quinta-feira, agosto 22, 2019


 E já que estamos com a mão na D Joana....clarifiquemos

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A Joana "Maluca"

Aqui sentado no meu canto, à beira rio plantado (por mim), com um sonhado e não escondido propósito de um dia poder gozar a velhice, desgastado do corpo que não dos sentidos, inebriado por esta ria, tão inquieta quanto eu,mas muito mais prodigiosa na oferta de sensações que dela podemos extrair e guardar dos que as que posso oferecer. Agora que já pouca beleza extraio da vida, é ela que (me) consola nestes momentos: – eu sei lá?! se os poderei chamar de criativos. Pelo menos, aqui, criar, significa sonhar, querer, desejar. Sonhar com as palavras que gostaria de dizer, e que, se afinal não digo, é porque me falta o estro.
Mesmo defronte aos meus olhos – ali mesmo! –, ficam as terras da Joana «Maluca», figura histórica por quem sempre tive largo apreço. Como tive – ao menos – «talento» para cimentar amizades que duraram uma vida, essa qualidade historicamente registada na figura da Joana, atrai-me. E há muito, depois que contei a «estória» das visitas do José Estêvão à grande senhora (vide www.senosfonseca.com, clicando na janela Factos & História, em Palheiro de José Estêvão), apetece-me dar um retrato mais preciso da Joana. 
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Às vezes não chega, a um indígena, ser maluco. Para sê-lo é preciso parecê-lo. Ora a Joana Rosa de Jesus «a Maluca» não só o não era, como nem o parecia. A alcunha, coitada, ter-lhe ia vindo de ter casado com um dos primeiros foreiros do Senhor de Vagos, o pastor José Domingos da Graça «o Maluco».

A Rosa de Jesus era uma «Gramata». Nascida em Ílhavo, em 1788, era originária da família dos Gramatas, lá do Arnal, cujo avô, o Tomé Francisco, fora um dos primeiros foreiros que nos fins do século XVII se teria vindo estabelecer para aqueles terrenos arenosos que bordejavam o canal que ia lá para os lados de Mira. Ora o certo é que o Tomé Francisco tomou o nome de «Gramata», que era o nome por que eram conhecidos aqueles terrenos lodacentos que tinham vindo lá das entranhas da ria, e onde apenas parecia capaz de nascer e se desenvolver, uma erva marinha, conhecida por gramata: «diz-se a qual mó do meio produz junco e hoje pela continuação da maré salgada já o não produz, mas sim erva que chamam de “gramata”, apetitoso manjar para o gado».
 Em 1883, a Joana «Gramata» e o marido «o Maluco», que teria vindo lá do sul de Vagos, fazem o aforamento da «Quinta do Feijão», local preciso onde hoje se encontra situada a Capela da Sr.ª da Encarnação (aqui mesmo exactamente no «azimute» da minha proa).
 A Joana, já então conhecida por Joana «Maluca», cedo ficará viúva. Não sem ter botado à vida nove rebentos, que lhe darão a bonita prole de 66 netos. Viúva aos 48 anos, irá casar com António Sousa Pata.
Não teria sido fácil ao José da Graça convencer a sogra a dar-lhe a filha. «A Gramata», já gente de sinal, olhava para o rapaz, pastor das castras enfezadas e raquíticas, e tentava inquirir o que «ele» teria de «seu» ou dos seus, tanto fazia.
Ora numa noite estrelada enquanto fixava as luzinhas lá no alto acudiu ao José – rapaz esperto – uma ideia que logo ao outro dia botou em prática. E enquanto na eira da «gramata» ia respondendo aos «quesitos» da mãe de Joana, não esteve com meias medidas: – colhendo na mão umas espigas de trigo, atirou à «Gramata»:
- Olhe Sr.ª amiga: eu pareço um pelintra a vadiar aqui com o gado por estes areais. Mas não colha o gato pela cor do pêlo. Que a casa de meu pai é tão abastada e tão rica, que à noite há tantas luzes a iluminá-la, como grãos que tenho aqui entre mãos».
E logo ali, a convencida e crédula sogra, aprazou casório.
A Joana, embora de perfil varonil em que uma teimosa barba lhe cobria o queixo realçando-lhe o tipo, era, contudo, uma aprazível e simpática mulheraça. Mulher ridente, faladeira e sempre bem disposta, fumava viciosa e deleitadamente charutos. Que amigos e comensais, da sua lauta e farta mesa, lhe faziam oferta, mantendo o stock sempre abastado.
Abria com regozijo a porta aos políticos, recebendo amiúde José Estêvão que se fazia acompanhar pelos ilustres que o vinham visitar ao seu palheiro da Costa Nova. Indo de barca, passava a ria, atracando na mota da passagem, em terrenos que confinavam com as terras da Joana.
Mulher activa, empreendedora, boa na arte de negociar, rapidamente a sua casa emerge como das mais poderosas e ricas da região. Benfeitora, é ela que cede os terrenos da sua quinta onde se virá a instalar a capela da Sr.ª da Maluca, dotando-a com algumas imagens de oráculos, devotos, que amigos de Aveiro lhe teriam oferecido.
A Joana «Maluca» virá a falecer em 28 de Janeiro de 1878. 


