Porque estou com a mão na massa,revendo a 3ª edição do ENSAIO MONOGRÁFICO-ÍLHAVO Séc.X-Séc.XX,e porque sempre por ELAS tive grande orgulho, mesmo paixão, deixo aqui esta nota.
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As "matriarcas" ilhavenses, Séc.XIX
A permanente
ausência, uma actividade feita ao sabor de tempos e marés, um cansaço de uma
luta titânica com os elementos agrestes da natureza que não permite cumprir
horários, acabou por criar na sociedade familiar ilhavense um tipo de
matriarcado, bem mais consentido que pretendido. A mulher assumiu, aqui, por
força da ausência dos seus homens, o verdadeiro papel de chefe de família,
sendo-lhe remetida a quase totalidade das deci- sões que noutros grupos sociais
cabem, normalmente, ao homem. A mu- lher de Ílhavo (século XIX) vai ser um
claro produto do meio onde vive, da sociedade onde se integrou. As suas faculdades,
por ancestralidade expe- ditas, as aspirações e desejos escancarados na sua
alma irrequieta ou bro- tando da sua boca em torrentes de incontida
perseverança, não conseguem ser abafados por uma vida de dificuldades que a
parece querer submeter. E se por infelicidade a roda da vida corre ao
contrário, era vê-la empunhar o remo, tentando, com o seu afadigado
labor, suprir e remediar as faltas, procurando que ,da sua lufa lufa mortificada
– nunca (!) – transpire para as vizinha ou inimigas,o seu mal.Pois com o
seu, podem as outras bem.
Não raro, se
necessário, recorre ao segredo da família ou, pela noitinha, lá vai pela calada
das sombras, ao penhorista, para em segredo se desfazer de prendas de
estimação.H erdadas ou recebidas nos momentos de fartura, que irão servir de
garantia de um adiante inté ao avanço da matrícula, ou inté, que
a roda da sorte gire para o outro lado. Em casa, o marido nem so- nha com esta
dolorosa iniciativa.
Se a questão
advém da perda de lugar na companha e o seu homme tarda em arranjar
alternativa, é ela que, altiva, digna e desembaraçada, exibindo matreiramente a
lágrima que enfeita um olhar a que todo o homem fica impossibilitado de dizer
não, vai bater à porta dos que podem dar solução e, quase sempre, consegue os
seus intentos. Se é preciso papelada, é suficientemente esperta e desempoeirada
para a conseguir junto do regedor para, chegada a casa, dizer ao seu Tónio:
vai homem, vai, e que Deus te traga com sorte, que eu por cá me arranjarei
com os teus filhos. E o homem parte, sabendo que àqueles não faltará
agasalho, comidinha farta e o desvelo amoroso de mãe assumida que, para lá do
essencial, não lhes faltará com uma educação rigorosa, exigente, e até com a
ambição para um mudar de vida que evite momentos como aqueles, tão dolorosos. É
sublime como Mãe, na ternura prodigiosa devotada aos seus filhos; mas austera
na educação, como se de um Pai exigente se tratasse.
Ela educa
sózinha a prole que quase sempre é muita.Procura a escola, pois não perde a
ambição de a levar por diante, e com o produto do seu afa- digado labor lá vai
comprando o necessário para os trazer minimamente decentes. Limpos e
asseados... e de barriguinha cheia esta é a primeira preo- cupação que
satisfaz –, procurando com um moirame desbragado o neces- sário para os
prover. Quando é a hora de o seu homem voltar, é ainda ela quem prepara a
roupa, lhe compra uns sapatitos novos, umas camisas na Feira dos Treze, ou até,
se as notícias são boas, um fatito mandado fazer ao alfaiate – a quem dá as
medidas precisas –, ou não conheça ela, melhor do que ninguém– e de cor, bem
alembradas por tanto nele pensar – as meças do seu homme. Chegado
este, é ela – a arrecadadeira – que recebe por intei- ro o produto da
safra, deixando-lhe apenas o indispensável para uma ou outra ida com os
companheiros, a beber um copo, pois há muito para pa- gar: levantar as arrecadas
no penhor, pagar à senhora mestra, ao alfaiate, ao açougue e, feitas as
contas, comprar umas roupitas para a miudagem. E para ela? Nada! A sua beleza
natural, a prodigalidade com que a natureza a esculpiu, tornam dispensável o
uso de enfeites estranhos. Ela vive para os outros, esquecendo-se por vezes,
quase sempre, de si própria.
