sábado, fevereiro 06, 2021

 


(Escreveram-se  belas páginas a descrever o tumulto grandioso da  arte xávega. Esquecendo figurantes de primeira que encheram de espanto poetas e simples mirones. Hoje resolvi prestar jus a quem, ficando na praia, permitiu aos outros ir ver os sóis fugidios).


LAVRAR O MAR


Olho aqueles corpulentos

Majestosos e hercúleos 

Bois da velha companha

Que enlaçados ao calão da rede

A vão alando até deixar ofegante na praia

A parir do ventre estripado

O prateado peixe roubado ao mar.


Animais vindos do lado de lá

Do perfume adocicado da resina

dos pinheirais 

Trouxeram-nos à borda a lavrar o mar.

Vão nas manhãs de nevoeiro  em parelhas 

Cabeça baixa, olhar torvo, parecem, citados pelo mar,

A investir por ele vaga adentro, encharcados.


Afagados pela maresia

Nos dias de sol espraiado

Vejo-os resfolgarem, nariz no ar

À procura de uma sombra no areal caiada,

Que aqui não existe. Parecem velhos...

Os bois nasceram já velhos

Na cor pardacenta do seu costado.


Velhos no sossego da sua existência

Vão ruminando no alento da noite, a sua ausência,

Para no amanhã prateado voltar ao fadário.

Sob sol escaldante ou chuva de tarde desmaiada,

Fustigados pelo vento gélido da madrugada

Seguem de olhos turvos, despidos de um qualquer sudário,

Parecem amarrados a uma existência amargurada.


Sigo-os duna abaixo

Ao encontro do mar ousado, quebrado

Mar amargo, mar azul de tão salgado

A açoitar o xávega que alevantado teima ir,

Lá longe onde moram as sereias,

Largar a rede para tirar do ventre do mar

A prata que a terra não pode parir.



E lá vão, dobrados, encabrestados

Vão ao tropeço na areia lassa da duna.

Fustigados pelo aguilhão do abegão

Levam à sua frente, aos tropeções, os mirones

Que vindos de madrugada, de chapéu e botifarras,

Calça arregaçada, desertam em louca debandada

Em tropel, fugindo na frente do estoiro da manada. 

Na praia já se alinham os xalavares.

Os bois doridos pela jornada

Parecem perdidos no areal 

Semeado de escasso espezinhado, prateado.

Hoje não há mais ir e voltar


Hoje mar... podes ir  acolher o sol dourado

E com ele ir, lá longe, nos longes teus, namorar.




[para que as gaivotas voando sobre os vossos beijos me venham de madrugada contar  a estrela  do pássaro e  a  estrela  do  grito teu...MAR!]


SF




sexta-feira, fevereiro 05, 2021

 A TI NORTA

( De   “O LABAREDA”)


(...)

Truca... truca... bole que bole... enregelada e encharcada pela surriada que a açoitava, a Maria resolve, como tantas vezes acontecera, bater à porta da «ti Norta da Bruxa», habitual pousio dos grupos das companhas e viandantes, em cuja varanda da taberna escorropichavam  um copo de três, último alento para a caminhada até à vila. 

Ela, a simpática «ti Norta», nem era lá, nada disso, de bruxedos. A rapaziada d’ ibalho – o Mano, o Sacramento, o Saguncho & companhia – é que vinham com as fidalgotas da Costa Nova, e com o intuito de as amolecer e tornar navegáveis, lhes diziam para tomarem da sua jeropiga.Que, garantiam a pés juntos, tinha bruxedo de amor. 

- Era bruxedo era!... Era mas é para as chicharem ao colo, as boquilhas·, que p’reciam umas augadas- ia pensando a «ti Norta» enquanto enchia os copitos, postos em fila em cima do tampo. Era mas é p’rás engrominharem, assegurava. 

Já noite, a barca partira. A «ti Norta» não esperava alma penada saída daquele iroso tempo, pelo que, a simpática velhinha, fechara a porta da venda. 

Que logo se apressou a escancarar, quando sentiu o chamamento da Maria. Aberta a porta, do escuro, recortou-se a «ti Norta» segurando o candeeiro a petróleo que esparralhava uma luz mortiça, bruxuleante e enfezada, mas suficiente, contudo, para se ver na sua cara um sorriso acolhedor. Um andar ainda desembaraçado, embora aqui e ali uma ou outra tropeçadela com os tamancos ferrados. Cabelos de um branco intenso, prateado, aparecendo por debaixo de um lenço preto, de ramagens amareladas, amarrado em volta de um rosto redondo, tisnado pelo sol e pela salsugem, onde sobressaíam duas maçãs rosadas. Deixando aparecer duas covitas, quando sorria, prazenteira e bem disposta. Era assim a boa mulher, sempre de serviço, para os arrastados. 

- Ah! criatura que inté p’réces - amode - vir lá dos infernos ! Entra alma penada. C’a ta deu?!), p’ra vires com esta trabuzana desarcada. P’réces fugida a lobisome, c’um raio ! Aviste algum ? 

- Cal-se aí, «ti Norta». Astrazei-me por mor do meu Miguelito benza-o Deus e lhe acuda o S. Geraldo que nunca pensei que nosso Senhor me castigasse tanto, pelos pecados que vou fazendo na vida – t’a renego, mafarrico ! - disse a Maria enquanto se benzia três vezes. 

- Entra lá cachopa. Tira um púcaro de água quentinha do panelo, e vai-ta tomar um banho. Leva este camisote de dormir e, óspois , vem p’ró borralho prantar-te, que tenho lá um «caldo de conduto» com que te aqueço as entranhas, e engano a fome. Vá, maneia-te  que eu estou esgalfa , e vou andando c’uns jaquinzinhos de escabeche, que óscreceram  d’onte. 

Tomado o banhito na celha, a Maria atou uma corda ao camisote que lhe assentava compridote, apressada a sentar-se no mocho, perto da lareira, onde uns cavaquitos ardiam, fagulhosos, aquecendo a casinha, ao mesmo tempo que distraíam o olhar. Enquanto isso, a «ti Norta» limpava com o sorrascadoiro a cinza do borralho, juntando-a num montinho, para ao outro dia a despejar no quintal, na horta dos alhos. 

Retirado da trempe e destapado o panelo de onde fluía um odor que pareceu à Maria descido das alturas, com a cônchara, a «Velhinha», boa acolhedeira retirou um atafulhado caldo de sustância . Uns feijões vermelhos serviam de lastro a um naco de toucinho entremeado, escondido no meio de umas couves tronchudas, a que se juntavam umas rodelas de linguiça que conferiam ao caldo, sabor divino. 

Finda a vitualha - o caldo bem aviado - que teve o condão de retemperar forças, a «Norta» retirou do lume uma cafeteira enegrecida onde bolhava um café misturado com cevada. Que verteu para uma meia, para assim coar o trote, despejando-o em duas malgas de «cavalinho», botando-lhes  lá para dentro pedaços de pão de centeio, que embebidos na mistura líquida, negra, tinham o dom de espevitar o bebericador, criando disposição para um dedo de conversa, ao caso, entre duas falastroas, daquelas de, morrendes s’a não falendes. 

- Atão nobedades lá da bila? Disqu’ «Afecta» está outra vez pranhuda do Padre Jordão. Raios!... de cadela aciada.. q’apréce uma simprinhas, a beata. 

Sempre com o pé a puxar p’rá trízia. E o sacripanta, invez de guardar respeito à nossa Senhora, com quem diz «casara», anda é a embarrigar a eito, tudo o que tenha saiote d’alevantar. 

Por falar em embarrigar ; aqui òstrasado, a Rosa «Gueira», contou aqui na venda, que o Balacó esfanicou a cancela à Amélia «Cachina», e iu-se lá p’ró sule, sem dar òstifação, deixando a  inxerida, a oivir as marmurações  - sua esta sua aquela - à espera de um esgalhudo que a queira naquele estado, fora dos conformes. 

- É, pois astão...e não foi tómorólha nenhuma, «ti Norta». Estava mesmo a ver-se que tal assucedia. Ele era um taralhão  ; p’racia pião a dar rapóla . 

- E por cá ? - deu de perguntar a Maria, sabe-se lá porquê. Ou já vai saber-se. Esperem, que neste mundo tudo tem explicação. 

- P’orqui nada òsdenovo. O Tóino vindo lá do norte, inté p’réce que pensa ficar. Mas inda 

não arranjou testo para a panela. 

- Ora vai daí. «Testos» é o que há mais p’rài - diz a Maria parecendo desinteressada da novidade. 

- Pois é ...rapariga, e às vezes as que mais desdenham são as que mais querem comprar - responde a velhota deitando um olhar malicioso e inquiridor ao sorriso bonito que tinha surgido na carinha laroca135 da Maria - para logo acrescentar : 

- Sabas o c’a te digo : o rapaz não é mancatufe nenhum, e inté p’réce que teve mãe fidalga. Poucos andam por aí da sua ogalha , oiviste ?! Não é despescado nenhum ! Bota olho p’ràs tainhas a fazer borlido , à tona d’auga, mas só p’réce que procura peixe lá do fundo, peixe branco, como virgem. E mofa c’uas chaputas. Que não são p’ró seu tempero, como fez à Rosa «Delambida», doidinha d’astrepar por ele acima, como se o rapaz fosse uma enxárcia p’ra todas assuviremao mastaréu. 

