segunda-feira, junho 27, 2016





(Carta da Zefa  «Trinca» para o seu home Josuè «Tròlòrò»

Meu home amigo, Josuè:

 Há marés que não te dou novas, de mim e dos daqui.
Ando estrussegada, e derreada, como a jumenta do Ti Toino.de tanta lide,a ver se ganho uns míseros reises pra umas arrecadas doiro, para fazer inveja á  Ermelinda «Catracega», que o istipor – ponha lá sr padre…ponha, não se quite , que istipor né desonra pra ninguém ,e menos p’ressa fraldoca,inté é elogio - anda sempre de montra, tu sabes bem de onde lhe vem. Manteúda pelo Ti Ricoca, lá do Arnal, a zamparilha meneia-se com mais chança que os bezerros do tio Pio, lá do Cimo de Vila.

De ti, rico,inté me roiem as cordas do coração ,que doutros baixios, desses nem te falo ,pra não te pôr mastreação atiçada, não vás desembarcar  em qualquer chaputa c’ande proaì, a se baldar por uns peixitos. C’a fome, filho,faz uma mulher se enzonar, e botar-se de fralda  alavantada ao de labaró. Mas vou-me óguentando, que mulher séria respeita  a péroga para um só bico. O teu,meu filho, de quem tenho saudades quinté roiem o peito.

Deves estar  pediqueiro de novas. Olha !... aqui vão; tão frescas como sardinha de  Junho saída no mês de Maio, porque esta terra não tem novas, só velhas encarquilhadas e penegantes, dos seus c’andam mar fora. Olha uma cliente da minha canastra, noitro dia inté me disse:

-Ai mulher…nem sei como vocês mulheres díbalho óguentam ?!

Logo lampeira,ali lhe dei cunfia: olhe se eu tivesse um homme simprinhas  comó seu óguentava uma vida. A ivernia chega para   instifazer o corpinho.

A Gertrudes «Vigia», aquela  cordilheira, escorrupicha a vidinha de todo o pissofoque  que caia na sua língua  .Anda sempre numa fona,de casa em casa, a avinhar-se, a comer e a escoldrilhar, pra ósdespois vir dar nota do que viu e oiviu, a vergalheira. Nanqueiras ver : o Padre Fradoca finou-se em casa da Rosa «Paquica». Inté  dizem uns, que o pobre foi lá dar consolo à viúva,e finou-se, o coitado, sem dizer ui!. Mas ali há peixe. Disque que, ao acudirem  ao pobre ,tiveram  c’arriar  a  óstaga,  a aliviar os cabos para lhe arriar  o mastro. Ora eu chinco que o arrais não sobe o mastro debaixo da ponte. Aquilo foi navegação em barra aberta, penso eu de que….mas seja ceguinha se o juro….que a maledicência espincha mais que vaga farfalhona na proa do barquinho.

E agora os nossos, Josuè: a tua irmã  pariu. Esteve difícil a hora, esperou-se até de manhim para chamar a Ti Micas  «Abortadeira»,  para  safar o estrafego, que o mazaruco do teu sobrinho ,é coisa  de se lhe tirar o barrete. A Micas,ainda cortou o finéu e quase que tinha de libertar o peixe pela cuada, muito apertada. O  chuço mal saído da paxona da mãe, gritou que mais parecia um possesso.  Olha Josuè:- tu bem sabes que eu sou uma mulher calada,sem responder ao que os meus olhos  paneiam. O rapaz é loiro ,parece feito de porcelana. E tu sabes que o teu cunhado pinta tão negro que lhe chamam o «Marroquino ».Eu sempre ta disse que aquele molengão  era uma lancão ,que nem para fazer filhos servia. Tu sabes que à tua irmã, o vinho lhe faz mal às pernas. A cachopa foi capaz de bebericar um copito e chegou-lhe a doença : fez-lhe abrir as pernas. Mas não há mal. O Marroquino,desausservado, anda todo contente e como o outro, diz: se tiver cornos que se não vejam; se se virem  que eu não me importe; e se eu me importar que os serre.

