quinta-feira, julho 15, 2021

 Revisitando a Joana  Gramata  a"Maluca"




Aqui sentado no meu canto à beira rio plantado por mim, com um sonhado e não escondido propósito de um dia poder gozar a velhice, desgastado do corpo que não dos sentidos, inebriado por esta ria, tão inquieta quanto eu, mas muito mais prodigiosa na oferta de sensações que dela podemos extrair e guardar,olho para o lado de lá  esta «Iemanjá» das águas vivas, reluzentes, cheias de vida… E agora que já pouca beleza extraio da vida, é ela que (me) consola nestes momentos – eu sei lá?! – se os poderei chamar de criativos. Pelo menos, aqui, criar, significa sonhar, querer, desejar. Sonhar com as palavras que gostaria de dizer, e que, se afinal não digo, é porque me falta o estro.

Mesmo defronte aos meus olhos – ali mesmo! –, ficam as terras da Joana «Maluca», figura histórica por quem sempre tive largo apreço. Como tive – ao menos – «talento» para cimentar amizades que duraram uma vida, essa qualidade historicamente registada na figura da Joana, atrai-me. E há muito, depois que contei a «estória» das visitas do José Estêvão à grande senhora (vide www.senosfonseca.com, clicando na janela Factos & História, em Palheiro de José Estêvão), apetece-me dar um retrato mais preciso da Joana.  

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Às vezes não chega, a um indígena, ser maluco. Para sê-lo é preciso parecê-lo. Ora a Joana Rosa de Jesus «a Maluca» não só o não era, como nem o parecia. A alcunha, coitada, ter-lhe ia vindo de ter casado com um dos primeiros foreiros do Senhor de Vagos, o pastor José Domingos da Graça «o Maluco».

A Rosa de Jesus era uma «Gramata». Nascida em Ílhavo, em 1788, era originária da família dos Gramatas, lá do Arnal, cujo avô, o Tomé Francisco, fora um dos primeiros foreiros que nos fins do século XVII se teria vindo estabelecer para aqueles terrenos arenosos que bordejavam o canal que ia lá para os lados de Mira. Ora o certo é que o Tomé Francisco tomou o nome de «Gramata», que era o nome por que eram conhecidos aqueles terrenos lodacentos que tinham vindo lá das entranhas da ria, e onde apenas parecia capaz de nascer e se desenvolver, uma erva marinha, conhecida por gramata: «diz-se a qual mó do meio produz junco e hoje pela continuação da maré salgada já o não produz, mas sim erva que chamam de “gramata”, apetitoso manjar para o gado».

Em 1883, a Joana «Gramata» e o marido, «o Maluco», que teria vindo lá do sul de Vagos, fazem o aforamento da «Quinta do Feijão», local preciso onde hoje se encontra situada a Capela da Sr.ª da Encarnação (aqui mesmo exactamente no «azimute» da minha proa).

A Joana, já então conhecida por Joana «Maluca», cedo ficará viúva. Não sem ter botado à vida nove rebentos, que lhe darão a bonita prole de 66 netos. Viúva aos 48 anos, irá casar com António Sousa Pata.

Não teria sido fácil ao José da Graça convencer a sogra a dar-lhe a filha. «A Gramata», já gente de sinal, olhava para o rapaz, pastor das castras enfezadas e raquíticas, e tentava inquirir o que «ele» teria de «seu» ou dos seus, tanto fazia.

Ora, numa noite estrelada enquanto fixava as luzinhas lá no alto acudiu ao José – rapaz esperto – uma ideia que logo ao outro dia botou em prática. E enquanto na eira da «Gramata» ia respondendo aos «quesitos» da mãe de Joana, não esteve com meias medidas: – colhendo na mão umas espigas de trigo, atirou à «Gramata»: 

- Olhe Sr.ª amiga: eu pareço um pelintra a vadiar aqui com o gado por estes areais. Mas não colha o gato pela cor do pêlo. Que a casa de meu pai é tão abastada e tão rica, que à noite há tantas luzes a iluminá-la, como grãos que tenho aqui entre mãos». 

E logo ali, a convencida e crédula sogra, aprazou casório.

A Joana, embora de perfil varonil em que uma teimosa barba lhe cobria o queixo realçando-lhe o tipo, era, contudo, uma aprazível e simpática mulheraça. Mulher ridente, faladeira e sempre bem disposta, fumava viciosa e deleitosamente charutos, que amigos e comensais, da sua lauta e farta mesa, lhe faziam oferta, mantendo o stock sempre abastado.

Abria com regozijo a porta aos políticos, recebendo amiúde José Estêvão que se fazia acompanhar pelos ilustres que o vinham visitar ao seu palheiro da Costa Nova. Indo de barca, passava a ria, atracando na mota da passagem, em terrenos que confinavam com as terras da Joana.

Mulher activa, empreendedora, boa na arte de negociar, rapidamente a sua casa emerge como das mais poderosas e ricas da região. Benfeitora, é ela que cede os terrenos da sua quinta onde se virá a instalar a capela da Sr.ª da Maluca, dotando-a com algumas imagens de oráculos, devotos, que amigos de Aveiro lhe teriam oferecido.

A Joana «Maluca» virá a falecer em 28 de Janeiro de 1878.




sábado, julho 10, 2021

 




Maria de Jesus, a « PINTA-CRISTOS»


A Maria de Jesus Neves, universalmente conhecida, em Ílhavo, por «Maria Pinta-Cristos» era uma boa mulher. 

A Maria de Jesus, costumeira artista, reparadora de imagens de oragos, espécie de cirurgiã esteta-ortopédica, graças a uma invulgar habilidade, tinha solução para conserto de toda e qualquer maleita, que, por desmazelo dos fiéis, ou por maladia vinda com o passar do tempo, atacasse «aqueles» em quem, habitualmente, se procurava remédio para as humanas desditas. Os “Santos”, afinal , também adoeciam pois, coitados, só faziam milagres em casa alheia. Para isso, os clérigos da região – e até os de fora –, procuravam a curadeira de santo, pois como veremos, a fama da Maria ultrapassou as fronteiras da nossa santa terrinha. Maior  fama que a dela, só conheci a do «Ceguinho» …

A Maria «Pinta-Cristos» tinha o seu “atelier” no Beco que hoje ostenta o nome da Prof. Maria Vidal - que ao tempo ainda nem sequer ali morava –, mesmo em frente à casa dos meus avós. Vão já lá muito mais que uma dúzia de mãos, de anos. Miúdo, ia sentar-me no rebate de granito que dava para o ambulatório de Santo, seguindo com curiosidade as suas «intervenções»: braços, pernas, cabeleiras, retoque ,de narizes, acentuar das bocas celestiais, e até, novo design para a reparação dos mantos dos oragos; todos (e tudo) …que entrava envelhecido, e ou alquebrado, saía das suas mãos, pronto para, se esses mundanismos já então se realizassem, concorrer a uma quaisquer Sky Fashion .

Era muito simpática, a Maria de Jesus; baixota, bonacheirona, sempre muito escofenada, sempre a bulir, cara marota muito redondinha de onde se salientavam duas maçãs camboesas, muito vermelhuscas a adoçar-lhe o rosto, a Maria dava indícios de ter sido, em nova, uma muito bonita e atraente mulher. Sempre de xaile preto, impecavelmente assente, maleta na mão onde levava os santinhos para despacho, ao recoveiro, lá ia muito afogueada e cumprimentadeira, num passinho miúdo,rápido e ágil, rua abaixo, lá para as bandas da praça. 

Mas de onde teria vindo a sua fama, badalada de paróquia em paróquia?

Vamos lá contar o que ouvimos  num seroar daqueles tempos,  no intervalo da reza em noite de trovoada, enquanto, sentados em cima dos cobertores de papa, luzes apagadas, apenas iluminados por um daqueles candeeiros de petróleo de chama bruxuleante e mortiça, se rogava protecção a Stª Bárbara para a trabuzana que ia lá fora, enquanto na lareira  se punham a arder raminhos de alecrim retirados ao bouquet pascal, muito próprios - entendia-se - para protecção a raios e coriscos.        