Os olhos de Maria faiscaram, desprendendo um fulgor de desejo vindo lá do íntimo do seu ser, como que dizendo : «aqui estou !». 

(....)


Nota: todos os “ilhavismos” estão no original, traduzidas.


quarta-feira, fevereiro 03, 2021

 


O Espelho


Por detrás de cada espelho 

Há um acumular de silêncios por explicar,

Pedaços de vida  amortalhada 

Em tantos passos dados no ar.

 


Nos espelhos perdem-se os sonhos:

Estão lá coisas que não queremos mais ver

E não estão as que  já não existindo,

Gostaríamos que lá estivessem ainda.

 


No espelho tudo dói,

Tudo magoa,

Tudo desilude,

O espelho é como o vento

Que leva o bom

E deixa o que de mau vai restando de nós.



Fui espreitar, curioso, 

Atrás do meu espelho.

Vi 

Choro, sorriso, lágrimas, olhares de dor, sentimento,

Vi

Desalento, quimeras,  mágoas molhadas, razões esmagadas

Vi 

Amores perdidos, amores vencidos, labirintos criados no tempo,

Vi 

Crueldade, desespero, desengano, palavras mordidas, derrotas marcadas, 

Vi

Direitos ofendidos, tortura de silêncio interior, surdo lamento.

 


Dizem que as dores acabam com a sua morte

Só uma perdura  mesmo depois de morrer:

 A Ingratidão… 

Desta tralha havia  muita, atrás do meu espelho.


Peguei na tralha e estendia-a.

Fiz então dos braços 

Mastros erguidos ao céu,

Mezena e traquete cociados,

Fiz das mãos estênsulas postas ao léu,

E entre eles estendi o mariato.

Atei o que vi 

No cordel imaginário do tempo.

Estava ali, eu!... de corpo inteiro.

Assim, nu, exposto ao vento.



Parti o espelho

Quero apenas me olhar 

No espelho dos teus olhos

Ternos, profundos como o mar,

A não querer saber o que fui

Nem o que não fui,

Apenas saber o que ainda sou.


terça-feira, fevereiro 02, 2021

 A Tragédia de Juncal Ancho

E, de repente, o tempo chuvoso, como por encanto, suspendeu o incómodo do molha- tolos. Molha-tolos, porque na Costa Nova, mesmo com este tempo, noutros lugares desabrido, aqui, numa sota, salta-se logo para a rua. E claro, de vez em quando, somos surpreendidos por uma garroa.

Saí para o esticar de pernas diário, sabendo que, mais ali ou mais abaixo, encontraria a Zefa e a Tibéria. Ná, elas não eram mulheres de hibernar com um simples ameaço.

E é que lá vinham:

- Esta melhoria de tempo veio para ficar ou não, minhas gentes? inquisilei eu.

- O tempo é como o marinheiro. Nunca se sabe se veio para ficar se para saltar amanhã

Para nova emposta, reflecte a Tibéria. Pois, isso mesmo. Muito arrazoável. 

 - Era por isso que quando o meu Toino achegava, eu não o fazia esperar, não fosse o mar chamá-lo à pressa. E ainda ele não tinha apoisado o saco, e já eu o beliscava, espenicando-o todo, pronta para lhe tirar o «sarro» dos dias de lide, e achapar-nos ao folhelho: á home que ando com uma fome de ti; anda cá meu bardau, que te estrafego. E nem o deixava respirar tal era a força do abraço. Até parecia, mesmo, uma bárrega esgalmida.

- Delambida de um raio q’inté pracias uma santinha…

- Olhe, Ti Zefa – comecei eu – tenho andado a pensar:

 vossemecês alembram-se da tragédia de Juncal Ancho?

- Ah… olhe que não. Isso foi, sei lá; há que benícias. Eu só ouvi contar, era ainda muito novita. O Ti Gaivotinha, esse sim. Esse até p’rece que era um dos embarcados numa das «ílhavas» que levaram o pessoal à festa. Você conhece a história? – acrescenta…

- Olhe que por acaso conheço, li-a, e também ouvi nos Sete Carris, à Ti Tuna, referi-la várias vezes. E como a pretendo contar com mais pormenores, pensei que Vossemecês me ajudassem.

- Atão hoje é você que fia fino e faz a despesa da conversa. Maneie-se que nós atracamos aqui ao murete.

Então aqui vai:


……os «ílhavos» eram gente de grande fervor religioso, como sempre aconteceu com comunidades piscatórias. Mais tementes aos santos que à aspereza da natureza que defrontavam.

Não havia orago celebrado pela borda da ria que não motivasse dia de folga das lides, e não impusesse uma ida de bateira, com a família e vizinhos, para cumprimento das promessas que amiúde se faziam – que aquela vida era um «cão». Ao mesmo tempo aproveitava-se o folguedo para convívio, ou para pôr em dia,o atrasado conversalhar com conhecidos de fora, em trautos feitos, vulgarmente, por entre o escorropichar de uns copos de vinho, batidos de balcão em balcão, por entre as vendas do sítio.


De entre os oragos de reconhecido mérito – que festa de arromba elegia e glorificava – o S. Inácio do Boco, assumia carácter de invulgar dimensão. A justificar reiterada devoção e consequente visita. O seu altar encontrava-se erecto em Igreja, lá em cima debruçada sobre a ria, sita na colina que alberga no cocuruto o burgo. Logo ali ao dobrar da carreira da barca da «Forja» – Fareja – onde em tempos idos fundearam as barcas e pinaças de alto bordo que vinham mercadejar, às Gândaras. Era visita obrigatória.

Num dos esconsos becos da chousa de Alqueidão, por onde se alinhavam tugúrios de abrigo, a pescadores, marnotos e saveiros, os dias que antecederam a festa foram de intenso parlatório destinado a assumir presença, mas e também, perlengando sobre as vitualhas a incluir no farnel. Que se queria, coisa de regalo.


Chegado o dia, o «Zé da Preta» mai-lo «Thomé da Fidalgota», embarcaram amigos e familiares nas «chinchas», desocupadas e escorreitas de tralhas e estrafegos, onde se aconchegaram vinte e duas almas devotas. Ainda o sol não despontava, desgarraram do cais da Malhada aproveitando para isso a maré que já montava. Partiram alegres, folgazões e prazenteiros, para uma grande jorna que parecia ser capaz de pôr ameno no estupor de uma vida danada. O aquilão dava boa mareação. E quando o dia amanheceu, tinham já na amura de bombordo o palácio dos Botelhos. A manhã acordava com os maçaricos alvoroçados em matinas em procura do primeiro alimento. O sol a levantar-se, em hóstia de vermelhão suave, prometia jorna acalorada, deixando ver a serra desempachada de névoa, limpa lá para cima onde os montes luziam com o farfalho da manhã. Para outras bandas, onde um outro santinho de especial devoção destas gentes, o S. Geraldo, tem o seu pousio, na serra erma.

Vogavam enfarpelados a rigor, os romeiros. De calção branco largueirão, que se estendia até ao joelho encobrindo perna tisnada pelo sol e maresia; barrete descaído sobre o dorso, e camisão de linho, aberto, que deixava entrever o torso de gigantes da laguna. Elas de cara rija. Onde fulguravam dois olhos em brasa, ardentes e brejeiros, engalanadas por chapelinho de veludo preso à nuca por lenço de merino garrido; chambre branco cingido ao colo.Que pedinte de afago sensual repontava nas pregas da camisa floreada. Saiote de baeta descendo rente até aos artelhos, escondendo de olhos gulosos a visão deslumbrante de duas prendadas pernocas que vinham desafogar nas chinelinhas pretas, cingidas aos pés de «gaivina andeira» por cordão de abotoadura. O calor a meio da viagem, fortalecido pelo reflexo na água espelhada da laguna, fazia com que o busto do mulherio se esquivasse por entre o esconder das roupas de aconchego. E que, de entre rendas, brotassem, como pombas brancas aconchegadas em linho, peitos que assomavam e tentavam o olhar de quem, guloseimando, sonhava vê-los. E tocar-lhes. Ou até só aspirar o seu perfume e aconchego.


A aragem do norte cedo lhes permitiu a demanda e o desembarque no cais do moliço; sem delongas – que santos não esperam! – foi (logo) tempo de desembarque e de monta. Por caminho directo se alcandoraram até à Igreja, que naqueles dias treluzia com o seu chão lavado, ensaboado a amarelo, e depois brunido. Junto ao altar dois tocheiros ardiam, ajudando a quebrar a penumbra do templo a que só a porta dava entrada à luz do dia; castiçais de latão do tipo mourisco substituíam em lindeza, que não em valor, a prata afiançada. Só de pousio em outros templos de mais ricas alfaias. Nas paredes em quadros de talha doce, viam-se imagens penduradas de Stª Rosa e Stª Eulália, e outras estampas catitas ou figuras de feições celestes. Prometendo bem-aventuranças por entre copioso (e cheiroso!) efeito de lírios, jarros, mimosas, madalenas e alecrim. Ajoujados em vasos de faiança local conferindo ao templo um doce e suave, e lânguido, perfume celestial.