As coisas lá pela Costa não andam nada  boas. Nem ó vidas….o mar esta tisico ,escasso de peixe ,e a gente anda  aos lancões, a botar a arte no mar …e ela volta enxuta .Peixe nem  chari-lo. O Ti Batata, macambúzio, diz que aquilo são coisa de lobishomes, e garante que a sua companha é uma manada de gálicos. Palavra atina palavra, e  põe-se tudo á galipa, parecem esgalfos de sangue. Anda tudo esculhambado,sem amno.. E diz-se que a companha dos Velhos já não tem créto para mais uma rede, quanto mais para o vinho, que é o que dá freimas àquela gente para voltar à maré. Eu bem lhes digo ;se não têm vinho buem auga, calamandrões. Põem-se todos abusacados na praia, a conluiar,a comer pelo cú da guergina dos mais beberrões. Parecem umas cagarras com fome..

Meu Josuè, extremoso : mê home:

Tenho de interromper, porque o bom padre cura não me acompanha . Eu bem lhe digo que não há ninguém da tua ógalha :Tu, começada a faina, era só molhares o bico no tinteiro ,e estavas  sempre pronto para mais um lanço. Mas a pena dele é rombuda, e tem de descansar para o pobre poder ir lavar a tripa.Eu bem lhe disse: ò Sr Padre,estamos quase arribar. Aguente lá a reçoeiro mais um bocadinho, home de Deus ,que o andaço das noticias está a terminar.  Mas o pobre estava apertado, com a borda já debaixo de água, o pelingrino.

Deves ver c’a letra não é igual. É que a Pinta «Escudeira» , aqui ao lado a oivir, o de mim para ti, cuvilheiraça  de olhos e oivido,  logo se veio oferecer para  continuar. E eu aproveito, para Te dizer umas coisinhas c’a tinha, as mode, òreceio de as falar á frente do bom padre …: ah! home bô : falo  dos meus apetites, de um  cochicho..ah!...,cantava-te, enloilava-te ,enfiava as tuas pernas de cuinhas nas minhas, e irias ver a sacada  que dava à praia de manhã. Raio desta vida de separação. Uma mulher parece que nem tem direito de ter home por riba, a acalmar-lhe  as trízias e dar-lhe sastefação,  a adoçar as agruras do dia com umas licotices.

Mas o padre cura já ai volta, aliviado…. Deve ter bebericado uma chusca do tintol da Ti Taresa, ali da rua direita. Alembras-te da simpas da velhota, tão picnina e tão sinfrosa? Continua forte e rija, mas cismática, sempre a bautizar o tinto com potes d’auga da Fontoura….

E vou terminar, que o pobre cura já não escreve, já só bordeja…

Olha ! proqui anda lobishome á solta. Atão não queiras lá ver  que abotaram um saco cheio de cornos á porta do Ti  Possidónio,  lá do  Urjal de Baixo?. Coma tu sabes, a mulher, a Micas «Gerovia», depois de casar com o  arrebitado velhote, é mais séria que  a mãe de Deus(deus me perdoe…). Vai daí, o Ti Possidónio,  foi aos Sete- Carris, e pregou um retorcido par de cornos ,tão retorcido como a corda do reçoeiro,na porta do  Ti Zé «Pilado».E num papel pardo  esborratou: os meus estão ensacados…mas os teus indicam a porta aos visitantes. Vai pra aí uma cochinada, uma veniaga …não se fala doutra cosa . Sabas como são estes  badolas moinantes… danadinhos pródixote. E quando mete cornadura, mais a conversa dura…. Mas quele amercia……amercia… n’ ádúbeda,um banguina abardalado.

