domingo, setembro 04, 2016


Postal da Costa-Nova   Nº 12



O Naufrágio do «Senhor dos Aflitos»



Eh!....gentes, há benicias que não Vos punha o argueiro em cima. Ei menhés… que era feito de Vós. Suas madraças, a faltarem aos ensejos… andais por aí no cangaral
- Ai meu rico filho… queiras lá tu charilo… olhe deu-me uma trízia que me ia levando daqui prós anjinhos…  ­- diz a Zefa, compondo o chapéu de palha que a resguarda do sol, ainda macilento mas a prometer escaldão para mais logo.
- Do inferno querias tu dizer… atalha a Bernarda. Tu (!) pecadora dum raio, metediça até aos càlões… apensas lá tu que quando finares vais pró céu? Tòmarolha?! Armavas pra lá uma chingueradela, um arguizéu, que os anjos batiam as asas esbaforidos… A trízia que ta deu foi o flato c’ arribou ao teu Zé e ficastas sem chupeta, e os gargomilhos entaramelaram-se…
-C’alte mulher desbocada, c’a trízia deu-me pelas perninhas acima. Era uma tremedeira que eu nem podia ir a ver o Senhor
- Coitado… olha o q’Ele perdeu… s’stasse  mesmo a ver…atira –lhe a bernarda sempre inquisiladora.
- Não… a sério meu amigo; no passado dia 20,fazia anos da Tragédia do «Senhor dos Aflitos»,e todos nós ,na Costa-Nova,temos uso e respeito pelos que perderam a vida naquela tragédia, ali à nossa frente,à distância de  50 braças. Se mais!...E vamos à Capela rezar pelas suas almas…que Deus as tenha bem agasalhadas.
. Conte…conte lá mulher….olhe que eu não soube dessa.O  Senhor dos Aflitos,o orago que está no altar, caiu ? ….e estrelaçou-se no empedrado da Capela ?.... estou a ver. Sabe ti Zefa, isso sucede. De tão cansados de estarem sempre de pé e com cara arreganhada….Isto de ser santo, cansa, afianço-lhe eu..
- Não …lá está vossemessê na  xuxa….É danadinho pra mangação….olhe (!) da fama não se livra….e quando a fama chega à rua do lá vai um, é porque : - afamado mas de barriguinha cheia…. Nà…de ser santo não se cansará o amigo.
-Ora ..ora … suas sinfosas simpáticas. Deixem–se de créditos…isso é tudo mal olhado …q’eu p’ra santo ,só me falta a andor….
-Agora a sério. Vamos lá imbarquear. E a Zefa começa a desbobinar
- O «Senhor dos Aflitos» era um barco do mar da Companha do arrais Espiga. Homme bô, ganda arrais. Daqueles c’olhava o mar e logo sabia onde aboiava o peixe. Naquele ano,estávamos em Novembro. A safra tinha sido uma miséria. Uma galiqueira, dizia o Espiga .Nem xarabanecos, nem pilado ...nada!… só água coada .Uma tesura maior que a de um homem enviajado, há seis meses sem chincar vista em cima de fêmea, quanto mais o que vossemessê sabe….
Era já tempo de meter redes em cima e estivar  barcos na duna, não fosse o cão danado do mar  vir desentoado, e fazer os seus estragos.
O dia tinha sido sombrio na véspera. As gaivotas pousadas na praia eram mau agoiro: «em terra a gaivota …é porque o mar a enxota», lá diz o saber dos borda d’água. Tinha trovejado de noite  …..e também lá se diz «trovão solto no céu reboa,…violento temporal apregoa». Mas o Senhorio, sempre a querer, mais e mais, tinha mandado tocar o búzio no cimo da duna, antes do alvorecer. A companha foi-se aproximando. Temerosos todos olhavam o mar.
- Ah!..raios …q’elas vêm alavantadas….e não dão descanso ,nem òspois da trecera……diziam temerosos….
- E o arrais, o que decidiu Ti Zefa?- interrompi eu …
-Bem o arrais esteve hirto, tenso, barrete encafuado,cachimbo pendente entre dentes …sempre a resmungar…escupindo de quando em vez.
E tomou decisão :
- Não Sr. Rechina ( assim se chamava o Senhorio)… com este mar é de guardar resguardo, e não arriscar…
-Eh Ti Espiga ! Atão vossemessê,o arrais mais afamado destes mares…que se gaba de mijar p’ró dito, tem medo dele? Hoje (?!)  que mal atrepa na duna? E a miséria dos seus homens não lhe faz perder o medo? 
- Olhe cá ò Rechina  das «Vacas Gordas» .Eu não tenho medo do mar. Não senhor…Tenho-lhe  é respeito. E se me avisa  que  não me quer lá, respeito-o como a uma mulher. Se não me quer hoje, há-de me querer amanhã…E ouça lá ò peralvilho, penhorista de bens e almas : - mais vale os meus homens passarem mais um dia de fome, que irem procurar pão ao inferno. Que lá só há escasso….Pilados  como  vossemecê...
- Se não vai, tenho ali o Toino «Esguelhudo» que leva o barco- atalha mau encarado o Rechina. E virando-se para a companha diz: Vá gente, embarcai merdosos(!) … que hoje o quinhão é a dobrar.
E a Zefa continua contando…
-E aqueles homens picados por tal promessa, embora hesitando, dando um passo e recuando dois, sempre xaringados pelas promessas do Senhorio, e pelos olhares gulosos de algumas  vendedeiras de peixe  que os acicatavam  p’ró risco, prometendo-lhes  outras benesses mais quentes - mulheres viciosas, mal paridas, que só olham para a sua bolsilho - lá foram embarcando.
-Olhai homens: eu bem vos aviso. Saltai enquanto é tempo…. ouviu-se a voz em trovoada do Ti Espiga.
Mas o barco já ia na borda, continuou a Zefa…
-Houve dois camboeiros, o Gestas e o Gateira, que mesmo à beira saltaram borda fora….escanjurrando a sorte. Veio a primeira vaga. O barco empinou, encabritou, ergueu a bica às alturas, parecendo pedir  protecção ao criador. Mas  foi só um momento. Logo caiu de borco nas costas da vaga, a esparralhar quanta água estava  à sua volta. O barco ungido por tanto farfalho deixou de se ver. Ouviam-se os gritos descontrolados dos que iam no seu bojo. Era aterrador o escarcéu dos pobres embarcados, a verem a morte bailando nas vagas aterradoras.
-Ai S.Pedro…ai nossa Senhora  da Saúde:tomai conta de nós….Ai que estamos desgraçados…acudi-nos…rema…rema….ai que aí vem outra desalmada. Sobe,sobe…..Ai ….ai…

