segunda-feira, janeiro 13, 2025

 NA REGIÂO DE AVEIRO. NO BAIXO VOUGA LAGUNAR 

João Paulo Crespo 



O título do livro “Na Região de Aveiro. No Baixo Vouga” era já suficiente para me despertar a atenção e o incluir nas leituras diárias. Sendo da autoria de João Paulo Magalhães Crespo, colega a quem me liga, um conhecimento de seus progenitores, especialmente a seu Pai, eng. Magalhães Crespo, por quem mantive consideração e até admiração (porque um qualificado engenheiro), mais interesse me motivou fazer uma abordagem ao livro.




Li-o, pois.Sendo um livro  de memórias da actividade profissional do João Paulo M Crespo, exercida na Zona Agrária de Aveiro onde assumiu as funções do “Projecto do Vouga”, as memórias cronologicamente registadas e contadas, vão dos  primeiros passos de  intervenção no “Projecto de Execução  do Sistema Primário de Defesa do Baixo Vouga Lagunar ” (1991), até 2024, ano em que  termina a sua  actividade profissional, com o sentimento (esperança) perante o Concurso Internacional para a concretização da execução do referido plano que, finalmente(!!!), aquilo porque tanto lutou vai, finalmente, passar do papel a obra.

Ainda há pouco tempo elaborei um pequeno livreto sobre uma matéria que me despertou muita curiosidade: – o “Plano de Navegabilidade do Vouga”. Nascido no tempo de Pombal, foi  o  estudo da sua viabilidade, concretizado, no reinado de D. Maria.

Nesse plano era já aflorada a importância económica da zona do Baixo Vouga(3.000 ha)  provinda  dos seus férteis terrenos, onde a interacção  do homem com o meio geográfico(sempre em mutação na relação, terreno  com a água  do salgado lagunar) teve (e tem ) de ser constante para manter (e até melhorar) a produção agrícola do interland lagunar.

No livro de J.P Crespo, apercebemo-nos que, tal como naquele tempo já longínquo pombalino, as dificuldades burocráticas, o tramite dos processos num constante rodopiar por gabinetes, é desesperante para os técnicos planificadores proponentes, que ficam a aguardar, esperançosos, o “será agora que o “Vouga” vai avançar”.

Pelas páginas das memórias de Crespo, vê-se como as esperanças, quase por norma, repetidamente se finam ou, quando muito, se limitam a intervenções pontuais de amplitude muito reduzida.

O problema da subida e consequente extensão das marés, consequência do aumento das condições de acesso ao Porto de Aveiro (com notável incremento e com projecções que indiciam exigir o aprofundamento do canal de acesso e barra, a níveis até há pouco impensáv
eis),vai aumentar a necessidade de se tratarem as defesas das margens interiores, para manter uma gestão sustentável do solo e dos ecossistemas , evitando o seu encharcamento pelo salgado. 

Crespo esclarece na Agenda de Inovação para a Agricultura (2020) que,”sendo os agricultores os verdadeiros gestores do território, assumem uma especial importância  no baixo Vouga Lagunar ”.... e assim continuar a acreditar num sistema....simples de produção de um “regadio sem rega” ,em que a água salgada procura reclamar para si  o seu território e a “minha” teimosia  a procura contrariar até quando e enquanto me for possível”, alertando para importância do “Projecto de Defesa Primária do Baixo Vouga ”(enunciado e  em circulação em despachos estéreis ministeriais,  há mais de duas décadas ) . Na “linha do tempo”, Crespo aponta 2023/2024 como anos do Concurso Publico Internacional para Execução da Obra.

Será que o “Vouga vai avançar?. ....apetece-nos repetir.

Em resumo:um livro de memórias de um excelente e esforçado profissional ,apaixonado pelo Baixo Vouga-Memórias que se leem com muito prazer, e gosto porque, muito bem equacionadas, são excelentemente desenvolvidas em linguagem sucinta ,escorreita e directa, não maçando, antes despertando  o interesse ao tempo em que  enriquecem o conhecimento do ecossistema onde nos integramos. Que é preciso preservar.


Senos da Fonseca (Jan 2025)




sexta-feira, janeiro 10, 2025

 


O apagão  da nossa história não foi corrigido...



Em 2007 escrevi então sobre o MMI, o que reproduzo abaixo.,Hoje voltaria a repetir tudo, e do mesmo modo.  Ainda há pouco me pediam informações sobre o historial de Ílhavo.É um facto: transmitiu-se (e a farra continua) a  dar-se ideia de que só soubemos ser gente nos “bacalhaus. Apagou-se uma boa(a maior e mais significativa parte) da nossa história.


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Museu 4

O livro «Museu com Memória» que elogiei no Blog anterior –ponto final ! – contém abordagens que ,no meu entender, necessitam de alguma fixação.

No final do livro, numa espécie de ensaio antropológico,Elsa Peralta produz um estudo de cariz académico ,ao principio demasiadamente pesado - tantas são as citações evocadas em procura de uma roupagem para o Museu de Ílhavo- peso que à medida que o ensaio se desenvolve, é aliviado .Não sei se muitos leitores o irão levar até ao fim, Seria bom.

Algo me justifica uma observação.

A prof. Elsa insiste, um pouco, na história das cisões, dissidências, conflitos representacionais contidos na história do Museu, o que me parecem considerações um pouco excessivas.

Assinala o que lhe parece ser um pouco de incongruência entre o Rocha Madahil que tinha protagonizado uma imagem de Ílhavo enquanto comunidade do mar - a história mal contada do brasão –e a sua proposta de uma exposição de uma panóplia de temas, desde a etnografia á cerâmica, passando pelas artes e pela industrias locais ,para a celebração da terra e das suas gentes. Estávamos, pois, longe de um museu marítimo, diz-nos.