Hora de ouvir a santa missa. Desbravar o terço benzido, deixar uma esmola, e cumprir o prometido. Satisfeita a obrigação da fé, era tempo de lograr a sombra de uma oliveira – que o sol mordia a terra –, e desempalmar o escabeche mai-las solhas bem emparadas na molhenga. E os bolinhos de bacalhau, que iam assim cumprindo «o antes». Até ao momento de desenfardar o capão esplêndido: – cumpridos que estavam com a dignidade de quem se sente talhado para o fim último do sacrifício, seis meses de cuidada engorda. E que, como «feito» da bem acerejada assadura, exibia um jalme a escodear sem demora, de cuja prática se soltava fragrância divinal. O vinho, em reponta de maré, corria caudaloso pelas gargantas ressequidas que dias de sóis estivais ou de noites de suão tórrido, exsudavam estas gentes da laguna. O Boco, situado nas faldas das bairradas, era sítio privilegiado de boa produção avinhada – fragrante e saborosa. E nesses dias, aproveitava-se a visita para da mesma se fazer adequada publicitação. Assim, não raro, excedia-se o que seria adequada emborcadura, para cedo se atingirem limites de comportamento pouco adequados que, por norma, descambavam em confrontos violentos –verbais e ou físicos – pelos mais fúteis motivos.

Vista a procissão, feitos os últimos escorropichos nos descansos dos tascos do sítio, por entre risos musicais saídos das rebecas dos tocadores de ajuntamentos, e anunciado lá para as bandas do mar o lusco-fusco da noite estival – que embora preguiçosa vinha chegando, e com ela aragem frescota – era hora de partir. Levantaram-se as velas.Era hora de voltar à Vila,pois que ao outro dia, madrugada ainda não acordada, ao primeiro trilo de maçarico cantador era hora de botar o botirão a coar.


Chegados lá para as bandas do pinhal da água fria, o vento tornou-se instável, prenunciando doido corrupio que impedia a boa singradura a norte; as mentes estavam toldadas demais para lhe encontrar o jeito bom para nele navegar. É então que numa golfada rija emborcada pelo través, que a «Preta» vai direito à «Fidalgota» e lhe entra pelo cavername adentro, levando tudo à sua frente .Bico da proa embatendo com violência na cabeça da Zefa, embarcada na «Fidalgota», matando-a de imediato.

Foi o fim; gerou-se uma encarniçada luta mais parecendo uma verdadeira abordagem de corso, com o mulherio em vozearia espavorida ao ver as naifas logo desembainhadas pelos seus homens, que, ébrios do tinto e da odiosa vingança, procuravam sítio e carne por onde se espetarem. Uns ainda dentro da embarcação, outros já na água aonde tinham vindo parar após embate,todos pareciam esquecidos do semelhante «amigo e vizinho», que se tinha, instantaneamente, transformado em figadal inimigo de que só a morte permitiria livração.


Foi uma tarde ensombrada de sangue. Vinte e uma vidas ficaram esventradas; umas dobradas sobre a amurada escorrendo para a laguna, enquanto esbracejavam nos estertores da morte; outras, boiando sobre as águas da ria que desciam para o mar, acompanhadas pelas águas tintas de tanto sangue esvaído.

Apenas um, de entre os romeiros do Stº Inácio, lograria escapar com vida.

À noite, temendo vingança de vizinho ou familiar, tomou lugar numa enviada que estava de partida para Setúbal.E desse modo lá escapou a destino mais do que certo.

O desembargador ao outro dia logo mandou uma patrulha para averiguação do desacato.

No simples relatório que lhe chegou às mãos, apenas constava:

“Das vinte e uma pessoas do foral de ílhavo (sic) desaparecidas, nada se sabe, senão o terem-se ausentado para parte incerta”.

E assim se deu como (legalmente) encerrado, e sem identificação de culpados, um dos piores acontecimentos de sangue fratricida vertido por «ílhavos».

Quando acabei, li emoção nas minhas companheiras de conversa.

- Linda mas desalmada história. Pois. Íamos a todas as festas da ria – Maluca, S. Paio, S. Jacinto. A todas onde houvesse santinho milagreiro. Para lá, ia-se a cantar. Alegres, anchas e vivas. Para cá, vínhamos moídas com o quebranto de tanta folia.

- Pois, diz a Zefa. Parecíamos uma pégorra: para onde vais, Maria (?): – p’rà festa!!!!!! De onde vens, Maria (?): ó tiazinha, venho de onde havia festa.


SENOS DA FONSECA


segunda-feira, fevereiro 01, 2021

 



Horas vagabundas

Roubaram-me as horas vagabundas,
Perdidas na sem razão do fugir à lógica da vida.
Já nelas me não descortino, especado
A olhar o fulgor do sol a se esvair, envergonhado.
Horas de vida sem tempo
Em que eu era o mesmo sem ser igual;
À procura de um ou outro momento
Em que a tua imagem viesse num cavalo alado
Ali, se sentar ao meu lado

Para alívio dos meus ais entediados.

SF


 Choro este País 


Do «Grande Afonso» a mais querer que um País 

Partindo em gloriosa cruzada, gladiou com o mouro infiel]    

Para fazer do seu Condado um Portugal de raiz  

Numa mão a espada, a cruz na outra mão empunhada]

A mim! A mim! Gritava Afonso, foge o infiel em debandada.]  


Choro este País,

Onde a arraia-miúda se exalta e se faz graúda

 Parecendo já um povo por inteiro em que se torna 

Ao expulsar o intruso e pérfido castelhano então

Atirando do cimo da torre, à turba, o castelhano Andeiro:]

Aqui há um povo a sonhar com Portugal nas suas mãos.]


Choro este País,

Do grande el-rei João Segundo 

Os mares assombrosos, terríveis e solitários

Mandou serem navegados, e desvendados

E as trevas e os medos, passaram a estórias

A mostrar a grandeza de Portugal ao Mundo.


Choro este País

De onde saíram cabrais

Albuquerques e outros tantos gamas,

Heróis a quem o mundo ouviu contar os mistérios, 

Tão grandes como ditosas e louváveis foram, suas famas]

Ao fazer de um País, vasto e grandioso Império.


Choro este País

Do imortal vate que nossa epopeia descreveu. 

Em versos vertidos da sua pena prodigiosa

Dando ao mundo a conhecer ínclitos Varões

E os feitos de gesta brava lusitana, grandiosa (!)

Para sempre ficaram gravados no lirismo épico do imortal Camões.] 


Choro este País

Que teve de Vieira a palavra eloquente

Para defender os fracos dos abusos dos fortes.

Falando aos peixes por mor do Homem ausente,

E aos homens por mor de Deus sempre presente, 

Espalhando a sublime palavra, botão florido do mais fino recorte.]



Choro este País 

De Pessoa, o Mensageiro, poeta desassossegado

Cuja genialidade, por louca, só em si não cabia,

Dispersando-se por outros «eus» que não era o seu,]

E por não o ser, foi sempre obra inacabada,

De laborioso mestre a extrair beleza, onde beleza não havia.]       



Porque choro, então, País tão grandioso?


Choro este País, não pelo que foi, mas pelo que é

Choro o dia em que anunciou não querer, nunca mais!, ser escravo

País onde mais do que mandar, era preciso saber obedecer

A si, e não aos outros, a ser livre, não Senhor de nenhuma guerra

A ser o Povo que aqui mandasse, a ser o Povo que aqui reinasse. 


Choro pois este País, pelo que prometeu ser

E por afinal hoje ser, aquilo que não queria ser 

País este, o meu, onde afinal se soube melhor «arrancar» que colher

Onde cuidámos mais do vício «de ter», do que do «ser»

Em que alimentámos por demais, as ambições dos novos corifeus.


E assim o País que parecia voltar a querer nascer

Não nasceu – Morreu!......


SF



sexta-feira, janeiro 29, 2021

 


Ontem A Etelvina no seu POST levanta o caso da "Barca da Passagem".Há uns bom 15 anos,por duas vezes ,em situações diferentes,abordei este "cenário de relevo" na história da Costa-Nova.Recupero o primeiro. 
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A BARCA DA “PASSAGE”
 


A barca da “passage” era o único meio de acesso ao areal na beira-mar da nova costa, desde os primeiros tempos em que, as Artes, vindas da costa velha, em S. Jacinto, se vieram   postar nas primeiras décadas de oitocentos, atraindo, diariamente, os muitos pescadores empregues nas mesmas, mais o mulherio que ajudava no desembaraço e e escolha do peixe.Bem como os mercantéis e os muitos almocreves que, pela noitinha, burricos carregados, se embrenhavam por esses caminhos perdidos da serra, ladeando vales e barrancos para, ao outro dia, logo de manhã, não faltarem com a venda da prateada sardinha, lá para as beiras interiores e ou, bairrada. 

No início, ainda as companhas usaram enviadas para facilitar o transporte ao seu pessoal. Mas a confusão gerada, cedo indicou que o bom sentido era o da privatização (?!) daquele meio de transporte, deixando-o nas mãos de barqueiro que, dono da sua própria embarcação, estava sempre disponível para fazer várias vezes ao dia - e até de noite - o transporte, de pessoal e material. 

A largada da barca, sem hora marcada, rigorosa, era anunciada pelo toque singular, roufenho, de um búzio que se ouvia - nesses tempos isentos de outros arruídos incómodos - a um bom quarto de légua de distância. 

