quinta-feira, março 29, 2018



Regeneração e regeneradores vintistas ilhavenses


Ao que ouvi,a CMI vai festejar no próximo feriado Municipal(segunda feira, dia 2 de Abril-felizmente não é dia 1!),com pompa e circunstância a Regeneração do Concelho de Ílhavo .Uma espécie de libertação ,talvez no seguimento (parecem fazer crer) de terrível e sangrenta luta acontecida nas Ribas Altas, luta fratricida que “libertou” do jugo “cagaréu”, o concelho.
Esta versão já a ouvi de bocas de “historiadores” encartados, daqueles mestres que põe nas suas frases circunloquiais, o saber académico que prece intocável.
Creio que fui,no meu Ílhavo Ensaio Monográfico -.Séc- X ao Séc.XX – a primeira pessoa que coloquei ,em termos públicos, a questão, que nada teve de anexação desejada por Aveiro, mas tão só resultante de uma decisão politica a nível central, de carácter administrativo, que expus, então.
Julgo útil recolocar aqui a questão, para termos da história uma versão menos panegírica e menos demagógica, levando a distorcer a questão. O meu Pai bem insistia” a História é feita de factos; mas cada facto tem a sua história. Há que ter cuidado e conhecer os factos e as razões, para se não distorcer a história”(isto a propósito da delirante questão da “mentira” que é o chamado Brasão de ílhavo.
Adiante. Passo a transcrever o que exponho no Ensaio Monográfico :