Um certo dia apareceu à Maria «Pinta-Cristos», o cónego Justino Belchior, da Murtosa, trazendo uma Srª do Rosário que, apresentava, forte traumatismo craniano, com mossa avultada na cabeça e sem cabeleira (própria) de “senhora dos céus”.

O Pª Justino deixou a santa ao cuidado da Maria que, desembaraçada, logo encontrou meio de fazer uma cranioplastia, para o efeito enxertando uma batata (jovem) na cabeça da dita Santa, fixando a dita batata na terracota, presa por fios barrentos. Depois de tudo bem amaciado, a Maria reconstituiu,   alourou e encaracolou, os fartos e caídos cabelos da Senhora, sobre os quais depositou a aura, que pareceu rebrilhar,ainda mais.

Foi a Santa colocada na Igreja, onde os devotos fiéis admiraram e elogiaram o trabalho dos liftings levados a cabo pela reputada esteticista.

Era o tempo em que, acabadas as sementeiras do batatal, começava a despontar das areias revolvidas por suado empenho daquelas gentes da beira ria, um viço verde-escuro sobre o qual se faziam opinativas previsões. À cautela visitavam-se os Santos  a pedir-lhes  intervenção para que a época fosse frutuosa. Bem diferente da do ano anterior. Não se augurava nada de muito bom. Os terrenos continuavam encharcados pelo salitre  da ria e, por mais moliço e escasso com que se emprenhassem, por maior revolto que neles se obrasse, parecia que aqueles areais sujos do lodaçal, não tinham  maneira de se tornarem ventre frutuoso.

Ora um belo dia, o sacristão, intrigado, veio alertar o beato de que ali, mesmo debaixo do tecto, havia milagre : da cabeça aureolada da Srª da Conceição, despertava viçoso pé de batatal que, dia a dia, parecia medrar cada vez com mais viço. O abade Justino Belchior logo foi inquirir. Não foi preciso sherlockolmear muito para se aperceber da marosca. Tipo esperto, sabedor que, para a produção de fé, um simples acontecimento estranho tem mais efeito que mil sermonários, anteviu, ali, um belo instrumento para dela dar testemunho. Por outro lado, logo entreviu rara oportunidade para tirar os seus proveitos, obter alguma prebenda, para quem, como ele, simples abade da paróquia, tinha levado uma vida a pregar com os bolsos sempre vazios, batina ensebada e polida de uso continuado, a exalçar ser dos pobres  o reino dos céus. O que, convenhamos, é boa prática a recomendar, mas má para uso próprio.   

É certo que ao tempo ainda não havia internet. Mas soprado de boca em boca, o milagre, as gentes começaram a acorrer à igreja, para ver, com olhos de ver ,o  anúncio, do que, diziam ser, sinais anunciadores de um bom ano de colheita farta

Logo o interesseiro Belchior percebeu que estava ali o seu S.Martinho. O  S.Martinho do passal paroquial. E se o pensou, logo o insinuou

- Que sim senhor, mas que era aconselhável - dizia - trazerem umas dádivas para melhor conquistar a mandadora dos sinais. Que nisto de santo, há uns certos, mais interesseiros.

E o certo é que por coincidência, ou outra coisa que,é bem certo,  que as háy…hay!…   o desenvolvimento da palha do batatal  junto da auréola da Santa,  prenunciava colheita como há muito se não via. Foi um carregar para ofertar à Senhora. Sacadas de milho e batatas, frangos, carninha do bácoro recentemente esganiçado, esmolna em moeda de lei. Enfim, tudo o sacrista recolhia, animoso, diligente nos incitamentos e prédicas, esperando que, o Sr. Abade, se lembrasse, neste fastígio de fartura, do seu acólito.

O celeiro encheu; e até verteu fora, dando para ir ao mercado, a Estarreja, para mercadejar o excesso .E desse modo, recolher o suficiente para comprar uns tarecos lá para a casa do pobre cura, que, coitado, também era filho de cristãos, e que, há muito, ansiava por uma sedia onde pudesse abusacar-se, finda a jorna espiritual, na sombra do seiceiro  do passal.

Época feita, apurada a colheita, o povo andava cada vez mais chançudo na sua Senhora; e achava que Lhe deveria ser grato. Por isso, sempre que ia de visita, levava-lhe espórtula  que deixava na caixa colocada para tal fim, aos pés da santa.

Espantoso foi que, terminada a colheita, de um dia para o outro, como que por milagre, o batatal na cabeça da santa, terá desaparecido. O astuto Belchior, em noite azada, tinha extirpado o caule que grassava por entre o cabelame da Santa, e tudo tinha voltado ao normal.

Triste andava o sacrista. Acabara-se o milagre, e para o ano as coisas não prometiam repetição,. Que nisto de milagres, não se pode ser mãos largas e torná-los banais.

E um dia resolveu queixar-se ao cónego:

- Pois é Sr. Abade... Não há bem que sempre dure. Os bons tempos de fartura foram-se. Para o ano temos de voltar aos caldinhos leves de conduto.

- OH! homem indigno do convívio com a santidade!.... descansa, homem - retorque o P. Justino Belchior; fitando a cara do azabumbado acólito - para  o ano o milagre vai ser o do milhal. Prepara o celeiro – disse maroto o abade Belchior,...

Que, nos entretantos, já  tinha vindo a «Íbalho», acertar com a Maria «Pinta-Cristos»– não fosse longa a lista de espera!–a operação da trepanação a levar a efeito, na estação do defeso, que consistiria a em substituir a batata por uns grãos de milho ,envoltos em cera de grilo, muito apropriada para derreter no momento certo .

A Maria de Jesus  nem percebeu as razões para operação tão esquisita e  até nem alcançou das razões porque é que o Padre Belchior, sempre tão forreta, lhe pagou o trabalhinho a dobrar. E que, ainda por cima, lhe deixou um saco de avantajadas batatinhas, tão agradecido se mostrou pelo bom trabalhinho feito pela «Pinta-Cristos».

O certo é que, fosse no segredo dos confessionários ,quebrado, fosse em algum parlatório em fim de lauta jantarada, o certo é que a manha foi ao conhecimento de outros colegas do abade Justino Belchior.

E à Maria «Pinta Cristos» começaram a chegar os pedidos mais esquisitos para delicadas intervenções de enxerto cranianas, todas com uma particularidade comum: ser coisa de grelo.

  

            Senos da Fonseca



terça-feira, julho 06, 2021

 

UMA MAIS QUE MERECIDA, CONDECORAÇÂO

Mário Sacramento (1920-1969)

Mário Sacramento nasceu em Ílhavo, em 7 de Julho de 1920, na casa da sua família, ali ao Largo do Oitão.

Filho de Artur Sacramento, comissário de bordo na Marinha Mercante (homem muito culto, possuidor de um grande carácter e sentido de vida, fi- gura altruísta e solidária – será um dos primeiros Comandantes dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo– e de Rita Sarmento, cuja família vinha de pesado tri- buto pago nas lutas Liberais de 1828. O convívio com esta família materna, muito próxima de figuras proeminentes nas lutas por uma nova ordem de liberdade, de igualdade e fraternidade que tinham ido beber à Revolução Francesa (de onde se destaca o tribuno José Estêvão cuja esposa era madrinha de D. Rita Sarmento), teria tido, certamente, influência no jovem Mário que, habitualmente, passava grandes temporadas em casa da família materna. Como ele mesmo recorda no seu « Ave Aveiro »:

“Sob os lampiões dos Arcos, Rua dos Mercadores abaixo, vogavam bateiras conduzindo os teus íncolas (ia a dizer os teus doges) às soleiras das portas. E eu batia palmas de menino com brinquedo, na janela da avó. Casa escura, com mofo a rato, olhares do José Estêvão no louceiro antigo, um opúsculo do Marques Gomes a dizer-me que um tio de antanho fora decapitado pelo D. Miguel, grades de pimpons nas sacadas de pedra antiga — em que um dia entalei a cabeça (para retomar essa tradição, quem sabe?), tendo sido liberto, depois de muito suor e ferros, por um serralheiro do Mindelo”..