Ora eu penso –e não tenho aqui o espaço para o justificar –que esta leitura pode ter um pouco de imprecisão, provavelmente consequência do entendimento do que significava,naquele tempo ,a memória marítima, a guardar .Qual era, pois?

Em 1922, altura em que Madahil propôs,(de um modo pomposo mas completamente errado no conteúdo histórico)o Brasão, ou em 1933 ,altura em que define as bases para o Museu ,por exemplo, não haveria ainda qualquer memória para guardar da Faina Maior, o projecto museológico em que assenta, hoje, o Museu , fazendo da mesma a memória privilegiada a salvaguardar. Porque essa faina –sublinhe-se - mal tinha, naquelas datas, ainda começado .E nem se entenderia ao tempo, a relevância da nossa posição (dominante na execução)na mesma. Ou até se escamoteasse a identificação com a referida saga, por razões que seria interessante abordar, mas não aqui. Falo da parte da Faina Maior que ainda não foi abordada, e que inevitavelmente um dia o será ….

Na altura Ílhavo teria em termos de memória  a guardar para memória futura :

 dez séculos de laguna ; três séculos a desbravar novas terras, inserindo gentes completamente diferentes, no ser e no modo de estar, aqui chegadas; três séculos de migração em condições singulares, que nos identificaram como individualidades diferenciadas das restantes; três séculos de actividade numa industria em que a arte era a vocação que a distinguia, entre todas. E séculos de individualidade no trajo, de uma riqueza e diversidade notáveis, que tinham sido assinaladas no século anterior, e ainda presentes ao tempo.

Que escolha fazer, com tudo isto ?Essa era a questão.

A preponderância de João Carlos ,e do seu pendor artístico, ou da identidade com os ícones glorificados, na altura, gente da borda (Thomé Ronca , Ançã e outros), eram as compreensões do que pareciam ser  o principal a guardar ,a que se lhes juntava a memória do traje.


Quando na verdade Ana Maria Lopes, na sequência de «À glória desta Faina», indica que o caminho a seguir passaria por o museu poder e dever estar melhor representado no sector da pesca à linha (1989), a ideia, valorizada com o então recente desmoronamento daquela actividade, acontecido em anos anteriores, tornou mais premente a necessidade de a preservar ,embora se tenha tratado de um período passageiro da história , embora épico :- pouco mais de sessenta anos, numa história de dez séculos!... .Todos perceberam que esta opção seria  correcta, mas seria ainda mais correcta se ,as outras memórias, pudessem caber em outros projectos complementares (por exemplo polos museológicos). Induz-se do livro que, para a escolha daquele caminho, foi preponderante o condicionalismo das instalações, muito limitadas no espaço disponível, a exigir uma escolha de síntese museológica..

Mas pensaria A.M.L. que a questão etnográfica ligada á memória do traje não valeria a pena ser equacionada, pondo-a por isso, completamente de parte? Desconheço o que pensa. Até porque A.M.L será uma das últimas pessoas existentes (locais) com conhecimentos suficientes –e seguros – de a sistematizar, e até, de lhe dar corpo.

O que se passou depois ?!…

É a própria autora do Ensaio, Elsa Peralta, quem, logo no inicio, nos ensina que os museus são uma expressão ideológica da nova ordem politica .E quando a história chega por sua mão – por ela contada - a 2001 ,parece ter-se esquecido que foi isso mesmo que sucedeu., e nesse período entra por caminhos bem escusados, de glorificação .A história do Museu, de facto, a partir dali, tomou então outro rumo, imposto por uma nova ordem politica –local – que toma a seu cargo a definição da especificidade da memória a guardar. Claramente uma definição que interessava ao poder politico aproveitar, mais preocupado com a divulgação externa da imagem do Museu, do que com identificação interna com as gentes locais. O Museu passou a ser mais fora do que dentro. Ao sobrevalorizar a Faina Maior, esquecendo praticamente, a memória da outra Faina, a Menor(?!) - só agora timidamente recuperada na exposição temporária da «Diáspora» - esqueceu-se uma aventura com que nos identificámos de corpo inteiro. E onde espalhámos,país fora ,cultura própria ,bem identificadora. 

A leitura da Faina Maior não compreende apenas a versão que dela temos dado. Já o disse por várias vezes. Este olhar, aqui, é a nossa leitura,mas não é a única leitura.

A escolha está feita.Mas o percurso não está encerrado. Por muito que se pretenda fazer passar essa ideia

Voltaremos a falar disso .

Senos da Fonseca(2007)


quinta-feira, janeiro 09, 2025

 



Em 2025, lê-se e noticia-se que, LIBERDADE, foi a palavra do ano em 2024.Por vezes , certamente por quem não a desejou e não a quer. Mas certamente, por muitos que a desejam, que a abraçam e que lutam para a defender, custe o que custar.  Certo é que a LIBERDADE não chegou a todos. A LIBERDADE não está, só e apenas, no expressar livremente o que pensamos, queremos ou repudiamos. Está também na exigência  que todos tenham o direito de ter uma vida digna que lhes permita lutar por uma igualdade de oportunidades. O acesso universal ao pão que mate a fome de ser livre. E por isso não há, ainda, a LIBERDADE que eu queria.


                                                                                              

                                                      

                                                                                            

                                        LIBERDADE


                                                                           Foste a gaivota

                                                                           Que de mansinho, a esvoaçar                                                                                               

                                                                            Num dia d’Abril

                                                                            Nos mastaréus desta Caravela, feita País

                                                                            Por entre perigos mil

                                                                            Suave, vieste em nós, pousar 

                  

                                                                                                   Sabia que irias chegar

                                                                                                   Podias ou não, demorar 

                                                                                                   Ou partir para longe e voar               

                                                     

                                                                                                      (Era preciso ousar)


                              

                                                                              Onde andas hoje?!

                                                                              Em que longes

                                                                              Semeias sonho ou ilusão (?) 