Foto : Rui Cruz

E o barco, bom rompedor, bica afiada para evitar a batidela, a custo parece querer erguer-se. O  Toino «Esguelhudo»,descontrolado,  em vez de olhar o mar abre os braços, e virando-se,louco de medo, para terra, a gritar:
-Ai Ti Espiga. Venha cá home…eu não seguro o barco com esta besta do mar….Ai …acuda….acuda…que morremos todos aqui.
E vai  daí, incapaz larga o reçoeiro, o que numa situação daquelas é o fim. O Xico da «Maluca» ainda se atira ao cabo de terra que salta da mão do Toino. Que ajoelhado chora, grita, implora. O Xico bem tenta endireitar o barco e pô-lo de capa à terceira vaga. Mas era tarde e já não consegue o intento. O «Senhor dos Aflitos» começou a enviesar. E a mostrar à vagalhoça tremenda, não a bica afiada, mas o começo da amura. A vaga pega-lhe. Um primeiro soluço e «Senhor dos Aflitos» atravessa-se. E um segundo soluço… e o barco volta-se de cangalhas, fundo ao ar. Com o zangalhar da embarcação, parte dos homens são cuspidos. Foi o que lhes valeu. O Arrais Espiga já comanda na borda os homens de terra. Lançando-se ao mar puxam para terra mais de uma dúzia de camaradas. São lançados cabos,boias, cortiças, odres- tudo quanto aboiasse!- a que outros se agarraram desesperadamente.

Viradela


Emocionada, lacrimeta ao canto do olho, a Zefa  continua :
- a praia tornou-se um espectáculo de arrepiar. O mulherio de joelhos, mão cerradas, punhos erguidos, cabelos desgrenhadas, lágrimas vertendo como cascatas dos olhos, vidrados pelo terror, imploram salvação p’ràqueles desgraçados. Gritos roucos, esganidos, misturam-se com  vozearia  de «agarra-te»…«nada»…«nada» só mais um bocado; «achega-te que já te ponho a mão».Um balreiro do caraças….

O pior era dos homens que tinham ficado ensarilhados nas redes. Não podendo libertar-se, ficaram debaixo da embarcação quando esta se volteou, ficando de fundo ao ar. O mar foi empurrando o barco para a borda. Mas as redes não deixavam os homens mergulhar e safarem-se. Pareciam peixe preso nas albitanas.

E é o fim.....

