sexta-feira, outubro 27, 2017

Postal nº 13

E assim vai a Costa-Nova do Prado.

Bonita, airosa e vistosa, segue vaidosa de ser o mais lindo presépio colorido deste País.
Terra ainda criança, onde apenas lavram duzentos anos de historial desde  que o homem violou pela primeira vez a virgindade do seu areal, a Costa Nova do Prado é, talvez, o mais belo rincão pátrio, postado entre o mar e a ria, que lhe deram vida e prazer.
A Costa Nova é um bodo  alargado para o sensório das gentes, inebriadas pelo despertar do  sol garimpando  lá da serra, a fazer ressair o verde da sua paisagem, enquanto vai toldando  de um avermelhado suave, as águas azuis da Ria. Tão azuis  que encharcam o olhar dos mirantes. A Costa Nova é uma paleta de pintor consagrado, em que o artista vai, hora a hora, misturando as cores pródigas da natureza, num contínuo mudar de tom. Ao meio dia, o azul das águas, tinge o azulão do céu, onde parecem pairar, olhudos, os anjos que nele habitam, olhando ciosos e ciumentos, a amplidão de frescura que paira cá por baixo.
Enquanto isso, o passeante olha, admirado  e estupefacto, os palheirinhos riscados de cores fortes, encostados beiral com beiral, como para se manterem erectos da trabuzana ameaçadora. Dos beirais  penduram-se  varandas de branco imaculado, púlpitos onde antigamente  se acantonavam mirantes, olhar perdido, embarcado na  proa de um qualquer ronceiro moliceiro, onde se lia ”bamos lá cum Deus”. Era vê-los para cá e para lá, catando pachorrentamente a ria, ensarilhando   os seus cabelos dourados nos ancinhos calados na borda, para com eles engordar as leiras ainda enlodadas, na suada feitura dos largos e deslumbrante milheirais, prados enverdecidos, que  completaram o nome à Costa Nova, postados ali, na Maluca, bem à sua frente.
Hoje, é certo, falta à Costa Nova do Prado, a beira mar ruralizada, prenhe de gente afadigada, num corrupio de entontecer, correndo duna acima, duna abaixo, na entre ajuda, a trazer do mar a rede que o meia-lua, foi lá longe esparralhar. O mirante, hoje, não   observa, arrepiado, o encabritar do barquito na vaga. A apontar a bica ao céu, para logo se enterrar na vagalhoça seguinte, impulsionado por meia centena de rijos pescadores embarcados, obedecendo, fiéis, á ordem do arrais:  Rema!!!!....rema...é agora ...vá...
E o mulherio na praia depois de saber os seus, mar adentro, salvos desta primeira investida, esconjurado o perigo, logo tocam os  bois que parecem descer ao areal para na sua borda lavrarem o mar.Tudo mexe a preparar  a longa e penosa puxada da rede para terra. Até que, porfírio cortado, saco esventrado, nele  ressalte em lampejos cintilantes de mil espelhos prateados, a bela sardinha debatendo-se no estertor do seu fim. Era uma correria atropelada. Onde se esqueciam regras, onde tudo era luta, tumulto, vigor escorrido no ressoar de corpos, para  ganho de pobre espórtula que (mal) dava para viver.
Se é certo que hoje esse espectáculo já não existe, porque o tempo corre célere na mudança, uma coisa não mudou:  o adormecer do sol que, à tardinha, vem, cansado de tão longa volta, espreguiçar-se no mar.
É sempre um bodo o entardecer neste recanto luxuriante onde a natureza foi pródiga em oferta: o azul vivo  do mar tinge-se de um afogueado quente, vivo, que preanuncia o fim do afadigado dia. Momentos únicos onde  a cor permanece em  continua transmutação de vermelhões em variadas gradações, aqui e ali, por vezes, entrecortados por farrapos de uma ou outra nuvem, transmitindo a sensação de por ali existir na paisagem, alma!. Alma de êxtase, que prodigamente se transmite à alma do mirante a deixar-se  envolver por tão soberbo momento. Uma e outra gaivota ziguezagueiam os ares, parecendo com esses requebros doces virem despedir-se do barbazanas de fogo que lentamente vai mergulhando nos confins do horizonte.

A Costa Nova, menina ainda, parece adormecer, ao de lábaro :suave, docemente, embrulhada na esfarrapada neblina que se estende pela ria.



Mas logo vindo do outro lado desponta uma lua cheia, a reflectir  o vermelhão do astro rei. Sobe às alturas, enquanto à sua volta a mutação e cambiantes de cor são um manjar de enlevo para o olhar. À medida que sobe, desaparecido o “rei”, logo a lua se cobre de um prateado extreme. E é esse prateado que vai tingir uma ria serena, dando-lhe um aspecto de inaudita tranquilidade. Só aqui e ali rompida pelo chape..chape...de um peixito que se deixou apanhar pela traquina gaivota.
E a noite convida ao repouso.
Embalada neste luar, a Costa-Nova, espreguiça-se no areal ...e adormece o  corpo afadigado .
Até que de manhã o estrídulo piar de um maçarico errante, ecoa na lusco fusco de uma luz indecisa da madrugada, a despertar no vermelhão que desce lá da serra.
E o bulício recomeça...


Senos da Fonseca (Postal nº13)

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