                                                                              Que mar, que rosa dos ventos

                                                                              Que arte,

                                                                              É preciso percorrer

                                                                              Para dizer: NÃO!

                                                                              Que Tu não existes,

                                                                               LIBERDADE,

                                                                               Se em qualquer parte 

                                                                               Houver alguém a chorar por pão,

                                                                               Que mate a fome de ser LIVRE

                                                                               

                                                                              Mas se em mim não Te sentisse, 

                                                                               Ou contigo não sonhasse

                                                                               (Que voltarás um dia) 

                                                                               Que dor, que verdade  

                                                                               Que ia ser de mim (?), sem Ti

                                                                                Meu amor 

                                                                               Ó LIBERDADE !

 

                                                                                                     SENOS DA FONSECA

                                                                                              



 

                                                                                                            


sábado, janeiro 04, 2025

 Voltando à La Grand Pêche



As leituras de livros acumulados neste período, vêm decorrendo a bom  ritmo . O frio lá fora, uma gripe ameaçadora, a lareira acesa, a companhia de um bom whiskey, contribuem para navegar em demanda de novas aprendizagens.

Um dos livros que persegui há uns bons 20 anos,   que me obrigou ,por diversas vezes  a ir a Lisboa, à BN, editado em França, em 1901 ,chegou finalmente “no sapatinho”. Uma verdadeira bíblia sobre a pesca dos BACALEOS na Terra-Nova, da autoria de Adolph Bellet, repousa já aqui na secretária. Nunca desisti de o adquirir. Porquê? – perguntar-se-á...



 

                                La Grande Pêche de La Morue – A.Bellet


Ora bem... 

Sempre defendi a tese, principalmente na Sociedade de Geografia depois de editar  “Joao Álvares Fagundes”  e logo após edição de “ Os Últimos Terranovas Portugueses” (e já antes  no ”Rota dos Bacalhaus” ) de que existem questões por esclarecer sobre a inter-relação ,das navegações  no Atlântico Norte (Teive, 1452,Vogado,1462,João Corte Real ,1472,Teles,1474,Ulmo 1486, Duarte Pacheco (?) e provavelmente muitas outras)e a presença de pescadores portugueses nas paragens daquelas mares.
A questão no deambular das leituras de então (somada a tantas conversas com meu Pai e com o meu Prof Luís Albuquerque) pôr-se-ia nos seguintes termos: 
Naquelas viagens (propositadamente pouco documentadas) os referidos navegadores à procura  de um desejado caminho ,mais curto, para as Índias, preocuparam-se  em descortinar novas hansas, novas terras. Teriam já encontrado nesses mares,  pescadores Bascos (normandos) em procura da baleia(espécie que primordialmente lhes interessava)  e também, navios portugueses em demanda do bacalhau, que teria desaparecido  dos mares  ingleses, onde pescavam após o tratado firmado em 1355, por Afonso IV .Isto é : a data que vem sendo apontada pela demanda dos bancos da Terra Nova(pelos bascos e portugueses) em procura  da baleia e  do e  do bacalhau ,terá sido Séc.XVI, ou estes pescadores portugueses que acompanharam os Bascos já por aqueles mares andariam, muito antes?

A carta de privilégio concedida a Álvares Fagundes(1520),ao contrário das cartas concedidas a João Fernandes Labrador(1499) ou a  Gaspar Corte (1500) ( que apenas “indicavam terras a descobrir”,) eram bem diferentes .A carta concedida a Fagundes, indicava, explicitamente  já antes da partida, “ o nome de ilhas, e terras descobertas por Fagundes”. Atendendo á demora na obtenção de tais privilégios,a referida carta teria sido solicitada em fins de Séc. XV.


 



                                                      Mar dos Bascos


Ora, nesta bíblia de Bellet (1901), o autor refere documentos (vários) que provam que a ida dos Bascos (Normandos), e Bretões, em demanda das baleias desaparecidas do “Canal ou do Mar Britânico”, se teria verificado cerca de um século antes da viagem de Colombo(1492) (fazendo referências a documentação  histórica com data dos anos de 1600, 1755 e seguintes)

 R.P.Fournier ,na sua” Histoire et Comerce des Colonies anglaises de l´Ámerique “afirma:

La peche au Banc de Terre-Neuve a étè pratiquée de tout temps para les Français et longtemps avant que les Anglais se fasent etalis dans lílle de Terre -Neuve(...)avant que Christophe Colomb êut d`ecouvert de Nouveau Monde”.

Citando a carta de Sebastien Gavet a Henri VII (rei de Inglaterra em 1497) “ ces terres sont appelées du nom  de Isles de Bacaleos” (nome comum usado pelos Bascos para designar o bacalhau ).

Assim, parece ser claro que o conhecimento daquelas paragens terá sido muito anterior à viagem de Colombo.

Se é certo que há unanimidade em terem sido   os bascos que, “decidiram a emposta “ aos mares da América setentrional,  acompanhados pelos pescadores portugueses que pescavam o bacalhau nas águas inglesas desde   (após acordo firmado por Afonso IV em 1353), então poderemos admitir que, muita informação sobre aqueles mares (não sobre as terras e hipotéticos ligações a outro continente) teriam  já chegado ao conhecimento de  D. João II.

Assim é de colocar em cima da mesa que, o possível início das pescas nos Bancos da Terra-Nova se ter já verificado no Séc.XV (meados /fins de 1400).

O que expus em  “João Álvares Fagundes”,( e que escandalizou alguns historiados de “boas leituras e pouca reflexão “ ,quando na pag .99 afirmo “desde 1470 os portugueses de Viana e Aveiro já visitavam aquelas paragens”, parece-nos  perfeita mente correcto e lógico.

Poderíamos se fosse essa a intenção, ir mais longe. O que reproduzimos vem estar de acordo com o inserido por Pizzigano na Carta Náutica de 1424 (elaborada segundo indicações portuguesas) e dos registos de muitas terras portuguesas                                                                                                                                                               no Planisfério de Cantino  (que tem por detrás de si uma interessante história).