Um machado….um machado..vá gritava  o Arrais Espiga….depressa seus pandões.Maneiem-se estipores que estes desgraçados morrem todos, se não lhes acudirmos.
Só que  o «depressa» não veio tão rápido como se queria. E só passada uma eternidade - uma eternidade sim (!) que naqueles momentos cada segundo é uma vida- sublinhava a Zefa, é que o machado chegou às mão do Ti «Espiga». Entrando mar adentro atirou-se a partir o fundo do barco, estilhaçando-o. Logo acorreram camaradas a dar ajuda. E até a Marília «Tuna», mulher despachada lá do Arnal, resoluta, entrou pelo rasgão, e começou a esgaravatar. À procura de mãos para puxar os quase mortos. E muitos, os que Deus quis, foram retirados.
-Todos, atrevo-me ansioso, a perguntar à contadeira?
-Não….. oito ficaram ensarilhados. E só passadas muitas horas se conseguiram resgatar os seus corpos, já sem vida, responde a Zefa, voz embargada, parecendo reviver aquele momento.Oito vidas perdidas por causa da tentação de ganhar mais umas moedas para acudir à fome. Sorte danada a daqueles homes. Vida estuporada, sempre a negar alguma fartura.Tísica. Esculhambrada vida.
- Grande tragédia, de que nunca tinha ouvido notícia. Acabou mal. Pobre gente.
-E olhe que ainda não terminou, continua  a outra, a  Bernarda.
-Olhe: no areal a gente num vai e vem chorando os seus mortos. Outros chora os seus camaradas. No rosto do Ti Espiga, eu,  Bernarda, vi com estes olhos que a terra há-de comer, um sinal de cólera incontida. Homem graúdo, foi à procura do Rechina.Do  Senhorio. Este refugiara-se no palheirão. O Ti Espiga ali chegado, bate forte. Duas murraças valentes na porta enquanto troveja:
-  Salte cá para fora, para ver quem tem medo. Um homem  é um chinquilho ao pé do mar. Mas vossemessê é um cobardola, um porco agiota.Salte ou trago-o pelos gargomilhos…..já que tomates é coisa  que sua mãe não lhe deu ao nascer. Capado de nascença. Fraldoco, pissofoque.
O  Rechina, lá dentro, julgando-se protegido pelo portão grosso da abegoaria, fez ouvidos de mercador. Então o Ti Espiga com o machado com que arrombara o fundo da embarcação, estrançalha e faz em fanicos, a porta da abegoaria. O gado com a barulheira espanta-se e irrompe pela portada. O  Rechina  «das Vacas Gordas»  que estava tentando segurar a portada para ela não ceder aos punhos do «Espiga», é apanhado no estouro da manada. E enfiado nos cornos do «Malhado», vai aos rodilhões, levado areal fora pela besta. Os da borda vêm a correr, num alarido nunca visto. Uns gritando, outos batendo palmas. Outros atónitos e apalermados, arrojam-se no areal, pensando que por ali andava  o  S Bartolomeu à solta.
-E não puseram uma lápide na praia como nome dos desgraçados?- atrevi-me eu a perguntar.
-Não não puseram. Conta-se é, que à noite, a Marília, toda de negro  vestida, se abeirara do mar já aquietado, a enrolar manso no areal, parecendo arrependido. E dizem que  ouviram a sua voz chorosa:
- Porque me levaste o meu Luís?... mar…desalmado. E agora o filho dele que trago no ventre: o que lhe vou fazer?...
 E erguendo-se, atira o xaile que a cobria atirando-o ao areal. Louca faz o gesto de se atirar ao mar, pondo fim ao sofrimento, ao encontro do Luís.
-E …e depois ti Bernarda; morreu? A desgraçada…
-Não amigo .De repente surgiu da sombra uma figura que lhe gritou de um modo  imperativo e a fez parar do seu gesto aloucado:
-Não rapariga…não lhe faças essa vontade. E agarrando a Marília, prende-a a si, evitando a desgraça.
-Tens de ter o teu filho. O filho do Luis «Trimbolim»,que há-se ser um valente como o pai - diz em voz cavada o Ti Espiga à Marília. Tinha, à tarde, notado o olhar torvo da Marília,  adivinhando o gesto louco de então….Por isso a seguira. Agarrando nela levou-a para recato seguro.
- E o que é feito do filho da Marília,o Luís ? perguntei, curioso.
-  O Luís «Trimbolim» ?Anda por esse mar fora a desafiar o mar. Filho de pescador é pescador.Ele também. Dizem ouvi-lo ranger os dentes, afrontando o danado que lhe roubou o Pai: ah mar, mataste o meu Pai. Não te tenho medo, não. Nem ò vida ….Vá: - agacha-te…
Senos da Fonseca  Set 2016

Postal da Costa-Nova   Nº 12



O Naufrágio do «Senhor dos Aflitos»



