sábado, setembro 03, 2022

A minha visita ao S.Paio

Segunda –feira, mal ataviado e mal informado,procurei, contudo, não faltar ao encontro anual com o Orago.
Desamoirei o «Costa-Nova», essa beleza de bote de fragata (já agora aqui fica a informação, pois andam sempre a perguntar-me que tipo de barco é aquele), icei velas e, toque- toque – no caso bole-bole que o vento estava mareiro- em duas horas e meia atracava o “Costa Nova” ,ao cais dos pescadores, na Torreira.
A meio da singradura, na ilha da Testada descobri dois enormes bandos de flamingos  que, sossegados - tão sossegados que nem reagiram ao meu pum-pum! para ver se os fazia levantar, e assim admirar o deslumbrante espectáculo daqueles pernas longas ,rosados, flaps em baixo, a ganhar altura - procuravam a mariscada que lhes dá os salpicos da plumagem




                     

                                                                 Os flamingos


Chegado á Torreira, o foguetório estreloiçava no ar, avisando que a festa ainda ia a meio. E a procissão, também, pensei eu de que ….
Amainadas as velas, trincados os cabos, arrumadas as tralhas, fechados os paióis de proa e ré, olhei espantado para uma série de bateiras embandeiradas que se faziam ao regresso. Interrogado um amigo com quem regateei (?!), em tempos, no Moliceiro «O Ilhavense» - paz á sua alma e a quem assim ordenou o seu fim, o de apodrecer no cais da Bruxa - fui informado que a regata dos «Chinchorros» em que eu pretendia participar, hors – série, se tinha realizado no sábado.
Bem, engano por engano - um homme nasce p’ra ser enganado, se for que não se importe
                         

                                         cangas (inspiradores dos brochados do "Moliceiro")


Cangas há muitas!.... dizia o Felisberto, «Ógado da Inês «Mamalhuda» - que até de vaca era corno!......

 Decidi render de imediato visita ao S.Paio, não fosse ele levar a mal, a falta de urbanidade. Com santos, nada há como os não indispor. Zangados podem atirar cá para baixo, alguma maroteira.
A procissão, essa, já não ia no adro, pois tinha feito o seu percurso. Os andores jaziam já encanteirados dentro da igreja, ainda exuberante e prodigiosamente floridos, exibindo, ao lado, um dístico: Proibido roubar flores. Sem mais. 
Que raio, interroguei-me eu. Lá que se roube um Multibanco, eu compreendo. Mas uma flor(?)... Uma flor:-flor.... Não das outras, está bem de ver!.. Se ali estivesse a Manelinha Leite, aproveitava para afirmar com aquele ar de beata empedernida: - a onda de criminalidade já chegou ao interior dos lugares de culto, tudo por culpa desses maçons socráticos.
E foi então, aí, que vislumbrei o S.Paio.Não o o pequeno e mulato S.Paio, avinhado como uma linguiça, escurecido por tanto baptismo com tintol.

Este Orago tem uma história.

 

A Torreira (meados séc.XVIII) é um pouco mais nova que a Costa-Nova. Começou por ser um ponto do litoral onde se empregou a Xávega. Ora, conta a tradição que, um dia, na coada de uma das artes, terá vindo arrolado um santinho de pau, com rosto de criança .Logo foi adoptado para orago, por aquela gente da borda. Companhas sem orago, não puxa remo . O ser o orago, uma criança, até teria as sua vantagens, deveriam ter pensado aquelas gentes. Mas para o que eu não encontro explicação, é para o facto da tradição mandar verter almudes de vinho sobre a criança-santo, despejando-os pela cabeça abaixo do pobrezito. A  tal ponto que as faces rosadinhas tomaram uma cor arroxeada que mais parece provocada por cirrose de figadeira empapada em vinhaça, a que só falta, uma cebolada, para dele fazer umas excelentes iscas.
Ora o S.Paio é santo de muita devoção lá para a Galiza. E eu acredito que, aqueles que trouxeram as Artes Grandes, no séc.XVIII, para estas bandas, teriam trazido com eles o santinho, dando conta do seu feitio milagreiro. A entrega do santo deveria ter tido festa de arromba. E copos a mais. Às tantas foi um banhada. E daí a tradição foi o que foi . Mas ao que parece, já não é…

Voltemos ao rendez – vous:
No andor estava o Orago que, muito embora exiba a cara de menino, tem um corpo de rapaz espigadote. Estive tentado a dizer-lhe: -Vai chamar o teu irmão mais novo. Mas como nisto de falar com santos, não sei em que dialecto se faz, decidi antes inquirir uma santa, que, ajoelhada em frente do irmão mais velho, se lhe encomendava, confiadamente.


 


                           

                                                          O S.Paio (espigadote)

-Olhe por favor, não me sabe dizer o que é feito do santinho «bebedola»?
-Está guardado….
-Então porquê? Não me diga que têm medo que o roubassem…adiantei eu, com cara de santa ingenuidade.
-Pois olhe o senhor, que até «assucedeu», uma vez….Uns «escaramentados velhacos», quiseram levá-lo p’rá Aveiro….Mas não é por isso. É que faziam –lhe uma tropelias e o Sr Prior achou por bem acabar com elas…
O santo não compareceu ao encontro, não por sua culpa ,que até devia de gostar desta visita de um ateu, respeitoso, seu conhecido e com quem mantém bom relacionamento desde há mais de cinquenta anos. Paciência…
Como habitual dei uma volta pelo arraial da feira antes de entrar numa das muitas tasquinhas para a bacalhauzada do costume. São dois quilómetros de barraquinhas das vendas.Tudo de marca(?!): malas Versage, óculos Raybam, camisolas La Coste, Calvin Kleiner, etc. etc. Este ano proliferavam, contudo, os hair dressers a anunciar:
Fazem-se TERERÉS e RASTA
Nas vendas de roupa, por todo o lado se exibiam body’s para todos os gostos e tamanhos: vermelhinhos como as «papoilas saltitantes» do Benfica, negros como a Briosa, ou branquinhos como as pombas que pretendem engaiolar.
Dei comigo a apreciar como uma Murtoseira avantajada, daquelas que só debaixo de um capote de Varino disfarça os refegos, mirava e remirava, tirando medidas a um dos vermelhos, tipo fio dental. Não entendi lá muito bem – ou imaginei - como seria a avantajada moçoila , vestida (despida), com o bodesão a conformar-lhe as regueifas. Ainda se fosse ás riscas.O que estaria ela a pensar fazer com aquele body extra largo? Dei tratos de polé á minha imaginação ,que dizem fértil, a pensar no que seria o ataque do bode (salvo seja)
Mas a verdade é que, na feira, se encontra tudo.
Por exemplo: - eu que me vejo atrapalhado sempre quero comprar uns boxers (fino não é?!) -XL, lá, tinha ao dispor a medida XXXL. A 5€ a molhada. Não podia perder a oportunidade, até porque a marca era convidativa: «DESPERADO», assim mesmo. Elucidativo e apelativo para aqules momentos , em que, um home se vê com as ditas na mão…
Adiante que estamos a falar de coisas sérias...…
Regressei ao cais. Foi aí que deparei com um grupo especado, embasbacado, contemplando o «Costa-Nova». Claro que quando cheguei meteram conversa, inquirindo onde tinha eu ido buscar aquela maravilha. Palavra puxa palavra, e eis que do grupo, há um velhote simpático que me atira:


 
                                                               O «Costa-Nova»

-Pena é que tenha sido pintado «à moliceiro». 
Foi lamiré bastante para eu já o não largar…
-Então mestre diga-me porquê…
-Olhe: - ali e ali faltam os botões de rosa; ali, àquelas letras falta-lhe ressaimento, e no painel de popa falta a corda da embelezadura. E a bica não é pintada em preto.

Fiquei espantado: andei eu na semana passada a dilucidar sobre as diferenças, levando horas a ensaiar a dissertação, e o homenzinho, um pintor de “Varinos”, “Faluas” e “Fragatas”, explica-me, ali, tudo bem explicado, em duas penadas. Exactamente como eu pensava ser. As diferenças são, de facto, abismais.
Então abri o jogo e lá lhe expliquei que eu sabia a diferença. Só que não podia levar o barco todos os anos à Moita para ser pintado por mestre. E assim, tinha-me socorrido do que havia (do melhor!) por cá. Como não havia outros para acomparar, fiquei-me pelos mestres de cá, e o barquinho faz um vistão. Pudera…
Conversa puxa conversa, e quando dou comigo – e com o «Costa-Nova» - velas içadas, ambos desejosos de regressar para trazer cumprimentos do orago á Srª da Saúde,o CN estava em seco: encalhado, abusacado no lodaçal.

-Estou bem aviado, pensei. Agora vou passar aqui a noite. 
Resolvido lá me atirei para o lodo. E zás: fui por ali abaixo. Espetado até à cintura, eu já queria era, ao menos, saltar para dentro da embarcação . Mas o que vale é que por aquelas bandas tenho muito gente conhecida. Lá vieram quatro murtoseiros, safar-me: -a mim e ao «Costa Nova».

         A calmaria apanhou-me entre águas, e lá arrolei com a maré e com um sopro de vento, até ao CVCN.
Lancei mourão às dezanove. Tempo de tirar as arrufadas da bica da proa. O  CVCN estavaDescontraidamente lá vim para casa, todo sujo de lodo, quando ouvi uma voz:
-Onde é que vai de cuecas?!

      Então não era mesmo verdade que despidos os calções …por causa do lodaçal, eu nem tinha dado
         que vinha naquele preparo!....
           Ao menos se estivesse atento, tinha calçado as «Desperadas».
           Cumpri a minha promessa. As contas com este "santinho". ficam em dia.

