domingo, fevereiro 20, 2011



   « FAINA-MAIOR»


No magnífico auditório do MMI- sala reservada para apresentação de grandes escritos - foi apresentada uma reedição do álbum «Faina Maior», há muito esgotado e que se impunha recolocar no centro das atenções, cuja autoria pertence ao saudoso «Chico» Marques, assessorado pela sempre interessada (e sabedora destas intimidades marujas), Ana Maria Lopes. À pena fluida do «Chico» que posteriormente teria tempo para se experimentar em outros escritos, revelando uma capacidade descritiva muito apreciável no jeito com que capta o leitor e lhe transmite imagens gravadas e tratadas(reflectidas), que se deixa rapidamente envolver pela paisagem agreste dos mares danados onde se cata (va) o fiel amigo, junta-se a conhecida segurança técnica ( cuidado no pormenor)especialmente a especial atenção e relevo que sabe dar à imagem, característica que acabaria por demonstrar sobejamente, no seu livro posteriormente editado, «Moliceiros» -Memória da Ria.

Entendamo-nos. É claro que o álbum «Faina Maior»   é  leve; é um memorial descritivo, espécie de diário prolixo de bordo, que «não pretende, nem quer» ir mais além, do que a focalização dos aspectos técnicos inerentes a     uma  recriada viagem, barra a barra,  a bordo de um lugre bacalhoeiro dos   anos 30. Onde é certo por vezes sobressair uma ou outra pincelada de vivência quotidiana abordo;- suavizada, demasiado, talvez!..


Nos anos trinta, aqui, em Portugal, ainda se teimava -e uns poucos faziam por acreditar - que a anquilosada pesca à linha, tinha ainda futuro…

Iam passados  cinco séculos desde que homens rudes, mas irredutíveis, vinham pescando o bacalhau nas águas frias da Terra-Nova,Apaixonante aventura,em que desde os primeiros momentos estivemos presentes. Gentes de laguna de Aveiro (acompanhados  de gentes,de Viana e açoriana) foram os primeiros a romper o medo com tão longo afastamento em águas tão beligerantes e impiedosas.

A pesca iniciada dentro de barricas, fixadas a cada bordo do navio,foi sofrendo evoluções.Em 1875, o pescador saltou, linha na mão para dentro do dóri, em cada dia,da alba ao crepúsculo, a defrontar as névoas cerradas e gélidas, suportando no corpo e na alma dorida, as intempéries que uma natureza desapiedada fazia gala em oferecer.

Em 1628, já nos tinha sido impedida a nossa presença. Faina apenas reduzida a franceses e ingleses (mais na guerra dos impostos que na vontade de pesca), em guerras intermináveis «dos bacalhaus». Nesse ano, só de S.Malô armariam 112 embarcações.



Os portugueses, longos séculos afastados, só regressariam à Terra-Nova em 1836. (?),enviando três hiates, entre os quais o Patacho Neptuno com o nosso Cap.Pena (o primeiro capitão português da era segunda,da pesca do bacalhau), apoiados pelos grandes capitalistas judeus que investiram na Companhia Lisbonense de Pescas. Em 1848 enviávamos, já, 19 veleiros.E em  1907, juntamente com 235 três mastros franceses, povoávamos, já então, os bancos da Terra- Nova.

No referido ano dar-se-ia a aparição do primeiro «chalutier» francês. Os resultados tardaram pouco a ser universalmente assumidos, alterando profundamente os hábitos de pesca, tornando-a menos pesada. E muito menos perigoso o desempenho das tripulações. A França (e outros) investem neste tipo de pesca, convictos dos resultados. Daquele país ,em 1939, já não largam mais do que onze veleiros para a pesca à linha, que os franceses apelidaram «Le Grand Mètier». Entretanto ,de 1924 a 1939, os franceses passariam de 28 a 40 arrastões (dobrando a capacidade de carga).

Por cá, indiferentes ao que a experiência recomendava, continuou-se a exaltar como verdadeiro fim patriótico de unidade em torno de um desígnio nacional, a faina maior, investindo na construção de lugres: em 1910 tínhamos 28 lugres, em 1917 eram já 40 embarcações, (….) até que em 1969, dos 65 navios envolvidos na pesca do fiel amigo, trinta utilizavam, ainda, o anacrónico sistema de pesca à linha.

Em todas as circunstâncias, a grande saga dos «terra-novas», merece ser tratada na sua integralidade. O que convenhamos, entre nós, se não fez. Certo é que o livro «Faina Maior», editado logo após a exposição -com o mesmo nome - levada a cabo no Museu em 1996, e cujos responsáveis maiores foram precisamente os autores acima referidos, teve o (grande) mérito de desafiar a que, sobre o assunto, outros intervenientes prestassem o seu testemunho. Há coisas boas já publicadas, no seguimento desse desafio. Excelentes mesmo. Mas falta, em nossa opinião, o livro impossível de nascer aqui, na nossa terra, onde temos uma visão parcial, muito própria e particular, do que foi essa saga.Temos uma leitura bem diferente,é tudo.

O livro aí está de novo a refrescar a memória. E a cumprir a sua missão. Estão todos de parabéns.

SF



PS- Se os leitores quiserem mesmo ter uma noção do que foi a «Faina Maior», vista de outro ângulo, por aqueles que mais a sentiram na pele, colhendo o desamor e a amargura dos dias sem fim, e onde apesar de tudo se encontram retratos humanos de uma grandeza patética a duvidar da razão de uma actividade que lhes devorava, a alma e o corpo, sugiro, depois da leitura do nosso «Faina Maior» (obrigatória), a leitura do «Mer Misère» de Jean Michèl Barrault. Um dos livros mais bonitos – mesmo que amargo, dramático, -que me foi dado ler. Simplesmente notável. Fazendo jus aos inúmeros prémios que lhe foram consagrados








SF
























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