                                 Extracto do Planisfério de Cantino(1502)




A primeira viagem com o fito de conhecer aquelas paragens, efectuada por Diogo Teive(1452),seguiu exactamente  a rota norte (normanda), o que poderá ter a sua razão nas informações dos pescadores portugueses que acompanhavam aqueles.


 

                                Viagem de Teive


Em resumo: tudo leva a indiciar  que, os pescadores do bacalhau da Terra-Nova, chegaram àqueles mares antes das navegações das descobertas da costa nordeste do continente americano.



Senos da Fonseca




quarta-feira, janeiro 01, 2025

(QUANDO O   INEM ...ERA OUTRO....)


O parto na «labrega murtoseira”


E lá voltou o tempo tristonho, de uma paz podre, belicoso, que, mais do que incomoda, envelhece (-nos).

Há que reagir à maldade dos deuses. E saltar fora do afecto modorroso dos lençóis quentinhos, e … «navegar».

A ria está quieta como um gato enrolado, esquecido de si e do que se passa à sua volta. No nosso tempo, meses que tinham R, eram meses de «cricalhada». Esta semana, apesar do dito R estar no mês, agora, as autoridades vieram decretar proibição do «crico», fora de casa. Parece que aquela alga que pinta de vermelho, adiantou o período de proibição. Por isso a ria está vazia, como mulher visitada pelo dito. E logo posta de lado pelos amantes. Raio desta cambada. Bem podiam afagá-la, acarinhá-la, e renderem-lhe visita. Ao menos de cortesia. Ingratos. 

Mas hoje era dia de charla. E muito me admirei quando ao meu encontro, além da Zefa e da Bernarda, vinha uma outra vistosa faininha, logo apresentada como a Joana «Labrega».

 -– Olhe cá: – para mudar de conversa, trouxemos a Joana «Labrega». Para ouvir uma história, linda. Mesmo linda. Vai ver. Aqui, a Joana, foi filha do arrais murtoseiro Agostinho «O Capa Cavalos». home daqueles que dizia:

Ah! mar estás a roncar (?)… espera que já  te mijo  em cima….

O Agostinho era casado com a Deolinda «Patacão». Ora às tantas esta emprenhou, e o certo é que passou muito mal, a rapariga.

E vai um dia a coisa complicou-se. Chamada a manobradeira do sítio, a ti Tuna «a Parideira», esta logo percebeu que a criança estava atravessada na «vaga», aos baldões e não havia maneira de a trazer cá para fora. Nem com «reboque». Chamando o Agostinho de parte, segredou-lhe:

– Temos aqui um estupor de lanço que ficou no peguilho. Se não levamos a Deolinda a Aveiro, já, ao hospital, vossemecê fica sem rede e sem peixe.

– Mas como (?) … balbucia o arrais que nunca se vira num momento daqueles. Sem estrada, sem transporte só lá para a noite dentro… se

 – É tarde, interrompe a Tuna. Muito tarde. Temos uma.... duas escassas horas. C’a Deolinda não óguenta mais. Vá pedir ao Ti Rigueira «o Murtoseiro» que ele leva a pobre, a Aveiro, na sua bateira «Labrega». Não há outro como ele, a voar sobre a ria, Ti Agostinho. Vá (!) meneie-se raio de homem, parece um xana, aí especado.

O Agostinho deu da perna e passado um pouco voltou com o Rigueira «Murtoseiro» que logo ordenou:

–  Vá, peguem na cachopa e levem-na ali à borda, que eu vou preparar o «camarote». A «Labrega» era uma daquelas bateiras que os murtoseiros traziam com eles, para os lanços do «saltadouro». Elegante na sua bica, toda «embreada», servia de «casa» ao pescador. Que lhe armava no castelo de proa, o toldo espalmado (pata de rã) com que se protegia do vento frio da noite. O Rigueira aconchegou a manta, armou o toldo, e quando trouxeram a Deolinda, foi só poisá-la ao de mansinho,ao de labaró, na «Voadora». Assim se chamava a «Labrega». Toda pretinha, só com o raminho a enfeitar a cruz erguida na bica da sua elegante proa. A «Labrega» do Rigueira era a única que tinha uma vela bastarda, calcada à proa, na sarreta, e verga atirada bem lá para o alto.

Vela enfunada, bem calcada no punho a esticar a testa da vela, escota na mão a comandar a «enchidela», toste bem ferrada, e a «Voadora», era, nas mãos do experimentado Rigueira, uma galgadora da ria.




O Agostinho sentado no «traste» olhava pela Deolinda deitada a seus pés. E os três embarcados atiraram-se à emposta. Punho da escota bem ferrado, cabo do xarolo de sotavento laçado na sarreta barlavento, trilhado nos dedos de pé para comandar a orça, num ápice chegaram ao canalete do «Oudinot». Mas aqui, a Deolinda, fosse pelas batidelas da bateira a adoçar a vaga, fosse pelo respingos da ria que entravam, bateira adentro, diz sentir que:

– Ai meu Deus e nossa Senhora do Bom Momento, «ela» já deu volta e vem aí……

O Rigueira acosta a «Labrega», fundeia numa revessa e pede ao Agostinho (que lívido, hirto, ficara, para ali especado).

– Vá, que a «rede está à borda» e é preciso separar o «mexoalho» do peixe branco. Salta lá para trás homem, estipor que só tens chaniço para o mar. De resto és um empecilho cheio de trízia.

E lavando as mãos na auga que, aquecida pelo vento suão, estava morna, abeirou-se da Deolinda e ordenou:

-Vá lá cachopa: ferra aqui as mãos nos escalamões, retesa-me esses pés no paral, e acospe-me cá para fora o regordido que trazes aí dentro. E tu Agostinho (!): forra a macola com este camisote de linho, com que fui ao altar, e prepara-te para aparar o rebento. Passa-me aí a naifa de rasgar o porfio para cortar a mão da barca ao redame, e «a» libertar.  