           



Senos Fonseca. (2004)



domingo, agosto 14, 2022

 


LAGUNA -PATRIMÓNIO MUNDIAL DA UNESCO 


Creio que prossegue a ideia de preparar (e propôr) a candidatura do Barco "Moliceiro", a Património Mundial.Claro que subscrevo tal ideia, e faço votos para o êxito da mesma ..O "Moliceiro" tornou-se o mais icónica embarcação dos tempos áureos lagunares. Instrumento maior de uma actividade que ajudou o homem lagunar a afeiçoar a inóspita terra lamacenta que encontrou ao aqui chegar. Para mim que, minuciosamente, estudei as "Embarcações Lagunares",uma a uma, reconheço que a embarcação mais genialmente criada pelos  "carpinteiros" lagunares, terá sido, sem duvida o "Barco do Mar".Ele também digno (porque único no mundo) a Património Mundial

Há muito que me bato para que, a LAGUNA, na globalidade,seja proposta (merecidamente ) a Património (protegido) Mundial. Em 2013, já  insistia nessa ideia : não este ou aquele símbolo (material ou imaterial) mas a Laguna ."Monumento Global Único", que engloba todos os outros.Aqui deixo para memória futura o que então exprimi, e que, hoje ,reitero sem tirar (ou apôr) uma virgula.  


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Senos da Fonseca(Agosto de 2022)


terça-feira, agosto 02, 2022

 

CUMBERSA...q’eras lá ber....



A Zita Leal,”caluniou-me” de uma maneira tão ternurenta,tão liró – a que nunca fui habituado – que, se não a conhecesse(e admirasse) por tudo quanto ao longo da sua vida nos foi dando– falando, escrevendo ,declamando, lutando por convicções com que sonhou e ainda mantém – a  dita cumbersa me traria à memória o aviso,tantas vezes repetido, de minha Mãe;”olha desconfia quando disserem bem de ti....é por “estrago”....
Não  !: aqui,acredito bem, nem é preciso espanicarem-se ,nem sequer endrominarem-se com a cumbersa, pois que a apodadura  de rezingão foi, vida fora, a impressão que a mangana me obrigou a prantar  e, assim, me mostrar, parecendo (mas não o sendo ) um constante  arrenegado. Assucedeu não conseguir herdar de minha Mãe, o simpático  sorriso que, facilita ou induz, ao contacto certo (no seu caso recebendo o cliente na botica).Sempre preferi conhecer melhor o "cliente" e, só depois,  lhe escarcalhar as portas. E então aí chegados, sim ... já muitos, comigo embirrados no primeiro lanço, me acharam até, permissivo: um peralvilho catita. Numa coisa assumo vaidosamente (com a lacrimeta arribada ao canto do olho ) :– a leitura que a Zita fez deste  desausserbado penitente  :.julgo ,em boa verdade, tanto ter “amado” as minhas gentes do passado, “os ilhos” desaparecidos (por ignota e petulante ignorância dos novos paleques,  da hoje cidade da nôcha), por estes condenados ao  esquecimento das suas virtudes, que, fiz jura de não me ir embora pregar a outros peixes, sem lhes escancarar a prosápia de gente, nem melhor nem pior, mas diferente. Única.... 
Tómarolha....

 PS– Aqui vai o retrato que a   Zita Leal fez,  do  malino escriba  do livro 


”O CALÃO NO LINGUAJAR DOS ILHOS

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A “ cumbersa “ hoje é outra.....

 Poderia começar por dizer-vos que o Sr. Eng. Senos da Fonseca é o autor de um livro   interessantíssimo cujo título “ O calão no linguajar dos Ilhos “ prende a atenção do leitor.   Não! João Senos da Fonseca poderá ser isto e aquilo na área intelectual do nosso burgo :  perspicaz, inteligente, bom escritor, amante até à loucura de uma musa que não envelhece –a Ria de Aveiro. Tudo está comprovadíssimo no seu mapa de vida.

 

Mas… importante, importante é o seu amor pelos Ilhos, o desvelo com que os desnuda perante uma sociedade que veste bem, que passeia canudos e condecorações, que não fala calão e que fecha os ouvidos a “ cumbersas “ dos antigos “ simpres “ do seu sangue. 
 Conheci-o há muitos anos em Ílhavo. A primeira impressão sugeriu-me um lobo do mar, daqueles façanhudos , olhar cerrado , sem sorrisos e não fiquei agradada. Afinal de façanhudo dos sete mares andarilho não tem nada, sorriso tem, comedido e bom e não descura o seu enlevo, diria mesmo paixão pela eterna musa da sua vida- a Ria .
 Se me permitem a sugestão. Leiam o livro. Nem sei se será correcto fazer este convite , o responsável pela edição o dirá e fará como achar melhor. Por mim, peço desculpa por esta incursão em seara alheia e confesso-me “ desausserbada “ tipo “ morrendas se num falendas “.
 Pois é. "Espaniquem-se "e descodifiquem o meu calão. 

 

Zita Leal



quinta-feira, julho 21, 2022

 Para mim a vida não foi cruel… (até agora!)


Hoje a conversa  esteva um pouco bizarra. Cada um, já não muito longe do fim, a deitar contas ao que resta da vida. Havia unanimidade de que é sempre bom, um homem ir à frente. Como lhe compete, observei, sabe-se lá  a dificuldade das veredas a prosseguir. Uma mulher adapta-se claramente ao aspecto mais terrível e cruel, que é o da solidão. Falo das mulheres das gerações anteriores, pois não sei se com os ganhos, ditos civilizacionais, no futuro, as coisas se irão processar da mesma maneira.

Medo da morte, logo que a conversa entra em maior proximidade, é já perceptível em todos.Eu já abordei aqui, várias vezes, o tema. Eu o que tenho medo é de um dia qualquer, ter medo dela.  Porque não há objectivamente razão para eu ter medo dela, mas sim do que virá depois dela, para os indefesos. Por muito que deixe tudo programado sei que o mundo não é bom para esses, em particular. Chegado aqui, pouco - muito pouco mesmo - deixei ficar para trás. Tive uma vida já longa, de tão curta. Duvidei por diversas vezes que isso aconteceria, pois que a minha vida foi de uma violência física, desmesurada, excessiva. No cômputo geral fui feliz (se é que se pode sê-lo, perante a realidade que nos cerca?!). Se medir essa felicidade por mim, e em mim. Ainda que menos no que me ultrapassou. E mesmo nestas situações, consegui vislumbrar razões que me recompensaram das escolhas – ou sorte - imperfeitas, e nelas mesmo soube encontrar motivação para me superar e aceitar a missão com redobrada força interior. Capaz de minimizar os imponderáveis, para os quais não tinha (nem tenho) solução, mas contra as quais lutei como se houvesse. Nunca me rendi. Fiz até dessa situação, sem queixume nem amargura (exteriores), uma procura interior que me fez perceber melhor que a franqueza e a fraqueza não admitem partilha. Amado por uns odiados (?!) por outros: de há muito que me vem sendo dada (colada) esta qualificação com a qual passei a conviver, ainda que com ela não concorde. Não é minha. Exagerada, pura e simplesmente. Mas, se tiver algo de verdade, então já agora:

Aos primeiros dei-me, mas não todo. Reservei sempre uma parte de mim mesmo, que nunca deixei antever. Por instinto de precaução. Para que se doesse, doesse menos. Por isso creio que fui mais «amado» do que aquilo que dei em troca. Foi bom. Porque, repito, não dei tudo, tendo recebido muito mais.

Aos segundos pareceu-me que não é bem «ódio» mas apenas irritação por eu nunca ir atrás deles para me poderem exibir a seu lado. Nunca soube nem me quis mudar para sítios ensoleirados: preferi sempre ficar no meu sítio: - onde mora a fantasia, o sonho utópico que me inquieta e me transforma no mexeroto que gosto de ser. Mais a viver do instinto que do acto mental.

Não tive momentos cruéis a toldarem-me a alegria de viver, salvo o desaparecimento, um a um, dos que me eram próximos. Mas mesmo essa sucessiva repetição dolorosa, aceitei-a como inevitabilidade tirana da vida. Não me revoltei contra ela (por essas serem as regras do jogo), nem contra NINGUÉM, porque só me queixaria se antes LHE tivesse agradecido a dádiva (o que nunca sucedeu).E sempre nesses actos compreendi que era melhor que tivesse sido assim, por aqueles que ali estavam, no final, já não eram os meus. Já nem sequer percebiam que eu era, ainda, o seu. E quando assim é, não é vida, é morte em vida. Sem serem cruéis, esses momentos foram terríveis estados de alma, amargos, quase ininteligíveis para a compreensão dos que me rodeavam. Eu queria amparo; o que me ofereciam era desamparo, no aconchego do tem paciência é a vida. E eu sem saber, uma vez mais, porque é que se tem de ter paciência com a vida, tive-a.

Quando deixei a vida activa, preocupei-me como ia percorrer o tempo que restava. E foi agarrando-me à construção de palavras que percebi que caminhava bem mais despreocupado do que antevira, por finalmente poder perceber muita coisa que a lufa-lufa da vida me tinha deixado escapar. A escrever, embora isolado do meu semelhante – eu!..., um obsessivo do convívio! -, parece que O visito todos os dias, para lhe dar conta dos meus desencontros, talvez para me perder ainda mais. Uma coisa é certa: -Não mudo.Porque já não tenho tempo para isso. E mesmo que o quisesse fazer, estava certo que a caneta não mo deixaria fazer. Porque então, tudo o que dissesse era mentira. E no momento mais crucial do dia, que é quando me olho, de manhã, ao espelho, ao não me encontrar comigo, tenho a certeza de que não descansaria enquanto não me fosse procurar por entre o lixo da mediocridade.

Senos da Fonseca


terça-feira, junho 28, 2022

Célebre Regata que até teve direito a ODE.....


O CVCN deu-me uma pipa de preocupações.Mas também , trabalheira desarcada durante  seis anos. O KAFKKIANO processo eleitoral ,foi de uma complexidade inenarrável. Durou praticamente um ano a ser derimido,e até meteu tribunal, e tudo. Que ninho de vespas para onde fui, então, literalmente  empurrado ?! (sina minha....)

Serenados os ânimos, exterminadas as vespas, foram anos, de muito e profundo gozo, e farto convívio. Houve de tudo e para todos os gostos. E assim se fez um novo e espectacular Clube Náutico : o CVCN.

Ora  em  Outubro de 2000 , o sócio Manuel Calão apareceu com o elegante iate “ O BLUE DREAM”, que ele próprio concebera e construíra.  Um barco de  elegantes linhas, prenunciando excelentes  singraduras. Nasceu em mim, a ideia de uma oportunidade para uma excelente confraternização. 