Eh!....gentes, há benicias que não Vos punha o argueiro em cima. Ei menhés… que era feito de Vós. Suas madraças, a faltarem aos ensejos… andais por aí no cangaral
- Ai meu rico filho… queiras lá tu charilo… olhe deu-me uma trízia que me ia levando daqui prós anjinhos…  ­- diz a Zefa, compondo o chapéu de palha que a resguarda do sol, ainda macilento mas a prometer escaldão para mais logo.
- Do inferno querias tu dizer… atalha a Bernarda. Tu (!) pecadora dum raio, metediça até aos càlões… apensas lá tu que quando finares vais pró céu? Tòmarolha?! Armavas pra lá uma chingueradela, um arguizéu, que os anjos batiam as asas esbaforidos… A trízia que ta deu foi o flato c’ arribou ao teu Zé e ficastas sem chupeta, e os gargomilhos entaramelaram-se…
-C’alte mulher desbocada, c’a trízia deu-me pelas perninhas acima. Era uma tremedeira que eu nem podia ir a ver o Senhor
- Coitado… olha o q’Ele perdeu… s’stasse  mesmo a ver…atira –lhe a bernarda sempre inquisiladora.
- Não… a sério meu amigo; no passado dia 20,fazia anos da Tragédia do «Senhor dos Aflitos»,e todos nós ,na Costa-Nova,temos uso e respeito pelos que perderam a vida naquela tragédia, ali à nossa frente,à distância de  50 braças. Se mais!...E vamos à Capela rezar pelas suas almas…que Deus as tenha bem agasalhadas.
. Conte…conte lá mulher….olhe que eu não soube dessa.O  Senhor dos Aflitos,o orago que está no altar, caiu ? ….e estrelaçou-se no empedrado da Capela ?.... estou a ver. Sabe ti Zefa, isso sucede. De tão cansados de estarem sempre de pé e com cara arreganhada….Isto de ser santo, cansa, afianço-lhe eu..
- Não …lá está vossemessê na  xuxa….É danadinho pra mangação….olhe (!) da fama não se livra….e quando a fama chega à rua do lá vai um, é porque : - afamado mas de barriguinha cheia…. Nà…de ser santo não se cansará o amigo.
-Ora ..ora … suas sinfosas simpáticas. Deixem–se de créditos…isso é tudo mal olhado …q’eu p’ra santo ,só me falta a andor….
-Agora a sério. Vamos lá imbarquear. E a Zefa começa a desbobinar
- O «Senhor dos Aflitos» era um barco do mar da Companha do arrais Espiga. Homme bô, ganda arrais. Daqueles c’olhava o mar e logo sabia onde aboiava o peixe. Naquele ano,estávamos em Novembro. A safra tinha sido uma miséria. Uma galiqueira, dizia o Espiga .Nem xarabanecos, nem pilado ...nada!… só água coada .Uma tesura maior que a de um homem enviajado, há seis meses sem chincar vista em cima de fêmea, quanto mais o que vossemessê sabe….
Era já tempo de meter redes em cima e estivar  barcos na duna, não fosse o cão danado do mar  vir desentoado, e fazer os seus estragos.
O dia tinha sido sombrio na véspera. As gaivotas pousadas na praia eram mau agoiro: «em terra a gaivota …é porque o mar a enxota», lá diz o saber dos borda d’água. Tinha trovejado de noite  …..e também lá se diz «trovão solto no céu reboa,…violento temporal apregoa». Mas o Senhorio, sempre a querer, mais e mais, tinha mandado tocar o búzio no cimo da duna, antes do alvorecer. A companha foi-se aproximando. Temerosos todos olhavam o mar.
- Ah!..raios …q’elas vêm alavantadas….e não dão descanso ,nem òspois da trecera……diziam temerosos….
- E o arrais, o que decidiu Ti Zefa?- interrompi eu …
-Bem o arrais esteve hirto, tenso, barrete encafuado,cachimbo pendente entre dentes …sempre a resmungar…escupindo de quando em vez.
E tomou decisão :
- Não Sr. Rechina ( assim se chamava o Senhorio)… com este mar é de guardar resguardo, e não arriscar…
-Eh Ti Espiga ! Atão vossemessê,o arrais mais afamado destes mares…que se gaba de mijar p’ró dito, tem medo dele? Hoje (?!)  que mal atrepa na duna? E a miséria dos seus homens não lhe faz perder o medo? 
- Olhe cá ò Rechina  das «Vacas Gordas» .Eu não tenho medo do mar. Não senhor…Tenho-lhe  é respeito. E se me avisa  que  não me quer lá, respeito-o como a uma mulher. Se não me quer hoje, há-de me querer amanhã…E ouça lá ò peralvilho, penhorista de bens e almas : - mais vale os meus homens passarem mais um dia de fome, que irem procurar pão ao inferno. Que lá só há escasso….Pilados  como  vossemecê...
- Se não vai, tenho ali o Toino «Esguelhudo» que leva o barco- atalha mau encarado o Rechina. E virando-se para a companha diz: Vá gente, embarcai merdosos(!) … que hoje o quinhão é a dobrar.
E a Zefa continua contando…
-E aqueles homens picados por tal promessa, embora hesitando, dando um passo e recuando dois, sempre xaringados pelas promessas do Senhorio, e pelos olhares gulosos de algumas  vendedeiras de peixe  que os acicatavam  p’ró risco, prometendo-lhes  outras benesses mais quentes - mulheres viciosas, mal paridas, que só olham para a sua bolsilho - lá foram embarcando.
-Olhai homens: eu bem vos aviso. Saltai enquanto é tempo…. ouviu-se a voz em trovoada do Ti Espiga.
Mas o barco já ia na borda, continuou a Zefa…
-Houve dois camboeiros, o Gestas e o Gateira, que mesmo à beira saltaram borda fora….escanjurrando a sorte. Veio a primeira vaga. O barco empinou, encabritou, ergueu a bica às alturas, parecendo pedir  protecção ao criador. Mas  foi só um momento. Logo caiu de borco nas costas da vaga, a esparralhar quanta água estava  à sua volta. O barco ungido por tanto farfalho deixou de se ver. Ouviam-se os gritos descontrolados dos que iam no seu bojo. Era aterrador o escarcéu dos pobres embarcados, a verem a morte bailando nas vagas aterradoras.
-Ai S.Pedro…ai nossa Senhora  da Saúde:tomai conta de nós….Ai que estamos desgraçados…acudi-nos…rema…rema….ai que aí vem outra desalmada. Sobe,sobe…..Ai ….ai…