E se melhor dito, melhor feito. Eis que de entre as pernas da Deolinda se escapa uma pimpolha a berrar como uma esgalmida. Logo o Rigueira mete o vertedouro na ria, e eslavaça a paxoneira (pois de facto era uma bonita pimpolha que acabara de nascer na «Labrega»).

– Ora, diz a Zefa, virando-se para a Joana que, sorridente ,ouvira toda a história do enredo do seu nascimento,:

 – agora veja, aqui tem o pimpolho nascido às mãos do parteiro Rigueira, a Joana «Labrega».

Eu olhei a para a Joana, embeiçado. Os seus olhos d’água eslavaçados pelas águas da ria, amêndoas doces a boiarem, inquietos, num rosto muito moreno, melaço, vivo e brilhante, eram sublinhados por um cabelo revolto. Negro… negro como o embreado da «labrega» do Ti Agostinho.



Na «labrega» do Rigueira

Nasceu a Joana sem dor

Foi na barca toda de negro

Que nasceu o meu amor.


Senos da Fonseca

                



segunda-feira, dezembro 30, 2024

 As 101 propostas para UM FUTURO PARA AVEIRO 

                              Alberto Souto





Li (e reflecti) com toda a atenção, as 101 sugestões de Alberto Souto em,“UM FUTURO PARA AVEIRO”. Não sendo natural de Aveiro, nem sequer lá residindo (e ainda bem!), não deixei de me debruçar sobre as propostas, avaliando-as, uma a uma. Detive-me, é natural, sobre aquelas que se estendem e procuram uma certa associação intermunicipal com a autarquia de Ílhavo. Até porque, muito curiosamente, há muita coincidência com propostas que, há muito (mesmo muito, antes até de Alberto Souto assumir a Presidência do Município de Aveiro) venho sugerindo (e ainda recentemente mantive) para Ílhavo.


Vamos então às 101 Propostas para um futuro,que, Souto “sonha” e propõe, para Aveiro.Desde logo parece-me que, as sugestões, se houvesse coragem de as levar à prática, trariam, efectivamente, uma mudança radical do paradigma urbano da cidade. Reconheço contudo que, a concretização das mesmas necessitaria um espaço temporal que iria para de dois ou três mandatos autárquicos. O que desde logo torna difícil a exequibilidade de todas. Mas e certo (como refere o autor): “há propostas absolutamente urgentes e factíveis” e outras menos urgentes para se irem concretizando,E até outras, talvez (aceita o autor), não exequíveis.

Julgo bem patente na ideia subadjacente às proposta de Alberto Souto, ao  abarcar  e propor mexer em  áreas tão diversificadas, cobrindo todo o espectro urbano, existir como fio condutor, a procura  do  conceito prioritário de dar a cidade a quem nela habita ou vive, uma cidade onde o cidadão possa  fruir de toda uma série de equipamentos, sejam de saúde, desportivos, lúdicos, educativos e ou culturais, sem constrangimentos  de qualquer espécie, alcançados de uma maneira fácil, acessível, por isso convidativos ao seu usufruto. E só então, proporcionar, e por consequência oferecer, mobilidade adequada (sem ferir o bem estar das populações nativas), a todos os que vindos das redondezas trabalham na cidade, ou a visitam.   

Todas as sugestões de A. Souto, podem e devem ser, publicamente discutidas. Aceites umas sem grande controvérsia (caso da correcção do atentado urbanístico da Av. Lourenço Peixinho, Rossio, as zonas de parques verdes, diversos equipamentos desportivos e de lazer, equipamentos culturais, as sugestões de novas dinâmicas no Urbanismo e Habitação etc), outras certamente merecerão critica ou sugestão para possível correcção.

Importa-nos por razões facilmente perceptíveis, abordar as ideias propostas em duas áreas: a Recuperação do Lago do Paraíso para fins diversificados. Intimamente ligado a esta recuperação, é sugerida numa hipótese intermunicipal entre Ílhavo e Aveiro, para recuperação das margens lagunares, seu tratamento e criação de projecto urbano, singular, na frente da Ria. 

Propusemos e somos acérrimos defensores desse plano. 

A cidade de Ílhavo nasceu e dispôs-se ao longo dos canaletes (muitos!) que despejavam na ria, dos quais o principal, era o Rio da Vila que desaguava na Malhada. Há muito que se impõe criar um novo perfil urbano para a cidade, desenvolvido e alinhado com o canal do Rio Boco, tendo o seu centro (de partida para montante e jusante), no perfil ligeiramente elevado da Malhada (Seca do Milena) onde se fixariam diversos equipamentos (fórum comercial, cultural, desportivo, e em anexo uma unidade hoteleira). Logo abaixo, a recuperação do esteiro da Malhada, para usufruto náutico adequado. De igual modo a poente, a zona ribeirinha das Gafanhas (Boavista e Aquém) seria minuciosamente tratada, recuperada com pontos de fruição específicos e diversificados.

No Lago do Paraíso poderia (e deveria!) ser inserido o

MUSEU DA LAGUNA –EMBARCAÇÕES E ARTES. Com esta unidade museológica, com  o canal navegável do Rio Boco , estaríamos perante o Circuito dos 4 Museus (Aveiro, da Laguna, do  Bacalhau (MMI) e da Vista-Alegra (cerâmica). Uma  atração turística de notável expressão, fascinante diríamos,  capaz de arrastar e promover um fluxo turístico, cultural e comercial de apreciável dimensão e expressão. Com as unidades hoteleiras a implantar com critério no portinho da Malhada, a acrescentar ao Hotel Montebelo (V.A), a oferta turística seria fortemente engradecida, ao ser tão completa como diversificada e rara.