E vá de desafiar o Manel ,e o arrais João Senos, do moliceiro ”O ILHAVENSE” ,pertença do CVCN, para um memorável confronto

Aprazada a data ,com programa de festa  anunciado, fosse qual fosse o resultado, (o previsto, ninguém tinha duvidas,seria vencedor destacado, o “Blue Dream”) os barcos e tripulações (e muitos outros acompanhantes) postaram-se na Torreira de onde foi dada a largada. 

Inicialmente, como esperado, o “BLue Dream” adiantou-se. Todos o esperavam.  Mas a distância  que separava as embarcações ,até S. Jacinto, era muito(!) menor que a esperada.

E eis que, no canal do Triângulo, em manobra arriscada,“O ILHAVENSE “ultrapassa por  o “BLUE DREAM”, por BB.  Emocionante....  

Depois, já no Canal  e até ao Clube ,onde estava a meta e  havia foguetório preparado, “O ILHAVENSE”, para espanto de todos, aumentou sempre o avanço, chegando destacado à linha de chegada. Foguetório de arromba, parecia a “Senhora da Saúde”.

Todos nós( ou quase todos!) não gostamos de perder nem a feijões. Claro que o skipper do “BLUE DREAM” não gostou nada do modo como terminou a brincadeira.

Amuo (disfarçado). de pouca dura....pois o “Blue Dream” teve, depois, muitos momentos para  mostrar ser um excelente barco.

Arrumados as embarcações, foi servido o “petit couchon” e outras vitualhas , a exigirem  forte regadela  com  bom bruto bairradino. 

E  houve leitura exaltada da “ODE NÁUTICA” que ficou  para perdurar o momento. (Regalem-se que eu não duro sempre...)

O lanche , com pompa e circunstância habitual,  foi  oferecido pelo CVCN (então um mãos largas) a todos os sócios presentes,tendo durado  até altas horas da noite.Como costume neste tipo de aventuras.

E assim se passou mais um, dos muitos memoráveis dias, de forte e intenso convívio. Nesse tempo entendíamos que um clube náutico não era, só e apenas ,apeadeiro de embarcações. O que contava  era  o entrelaçar de amizades ,através de, muitas e boas ocasiões ,para reforçar laços de pertença.


Encontrada a documentação julgada perdida, aqui vos dou conta da mais célebre regata dos anais da Ria d’ibalho.


https://designrr.page/?id=208868&token=1351146242&type=FP&h=3006



Senos da Fonseca




domingo, junho 26, 2022

 


 A OBRA DA CRIANÇA 



A vida tem sempre surpresas.

Porque precisei de fazer,aqui na casa da Costa Nova ,uma reparação urgente, no telhado,pedi a amigo informação sobre possíveis firmas que a poderiam executar. Foi-me, assim, fornecido um número de telm,, que de imediato tentei. Logo que comecei a explicar o que queria ,ouvi surpreendido ,uma resposta pronta.

-Então não vou? Vou já Sr eng.O senhor não se lembra de mim ,mas vai lembrar-se. 

Pela tarde vejo sair de uma carrinha uma cara que logo me pareceu identificar. Não me era desconhecida.Muito mais depressa a identificou o João. Foi uma festa,os dois.

Era um rapagão de uns bons cinquenta e tais que, logo me diz: 

– Então não se lembra de mim da Obra da Criança ,da  sua irmã,D. Maria José?

Pronto.... recordei logo....

Depois de ajustar com ele o que fazer, prontamente me desafiou :vamos lá beber  uma cervejinha. Claro que bebemos. E até levou mais...para o caminho.

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Mais tarde fiquei só ,a lembrar o nascimento da Obra da Criança

Foi assim:

Em certo Natal ,tinha-me sido pedido ,pela minha Mãe, para levar um “cabaz” à Obra do Frei Gil (Ermida).A Zeca pediu-me para  a levar.  Chegados ao pátio, quando eu entregava os “bacalhaus e o resto”, a Zeca chama-me a atenção para uns gemidos que se faziam  ouvir. E fomos em procura dos mesmos. Demos com um miúdo deitado de bôrco ,na palha da abegoaria, com as costas todas vergastadas. Foi o fim....

A Zeca levantou-o e disse-me decididamente, sem ligar aos que tomavam conta(?) dos rapazitos:

Vamos levá-lo a Vagos ,ao Dr Frederico. E lá  fomos de imediato. Os funcionários do Frei Gil tiveram o bem senso de ficarem mudos ,especados, a olharem para nós....

Tratado o miúdo regressámos .A Zeca  de mão em riste,fez um aviso:

– Amanhã vou falar com o Frei Gil. Ai se alguém mais toca nos miúdos. Depois ajustamos contas.

E ao outro dia confronta o Frei Gil. E decide obter o seu acordo

-Vou levar os miúdos para Ílhavo,ao que prontamente o Frei Gil ,acorda. (como e porquê ,tão rapidamente, nunca soube, mas advinho....)

Mas para onde?


Aí entra a pressão sobre minha Mãe, esta sobre o meu Pai que, com o Cap Zé Vaz ,usam o amigo Zé Capote ,casado com a Sr Piedade, que é herdeira com o seu irmão Jaime de uma excelente casa de lavoura ,ao Cruzeiro, pedindo para cederem a mesma.

Casa boa, de excelente lavoura mas, claro, a precisar de  muita obra. Que logo foi idealizada. Dinheiro para a tornar aceitável? : os peditórios continuados aos fins de semana, batendo porta a porta ,por ílhavo e arredores. Nestes eu ia acompanhando o Cap Zé Vaz,o Sr Celestino e até o Américo Ribeiro. O Cap Zé Vaz tinha um jeitão para estender o saco; o Sr. Américo Ribeiro ,desavergonhado “ não pedia”: impunha!...

As obras logo começaram. Outros miúdos começaram a ser acolhidos. Nesta fase o Capitão e o Sr José Celestino foram incansáveis.

No espírito da Zeca logo começou a medrar a ideia de “coisa” muito maior. O contacto com a Igreja, na pessoa do Padre Urbino,até correu bem.A Igreja era apenas. chamada  para dar cobertura, claro. A Zeca a andar, qual buldózer,sempre para a frente,imparável. E assim nasceram   as actuais  instalações da Obra, com novas edificações, ainda hoje ,creio, razoáveis. Naquele tempo excelentes.

Infelizmente( ou talvez não, porque se fosse outro o destino, o CASCI não teria nascido) as relações com o P. Urbino começaram a complicar-se. A Zeca decide bater com a porta.

É então que germina nela, a ideia de uma Obra muito mais abrangente. E assim  nasce o CASCI. Instituição com os seus sócios aderentes, mas que,inicialmente não prescindiu dos peditórios. Do  nada nasce  aquela Instituição de referência, que chegou a ser,no global, uma das  maiores Obras Sociais do País. 

Foi um nunca mais tirar o pé do acelerador. Foi consumir inteiramente uma vida, num único desígnio.

Excessivo querer? Talvez...


Senos da Fonseca



sábado, junho 25, 2022

 


A aquisição pelo ILLIABUM da SEDE



Num post que coloquei hoje, falei,entre outras, da aquisição por parte do Illiabum,da Casa dos Oficiais da Marinha Mercante(Sede)

Decidi   relembrar esse grande passo, dado então pelo Illiabum, quando, poucos anos atrás se encontrava em vias de extinção. Vamos lá fixar (para lembrança do historial do Illiabum) :


A Comissão que organizou e levou a cabo a comemoração dos  25 Anos do Illiabum,  que tive a honra de motivar,  não pertencia à Direcção do clube. Face à situação catastrófica das finanças do Clube, quando se sugeriu ,em Assembleia Geral, a entrega das chaves à CMI, propusémo-nos  levar a cabo um ambicioso programa. Ao tempo notável. E mais notável  ainda , porque, encerradas as contas no final, o valor recolhido nos eventos levados a cabo, entregue á Direcção do Clube,foi suficiente para pagar todo o seu passivo.

Consequência foi que, no acto eleitoral seguinte,o Prof Guilhermino incitou o grupo a constituir uma lista ,e assumir a Direcção. Inevitável. 

Foi  um nunca mais parar: o Clube ganhou fôlego e, um dia, propusemos em reunião, a tentativa de adquirir o prédio onde estava a sede de que pagaríamos renda (1.000$00 esc/mês). Houve quem julgasse que eu delirava....A pretensão não  fera motivada porque a direcção da Casa dos Oficiais tivesse colocado qualquer problema ao Illiabum. Não. Mas porque, pouco ou nada ,os Oficiais utilizavam o segundo piso, completamente abandonado ,o qual poderia ser de grande utilidade ao Clube.

Contactei diversos oficiais com quotas na instituição e, como esperava, encontrei muita disponibilidade : uns a oferecer as acções ; outros disponibilizando-se  para as vender ao valor nominal. O curioso é que sendo o capital social 500.000$00,a instituição tinha parado ,em caixa,350.000$00.E avançámos....

A determinada altura tínhamos já garantido a maioria do capital, por larga e confortável margem(cerca de 70%).Altura para, publicamente mas e também particularmente, enviarmos convite, a todos os Sócios restantes, propondo-lhes a aquisição das suas quotas.

Sem surpresa logo fomos  contactados pelo Presidente da Casa dos Oficiais,Cap João São Marcos,para uma urgente  reuniã. Logo aceite( isso queria eu....mas no Clube)

Pessoalmente,note-se, tinha uma excelente relação com o Capitão.

Na reunião tida no Clube,  onde estava a direcção deste,o Capitão S. Marcos, como seu hábito ,entra a matar. Eu seria um lírico(fruto da juventude) se pensasse que os oficiais iriam vender as suas acções, pois estes  não precisariam do dinheiro para nada. 

Deixei continuar, fazendo de conta que estava a aprender a lição.....

Até que, com muita humildade (coisa rara em mim) me dirigi ao  Capitão,em termos que recordo:

-Pois é , Senhor capitão .Tudo certo, o Illiabum só tem que agradecer as deferências recebidas da Casa dos Oficiais ,de que o senhor é o ilustre presidente.. Mas sabe sr Capitão (?): quando quero atingir um objectivo, já não páro . E assim, quero dar -lhe a conhecer,para não haver mais equívocos,que,neste momento, o Illiabum já tem(e de longe )a maioria do capital(70%). E Sr .Capitão: os Senhores têm 350 contos parados. Sugiro que façam uma excursão e  gastem tudo. Senão, quando formos  a direcção da instituição , no próximo acto eleitoral, essa importância pode reverter, como dádiva, ao Illiabum. E o processo de aquisição ficará,assim, praticamente de borla.