Adeus mê  home bô .Arrecebi os quinze  pintos ca ma mandaste, rico. Já andava inquètada ,credita : fui aos vinte oito e comprei-te uns tamancos para a procissão do S Pedro, pois o prior já marmorou que vais ser um dos andarilhos do andor. O resto meti no baú do segredo.Nem tu sabas onde ele mora, à cautela!....cum dia habemos de comprar uma casita ali no beco do «Descolhoado»,que é bem bom. Não te importes c’u nome, pois toda a gente sabe, que, descolhoado, tu?....nem ó vida…eu bem tenho a marca deles nas náudegas (o senhor cura, persina-se por mim …. No fim já sei que m’acarrega  com uns padre nossos ).

E hoje vou-me às lides, vender uns peixitos  do rio, ou uns tramoços, que mulher não se quer parada, nem na cama.

Olha Josuè da m’inhalma: vou aqui dar uma abraço ao Padre Zé, para ele te explicar melhor na carta ,como  desejava que tu o sentisses ,se aqui estivesses ao pé de mim. Adeus, intè à volta.  
Da Zefa



sexta-feira, junho 17, 2016





      
 E por hoje aqui vai



Melhor –e mais bonito- que dar o nó, é, na vida, fazer um cochim.Com arte….SF

quinta-feira, junho 16, 2016

 Estou saturado de ver nas redes sociais, citações usadas a por dá cá aquela palha, recolhidas nos livros que pululam para aí. Resolvi eu próprio citar-me a mim mesmo

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Ontem

A sorte é como um diamante raro. Se não se procura, nunca aparece.
Hoje

Um homem só morre verdadeiramente, senão deixar por cá uma pisada; ainda que seja só do calcanhar.
E vou indo . SF

segunda-feira, maio 09, 2016


Nota:  Pessoa amiga entregou-me este poema que diz eu lho ter entregue em 1985.Não me recordo. Sei apenas que gosto muito dele. E por isso publico-o aqui hoje.,

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Fugir para quê?

 

Mais forte que eu

É a vida que governa

O destino.

Fugir-lhe?

Como e para quê?

 

Mais forte

De que a vida

Só a morte!

 

Seria bom que a vida

Não tivesse

Destino, nem sorte

Ou até a morte…

 

Que a vida

Sem sorte,

É destino

Sem norte,

…Pior que a própria morte…  

 

SF           

                                                                                                 

 

 

 

domingo, maio 01, 2016


Oh   Mãe!

Eu poderia dizer hoje

Tanto…tanto, sobre Ti,

Que o céu não chegaria

Para bordar as palavras

Que dizer-Te, eu quereria…

Mas basta-me ver no céu

Apenas as três letras

Em vez da Tua cara de ouro…

Para compreender

Que a vida inteira

Depende da palavra Mãe.

 
SF-1 Maiio 2016

terça-feira, março 29, 2016




 Sim…simmm,  eu sei e aceito que estes actos ,podem ser , ingratos, imerecidos…e sempre discutíveis.

Os que não gostaram, têm pois, motivo para  dar largas ao seu protesto.

Por mim ,que nunca o pedi, nem fiz nada –mas nada !- para me pôr nos bicos dos pés, cumpre-me ,grato,agradecer .

Sei isso, assumo-o inteiramente, este acto de compromisso público com Ílhavo(e nada mais!...)  acarreta-me muitas mais responsabilidades. É,pois,um  desafio. Por isso gostei…

Durante a sessão comoveu-me ouvir determinadas apreciações, provindas de sectores que sempre  respeitei, mas que nem sempre respeitaram os meus direitos. Eu não mudei….isso é certo. Por isso estou feliz ,se é que neste emaranhado mundo, tal se pode ser, ainda que fugazmente.

E depois…

Eu que nunca joguei para o segundo lugar, ao ser-me atribuída a medalha de «prata», significa que vou continuar a ter de  lutar ,obstinadamente ,e a meu jeito, para ganhar num futuro –sem data- a medalha de ouro.

Obrigado pois,  a todos que intervieram na atribuição
SF


sábado, março 26, 2016


 

 
(que a ninguém lhe passe pela cabeça...)
 
O ESPELHO

 
Por detrás de cada espelho

Há um acumular de silêncios por explicar,

Pedaços de vida  amortalhada

Em tantos passos dados no ar .