domingo, agosto 18, 2019





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POSTAL DA COSTA-NOVA 



José Estêvão , a «Joana Maluca» e o Thomé Ronca...





Ria de um azul amansado pela brisa que lhe encarquilha a pele. Hoje, a Ria não levava o fato que Deus lhe deu. Tinha ido para  «passar a ferro». Dias!...O ar estava poeirento e as serranias deixaram de se avistar, retirando dimensão ao vale de água que de Ovar até ao Porto de Mira se aninha a seus pés.




Botadas as pernas ao caminho, que se fazia já tarde, fui tocado pelo vento até às portas da Costa-Nova. Depressa me encontrando com aquele Palheiro a que muitos, por engano, pensam mesmo ser o original, do celebérrimo José Estêvão.
E parando, relendo as palavras de Eça que estão gravadas à sua portagem, dei comigo a imaginar o que teriam sido esses belos tempos da descoberta e feitura do local, baptizado por Luís «da Bernarda» com o nome de Costa-Nova. Para que se não confundisse esta (a nova), com a Costa- Velha de S. Jacinto, pousio dos primeiros meias-luas que achaparam as Artes Grandes ao mar.
O actual «Palheiro», foi sim, o que serviu de habitação ao filho do grande tribuno, Conselheiro Luís Magalhães. Erguido sobre o anterior que seu pai tinha comprado, em 1840, ao mercantil de Viseu, Marinho de seu nome. Que teria sido uma das primeiras simplórias edificações erguidas na Companha dos «Barretos», aquando da sua aterragem na praia, após a escapadela de S. Jacinto.
José Estevão descortinara desde logo grande potencial no lugar estratégico que os Barretos «descobriram». Se fosse feita estrada para Aveiro, ou uma ligação a Ílhavo, digna desse nome, o escoamento do peixe e o acesso das Companhas, estaria muito facilitado.



José Estêvão afirmou, um dia, ter comprado o Palheiro para repouso de sua Esposa, D. Rita Moura Miranda[1]. Mas o certo é que sempre que a vida atribulada do incansável tribuno o permitia, José Estêvão refugiava-se no seu tosco palheirinho, a que foi fazendo alindamentos e melhorias, à procura de merecido repouso. E como nos diz o seu filho, Luís Magalhães, era no «quarto voltado ao mar por onde entrava a maresia» que José Estêvão trabalhava as suas ideias para aquelas que foram, as maiores peças oratórias de que há memória, na história parlamentar portuguesa. 
Isso não o impedia de visitar diariamente as Companhas. Para se informar do andamento das capturas, e assistir, deslumbrado, à heroicidade e destemor daqueles homens a entrarem ou saírem, batendo forte na  vaga rija. Eram um exemplo vivo de que também na Terra havia deuses menores, dignos de um Olimpo. Sempre que uma daquelas almas era atingida pelo desfavor da vida, e levada perante o Tribunal, José Estêvão vestia a toga, chegava-se à tribuna para erguer o seu vozeirão em defesa do infortunado pescador. Era ainda, a José Estêvão, que os pescadores solicitavam intercedência para contratualizar com os financiadores da Companha, os magros rendimentos do «quinhão» sempre avaramente concedido pelos senhores do capital.
Muitas figuras da política, e das letras, eram assídua presença do seu Palheiro.
José Estêvão fazia gala em ali receber muitos dos seus amigos, entre os quais Mendes Leite, companheiro de Coimbra e do exílio, fiel e inseparável companheiro; Sebastião de Carvalho e Lima, um espírito de rara energia e grande honestidade; Agostinho Pinheiro, seu companheiro de imprensa; a família Pinto Basto que lhe era muito chegada. E muitos outros: os Regala, os Viscondes de Almeidinha, os Mourões, o Arcebispo Bilhano, os Alcoforados e tantos outros.