Foto : Rui Cruz

E o barco, bom rompedor, bica afiada para evitar a batidela, a custo parece querer erguer-se. O  Toino «Esguelhudo»,descontrolado,  em vez de olhar o mar abre os braços, e virando-se,louco de medo, para terra, a gritar:
-Ai Ti Espiga. Venha cá home…eu não seguro o barco com esta besta do mar….Ai …acuda….acuda…que morremos todos aqui.
E vai  daí, incapaz larga o reçoeiro, o que numa situação daquelas é o fim. O Xico da «Maluca» ainda se atira ao cabo de terra que salta da mão do Toino. Que ajoelhado chora, grita, implora. O Xico bem tenta endireitar o barco e pô-lo de capa à terceira vaga. Mas era tarde e já não consegue o intento. O «Senhor dos Aflitos» começou a enviesar. E a mostrar à vagalhoça tremenda, não a bica afiada, mas o começo da amura. A vaga pega-lhe. Um primeiro soluço e «Senhor dos Aflitos» atravessa-se. E um segundo soluço… e o barco volta-se de cangalhas, fundo ao ar. Com o zangalhar da embarcação, parte dos homens são cuspidos. Foi o que lhes valeu. O Arrais Espiga já comanda na borda os homens de terra. Lançando-se ao mar puxam para terra mais de uma dúzia de camaradas. São lançados cabos,boias, cortiças, odres- tudo quanto aboiasse!- a que outros se agarraram desesperadamente.

Viradela


Emocionada, lacrimeta ao canto do olho, a Zefa  continua :
- a praia tornou-se um espectáculo de arrepiar. O mulherio de joelhos, mão cerradas, punhos erguidos, cabelos desgrenhadas, lágrimas vertendo como cascatas dos olhos, vidrados pelo terror, imploram salvação p’ràqueles desgraçados. Gritos roucos, esganidos, misturam-se com  vozearia  de «agarra-te»…«nada»…«nada» só mais um bocado; «achega-te que já te ponho a mão».Um balreiro do caraças….

O pior era dos homens que tinham ficado ensarilhados nas redes. Não podendo libertar-se, ficaram debaixo da embarcação quando esta se volteou, ficando de fundo ao ar. O mar foi empurrando o barco para a borda. Mas as redes não deixavam os homens mergulhar e safarem-se. Pareciam peixe preso nas albitanas.
Um machado….um machado..vá gritava  o Arrais Espiga….depressa seus pandões.Maneiem-se estipores que estes desgraçados morrem todos, se não lhes acudirmos.
Só que  o «depressa» não veio tão rápido como se queria. E só passada uma eternidade - uma eternidade sim (!) que naqueles momentos cada segundo é uma vida- sublinhava a Zefa, é que o machado chegou às mão do Ti «Espiga». Entrando mar adentro atirou-se a partir o fundo do barco, estilhaçando-o. Logo acorreram camaradas a dar ajuda. E até a Marília «Tuna», mulher despachada lá do Arnal, resoluta, entrou pelo rasgão, e começou a esgaravatar. À procura de mãos para puxar os quase mortos. E muitos, os que Deus quis, foram retirados.
-Todos, atrevo-me ansioso, a perguntar à contadeira?
-Não….. oito ficaram ensarilhados. E só passadas muitas horas se conseguiram resgatar os seus corpos, já sem vida, responde a Zefa, voz embargada, parecendo reviver aquele momento.Oito vidas perdidas por causa da tentação de ganhar mais umas moedas para acudir à fome. Sorte danada a daqueles homes. Vida estuporada, sempre a negar alguma fartura.Tísica. Esculhambrada vida.
- Grande tragédia, de que nunca tinha ouvido notícia. Acabou mal. Pobre gente.
-E olhe que ainda não terminou, continua  a outra, a  Bernarda.
-Olhe: no areal a gente num vai e vem chorando os seus mortos. Outros chora os seus camaradas. No rosto do Ti Espiga, eu,  Bernarda, vi com estes olhos que a terra há-de comer, um sinal de cólera incontida. Homem graúdo, foi à procura do Rechina.Do  Senhorio. Este refugiara-se no palheirão. O Ti Espiga ali chegado, bate forte. Duas murraças valentes na porta enquanto troveja:
-  Salte cá para fora, para ver quem tem medo. Um homem  é um chinquilho ao pé do mar. Mas vossemessê é um cobardola, um porco agiota.Salte ou trago-o pelos gargomilhos…..já que tomates é coisa  que sua mãe não lhe deu ao nascer. Capado de nascença. Fraldoco, pissofoque.
O  Rechina, lá dentro, julgando-se protegido pelo portão grosso da abegoaria, fez ouvidos de mercador. Então o Ti Espiga com o machado com que arrombara o fundo da embarcação, estrançalha e faz em fanicos, a porta da abegoaria. O gado com a barulheira espanta-se e irrompe pela portada. O  Rechina  «das Vacas Gordas»  que estava tentando segurar a portada para ela não ceder aos punhos do «Espiga», é apanhado no estouro da manada. E enfiado nos cornos do «Malhado», vai aos rodilhões, levado areal fora pela besta. Os da borda vêm a correr, num alarido nunca visto. Uns gritando, outos batendo palmas. Outros atónitos e apalermados, arrojam-se no areal, pensando que por ali andava  o  S Bartolomeu à solta.
-E não puseram uma lápide na praia como nome dos desgraçados?- atrevi-me eu a perguntar.
-Não não puseram. Conta-se é, que à noite, a Marília, toda de negro  vestida, se abeirara do mar já aquietado, a enrolar manso no areal, parecendo arrependido. E dizem que  ouviram a sua voz chorosa:
- Porque me levaste o meu Luís?... mar…desalmado. E agora o filho dele que trago no ventre: o que lhe vou fazer?...
 E erguendo-se, atira o xaile que a cobria atirando-o ao areal. Louca faz o gesto de se atirar ao mar, pondo fim ao sofrimento, ao encontro do Luís.
-E …e depois ti Bernarda; morreu? A desgraçada…
-Não amigo .De repente surgiu da sombra uma figura que lhe gritou de um modo  imperativo e a fez parar do seu gesto aloucado:
-Não rapariga…não lhe faças essa vontade. E agarrando a Marília, prende-a a si, evitando a desgraça.
-Tens de ter o teu filho. O filho do Luis «Trimbolim»,que há-se ser um valente como o pai - diz em voz cavada o Ti Espiga à Marília. Tinha, à tarde, notado o olhar torvo da Marília,  adivinhando o gesto louco de então….Por isso a seguira. Agarrando nela levou-a para recato seguro.
- E o que é feito do filho da Marília,o Luís ? perguntei, curioso.
-  O Luís «Trimbolim» ?Anda por esse mar fora a desafiar o mar. Filho de pescador é pescador.Ele também. Dizem ouvi-lo ranger os dentes, afrontando o danado que lhe roubou o Pai: ah mar, mataste o meu Pai. Não te tenho medo, não. Nem ò vida ….Vá: - agacha-te…
Senos da Fonseca  Set 2016