 
Nos espelhos perdem-se os sonhos:

Estão lá coisas que não queremos mais ver

E não estão as que  já não existindo,

Gostaríamos que lá estivessem ainda.

 
No espelho tudo dói,

Tudo magoa,

Tudo desilude,

O espelho é como o vento

Que leva o bom

E deixa o que de mau vai restando de nós.

 
Fui espreitar, curioso,

Atrás do  meu espelho

Vi

Choro,sorriso ,lágrimas, olhares de dôr, sentimento,

Vi

Desalento, quimeras, mágoas molhadas, razões esmagadas

Vi

Amores perdidos, amores vencidos, labirintos criados no tempo,

Vi

Crueldade, desespero, desengano, palavras mordidas, derrotas marcadas,

Vi

Direitos ofendidos. tortura de silêncio interior, surdo lamento.

 

Dizem que as dores acabam com a sua morte

Só uma perdura , mesmo depois de morrer:

 A Ingratidão…

Desta tralha havia  muita, atrás do meu espelho.

 

Peguei  na tralha e estendia-a.

Fiz então dos braços

Mastros erguidos ao céu,

Mezena   e   traquete  cociados ,                     

Fiz das mãos estensulas  postas ao léu,

E entre eles desfraldei o mariato .

Atei o que vi  

No cordel imaginário do tempo.

Estava ali, eu!... de corpo inteiro,

Assim, nu , exposto ao vento.

 

Parti o espelho

Quero apenas me olhar

No espelho dos teus olhos

Ternos e profundos como o mar,

A não querer saber o que fui

Nem o que não fui,

Apenas saber o que ainda sou.

SF

 

 

segunda-feira, março 07, 2016


Et voilà….

Ainda ontem referia o mote: as coisas dão trabalho (muito!)  que não deixa de ser emocionante. E até, por vezes, reconfortante.

Pois hoje do meu colega Lauro Marques, que muito estimo ( Presidente da ADERAV) foi-me dada a noticia, de  que, no seguimento do meu livro João Sousa Ribeiro –O Pai da Pátria ,a CMA, por proposta influenciada (certamente da ADERAV)terá  finalmente ! atribuído, a uma artéria de Aveiro, o nome daquele ilustre Aveirense .Colmatando assim, uma falta inexplicável (ou talvez não !).

Deu-me os parabéns, que naturalmente com Ele reparti.

E aqui está. O esforço de trazer à memória tal figura, há muito esquecida, um vulto impar ,não apenas de Aveiro, mas de toda a zona Lagunar, valeu a pena. Quem não conhece a história de Sousa Ribeiro, não conhece a história Lagunar.

Espero que Ílhavo, de que foi Capitão–Mor, e onde tinha o seu palacete, em Alqueidão ,no qual sua bisneta tanto bem fez á População na época das pestilências, procure também uma Avenida para fazer jus ao seu nome, e,assim, agradecer o bem que fez a toda a população. (ver livro «João Sousa Ribeiro –O Pai da Pátria»-CASCi e ou «O Ilhavense».

SF

 

 

Fui para aprender…  e vim inquieto….

Levantei-me madrugada para embarcar para Lisboa, rumo à Sociedade de Geografia  onde contava ir aprender mais uma coisas sobre «Embarcações Tradicionais  do Tejo».Matéria onde ,nos últimos tempos ,me tenho vindo a embrenhar.

Grande desilusão minha.

 Sim, eu começo a estar habituado  a este «saber»  fotográfico, das redes sociais. Publicam-se umas fotos ,põe-se tudo   direitinho ,dizem-se umas coisas, umas  labercadas  caçadas aqui e acolá, e um dia, vem alguém e diz : ai aquele sabe muito de água fervida .Tem muitas fotos  - um acerbo –diz-se . O pior é que isto está a passar para os salões vestutos .  

 Claro que a ideia é apreciável: trazer os actores ao palco …e deixá-los discorrer ….Mas ,nesta ideia ficamos por «ontem »..