José Estêvão apressava-se então a enviar recado à sua grande amiga Joana, «a Maluca», senhora dos terrenos que ficavam à distância de um atravessar directo da ria, para aprazar uma almoçarada. A Joana Rosa era uma mulher de luta. Mãe de nove filhos, avó de sessenta e seis netos, a Joana era uma mulher irrequieta, mexida e brava, cuja estatura estava bem de acordo com o seu feitio. De compleição algo máscula, senhora de boa e desenvolta faladura, sabia bem receber. Com fidalguia, com lauta e bem recheada mesa, onde requintadamente espalhava vitualhas de regalo para o paladar.E para o olho. Vinham em primeiro os escabeches numa molhanca de vinho onde os ditos tinham curado a adquirir sabores divinais. Para tentear apresentava uma casta de avinhados salpicões a que o fumeiro tinha dado cor de um rosa terra aveludado que tentava o mais enfastiado. Seguiam-se as caldeiradas do melhor peixe que o mar criava, a nadarem num azeitado açafrão temperado com um pouco – q.b. – vinho branco bairradino de cor citrina forte.
 Ainda o repasto ia a meio.
Seguiam-se as fumegantes caçoilas «negras» de aradas, albardadas de uma «chanfana» que, previamente escaldada na hortelã, era, depois de forte marinadela, cozida em vinho de boa cepa. Eram no mínimo três, as fervuras necessárias para obter o apurado sabor. Vitualha que aquelas gentes gandaresas tinham trazido consigo e se viria a mostrar emblema gastronómico local. Tudo regado no melhor bairradino, a escorregar, fresco e macio, aveludado, pelas gargantas sequiosas dos comensais.
Terminado o opíparo repasto, o grupo vinha para o alpendre sentar-se em cómodas espreguiçadeiras, onde se gastavam horas na moedeira, enquanto se reconfortava o espírito com puros havanos, que a dona de casa distribuía, servindo e degustando ela própria, um excelente puro.
Lá para a meia tarde os convivas levantavam ferro, agradecendo o excelente repasto.E numa curta atravessadela das terras da «Maluca», arribavam à tasca da «Norta», espécie de estalagem de fim de curso, posto para recolha e tratamento dos burricos, enquanto no altar da venda se bebericavam uns copos para retemperar a alma e vivificar o corpo. Ali se reuniam almocreves recuperando forças para o tropear nocturno das serranias traiçoeiras. Ali, pescadores beberricavam o último copo antes de botar pés à vila. O dia nas Companhas tivera duas idas à maré, e os corpos estavam doridos a pedir enxergão. Mas só à noitinha chegavam a Juncal Ancho, e era, pois isso necessário, meter combustível para a viage… Havia, ainda, uma ou outra pescadeira, que depois de desorçar a canastra ao portal, não enjeitava encostar a barriga ao balcão e pedir à Ti« Norta» :
- Vá tiazinha; dê-me aí um traçadinho para me tratar as fraquezas deste corpo arrebentadinho, moidinho, quase a deitar os bofes pela boca … ai(!) vida…