Saliento nas ofertas de A. Souto a concretização descritiva de algo que sempre me bailou no espírito. Escrevi sobre um projecto nascido no séc. XVIII, no tempo de Pombal, sobre a navegabilidade do Rio Vouga até determinada cota: S. Pedro do Sul. O projecto estudado no reinado de D. Maria II, tinha então, a justificação de alargar a virtualidade da abertura da nova Barra (1808), ao interior Beirão. Expandir o comércio das mercadorias chegadas, levando-as ao interior das beiras, e trazer destas para serem exportadas pelo porto de Aveiro, as mercadorias ali produzidas, com o que lucraria Aveiro e as terras interiores. A tal suceder a nova Barra não serviria apenas Aveiro. Se    apenas a isso se limitasse, pouco interesse teria para o desenvolvimento da urbe, fechada em si mesma. Então, por razões da não existência de meios de transporte, nem vias que permitissem levar ao interior mercadorias e dali trazer os produtos manufacturados, o desenvolvimento económico da região seria praticamente desprezível.

Aveiro é conhecida pela “Cidade dos Canais” uma marca identitária propagandeada. Bem poucos os ora aproveitáveis.  Ora Souto recria e sugere a abertura (ou ampliação) de toda uma série de canais, com a finalidade de usufruto dos residentes mas que sirvam de ampliação à actividade turística: assim Souto avança: – novo canal à Universidade, canal da Redúzia, canal entre S. Roque à Ribeira de Esgueira e à Capela das Barrocas, canal entre o lago do Parque do Infante D. Pedro e o canal dos Santos Mártires, e last but not least, o canal de ligação do Canal das Pirâmides à Pateira de Fermentelos.

E porque não, numa acção intermunicipal, a recuperação da ligação da Pateira a Águeda?

Esta abertura de novas linhas de água permitiria, então sim, atribuir a Aveiro com toda a razão, o título da “Cidade dos Canais”. Creio bem que Aveiro passaria a um verdadeiro ”must”, no panorama citadino português.

São muitas e bem justificadas as propostas de A. Souto para um esforço de melhorar talvez, aquele que é no momento ou pelo menos mais complexo e direi, aflitivo problema, de Aveiro. Caótico!... Para o atenuar e em parte resolver a mobilidade na cidade e na acessibilidade à mesma, Souto propõe 23 sugestões de intervenção (ou melhoria) à priori para os que vivem na cidade, e logo depois para os que, por diferentes motivos, a ela pretendam aceder. Não tenho um conhecimento detalhado que me permita dar qualquer sugestão ou achega a este complexo (e ingrato) exercício. Direi apenas: parece-me que A. Souto “foge” a soluções que utilizem túneis para desencarceramento rodoviário (caso da obra de arte sugerida sobre a A25 no acesso Sá-Barroca, solução que me parece poder ser menos agressiva. Não seria a meu ver, em casos mais complexos de utilizar a via subterrânea como solução?

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E fico por aqui pois para mais não tenho “nem obra ou arte” que me permita acrescentar matéria útil ou aconchegante para a revolução urbana que A. Souto propõe para um sólido e coerente futuro para Aveiro: para os que ali viverão e para os muitos que ali procurarão futuro, no exercício da sua actividade profissional,.Mas e também para os que a visitam para deleite turístico.

Importaria que estas ideia fossem publicamente discutidas. Certamente algumas delas melhoradas ou até eliminadas. É tempo de pôr fim ao “fazer e desfazer” ao gosto de cada um, intervindo pontualmente aqui e ali, sem se seguir (antecipadamente) um plano sufragado por aqueles que suportarão (e pagarão) os erros das experiências voluntaristas e individuais de autarcas, muitas vezes caídos na urbe de paraquedas.


Senos da Fonseca







terça-feira, dezembro 24, 2024

 




E hoje apeteceu- me falar delas.....



A emposta do regresso 


– Ah!, chopa, ... Maria!... atão disque c’a Josefa do Tarinca lá de cima, a fidalgota, deu pra contribar o casório da sua Luísa com o «Toino» Lavanco?... aquilo é que m’a saiu uma mancatufe... 

– Assim o dizes, rapariga... Canté (?!): – o que c’ria a inchada?!... o rapaz a modos não é nada cible, nem é nada calamantrão, muito menos um simpras, pois inté nem parece nada um caniné botadinho à boa parte... Não senhor, crendas lá ver o estendal que o pai do Toino fez; apracia banéga ao rossaló... o estipôr. 

S’ta p’rece... o coitado do rapaz não é um mancatufe... nem ó vida!... mulher; e inté dizem que tem umas ecolomias. 

– Tens rezão cachopa... O «Toino» Lavanco não é nada xana n’a senhor; c’a o meu Zé, Deus lhe dê voa biaje – venza-o Cristo e S. Savastião, trê abés e um pai nosso – diz, inté!, q’é um bom reçoeiro, nada como oitros zamparilhas que não maneiam o cú no safar da rede; o arrais Tomé da catralga já o embarcou de camboeiro e ele astreveu-se na t’refa. A Luísa que parece uma tísica – deus me perdoe!, ...em nome do Pai, Filho Esp’rito Santo... – inté ia vem... vem. Quisera-o pr’á minha, que «vem» o merecia... que eu fazia uma festa de arromba com zabumba e tudo... 

– Cal-te óspois aí... vai mulher..., andas desocupada dessa cabeça... deixa a cachopa q’ela chegada a hora tem muito quem lhe meta as três cavernas adentro... «inté p’reces augada». 

– Tendas razão – que ao labaró é que as coisas se fazem d’reitas... e ele anda p’ra aí tanto mancatufe, tantos langões... nosso senhor, libre-nos S. Bartolomeu e as Alminhas da Toira. 