Em 1865, à profunda crise política viria juntar-se a pior colheita agrícola de sempre. O desemprego e a criminalidade atingem níveis nunca alcançados. O país via nos suicídios individuais que, grassavam por todo o lado, a aproximação do suicídio colectivo. Os tumultos surgem por toda a parte.Em particular pela região de Aveiro, com o povo a indignar-se contra o imposto de consumo, entretanto criado. Tentado um plano de emergência e de estabilidade, não se vislumbraram, contudo, quaisquer consequências positivas. Importadas do exterior vão chegando as críticas demolidoras do liberalismo. Oliveira Martins é um dos arautos da transmissão desse estado de espírito, acusando os políticos, o parlamentarismo e os partidos, de serem a causa de todos os males. A política, afirmava-se, quando reduzida a uma mera competição partidária e parlamentar, era um estorvo, sendo por isso preciso, inadiável – apregoava-se nos últimos anos do século – engrandecer a realeza para a transformar no poderoso agente da civilização, necessário para defrontar os novos desafios. Era assim justificada a necessidade de um novo governo que, apoiado na autoridade real e sustentado pela apoio e pela adesão das camadas populares, fosse capaz de pôr de lado as práticas conciliatórias, empreendendo reformas vigorosas, musculadas, que permitissem ir de encontro aos interesses instalados.
Desta situação irá surgir, de novo integrado num governo regenerador, João Franco, que, assumirá papel determinante na função legislativa. Ainda que, levada a cabo com o parlamento encerrado, o que pré-configurou a prática de uma ditadura, desculpabilizada com o facto de ser provisória e condicional. João Franco vai assim proceder a uma profunda reforma administrativa com que pretendeu acabar com os influentes e com o interesse dos campanários.Para lá das mudanças no ensino, reformulou o exército, estabeleceu quotas de representação no parlamento e introduziu profundas mudanças constitucionais. Assim classificou os concelhos por ordem (primeira, segunda e de terceira categoria), fixando que, os pequenos concelhos sem capacidade para satisfazer as necessidades básicas deverão ser agregados aos maiores. É nesta mudança, neste novo panorama administrativo, que se irá decretar a inclusão do Concelho de Ílhavo no de Aveiro.
Para a esquerda progressista, os concelhos deviam ser comunidades independentes. Para Franco, positivista, o que contava eram os factos históricos: os municípios e paróquias só faziam sentido conforme tivessem, ou não, recursos para prestar serviços de modo a poderem cumprir uma função social. Por isso, na sua ideia, haveria que acabar com os municípios inviáveis, integrando-os nos grandes municípios.
Mas o que a reforma administrativa – que centralizou o país em trinta e três círculos eleitorais – visaria seria, acima de tudo e fundamentalmente, controlar o voto, no sentido de que a votação dos grandes centros urbanos não fosse pulverizada pelos voto rural (normalmente reaccionário, clerical).
O Decreto de 28 de Março, revogando a Lei Eleitoral, vai permitir que a área dos círculos eleitorais coincida com os distritos administrativos, com o que se pretendeu conceder representatividade às forças minoritárias. Para conseguir esse desiderato, alguns pequenos concelhos são anexados aos concelhos mais representativos da área.
O Decreto de 21 de Novembro de 1895 vai nesse sentido fixando a anexação do Concelho de Ílhavo por Aveiro. Em acta da Câmara Municipal de Ílhavo dessa data[1] dá-se por extinto o concelho, de que era na altura presidente Augusto Oliveira Pinto e vereadores João César Ferreira, Henrique Cardoso Figueira e José Maria da Silva Valente, nomeando-se para administrador na nova orgânica, o Dr. Mário Duarte (conhecida figura do desporto aveirense, que contava em Ílhavo com grandes amizades).
Naturalmente, e apesar disso, o facto não foi bem aceite na terra, tendo-se formado uma Comissão para a Restauração do Concelho, cujos ecos se fizeram ouvir em toda a imprensa da região e chegaram ao parlamento.
A integração iria durar pouco tempo e não teria nenhuns efeitos perduráveis. A situação económica e financeira do país piorava e era já previsível a queda do governo de Hintze Ribeiro e João Franco. A Lei Eleitoral já em 1896 fora corrigida; Franco reconheceria que a sorte dos Governos dependia da prosperidade do País. O próprio Luís de Magalhães, ilustre aveirense, seu amigo, ter-lhe-ia afirmado: tenho graves dúvidas sobre o êxito da sua politica.[2]
Portugal definhava e o rei D. Carlos concluiu que aquele governo já não tinha qualquer préstimo, nem para o rei, nem para o país.
O governo cairá a 6 de Fevereiro de 1897. Era o fim de quatro anos de governo regenerador e o regresso do Partido Progressista com José Luciano de Castro.
Por Decreto de 15 de Janeiro de 1898, o concelho de Ílhavo será novamente reformulado e recupera a sua autonomia administrativa. Forma-se nova câmara; a primeira acta pós este período de anexação data de 28 de Janeiro de 1898, sendo o cargo de presidente ocupado por Ferreira Pinto Basto (documento 61).
Nessa data, o ilhavense José Barreto[3] dedicou ao acontecimento um soneto que, por curiosidade, aqui se reproduz:

 “Assente sobre um vasto e fértil plano, Em ruas amorosamente repartida,
De estradas, largos, praças, guarnecida, Com mui saudável clima em todo o ano
Perfumada pela brisa do Oceano Por aldeias Formosas envolvida Mãe de nautas valentes, cuja vida
É um poema d’ingente esforço humano
Marítima, piscosa, industrial, Formosa, alegre, activa e ilustrada De importante labor comercial,
Este é d’Ílhavo a terra abençoada Hoje enfim, do concelho a capital Esta é a ditosa pátria minha amada”








Não houve, pois guerra nenhuma entre “lampadários” e “cagaréus”. Mário Duarte até foi um simpático e activo colaboracionista, ao incitar e apoiar ,em Ílhavo ,o aparecimento do futebol.
E foi daí que nasceu a simpatia dos “ílhavos” pelo Belenenses,de Mário Duarte.
Mas à falta de melhor-porque não a integração das Galefenhas no Concelho?- atirem-se os foguetes... e colham-se as canas.
Senos da Fonseca






[1]         Ver documento 60 onde se inscreve, no Livro da Câmara, O Fim do Concelho, A.C.M.I..

[2]         José Mattoso, citando Cavalheiro, em João Franco e Luís de Magalhães, pp. 14 e 15.

