Havia um certo receio de uma nega. Bem ao contrário, ao ver os ditos,o mestre  ficou de imediato encantado e desafiado: nunca tendo ouvido falar naquela embarcação, os desenhos à escala real,facilitavam toda a tarefa: era apenas colocar os desenhos e riscar na madeira. O resto (técnica de construção) sabia o Mestre Esteves, de cor e salteado. Era a mesma técnica da construção das embarcações Lagunares. Mas interessante é que o Mestre mostrou-se vivamente interessado em executar. Apaixonado... para nosso espanto. E ainda mais interessante, constatámos no decorrer da construção que, ao contrário da nossa longa experiência, de nesta ou noutra actividade, ao fazer-se algo novo, ser por vezes  difícil obter a abertura e aceitação do mestre executor, em deixar-se conduzir, certo é que, aqui, nunca verificámos  o mínimo de resistência às indicações dadas. Dizia amiúde: eu quero fazer aquilo que Vos satisfaça.

Semana após semana, lá fomos. Umas vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.


 

 Semana após semana, lá fomos. Umas (poucas) vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.
 
 

 
 



Recordo a primeira visita que fiz ao estaleiro depois de iniciados os trabalhos. Deparei com as bicas alinhadas e as cavernas mestras colocadas no picadeiro sobre a tábua da quilha. Fiquei extasiado. Ao natural, a embarcação era soberba.
 


 E o mestre também admirado, ia-me relatando as suas impressões. Com a muita confiança tida com o amigo «Pardaleiro» – alcunha do mestre – um dia disse-lhe:
Venha cá Mestre!...olhe-me para estas linhas do fecho da ré. Isto é obra dos «ílhavos»!!!!. Vocês aqui, depois, tentaram copiar e fazer o moliceiro, mas as linhas deste parecem feitas à enxó. (Claro exagerei, pois o moliceiro é também ele, uma obra de arte, inspirada na «ílhava»).
 O « Pardaleiro» riu-se…….
(Cont)   
  



 

 

                  
 
 

segunda-feira, dezembro 30, 2013

De novo a Joana Gramata





De novo  a «Joana Gramata»


Estávamos no dealbar do séc. XIX.
Joana Rosa de Jesus, descendente do velho Gramata, um dos primeiros que tinha posto pé por aquelas beiras disposto a «lançar ferro», e ali ficar, tinha naquela noite em que o luar espargia, quente e prateado aquele «mar dunar», decidido ir ao encontro do vento. Que se tinha esquecido de espinotear como garrano selvagem, permitindo que o bafo quente saído da terra, ainda a cheirar a salsugem, penetrasse, bofes adentro, como sussurro de búzio. A noite estava calma. Vindo lá do suão a aragem leve, estival, tinha tomado conta da planície, fustigando ao de leve os caniços secos e as hastes de milho que começavam a enverdecer aquelas paragens maninhas. A planura era um mar de silêncio que só o bulício dos milheirais quebrava.

Joana deu por si espreguiçada na duna, a olhar a lua e as estrelas, sonhando com aquela terra prometida, de que se sentia parte, estremecendo de prazer ao descortinar os tufos dos milheirais que começavam a surgir na planura extensa, lodosa e saliente que o mar deixara a descoberto. E sonhou com o dia em que as lonjuras se pintarão de verde forte,  mar alqueivado de vegetação fresca e rebelde, produto da teimosia vigorosa de quem por ali se quedara, acreditando na promessa da terra tenra. Joana estava decidida a fazer parte desse mundo novo, ainda só adivinhado.Custasse o que custasse, fosse qual fosse o cansaço, ou amarga desilusão,  que essa feitura trouxesse com ela.    

De repente foi subitamente despertada pelo barulho de um tropel  de uma manada que se aproximava. O luar reflectido nos olhos  ziguezagueantes dos animais em correria aturdida, fazia parecer que sobre a duna voavam pirilampos incandescentes. Gambuzinos de corpanzis negros avantajados, sacolejando bravios no areal que espirrava do seu tropel,  logo feito  nebulosa faiscante…

Na égua negra de pêlo lustroso, o José Domingos, o «Maluco», rodopiava. Saracoteando-se em rodeio bravio. Para cá e para lá, ora apartando ora repondo no trilho, a manada, enquanto vai gritando: eh!…«Bonita»; eh! «Malhada!»…Chê!..«Desertora» …achegai-vos …ide ao caminho, raios!… 