– É assim mesmo, anda p’aí a inquisilar, ca qualquer dia, um zamparilho apanha- a de costas, e vai com’a lâmpada: só c’o viés de ficar limpa como a Igreja do Prior Zé, deixa-a de barriga maior que a sardinha da desoba; anda aí tanto pixano e ela parece bem augada do ca tu sabes... É simpras, ...mas gulosa. 

– ...Mogadinha de mim se isso assuceder... é uma restrabulha... astrevesse-se algum, c’a o pai faz um serrafaçal que levava tudo na frente... Olha c’a fúfia da Zefa lá de cima, quando o Padre Morgado lha disse c’o rapaz não era um probezinho, quinté tinha uma chincha, a merdosa “Olhe senhor abade, «inté o TI ESSE», tem uma chincha”... asfazer pouco dos nossos homes, a fúfia! E não lhe deu mais corrume nenhum... c’o abade desandou inxerido com o frieldade da Zefa. 

– Olha sabas o que te digo:

– A Zefa é uma opiniática mal “cosida”... preceves?

– Ah mulher, cal’te sua desbocada: – «u c’astás» tu p’ra aí a dizer...

– É o que lhe digo Ti Maria, se fosse como aqui a cachopa “c’a té tenho «calo» dos trimbaldes do meu Zé, de tanto me vaterem nas «náudegas»”...

– Ah! mulher de «labishomme» q’uessas coisas n’a se apregoam com’a sardinha c’aí levas... depois, s’é fraca – dizem que é «ogalho» a ti...

– Conversas... sabe o «c´a penso»?!; a Luisinha na tinha era remada pró Toino, q’ué cá dos noissos, e quando chegada a hora de meter o remo ao escalamão, a chopa aborregava. E o rapaz c’a dizem ser píxaro e pediqueiro de saias, inda ficava a ver navios... 

– Cal-te aí... oh! alma penada, não digas isso... que t’a podem oibir raios... de estrafego!... olha vamos é avusacar aqui um bocado, aproveitar para escofenar o peixe, c’a óspois na benda é uma fona e a gadagem d’ibalho diz c’andámos ao mal mainço por aí, invez de bir a d’reito... 

– Olha, cal’te que vem ali a Josefa...

– Boas tardes Sra. Josefa... – sorri prazenteira a Ti Maria, chegada à faladura com a Zefa... – Nóis a falar dos santos e eles oprecem. Vons olhos a bejam... a sua Luisinha?... cada vez mais bonita... a santa!... a Sra do Pranto lhe dê um fidalgo da sua igualha, c’a bem m’rece a coitadinha: Olhe Sra Zefa, quer sardinha da nossa, bibinha a vrilhar como um buzelicum – olhe c’inda ri – viemos numa corriola p’rà trazer fresquinha com’àuga... 


Senos da Fonseca




 


 Natal 

 






Ano após ano
Aos meninos « educados »
Foi contada uma história... 

(...) há muitos...muitos anos
Lá longe num deserto árido,
Numa cabana,
Protegendo-o do frio,
Nasceu um «menino puro»,
Fruto do ventre de «uma mulher pura». 

Assim nos contaram 
Tão milagrosa proeza,
Prodígio de um Deus maior.
De madrugada vieram reis, sábios e que tais 
E muita gente mais
Para adorar o menino
Cuja vinda se disse, então
Era semear a paz entre os homens
Acabar com o tempo da negação. 
Hoje, na praia salgada,
 Uma onda perdida,
Despejou na areia um menino de tenra idade.
Viria também ele salvar o mundo? 
Não!
Não era menino puro, nem filho de mulher pura... 
Era o KURDY, menino fugido das guerras
Feita por homens para exterminar outros homens
 
Senhores das guerras
Que às segundas vendem armas 
Às terças traficam na bolsa
Às quartas cobram a protecção
Às quintas prostituem mulheres-crianças,
 Às sextas corrompem políticos
Aos sábados vão ao barbeiro
Ao domingo, mãos no peito,
Tomam seraficamente a hóstia.
Homens de muro fechado
Em volta do coração. 



O  menino na solidão 
Da praia, abandonado,
Não tinha
Mãe para o chorar, 
Nem bois para o aquecer,
Nem reis para o prendar...
Era fruto de uma flor impura
A pedir a paz ao mundo.
Trouxe-o o mar morto da natureza 
Já sem vida nem praganas. 
Por companhia as gaivotas 
Inconsciente, abandonado,
O dia rompia a noite
E só a lua aquecia o areal prateado. 

A  “vida do outro  menino”,
«Filho de um Deus»
Prometido,
Cruzou séculos na história 
Ano após ano, no presépio acolhido.

 
A história do Kurdy, menino
De condição humana
Igual a tantos milhões
Nascidos  para aprender 
Que liberdade se escreve com sangue,
Encerrou-se na praia, 
Sem nunca a sentir ou sequer a ver.

O mar separa a história destes meninos:


Um morreu na cruz por mor dos homens
O outro morreu na praia por desamor entre os homens. 


[Perante a realidade cruel da vida, 
só a inutilidade da morte os compara... 