Bem : creio que nunca vi o Cap. São Marcos tão siderado. Sem saber o que fazer, ou contestar.

Momento para lhe dar o estoque final

- Sr. Capitão: tem aqui presente o Vosso secretário, o Sr. Artur São Marcos (que era simultaneamente secretário do Illiabum).  Ele pode confirmar tudo o que eu disse, Por isso proponho que, o Senhor, sócio fundador do Illiabum, se junte a nós. Ajudando-nos a reunir todo o restante capital(o que permitirá“fundir “as duas instituições.

Resposta seca (pouco habitual no Cap S.Marcos)  :  Oh João ...vou pensar...

E assim o Illiabum adquiriu o capital restante (salvo uma ou outra acção que nunca foi encontrada).

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Adquirida a Sede, foi o tempo de procedermos a uma total remodelação da mesma, tendo em vista criar condições para que,as sócias, frequentassem ,também elas ,a Sede do Illiabum, à noite.

Um tempo louco de trabalho (de todos!) ,mas muito gratificante.

Devo dizer que as minhas cordiais relações com o amigo Capitão ficaram um pouco abaladas. Mas foi tempo de pouca dura .Recomeçaram e até se intensificaram. Ao ponto de passados alguns bons anos ,ter sido um dos que mais, insistentemente, me fez assumir o CASCI.E assim foi até ao fim. Ao ponto de lhe ter dedicado uma biografia já quase no fim da sua vida, o que, creio, lhe foi muito gratificante. E bem merecida.


Senos da Fonseca


sexta-feira, junho 24, 2022

 


Inteligência Artificial…

Já não terei muito tempo para me preocupar com a inteligência artificial. Mas antevejo questões diabólicos no desenvolvimento imparável que,certamente, o desenvolvimento daquela  vai ter. Provocando uma verdadeira revolução civilizacional, levando o homem para limites impensáveis. 

Sempre pensei na possibilidade de, o Homem, através da conexão á máquina onde pudesse  manipular  as partes cerebrais que enviassem sinais,.Corrigindo , ou excitando ,enviando  mensagens (sinais determinantes) a zonas orgânicas que, por qualquer motivo, deixaram de funcionar: por exemple no caso da Parkinson ou até corrigindo distúrbios cardíacosno . Isso sempre entrevi. Se tivesse enveredado por essa actividade ,era nisso que perderia o meu tempo ºutil. Mas ao reflectir sobre esse sonho, dei comigo a pensar o inverso: a máquina comandar o (nosso) cérebro e provocar procedimentos impensáveis, alterando comportamentos e decisões, no mau sentido.Alterando radicalmente os nossos procedimentos normais.

Isto parece-me agora evidente: se na primeira hipótese tal  avanço pode ajudar (fantasticamente), em caso inverso, pode ser trágico ao  “transformar um indivíduo normal” num “monstro” humano..

O Homem tem uma necessidade imparável de ir mais longe. De descobrir e entrar em novos patamares julgados impossíveis. Nada  pode parar. Essa ânsia. .Por isso,este possível avanço  da ciência  que, está próximo de se concretizar,pode vivar tragédia, se mal utilizado.

Penso eu de que....

Senos da Fonseca

domingo, maio 22, 2022

 

O  Palacete dos «Cartaxos» em ruínas



O “Palacete dos CARTAXOS”, ardeu. Notícia chegada de Ílhavo, deu-me conta que, pela madrugada, a Rua Arcebispo Bilhano (Rua Direita) terá vivido em  sobressalto, causado pelas labaredas que deflagraram do prédio dos Cartaxos, nela situado. Pedaço material da história da urbe.  Referência urbana dum tempo passado.      


                                              Ao fundo, à esquerda, pode ver-se o cume do Prédio


E assim lá se vai mais um marco histórico de uma época, quando Ílhavo era uma próspera Vila em acelerado desenvolvimento.

Este prédio fora edificado no «Rossio» (também na gíria conhecido por “largo da Capela”),pois  assim se chamava o espaçoso (?) largo que a ladeava pelo poente. Largo que tinha a norte o edifício onde se albergou, no Sec. XIX ,a Philarmónica Ilhavense, que aí deu concertos, muito apreciados pela população que, vivamente interessada, ali acorria (conta-se) em alvoroço.  A imponente Casa dos Cartaxos terá sido mandada construir, no ínicio do séc.XIX, por um tal João António Cartaxo, emigrante no Brasil que a terá doado a  sua irmã, Maria Gonçalves de Jesus, casada com  Manuel Telles, progenitor da família Teles.

O Palacete dos «Cartaxos», assim lhe ouvi muitas vezes chamar, foi sede do Tribunal  dos Orfãos .E, mais tarde, ali esteve instalado o Centro Republicano.

Posteriormente lá terá estado sediado, o Sindicato dos Mareantes (assim creio ter sido designado)

                                                                

                                             A Bandeira do Sindicato içada(foto blog Marintimidades)

No primeiro decénio de novecentos, a Câmara Municipal de Ílhavo terá entrado em contacto com os proprietários (já então como regista a acta da CMI, a Familia Teles ) com a pretensão de adquirir o prédio, e aí instalar a CMI (até ali  instalada  no Largo do Oitão).Admitia, a Câmara, disponibilizar o R/C para a Associação dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, que ali teve guardada a bomba braçal, após 1894(como referi no livro da” História da AHBVI”).


                                 

                         Ao fundo o prédio e o seu mirante (foto de J A Ramalheira)

Chegou-se a um acordo para o valor da transacção. Certo, porém é que a Câmara desistiu da ideia, e iria fazer obras no Convento das Irmãs de Calais que, entretanto, teriam em 1810, pela calada da noite, fugido  e tudo abandonando (como referi no livro “Ílhavo Ensaio Monográfico”).

No Palacete entre os vários descendentes da família Telles ,nasceu o  Quintino Teles, com apreciáveis dotes para a poesia, cuja lembrança está inserida numa placa  aposta do prédio, salva da destruição.

Até hoje, creio, o prédio, depois de encerrada a loja do Sr Cachim que funcionava no R/c, estava sem ocupação.

E agora?... impõe-se  perguntar. Como reabilitar, recuperando a sua fachada, tornando interiormente habitável, ou utilizável, o imponente prédio? 

Tem a palavra a Câmara Municipal de ílhavo.


PS- Existe um pormenor que, nunca até hoje, apesar de o perseguir afincadamente, esclareci. Porquê aquela zona (bairo) se chamar da “CAPELA”? Curiosamente (ou talvez não) a minha mulher Zida e as irmãs, eram conhecidas pelas “Capelinhas”. Havia largo número de familiares seus, a habitar aquela zona.

 Deverá ter havido (penso eu) ,por ali, uma capelinha .Que terá dado nome ao bairro. Ora a casa do Palacete dos Cartaxos teve, anteriormente, o nome da casa do Srº dos Aflitos. E a casa que foi do Capitão Belarmino e família, sempre que olho para ela, reparo na forma e posição, estranhas, que mostra: saliente do resto das edificações,  que seguem para poente e nascente. Se lhe tirarmos o primeiro andar fica, claramente, um tipo de edificação de uma possível (anterior) capela. Claro isto são deduções sem qualquer alimento documental. Vou em frente....a tentar dilucidar.


Senos da Fonseca








quinta-feira, maio 19, 2022

 


Toda a história do CONVENTO de Cimo de Vila




Em 1922 o jornal «O Ilhavense»  publicou a resposta negativa dada pelo Ministério da Justiça em ceder gratuitamente, à Câmara, o edifício do Convento. Essa atitude derivava do facto de que o Convento estivera completamente abandonado, e teria, por isso, revertido para o Governo O Convento, diz-se no ofício nº15013 de 20 de Janeiro de 1922.do Ministério da Justiça, pouco ou nada mais era que um montão de ruínas, pelo que o Ministério decidiu mandar avaliar o edifício, e seria por esse o valor pelo qual estaria disposto a cedê-lo à Câmara Municipal de Ílhavo, já que a esta nem sequer era reconhecida o direito de ficar com os bens pelo valor de avaliação (concedido às entidades que fossem depositárias dos mesmos a titulo precário) porque aquela teria abandonado o prédio.

 A Câmara acabaria por adquirir o imóvel pela quantia de 18.500$00.,nele tencionando instalar os Paços do Conselho, e, depois de efectivar obras de restauro, para lá transferir as escolas que até aí vinham funcionando, em casa particulares onde pagavam rendas.



ACta da reunião de 24/07/1922 da aquisição do Convento

Em 1925 estalaria uma enorme polémica que poria Ílhavo em alvoroço. Em «O Ilhavense», o Dr. Manuel Damas (e outras vezes o Director Pereira Telles), envolveu-se de um modo violento, por vezes patético e nem sempre decoroso, com uma outra facção politica local chefiada por Eduardo Craveiro, que utilizava os jornais, «O Debate» de Aveiro – de que era correspondente – e «A Beira – Mar» de Ílhavo, para defender as suas posições, que lhe respondia nos mesmos exactos termos. O pleito tomou forma de escândalo público e dimensão que extravasou os limites locais. 

A questão em torno da qual se movia a diatribe residia na acusação feita por M Damas do descaminho dos valiosos haveres do Convento de Cimo de Vila, que as irmãs de Calais teriam abandonado pela calada da noite de 1910.Ora para administrador (ou depositário) desses bens abandonados teria sido nomeado pelo governador civil de então uma Comissão de que fazia parte o Presidente da Câmara, Eduardo Craveiro, depois de feito competente arrolamento em Outubro de 1910.


Movia Damas, para lá da rivalidade politica a suspensão de actividades a que tinha sido sujeito por um período de três meses, que o mesmo considerava ter sido consequência de acusações graves que os republicanos lhe teriam feito.