Antes de largar dos moirões o arrais dava uma olhadela lá para o fundo do caminho a ver se enxergava alguma alma atrasada. Quando tal sucedia, se a distância a percorrer não demorasse mais do que escassos cinco minutos - pelo cálculo do arrais, entendido nesse assunto! - adiava-se a partida. Certo é que tal adiamento gerava, de imediato, uma zanguizarra dos diabos, com os passantes já embarcados, escalabrados pela demora:  

- Eh «ti Norte». Astão vossomecê quer-nos fazer perder a maré?!... estipôr... Por causa duma marafona atrasada, que esteve, foi, entre pernas mais tempo 

còdebido , e agora nos faz esperar ?! Largue mas é... homem dum raio! 

- Calende-vos ou ides a nado, que ides mais depressa e mais fresquinhas - respondia o arrais em voz rouquenha de labrego, moído de tanta algarviada. 

Chegada a Rosinha Escudeira, a conversa logo  mudava de tom e forma.Era imediatamente outra. Aquela gente era muito sabida, e então no fingimento, umas doitoras: 

- Ah Rosinha, q’uim fim q’ue sempre achegastas filha ! Se não fôssamos nós, o raio do «Labareda» não esp’rava por ti. Raios do home, c’anda sempre com o fogo entre pernas. E não há quem lho acalme. 

- Credo!...fosse eu nova, e cachopas (!), o pavio do Tóino derreava - faiscava a Alzira «Saltoa», mulheraça já cansada dos anos, lá dos Sete Carris, só para adiantar conversa para a galhofa. 

O «Labareda» ria-se com tal desfaçatez. Ele sabia que era tudo gente boa. Aquilo era tudo facécias. Pois numa astrapalhação eram bem capazes de despir a roupa, para com ela agasalharem uma delas. Gente de acudir, solidária e amiga, mas gente simultaneamente brincalhona, ladina, tarrinca, naqueles momentos de descontracção em grupo. 

O ajudante à proa enterrava a vara no ombro para aproar a barca a oeste. O arrais deixava-a descair um pouco, para logo dar ordem de meter a pá da borda. Leme a meio, caçava a escota retesando a vela com a dupla laçada na draga, fixando a mareação numa proa apontada ao trapiche da outra banda,alli ao lado do salão do Arrais ,que se o noroeste ajudava ,poderia ser alcançado de um bordo.

Já por diversas vezes, o «Labareda» chamara a atenção, ao regedor, de que a mota devia ser deslocada para sul, aí uns cem passos, pois, se assim fosse, num só bordo, fazia-se a travessia. Se o vento era frescote - e quase sempre o era, bufando lá do noroeste - cinco a dez minutos eram mais que suficientes para laçar moirão na Costa Nova. 

Durante a travessia era uma algazarra ; a miudagem corria a sentar-se no bico da proa, sonhando com o dia em que se sentasse ao leme, a retesar a escota, e rumar, ponteiro, ao outro lado. 

Os almocreves, que tinham deixado os burricos a descansarem na estrebaria da «ti Norta», a recomporem-se da jorna com palha fresca - pois que para cá tinham vindo carregados de azeite lá das serranias, o melhor ! - deitavam contas à vida na tentativa de ler o tempo. Imaginando como seria a noite,  serra acima ladeando a ravina, 

atravessando o riacho, metendo à desbanda por um atalho conhecido... toque... toque..., iam por entre pinheirais a zangalhar, assanhados com a ventania da noite, a facilitar que por ali surgisse algum marmanjo da rapina. Percorrendo ligeiros os caminhos lá para o interior, para que as gentes lá de longe, pudessem ter acesso ao peixe da borda do mar ainda com olho bem vivo.. Por isso, e porque amanhecido o sol era tempo de entregar o carrego lá para as bandas de Viseu, havia que dar ao pé. Burro e pimpão almocreve. 

Por vezes aparecia para atravessar, na barca, o João «Ruço», exímio tocador da concertina que fazia as delícias dos embarcadiços ; encostado à barra da escota, atirava- se ao «vira que vira», esbofando a sanfona, enquanto com dedos ágeis percorria os botões das notas. E logo duas pescadeiras saltavam lestas para o centro, saltitando e rodopiando, pés descalços «sapateando» nos paneiros, enquanto a voz fina, mas timbrada e maviosa da Joaninha «Cantadeira», se fazia ouvir : 

                   Lá bem na viração 

                  Meninas bamos ao bira, 

                   Que lá no bira ‘tá tudo. 

                   Ó real das canas !  

                  Que lá no bira ‘tá tudo. 

                   E a água do Bota Fora

                   É  cum’ò binho maduro 


Enquanto isso, as cachopas, num falazar grazina, aproveitando o ripanço daqueles breves momentos, lá iam em conversa onzeneira : 

- Astão Rosinha? foste a última a vir lá da vila, deves saber novidades. Conta- nos lá, chopa !... 

- Novas, só que entrou na barra o iate do Ti Cachina, vindo lá da estranja. A Ana «Fradoca» foi esperar o homem, o Armando Ramízio. Logo à noite, lá p’ró Arnal vai ser uma zanguizarra dos diabos. Sete meses de fastio, gentes !..., nem as pulgas  

incomodam. Chegada a hora, vai ser tempo de medrar menino. Idas ver .... 

- Olha c’os tempos não estão nada p’ra isso, rapariga. Só vejo fidalgotas a cheirar o frescal, e a desdenharem. Que não presta: - dizem ! O que essas delambidas querem é «dado». Mas enganam-se. Que cá a Zefa, dado, só ao meu home. E num é sempre ! C’às vezes lá lhe caço umas felpas, a troco do festim. Que não é para o gabar - q’inté é p’rigoso com tanta serigaita a q’rer pastar - mas cá o meu Zé é danado p’rá brincadeira. 

- Ah!... Zefa, c’alte ... Tu sabes q’ué bom, porque nunca comeste doutra malga... 

malga. 

 - Amorna-te aí... raios ! Tem relego essas toleimas. língua e não nos desinquetes...

Outra figura que era habitual, de tempos a tempos aparecer a tomar o seu lugar 

na passagem, era o «amolador». Carrinho de roda com os apetrechos para colocar a 

gataria nos barros esfanicados, ou esmeril aconchegado, pronto para afiar os navalhões da trupe das campanhas, ferramental indispensável ao exercício diário daquelas gentes, precisando do gume bem afiado, capaz de cortar papel em tiras de enfeitar. O ti Francisco da «Gaita», assim era chamado por anunciar a sua presença, de porta em porta, por uma gaita de beiços, com sonoridade distinta e singular. Aviso para se ajuntar todo o material a necessitar de reparo, à porta dos palheiros, onde exercia o seu mister. 

- Oh «ti Gaita» - dizia maldosa a Berta «Lamaroa» - vossemecê não é capaz de me pôr três gatos numa racha, p’ra a aviar como nova ? 

 - Asponho , pois então. Cuida-te, ósdepois  porque os gatos miam de noite, se incomodados, e gostam de tripa miúda - respondia sisudo o «Gaita», homem de 

pouca conversa fiada. Que fiado só os muitos calotes por trabalhos feitos àquela gente, a aguardar paga, à espera de melhor maré. 

Tempo de chegar. O arrais media a distância, e, chegado o momento, orçava, 

apontando a proa ao vento. Folgada a escota, recolhida a pá da borda para cima do 

traste, o vento e a corrente levavam a borda da embarcação a beijar, suave, o trapiche a que acostava, para descarrego das gentes. 

Era um desaforo. Uma restolhada dos demónios. Todas queriam ser a primeira a colocar o pé descalço no tabuado da mota. Lestas para chegarem à escolha e venda do peixe. Se o não havia fresco, porque o mar não tinha permitido lanço ao meia-lua, carregava-se do escorchado que, à falta de melhor, também tinha clientela,numa falta.


À volta, no regresso, ao fim da jorna, era um lamuriar  de arrenega. 


- Danado do mar ! Aquele cão anda mais «seco» que trimbaldes de porco 

capado; o peixe branco está pela hora de morte, não se lha pode achegar. Mais caro 

c’ós pozinhos de Maio milagreiros, da botica do «ti Cunha» - queixava-se a Ana 

«Espadela» maneando a cabeça num esgar de nojo, ascupindo para a borda.. 

Mal, acomparado,  que comparações só se podem fazer com os santos - era assim


- Maria, para onde vais tão pimpona ?!

- Para a «festa!!!»

À vinda :

- Maria ? : - de onde vens, cachopa triste? - Da... «festa...»   


sexta-feira, janeiro 22, 2021



The last but not the least...


(agrdecendo todos os queue teimaram em convecer-me que há que seguir.Obrigado)


  Herético empedernido

  Clamo aos deuses lá de cima:

  Isto de prolongar a vida

  É deferência,ou castigo?

   

   Cala-te, irreverente,homem sem fé,

   O que vier é ganho teu.

   Contenta-te com a tua pequenez

   A vida não se agradece:

   Cumpre-se o destino

   Tenha-se ou não

   A virtude de nela se ser

   Rebelde,

   Ou aquietado andarilho.



    A lareira acesa,hoje,  não me aquece.

    A lenha arde, parecendo como eu, viva.

     Só que pão chega parecer

     É preciso que os outros nos sintam vivos..


Senos da Fonseca  jan 2021

 


quinta-feira, janeiro 21, 2021

 

Longa vai a jornada.