Joana corre ao seu encontro. Tanto fora já o tempo de espera!.... Dias de sol a sol adiados na esperança de ver chegado o momento. Levantou-se estendendo  a cabaça de água fresquinha, pronta a ser oferecida para dessedentar o condutor da manada da baforada da noite. Maneia-se lépida, saia curta pelo meio da coxa morena. Na cara vai um sorriso malandro, meio envergonhado, meio picante, que sabe fazer apetecer coisas simples. Que por vezes parecem esquecidas na lufa-lufa da vida.
Joana vai mais fresca que a água que leva na cabaça,e o Domingos  tem é sede  da mocetona.Fome dos seus beijos, saudades  daqueles olhos que, doces como amêndoas, cegam. Desejo daquela pele escura, cor de canela macia temperada pela maresia. A noite parecia repentinamente iluminada por aquele fogo. Era fogo a lamber outro fogo, que água alguma era bastante para apagar. Vento forte faz estremunhar, mas aragem cálida da noite, essa(!), atiça

«O Maluco» ergue-a do chão e coloca-a na garupa da égua que aceita o carrego de bons modos, ela também cansada da solidão. Joana aconchega-se à sua cintura e, sem palavras, dirigem-se para o palheirão onde um coxim de palha, forrado de papoilas vermelhas, não lhes vai dar tempo de ajeitar melhor recosto.

Passados os meses da conta, na palha, sob o bafo quente da «Bonita», da «Malhada», da «Desertora», e de outras tantas, aconchegado pela quentura da «Bonita», a égua negra do Domingos, nasce, na noite fria de Dezembro, o primeiro dos nove filhos que o casal dos «Malucos» fará vir ao mundo, naquele recanto da Galefanha.

Que em sua honra usará para distinção, o nome da terra da «Maluca».

 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Nota importante: Sempre fui uma mau arquivista. Felizmente tive sempre grandes ajudas nesse ponto, e por isso, muitas coisas se salvaram. Ora sucede que há tempos, amiga de longa data trouxe-me uma sacola de papelada, onde encontrei –feitos há 40 anos(! )– textos, poemas,documentos e outros.

De ente eles espantou-me este texto que reproduzo acima. Não vinha acabado, não tinha assinatura etc. Mas a letra era minha. Apontamentos tirados? Admito. Mas na textura encontro muito (ou tudo) da minha maneira de escrevinhar. Não sei, mas gosto dele. E divulgo-o com as reservas que aqui deixo. Junto ao muito que tenho escrito sobre a Joana Gramata.
SF -30 Dezembro de 2013 

terça-feira, dezembro 24, 2013


 

NATAL 2013

 
O relógio não para
O tempo corre
Neste dia afinal, frio e zangado,
A ria palheteada de prata
Parece cansada
Da sua peregrinação
De tanto correr para o mar.
E eu também cansado
Fico a desouvir  o mundo
Onde reina humana  expiação.
 

É  frio este entardecer
Não vale a pena fingir
E rezar por mim.
Não, não o faças.
Cheguei à vida
Porque assim quiseram.
Cheguei a sorrir,
Eu não sei bem se o desejava.
Não sabia que ia cumprir
Um fadário em que me negava:
Mais  fazer pelos outros
Que por mim não ser.

 
Hoje  anseio
Nova noite de magia
Em que nasças de novo;
Não  para seres mais o menino
Mas para seres o Homem
Que com a palavra derrubasse o muro
Para que por ele passem
Aqueles para quem não há presente,
E muito menos futuro.

Quereria ainda antes de partir
Ter a doce ilusão
Uma ilusão do tamanho
Do  meu eu
Que a humana pequenez
Do espoliado revoltado
Ferisse a «fera» do mundo;
E quando a manhã nascesse
Não houvesse ricos nem pobres
E o homem fosse o centro da bandeira
A  querer ser sem condições
A olhar livre, todas as direcções.

 
E quando hoje deixasse de ser hoje,
Este obscuro poema
Transformado presépio real
Pudesse gritar ao mundo:

Afinal sempre há  Natal!

 Sf-Natal 2013

domingo, dezembro 22, 2013



 

Cantiga de amor  (Glosa)



 Ai eu, coitado , como vivo
Em tão gran cuidado…
 
Por minha amada,
Que foi de mim separada….
Muito me cuida
Não a ver aqui sentada


Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  desespero


 Por minha amada,
Que tarda  eu não a ver
Oh!  que  vida escangalhada
Ela não vem, e eu louco de a ter.  

