domingo, setembro 15, 2019






DE: Senos da Fonseca


Choro…

Choro este País
Do «Grande Afonso» a mais querer que um País
Partindo em gloriosa cruzada, gladiou com o mouro infiel

Para fazer do seu Condado um Portugal de raiz .
Numa mão a espada, a cruz na outra mão empunhada
A mim! A mim! gritava Afonso.E logo foge o infiel em debandada.

Choro este País,
Onde a arraia-miúda se exalta e se faz graúda
Parecendo já um povo por inteiro em que se torna
Ao expulsar o intruso e pérfido castelhano,
Atirando do cimo da torre, à turba, o castelhano Andeiro:
- Aqui há um povo a sonhar com Portugal nas suas mãos.]

Choro este País,
Do grande el-rei João Segundo
Mares assombrosos, terríveis e solitários
Mandou serem navegados, e desvendados;
E as trevas e os medos, passaram a estórias
A mostrar a grandeza de Portugal ao Mundo.

Choro este País
De onde saíram cabrais
albuquerques e outros tantos gamas,
Heróis de quem o mundo ouviu contar os mistérios,
Tão grandes como ditosas e louváveis foram, suas famas,
Ao fazer de um País, vasto e grandioso Império.

Choro este País
Do imortal vate que nossa epopeia descreveu.
Em versos vertidos da sua pena prodigiosa
Dando ao mundo a conhecer ínclitos Varões
E os feitos de gesta brava lusitana, grandiosa (!)
Para sempre ficaram gravados no lirismo épico do imortal Camões.]

Choro este País
Que teve de Vieira a palavra eloquente
Para defender os fracos dos abusos dos fortes.
Falando aos peixes por mor do Homem ausente,
E aos homens por mor de Deus sempre presente,
Espalhando a sublime palavra, botão florido do mais fino recorte.

Choro este País
De Pessoa, o Mensageiro, poeta desassossegado
Cuja genialidade, por louca, só em si não cabia,
Dispersando-se por outros «eus» que não era o seu,
E por não o ser, foi sempre obra inacabada,
De laborioso mestre a extrair beleza, onde beleza não havia.]
Porque choro, então, País tão grandioso?

Choro este País, não pelo que foi, mas pelo que é
Choro o dia em que anunciou não querer, nunca mais!, ser escravo.
País onde mais do que mandar, era preciso saber obedecer
A si, e não aos outros, a ser livre, não Senhor de nenhuma guerra
A ser o Povo que aqui mandasse, a ser o Povo que aqui reinasse.

Choro pois este País, pelo que prometeu ser
E por afinal hoje ser, aquilo que não queria ser.
País este, o meu, onde afinal se soube melhor «arrancar» que colher.
Onde cuidámos mais do vício «de ter», do que do «ser»
Em que alimentámos por demais, as ambições dos novos corifeus.

E assim o País que parecia voltar a querer nascer
Não nasceu – Morreu!......


SF


domingo, setembro 01, 2019




As férias estão a acabar; e com elas acaba-se o brincar aos poetas...

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À sombra
Desta velha acácia,
Vergada mais pelo vento
Que pelos anos,
Cerro os olhos adormecidos
Pelo azul doce que vem desta paleta
À minha frente estendida ...

Cerra a tua porta
E vem hoje acariciar-me.
Percorre-me com as tuas mãos
Ao tempo que me dás a frescura dos teus beijos.
Vem agitar este já velho,
Mas não despido,ou frio 
Coração.

Acerca-te de mim
Neste início  do entardecer
Anunciado  no azul do céu
Onde alegria parece esmorecer.
Fiquemos nós no deleite 
Deste  nosso devaneio;
Apressa-te agora
Antes que a noite 
Traga as flores vivas
Para enfeitar o sol
Quando no mar se afogue.