Mário Sacramento aprende, autodidata, o Esperanto. Língua que então se sonhava vir a ser, universal :- “um só povo ,uma só língua “. Jovem ainda, logo em Ílhavo, cria, na AHBVI, uma turma aberta para divulgação da mes- ma. O Esperanto, acreditava M.S. seria a antecâmara para a união dos povos sob o fim último das teorias marxistas da igualdade, de direitos e oportunidades, que já então lhe despertavam a atenção e o empenho.

O despertar da cultura na viragem do século XIX 333

Em 1938 (dez de Junho) a PIDE prende-o pela primeira vez, ao mesmo tempo que proíbe a publicação e circulação da revista «A Voz Académica». Tinha, tão só, dezassete anos. A prática, o empenho e aceitação das teses vertidas tão precocemente, começavam a ser perigosas –já! - e a impor- tunar o regime salazarista, que antevia com perspicácia - diga-se - ali se encontrar um potencial e vertido subversor do regime.

Contrariado na sua vocação pelos pais, que o não deixam seguir letras, Mário Sacramento vai estudar Medicina para Coimbra, e completar, depois em Lisboa (1946), o curso. Tempo para aderir ao M.U.D juvenil, movimento de unidade cujo fim era o derrube do regime fascista.

A sua vocação para a escrita salienta-se em 1945, quando apresenta nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, o livro «Eça de Queiroz –Uma Estética de Ironia», distinguido desde logo com o prémio Oliveira Martins. Neste trabalho, Mário Sacramento segue o percurso de Eça (autor a que o ligavam afectos familiares próximos e exultação pelo exemplo do avô de Eça, Conselheiro Queiroz que, em 1828, levantara o povo de Aveiro(e do País) pela afirmação suprema da Liberdade),procurando dilucidar sobre a influência que nele teria tido a vivência de Coimbra – cadinho onde se fundem ideo- logias e novos rumos do pensamento– e assim, descobrir o genial escritor realista, “impressionado execravelmente com o que encontra em Lisboa

Terminado o curso, M.S. vem exercer a profissão para Ílhavo - onde de imediato tem casos clínicos notáveis que o fazem sobressair da mediania ins- talada – abrindo consultório na Rua José Estêvão onde passa a viver com a família. O consultório transforma-se em local privilegiado servindo de ponto de reunião a políticos do contra, reviralhistas e ou revolucionários. Por isso sempre atentamente debaixo dos olhares da PIDE que, amiúde, vi- gia – escancaradamente - os pontos de acesso ao mesmo. Ponto contudo de referência, como local de atendimento para os mais necessitados que, gra- ciosamente – e tantas vezes ainda reconfortados com alguns tostões no bolso para a compra dos medicamentos – dali saíam bem agradecidos, reconsti- tuídos física e materialmente .E que, por vias disso, o irão glorificar, ao atribuir-lhe oepítetode«MédicodosPobres»,comopassaaserconhecido em Ìlhavo.

O ano de 1953 leva-o de novo aos calabouços políticos. Lúgubres inte- riores onde irá sofrer as sevícias (que deixariam rasto...) da tortura do sono, ou do plantão em «estátua», com que habitualmente o regime fascista sa- lazarista mimoseia os seus opositores mais perigosos. Responde às agres- sões, enviando à família escritos cheios de ironia, sabendo de antemão que

334 Ílhavo | Ensaio Monográfico

a primeira leitura dos ditos, será a dos esbirros. E assim os aguilhoa. Resiste, física, anímica e ironicamente, desesperando-os, bandarilhando-os, como se faz à besta cega.

E, na cela, apesar de lhe chegarem a negar a simples consulta de livros, elabora um trabalho intitulado “Fernando Pessoa -Poeta da Hora Absurda” que será publicado em 1958. Um trabalho de que, mais tarde disse, gostaria de refazer, dadas as condições em que foi elaborado. Nele leva-nos à descober- ta da essência comum entre o poeta e os heterónimos - embora assuma se- rem individualidades diferentes – apontando-nos a concepção geral da vida do vate : um beco sem saída!

Em Ílhavo os «próceres» locais impedem-no de trabalhar na Misericórdia, tentando coartar-lhe a carreira profissional. As denúncias de colegas e as maledicências,empurram-no para o exercício médico, em Aveiro (1955),onde se irá estabelecer em consultório aberto, mesmo em frente do café Trianon.

Em 1955, volta a ser levado para a António Maria Cardoso. O então ins- pector chefe dos esbirros pidescos, o grotesco Sachetti (cujas origens se si- tuam em Aveiro), sabe do perigo que representa Mário Sacramento. Ordena por essa avaliação a sua vigília, dia e de noite, atribuindo-lhe uma perigosi- dade preocupante para o regime.

Isso não impede M.S. de ser o obreiro que torna possível, em 1957, o Io Congresso Republicano, de que foi o Secretário Geral.

Em 1959 publica «Ensaios de Domingo» e inicia com Óscar Lopes -in- telectual de quem ideologicamente se manterá muito perto – uma colaboração literária no jornal «O Comércio do Porto».

Em 1961, como bolseiro do Estado Francês, vai para Paris. No Hospital de St. Antoine tira a especialidade de gastroenterologia, apesar de gravemente doente. (pois que durante a estadia – por deficiência alimentar e ou excesso de labor - contrai a tuberculose).

Regressa em 1962, para voltar a ser preso, de novo, ainda nesse ano.

Em 1966, assume-se crítico literário, colaborando no caderno de Literatura do «Diário de Lisboa”. E também na revista «Seara Nova». Nesta colaboração destaca-se o debate sobre a procura de uma “Estética Neo- Realista» ,com a inventariação dos autores nacionais que a perseguem. Era importante para Mário Sacramento encontrar nas diversas propostas ar- tísticas –poesia,teatro,novela, romance, ou até na literatura juvenil (e ou fe- minina)- formas de expressão da arte. Um retrato das preocupações so- ciais, um conflituar com a realidade, um assumir objectivo de uma vivência

O despertar da cultura na viragem do século XIX 335

“ideo-sensível” na posição social dos autores na neo-revolução (que teria de ser inevitável).

Será em 1967 que publicará “Fernando Namora Obra e o Homem” logo seguido de “Há uma Estética de Ironia?”, em 1968.

O Concilio Vaticano II com as suas conclusões e indicações que pareciam definir uma evolução no pensamento da Igreja, mais aberto e mais preo- cupado, mais suportável para o ateu assumido, levam Mário Sacramento a procurar, nas páginas do jornal “O Litoral”, interlocutores para com eles estabelecer um diálogo com o «credo», numa procura de pontos e empe- nhamento comuns, ”apesar” de tudo. Artigos que, mais tarde – já depois da sua morte, em 1971- seriam reunidos em volume publicado sob o título “Frátia –Dilogo com os Católicos”.

Morre em 1969, nas vésperas do 2o Congresso Republicano de que, uma vez mais, foi o principal obreiro – o fogo que ateou a labareda no requeri- mento, ainda por ele redigido. Que se viria a realizar sob o patrocínio do seu espírito, permanentemente presente do primeiro ao ultimo instante, no “Teatro Aveirense”, onde teve lugar .

Salazar, é certo, estava moribundo. Politicamente morto. Mário Sacramento já não veria a queda do regime para a qual tinha sido um dos mais férreos contribuintes, um dos mais entusiastas e dos mais lúcidos, combatentes. Infatigável e persistentemente activista, ousou lutar con- tra tudo quanto de retrógrado, representava e continha, o caduco regime salazarista.

Mário Sacramento adivinhou na sua “Carta Testamento”, redigida em Abril de 1957, onde lúcida e certeiramente faz uma premonição rigorosa do tempo sobrante que, certamente, lhe iria faltar para ver a queda do regime salazarento:

Não viu o que quis; mas quis o que viu” disse-nos nessa missiva em que, dum modo terno mas incisivo, nos lança um aviso:

“Façam um Mundo melhor! Não me façam voltar cá”



terça-feira, junho 29, 2021

 


A história do CONVENTO de Cimo de Vila.A polémica.