SF



domingo, dezembro 22, 2024

 O Sr. Zé e o Visconde






Raios: tempo desalmado, esgalmido. Inquisilento e mal sadio. Por mor do dito cujo, deixei de encontrar a Zefa e a Bernarda, e de, com elas, ter prazer de charlar e rir. Rir, sim!... porque na minha idade, rir é o melhor «xanax» para a alma retorcida. E eu, confesso, já estava farto de estar aqui encanteirado, confinado (e desafinado) neste «estar à janela». Parado, especado a olhar as serranias, dorido de tanto «sobe e desce» que as curvas serranas mostram. Neste pousio, enquanto chove e eu aqui especado, pareço estar só: eu e o mundo. Sonhar é bom. Mas sonhar, intervaladamente. Poema que me saia, fala invariavelmente da mulher amada. Começo a ficar tão farto de fingir, que até me apetece dizer: quero-te só para sonhar contigo.
Mais uma sota, nesta segunda-feira, permitiu-me o reencontro. Eu, a Zefa e a Bernarda, falámos de muita coisa. De entre elas catei uma bonita «estória». Axixem-se que vo-la conto...
– Olhe – diz a Bernarda: este tempo desembestado faz-me recordar a nossa vida em pequenas. O palheiro onde nos abrigávamos do tempo, feito de um tabuado mal encostado, deixava passar o vento frio por entre as frinchas, que até zunia. Então, nas noites de surriada tiravam-se os cobertores serranos da enxerga e punham-se a fazer de anteparo. E para não ir para a enxerga e ter frio, « abusacávamos » em volta do borralho. À luz de um candeeiro trémulo, por vias da fisga ventosa que escapulia entre frinchas, íamos ouvindo os maiorais, enquanto uns cavaquitos apanhados do outro lado, no matagal da Maluca, ardiam, mitigando o frio. E entre conversa lá íamos « assalgalhando », quebrando, o jejum.
Numa lengalenga familiar, ouvíamos «histórias» do antigamente. Lembro uma, que fez o encanto da minha meninice.
– Sabe?!: sempre pensei, porque fui testemunha viva da heroicidade demente daqueles «arraisas», que, às vezes, até parecia não regularem bem, quando no meio do areal, frente ao desalmado mar, gritavam: – «bota prómar, ca este mar enxogalhado não mete medo a homes». E nós, que ficá- vamos especadas na praia, arrepiadas a ver o meia-lua encabritar-se na primeira vaga, e logo atrás dela, vir a segunda, ainda mais danada, arrepanhávamos os cabelos e só sabíamos gritar: – ai o meu Pai, coitadinho, que lá fica!
Ora um dia, contou o meu avô, o Chico «Cuteta», o Sr. Zé ( José Estêvão) tinha vindo, como habitualmente, à borda, a conversar com as «nossas» gentes. A saber da nossa vida. Trazia com ele uns «fidalgotes» da cidade, que se viam astrapalhados, dizia o Ti Cuteta, com a areia a entrar-lhes para as polainas. «Que inté» pareciam um barco alquebrado «a meter auga»...
E parando, apresentou-os ao arrais Thomé. Um dos fidalgos, homem de larga bigodeira engomada e retesada que mais parecia imitar o «meia-lua», dirigiu-se sorridente ao Thomé dizendo-lhe:
– Atão vossemecê é que é um dos tais «ílhos» que o Visconde diz, pedirem meças ao campino, a saber qual mais valente (?): se o que defronta o touro, se o que investe o mar!!!!... Sim senhora, finalmente vejo um dessa espécime. E Vossemecê que pensa do que diz «Visconde» (?), pergunta o fidalgo letrado, ao Thomé.
– Ora saiba òspois que eu penso que esse tal Visconde – òsculpe mas não o conheço – é zamparilha. Ora essa: – olhe ...
E zás!!! A um boi que vinha dar o chicote ao «calão», fila-o pelos cornos, torce... torce... torce... até que o boi ajoelha e cai de borco na areia, resfolegando e espumando, preso pelas manápulas do Thomé.
Este levanta-se, sacode as mãos, põe o boné́, e diz para o amigalhaço do Sr. Zé:
– Ora diga agora ao tal «Visconde» que faça isto com o mar. E veja quantos homes eram precisos para o abraçar. Todos os que há no mundo! O «manso», esses (!), como-o eu em bifes. Sem sal parecem feitos de palha. O mar, esse (!) – e ao dizê-lo tira respeitosamente o boné – bebe-se aos golinhos, cassenão afogamos no seu sal. Essas gentes de que fala o dito, enfarpelam-se de vermelho e são bailarinos. Pissofoques. Morres-lhe pouca gente, por certo. Olhe em volta Vossa Senhoria, e repare na nossas gentes: vê-os quase todos de preto. Vestem-se assim pelos que ali (apontando o mar) ficaram. Mas isso Não “os quita de zangalharem» com ele, as vezes que forem precisas.
Enquanto a conversa decorria, o Sr. Zé, ria a bom rir.
– Pois... Ó Pinheiro!!!, meteste-te com boa rês. Logo com este gladiador do mar. Como aqui se diz: òguenta-te...
Senos da Fonseca

sábado, dezembro 21, 2024

 O relógio não para....

O tempo corre
Neste dia, frio e zangado,
A ria palheteada de prata
Parece cansada
Na sua peregrinação
De tanto correr para o mar.
E eu também cansado
Fico a desouvir o mundo
Onde reina humana expiação.

É frio este entardecer,
Não vale a pena fingir
E rezar por mim.
Não, não o faças.
Cheguei à vida
Porque assim quiseram.
Cheguei a sorrir...
Eu não sei bem se o desejava.
Não sabia que ia cumprir
Um fadário em que me negava
Mais fazer pelos outros
Que por mim não ser.

Hoje sonho
Noite de magia
Em que nascesse de novo;
Não para ser mais o menino
Mas para ser o “Homem”
Que com a palavra derrubasse o muro
Para que por ele passassem
Aqueles para quem não há presente,
E muito menos futuro.

Quereria ainda, antes de partir
Ter a doce ilusão
Uma ilusão do tamanho
Do meu eu
Em que a humana pequenez
Do espoliado revoltado,
Ferisse a «fera» do mundo avultado.
Para que quando a manhã nascesse
Não houvesse ricos nem pobres.
Manhã onde o Homem se afirmasse
Querer ser sem condições
A poder olhar livre, em todas as direcções.

E quando hoje deixasse de ser hoje,
Este obscuro poema
Transformado presépio real
Pudesse mostrar ao mundo:
Afinal sempre há Natal!
Senos da Fonseca
Pode ser arte
Gosto
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 (do livro PREIA-MAR) DUNA A verdade era que, Aquela música sensual ouvida, Ritmada com a vaga a enrolar, Na areia da praia parada, Parecia...