Outras vezes vertem –se os PowerPoint’s , mas não se aprofunda o conteúdo. Aquilo é tudo saber da máquina fotográfica. Ora esta não vê. Capta. Ajuda a ilustrar. Mas tem de haver uma cabeça que a leia interprete, e a integre num contexto  determinado.

Venho sempre descorçoado, amargurado.

Há anos numa destas jornadas, tive a oportunidade de mostrar que ao contrário do que durante séculos se pensou, o «Varino»-o célebre Varino ,embarcação emblemática do Rip Tejo  dos fins do Séc XVIII /Séc XIX, teve, a sua génese e concepção, no saber dos carpinteiros Lagunares. Publiquei as minhas averiguações, no 1º Volume das «Embarcações Lagunares»,hoje completamente esgotado, mas, constatei conhecido por vário presentes. Houve um nicho de mercado onde havia seis e foi uma corrida a acabar como stock.

Ora  ontem assisti, caladinho, a duas horas de explanação. Mas reagi-tive de o fazer- ,quando se afirmou categoricamente que a «Fragata» do Tejo ,nele nascera e só nele fora construída.

E como por acaso ia munido de fotos de Várias Fragatas a serem construídas –até!- no Canal das pirâmides, em Aveiro, mostrei-as para espanto daqueles Senhores, que só sabem evocar Lixas Filgueiras.
(embora o posta diga Canal da Ribeira ,eu admito que é lapso)
 
E ao evocá-lo parecem respirar e dizer :já sei tudo. Por cá há muitos seguidores  ….Ora Lixas Filgueiras, foi bom até certo limite, e apenas nos pontos que estudou. Não naqueles em que fez tiro ao alvo, certamente,concedo, por falta de tempo.

Há laços fortíssimos de ligação da Laguna ao Tejo. Não apenas nas nossas gentes, que desde o principio  de setecentos  já por lá fainaram , mas nas embarcações aqui  construídas e levadas para o Tejo :  a «ílhava» (que deu o «barco de água acima», o «Varino» do rio acima) ,depois Varino de carga, Canoas (enviadas) ,«Hiates» ,e claro ,as tais Fragatas,

Curiosa a pergunta que um assistente me veio fazer no final:

-e sempre era verdade que vinham de lá apenas conduzidas por dois tripulantes?

-verdade meu caro.E olhe :não foi só uma vez, que veio só um!!!!
SF

 

sábado, janeiro 23, 2016


DE PRINCESA DO MOLIÇO….A RAINHA DO BACALHAU

( ODE à D Ana Maria, subjugado à distinta entronização )

 
De sossego
Carpia Ana, gostoso deleite,

Penteando suas ondias alouradas…

Batem á porta, forte,
Fortemente,

Gente boa não bateria assim…

 
Abre a porta devagar,
Devagarinho …

Espreitando quem forte batia..(pim!)
Daquele modo tão notado,

Estremece  com três gabões
Á sua porta encalhados…

 
Que quereis confrades meus,

Em  que  posso Vos servir,
Eu donzela de reforma bem merecida,

Que quereis de que vos fale
De  tantos saberes  que tenho de meus,

De bacalhau serei eu, assim, tão entendida?

 
Mercê sua, desejo o nosso

De Vos entronar rainha- boa,
Não nos pode levar a mal

De lançarmos  à agua, o isco
À neta do afamado  Pisco,

Bisneta da  arraisa Càloa.

 
Entrai ….confrades entrai.

Minha barra vos abrirei,
De saberes profundos escancarada.

Fainai…com o trol ou a zagaia,
Não importa o engodo que usais

Ser rainha por um dia, melhor que não ser nada.

 
Tirai-me medida a preceito
Tende cuidado na cinta
E não me apertais muito o peito,

Que quero ser rainha de preito.
Dai-me o vosso  bacalhau ai penduricado

Iguarias tais, vos farei, verei aí o meu jeito.

 

Acima, acima.. gajeiro
Acima ao  traquete real
Vai dizer ao povo rafeiro 
 - Rainha já temos, é do Urjal
Não é uma rainha qualquer

É a rainha do Bacalhau.
SF
    

sexta-feira, janeiro 22, 2016


E vai mais um

 

 Diluo-me na corrente  da vida
Que vai, passo a passo,

Levando o que resta de mim.