Já longa vai a minha jornada
Nem sei se rasto nela deixo
Tantas foram as vezes que bati em seixo 
Esquecido no leito da estrada.

Deitaram-me à vida...

Não vieram reis, nem magos, nem estrelas 
Para adoçar meu caminho magoado,
Feito de rumos errantes em mar irado, 

Enevoado.

Apenas me foi dito

Vai! e sê tu !- todo e verdadeiro.  
Nunca mostres as sombras de que és feito.
Os caminhos tropeçam e enganam,
E ainda que os horizontes te pareçam negros 
Nunca lhe vires as costas.
A vida é uma dança
Depois da tempestade vem a bonança. 


Senos Fonseca 222-01-2021




sábado, janeiro 16, 2021

Mais uma folha arrancada


Prestes a arrancar

Mais uma folha 

Ao já amarelecido

Calendário,

Apetece-me dizer à vida:

Pronto, ganhaste.

Levaste as minhas lembranças

E eu por aqui ainda fiquei

A ver, não o que queria,

Mas a não querer já muito a que assistia.


Vai longo este caminhar

De quem tanto quis sonhar 

A guardar folhas e folhas

De horas cheias, desmedidas,

Outras por vezes 

De sentido tão vazias,

Tão brancas de horas 

A não despertar lembrança

Que ,vivê-las só me acarretou

Mais amarga nostalgia

Do que verdadeira alegria.


Sei...é inútil pedir mais a vida.

E injusto para tantos

Que não tiveram o tapete

Que sempre rolou à minha frente.

Bom era, que a minha vida acabasse

Ainda no cume da montanha

Que já outros começam a subir;

Vá, não tenham pressa

Que o subir bem pouco custa,

Bem mais difícil é o descer

E manter a dignidade sem cedências,

A escorregar com humildade,

,A tactear o caminho 

Para ser mais segura, a penitência.


SF 2021





domingo, janeiro 03, 2021


 

Postal 10

A Joana Maluca

Aqui sentado no meu canto à beira rio plantado por mim, com um sonhado e não escondido propósito de um dia poder gozar a velhice, desgastado do corpo que não dos sentidos, inebriado por esta ria, tão inquieta quanto eu, mas muito mais prodigiosa na oferta de sensações que dela podemos extrair e guardar. Hoje, «Iemanjá», das águas vivas, reluzentes, cheias de vida… E agora que já pouca beleza extraio da vida, é ela que (me) consola nestes momentos – eu sei lá?! – se os poderei chamar de criativos. Pelo menos, aqui, criar, significa sonhar, querer, desejar. Sonhar com as palavras que gostaria de dizer, e que, se afinal não digo, é porque me falta o estro.

Mesmo defronte aos meus olhos – ali mesmo! –, ficam as terras da Joana «Maluca», figura histórica por quem sempre tive largo apreço. Como tive – ao menos – «talento» para cimentar amizades que duraram uma vida, essa qualidade historicamente registada na figura da Joana, atrai-me. E há muito, depois que contei a «estória» das visitas do José Estêvão à grande senhora (vide www.senosfonseca.com, clicando na janela Factos & História, em Palheiro de José Estêvão), apetece-me dar um retrato mais preciso da Joana.  

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Às vezes não chega, a um indígena, ser maluco. Para sê-lo é preciso parecê-lo. Ora a Joana Rosa de Jesus, «a Maluca», não só o não era, como nem o parecia. A alcunha, coitada, ter-lhe ia vindo de ter casado com um dos primeiros foreiros do Senhor de Vagos, o pastor José Domingos da Graça «o Maluco».

A Rosa de Jesus era uma «Gramata». Nascida em Ílhavo, em 1788, era originária da família dos Gramatas, lá do Arnal, cujo avô, o Tomé Francisco, fora um dos primeiros foreiros que nos fins do século XVII se teria vindo estabelecer para aqueles terrenos arenosos que bordejavam o canal que ia lá para os lados de Mira. Ora o certo é que o Tomé Francisco tomou o nome de «Gramata», que era o nome por que eram conhecidos aqueles terrenos lodacentos que tinham vindo lá das entranhas da ria, e onde apenas parecia capaz de nascer e se desenvolver, uma erva marinha, conhecida por gramata: «diz-se a qual mó do meio produz junco e hoje pela continuação da maré salgada já o não produz, mas sim erva que chamam de “gramata”, apetitoso manjar para o gado».

Em 1883, a Joana «Gramata» e o marido, «o Maluco», que teria vindo lá do sul de Vagos, fazem o aforamento da «Quinta do Feijão», local preciso onde hoje se encontra situada a Capela da Sr.ª da Encarnação (aqui mesmo exactamente no «azimute» da minha proa).

A Joana, já então conhecida por Joana «Maluca», cedo ficará viúva. Não sem ter botado à vida nove rebentos, que lhe darão a bonita prole de 66 netos. Viúva aos 48 anos, irá casar com António Sousa Pata.

Não teria sido fácil ao José da Graça convencer a sogra a dar-lhe a filha. «A Gramata», já gente de sinal, olhava para o rapaz, pastor das castras enfezadas e raquíticas, e tentava inquirir o que «ele» teria de «seu» ou dos seus, tanto fazia.

Ora numa noite estrelada enquanto fixava as luzinhas lá no alto acudiu ao José – rapaz esperto – uma ideia que logo ao outro dia botou em prática. E enquanto na eira da «gramata» ia respondendo aos «quesitos» da mãe de Joana, não esteve com meias medidas: – colhendo na mão umas espigas de trigo, atirou à «Gramata»: 

- Olhe Sr.ª amiga: eu pareço um pelintra a vadiar aqui com o gado por estes areais. Mas não colha o gato pela cor do pêlo. Que a casa de meu pai é tão abastada e tão rica, que à noite há tantas luzes a iluminá-la, como grãos que tenho aqui entre mãos». 

E logo ali, a convencida e crédula sogra, aprazou casório.

A Joana, embora de perfil varonil em que uma teimosa barba lhe cobria o queixo realçando-lhe o tipo, era, contudo, uma aprazível e simpática mulheraça. Mulher ridente, faladeira e sempre bem disposta, fumava viciosa e deleitosamente charutos, que amigos e comensais, da sua lauta e farta mesa, lhe faziam oferta, mantendo o stock sempre abastado.

Abria com regozijo a porta aos políticos, recebendo amiúde José Estêvão que se fazia acompanhar pelos ilustres que o vinham visitar ao seu palheiro da Costa Nova. Indo de barca, passava a ria, atracando na mota da passagem, em terrenos que confinavam com as terras da Joana.

Mulher activa, empreendedora, boa na arte de negociar, rapidamente a sua casa emerge como das mais poderosas e ricas da região. Benfeitora, é ela que cede os terrenos da sua quinta onde se virá a instalar a capela da Sr.ª da Maluca, dotando-a com algumas imagens de oráculos, devotos, que amigos de Aveiro lhe teriam oferecido.

A Joana «Maluca» virá a falecer em 28 de Janeiro de 1878.  


quinta-feira, dezembro 31, 2020

 

VAMOS ACABAR COM "OS RICOS"?!

Este mundo está, deveras, perigoso….

Anda por aí uma corrente de activistas que se propõe fazer o que Otelo em tempos tentou: acabar com os ricos.Sem mais...

Bem Vos tenho dito e avisado: os deuses devem estar loucos para consentir tais desmandos parvos.O fim dos «ricos»...e depois ?!

1- Acabando os «ricos», acabam-se com os «pobres». Evidente. Só há «pobres» porque há «ricos».

Passando os «pobres» a ser considerados – «ricos» - será tempo de os esmifrar  até ao tutano. Os mesmos de sempre, sacarão da cassete e apregoarão : os «novos ricos» que paguem a crise». 

A bíblia bolchevique di-lo, e a luta de classes continuará até ao último dos novos  «pobres ricos».

2- Mas preocupa-me ainda mais que sejam estes novos «pobres ricos» que tenham de sustentar os «velhos ricos» que aceitaram empobrecer. Sorridentes, colaborantes, e sem fazerem um manguito.

Teremos,  então, de  criar uma nova taxa que vá permitir que os ex-ricalhaços continuem ricos a valer. Por assim o merecerem. E há o perigo de que os ditos (ex -ricos), agora como trabalhadores, venham pedir indemnizações por despedimento  colectivo de classe, o que poderá atingir números  indemnizatórios assinaláveis (maiores que o Novo Banco). É mais fácil um tubarão comer carapau em vez de cherne, que um rico dispensar a sua dose diária de caviar. Desconfiem...   

3- É verdade! Ou pelo menos parece: - os «ricos» andam por aí  a oferecer-se para dar uma corda a quem lhes der um porco (cevado).

Eu ando preocupado porque, com este abaixamento de rating, ainda um dia posso aparecer, na Forbes, entre os mil «pobres ricos», e exposta a minha fortuna em dez patacos furados.

Não podem voltar atrás e arranjarem um subsidiozinho para manter os «ricos» ainda mais «ricos»?

Se os «pobres» já se habituaram a pagar as crises (esta e todas)…porra… é só mais uma.

E os rapazes ricalhaços lá continuariam a carregar com o fadário. Porque isto de se ser

«podre de rico» deve cheirar que fede.

Estes activista de meia leca ,cabecinhas delirantes,são perigosos....