Antes de irmos à polémica ,revisitemos um pouco da história do Convento:  


                                      

                                                 O Convento transformado em Escolas

No Arquivo Distrital de Aveiro, num artigo em que é referido o irmão pouco lembrado de José Estêvão, António Augusto Coelho de Magalhães, refere-se que uma das causas da sua doença teria residido no facto de uma sua filha ter fugido para França, juntamente com outras quatro companheiras, esgueirando-se do recolhimento onde se encontrava, em Aveiro; fuga que teria contado com a colaboração de um “tal padre Beirão”, entrando as fugitivas para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Calais, no referido País. Esta fuga, o eco que teve junto da população pelo rocambolesco da situação que pareceu configurar um “autêntico sequestro” (a que não faltou a «clausura» das «desencaminhadas» no recolhimento de «S. Patrício», em Lisboa, antes de saírem para França), levaria à demissão de Manuel Firmino do cargo de Governador Civil do Distrito; este episódio foi posteriormente utilizado como «razão» para a feroz oposição à entrada das Irmãs de Caridade, na Misericórdia de Aveiro (1888). 

No período da “convulsão liberal” laicista, gravoso para as Ordens religiosas, numa altura em que o papado de Pio IX pretendeu recuperar algum do esplendor, da influência e do poder da Igreja, que tinham vindo a declinar desde a Revolução Francesa, em Ílhavo, eram ao tempo esperadas as Irmãs de Caridade que – dizia-se –, viriam se instalar na casa do Padre Morgado (Taboleiros) que para esse efeito tinha sido sujeita a benfeitorias de vária ordem. Mas quem se apresentou a ocupá-la, em dado dia, seriam dois eclesiásticos e quatro senhoras, duas das quais se afirmava, serem naturais deste Distrito; ora uma destas – a irmã BRANCA – era, nem mais nem menos, do que a sobrinha de José Estêvão; foi pois, esta, uma das fundadoras do Retiro da Nª Srª do Pranto das Irmãs Hospitaleiras da Terceira Ordem Regular de S.Francisco onde se ministrava “ensino gratuito a meninas, especialmente a filhas de pescadores”, e funcionava – já…, espante-se! - como um verdadeiro, «Jardim-de-infância» daquele tempo ”pois receberia as crianças com menos de três anos, às horas em que as mães estariam ocupadas em outros afazeres”·. 

As Irmãs da Caridade fariam parte do contra ataque do Papa Pio IX destinado a recuperar o esplendor da Igreja e a influência que aquela vinha perdendo em toda a Europa, desde o período da revolução Francesa. A esta posição, respondia em Portugal um «novo catolicismo» que rejeitava liminarmente a (nova) «piedade» surgida, à qual se referiam entre outros, A. Herculano e Oliveira Martins, afirmando “não ter esta, nada a ver com a antiga religião”. As Irmãs da Caridade – «importadas» de França – “fazendo parecer que em Portugal já não haveria entre nós quem detivesse o espírito de caridade”, foram vistas como sendo uma emanação do espírito jesuítico e, por isso, prontamente denunciadas pelo radicalismo que as associava a uma prática onde “nem cabia a visita aos pobres”; gozando da alta protecção dos «grandes e da igreja», estariam, por isso longe de merecerem o apoio popular, pois, dizia José Estêvão, “o culto externo das Irmãs é pouco consentâneo com as formas, com os costumes, e com as prevenções da autoridade administrativa”. Via-se nas Irmãs da Caridade uma reacção das classes poderosas que, unidas à Igreja, pretenderiam «opor-se» ao ensino da escola pública, no intuito da manutenção do papel hegemónico detido sobre a mentalidade popular. 

Pelo que já anteriormente referimos, a prática das mesmas em Ílhavo, especialmente no campo do apoio aos órfãos e aos filhos das mulheres trabalhadoras, bem como na educação das jovens, parece ter merecido justificado reconhecimento de validade, e respeito, muito embora a sua instalação – com as peripécias da Irmã Branca –, o seu posterior desaparecimento envolto em grande mistério, o fim da Instituição com o confisco de todos os seus bens no País de origem, permitam colocar algumas interrogações e deixar campo aberto a hiperbólico locutório, sobre qual seria o seu fim último. Este viria a ficar ainda mais envolto em névoa impeditiva de o discernir quando, em 1910, se constatou da repentina fuga de todas as Irmãs, – sem qualquer aviso prévio – feita ao cair da noite em carroças fretadas para o efeito, deixando para trás a Instituição e todos os seus bens abandonados à pilhagem, o que motivaria fortes especulações e teria deixado um rasto de mistério nunca totalmente explicado, nas circunstâncias. 

O episódio das Irmãs da Caridade – de quem se dizia “serem um veiculo para submeter as consciências e manter o povo na ignorância através do ensino religioso a que se dedicavam” –, serviu para a denúncia, por parte da esquerda, dos privilégios mantidos pela Igreja que se consideravam excessivos, prejudiciais, pois com eles se pretenderia impedir a democracia, a igualdade de direitos do povo e a sua libertação secular. E as Irmãs viriam mesmo a ser apedrejadas em Agosto de 1858 à saída de uma igreja, levantando ondas de indignação, na facção conservadora. 


Em Aveiro seriam impedidas de entrar no Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Para esse propósito contribuiu José Estêvão, quando na sua notável intervenção no Parlamento afirmou a dado passo: “Acho desnecessária a instituição. Se Deus quer a caridade seja tão oculta, que a mão direita não saiba o que dá a esquerda, para que é então decorar a cabeça das suas sacerdotisas com um certo ornato… e o corpo com uma certa fazenda”.  

 O sentimento anticlerical era levado a todo o país pelos vultos do pensamento e cultura que se afirmavam chocados, e revoltados, com a centralização da cúria romana·, o que, se não era uma expressão anti-religiosa ou até anti-católica, era antes uma critica às práticas e devoções e às instituições (Patriarcado e Ordens). O debate “exprimia uma contradição insanável entre os adeptos de uma sociedade livre e secularizada e os defensores da restauração de um modelo clerical”.

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Polémica (1925)

Abandonado o Convento, deixado o seu recheio ao dispor de quem lá quisesse entrar, os seus bens foram, em Outubro de 1910, anexados pela Câmara de Ílhavo, aguardando-se um processo que corria contras a Congregação das Irmãs de Calais a correr em França (que terminaria com a confiscação de todos os seus bens!). Foi, pois, em 1910, feito um rol dos bens existentes, repetido em 1915 (este muito diferente do anterior) do qual, ninguém mais tarde se assumiu conhecedor, ou detentor.

O período conturbado e as lutas entre as diversas clientelas politicas foram aqui, como no resto do País, se extremando, em extrema virulência que nem sempre acabava da melhor maneira.

Em 1925 era bem patente a diferença de opinião entre os que se agrupavam em volta de «O Ilhavense», os conservadores monárquicos que apoiavam a figura politica local, Diniz Gomes, e aqueles que n’ «A Beira-Mar» se situavam perto das ideias republicanas, ou pelo menos militavam na corrente progressistas, próxima.

Ora o recheio que restou do Convento, que uns diziam ser muito valioso, mas que outros afirmavam convictamente, ter em boa parte sido roubado, no período em que esteve de porta aberta, sem ninguém decidir a quem competia guardar o que lá se encontraria, parece ter levado um sumiço. 

Desses bens relevava-se o recheio: trem de cozinha que se dizia ser o melhor de Ílhavo, 30/40 camas, roupas para as mesmas, pinturas e paramentos, talheres, serviços V.A etc. etc.O Convento, dizia Damas, estaria cheio como um ovo.

Aconteceu neste período (1922) que sobre a câmara de Dinis Gomes se levantaram algumas acusações, denunciando-se obscuros procedimentos de índole económica e uma situação catastrófica das finanças da mesma. M. Damas parece vir aproveitar a questão do Convento com a finalidade de criar um facto político que servisse de distracção do problema que afligia as hostes conservadoras. E assim surge a levantar publicamente a questão que, havia tempo andava em surdina de boca em boca. O recheio que tinha sido objecto de arrolamento e de que teriam ficado administradores responsáveis -diz Damas em «O Ilhavense» – compreenderia 58 páginas, o que atestava uma ideia da sua grandeza. O que teria sido arrolado deveria, pois, existir, e a não existir alguém teria de dar conta do seu paradeiro.

E adiantava: já vimos como as pobres freiras foram postas fora de Ílhavo («O Ilhavense» de 12.04.1925); pouco menos que nuas. O que de facto não fora verdade, pois ao que parece ninguém as teria posto fora. Elas é que teriam desaparecido, certamente pelas razões que mais tarde pareceram esclarecidas, quando no seu Pais de origem a Congregação foi dissolvida e lhe foram confiscados todos os seus bens. O problema da sua desaparição repentina, não teria sido motivado por reacções locais, mas sim consequência de uma situação exterior em que estaria envolvida a Congregação das Irmãs de Calais. 

M Damas continuava: A malandragem pagava assim aquelas que lhes ensinaram as esposas as filhas e as mães.

E até do simples desaparecimento de vasos, Damas se servia para acusar os republicanos, invectivando E. Craveiro de os ter oferecido a várias pessoas gradas, em Ílhavo.

Craveiro defendia-se com os recibos que exibia, e que dizia serem prova de que quando teria entregue a administração dos bens, em 1915, ao Dr. Carvalho novo administrador Concelhio – nos mesmos se indicar o que teria vendido (o valor de 45$08 que era o saldo acusado pelo novo administrador).

M Damas exibe declarações recolhidas junto de alguém (incógnito) que se afirma ter sido uma das fugitivas que lhe afirmara: fomos obrigadas a deixar o nosso tam querido colégio da Nºª Srª do Pranto e a seguir para a própria pátria como se fossemos criminosas (.) sem de lá trazer nada.

E a polémica foi subindo de tom, com o tratamento dado a Craveiro de acéfalo e míope de alma …, mau filho e péssimo irmão …e pior cidadão, libertando-a da sua linguagem das latrinas, pelo que deve ser expulso da casa e do convívio de todos os ilhavenses, incita Damas.

A padralhada não podia faltar ao combate; e associa Craveiro à aversão pela mesma, acusando-o de ter afirmado -e como eu não engraço com alguns padres (…). Desse modo Damas (sidonista sem ser monárquico) tenta obter o apoio daquela para a sua cruzada. O que diga-se eras de importância vital dada a influência clerical no meio local.