Uma coisa  por certa faço:
Vou indo …mas vou de frente.

Nunca virando costas
Ao desafio que é viver.

                       [Assim quero ir  até morrer.

 

Tenho como emblema,
 Ninguém o pode negar,

Que fui apodrecendo

Virando cada página sem desalento.
Nunca cantei por ser poeta,

Nunca fui pomba em procura da paz;

Lírico ou cobarde na hora de dizer não…

                                                         [ isso não!

 

Continuo a sonhar, amor (!)
Só que os sonhos me vão,

Dia a dia, fugindo por entre mãos.

Seguro  nelas, enfeitiçado
A rosa  rubra  que num dia

De amor nosso, inventado,
Colhi de Ti, era já madrugada.

 

Se eu morresse hoje, amor
A ria continuaria o seu fadário.

As gaivotas viriam livres, esvoaçantes,

Ver  o mar enorme, infindo (!)
Morrer na praia ao entardecer.

E eu deixaria de estar à tua espera,
Aqui, decentemente a apodrecer.

                                 [a mim próprio me iludindo

 
sf  22-01.2016

terça-feira, novembro 24, 2015



                                  

Ao fundo á esq pode ver-se o mirante do Prédio

O Palácio dos «CARTAXOS» ardeu. 

 Noticia chegada de Ílhavo, dava-me conta  que,  pela madrugada, a Rua Arcebispo Bilhano(Rua Direita) terá vivido em  sobressalto, causado pelas labaredas que deflagraram do prédio dos «Cartaxos», nela situado,pedaço material da história da urbe.               .

E assim lá se vai mais um marco histórico que marcou uma época, quando Ílhavo era uma próspera Vila em  procura de afirmação urbana.

Este prédio dava para o Largo do «Rossio» (também na gíria conhecido por largo da Capela),pois  assim se chamava o espaçoso (?) largo que o ladeava pelo poente.Largo que,curiosamente, tinha a norte, o edíficio onde se albergou no Sec XIX a Philarmónica Ilhavense.No Largo  deu  a 1ª Banda de ílhavo, alguns concertos,muito apreciados pela população, que vivamente interessada, ali acorria em alvoroço.
O Palacete terá sido mandado construir no ínicio do séc.XIX, por um tal João António Cartaxo, emigrante no Brasil. Terá pasado para sua irmã Maria Gonçalves de jesus,casada com  Manuel Teles, progenitor da família Teles.

O palacete dos «Cartaxos»,assim lhe ouvi muitas vezes chamar,foi  sede do Tribunal  dos Orfãos e, mais tarde, ali esteve instalado o Centro Republicano.

E ainda, posteriormente,  lá terá estado instalado o Sindicato dos Mareantes(assim creio ter sido designado)

No primeiro decénio de novecentos,  a Câmara Municipal de Ílhavo terá entrado  em contacto com os proprietários(já então, como regista a acta  da CMI, a Familia Teles ) com a pretensão de adquirir o prédio, e aí instalar a CMI (até ali  instalada  no Largo do Oitão).Admitia, a Câmara, disponibilizar o R/C para a Associação dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, que ali teve guardada a bomba braçal, após 1894. 


Ao fundo o prédio e o seu mirante(foto de JA Ramalheira)

Chegou a acertar-se  um valor, mas certo é que a Câmara desistiu da ideia, e iria fazer obras no  Convento  das Irmãs de Calais, que entretanto, teriam, pela calada da noite, fugido  e tudo abandonando, em 1910.

No Palacete nasceu o poeta Quintino Teles.

Até hoje, creio,o prédio encontrava-se desabitado..