[3]         José Barreto foi um ilustre ilhavense, indivíduo muito talentoso, actor nas peças O Camões do Rocio, Côroa da Loira, Opressão e Liberdade. Ironista admirável, poeta satírico de merecimento, foi um homem sempre interessado em iniciativas em prol da nossa terra. (In O Brado, de 19/12/1914).


quarta-feira, dezembro 13, 2017




 Palestra na Sociedade de Geografia " Os Descobrimentos para Ocidente"

Integrado numa sessão,tendo por referência o excelente livro do Prof. Dr José F.Coelho " A Pedra de Dighton", voltei à aquela vestuta sala, para uma intervenção,focando-me em novas questões que me vão ocorrendo sempre que mexo nesta matéria  " Os Descobrimentos para Ocidente",pela qual sempre mostrei forte predilecção.

E creio que tudo correu bem,salvo o tempo concedido.
Tão bem que  logo  fui convidado para estar presente numa outra sessão,na próxima quinta feira ,amanhã,o que,naturalmente, não dá.
E mais um desafio me foi lançado : porque não fazer uma nova abordagem,em livro,sobre esta matéria ?

Curioso: quando vinha, com pressa, para apanhar o comboio,na rua  junto ao D Maria II,ouvi dois  individuos que alto me "gritaram" :obrigado pela lição".Eu não os reonheci.Mas quem vinha comigo ,reconheceu.E logo me disse :olha eram aqueles que se mostraram sempre muito interessados ,activos,na palestra.
Tempo,então de ser eu a agradecer.
E lá vim,bem disposto,certo do dever cumprido,em meio tão exigente.
E hoje,nesta manhã pardacenta,às oito o trabalho começou,de novo.Assim vou entretendo a vida.
Senos da Fonseca

quarta-feira, novembro 01, 2017


Só o vento é eterno....

E enquanto nesta noite enevoada
As estrelas descansam
Dormindo sobre a frescura da ria,
Meu coração
Volta a estar longe
Como a perguntar:
Porquê meu Deus?
Que deus seria este, o meu (?!)
Esquecido, desinteressado, ausente...
Outro Outono em que estarás ausente?
E eu (?) -o que fico aqui  fazer, folha no álamo
Que teima resistir ao vento
A olhar sonolento a ria a adormecer comigo,
Feita leito de prata velha
Onde as gaivotas mergulham sonolentas
Nas suas funduras frias.
Olho as formas, os lugares, os recantos,
Que incendiámos com o nosso amor, um dia,
há tanto tempo que já nem eu o sei,
 sei : foi  neste dia!...
Deixo-me dissolver no tempo.
Sem dor
Sigo a jornada feito peregrino do destino,
À espera que a candeia que me ilumina o caminho
Cansada, deixe o vento apagá-la.
Só vento é eterno, amor.

SF (1.11.2017)

sexta-feira, outubro 27, 2017

Postal nº 13

E assim vai a Costa-Nova do Prado.