Em 1922,o jornal «O Ilhavense»,  publicou a resposta negativa dada pelo Ministério da Justiça em ceder, gratuitamente, à Câmara, o edifício do Convento. Essa atitude derivava do facto de,  o Convento ter estado  completamente abandonado, e teria, por isso, revertido para o Governo O Convento, diz-se no ofício nº15013 de 20 de Janeiro de 1922.do Ministério da Justiça, pouco ou nada mais era, que um montão de ruínas, pelo que, o Ministério,decidiu mandar avaliar o edifício,Seria por esse o valor que estaria disposto a cedê-lo à Câmara Municipal de Ílhavo, já que a esta, nem sequer era reconhecido o direito de ficar com os bens pelo valor de avaliação (concedido às entidades que fossem depositárias dos mesmos a titulo precário),dado  aquela ter abandonado o prédio.

 A Câmara acabaria por adquirir o imóvel pela quantia de 18.500$00,



                            Acta da reunião de 24/07/1922 da aquisição do Convento 


nele tencionando instalar os Paços do Conselho,  depois de efectivar obras de restauro. E para lá transferir as escolas que até aí vinham funcionando em casa particular, de que  pagava renda mensal.

Em 1925,estalaria uma explosiva e truculenta polémica, que poria Ílhavo em alvoroço. Em «O Ilhavense», o Dr. Manuel Damas (e outras vezes o Director Pereira Telles), envolveu-se de um modo violento, por vezes patético e nem sempre decoroso, com uma outra facção politica local chefiada por Eduardo Craveiro, este  utilizando os jornais, «O Debate» de Aveiro (de que era correspondente) e «O Beira – Mar», de Ílhavo, para defender as suas posições,  respondendo  nos mesmos  termos,ácidos até ao insulto. O pleito tomou forma de escândalo público, assumindo dimensão que extravasou os limites locais. 

A questão em torno da qual se movia a diatribe, residia na acusação feita por M. Damas do descaminho dos valiosos haveres do Convento de Cimo de Vila que, as irmãs de Calais teriam abandonado pela calada da noite,em   1910. Ora, para administrador (ou depositário) desses bens abandonados, teria sido nomeado pelo governador civil de então, uma Comissão de que fazia parte o Presidente da Câmara, Eduardo Craveiro, depois de feito competente arrolamento em Outubro de 1910.

Movia Damas, para lá da rivalidade politica,a suspensão de actividades a que tinha sido sujeito por um período de três meses que, o mesmo,considerava ter sido consequência de acusações graves que os republicanos lhe teriam feito.

Antes de irmos à polémica revisitemos um pouco da história do Convento.   

                                


                                                         O Convento transformado em Escolas

No Arquivo Distrital de Aveiro, num artigo em que é referido o irmão pouco lembrado de José Estêvão, António Augusto Coelho de Magalhães, refere-se que, uma das causas da sua doença teria residido no facto de, uma sua filha, ter fugido para França, juntamente com outras quatro companheiras, esgueirando-se do recolhimento onde se encontrava, em Aveiro; fuga que teria contado com a colaboração de um “tal padre Beirão”, entrando as fugitivas para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Calais. Esta fuga, o eco que teve junto da população pelo rocambolesco da situação que pareceu configurar um “autêntico sequestro” (a que não faltou a «clausura» das «desencaminhadas» no recolhimento de «S. Patrício», em Lisboa, antes de saírem para França), levaria à demissão de Manuel Firmino do cargo de Governador Civil do Distrito; este episódio foi posteriormente utilizado, como «razão» para a feroz oposição à entrada das Irmãs de Caridade, na Misericórdia de Aveiro (1888). 

No período da “convulsão liberal” laicista, gravoso para as Ordens religiosas, numa altura em que o papado de Pio IX pretendeu recuperar algum do esplendor ,influência e do poder da Igreja, em declínio desde a Revolução Francesa, em Ílhavo, eram ao tempo, esperadas as Irmãs de Caridade que – dizia-se –, viriam  instalar-se na casa do Padre Morgado (Taboleiros)  A qual para esse efeito tinha sido sujeita a benfeitorias de vária ordem. Mas quem se apresentou a ocupá-la, em dado dia, seriam dois eclesiásticos e quatro senhoras, duas das quais se afirmava, serem naturais deste Distrito; ora uma destas – a irmã BRANCA – era, nem mais nem menos, do que a sobrinha de José Estêvão.Foi pois esta, uma das fundadoras do Retiro da Nª Srª do Pranto das Irmãs Hospitaleiras da Terceira Ordem Regular de S.Francisco, onde se ministrava “ensino gratuito a meninas, especialmente a filhas de pescadores”, e funcionava  já. …, espante-se! - como um verdadeiro,«Jardim-de-infância» ”pois receberia as crianças com menos de três anos, às horas em que as mães estariam ocupadas em outros afazeres”·. 

As Irmãs da Caridade fariam parte do contra ataque do Papa Pio IX, destinado a recuperar o esplendor da Igreja e a influência que aquela vinha perdendo em toda a Europa, desde o período da revolução Francesa. A esta posição, respondia em Portugal um «novo catolicismo» que rejeitava, liminarmente a (nova) piedade surgida,  a que  referiam, entre outros, A. Herculano e Oliveira Martins, afirmando “não ter esta, nada a ver com a antiga religião”. As Irmãs da Caridade – «importadas» de França – “fazendo parecer que em Portugal já não haveria entre nós quem detivesse o espírito de caridade”, foram vistas como sendo uma emanação do espírito jesuítico .Por isso, prontamente denunciadas pelo radicalismo que as associava a uma prática onde “nem cabia a visita aos pobres”,Gozando da alta protecção dos «grandes e da igreja», estariam,por isso, longe de merecer o apoio popular, pois, dizia José Estêvão “o culto externo das Irmãs é pouco consentâneo com as formas, com os costumes, e com as prevenções da autoridade administrativa”. Via-se nas Irmãs da Caridade uma reacção das classes poderosas que, unidas à Igreja, pretenderiam «opor-se» ao ensino da escola pública, no intuito da manutenção do papel hegemónico detido sobre a mentalidade popular. 

Pelo que já anteriormente referimos, a prática das Irmãs, em Ílhavo, especialmente no campo do apoio aos órfãos e aos filhos das mulheres trabalhadoras, bem como na educação das jovens, parece ter merecido justificado reconhecimento, de validade e respeito, muito embora a sua instalação – com as peripécias da Irmã Branca –, e o seu posterior desaparecimento envolto em grande mistério, que levou ao  fim da Instituição, com o confisco de todos os seus bens no País de origem, permitam colocar algumas interrogações, deixando campo aberto a hiperbólico locutório sobre qual seria (exactamente) a sua finalidade última. Mais envolta em névoa impeditiva de  discernir quando, em 1910, se constatou a repentina fuga de todas as Irmãs, – sem qualquer aviso prévio.Perpetada  ao cair da noite,em carroças fretadas para o efeito, deixando para trás a Instituição e todos os seus bens.Abandonados à pilhagem, o que motivaria fortes especulações e teria deixado um rasto de mistério nunca totalmente explicado, nas circunstâncias. 

O episódio das Irmãs da Caridade,de quem se dizia “serem um veiculo para submeter as consciências e manter o povo na ignorância através do ensino religioso a que se dedicavam”, serviu para a denúncia, por parte da esquerda, dos privilégios mantidos pela Igreja, que se consideravam excessivos, e prejudiciais, pois com eles se pretenderia impedir a democracia, a igualdade de direitos do povo e a sua libertação secular. E as Irmãs viriam mesmo a ser apedrejadas em Agosto de 1858 à saída de uma igreja, levantando ondas de indignação, na facção conservadora. 

Em Aveiro seriam impedidas de entrar no Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Para esse propósito contribuiu José Estêvão quando, na sua notável intervenção no Parlamento, afirmou a dado passo: “Acho desnecessária a instituição. Se Deus quer a caridade seja tão oculta, que a mão direita não saiba o que dá a esquerda, para que é então decorar a cabeça das suas sacerdotisas com um certo ornato… e o corpo com uma certa fazenda”.  

 O sentimento anticlerical era levado a todo o país pelos vultos do pensamento e cultura que se afirmavam chocados, e revoltados, com a centralização da cúria romana.O que, se não era uma expressão anti-religiosa ou até anti-católica, era antes uma critica às práticas e devoções e às instituições (Patriarcado e Ordens). O debate “exprimia uma contradição insanável entre os adeptos de uma sociedade livre e secularizada e os defensores da restauração de um modelo clerical”.