Senos Fonseca





quarta-feira, dezembro 30, 2020

 POSTAL DA “CASA DO BICO”


S. Bartolomeu: dia do diabo à solta


Nem o despertador precisou de me chamar, nem o galo de cantar; parti no horário em que sabia apanharia as «faladeiras». E a meio do percurso, lá vinham as duas simpáticas pescadeiras, lestas e ainda desempenadas das pernas. Notei que vinham a gesticular fortemente, parando de vez em quando, especadas na marginal.

Máquina a meia força, fui-me aproximando. Pára a máquina!..., devo ter pensado. E fiquei a pairar, à espera que as duas, a Zefa e a Tibéria se aproximassem. E leme a bombordo, atraquei ao de labaró, e dei os louvados:

- Louvadas Vossorias, gente fina desta praia velhinha; mas ainda bonita e asseada como o são as as suas cachopas.

- Ah seu endrominador, você não perde tempo para, ainda não ter passado a mão da barca e já está na mangação, seu camanduleiro.

- Eh Ti Josefa, essa de camanduleiro é que eu nunca ouvi. Astão o que é lá isso? Perguntei interessado no léxico vernáculo.

- Ai não sabe?!... pois… pois… eram os rapazotes enganadores. Ou as beatas na camandula: de terço de contas grossas à vista, as banguinas a fingir que iam a rezar, aquelas calamantronas. O que elas estavam era a fazer horas para irem ao confesso, onde o Padre Horácio lhes despertava a cocegueira na cricalhada. Que eu diga, era um grande rascoeiro. Que diga-se, dava abêgo a todas, astisfazendo-lhes as necessidades.

De boa boca… tudo o que vinha à rede era peixe, desde que tivesse guelra a vermelhada. Não havia beata, saltarina ou cantadeira de missa, que lhe escapasse. Trambolhão por trambolhão, ia-se o paraíso. Que a Eva também era danada p’rà cambalhota. E p’ra home e mulher mais saborosa brincadeira, Deus não inventou. Disques.

- Ah mulher, vê lá como falas aqui com o senhor. És mesmo uma desausserbada. Língua ruim e envenenada. Emboitas qualquer um com a tua língua de vinagreira.

- Olhe aqui, amigo. Olhe c’a vida na companha não era só um enxogalho de má língua. Havia momentos de inquisilar a alma. Ó!... Zefa, alembras-te daquele dia do S. Bartolomeu? Já ouviu falar nesse santo?

- Olhe que sim, respondi. Quando era rapazinho, nesse dia, as mães nem nos deixavam sair de casa. Diziam que andava o diabo à solta… Ainda me lembro que, num deles, andava um tenente muito emproado, muito esturto, no cavalo, ali perto da antiga esplanada, a mostrar-se às garotas (que olhavam mais para o cavalo que para o pelingrino). O animal espantou-se, tomou o freio nos dentes, e foi como trovoada por ali até casa dos Taveiras. Estacou. E vai o pavante «tenentezeco» avoou e aterrou no Bico, no meio do lodaçal, emboitando a farda toda.

- Mas olhe c’até andava o raio malino à solta, desembolado. Eu conto-lhe:

(…) no dia desse santo, era costume não se ir ao mar, pois diziam, acontecia sempre que o pecadito fazia das dele. Mas, naquele ano, as semanas tinham sido tão más que já havia fome entre as gentes. O arrais Ti Cruz reuniu a companha e botou faladura:

- Eh…gente: eu ando desaquietado, esta vida está de morte. E morrer por morrer, mais vale morrer no meio daquele estupor, que por aqui, à fome. Por isso eu quero ver se tenho homens da minha ógalha. Ou meninas virgoleiras, com medo de serem espetadas com a padela. Maneiem-se os que querem embarcar. Fiquem os inxuns a rezar ao belzebu.

- Aqui me tem, Senhor, avançou o Bernardo rompendo a fila dos brejoeiros hesitantes.

 Cabeça alevantada, peito firme, alto como uma torre, forçudo capaz de erguer um mansarrão, pelos gorgomilhos, olhos verdes da cor do mar, quando manso. Mas, de onde saíam chispas quando irado. Ao verem o Bernardo, o Carlos, o «Negrote», o «Ranhoso» … e outro e outro…deram passo em frente.

- Ti Joana, encaneire o pessoal, e vamos lá com Deus, que ele nos cubra com o seu divino capote, vamos dar lanço nem que seja para o escabeche: – disse o Ti Cruz para a «arraisa» Joana, a chefa da companha em terra.

Foi ordem que provocou uma restolhada. Redes p’ra dentro, sacada à borda desenvencilhada, mangas enroladas, a que se juntou o càlão e a mão da barca. Chama-se o abegoeiro. Que trouxesse quatro juntas de hercúleos bois, pois há pancada rija; e meter o meia-lua a vogar obriga a que a muleta vá até à borda, e que os bois, enfeixados nas armelas, metam barriga mar dentro para dar impulso. E assim ajudar a embarcação a boiar. A entrar mar adentro.

E foi então, quando as duas juntas estavam com água pelos ruços, borregando em ir mais dentro, aguentando a vergastada e o aguilhão da vara inclemente que lhe zurrava nos costados, que uma vaga atravessa o meia-lua. O Arrais grita num vozeirão:

- Rema! Riba… Ó…Ó … riba… Eh! raios… diabos … riba para a vaga… Seus langões. Dai força aí no mieiro, ou ides hoje todos para o inferno das profundezas.

Numa arrancada, mistura de vontade com medo, o barco dá um esticão para aproar à vagalhoça. Mas, presa à embarcação, a junta de bois de estibordo é arrastada com a ré da embarcação. E eis que os bois perdem pé. Cabeça e cornadura de fora, tentam ferozmente desenvencilhar-se do cordame que os prende à embarcação. Num repente, vê-se o Bernardo astirar-se à auga e, com a navalha, libertar, do barco e do cabeçalho, os animais. E, nadando para terra, resoluto, entrega a ponta da corda ao pessoal, que água até ao pescoço, alam o pobre animal para terra.

- E o outro? Você sabe lá(?!), diz a Zefa, inquirindo-me…

- Pois e o outro Ti Zefa… adianto, pronto a ouvir o resto deste quadro vivo, expressivo, luta de gigantes com o mar.

- Pois: a Ti Joana mulher d’um carago, nadadora exímia, tinha-se atirado e saltara para os costados do boi que resfolegava. E atirando-lhe o saiote preto para os olhos, filada ao cornígero animal, forçara-o a virar-se para terra. O animal, sentindo areia por baixo das patas, pareceu ganhar alento. E zás que ala tarde. Recuperando «pé», ajudado pela vaga, e pegado pelos cornos pela Joana, o animal desenvencilha-se do mar e parte em corrida resfolegante pelo areal adentro. Vai por ali fora e… de repente escafedeu. Estaca e a boa arraisa Joana voa e aterra de barriga no areal. Só que o saiote e fralda ficam espetados nos cornos do boi. E a Joana, esparralhada no areal, mostra o alvo traseiro. Bonito e redondinho. Firme, parecia montanha amaciada por mão divina.

- E quereis saber Senhor(?): entra a Tibéria de quarto. Pois todos aqueles zamparinas, gadagem que cobiçava tudo que fosse mulher, virara a cara (e os olhos!) libertando a Joana de corar de vergonha, ao ver-se exposta como a sardinha na sacada.

- Todos? Todos, não, diz a Zefa, com um riso malino na cara. Não!... o Bentinho «Cagaréu», que diariamente mirava guloso aquela mulher tão liró, parecia hipnotizado ao ver a meia-lua da Joana tão ajeitadinha e torneadinha. E ògadinho não tirava os olhos daquele quadro que parecia um retábulo real. Até que a voz da Joana trovejou:

-Que estás a olhar, pelintra? Gálico(!), nunca viste o traseiro da balcória da tua mulher? Queres chari-lo? Anda, esculhambrado, astreve-te que eu filo-te pelo gasganete e amanho-te a tripa que tens entre pernas para escassso.

- Ah, chopa, morrendas se não falendas. Que tinhas tu de comentar que Bentinho viu o «rabinho» de anjo da Ti Joana? Òspodias ter terminado sem teres emboitado a estória. Assim: quando a arraisa Joana se pôs de pé, já o meia-lua atravessara o mar quebrado e fazia emposta à procura do cardume…


Senos da Fonseca




domingo, dezembro 27, 2020

 O que valeu ao «Cantigas» é que o raio do canário …era canária….


Intriguei-me nestes últimos dias por nunca mais ter posto a vista em cima, à Tibéria e à Josefa, que, como por encanto, desapareceram do mapa. Afinal, nesta última segunda-feira, novo encontro. Fiquei, então a saber, porque se eclipsaram: peixeiras na praça, esta fecha(agora) às segundas. E é só neste dia que elas vêm desenferrujar as pernas. La vie oblige…

- Ó Senhor: dantes era uma fona. Daqui p´ra «Ibalho«, fazer a venda,  voltar pela noitinha derreadas, esgalfas, mais tesas que o carapau ressequido que não tivera freguesa...Aí sim (!)...aí é que estas perninhas, que agora parecem mijadas (com sua licença), eram roliças, duras e torneadinhas como pitorras.  Ai do zamparilho que se astrevesse a meter-se no meio delas. 