sábado, setembro 03, 2016



A Festa do S.Pedro vira Sr Jesus dos Navegantes



A Festa de S. Pedro, a partir de uma determinada data que não se consegue fixar com exactidão, passa a ter a designação de Festa do Senhor Jesus dos Navegantes e de S. Sebastião. Admitimos que tal tenha acontecido por meados do século XIX, ideia que sustentamos no facto de, por volta de 1840, nas notas do conselheiro José Ferreira da Cunha, este nos falar numa altercação surgida entre juízes da festa, motivada pela pretensão da substituição do anteriormente referido barquinho, por um outro, já não de pesca mas do tipo veleiro; nesse ano teria estado em risco a realização da festa. Felizmente, a questão foi ultrapassada mas seria um primeiro sinal de que algo estaria para mudar. Algo que viria a acontecer, pois, a partir de determinada data, o barco do andor do Salvador é já um veleiro do alto. Em 30 de Junho de 1865, podemos encontrar, inscritas no livro do priorado, despesas certamente referentes a 1864, no valor de 16$000 reis, com a festa que toma, já então nessa data, a designação de Festa do Senhor Jesus dos Mareantes e de S. Sebastião. Apesar de parecer uma simples mudança a designação de um novo orago para festejo popular, essa situação reflecte, a nosso ver, uma alteração profunda que se fez sentir no tecido social da vila, o que nos parece importante assinalar, pois a mesma é fruto de uma mudança (verificada) no perfil do pescador, quando este se transforma em mareante, deixando, por isso, a borda do mar para nele se engolfar profundamente.







Este mareante pretende demarcar-se do seu antecessor, o pescador, porque, assumindo-se como homem do mar mas com outras vistas, com outras larguezas, com outras ambições, senhor de um novo desígnio; ambiciona, desse modo, ganhar estatuto social que os seus anteriores sempre desprezaram, e até posição preponderante na vila, uma vez que a sua situação económica se pode já comparar à classe alta da comunidade. Nesse tempo – meados do século XIX – o ílhavo tinha já deixado para trás os areais da Costa-Nova, decidido a assumir o desígnio de altieiro que daí em diante lhe marcaria o destino. Cumpriu-o a percorrer, infatigável e irrequieto, todos os mares deste mundo, conhecendo novas terras e novas gentes, enleado na descoberta surpreendente das novas paragens, deixando para trás, a substituí-lo na borda do mar, o gafanhão que desceria à praia levando consigo os bois da lavra, emprestando à faina um aspecto rural, uma lavra do areal. A festa em Ílhavo, a S. Pedro, já não fazia sentido ser realizada pelas novas Companhas na vila, uma vez que já teriam a sua festa, a da N.ª Sr.ª da Saúde, na Costa-Nova. Em Ílhavo, o orago a celebrar não fazia sentido ser, apenas e só, o protector dos pescadores – o S. Pedro – mas sim o Salvador, protector de todos os que sulcam todo o mar, independentemente das lonjuras ou actividade marinheira. Por isso, cremos estar assim justificada esta mudança de designação da festa anual da matriz para Senhor Jesus dos Navegantes.



A imagem do Senhor Jesus, descrita em 1758 como sendo muito milagrosa, passa a substituir a de S. Pedro no andor da festa e vai contar, no início do século XX, com a companhia do lugre o Navegante. Ao novo orago, desde então, foram dedicados toda uma série de quadros (os ex-votos), tábuas votivas com que se cumpria o acto prometido numa representação pictórica simples, de um modo ingénuo, algo naif, penhor da grande devoção e fé destas gentes perante eminentes naufrágios ou outras aflições passadas no mar.

Senos da Fonseca

segunda-feira, agosto 01, 2016








Quando eu morrer..



Céu claro

Águas azuis



Deslumbrado, fixo

A beleza da gaivota

De assas abertas esvoaçando



Céu azul

Águas claras



Oh! O reflexo do sol poente

Naquela vidraça,

Lá do outro lado



Céu azul

Vidraça afogueada



Oh! Como a maré

Corre tão terna

De tanto correr,vai cansada.