            A  Polémica (1925)

Abandonado o Convento, deixado o seu recheio ao dispor de quem lá quisesse entrar, os seus bens foram, em Outubro de 1910, anexados pela Câmara de Ílhavo, aguardando-se um processo que corria contras a Congregação das Irmãs de Calais a correr em França (que terminaria com a confiscação de todos os seus bens!). Foi pois, em 1910, feito um rol dos bens existentes, repetido em 1915 (este muito diferente do anterior) do qual, ninguém mais tarde se assumiu conhecedor, ou detentor.

O período conturbado e as lutas entre as diversas clientelas politicas, foram, em Ílhavo  como no resto do País,  assumindo  extrema virulência, que nem sempre acabava da melhor maneira.

Em 1925 era bem patente a diferença de opinião entre os que se agrupavam em volta de «O Ilhavense»- os conservadores monárquicos que apoiavam a figura politica local, Diniz Gomes -  e aqueles que n’ «A Beira-Mar» se situavam perto das ideias republicanas, ou pelo menos militavam na corrente progressistas, próxima.

Ora o recheio que restou do Convento, que uns diziam ser muito valioso, mas que outros afirmavam convictamente, ter em boa parte sido roubado no período em que esteve de porta aberta, sem ninguém decidir a quem competia guardar o que lá se encontraria, parece ter levado um sumiço. 

Desses bens relevava-se o recheio: trem de cozinha que se dizia ser o melhor de Ílhavo, 30/40 camas, roupas para as mesmas, pinturas e paramentos, talheres, serviços V.A etc. etc.O Convento, dizia Damas, estaria cheio como um ovo.

Aconteceu neste período (1922) que, sobre a câmara de Dinis Gomes se levantaram algumas acusações, denunciando-se obscuros procedimentos de índole económica e uma situação catastrófica das finanças da mesma. M. Damas parece vir aproveitar a questão do Convento com a finalidade de criar um facto político servindo de distracção do problema que afligia as hostes conservadoras. E assim,surge a levantar publicamente a questão que, havia tempo, andava em surdina,de boca em boca. O recheio que tinha sido objecto de arrolamento e do qual  teriam ficado  conhecidos administradores, responsáveis -diz Damas em «O Ilhavense» – preenchia 58 páginas, o que atestava uma ideia da sua grandeza. O que teria sido arrolado deveria pois, existir,.A não existir, alguém teria de dar conta do seu paradeiro.

E adiantava: já vimos como as pobres freiras foram postas fora de Ílhavo («O Ilhavense» de 12.04.1925); pouco menos que nuas. (O que de facto não fora verdade pois, ao que parece, ninguém as teria posto fora) Elas é que teriam desaparecido, certamente pelas razões que mais tarde pareceram esclarecidas quando, no seu Pais de origem, a Congregação foi dissolvida e lhe foram confiscados todos os seus bens. O problema da sua desaparição repentina, não teria sido motivado por reacções locais, mas sim, consequência de uma situação exterior em que estaria envolvida a Congregação das Irmãs de Calais. 

M Damas continuava: A malandragem pagava assim aquelas que lhes ensinaram as esposas as filhas e as mães.

E até do simples desaparecimento de vasos, Damas se servia para acusar os republicanos, invectivando Eduardo  Craveiro de os ter oferecido a várias pessoas gradas, em Ílhavo.

Craveiro defendia-se com os recibos que exibia  afirmando serem prova de ter entregue a administração dos bens, em 1915, ao Dr. Carvalho, novo administrador Concelhio .Nos mesmos indicava-se  o que teria sido  vendido (o valor de 45$08 que era o saldo acusado pelo novo administrador).

M Damas exibe declarações recolhidas junto de alguém (incógnito) ,que se afirma ter sido uma das fugitivas e lhe teria afirmado: fomos obrigadas a deixar o nosso tam querido colégio da Nºª Srª do Pranto e a seguir para a própria pátria como se fossemos criminosas (.) sem de lá trazer nada.

E a polémica foi subindo de tom, com o tratamento dado a Craveiro de acéfalo e míope de alma …, mau filho e péssimo irmão …e pior cidadão, invectivando a sua linguagem das latrinas, pelo que deveria ser expulso da casa, e do convívio, de todos os ilhavenses( incita Damas).

A padralhada não podia faltar ao combate; e associa Craveiro à aversão clerical, acusando-o de ter afirmado - e como eu não engraço com alguns padres (…). Desse modo Damas (sidonista sem ser monárquico) tenta obter o apoio da dita para a sua cruzada. O que, diga-se, era de importância vital dada a influência clerical no meio local.

Logo Craveiro ripostava: - se isto fosse um País de homens, estes tipos da «Corja» (O Ilhavense) era de, sumariamente fusilá-los contra um muro 

DE imprecação a imprecação,de insulto a insulto, de um lado e do outro, começa a germinar a convicção que a questão acabará na cadeia ou sob o chumbo das armas.

Certo  é que,o recheio, poderia ter desaparecido, pois que há noticias da época a referir que o Convento esteve de porta aberta à disposição de quem quis.Mas também  certo e estranho, é que se verificou que a Confraria, em poucos anos, teria amealhado bem, já que se constatou ser o Convento riquíssimo em prédios rústicos: terras no Pinhal na Lagoa, pinhal nas Ervosas, pinhal na Castelhana, pinhal na Gândara de Sousa, metade de um pinhal em Salgueiro, um pinhal nos vales de Sôsa, e uma terra de lavradio nas Cancelas, num total de 29 prédios!!!.(  que se dizia terem recebido como herança do Padre.Calvo, o qual teria deixado todos os bens ao Convento a troco de ali ser tratado um filho (?!) -ou afilhado – demente, o que de facto aconteceu. 

Nunca foi esclarecido onde estes bens foram parar. O Governo de então prometeu mandar apurar o descaminho dos bens fugíveis e infugíveis. Mas nada foi apurado…

Os opositores zurziam-se forte (1925), usando uma terminologia nem sempre a mais aconselhável. O trauliteirismo,manejado por um caciquismo que enquistava e destilava ódios, procurando por todos os meios assumir o poder, expressava-se de um modo virulento, fazendo gala do insulto patético, soez e odiento, não olhando a meios para atingir os fins.    

Em 1925 a Câmara de Diniz Gomes acusada de graves procedimentos, de onde sobressaía a grave situação económica municipal, com os cofres completamente exangues, acabaria por ser dissolvida (Dec. Lei11875 de 16 de Julho de 1925). Interinamente o administrador do concelho, Coronel Alberto Maia Mendonça, assume a posse da Comissão Administrativa, até ao momento em que a entregará à Câmara de Júlio Calixto.

A questão do Convento terminaria, assim, sem qualquer tipo de esclarecimento cabal, ou satisfatório...Se havia dúvidas, elas não só se mantiveram, como até, porventura aumentaram.Mais tarde, novamente na Câmara de Diniz Gomes, o edifício foi, então, adaptado para os Paços do Concelho  e para quartel da GNR( no R/c) .Nas partes traseiras vieram instalar-se as Escolas, que aí funcionaram até meados do séc. XX.


Senos da Fonseca


  Fev. 2008


domingo, junho 20, 2021

 

Nota:  Para a Homenagem que a CM de Mira  fez ao Mestre «Gadelha», foi-me solicitado,  nas vésperas, um texto sobre uma possível conversa entre um «mirão» e um «murtoseiro». Foi representada por dois excelentes actores do Seixo. Aqui a reproduzo.


                                    

 

   


                                                           Ti Ricoca "Mirão"


 -  Atão vai : vossemecê(?) Ti  Agostinho «Murtoseiro»…..está aí sozinho que até prece um gelfeiro  com lepra(deus me perdoe).Prece que lhe morreram os porcos da parideira, home. Vamos lá beber um copo desta auga que aqui trago, que  veio lá da lavra de Cantanhede, p’ra onde  vendo  o moliço…


                                                       Ti Agostinho «Murtoseiro»

Abusaca -taí,  Ricoca Mirão; esculhambrado, c’a bem preciso de me chegar a entender contigo ; andas praì a fazer um raso, a estroicegar no preço do moliço, a  dares  cabo do pouco pão que ganhamos para a boca….