SF

Nota. João Teles e Maria Gonçalves terão,em 1873, comprado o prédio em frente á Farmácia Senos (então Cunha) ,obra notável de azulejaria .Ora neste prédio nasci eu.

domingo, novembro 15, 2015



AVISO : este Blog contém matéria que pode ferir susceptibilidades a senhoras virgoleiras
                o autor


 Do João da Ega, da saga dos Maias,cpersonagem rica,com quem me envolvi de perto, no último livro «Os Maias na Costa-Nova» recebi esta carinhosa missiva:

Mon chèri ami:

Venho agrdecer o postal que me enviou desse altar que a natureza criou, para que os homens  fizessem da viagem experimental,que é a vida,um hino ao espírito.Da janela do palacete dos Pinto Basto,ao admirar o nascer do sol,graimpando lá das seranias,parecia -me, a mim, pobre mortal, que vivia muito mais intensamente,ao fazer parte desse acordar  esplêndido a provocar  o bulício de tudo quanto ,pousado ou adormecido na Laguna parecia acordar..
Sempre que aprouver, faça -me renascer «do Ega» que anda aqui,novamente, perdido, cumprindo a sina com que nos carimbou o nosso criador, Eça de Queiroz.
À bien tôt...

João da Ega
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E Porque hoje é domingo,resolvi responder ao meu caro Ega

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Caro Mon ami João da Ega

Os meus efusivos cumprimentos, que solicito transmita com intensidade ao nosso comum amigo Carlos da Maia.
Venho dar -lhe conta de que resolvi renovar a V estadia aqui.E envolvê-los de novo numa nova, aventura e estadia,entre nós.

Para adoçar os dias e lhe relembrar  os tempos aqui passados, envio-lhe  um novo postal das suas conhecidas, Tibéria e Josefa, que ajudaram a lhe adoçar -eu não sou de bisbilhotices,descanse!-os dias aqui passados.
Até sempre.
Senos da Fonseca

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Postal da Costa-Nova                                     



 O que valeu ao «Cantigas»  é que  o raio do canário …era canária….