Águas azuis

Céu de poentes



Vou esperar pela estrela

Que vem sózinha

Sem trazer noivo,

A aguardar um galã

Que a roube

À prisão que o dragão,

De mil olhos zela

Para que não fuja.



Aguardem Vocês raparigas

Quando eu morrer

Virei roubar-vos uma a uma,

Para Vos pôr ao espelho

A  mirar Vosso corpo

Para nele matar

A minha saudade de amor

Sedenta.
SF  agosto 2016

quinta-feira, julho 14, 2016










E desta vez valeu bem a pena....


Na sequência da minha sugestão,a ADERAV , propôs à Câmara Municipal de Aveiro,a correcção de uma enorme, e incompreensível, falta: a ausência na Toponímia da Cidade, do nome de um dos seus Maiores: João Sousa Ribeiro-O Pai da Pátria.


Recebi, hoje, da ADERAV a comunicação, provinda da Câmara municipal de Aveiro, que esta aceitara  a proposta daquela Associação ,e iria atribuir  o nome de João Sousa Ribeiro,a uma das artérias da Cidade.
Os feitos de Sousa Ribeiro, o seu altruísmo, a abnegação, a personalidade de uma reputação sem mácula, o saber, e a prestação de tão altos serviços, a Aveiro, mereciam que o seu nome perdure ,para sempre, numa das artérias da cidade, para memória futura.

Valeu pois, a pena, o trabalho que fiz sobre tão apelativa e histórica figura.

Espero agora que ílhavo ,de quem foi seu Capitão-mor ,o faça igualmente.
À ADERAV, em especial ao seu Presidente, Eng. Lauro Marques, o meu agradecimento


Senos da Fonseca









segunda-feira, julho 11, 2016



Nota:  Para a Homenagem que a CM de Mira  fez ao Mestre «Gadelha» ,foi-me solicitado  nas vésperas um texto sobre uma possível conversa entre um «mirão» e um «murtoseiro». Foi representada por dois excelentes actores do Seixo. Aqui a reproduzo.

                                    
   Ti Ricoca Mirão

 -  Atão vai vossemecê(?) Ti  Agostinho «Murtoseiro»…..está aí sozinho que até parece um gelfeiro  com lepra(deus me perdoe).Intè prece que lhe morreram os porcos da parideira,home.Vamos lá beber um copo desta auga que aqui trago, que  veio lá da lavra de Cantanhede ,a quem vendo  o moliço…

                                                       Ti Agostinho «Murtoseiro»

-  Abusaca -taí ,  Ricoca Mirão; esculhambrado, c’a bem preciso de me chegar a entender contigo ; andas praì a fazer um raso, a estroicegar no preço do moliço, a  dares  cabo do pouco pão que ganhamos para a boca….

                                                          Ti Ricoca

 Eu ?....eu que vendo os meus barcos, sempre bem atulhado nos quetes  inté  ás falcas…,ai eu é c’ando a estragar preços ?!!!.E vocês lá das Quintas, seus «labregos» dúm raio ,que vindes aqui ,descarregar o que já ninguém Vos compra….,,o que fazeis (?), tinhosos da ria. Pouco falta para o dar…

                                                            Ti Agosinho

Está maloservado, muito maloservado ….nós trazemos cá os nossos fios doirados, porque a ria pró nosso lado, tem os cabelos loiros, luzidios, que nós penteamos ,ancinho atrás de ancinho

                                                              Ti Ricoca

Olha !- mas nós,aqui no sule ,temos um moliço que mais parece uma alface acabada de apanhar ,fresquinha, bem regada.Com esta alface e o pilado  os nossos campos  da Gândara ,hão –de pintar-se de verde…

                                                                 Ti Agostinho

Um bom pilado me parece  vossemecê ….Verdes já são os nossos; aquilo é cada espiga de milho que parece ondular com a musica do vento. Então e o batatal…



                                                                  Ti Ricoca

Batata…batata..ora …nem mafales, que me mijo a rir :pacóvios . A «Pinta Cristos» é que consertou o santo lá  do teu Monte ,pôs-lhe uma batata na cabeça quebrada ,pintou-a…e agora que a batata  grelou na cabeça do santo, já dizem que foi milagre, e que  este anos vai haver batatas  na eira, mais que milho…..Sois mesmo labregos….

                                                                   Ti Agostinho

Ora vai-te gálico…és um pedinqueiro  mal aviado. Se nós somos labregos, sabas como se chamam  Vocês, daqui ,da borda do sule:?---pois ora toma:  Matolas.Tal qual. Assoa-te a este lenço que é pra não estares aí embeiçado .



                                                                      Ti Ricoca

Ná…. essa do Matola esta mal acontada.  Vocês dizem isso porque têm dor, do braço até ao corno ,dos nossos moliceiros, tão  matreiros, que mais precem fuselos. E então a oguentar uma zanagaia? Não há melhor. .Não é como os Vossos chançudos, com gajas de cu ao léu, brochadas, e passarinhas, a dar a dar….