                                                          Ti Ricoca


 Eu ?!....eu, que vendo os meus barcos sempre bem atulhados nos quetes  inté  ás falcas…,ai eu é c’ando a estragar preços ?!!!.E vocês lá das Quintas, seus «labregos» dúm raio ,que vindes aqui descarregar o que já ninguém Vos compra…..O que fazeis (?), tinhosos da ria. Pouco falta para o dar…


                                                            Ti Agostinho


Está maloservado, muito maloservado ….nós trazemos cá os nossos fios doirados, porque a ria pró nosso lado, tem os cabelos loiros, luzídios, que nós penteamos, devagarinho, ancinho atrás de ancinho


                                                              Ti Ricoca

Olha !- mas nós aqui, no sule, temos um moliço que mais prece uma alface acabada de apanhar, fresquinha e bem regada.Com esta alface e o pilado,  os nossos campos  da Gândara hão–de brochar de verde…


                                                                 Ti Agostinho

Um bom pilado me parece  vossemecê ….Verdes já são os nossos; aquilo é cada espiga de milho a marear com a música do vento... Então e o batatal... ?!…batatas de arroba...


                                                                  Ti Ricoca

Batata…batata..ora …nem mafales, que me mijo a rir : pacóvios . A «Pinta Cristos» é que consertou o santo lá do teu Monte ,pôs-lhe uma batata na cabeça quebrada ,pintou-a…e agora que a batata  grelou na cabeça do santo, já dizem que foi milagre, e que  este anos vai haver batatas  na eira, mais que milho…..Sois mesmo labregos….


                                                                   Ti Agostinho


Ora vai-te gálico…és um pedinqueiro  mal aviado. Se nós somos labregos, sabas como  chamam a Vocês, os da borda do sule:?---pois ora toma:  “Matolas”. Tal qual. Assoa-te a este lenço que é pra não estares aí embeiçado .

                                                                      Ti Ricoca


Ná…. essa do Matola esta mal acontada.  Vocês dizem isso porque têm dor, do braço até ao corno ,dos nossos moliceiros. Tão  matreiros que mais precem fuselos. E então a oguentar uma zanagaia? Não há melhor.Não é como os Vossos chançudos, com gajas de cu ao léu, brochadas, com a passarinha a dar a dar….

                                                                          Ti Agostinho


Não me diga Vossemecê, que quando passa por um barco lá  do norte, não olha, a inquisilar  com as paxonas que  pintamos na ré ? Eu já o vi. Velho tolo que já nem se astreve a meter o mastro  na cocia... a rir-se…. a mijar-se a bom rir, com aquela  da Ti Maria a queixar-se co galo lhe dava cabo do pito…


                                                                            Ti Ricoca


Tendes razão….essa é das melhores. Vocês andam sempre na vida airada. E levam as cachopas às festas, enloilam-nas. Depois olha: murtoseiros parecem uma praga…. filho de murtoseiro é raça que devia desaparecer: só turvam águas…

                                                                              Ti Agostinho


Ei….ei….Ricoca dum raio !... estás sempre a inquisilar c’oa gente... estupor, inxerido dum raio. C’a mal te fizeram os murtoseiros? Pra vocês quem não for de Mira são uns paleques…A vocês ,quintè vos chamam os marronteiros .Xiça ca nome!!!! Marronteiros…óguentadores das marradas ? Isso é uma gadagem, ao de labaró…..Olha eu cria é que me disseses, porque é que o Vosso Moliceiro nasceu encolhido, sem a chança  do nosso…

                                                                                 Ti Ricoca

Ah!!! Tu não sabes a história?!.Atão bebe mais um copo q’eu conto-ta. O mestre Clemente, afamado construtor Mirão ,mandou um ajudante espiolhar, a Avanca, os barcos que o Ti Banca,- um dos maiores mestres de sempre! - fazia. O Rapaz tomou nota. Olhou, mediu na passada, e veio  a correr contar ao Mestre CLemente: 

“eh! Mestre o barco é assim,como se andasse resvès com a auga. Parece nem bordo ter. A ré é de cu fechado, cagarete para o arrais .A proa é que é muito estranha. Olhe vossemecê :  prece….intè prece….um  peito de uma galinha tísica, a olhar para trás”…..


E o mestre Clemente logo serrou, aprontou tábuas, pregou, e às tantas virou-se para o ajudante:  rapaz e quantos passos de cumprido?O rapaz que era muito alto, de longo pernil,disse: onze. O Clemente, um Mirão baixinho, andarilho de pernas maneadas, contou onze das dele.

E aí tens: o que vocês chamam “Matola”, não tem o bico de pato esganado do norte, mas um peitinho de franga… bem engraçadinho. E mede os onze passos do Ti Clemente, e não os onze do Zé «Calçudo», ajudante.Mas é lindo; maneirinho, bom nas popas e de leme. Feito com arte.Não como a vossa “labrega”, que parece feita à navalha. Parece uma casa. Só lhe falta a cumua…..

                                                            Ti Agostinho

Aí é que vossemecê se engana Ricoca,  cora mastro. Tem cumua livre: é só arrear as fraldas na borda, e oh!!!!   que delícia….prós peixinhos.


Vamos : vai mais um copito prá deita…..

E sério. Levanta o copo de três: 

VIVÒ’s Mirões e os Murtoseiros, gente da nossa,  esgravatores da ria, andarilhos do areal, gente como não há outra em Portugal..

                                                               Ti Ricoca


VIVÒ…….

Senos da Fonseca (2016)







terça-feira, maio 11, 2021

 


Maio chega, e com ele a época do tresmalho


                              

 

Maio chega e com ele a época do tresmalho. Abro a porta, respiro o ar da alva, fresco e poderoso, e assisto ao despertar da ria. Atiro os olhos para a água enquanto o corpo não ganha coragem para os acompanhar. Os meus olhos sempre foram uns felizardos: têm sempre tudo o que por vezes nego ao corpo.
Na paisagem que desde logo se encharca de sol, reparo (ou imagino) como deveria ser bonito, outrora, o avistamento do prado da Joana «Maluca». Sem nada que colhesse a linha do horizonte, nessa atapetada planura onde teimosamente despertavam umas vergônteas enfezadas que demoraram gerações até se transformarem nos verdejantes milheirais lagunares, o olhar só esmorecia nas faldas serranas do Caramulo. Que hoje ainda daqui avisto por cima do casario da Srª da Maluca. A maresia invade-me os poros, limpando-me do cheiro «a raposinhos» de uma noite entre vale de lençóis, curando-me dos achaques das viradelas (que travessuras já as não há!...) nocturnas.

 

                

 

Manhãzinha cedo, já lá vai uma azáfama no estender dos tresmalhos do «choco» no lençol azul das águas lagunares. Mesmo aqui, à minha porta, a um braço de distância. Colho a máquina de imagens paradas, e disparo. Maré enche, e é tempo de metodicamente desenrolar a meada e estendê-la numa lonjura que ultrapassa os 400 m. 

                 

 

Atravessada a bateira, esta vai descaindo; e o arrais, agora que já usa o motor e é o único tripulante a bordo, deixa correr entre a concha da mão, o cabo e bóias superiores.Com eles o cabo e dos chumbos inferiores, que depois na água, com a ajuda da corrente, ficarão na vertical, fundeados pelos ferros e poitas intermédios, sinalizados pelas bóias garridas, aboiadas a cada ração mergulhada. O «choco», que nestes meses invade a laguna (num prodígio de vida que as mutações lagunares não matou, e renova a cada época) virá paulatinamente em procura do «manjar dos céus» que sabe posto na mesa, com pompa e circunstância, nesta borda poente lagunar, onde desovará. E eis que, de repente, o pobre, que se julgava convidado «vip»,  enfia-se pela malha larga das albitanas.Numa aflição com o traiçoeiro convite, procura recuar, libertar-se, e fugir. Quanto mais gestícula com os «braços» mais se enreda na malha miúda entralhada nos cabos superiores e inferiores, no dito pano.