- Era assim, era…. ajunta a Zefa. Às vezes era já noitinha e o que valia era que aquele caniné do Labareda nos esperava. Até que todo o pessoal arribasse à Maluca, feita a venda na Vila.

- Atão hoje não têm nenhuma estória para me contar? interroguei eu…a meter cúnfia.

- Credo, você parece q’uè bruxo. Olhe!...vinha agora a lembrar, com a Zefa, da história da Pauseira «Canária». A Pauseira era uma savelha de se lhe tirar o chapéu. Mulher danada.De sim ò sopas. Mulher de, ou fora ou adentro … a meio é que se não podia ficar.

- Conte lá Ti Tibéria….conte raios que sou todo  interessado.

E a Zefa não se fez rogada.

 - A Pauseira tinha na sua casinha, ali nas dunas, um canário que estimava muito. O raio do pássaro um dia apareceu esmorecido. Parecia que tinha lançado um grapelim ao trapiche e de lá não saía, nem para molhar o bico. E pior, nem piava. O estupor do canário, dizia o Luís «Cantigas», o serrazina do home da Pauseira: – dá-lhe uma «passarinha» a ver se o bicho desperta. Olha que o que o bicho tem, é falta da «passarinha». T’ asseguro.

- Pois, quem não tem falta da «passarinha» és tu, «Cantigas». Há benícias que nem lhe pões a vista em cima. A vista e o resto, raios, diz inquisilenta a Pauseira ao seu homem. P’ra ti esconjurado, «passarinha» é o garrafão do tinto. Ora vai-te, que eu tenho mais que fazer c’abanar o traseiro.


«O Cantigas» lá foi a resmungar, para a vida. A «Pauseira» ficou a fazer horas para ir p’rà escorcha, aproveitando para fazer um caldo de conduto para a ceia. A meio da manhã batem ao «portaló».

- Quem bate? E abre a portinhola do palheirote. Cá fora, especado, o Arnaldo «Mijinhas», uma espécie de botadinho à parte, atrapalhado e nervoso, diz à Ti Pauseira:

- O Ti Luís mandou-me aqui, dizendo para Vossemecê me dar «passarinha» que ele não teve tempo de lhe pôr a boca em cima.

- O Luís mandou-te mesmo, para eu te dar a «passarinha»? Ai ele quer mesmo enfeite? Anda cá filho, que eu dou-te a dita. E agarrando o «Fininho» puxou-o a si com força, atirando-o para o catre disposta a cumprir ordens, que Capitão manda imediato obedece.

Só que o Arnaldo pouco dado a empostas do género, incapaz de ciar em mar tão encapelado, fixou com pavor a trabuzana que para ele representava a Pauseira e, espavorido, dá de se libertar do corpo da fera desembolada, escapulindo-se ao lancão d’alentada mulheraça.

À noitinha, quando o Luis «Cantigas» voltou da faina, a Pauseira não esteve com meias palavras:

 – Olha lá ó seu zamparilho, atão tu agora já não te satisfazes com a «passarinha», e mandas substitutos p’ràconchegar?

- C’a estás tu pra aí a xanar, raios? Eu mandei o «Fininho» buscar o garrafão de vinho. A que tu chamas «passarinha», homessa (?!).

- Homessa (!) digo eu; o que te vale é que o raio do canário é canária. Senão a estas horas estavas mais enfeitado que o manso do boi amarelo do abegoeiro Ti Aparício.


- Á ganda Ti Zefa. Vamos lá acabar a voltinha, que para a semana vossemecê conta-me outra. Combinado, remato eu bardaleiro?

- Pois atão. Se lhe der volta, apareça lá pela praça. Há lá bom peixe. O que está a dar, agora, é «a
chaputa
». De entupir uma jaja.


Senos da Fonseca    



domingo, dezembro 20, 2020

 

 Hoje a noite apossa-se de mim.


Desta minha janela, lugar de privilégio que idealizei e fiz para mim (e para mais ninguém) vejo acontecer a tarde estranhamente escura. Plúmbea, tristonha, toldada de uma luz pardacenta, que parece – só! – existir superficialmente. Olho, a tentar perceber este estranho determinismo que leva a natureza a comportar-se como um ser humano. Tão risonhos éramos ontem, esquecidos da amargura de se ser consciente,quando não fingíamos. Sofre-se sempre mais com a consciência de que os outros sofrem, do que com a ilusão que só nós é que sofremos.

Hoje não encontro nada de belo no que me chega e envolve. Indisposto, vou e fecho a janela. Tento assim ficar só eu ….comigo , com a minha realidade interior. De fora não vem nada que me ajude a acordar. A perceber que uma flor qualquer está neste momento a despontar, não sei em que jardim. De certeza num jardim que não é o meu. Ligo a música: espero algo que me alimente e desperte, e me crie a ilusão de que não vale a pena pensar.

A tarde está tão carregada que as minhas penas com ela comparada parecem (tão) leves. E bondosas. Hoje não virão as estrelas. Das serranias a luz alourada da ria não virá fazer a estrada que vem bater no meu degrau. Será uma noite de luar oculto, noite adormecida cheia de nada.

A ria está um molhado indiferente. Sombras aqui e ali recortadas, sonolentas, carregadas de uma monotonia inquietante. Não há cheiro. Nem sequer há vida. Até os barquitos desapareceram. Ah! se eu me pudesse como eles amoirar, e, indolente, deixar-me rodopiar numa valsa à deux temps» a sonhar com o me substituir a mim próprio?!

Tento ficar desperto, a pensar sem pensar. Pois só pensa quem é iluminado por dentro.

Já nem os poentes fazem vogar em mim as caravelas da descoberta. Parece que já não consigo descobrir nada lá fora, pois já nem em mim descubro coisa que valha.

Estou farto de mentir para o prazer, para a glória, para o poder .”Tudo” a que miseravelmente não consegui escapar, apesar de o tentar (ou talvez não). Só desejo em cada dia que passa, ganhar a liberdade de ser eu.


Tudo o que faço para fora de mim me parece inútil.


Senos da Fonseca




sexta-feira, dezembro 18, 2020

 


CARPE  DIEM versus  BEATUS ILLE


Aproveita hoje que amanhã....


A propósito do CARPE DIEM , à medida que as horas  silenciosas vão correndo, vou   discorrendo….

Creio que sempre que a vida nos prega uma partida, paramos e juramos: é agora. Com esta história da pandemia, parece  chegada a altura de procurar viver segundo Horácio, o poeta  venesino.

Viver segundo as regras do poeta era viver na suprema virtude (perfeição )da vida.

Seguir Horácio –e muitos juraram segui-lo, e imitá-lo – tinha entre  outros saberes ( virtudes) o  beatus ille, que seria o viver «afastado», num modo (propósito) contemplativo. Ora manda a verdade dizer que os nossos Árcades, cantavam esse viver. Só que, não muito longe do bulício (e prazeres) da cidade. Era o tal viver lá fora, cá dentro. Quando muito cantavam as suas Odes nos jardins públicos, a paisagem citadina que imitava (?!)a «Arcádia» pastoril.

Por mim, também aderia (poeticamente) ao CARPE DIEM.

Só que prometi fazê-lo um ror de vezes, e voltei sempre ao mesmo. Tantas foram as vezes que jurei dizer palavras que afinal nunca disse; tantos foram os gestos ensaiados e logo fenecidos à nascença; tantos foram os sentimentos que guardei só para mim, quando os devia lançar ao vento e deixá-los ribombar por todos os cantos….,A cada promessa ensaiada, logo voltava à estaca zero.

 Chego pois á conclusão, que (já) não mudarei, embora o tenha prometido, agora, uma vez mais.

E  por isso continuarei a querer importar-me ;e continuarei a querer saber; e continuarei a aceitar sofrer. E continuarei a guardar a sete chaves muito dos meus sentimentos, que não contarei a ninguém. Que levarei comigo. Como levarei os gestos e as palavras, os sorrisos e as lágrimas.

E vou andando. Continuarei a deixar-me agir impulsionado por um qualquer sonho (mesmo que pequeno). Não tenho outro modo de me deixar existir. Parece que nunca aprendi. Ou não quis.

E discorro: os avisos e propósitos de Horácio ficaram registados nos compêndios literários. Morrem lá enterrados, bafientos. Utopia inalcançável..  


Senos da Fonseca


quinta-feira, dezembro 17, 2020

 

As ligações de Ílhavo ao Marquês de Pombal.

 .

É sem duvida interessante, embora cansativa, esta atitude de procurar entrelaçar os factos na história e conseguir perceber o que existe por detrás de simples acontecimentos. Mesmo que por vezes eles não tenham muita importância como facto histórico, mas apenas recompensem a curiosidade de quem trabalha embrenhado na procura documental.


No livro com que andei às voltas – uma biografia desse notável aveirense João Sousa Ribeiro da Sylveira, capitão mor de Ílhavo ,«pai da pátria» como publicamente foi reconhecido, uma personalidade de enorme grandeza moral, ética, magnânima na solidariedade com todos, e em especial, com os mais desprotegido. Figura que esteve na decisão Pombalina de elevação de Aveiro a cidade, e no perdão conseguido, afastando  o temor, tido na altura, de  represálias sobre a população, como consequência do atentado de lesa majestade, perpetrado pelo Duque de Aveiro, sobre o rei D. José. O dono da casa Ducal de Aveiro, que era a segunda maior do País ,logo atrás da de Bragança, nunca teria vindo a Aveiro, e muito menos aqui residido. E claro não haveria qualquer ligação de gentes de Aveiro ao regicídio. Mas João Sousa Ribeiro teve de ir a Lisboa prová-lo. E assim evitou o massacre de muita gente.