                                                                          Ti Agostinho

Não me diga Vossemecê, que quando passa por um barco lá  do norte, não olha, a inquisilar  com as paxonas que  pintamos na ré ? Eu já o vi, toleirão ,a rir-se…. a mijar-se a bom rir, com aquela  da Ti Maria a queixar-se co galo lhe dava cabo do pito

                                                                            Ti Ricoca

Tendes razão….essa é das melhores. Vocês andam sempre na vida airada. E levam as cachopas às festas, enloilam-nas, e depois ,olha: murtoseiros parecem uma praga….e filho de murtoseiro ,é raça que devia desaparecer: só turvam águas…

                                                                              Ti Agostinho

Ei….ei….Ricoca dum raio !... estás sempre a inquisilar c’oa gente, estupor, inxerido dum raio. C’a mal te fizeram os murtoseiros? Pra vocês quem não for de Mira são uns paleques…A vocês ,quintè vos chamam os marronteiros .Xiça ca nome!!!! Marronteiros…óguentadores das marradas ? Isso é uma gadagem, ao de labaró…..Olha eu cria é que me disseses, porque é que o Vosso Moliceiro nasceu encolhido, sem a chança  do nosso…

                                                                                 Ti Ricoca



Ah!!! Tu não sabes a história?!.Atão bebe mais um copo q’eu conto-ta. O mestre Clemente, afamado construtor Mirão ,mandou um ajudante ve, a Avanca, os barcos que o Ti Banca,-um dos maiores mestres de sempre!- fazia. O Rapaz tomou nota, olhou, mediu na passada e veio  a correr contar ao Mestre CLemente: «eh! Mestre o barco é assim ,como se andasse résvés com a auga. Parece nem bordo ter. A ré é de cu fechado, cagarete para o arrais .A proa é que é muito estranha. Olho parece….parece….um  peito de uma galinha tísica,a olhar para trás…..

E o mestre Clemente logo serrou, aprontou tábuas, pregou, e ás tantas virou-se para o ajudante:  rapaz e quantos passos de cumprido?

O rapaz que era muito alto ,de longo pernil ,disse: onze. O Clemente, um Mirão baixinho ,andarilho ,de pernas maneadas, contou onze das dele.

E aí tens: o que vocês chamam depreciativamente Matola, não tem o bico de Pato esganado ,do norte, mas um peitinho de franga… bem engraçadinho. E mede os onze passos do Ti Clemente, e não os onze do Zé  «Calçudo», ajudante.

Mas é lindo; maneirinho, bom nas popas ,e de leme. Feito com arte.

Não como a vossa ´labrega, que parece feita à navalha. Parece uma casa. Só lhe falta a cumua…..

                                                            Ti Agostinho

Aí é que vossemecê se engana Ricoca,  cora mastro. Tem cumua livre: é só arrear as fraldas ,por o dito na borda ,e oh!!!!   que delícia….prós peixinhos.

Vamos : vai mais um copito prá deita…..E sérios: VIVÒ’s Mirões e os Murtoseiros,gente da nossa, esgravatores da ria, andarilhos do areal, gente como não há outra em Portugal..

                                                               Ti Ricoca

VIVÒ…….


terça-feira, julho 05, 2016




A estranha leveza dos escribas….



Esta investigação em que me encontro afundado ,dá-me cabo da cabeça. E do corpo.

Lidas e comparadas, colhidas todas as informações, surgem-me evidências de erros vindos de afamados literatos. É incrível a «leveza do ser», com que se fazem afirmações, desgarradas do contexto e do historial que lhe está na génese.

Não sou assim, para meu mal.

E ainda bem .Exige-mo a formação  profissional que tive. Compreender ,aprofundar, perceber porquê…é uma constante.

 Ontem ouvi uns pseudos académicos que afirmaram ,a pés juntos,que os barcos do mar,iam daqui ,à vela ,para a Caparica. E até sonharam com a vela (igual á do moliceiros, disseram!!!!) e o buraco que se fazia para montar um leme.Outro afirmava que o «ilhe» pescava na Apúlia ,com a Xávega .

Outros entendidos afirmam que as redes de Sesimbra eram do tipo das do Algarve. My God!...

E baralham a Arte Nova, com a «chinchorra» e com a «mugiganga» ,a que até  chamaram  Arte Xávega. Para estes entendidos, a grande descoberta é dizer, pomposa e convencidamente ARTE XÁVEGA (estão a tratar arte de pesca com se fosse  ARTE NOVA,ARTE BARROCA… ou outra)e não Arte de Xávega (que só o foi no Algarve) .E esquecem que na gíria piscatória as artes sempre se designaram de alguma coisa: arte do «chinchorro», arte da «mugiganga» etc.

Tenho andado numa leva a confirmar as minhas deduções sobre a ARTE GRANDE (Nova) . De praia em praia, ouvindo arrais.

E hoje foi o dia de ouvir a Pàleta,um das ultimas «fazedoras» de rede ,descendente de uma família das Artes. E com ela,passo a passo, fui-me inteirando dos truques. Verdadeira Arte de…
«Pàleta» a ultima redeira




E então dei conta dos disparates que ao longo do tempo se foram dizendo.

Entralhando


Entralhar é algo que tem um saber ancestral incluído. Transmitido de boca em boca.Mas tive de o perceber ,como há dois anos levei lições de um mestre ,de como entralhar   um tresmalho  ,enquanto me dizia: isto requer alta matemática!!!!.

 Amanhã haverá outro campo de aprendizagem.

Não porei uma afirmação no livro,  A GRANDE SAGA DOS «ílhavos»,sem ter a certeza de que é indiscutível.

SF

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...