sexta-feira, abril 03, 2015



 

Carta Aberta á Professora de Flauta do meu neto ....

 

Chegado o neto mais novo,  casa, para passar a Páscoa, comigo,  inquirido sobre as notas do período, lamentou-se o rapaz que, sendo boas a notas a  todas, teve de novo negativa a Musica.

-Eh! pá não me digas que não sabes ,nem ao menos, tocar ferrinhos?

-Não avô o problema é que não aprendo a tocar flauta....

-Ainda bem rapaz, isso é instrumento de meninas..

E vai daí resolvi escrever esta carta á Digmª Professora de Flauta:

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Ex. m ª Senhora Professora:

Triste e psicologicamente abatido, o meu neto(J.B..........) trouxe-me a notícia de, e uma vez mais, ser anotado com negativa, na importante e fundamental cadeira lecionada por V Exª, mais concretamente na matéria: FLAUTA.

Ora eu não estou em crer na dificuldade do instrumento, se bom e convenientemente manejável .Bem soprado, sempre acabará, mesmo que mal tocado, por corresponder ás pretensões do proprietário. E às expectatvas  da soprano.

Devo dizer a V Exª que ,sem dote algum que me indiciasse poder,um dia ,ser um «mozart»,fui um esforçado professor de «flauta». Instrumento proibido antes de Abril de 74,a que era atribuído um nome fellatiano, muito  poético mas estranho na compreensão literal portuguesa, muito mais talhada para os enfeites peitorais, foi depois introduzido nas camadas populares, decididas a aprender novas motivações sensoriais. E ai da novas gerações que não saibam tocar «flauta». A «sublevação» nunca será consumada.

Preocupei-me sempre em demonstrar que a «flauta», não é, só em si ,e por si, um instrumento de sopro. Não!.... É um instrumento onde a movimentação, suave mas certeira do dedo, extrai todas as virtualidades da «cana»- Digo «cana» porque  naqueles primeiros tempos, o popular caniço, era o instrumento menos espaventoso, mas bem mais redondinho(muito mais popular) ,e por isso mais alcance das camadas mais desfavorecidas. Não na «cana»-longe disso!-  mas na disponibilidade partouze «pífara».

Com muita paciência -e por boa causa,registe-se - ensinei que não era apenas um simples movimento labial que fazia «vir» a musica celestial». Não. Definitivamente. A corrente tumultuosa  vinda das profundezas, perturbadora da razão e do espirito, e dos sentidos, furacão que eleva o mortal ás alturas dos deuses,  só se consegue com um suave -e  bem ajustado- manejo dos dedos, nos orifícios  instrumentais.

Fico pois perplexo como é que V Exª, formada numa Universidade moderna, certamente «praxada» e certamente solicitada  -certamente «et por cause», outras por «cause e Comp.»-para o citado exercício instrumental, com que a massa estudantil desfilava  metaforicamente ilustrando grupos  estudantis, não consegue explicar a matéria, na sua complexa mas saborosa, complexidade. Melhor é voltar á reciclagem....

Tomo  a liberdade de informar V Exª de que me predispus ao seu tutelar Ministro, Crato de nome, cretino de ideias, a oferecer-me como voluntário para o exame de avaliação nesta matéria,  certo de que não  me disponho a julgar, mas a exercer uma avaliação continuada da aprendizagem na matéria (assim sim,é que se aprende o ofício).    

Reconhecendo a importância de que o propósito luso está no saber «musical» do corridinho flauteado, à portuguesa, sou,

De V Exª muito penhorado

 

SF

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