Intriguei-me nestes últimos dias, de nunca mais ter posto,a vista, à  Tibéria e à  Josefa, que como  por encanto desapareceram do mapa. Afinal, nesta ultima  segunda-feira,  novo encontro.  E fiquei a saber porque se eclipsaram: peixeiras na  praça ,esta fecha às segundas. E é  só neste dia que elas vêm desenferrujar as pernas.
  Senhor :dantes era uma fona .Daqui p´ra Ibalho,fazer a venda e voltar  pela noitinha ,derreadas, esgalfas ,mais tesas que o carapau ressequido que não tivera freguesa..Aí sim (!) é que estas perninhas que agora parecem mijadas(com sua licença) eram roliças ,duras e torneadinhas. Ai do zamparilho que se astrevesse a meter-se no meio delas.
-Era assim, era…. ajunta a Zefa. Às vezes, era já noitinha, e o que valia era que aquele caniné do Labareda nos esperava .Até  que todo o pessoal arribasse à Maluca, feita a venda na Vila..
-Atão hoje não têm nenhuma estória para me contar? interroguei eu…a meter cunfia.
-Crédo ,você parece q’ué bruxo .Olhe!...vinha agora a lembrar com a Zefa da história da  Pauseira «Canária», que era uma savelha   de se lhe tirar o chapéu. Mulher danada, de sim ò sopas. Mulher de ou  fora ou adentro a meio é que se não podia ficar.
-Conte lá Ti Tibéria….conte raios que sou todo  interessado.
E a Zefa não se fez rogada.
- A  Pauseira tinha na sua casinha, ali nas dunas, um canário que estimava muito. O raio do pássaro , um dia apareceu esmorecido .Parecia que tinha lançado um grapelim  ao trapiche  e de lá não saia,nem para molhar o bico. E pior : nem piava.O  estipor do canário,dizia o Luis «Cantigas»,o  serrazina do home da Pauseira: -dá-lhe uma «passarinha»a ver se o bicho desperta. Olha : o que o  bicho tem, é falta da «passarinha». T’ asseguro.
-Pois, quem não tem falta da passarinha és tu, «Cantigas» .Há benícias que nem lhe pões a vista em cima. A vista e o resto,raios, diz inquisilenta a Pauseira ao seu homem. P’ra ti esconjurado,«passarinha é o garrafão do tinto. Ora vai-te,que eu tenho mais  que fazer c’abanar o traseiro.
«O Cantigas» lá foi a resmungar  para a vida. A «Pauseira ficou a fazer horas para ir p’rà escorcha, aproveitando para fazer  um caldo de conduto para a ceia. A meio da manhã batem ao «portaló».
-Quem bate? E o que quer ,diz ao tempo que abre a portinhola. Cá fora, especado, o Arnaldo «Mijinhas», uma espécie de botadinho à parte, atrapalhado e nervoso, diz à Ti  Pauseira:
-O Ti Luis mandou-me aqui ,dizendo para  Vossemecê me dar «passarinha» que ele não teve tempo de lhe pôr a boca em cima.
-O Luis mandou-te mesmo ,para eu te dar a «passarinha»? Ai ele quer mesmo enfeite? Anda cá filho,que eu dou-te a dita. E agarrando o «Fininho» puxou-o a si com força, atirando-o para o catre disposta a cumprir ordens, que  Capitão manda imediato obedece.
Só que o Arnaldo pouco dado a empostas do género ,incapaz de ciar em mar tão encapelado  ,fixou com pavor à trabuzana que para ele representava  a Pauseira , e  espavorido,  dá de se libertar do corpo da fera desembolada ,escapulindo-se  ao lancão  d’alentada mulheraça.
À noitinha ,quando o Luís «Cantigas» voltou da faina,a Pauseira não esteve com meias palavras:
-Olha lá ó seu  zamparilho, atão tu agora já não te satisfazes com a «passarinha», e mandas substitutos p’rà   aconchegar?
-C’a estás tu pra aí a xanar, raios? Eu mandei o «Fininho» buscar o garrafão de vinho. A que tu chamas «passarinha», homessa (?!).
-Homessa (!) digo eu ; o que te vale é que  o raio do canário é canária. Senão a estas horas  estavas mais enfeitado que o manso do  boi  amarelo do abegoeiro Ti Aparício.
-À ganda  Ti Zefa.  Vamos lá acabar a voltinha, que para a semana vossemecê  conta-me outra. Combinado, remato eu  bardaleiro ?
-Pois atão .Se lhe der volta, apareça lá pela praça .Há lá bom peixe. O que está a dar ,agora, é  a chaputa» .De entupir uma jàja.   Olhe!...mande notícias aquele bem disposto Ega que por aqui lavrou no rego....
-No rêgo dizas tu... Zefa, que no meu nem chincou...
SF

 (foto Rosa M.Vital)

quarta-feira, novembro 11, 2015


Oh! dor….

 
Oh que dor, hoje

De ter ainda paixão
E não ter versos  para

A descrever como outrora

 
Oh que dor, hoje

De não ter  já a dor de sonhar
E passar a vida a olhar, a Ria,

Correr  célere, direita ao mar.

 
Oh que dor, hoje
De  tudo me bastar
Sem nada  que me baste…

Dizer que ainda estou vivo
Como, ausente de mim, o posso  negar?

 
Oh que dor ,hoje

Sentir nas tuas« mortes»
Que nenhuma morte apagará

Os beijos trocados entre casas, dunas e camas
Onde nos amámos.

Nenhuma  dor  será possível 
Vinda desse tempo em  que  colhíamos o vento

E nos beijávamos
Eternamente apaixonados.

 
Basta a tua lembrança, nesta casa

De sonhos onde guardo o teu nome,
Para te sentir, ausente de mim,

Presente em mim.

Oh meu amor!
Eu poderia dizer aqui tudo…

Inventar tudo o que os poetas inventam
Postos  doridos a negar a  dor,

Mas de ti,não invento nada
Sei que não voltas…

Sobre os meus pensamentos

Cai uma pedra a dizer-me
Quanto  estás longe, aqui tão perto.…

SF 10 Novembro 2015 

 

 

 

 

 

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...