Certamente, se
este sentido de sobrevalorização feminino terá tido, como não poderia deixar de
ser, a sua origem na classe piscatória, verdade é que o mesmo se estendeu, mais
ou menos generalizadamente, a toda a sociedade ilhavense, sendo ainda bem
patente na vivência familiar de todas as casas e classes, em pleno século XXI.
Foi um facto
que retrata a singularidade desta comunidade, e que hoje, muito embora um pouco
mais amortecido pelos novos padrões da vida, ainda tenuemente aflora nas mais
pequenas coisas da vida familiar, fazen- do-se sentir ainda amiúde.
A mulher, por
regra mais expedita e inteligente que o homem, era quem o acompanhava ao
letrado, ao padre, ao escrivão ou ao médico, substituindo-o nas explicações que
ele devia dar ao phisico. Era ela, ainda, quem tomava em devida conta os
conselhos e aplicava o tratamento prescrito. Esta característica de
comportamento acabou por ser comum a toda a mulher de Ílhavo, tendo, como
dissemos, perdurado ainda no século XX, mesmo nas famílias que não tinham homem
de mar; eventualmente, nestes casos, mais atenuado esse pendor.Eem todo o
caso, patente, indisfarçável. E o curioso é que o homem de Ílhavo de então
sentia-se bem com esse repartimento de responsabilidades, onde detinha o menor
quinhão, alheando-se por vezes, egoisticamente, de assumir atitudes que lhe
diriam, por norma, mais directamente respeito.

Talvez este
pendor matriarcal, expresso na extrema preocupação da mulher como dona da
educação dos seus filhos (a quem juravam: hei-de fazer de ti doutor ou
tu não és burro, hás-de dar capitão), tenha estado na base
da escolaridade onde sempre descortinou ser esse o caminho para os fazer
diferentes. Preocupação que desde muito cedo levou filhos de mareantes ou de lavradores
a frequentarem as escolas primárias. Daí que, no século XIX fossem já
evidentes, na terra, capacidades invulgares para o tempo, numa parte das suas
gentes. Élite dotada de uma riqueza cultural invejável para a época, que a
levaria a distinguir-se de outras da sua igualha e dimensão, mas menos ricas em
saberes. Muitos dos que se começaram a distinguir na política, nas artes e/ou
nas letras, ou tão simplesmente no exer- cício profissional onde se
alcandoraram a lugar de destaque, nem sempre, ou quase nunca, eram oriundos de
famílias de posses. Eram antes, amiúde, filhos de gente sem recursos que
procuravam e obtinham a solidariedade dos seus conterrâneos de maiores
cabedais, ou, muitas vezes, dos usurários a quem entregavam o cordão ou arrecadas,
em troca de uns dinheiritos para suportar as despesas do rapaz nos
estudos para doutor.
A mulher
tratava da casa, fazia rendas com que amealhava alguns pro- ventos depois de
vendidas em Aveiro. Ou costurava, trabalho para que mostrava intensas aptidões.
Carregava a canastra e percorria, a passo de gaivina, lépida e desembaraçada,
as ruas da vila para amealhar uns reis.
As suas casas
eram simples: cozinha, quarto da enxerga, uma caixa ou arca para as roupas e
uma mesa com quatro cadeiras, era a guarnição habi- tual das casas escondidas
nos becos da vila. Durante a ausência dos mari- dos, comiam frugalmente,
desprezando a carne, substituindo-a por peixe salgado, acompanhado de
hortaliça. Poupando em tudo, com o único fito de fazer dos seus, gente diferente.
E fizeram!..
Senos da Fonseca