 

 
    

 

Estendida a «arte» – aqui a palavra ajusta-se perfeitamente ao ofício – o arrais mergulha o ferro e fundeia. Momento para descanso a enredar-se nos pensamentos da vida. Fumando cigarro após cigarro, ficava à espera que a maré vire, para recolher o redame. 
E vai pensando no estupor da vida…

Na véspera, tinha ouvido um pissofoque na TV a pregar aos «peixes». E o Zé «Lavanco» – assim se chama este «camarada» da manhã – começa a pensar nestes «pissalhos» que lhe atormentam as noites com a sua prosápia, com que atiram a «tinta de choco» aos olhos do zé-povinho, para lhes encaldeirar a vista. E o que é certo é que os peixes – pensa o «Lavanco» –, andam muito eslabaçados. Esfraldilhados de todo, parecendo, como o «choco», a deixarem-se enrodilhar no redame do palavreado chinca.
- Estes codres só olham para cima, e nunca – mas é que nunca, porra! – os fraldocos olham para baixo. Ná – pensa o «Lavanco», este cardume não é como o de peixes. Que olham para cima para baixo, e p’ró lado. Isto é cardume de «chaputas»…
Nesta cambada há mesmo uma peixaria, matuta o «Lavanco»: os ditos «roncadores» que só têm prosápia, arrogância e chança: – pissalhos!!!!. Mas também há dos «pegadores». É o que há mais. Parasitas, labajões; cambada de inchuns. E os «voadores» que só têm ambição no sentar do cu … Mas há também – oh! se há! – muitos «polvos»: traiçoeiros … badalhocos. Monte de boseiros.
E com isto a maré vira.
- Um dia a maré também há-de virar…. sacanas!  ... foi pensando  o «Lavanco», alevantando-se, cuspindo nas mãos, disposto a ir à rede.
E de volta, trazido com a maré, bateira atravessada à corrente, deixa-se descair enquanto mete os panos dentro. Emalhados lá vêm os «chocos» que ainda darão um trabalhão do «caraças» a libertar para a caixa. De interior enegrecido pela tinta que as presas vão largando no estertor final… (como o povo, atirado para o caixote… para ser vendido a «Merkel & companhia»).
E estava eu, pronto a recolher a penates, como um xana, e eis que chega a Zefa. Hoje, sem companhia da amiga, é quando a língua mais se lhe destrava….
- Ah rico!!!! Vossemecê está esgalfo dos olhos.
- Pois Ti Zefa. Aqui a ver o «tresmalhar» dos «chocos»…
- Olhe que o tresmalho é como mulher na cama, diz a Zefa, maldosa no olhar ainda malandreco. E continua: «alinha-se» com a enchente (e só nesta), encosta-se, e dá as albitanas a charir. O home augadinho marra. A gente, auguenta e faz que foge. O calhandras bardaleiro atiça-se, e depois é um badanal. A vagalhoça invade-nos a cama, espincha que espincha, e só desenmalhamos quando estamos derreados. Às vezes arrecuava. E eu logo lhe dizia:
- Ah! Nem adregues…livra-te! Atão não dizas tu que peixe que passa a borda… já não sai. Vá, maneia-te, antes c’a maré vire.
- Ah! Ti Zefa que você deve ter sido chaleira de bom lume, atirei eu….
- Olhe amigo: se não há bom lume, assoprasse-lhe. A carne não é como o peixe: é pecadora. E só um santo de pau carunchoso é capaz de resistir ósdepois dos louvados (lambiscos está Vossemecê a entender?)
- Ora...ora se entendo. O pecado foi a melhor coisa que o homem inventou depois que Deus (um bom sarrazina), dele se fez desentendido.

Senos da Fonseca


domingo, abril 25, 2021

E vai mais um. ABRIL … (sempre!)


Diluo-me na corrente da vida

Que vai, passo a passo,

Levando o que resta de mim.

Uma coisa por certa faço:

Vou indo …mas vou de frente.

Nunca virando costas

Ao desafio que é viver.

                       [Assim quero ir até morrer.


Tenho como emblema,

Ninguém o pode negar,

Que fui apodrecendo

Virando cada página sem desalento.

Nunca cantei por ser poeta,

Nunca fui pomba em procura da paz;

Lírico ou cobarde na hora de dizer não… 

                                                         [isso não!



Continuo a sonhar, 

Só que os sonhos me vão,

Dia a dia, fugindo por entre mãos.

Seguro nelas, enfeitiçado

O cravo rubro  que num dia

De amor nosso, inventado,

Colhi de Ti, era já madrugada.


Se eu morresse hoje, amor

A ria continuaria o seu fadário.

As gaivotas viriam livres, esvoaçantes,

Ver o mar enorme, infindo (!)

Morrer na praia ao entardecer. 

E eu deixaria de estar à tua espera,

Aqui, decentemente a apodrecer.

                                 [a mim próprio me iludindo.


SENOS DA FONSECA



domingo, abril 18, 2021

 


A Tragédia de Juncal Ancho

E, de repente, o tempo chuvoso, como por encanto, suspendeu o incómodo do molha- tolos. Molha-tolos, porque na Costa Nova, mesmo com este tempo, noutros lugares desabrido, aqui, numa sota, salta-se logo para a rua. E claro, de vez em quando, somos surpreendidos por uma garroa.

Saí para o esticar de pernas diário, sabendo que, mais ali ou mais abaixo, encontraria a Zefa e a Tibéria. Ná, elas não eram mulheres de hibernar com um simples ameaço.

E é que lá vinham:

- Esta melhoria de tempo veio para ficar ou não, minhas gentes? inquisilei eu.

- O tempo é como o marinheiro. Nunca se sabe se veio para ficar se para saltar amanhã

Para nova emposta, reflecte a Tibéria. Pois, isso mesmo. Muito arrazoável. 

 - Era por isso que quando o meu Toino achegava, eu não o fazia esperar, não fosse o mar chamá-lo à pressa. E ainda ele não tinha apoisado o saco, e já eu o beliscava, espenicando-o todo, pronta para lhe tirar o «sarro» dos dias de lide, e achapar-nos ao folhelho: á home que ando com uma fome de ti; anda cá meu bardau, que te estrafego. E nem o deixava respirar tal era a força do abraço. Até parecia, mesmo, uma bárrega esgalmida.

- Delambida de um raio q’inté pracias uma santinha…

- Olhe, Ti Zefa – comecei eu – tenho andado a pensar:vossemecês alembram-se da tragédia de Juncal Ancho?

- Ah… olhe que não. Isso foi, sei lá; há que benícias. Eu só ouvi contar, era ainda muito novita. O Ti Gaivotinha, esse sim. Esse até p’rece que era um dos embarcados numa das «ílhavas» que levaram o pessoal à festa. Você conhece a história? – acrescenta…

- Olhe que por acaso conheço, li-a, e também ouvi nos Sete Carris, à Ti Tuna, referi-la várias vezes. E como a pretendo contar com mais pormenores, pensei que Vossemecês me ajudassem.

- Atão hoje é você que fia fino e faz a despesa da conversa. Maneie-se que nós atracamos aqui ao murete.

Então aqui vai:


……os «ílhavos» eram gente de grande fervor religioso, como sempre aconteceu com comunidades piscatórias. Mais tementes aos santos que à aspereza da natureza que defrontavam.

Não havia orago celebrado pela borda da ria que não motivasse dia de folga das lides, e não impusesse uma ida de bateira, com a família e vizinhos, para cumprimento das promessas que amiúde se faziam – que aquela vida era um «cão». Ao mesmo tempo aproveitava-se o folguedo para convívio, ou para pôr em dia,o atrasado conversalhar com conhecidos de fora, em trautos feitos, vulgarmente, por entre o escorropichar de uns copos de vinho, batidos de balcão em balcão, por entre as vendas do sítio.


De entre os oragos de reconhecido mérito – que festa de arromba elegia e glorificava – o Stº. Inácio do Boco, assumia carácter de invulgar dimensão. A justificar reiterada devoção e consequente visita. O seu altar encontrava-se erecto em Igreja, lá em cima debruçada sobre a ria, sita na colina que alberga no cocuruto o burgo. Logo ali ao dobrar da carreira da barca da «Forja» – Fareja – onde em tempos idos fundearam as barcas e pinaças de alto bordo que vinham mercadejar, às Gândaras. Era visita obrigatória.