SF

sexta-feira, agosto 30, 2019

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    A festa da matriz passa a Senhor Jesus dos Navegantes e

S. Sebastião (século XIX)

A Festa de S. Pedro, a partir de uma determinada data que não se consegue fixar com exactidão, passa a ter a designação de Festa do Senhor Jesus dos Navegantes e de S. Sebastião. Admitimos que tal tenha acontecido por meados do século XIX, ideia que sustentamos no facto de, por volta de 1840, nas notas do conselheiro José Ferreira da Cunha, este nos falar numa altercação surgida entre juízes da festa, motivada pela pretensão da substituição do anteriormente referido barquinho, por um outro, já não de pesca, mas do tipo veleiro; nesse ano, teria estado em risco, a realização da festa. Felizmente a questão foi ultrapassada.Mas seria um primeiro sinal de que algo estaria para mudar. Algo que viria a acontecer, pois, a partir de determinada data, o barco do andor do Salvador é já um veleiro do alto.
Em 30 de Junho de 1865, podemos encontrar, inscritas no livro do priorado, despesas certamente referentes a 1864, no valor de 16$000 reis, com a festa que toma, então nessa data, a designação de Festa do Senhor Jesus dos Mareantes e de S. Sebastião.




Apesar de parecer uma simples mudança a designação de um novo orago para festejo popular, essa situação reflecte, a nosso ver, uma alteração profunda que se fez sentir no tecido social da vila, o que nos parece importante assinalar, pois a mesma é fruto de uma mudança (verificada) no perfil do pescador, quando este se transforma em mareante, deixando, por isso, a borda do mar para nele se engolfar profundamente. Este mareante pretende demarcar-se do seu antecessor, o pescador. Assumindo-se  como homem do mar, sim, mas com outras vistas, com outras larguezas, com outras ambições, senhor de um novo desígnio. Ambiciona, desse modo, ganhar estatuto social que os seus anteriores sempre desprezaram. E até posição preponderante na vila, uma vez que a sua situação económica se pode comparar à classe alta da comunidade. Nesse tempo meados do século XIX – o ílhavo tinha deixado para trás os areais da Costa-Nova, decidido a assumir o desígnio de altieiro que daí em diante lhe marcaria o destino. Cumpriu-
o a percorrer, infatigável e irrequieto, todos os mares deste mundo, conhecendo novas terras e novas gentes, enleado na descoberta surpreendente das novas paragens, deixando para trás, a substituí-lo na borda do mar, gafanhão que desceria à praia levando consigo os bois da lavra, emprestando à faina um aspecto rural, uma lavra do areal.
A festa em Ílhavo, a S. Pedro, já não fazia sentido ser realizada pelas novas Companhas na vila, uma vez que já teriam a sua festa– a da N.ª Sr.ª da Saúde– na Costa-Nova. Em Ílhavo, o orago a celebrar não fazia sentido ser, apenas e só, o protector dos pescadores – o S. Pedro – mas sim o Salvador, protector de todos os que sulcam todo o mar, independentemente das lonjuras ou actividade marinheira. Por isso, cremos, estar assim justificada esta mudança de designação da festa anual da matriz para Senhor Jesus dos Navegantes. A imagem do Senhor Jesus, descrita em 1758 como sendo muito milagrosa, passa a substituir a de S. Pedro no andor da festa e vai contar, no início do século XX, com a companhia do lugre o Navegante. Ao novo orago, desde então, foram dedicados toda uma série de quadros (os ex-votos), tábuas votivas com que se cumpria o acto prometido numa representação pictórica simples, de um modo ingénuo, algo naif, penhor da grande devoção e fé destas gentes perante eminentes naufrágios ou outras aflições passadas no mar.


Ex-voto (Oferecido por João Fernandes Parracho )


                              NB- Tudo o que se diz acima inviabiliza que esta festa,agora com novo desígnio tenha sido em louvor dos que iam "à pesca do bacalhau".Não esquecer que o regresso à pesca do bacalhau sucedeu em 1835 (ver os Últimos Terranovas Portugueses".Estavamos então a começar o segundo capítulo.Mas sim,já os Ílhavos em meados de trinta do século XIX,,percorriam ,embarcados,todos os mares de todo o mundo,altieiros de destino .Nos primeiros decénios do Séc XX,de facto, aí, a festa era feita por gente e para gente, da Faina Maior(com posição destacada dos seus capitães)








AS viagens da Grande Armada de ZHENG Já num outro trabalho, publicado em Blog especial, aqui há uma dezena de anos, trouxemos  ...