Logo Craveiro ripostava: - se isto fosse um País de homens, estes tipos da «Corja» (O Ilhavense) era sumariamente fusilá-los contra um muro 

A vias tantas, de um lado e do outro, começa a germinar a convicção que a questão acabará na cadeia ou sob o chumbo das armas.

Ora se é certo que o recheio poderia ter desaparecido, pois que há noticias da época que referem que o Convento esteve de porta aberta à disposição de quem quis, certo é que se verificou que a Confraria em poucos anos teria amealhado bem, já que se constatou ser o Convento riquíssimo em prédios rústicos: terras no Pinhal na Lagoa, pinhal nas Ervosas, pinhal na Castelhana, pinhal na Gândara de Sousa, metade de um pinhal em Salgueiro, um pinhal nos vales de Sôsa, e uma terra de lavradio nas Cancelas, num total de 29 prédios!!!.que se dizia terem recebido como herança do Padre.Calvo, o qual teria deixado todos os bens ao Convento a troco de ali ser tratado um filho (?!) -ou afilhado – demente, o que de facto aconteceu. 

Nunca foi esclarecido onde estes bens foram parar. O Governo de então prometeu mandar apurar o descaminho dos bens fugíveis e infugíveis. Mas nada foi apurado…

Os opositores zurziam-se forte (1925), usando uma terminologia nem sempre a mais aconselhável. O trauliteirismo manejado por um caciquismo que enquistava e destilava ódios, procurando por todos os meios assumir o poder, expressava-se de um modo virulento fazendo gala do insulto patético, soes e odiento, não olhando a meios para atingir os fins.    

Em 1925 a Câmara de Diniz Gomes acusada de graves procedimentos, de onde sobressaía a grave situação económica municipal, com os cofres completamente exangues, acabaria por ser dissolvida (Dec. Lei11875 de 16 de Julho de 1925). Interinamente o administrador do concelho, Coronel Alberto Maia Mendonça, assume a posse da Comissão Administrativa, até ao momento em que a entregará a Câmara de Júlio Calixto.

A questão do convento terminaria, assim, sem qualquer tipo de esclarecimento cabal, satisfatório...Se havia dúvidas, elas não só se mantiveram, como até, porventura aumentaram.

Mais tarde, novamente na Câmara de Diniz Gomes, o edifício é então adaptado para os Paços do Concelho,  e para quartel da GNR( no R/c) .Nas partes traseiras vieram instalar-se as Escolas, que aí funcionaram até meados do séc. XX.


Senos da Fonseca


  




quarta-feira, maio 11, 2022

 



FREDERICO DE MOURA



(...)

Ora Frederico de Moura foi um exemplo superior dessa inquietação permanente, apostado numa aprendizagem contínua e prolongada, em verdadeiro sacerdócio « de colher  muito, de muitas coisas». A  formação assim conseguida  enraizava-se   na ânsia desmedida de  conhecer -e dar a conhecer – o resultado do permanente  «diálogo» que travava  com os mestres,em  cujos livros,  insaciavelmente, abafava a exegese do saber   e  que, depois, incapaz de os «pôr em reclusão» só para  gozo intimista , vertia-os de uma maneira viva e apaixonada sobre  os  companheiros de vida ou, tão só, de esporádica jorna .Tudo e todos, lhe mereciam o acto  fraterno de partilha . Discorria com uma segurança incrível, não programada, genuína e de momento,  com uma  referência que ia da clareza e disciplina metódica de  Descartes,  à filosofia critica   de Kant ,ou ao koinos –logós  Socrático , numa  imensidão temporal  povoada de referências a  «quem pensou e por isso existiu» ; ora  rumando a um outro campo,para aí  patrocinar «providência cautelar» contra (alguma) novel   literatura de cordel   escanzelada, se  confrontada com a  arte dos Senhores de Seide ou  de Tormes,de Sernancelhe ou  de Anta . Deleitosamente sensível  à criação artística , Frederico de Moura não perdia a ocasião, se ela  se ajustasse ao momento ,de nos dar conta  do contexto económico ,religioso e social vertido na linguagem do maneirismo de Domenikos Greco ,ou, levando-nos pela mão para a “Aula de Anatomia” de Rembrandt, ou ainda , maliciosamente,  descrevendo-nos  as obscenidades de “Las Majas”  de Goya ,   sublinhando-nos a atmosfera –temporal e espacial -  em que se teriam  desenvolvido as mais belas peças saídas do génio artístico do Homem. E quando o voar tinha tectos mais baixos, sublinhava com « ternurenta » amizade a teia, díspar mas frutuosa,  em que se enredou João Carlos, colega de proscénio na profissão e  na cultura , degustando  com requinte de apreciador insaciável  o multifacetado empenhamento do «ílhavo», na resposta aos sinais que lhe inundavam a imensidão da   inquietude  artística. Que procurava satisfação nas mais variadas formas em multifacetados   ensaios  (pena ,goiva ou simples lápis)       

Difícil é, em Frederico de Moura ,distinguir o homem do intelectual, pois nele as duas afirmações  conviviam em permanente e absoluta simbiose .Mostrou uma insaciável disponibilidade para tudo quanto à condição humana  se põe em desafio, assumindo o desassossego de uma alma inquietada pala necessidade do renovo permanente do «sujeito» da mesma .   

Era um espírito «em  graça» de recolha de impressões   maravilhadas  da natureza Nesta , deteve-se  em  particular atenção  ao espaço geográfico onde fincou as suas  raízes . Desconfio que ninguém –e foram muitos e grandes que o tentaram fazer – descreveu, como ele, o Homem da Laguna no confronto suado  com a paisagem. Um dia confessou-me emocionado ; “Sabes – disse-me  enquanto  vertíamos o olhar deslumbrado sobre os tons em constante mutação, que a ria nos ia exibindo  –das coisas de que levarei saudade quando me for ,é da maravilha desta ria que me preenche o ser e me desperta o afago de todo o meu olhar”. A admiração é o principio da ciência de todas as ciências ;mas é-o também da própria transmissão dessa ciência..Isso era –Lhe intrínseco…

Tinha uma minúcia de observação  para a paisagem humana contemporânea   , vincada  nas pinceladas impressionistas com que retratou, numa perfeição  estética sublime, figuras  que o tocaram  profundamente. Tinham um fio comum esses retratos que nos legou : exaltavam com a mesma força com que o escopro deixa ruga na pedra ,   numa minúcia de observação e  de rigor anatómico , de um  modo objectivo,probo e escrupuloso , os valores vitais dos biografados , catando minuciosamente os sinais com que  justificava a impoluta compleição moral ,intelectual ou humana do retratado.    

Foi um Homem fiel ao   Povo da Terra  que serviu em sacerdócio de  entrega, com um grau de  competência invulgar .Mais do que invulgar : notável, a excepcional bitola profissional que lhe era reconhecida por todos os Colegas com quem convivia de perto ;mais ainda ,  por muitos daqueles com quem ,por razão profissional , longe do seu meio , conferenciava . 


(....)

Senos da Fonseca 

sexta-feira, fevereiro 04, 2022

 

A MATANÇA DO PORCO (naquele tempo)




De entre as memórias de rapazito que, com frequência, me ocorrem,a matança do porco, é sem duvida das mais duradouras, e uma daquelas que com mais intensidade me ficou gravada desse tempo, em que, garoto despreocupado, inserido numa família onde as tradições eram - ainda! - para manter e durar, ia vivendo (participando) nas peripécias do dia a dia,  apercebendo-me  como eram intensos e se fortaleciam, os laços de amizade, aproveitadas que eram todas as ocasiões para conseguir tal desígnio. 

As relações familiares dos «Fonsecas», lavradores vindos com a história da Vila, eram muito próximas, reforçadas por uma contínua presença em casa de uns e outros, numa vivência onde a partilha era lei.A vida vivia-se em partilha continuada.

E nem um facto insólito perturbou essa proximidade.....

Refiro-me a que o meu avô, o Prof. Fonseca, ter sido deserdado, e ter perdido o Morgadio. Porquê? - quererá, possivelmente, o leitor, ser informado …

Pois por um rocambolesco caso de amor; uma cena digna de romance Camiliano, quando, apaixonado pela Maria Rosa (que foi minha avó), moçoila bonita, rapariga de trabalho, simples e de poucas ou nenhumas posses, decidiu romper com a oposição familiar ao casamento com aquela, que tinha as origens em família pobre de pescadores, os «Arrombas». Decidido a casar com ela, mandou às malvas a recusa dos seus, abastada família de lavradores lá do Cimo de Vila que, como era hábito nesses tempos - já tive ocasião de o contar em detalhe – escolhiam para mulheres dos seus filhos –especialmente do primogénito, o Morgado – mulher de cabedais idênticos, para reforço e engrandecimento da sua «CASA».

Ora num belo dia, meu Avô, não esteve com meias medidas: filou o padre  Fonseca(seu familiar) - por incrivel que pareça ,talvez o tipo mais rico de Ílhavo,um dos chamados Quarenta Maiores! – pelo pescoço, trancando-se com ele ,e com a Maria Rosa, na Capelinha da Sr.ª do Pranto, chave do portal no bolso, e frente ao altar da Senhora, avisou o fradaço:

-Vá!: -ou case-nos … ou encomende-se que vai de catâmbrias para o inferno. Não me moa a paciência, e poupe a Senhora a espectáculos impróprios para santas.Ou casa ou vem do sino cá para baixo.Escolha  lá ...mas depressa...


O pobre, que conhecia bem o Professor, transido de medo perante as palavras que, parecia, feriam lume, e do olhar decidido e convincente de meu avô – algo que era bem conhecido por aquelas bandas –, logo se apressou a entaramelar o «in nomine patris …» para abençoar e tornar lícita, à luz divina, aquela união. Desse dia em diante, a Maria Rosa - que não deixou, toda a vida, de tratar seu marido por «Sr. Professor »-, foi uma mulher feliz, e uma respeitada mãe de farta prole.

Apesar da perda do Morgadio - e consequentemente de todos os bens - meu avô foi sempre reconhecido como o Patriarca - como o seria depois meu Pai - acarinhado por todos que o tratavam por «Padrinho» venerado, respeitado, e obedecido – quando preciso fosse por um par de bem aconchegados cachações ou reguadas - nas pequenas tricas familiares, sendo o elo de fortalecimento do clã.