Num dos esconsos becos da chousa de Alqueidão, por onde se alinhavam tugúrios de abrigo, a pescadores, marnotos e saveiros, os dias que antecederam a festa foram de intenso parlatório destinado a assumir presença, mas e também, perlengando sobre as vitualhas a incluir no farnel. Que se queria, coisa de regalo.


Chegado o dia, o «Zé da Preta» mai-lo «Thomé da Fidalgota», embarcaram amigos e familiares nas «chinchas», desocupadas e escorreitas de tralhas e estrafegos, onde se aconchegaram vinte e duas almas devotas. Ainda o sol não despontava, desgarraram do cais da Malhada aproveitando para isso a maré que já montava. Partiram alegres, folgazões e prazenteiros, para uma grande jorna que parecia ser capaz de pôr ameno no estupor de uma vida danada. O aquilão dava boa mareação. E quando o dia amanheceu, tinham já na amura de bombordo o palácio dos Botelhos. A manhã acordava com os maçaricos alvoroçados em matinas em procura do primeiro alimento. O sol a levantar-se, em hóstia de vermelhão suave, prometia jorna acalorada, deixando ver a serra desempachada de névoa, limpa lá para cima onde os montes luziam com o farfalho da manhã. Para outras bandas, onde um outro santinho de especial devoção destas gentes, o S. Geraldo, tem o seu pousio, na serra erma.

Vogavam enfarpelados a rigor, os romeiros. De calção branco largueirão, que se estendia até ao joelho encobrindo perna tisnada pelo sol e maresia; barrete descaído sobre o dorso, e camisão de linho, aberto, que deixava entrever o torso de gigantes da laguna. Elas de cara rija. Onde fulguravam dois olhos em brasa, ardentes e brejeiros, engalanadas por chapelinho de veludo preso à nuca por lenço de merino garrido; chambre branco cingido ao colo.Que pedinte de afago sensual repontava nas pregas da camisa floreada. Saiote de baeta descendo rente até aos artelhos, escondendo de olhos gulosos a visão deslumbrante de duas prendadas pernocas que vinham desafogar nas chinelinhas pretas, cingidas aos pés de «gaivina andeira» por cordão de abotoadura. O calor a meio da viagem, fortalecido pelo reflexo na água espelhada da laguna, fazia com que o busto do mulherio se esquivasse por entre o esconder das roupas de aconchego. E que, de entre rendas, brotassem, como pombas brancas aconchegadas em linho, peitos que assomavam e tentavam o olhar de quem, guloseimando, sonhava vê-los. E tocar-lhes. Ou até só aspirar o seu perfume e aconchego.


A aragem do norte cedo lhes permitiu a demanda e o desembarque no cais do moliço; sem delongas – que santos não esperam! – foi (logo) tempo de desembarque e de monta. Por caminho directo se alcandoraram até à Igreja, que naqueles dias treluzia com o seu chão lavado, ensaboado a amarelo, e depois brunido. Junto ao altar dois tocheiros ardiam, ajudando a quebrar a penumbra do templo a que só a porta dava entrada à luz do dia; castiçais de latão do tipo mourisco substituíam em lindeza, que não em valor, a prata afiançada. Só de pousio em outros templos de mais ricas alfaias. Nas paredes em quadros de talha doce, viam-se imagens penduradas de Stª Rosa e Stª Eulália, e outras estampas catitas ou figuras de feições celestes. Prometendo bem-aventuranças por entre copioso (e cheiroso!) efeito de lírios, jarros, mimosas, madalenas e alecrim. Ajoujados em vasos de faiança local conferindo ao templo um doce e suave, e lânguido, perfume celestial.

Hora de ouvir a santa missa. Desbravar o terço benzido, deixar uma esmola, e cumprir o prometido. Satisfeita a obrigação da fé, era tempo de lograr a sombra de uma oliveira – que o sol mordia a terra –, e desempalmar o escabeche mai-las solhas bem emparadas na molhenga. E os bolinhos de bacalhau, que iam assim cumprindo «o antes». Até ao momento de desenfardar o capão esplêndido: – cumpridos que estavam com a dignidade de quem se sente talhado para o fim último do sacrifício, seis meses de cuidada engorda. E que, como «feito» da bem acerejada assadura, exibia um jalme a escodear sem demora, de cuja prática se soltava fragrância divinal. O vinho, em reponta de maré, corria caudaloso pelas gargantas ressequidas que dias de sóis estivais ou de noites de suão tórrido, exsudavam estas gentes da laguna. O Boco, situado nas faldas das bairradas, era sítio privilegiado de boa produção avinhada – fragrante e saborosa. E nesses dias, aproveitava-se a visita para da mesma se fazer adequada publicitação. Assim, não raro, excedia-se o que seria adequada emborcadura, para cedo se atingirem limites de comportamento pouco adequados que, por norma, descambavam em confrontos violentos –verbais e ou físicos – pelos mais fúteis motivos.

Vista a procissão, feitos os últimos escorropichos nos descansos dos tascos do sítio, por entre risos musicais saídos das rebecas dos tocadores de ajuntamentos, e anunciado lá para as bandas do mar o lusco-fusco da noite estival – que embora preguiçosa vinha chegando, e com ela aragem frescota – era hora de partir. Levantaram-se as velas.Era hora de voltar à Vila,pois que ao outro dia, madrugada ainda não acordada, ao primeiro trilo de maçarico cantador era hora de botar o botirão a coar.


Chegados lá para as bandas do pinhal da água fria, o vento tornou-se instável, prenunciando doido corrupio que impedia a boa singradura a norte; as mentes estavam toldadas demais para lhe encontrar o jeito bom para nele navegar. É então que numa golfada rija emborcada pelo través, que a «Preta» vai direito à «Fidalgota» e lhe entra pelo cavername adentro, levando tudo à sua frente .Bico da proa embatendo com violência na cabeça da Zefa, embarcada na «Fidalgota», matando-a de imediato.

Foi o fim; gerou-se uma encarniçada luta mais parecendo uma verdadeira abordagem de corso, com o mulherio em vozearia espavorida ao ver as naifas logo desembainhadas pelos seus homens, que, ébrios do tinto e da odiosa vingança, procuravam sítio e carne por onde se espetarem. Uns ainda dentro da embarcação, outros já na água aonde tinham vindo parar após embate,todos pareciam esquecidos do semelhante «amigo e vizinho», que se tinha, instantaneamente, transformado em figadal inimigo de que só a morte permitiria livração.


Foi uma tarde ensombrada de sangue. Vinte e uma vidas ficaram esventradas; umas dobradas sobre a amurada escorrendo para a laguna, enquanto esbracejavam nos estertores da morte; outras, boiando sobre as águas da ria que desciam para o mar, acompanhadas pelas águas tintas de tanto sangue esvaído.

Apenas um, de entre os romeiros do Stº Inácio, lograria escapar com vida.

À noite, temendo vingança de vizinho ou familiar, tomou lugar numa enviada que estava de partida para Setúbal.E desse modo lá escapou a destino mais do que certo.

O desembargador ao outro dia logo mandou uma patrulha para averiguação do desacato.

No simples relatório que lhe chegou às mãos, apenas constava:

“Das vinte e uma pessoas do foral de ílhavo (sic) desaparecidas, nada se sabe, senão o terem-se ausentado para parte incerta”.

E assim se deu como (legalmente) encerrado, e sem identificação de culpados, um dos piores acontecimentos de sangue fratricida vertido por «ílhavos».

Quando acabei, li emoção nas minhas companheiras de conversa.

- Linda mas desalmada história. Pois. Íamos a todas as festas da ria – Maluca, S. Paio, S. Jacinto. A todas onde houvesse santinho milagreiro. Para lá, ia-se a cantar. Alegres, anchas e vivas. Para cá, vínhamos moídas com o quebranto de tanta folia.

- Pois, diz a Zefa. Parecíamos uma pégorra: para onde vais, Maria (?): – p’rà festa!!!!!! De onde vens, Maria (?): ó tiazinha, venho de onde havia festa.


SENOS DA FONSECA


 (do livro PREIA-MAR) DUNA A verdade era que, Aquela música sensual ouvida, Ritmada com a vaga a enrolar, Na areia da praia parada, Parecia...