quarta-feira, julho 09, 2008



Exposição Temporária de João Carlos e de Cândido Teles



No passado sábado (dia 5), motivado pela anunciada exposição que reunia os dois mais expressivos pintores ilhavenses, João Carlos (C.G) e Cândido Teles, dei comigo a entrar na «Barragem», que é como o neto Miguel classifica o inestético edifício do Centro Cultural de Ílhavo.


O interior daquele monstro inestético é muito mau; pior por dentro que por fora. Não tem ponta por onde se lhe pegue: inestético (a entrada para o Salão da Exposição, essa é deprimente), delirante (a escada de caracol não tem qualquer função ou utilidade); chocante a pobreza (e inadequadação) do piso do salão de exposição; imprópria a iluminação da sala para aquele tipo de exposições ( e que deveria constar do caderno de encargos da obra, se é que o houve), porquanto como o reafirmou o Sr. Presidente, a mesma destinava-se, só e apenas, para albergar a exposição permanente dos trabalhos daqueles dois artistas ilhavenses.

Da exposição, só as obras dos autores escaparam. Valha-nos isso.

Se a alma dos dois artistas pairasse nas suas obras, dever-se-iam ter sentido terrivelmente consternadas com tanta azelhice (e desleixo) de quem preparou a exposição.

1-Parece.nos perfeitamente claro que o bom senso mandaria que os dois pintores não devessem ser patentes numa mostra conjunta. Porque não há o mínimo ponto de encontro entre técnica, temática, motivação e expressão, artística, que permita qualquer tipo de abordagem, comum. Talvez que numa selecção muito criteriosa (e reduzida) dos trabalhos dos autores permitisse uma exposição lado a lado. Com tal quantidade de trabalhos de um e do outro, não nos parece aconselhável metê-los num único espaço, comum.

2-Por outro lado parece-nos que não se ganha nada com a exposição em quantidade, quando esta não segue nenhum critério (ou pelo menos não o conseguimos descortinar); -nem cronológico, nem temático, nem outro qualquer. Nada. Os quadros estavam espalhados ao sabor de coisa nenhuma. Como no catálogo.

3 -Desconheço por outro lado se a Câmara (o Museu) é detentora de obras dos vários períodos de Cândido Teles, um verdadeiro experimentador estético, que se deixa absorver pelo meio em que sucessivamente se integra, experimentando técnicas mas não modismos. (Ria, África, Alentejo e de novo Ria -moliceiros). Se as tem teria sido muito mais interessante retirar algumas das presentes (que nada acrescentam) e incluírem-se as que dessem a conhecer os referidos períodos mencionados, permitindo, assim, ter uma ideia da evolução do artista. Sempre gostei particularmente do primeiro período de CT, como seu pontilhado impressionista, e depois a fase do Alentejo, quente , cromaticamente muito trabalhada, sóbria mas intensa, contrariamente à de Africa, em que o escuro rouba, a meu ver, alguma das particularidades do mestre.Á excepção das figuras. Foi pois uma oportunidade perdida, esta, em que sem critério (ou se existia era imperceptível e incompreensível) as obras foram achapadas pela área da exposição.

4-De João Carlos ficaram por expor algumas obras, particularmente bonitas. O que deu origem a murmúrios que, parece, voltam a exorcizar os espíritos, com a falta de uma explicação que há muito deveria já ter sido dada.

Ao contrário de Cândido Teles, João Carlos, em nossa opinião, esteve escassamente representado. Porque João Carlos, justifica, se se pretender mostrar toda a busca e experimentação nas mais diversas maneiras de exprimir a arte, que lhe consagremos uma só sala. Porque claramente João Carlos na sua inquietação de artista sôfrego desbaratou carradas o talento por tudo onde pudesse exprimir arte: e por isso não foi apenas um pintor desenhista, mas um notável entalhador – com raízes muito profundas na temática local –como ainda modelou o barro com a afeição de um ceramista; e ainda um extraordinário xilógrafo . Por isso dar a conhecer o espírito fecundo de JC, não é apenas mostrar as suas pinturas e ou desenhos.É muito mais do que isso.

5-Que dizer do catalogo? Desde logo a abrir, deplorável (patareca e patega) a preocupação – parece que única! - em mostrar a foto do Sr. Presidente, omnipresente, fosse qual fosse o início de leitura. Da frente para trás ou de trás para a frente. Um culto de personalidade doentio, este, de por tudo e por nada lhe colarem a fotografia em panegírico laudatório.

Um catálogo em que as obras expostas não são numeradas nem identificadas, reduz a efectiva utilidade da brochura guia. Incompreensivel !....Pior era impossível fazer-se.

6-Outra questão que não mereceu a mínima atenção aos responsáveis, prende-se com a falta de qualidade da iluminação da Sala, falha imperdoável do projecto, que se mostra perfeitamente inadaptado para as funções que presidiu à sua feitura. De um lado a luz batia em cheio nos quadros; do outro estava completamente arredia. Era sol e sombra,o ambiente.


Em resumo, repetimos:

Salvo as obras dos artistas – notáveis algumas delas –, tudo o resto mostrou em elevada dose leviandade, ligeireza, desconhecimento, despreparo e até negligência.

Pareceu apenas e só, o descarte enfastiado de uma promessa feita por linguaraz, no habitual exercício de demonstração da leveza da palavra vã.

Por entre os presentes os comentários eram de profundo desagrado. Mas como habitualmente tudo ficará pelo rumorejo.

Temos pois, o que merecemos. Isso sei de fonte sabida.


Aladino

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