Seu filho, meu Pai, tinha ainda tiques claros, reveladores da sua origem, com uma paixão louca por tudo que dissesse respeito à lavra. Nos quintais lá de cima, tudo era simulado à imagem de uma grande lavra: fazia-se farto vinho – do enforcado –, que me competia a mim e a meu primo calcar na dorna; cultivavam-se todas as espécies de verduras; mantinham-se e renovavam-se, com um amor indescritível, árvores de fruto da mais variada espécie e sebavam-se porcos com um desvelo como se tratassem de animais de estimação (embora o destino destes fosse uma morte, morte que quase parecia heróica, gloriosa). Recriava-se, dum modo muito real e muito expressivo, uma casa de Lavoura, de que a irmã Vicência – a tia Vé - era a administradora permanente e a incansável obreira, nos momentos pós aulas…

Neste ambiente a matança do porco era uma verdadeira festa, durando, no mínimo, três dias.


Mas, muito antes da data aprazada para o acontecimento, já eu acompanhava o meu pai a visitar, um a um, «os primos», em verdadeira via sacra com o fim de indagar, e melhor comparar, o estado de desenvolvimento dos porcinos dos primalhos, já que cada qual pretendia que o seu fosse, o maior e o mais vistoso de entre todos e nisto “ cada bufarinheiro louva os seus alfinetes “, é certo. «Primos» era «coisa» que não faltava: - pareciam existir por todos os lados, Cimo de Vila, Cruzeiro, Moitas, Vale d’Ílhavo, etc; as visitas sucediam-se, eram constantes, e sempre que se batia à porta, depois dos abraços, era sacramental ouvir:

-Oh primo «doutor», já não vai daqui sem jantar. Que a «Maria» até levava a mal. Vamos provar o palhete, enquanto ela prepara uma cabidela de galo, de estalo.

As «primas Marias» -todas elas! - eram mulheres governadeiras, escufenadas, mulheraças de brio, caprichosas no bem receber, desempoeiradas e breves em ir buscar –e torcer o pescoço - ao melhor cantador da capoeira .Num zás-trás, enquanto a conversa e as provas decorriam, já o bicho estrebuchava na caçarola, cheirando que regalava, o que nos tirava todas as dúvidas –se é que as tínhamos ?! – de desertar.

Lá íamos, então, fazer horas para a adega, no alpendre, para a prova do «enforcado»; retirado o espiche à pipa e aparado no copo a borbulhar, eles diziam – a mim, confesso, me não parecia - ser veludo a escorregar gorgomilos abaixo, vivinho, fresco, ágil a deslizar, mais parecendo canto celestial a pedir acompanhamento à altura : -um naco de chouriça entre dois taleigos de broacozida no dia, tão rescendente que consolava.Vitualhas em que eu, propriamente cascava, até me refastelar. Mais uma saúde, mais lérias, vizinho que aparecia e fazia teima de irmos provar «a sua pipa», o que valia é que o dito era «água pintada», e, tal como se bebia, também logo se vertia numa ida ali ao quintal, que já venho….

Claro que o fundamental – dar uma olhadela ao bicho – lá era feito, mirando-se de todos os ângulos com o fim de medir o animal, e de dar palpites. Depois das provas, o bicho até parecia aumentar de bojo: -quem bebe pelo S. Martinho faz de velho e de menino.

Chegada a hora, anúncio vindo lá de dentro, alertava para a prontidão da cabidela malandra que fumegava na caçoila, já albardada na mesa. Abusacávamo-nos na casinha da lavoura - cozinha do dia a dia -, à lareira, onde chiavam uns cavacos espevitados.Local de resfastelo onde o meu Pai insistia em apoitar, apesar da pena da « prima Maria», desejosa de pôr os pratos de cavalinho na mesa, aos ilustres familiares (?!), guardados que estavam para as grandes ocasiões, no aparador da sala. Por ali ficávamos a contar estórias, em mais um seroar. Às vezes, diga-se, nem sempre por mim muito apreciado, já que lá se ia uma tarde própria para namoriscar, actividade para a qual eu revelava, já então, muito mais credenciais do que para a «lavra». Mas diga-se, que entre umas horas de desvelo amoroso e uma boa cabidela, o diabo que escolhesse. E depois, dias para namorar, eram mais que muitos. E para a cabidela, nem todos. Só quando caía do céu tal iguaria. E nestas coisas, é bem certo: antes desejo que fastio, que o que é bom, não dura. E é bem verdade: - mais vale ovo hoje, que galinha amanhã.

Mas voltando ao bácoro…

O olho do dono engorda o animal mas certo é que era normal, naquele tempo, os mesmos atingirem pesos, entre as catorze e as dezasseis arrobas. Eram animais impressionantes, que para o fim já não se tinham nas patas, vivendo deitados para a seba final, por vezes alimentados à mão, já que nem tal exercício conseguiam fazer pelos próprios meios, dado o estado de prostração provocado pela (excessiva) obesidade, deliberadamente provocada.


O dia da «Matança»


Chegado o dia, logo de manhãzinha, caldeiros bem cheios de água eram postos na lareira da casinha, que crepitava.

O matador era, nada mais nada menos, que o meu primo Manuel Fonseca Jr. - o sénior era o meu Pai. Que recebera as facas do seu Pai, José Fonseca, meu tio – avô. Não, não eram faquinhas de cortar a broa ou chouriça, ou o queijo (com olhos ou sem eles). Nada disso. Eram facalhões de arrepiar um mortal. Que ao velho José Fonseca tinham sido legadas por seu pai, meu bisavô. Dos varões da família, já então só restava eu, por cá. Assim, se a tradição fosse seguida, essas facas – que confesso me arrepiavam! - deveriam ser-me entregues para «continuar» a saga, e exercer o mister.Praticamente um monopólio familiar, aqui na terra. Deus me salvasse! - pensava eu, arrepiado só em as ver. Eu nunca neguei o berço: mas só de pensar que tal me podia calhar em sorte, estava disposto, como meu avô - e por muito menos! -, a renunciar a todo e qualquer morgadio de matador.Mais vale um gosto que os três vinténs, é certo, mas eu não tinha queda para ser el matador. Era bem verdade, desculpem lá isso os meus anteriores, que no resto até julgo não os ter deslustrado, que se veja.


Chegava pois o Manuel – um poder do senhor, bisnagau de uma força bruta espantosa, exímio jogador de malha, e habitual ganhador do jogo da corda, presença obrigatória das romarias ao tempo - trazendo os ditos facalhões , chegando-se ao animal para, com o seu olhar sabedor, garantir (apostar!) o peso esperado para o bicho.Tendo sido emigrante quando novo, nos States, fazia gala de se exprimir em americanês: - nice boy - good pig - dizia , e com um primeiro ,« VIVA A PÁTRIA», dava início à função.Que homem lento p’ra nada tem tempo…


O suíno, que já nem se podia mexer ,era levado de padiola (ou em cima do arado)para ser colocado no carroço (ou numa escada) ,com a cabeça quase ao nível de solo.Bem amarrado   – fosse lá saber-se se o abate correria bem – com um adibal atado aos presuntos posteriores, que o fixava ao leito da morte, mas mesmo assim fortemente agarrado pelos rabeiros.

                          


                              Fig 2-Em cima do carroço

Dois valentes fixavam as patas do animal que ia ser sacrificado. Avante, um deles puxava a pata para baixo, enquanto o outro levantava a dextra do bicho, para cima, O matador colocava então o braço por debaixo do cachaço, cingindo o animal e, com a direita, agarrava num pano,


                                              

                                    Fig 3- Lavagem da peituga


que mergulhava em água a ferver, para com ele limpar a zona onde iria dar o golpe fatal. Uma última olhadela, – «camóne let’s go: - VIVA A PÁTRIA», e aí vai disto: sem hesitar, num golpe certeiro, a faca terminada em bico - uma monstruosa lâmina de uns trinta centímetros – afiada e pronta a cortar papel, entrava no pobre bicho que lançava um grunhido de dor assustador, roncos arrepiantes ao sentir-se ferido de morte. Eu que fazia de conta que passava as facas ao meu primo – que era para me ir habituando: - diziam! - fechava os olhos ao ver o sangue sair em golfadas enquanto o matador rodava a faca, abrindo ainda mais o golpe, no sentido de facilitar a saída do sangue que era aparado num alguidar postado em sítio certo para receber o esguicho.


                        

                                  Fig 4 – O aparar do sangue

Era fatal que chegaria o momento, em que o primo Manel fazia de conta que o animal se escapava, e, balançando com a cabeça do pobre bicho, gritava:

-Takerease…baby be quiet

o que fazia com que o mulherio presente desatasse a fugir, pirando-se como um bando de pardais à vista do milhafre.

A verdade é que,em poucos minutos, a vida do animal esvaía-se. Do forte grunhido, ia restando um rumor de sofrimento do animal, como que despedindo-se da vida. Quando já não mexia - salvo pequenos estertores, reflexos musculares – lá vinha novo «VIVA A PÁTRIA» ,«VIVA O ANIMAL»,o que levava todos os circunstantes a levantarem o seu boné - ou garruço -, saudando o bicho pela galhardia (?!) com que encarava o sacrifício.


No sangue aparado, eram então feitos dois golpes em cruz,.Depois de temperado com sal e limão, seguia de imediato para o caldeiro, onde a água a ferver o esperava. Cuidava-se que nenhuma mulher que naquele dia andasse no período, tocasse no sangue –“para não o coalhar”. Nunca soube a verdade do dito, mas o certo é que tal se dizia suceder, fosse com o sangue do porco, com o leite creme ou maionese etc. Seria?

O porco era então arriado e deitado no chão.

Ia começar a chamuscagem do seu pêlo .Coberto de agulhas, era ateado lume.O matador, e um ou outro conhecedor, com a ajuda de dois paus de feijões, iam-nas movimentando pelo corpanzil, percorrendo o lombo do animal de modo a chamuscar o cabelo, com o cuidado extremo de evitar qualquer queima do couro.




         Fig 5 – Preparando a cama para a «chamuscagem» do animal


Era uma operação que exigia muita atenção, destreza e habilidade. Chamuscado de um lado e do outro, com uma fogueira concentrada junto dos pezunhos, retiravam-se as unhas – as castanholas –, momento que servia de diversão aos mais novos, para as meterem nos bolsos dos assistentes. Não era uma operação nada fácil; tinham-se de aquecer bem os pezunhos para os cascos incharem, e se separarem, e puxá-los com eles a ferver, de uma palmada: shit …até fervem, - dizia o Manel Jr., escaldado.