Ora num desses belos fins de tarde, no tasco estava o valentão, bazófio e inquisilador, o Bisnaga «Tovão», almocreve de mau génio, beberrão, homem de má fama, com contas largas nos costumes,  conhecido da vermelhinha, das feiras assinaladas. Era lá das bandas de Viseu. Já encilhara o burrico. E pronto, entrou tasca adentro, para escorropichar mais uns tintos. Bate forte no «altar» da loja a pedir com os seus habituais maus modos e de um modo enfatuado: – vá maneie-se, velha de um raio. Que é tarde e tenho de trepar a serra. Verta-me aí dois de três; que um é para a cova de um dente danado. 
Só que no momento a «Norta» tinha distinguido no arco da porta o Sr. José Estêvão que surgira prazenteiro e respeitador, dando as boas tardes à gente de bem, que ali parava. José Estêvão procurava o arrais Thomé Ronca, para que este o levasse, a si e aos convidados, ao outro lado. E a «Norta», grande amiga do político, logo virou as costas ao «Bisnaga»,  partindo leda para cumprimentar «os Senhores» importantes, que vinham com José Estêvão.
Logo o «Bisnaga» estrebuchou de danação, mostrando ganas de semear alarido, a meijengrar alguma. Nada boa:
- Que é lá isso, desatender-me a mim, homem da cidade dos Bispos, para atender este fidalgote apressado… Para esta espèsse de gente,  tenho uma folhinha de matar bácoros, que abre num ápice a barriga a fidalgos bem aviados. Daqueles que ficam à porta e não entram, para não sujarem as botinas mulherengas.
José Estêvão manteve-se hirto, impassível, levantou o peito, cofiou o farto bigode, e preparado para responder ao malino:
-Olhe lá ó andarilho lá da serra? Você não é o mata burricos lá de Mangualde? Pois olhe que eu não o conheço senão pela má fama, e não estou nada interessado, em conhecê-lo. Vá à sua vida que eu vou à minha.
- Ora! ora…, atira o «Bisnaga» : ora aqui os homens – já o sabia – são tipo ovos-moles. Ouvem o ronco do mar e mijam-se pelas pernas abaixo…
De uma mesa lá do canto esconso ergue-se uma figura, alta como uma torre, homenzarrão tão cheio de força que os seus olhos mesmo que meigos, infundiam silencioso respeito.
Postado em frente ao «Bisnaga», o Thomé Ronca, mete-lhe uma manápula ao ombro, enquanto troveja:
- Que é isto? Pariu aqui a galega, ou foi a mãe deste burriqueiro que o veio deitar fora? Olha lá ó chibante – se voltas a dizer o que quer que seja dos homens da minha terra, acabam-se aqui as fanfarronices.Já hoje e aqui. Com desprezo voltou as costas ao almocreve, e dirigindo-se ao altar, pediu um traçado à Ti «Norta». O «Bisnaga», julgando-o distraído, deu de fazer rapola, e em grande restolhada rapa da vara que sempre o acompanhava, e dá de despejar o lódão. Uma varada mesmo ao endireito do ombro do Thomé. Só que este desconfiara do mafarrico, habituado a atacar pela noite, às escondidas. E num ápice, lesto, voltou-se. E com a manápula habituada a enlaçar o reçoeiro, enganchou a vara. De imediato puxou por ela o marau, e com uma punhada, aplicou tamanho bofetão ao burriqueiro, que este foi lançado por cima do altar da tasca, indo aterrar, de borco, entre as pipas bairradinas. O Thomé foi lá buscá-lo. O asno abria a boca como rã à procura de ar fresco. Agarrando o fraldoco pela cilha que lhe atava as calças, arrastou-o de borco, lançando-o borda fora, à ria.
- Aqui d’el rei quem m’ acode. Eu sou da serra não sei nadar. Acudam … à d’el rei! Salvai-me que eu dou-vos azeite, dizia o «Bisnaga» esbracejando na água.
- Astão mijas-te ou não, fraldoco?     
E aproveitando o sopro do Norte, os convivas de José Estêvão, rindo-se da restolhada, lá embarcaram para a Costa Nova, abicando ao palheiro à porta do qual a D. Rita esperava o grupo dizendo:
- Que lauto banquete. Vindes bem refastelados, vejo eu. Agora para a noite ireis ter uma canjinha da tainha de pinta amarela, com um grãozinho de arroz em fio de azeite.
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Quem me contou esta estória que verto em rabiscos lavrados pelo meu punho? Adivinhais, estou certo. Pois, a Zefa. Estória que ouviu a seu pai nos invernos inteiriços, a charriscar lume, a catar um ou outro feijão que boiava à tona do caldo, à espera de apuro.
A Tibéria, essa, ficara em casa, que os artelhos chiavam de mal sadios. Excessos; excessos da boca, porque, nesta altura, já não há bródios ou funções que espaireçam.





[1] Consultar em www.senosfonseca.com (Factos & História) «A história do Palheiro de José Estevão».

AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...