Sousa Ribeiro não só trouxe com ele a carta de elevação a cidade,a limpeza do nome das populações, como ainda trouxe a boa nova da isenção das habituais taxas de elevação hierárquica na orgânica administrativa, dos agregados populacionais, como era habitual suceder nessas situações.


Ora tenho andado embrenhado na documentação da época para explicar o que até hoje ninguém terá ainda explicado. Deixemos os pormenores da minha tese para quando da apresentação do Livro, já contratado com a Editora para ser editado no fim do ano ,data em que me comprometi a tê-lo pronto.


Ora neste arrumo final tenho «catado» ,e tentado imaginar, como não é possível encontrar uma gravura com figura de tanta importância(Arquivos históricos, Torre de Tombo ,Alfandega ,etc etc) .Claro que o fogo que consumiu o palacete da Familia (nessa altura na posse de seu bisneto Visconde Almeidinha), o palacete do Terreiro (onde hoje esteve o edifício do Governo Civil de Aveiro) que era ao tempo verdadeiro «museu», onde se encontrava um espólio de arte notável, incomparável, poderá explicar o facto.Com o fogo que transformou tudo em cinzas teriam desaparecido todos os retratos (pinturas) familiares. É possível.


É-me fundamental –para a tese que defendo – explicar a proximidade de João Sousa Ribeiro com o Marquês de Pombal. E julgo poder justificar a mesma. Ora há tempos  estava eu embrenhado no Arquivo Histórico da Universidade de Coimbra,na tarefa de encontrar os registos dos alunos da Universidade nas décadas de 1720 a 40,e, por um acaso, verifiquei que o Sebastião José tinha casado, ainda com apenas 23 anos, com a D.Teresa de Noronha e Bourbon(35 anos), filha de Bernardo d’Almada Castro Noronha e de D Maria Antónia de Almada,donatária de ílhavo.. Estremeci!!!!


Quereriam lá ver.O que a ninguém poderia interessar, a mim despertou-me total interesse.


Este senhor – D. Bernardo d’Almada  Noronha – eu sabia-o quando estudei os Donatários de Ílhavo( Ílhavo ¬- Ensaio Monográfico pp 58 e 505) era marido  de uma tal D. Maria Antónia de Almada , donatária de Ílhavo, senhora que até se pensava teria passeado por aqui, pela vila,(1721)quando dela tomou posse. Recebendo as chaves na Igreja e visitado o Pelourinho ali na Praça (leitura atenta levou-me, na altura, a concluir que, a  D.Antónia, afinal, nunca cá pôs os pés, e quem teria andado a fazer de figurante (por ela) terá sido o Prior ).


Por esta é que eu não esperava.


A primeira  mulher do Marquês de Pombal, filha da Donatária desta Ílhavo(cujo capitão mor era o próprio João Sousa Ribeiro..


Parece esclarecido o porquê, nunca bem entendido ,na altura, da forte influência de João Sousa Ribeiro ,sobre o Marquês, e tudo quanto dele obteve. Está pois explicado.


E esta heim?!!!


Registo o facto que teria passado a todos despercebido, até hoje.



Senos da Fonseca



quarta-feira, dezembro 02, 2020




 


A ZECA FAZIA HOJE, ANOS

Por cá tudo igual. Tudo mal.
Por «aí» não sei. Mas não tardarei a sabê-lo.
Hoje, ao lembrarem-me da tua falta, diziam-me à laia de consolo – certamente (!) – da minha sorte (?) de, ainda ir vivendo:
– Olhe que não, olhe que não… atalhei com doce comiseração. Isto de ir vivendo mais um dia, não é bem ter um dia a mais. É a lucidez de ter a consciência de se ter um dia a menos para fazer tanta coisa que se pretendia fazer.
Que Te dizer, hoje?...
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Acorda irmã,
Na manhã deste dia
Em que nasceste para a vida.
Abre os olhos no tempo sem tempo
Onde moras
Toma uma toalha para secares
As lágrimas do teu choro
Pelos que sofrem ainda hoje,
Mais do que ontem.
Vá...
Vem daí que eu dou-te a mão
Para veres de novo os que amaste.
Ficaram à tua espera
À espera que por eles, voltasses.
João

terça-feira, novembro 03, 2020




 



A Peste Negra do Séc.XIV



A noite longa,  o desejo de espreitar a CNN ,nervoso ou inquieto com o Trump e as suas “boutades”,( só possíveis de terem um mínimo de aceitação por um país em claro retrocesso, social e cultural), levaram-me a uma leitura que,começada, foi até ao fim. Noite perdida ou ganha?

Assim li sobre o flagelo da peste negra. O assunto é de  uma flagrante  actualidade.

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Inicialmente vista como punição divina,castigo dos deuses  pelos pecados humanas, foi a sua “cura” entregue à boa vontade dos oragos  S. Sebastião e S.Roque.Logo receitadas punições tipo flagelação em procissão,  e outras penitências que se acreditavam  salvadoras. Curiosamente percebeu-se,á falta de virologistas como os que hoje no arengam diariamente com opinões contraditórias,mas sempre categoricamente doutorais, que os “ares“estavam carregados de vapores nocivos”, eventualmente provenientes da putrefação de variadas matérias ou provenientes de acontecimentos cosmológicos, provindos da  conjunção de planetas que provocariam os ditos vapores. A sua origem, sabe-se hoje, teve origem na Ásia. Dali ,comerciantes ,e até exércitos invasores. mongóis, fizeram-na chegar ao mediterrâneo. Em cinco anos (1374 -1352) alastrou a toda a Europa (excepção Finlândia e Islândia), terrivelmente mortífera, admitindo-se ter atingido uma taxa de mortalidade de 60%. Assim,admite-se, a peste originaria  cerca 6.000.000( seis milhões) de mortos.

Em Portugal foi arrasadora, levando a crer que teria provocado uma verdadeira razia, reduzindo a população a 1.500.000(um milhão e quinhentos mil) sobreviventes.

Não sendo aqui lugar de pormenorizar mais, adiantamos consequências sociais e económicas que o flagelo ocasionou no nosso país.


A mortandade originou que, muitos tementes a Deus, fizessem testamentos orais ou escritos (para salvação da alma) ao clero, transferindo a propriedade dos seus haveres a familiares e ou até á igreja.Sucedeu que muitos dos referidos cléricos(notários ao tempo),por morte dos testamentários, resolviam não dar conhecimento aos familiares do defunto,do facto, e assim ficarem na posse das propriedades. Os mosteiro, também entravam neste açambarcamento. E  como a Igreja não tencionava reparti-los ,o aumento da sua riqueza pela propriedade de novas propriedades e de outro tipo, tornou-se notório e preocupante.

Afonso IV resolve actuar. Logo tornou lei que os testamentos deixassem de ser feitos pelos clérigos e passassem ,obrigatoriamente, a  ser lavrados pela Coroa ou seus representantes(Juízes de Fora).

Sucede porém que, apesar de tal obrigatoriedade ,muitas terras ficaram abandonadas, por falecimento doproprietário sem prévio testamento. Passou assim,a ser vulgar, pequenas propriedade, alódios,casais, póvoas etc, ficassem abandonadas sem dono. E isso levou a que muitos  laboratores,  locupletassem  a propriedade abandonada. E de pobres fornecedores de mão de obra, passassem a “ricos” proprietários.




A perda de tantos braços conduziu a uma falta intensa de mão de obra disponível. E assim o custo da mão de obra disparou. Alguns trabalhadores da lavoura recusaram-se a exercer porque se tinham tornado proprietários. O trabalho ao ano,passou a trabalho precário. A escassez de braços para a lavoura, a criação de gado ou o artesanato viu subir fortemente os salários. Assim Afonso IV teve de intervir novamente:  mandou arrolar os assalariados, favoreceu os empregadores, e fixou o preço da mão de obra. E se não obrigou os assalariados a trabalharem ao ano,obrigou os proprietários a pagarem muito melhor e atempadamente. Aos falsos pobres(que mendigavam  sem terem disso necessidade ) mandou identificá-los,  obrigando-os a trabalhar.

A escassez   da força de trabalho, levando a uma continuado aumento dos salários,levou a que, nas cortes de 1352, fosse fixado uma tabelamento dos mesmos.

Fica assim  claro, que, a terrível pandemia, se teve custos brutais em vidas ceifadas, trouxe múltiplas transformações económicas, sociais e culturais, que vieram influenciar o panorama de equilíbrio de rendimentos, já que os pequenos e médios proprietários  foram surgindo e os assalariados conheceram um período de extrema e rápida melhoria das condições de prestação de trabalho. 


Nesse sentido apatece tentar perceber que alterações trará a pandemia do COVID19,questão que começa a ser abordada e equacionada. Concerteza alterações profundas, que poderão levar a novos arranjos geo-estratégicos ou até a profunda avaliação da globalização


SF


 (do livro PREIA-MAR) DUNA A verdade era que, Aquela música sensual ouvida, Ritmada com a vaga a enrolar, Na areia da praia parada, Parecia...