os, fertilizando-os, transformando terrenos rotos em terras férteis. Atiraram-se a eles de enxada a abrir o rego, difícil de suster na forma, pois, cavadela dada, logo a areia pouco consistente esboroava de novo, escorregando até ao fundo. E era preciso voltar a cavá-lo... Uma... duas... as vezes que fosse preciso para dar guarida fértil à semente. Ao princípio, a plantita que surgia teimosamente debaixo da terra parecia enfezada. Mas o homem não desistiu de defrontar o meio e nele intervir. Sob abrasadora torreira do sol, ou sob inclemente água despejada do céu, o homem não desistiu. Ano após ano, teimosamente, insistiu. E a enfezada plantita ia rompendo, cada vez mais forte e direita às alturas. Entre desilusão e esperança, com o passar dos anos, ganhava forma de planta enverdecida, cada vez mais entroncada e viçosa, até que, parecendo milagre, aqueles acastanhados campos alagados, ao princípio terra de ninguém, vêem-se cobertos por uma onda de verdura estonteante. O “tesouro” tinha sido encontrado, aberto e distribuída a espórtula. E a riqueza daqueles terrenos explodiu em toda a grandiosidade, verdadeiras terras de pam como poucas existentes neste País – o gafanhão tinha vencido.
5- A Gafanha da Gramata vira Gafanha da Maluca. E acaba sendo, Gafanha da
Encarnação.
Esta designação deve-se ao relevo que Joana Rosa de Jesus
teve, e transmitiu, nesta parte das Gafanhas.
Joana Rosa era natural de Ílhavo. Filha de António
Fernandes Cardoso e de Luiza Francisca. Desde o seu nascimento (1788), veio viver com seus avós, na
Gramata. Já acoutados em leiras aforadas, certamente a Fernando Camelo.
Curiosamente, a mãe de Joana tinha já o apelido de
“Gramata”, o que poderá indicar que, ela também, era já proveniente (nascida) na
Gafanha da Gramata.
Ora por estas terras, pastoreava o gado, um tal José
Domingos da Graça (filho de António Graça). Em 1804, este Graça, natural
de Calvão, pagava contribuição das suas terras, fosse em Vagos ou em Ílhavo. Sendo
que aqui pagava o maior valor (indiciando ser um foreiro próspero). António, como
quase todos os foreiros, era provindo da beirada da Gândara. Do Seixo e outros
locais (a grande migração no Séc. XVII e Séc.
XVIII, deu-se, da Gândara para os areais da Gafanha). Os gandareses eram gente da lavra, já com
farta experiência de trabalho em campos arenosos. Eram conhecidos por marronteiros, procuradores de terras
férteis para pastorícia, e outras actividades agrícolas. Gente irrequieta, de grande mobilidade, sempre
em procura de novos locais onde exercer a sua actividade original.
José Domingues (natural de Calvão),
passou a rondar a porta de Joana, a fazer-lhe rapapé e, em
1808, os dois contraíram matrimónio.
Deste casamento nascem seis
filhos (o último será uma rapariga, a Ana Gramata, que casará com Manuel
Oliveira Arrais. Darão origem à família Arrais). Daqueles seis filhos, Joana
terá 66 netos! A esplêndida prole, é pois, digna de ser considerada uma das
bases do povoamento da Gafanha da Gramata. A influência desta mulher
acolhedora, boa conversadeira, caridosa, gostando de receber com lhaneza em sua
casa, vai ser decisiva para identificação futura da área. Assumindo com orgulho
a alcunha do marido – O “Maluco” –, torna-se, ela, um ícone local, conhecida
para sempre, por Joana a “Maluca”. E daí, toda aquela área, até ali designada
de “Gramata”, passará a ser conhecida como Gafanha da Maluca.
Joana e o marido, José Domingues
– o “Maluco” – herdeiro de António, tornam-se co-foreiros do juncal da ilha do
Preguiceiro, e assim aumentam a sua casa agrícola. Fazem copiosa fortuna.
Morre cedo o Domingos.
A prole é grande, a precisar de
Pai que ajude no trabalho e educação dos filhos. Joana irá contrair segundo
matrimónio com António Santos Pata. Bom homem, de quem não virá a ter mais
filhos. E será com ele, António, que Joana Maluca, virá a ser co-foreira, agora
da Quinta-do-Mato-do-Feijão.
Joana era uma mulher sensível. Tinha
um tom de voz algo varonil, mas melodioso. Talvez um pouco ingénua. Cantava
versos de muito folguedo e prazer, recebendo opípara e hospitaleiramente os
seus convidados, fossem, nobiliárquica ou intelectualmente importantes, distintos,
mas de igual modo, os menos importantes. Simples amigos dos amigos convidados.
Para todas crescia a simpatia de
Joana.
José Estêvão era um natural e assíduo convidado. Trazia com ele figuras
ilustres da política e das letras, nacionais, levando-os, de barca, a
conhecer os prazeres gastronómicos da mesa farta de Joana. E no final, estômagos
mais do que aconchegados, bem fartos, era romançosa
a digestão, feita á sombra do alpendre, em descontraída charla. Postados em
letárgica tardada, frente à ria, confortavelmente instalados em convidativas
espreguiçadeiras, baforando os excelentes havanos sempre presentes na mesa de Joana, iam chalaceando
sobre os últimos acontecimentos politiqueiros. Joana era uma contumaz fumadora
dos ditos, enquanto dizia solene:
- olhai amigos que a politica nunca matou a fome ao Povo. Só as batatas
são capazes de o fazer. Esses “plingrinos” da palavra, que venham, que me falta
cá gente...
Pela quinta de Joana passaram
ilustres homens de influência pátria: Mendes Leite, Freitas de Oliveira,
Sebastião Lima e Agostinho Pinheiro. Entre muitos outros.
O intenso relacionamento e a
cativante atitude desta interessante, como interessada mulher, foram decisivos
para obter a atenção e influência de José Estevão, na abertura das estradas do
Forte Novo a Aveiro (1865), passando pela ponte do Canal de Mira. Nela vinha
entroncar, perto da Cambeia, a estrada vinda da Gafanha da “Maluca” que o
político com a sua influência, dava como prenda a Joana. Veremos que, mais
tarde,
José Estêvão vai
estar, e influenciar também, o esforço da construção da ponte de Juncal-Ancho,
e posteriormente
da estrada Ílhavo-Bruxa
(Gafanha da Maluca – 1898-1900).
Se António Camelo foi o demiurgo
da Gramata, bem se pode dizer, ter sido Joana Rosa, a inegável povoadora
(colonizadora) da “Maluca”.
Joana terá uma vida final junto
dos netos. E desejosa de aumentar a sua capela privada, contribuiu com
terrenos, verbas e alfaias, para a construção da Capela primitiva da Gafanha da
Maluca, devotada à Nossa Senhora da Encarnação (1848).
E assim, a Gafanha da “Maluca”
toma o nome da padroeira. E passa a designar-se, oficialmente, aquando da
anexação administrativa, Gafanha da
Encarnação.
(Cont)
SF