Bonita, airosa e vistosa, segue vaidosa de ser o mais lindo presépio colorido deste País.
Terra ainda criança, onde apenas lavram duzentos anos de historial desde  que o homem violou pela primeira vez a virgindade do seu areal, a Costa Nova do Prado é, talvez, o mais belo rincão pátrio, postado entre o mar e a ria, que lhe deram vida e prazer.
A Costa Nova é um bodo  alargado para o sensório das gentes, inebriadas pelo despertar do  sol garimpando  lá da serra, a fazer ressair o verde da sua paisagem, enquanto vai toldando  de um avermelhado suave, as águas azuis da Ria. Tão azuis  que encharcam o olhar dos mirantes. A Costa Nova é uma paleta de pintor consagrado, em que o artista vai, hora a hora, misturando as cores pródigas da natureza, num contínuo mudar de tom. Ao meio dia, o azul das águas, tinge o azulão do céu, onde parecem pairar, olhudos, os anjos que nele habitam, olhando ciosos e ciumentos, a amplidão de frescura que paira cá por baixo.
Enquanto isso, o passeante olha, admirado  e estupefacto, os palheirinhos riscados de cores fortes, encostados beiral com beiral, como para se manterem erectos da trabuzana ameaçadora. Dos beirais  penduram-se  varandas de branco imaculado, púlpitos onde antigamente  se acantonavam mirantes, olhar perdido, embarcado na  proa de um qualquer ronceiro moliceiro, onde se lia ”bamos lá cum Deus”. Era vê-los para cá e para lá, catando pachorrentamente a ria, ensarilhando   os seus cabelos dourados nos ancinhos calados na borda, para com eles engordar as leiras ainda enlodadas, na suada feitura dos largos e deslumbrante milheirais, prados enverdecidos, que  completaram o nome à Costa Nova, postados ali, na Maluca, bem à sua frente.
Hoje, é certo, falta à Costa Nova do Prado, a beira mar ruralizada, prenhe de gente afadigada, num corrupio de entontecer, correndo duna acima, duna abaixo, na entre ajuda, a trazer do mar a rede que o meia-lua, foi lá longe esparralhar. O mirante, hoje, não   observa, arrepiado, o encabritar do barquito na vaga. A apontar a bica ao céu, para logo se enterrar na vagalhoça seguinte, impulsionado por meia centena de rijos pescadores embarcados, obedecendo, fiéis, á ordem do arrais:  Rema!!!!....rema...é agora ...vá...
E o mulherio na praia depois de saber os seus, mar adentro, salvos desta primeira investida, esconjurado o perigo, logo tocam os  bois que parecem descer ao areal para na sua borda lavrarem o mar.Tudo mexe a preparar  a longa e penosa puxada da rede para terra. Até que, porfírio cortado, saco esventrado, nele  ressalte em lampejos cintilantes de mil espelhos prateados, a bela sardinha debatendo-se no estertor do seu fim. Era uma correria atropelada. Onde se esqueciam regras, onde tudo era luta, tumulto, vigor escorrido no ressoar de corpos, para  ganho de pobre espórtula que (mal) dava para viver.
Se é certo que hoje esse espectáculo já não existe, porque o tempo corre célere na mudança, uma coisa não mudou:  o adormecer do sol que, à tardinha, vem, cansado de tão longa volta, espreguiçar-se no mar.
É sempre um bodo o entardecer neste recanto luxuriante onde a natureza foi pródiga em oferta: o azul vivo  do mar tinge-se de um afogueado quente, vivo, que preanuncia o fim do afadigado dia. Momentos únicos onde  a cor permanece em  continua transmutação de vermelhões em variadas gradações, aqui e ali, por vezes, entrecortados por farrapos de uma ou outra nuvem, transmitindo a sensação de por ali existir na paisagem, alma!. Alma de êxtase, que prodigamente se transmite à alma do mirante a deixar-se  envolver por tão soberbo momento. Uma e outra gaivota ziguezagueiam os ares, parecendo com esses requebros doces virem despedir-se do barbazanas de fogo que lentamente vai mergulhando nos confins do horizonte.

A Costa Nova, menina ainda, parece adormecer, ao de lábaro :suave, docemente, embrulhada na esfarrapada neblina que se estende pela ria.



Mas logo vindo do outro lado desponta uma lua cheia, a reflectir  o vermelhão do astro rei. Sobe às alturas, enquanto à sua volta a mutação e cambiantes de cor são um manjar de enlevo para o olhar. À medida que sobe, desaparecido o “rei”, logo a lua se cobre de um prateado extreme. E é esse prateado que vai tingir uma ria serena, dando-lhe um aspecto de inaudita tranquilidade. Só aqui e ali rompida pelo chape..chape...de um peixito que se deixou apanhar pela traquina gaivota.
E a noite convida ao repouso.
Embalada neste luar, a Costa-Nova, espreguiça-se no areal ...e adormece o  corpo afadigado .
Até que de manhã o estrídulo piar de um maçarico errante, ecoa na lusco fusco de uma luz indecisa da madrugada, a despertar no vermelhão que desce lá da serra.
E o bulício recomeça...


Senos da Fonseca (Postal nº13)

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...