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  amargura

 
Por minha amada,
Vou penando minhas agruras
Vem amor, vem depressa
No teu corpo traz-me a cura.

 

 Ai  eu, coitado, como vivo
Em tão gran  solidão

 
Por minha amada,
Aqui vou esperando em vão
Ai amor …ai amor
Vem - me dar teu coração.

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tan grande  penar

 
Por minha amada,  
Não vir trazer  seu amor.
Vem, traz o teu manto de linho
Para a minha dor embrulhar.

 
Ai eu, coitado ,como vivo
Em tão grande perdição

 
Por minha  amada,
Que  ontem  eu ei perdido,
Grito a dor da sua ausência
 Viver assim, ai!...eu não quero, não…. 

 SF 2013

quarta-feira, dezembro 18, 2013



Vou fechar a portada....  




Porque tive eu a ver

Com senhoras que se vão lavar à missa,

Ou com homens «felizes»,

Porque lhes é dado o encanto da estupidez?





A minha vida nunca foi para mostrar

Nem sequer para trazer como amuleto

Pendurado ao pescoço.

Mas....

No ar, hoje, nesta calmaria aparente

Há uma dorida ausência de sol

Há, eu sinto,

Uma vibração latente, estranha

Pairando no ar, parecendo ausente,

          

Serão bruxedos?

Lá que os hay….hay….

Agora já não duvido.

A fé e o bruxedo são

Faces de moeda

Do mesmo enredo.



No pinheiro que tenho

Postado em frente de mim

Uma gaivota pousa, e geme.

Lá no largo, a ria é baça

Há asas a bater…a bater de mansinho

Gritos de passarada adivinhando a noite;

Em mim um vazio imenso

Que terei de sorver até ao fim,

Agora sozinho.

Vou fechar a portada

Despedir –me da ria amada

Cá dentro tudo está como era dantes.

 Um dia, prometo, vai haver

Uma noite diferente;

Nela só eu e tu, ria (!)

Bailaremos de novo a valsa da vida

Como tantas vezes o fizemos antes..



Nossa a noite largamos ferro

Desfraldamos velas

E partimos, então, sem rumo :

Que importa de onde viemos…

 Ou para onde vamos ?!

 Tudo o que quero é fugir

De dentro de mim;

Fugir à sede de me procurar

Com medo de me encontrar.
 
                Sf Dezembro 2013

             

     

terça-feira, dezembro 17, 2013


Eu e a minha má relação com os «Natais»

 
Gostaria de viver utopicamente num mundo onde não fosse necessário haver «natais», para, por vezes  e só aí, nos lembrarmos para fora. Para todos os que nos rodeiam. Uns  para quem olhámos mais. Não precisariam de…. Outros de quem até certamente, apesar de tão próximos, nem demos por eles.
Parece que só no Natal, nos apercebemos de que durante o ano errámos (inadvertidamente?) os gestos.
Bem : valha-nos ao menos termo-nos apercebido, momentaneamente, disso.
Os «natais» foram sempre um tempo de grande amargura. De mal-estar e inquietação. Tempo de avaliar que o que fui fazendo, que quase sempre esteve em desacordo com o que queria realmente fazer. Ou pelo menos longe…..
Afinal olho para trás, e concluo: fui um acomodado.
Aqui chegado, concluo que não vale a pena ter pena de mim, por me não atrever a mudar.
Também nos meus «natais» havia pratos fingidos, postos em cima de toalhas fingidas, com trenós e renas, cheios de vitualhas que, fingidamente, se acreditava existirem em todas as mesas. Porque o fingido «Pai Natal», não cometeria o sacrilégio de as dar só a alguns. E logo a mim…..
Andei uma vida a prometer-me, que um dia iria finalmente para um qualquer lado, onde houvesse um qualquer rio, para nele voltar a pôr a navegar os barcos de papel que levavam as pedras preciosas dos meus sonhos de criança.
Agora que já não há rios, nem barquinhos, e muito menos sonhos, abstraio-me, esperando que as horas corram. E minimizo , aqui e ali, só pontualmente, as coisas. Como já não estou em lugar algum que me permita modificar seja o que for, não o altero. E não me incomodo. Vou para a cama sem projectos .
 E percebo então porque há muitos que dormem sempre bem !São os que andam uma vida a acreditar que os «pais natais» chegam e sobram para resolver os problemas dos outros....
SF - Natais

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...