Iniciava-se então a operação da lavagem e raspagem - o fazer a barba - ao couro do animal .Com água corrente,equipados com caliças (de adobe), ia-se afeiçoando o couro cabeludo do bicho, utilizando-se no final uma faca do tipo das usadas no bacalhau para o trote, com que se fazia um escanhoar cuidadoso, até se obter um couro bem amarelo e macio, aqui e ali chamuscado, mas nunca queimado.


Terminada a tarefa cortava-se o rojão do carro: - o cagueiro do porco. Era-me destinado o agarrar da língua do animal, com toda a força, para, diziam-me – e eu pantono acreditava – que tinha de a segurar para que as tripas não saíssem, por detrás do bicho.


ESTÁVAMOS ASSIM CHEGADOS AO FINAL DO 1º ROUND


-INTERVALO


Da cozinha vinha então um cesto poceiro, com sarrabulho cozido a escorrer em cima de ramos de louro colhido na hora,fresquinho, acompanhado por uma broa cortada numa malga, e uma quarta de verdasco. E copos para todos. Depositado o manjar sobre uma toalhinha estendida na barriga do animal,  saboreava-se o sarrabulho e cavaqueava-se, contando estórias de outras matanças, comparando animais, recentemente abatidos.

Terminada a refrega do repasto entrava-se em nova e decidida azáfama.

O porco era puxado para dentro da adega, e nos tendões das patas traseiras era enfiado o chambaril, uma peça de madeira por onde, com a ajuda de uma talha, se içava o animal, fixando-o no gancho preso no tecto.

Bem suspenso, o chão juncado de agulhas para aparar os restos sanguíneos do animal, o matador mudava de faca, empunhando agora uma outra mais curta, com gume tão bem afiado como se tratasse lâmina de barbear,  fazendo com ela uma incisão nas duas abas do animal, de cima abaixo, deslocando o manto da barriga, atoalhando-o nas costas do animal. Desse modo tinha acesso às vísceras.Com um alguidar trilhado entre as patas dianteiras, com gestos seguros e rápidos de sabedoria acumulada, conseguia extrair todo o aparelho digestivo do animal.Com especial cuidado, as tripas, para que não rebentassem,passando-as então ao mulherio, para serem levadas ao rio da Fontoura, onde se procedia a uma escufenada lavagem em água corrente, retirando-lhe os folhos: as sainhas .Com as tripas lavadas, esfregadas com sal, far-se-iam as linguiças e salpicões, que iam a estagiar no fumeiro da casinha velha, até ficarem no ponto para degustar.

A mim era-me entregue a bexiga e o pissalho. A primeira, depois de fumada, dava uma excelente bola. Por seu lado, o «dito» do animal, era graxa excelente para ensebar as botas, impermeabilizando-as.

E assim íamos esgotando as horas…

O primeiro dia da azáfama estava a terminar. O animal, limpo, ficava a escorrer todo o resto do dia e toda a noite, pois só no dia seguinte se iniciaria o seu desmancho (desmembramento).


Era chegado o momento de nos sentarmos, matador, ajudantes e alguns familiares entretanto chegados pelo fim da tarde, em volta da mesa, para um pausado e retemperador repasto, onde se recuperavam os humores e se apreciavam as primeiras vitualhas porcinas do animal sacrificado.


Uma sarrabulhada bem apurada, sangue cozido acompanhado de fígado cortado às lascas, a boiar num molho gordalhudo onde refogava uma forte cebolada, temperada ao ponto, com fartura de pedacinhos de alho e umas folhas de louro, que lhe davam um odor catita. O verdasco -pinga de estalo, diziam! - corria então da picheira para os copos, que sôfrega e insistentemente eram chamados à boca. E à medida que tal chamada se fazia, a língua começava a soltar-se, e a jantarada tomava foro de festa.


Estômagos já recompostos, vinha um arroz amalandrado de bofes avinhados (e ou de labercas), que fazia companhia a uma bifalhada cortada apressadamente das franjas entremeadas do animal. Noutra pichela, lá vinham as iscas embrulhadas numa cebolada avinagrada. Pitàu de fazer soar as campainhas gulotonas que,faziam um indígena levantar-se lesto, quebrando as regras de mesário, não dando tréguas à digestão a empanturrar-se com a iguaria.


Findo o repasto porcino, lá vinham umas «castanhas abafadas».

Era tempo para divertimento.

O primo Manel era um tocador emérito da concertina. Meu Pai também tocava o mesmo instrumento, embora fosse mais tosco de mãos. Tocava-se e dançava-se numa alegria que envolvia todos os presentes. Até a minha Tia Micas - sempre muito reservada -, não se escusava a desenmalar o bandolim para acompanhar os tocadores que, incansavelmente,davam à sanfona .Mas o que mais me impressionava era ver o meu tio - avô José Fonseca[1], já cego e com uns bons oitenta anos, cantar ao desafio - no que era inacreditável e inexpectável  superior - a pandegar numa espécie de dança feita sobre os joelhos dobrados, que só muito mais tarde vi ser muito semelhante às danças cossacas.

A noite corria entre palratórios e lenga-lengas, e só tardiamente, já bem lastrados, se recolhiam os convivas a penates, pois ao outro dia, novo trabalho a requerer a presença do matador.


2º Round


Logo de manhã começava nova faina.

Arriado o porco, procedia-se ao seu desmanche, tarefa para o que me lembro ser especialmente dotado: - com muito jeito, dizia-se, parecendo com isso quererem dar-me alento e predisposição, para herdeiro da tradição.

O desmanchar do porco era feito com critério e ao gosto da dona de casa, que dava, amiúde, indicações de que tamanho queria as peças que se iriam separar.

Tudo cortado, peça a peça, procedia-se à salga das mesmas, numa salgadeira de cimento, onde se depositavam as peças separadas por sal, suficiente para as conservar,.Dispostas por ordem, ou critério de utilização: no fundo, acamadas, ficavam as mantas de toucinho; depois os ossos de assuão, costela, coiratos, etc., etc.


Separava-se a carne para rojões que, de imediato, se vertia para caldeiros de cobre, onde a lume brando se iam estrugindo no unto de pão até ganharem uma cor rosada indiciadora de que estavam prontos para irem para os potes de porcelana.Onde ficavam afogados em banha, à espera de utilização futura: - quase sempre breve, ali em casa.


Chegava, então um momento porque há muito ansiava: o hábito de levar o prato aos familiares e amigos.Cortada uma febra, juntavam-se umas peças de sarrabulho e fígado, umas folhas de louro e sainhas e, em casos de graduação especial, um ou outro rojão. E lá ia eu, lépido, com o cestinho – eu queria lá saber do aspecto! - entregar o dito. Esperando, como sempre acontecia, por uma gorjeta,que, acumulada de casa em casa, me rendia pecúlio apreciável, quase sempre para investir numa bola de futebol. E não se julgue que eram poucos os distinguidos. Não!.., que a família era grande, acrescendo que para lá desta, havia os amigos, os capitães a quem se retribuía a habitual oferenda da cestada de caras, línguas e samos, que viriam perto do Natal. Por isso, não raro, ouvia minha mãe lamuriar-se de que, por maior que fosse o bicho – e era, pois meu pai fazia gala de atingir as 16 arrobas –ia-se todo nas oferendas.


Claro que minha mãe não estava a fazer contas, ao que por aquelas épocas recebia, pois este hábito -o prato -, era uma perfeita troca.Que até fazia jeito.Não havendo ainda frigoríficos, estas trocas permitiam, pelo menos por estas épocas e durante semanas, comer-se carne sempre fresquinha, o que era um maná. Feitas bem as contas não se ficava a perder, pois todos se esmeravam na oferta. Grandes hábitos. Tradições que vinham do tempo onde respeitáveis gentes faziam agasalho da amizade.


À noite, tudo escufenado e ordenado, depois de uma «banhoca» lá voltavam para uma segunda emposta, à mesa. Os convivas aumentavam no número, pelo que as travessas de rojoada eram, só por elas, por tão abundosas, de uma imponência de recriar o olhar guloso.


Por norma, este dia era menos familiar, mais voltado para os amigos. Sempre muitos e dos bons.


Na cozinha, o mulherio preparava a carne para avinhar, e com ela bem temperada, encher a tripalhada já limpa, a aguardar hora de saltar para o fumeiro.


A matança chegava ao fim; novos seis meses para engorda de novo bácoro, entretanto já adquirido na «feira dos treze», e que prometia boa e anafada engorda.


A vida recomeçava então, de novo.Colocar o «brinco» no animal para ele não refocilar; chamar o alvitar para o capar, não fossem os apetites estranhos pôr em causa a engorda, atrasando-a, dar-lhe umas colheradas de óleo de fígado de bacalhau para lhe abrir o apetite, boas couves para deslassar o trânsito intestinal, e assim emborcar mais abóbora misturada na farinha que vinha do moleiro de Vale de Ílhavo. E todos os dias avaliar «os gramas» da engorda.


Era bonita esta vida, onde uma boa parte do que comíamos, vinha ali do quintal ao lado: do aido de «Cima» ou do «Lá de Baixo».


A vida tinha encantos; a televisão não invadia o seroar; contavam-se estórias da história, a mesa era local privilegiado de reunião familiar, onde com requinte se depunham vitualhas feitas com tempo e gosto, que ,paulatinamente – o tempo corria mais devagar! - se iam degustando


As tradições valiam, ainda então, como ouro de lei, a respeitar.


Senos da Fonseca


[1] Este meu Tio era o executor e guardador do arco triunfal da Sr.ª do Pranto.

Era um poço de sabedoria. Sempre bem disposto, mesmo quando já cego dava conselhos amiúde. Lembro-me de um, jocoso :”olha rapaz,a mulher é como a pipa. Quando lhe tirares a espicha vê se esguicha. Se não esguichar, outros lá andaram a bebericar”











 (do livro PREIA-MAR) DUNA A verdade era que, Aquela música sensual ouvida, Ritmada com a vaga a enrolar, Na areia da praia parada, Parecia...