quinta-feira, janeiro 16, 2014

 

«Ílhava»

 
Agora que a «ílhava» navega nas águas remansosas do MMI, onde pode ser apreciada em toda a grandeza e beleza das suas geniais linhas, acabados os festejos, atirados os foguetes (e recolhidas as canas), julgo útil deixar aqui um testemunho de quem um dia a descobriu (?) entre papéis, e se apaixonou pela sua grandiosidade e graciosidade. Uma embarcação é como uma mulher: nas suas linhas descortina-se, ao primeiro olhar, se é ou não embarcação de boas mareações. Depois….Bem! depois…..é preciso  mão firme no leme e escota bem aconchegada.

 Mas voltando à «ílhava». A paixão levou-me a seguir o seu historial e a descobrir a saga dos irredutíveis «ilhos». Gentes que só tinham medo de não ter medo. Que respeito...isso é outra conversa!

Vamos então à história.

Já lá vai quase meio século, quando preparámos um trabalho sobre Ílhavo (para um concurso levado a cabo pelo Illiabum, que ganhei, e cuja importância material, ao tempo assinalável, deu origem à sustentação do prémio Mário Sacramento).Criado  para premiar o melhor aluno da Escola Secundária de Ílhavo – ainda então, sem o nome de João Carlos, manteve-se durante vários anos.

Ora foi no desenrolar desse trabalho que tomei contacto com a «ílhava».

Possui – comprei, recuperei e tratei amorosamente – muitas embarcações lagunares, incluindo um moliceiro. Bateiras, muitas. Dóris, etc., etc. Estava então a viver o pico de paixão pela laguna, e sua história. A «ílhava» veio aumentar a paixoneta.

Interroguei toda a gente e constatei que ninguém – mas é que mesmo ninguém (!) - se lembrava de tal  bateira. Meu Pai recordava-se que meu Avô tinha por costume, levar numa delas ( que alugava) a numerosa família, às festas lagunares. Contudo meu Pai, que era então ainda um rapazinho, não tinha ideia concreta das formas. Olha!... dizia-me: era parecida com um moliceiro, mas não tão curvada na proa. Mais bonita… Frederico de Moura foi outro dos inquiridos, sem ter qualquer ideia precisa. O mesmo direi de Amadeu Cachim, este um pouco confuso, lembro-me, com a «Preta Murtoseira» do Ti Tainha.

 Fui observando, recolhendo elementos, e, há cerca de vinte e tal anos, fui falar com a D. Ana Maria Lopes (então directora do Museu) para saber se no mesmo existiam elementos identificadores. A Ana Maria desconhecia. Passados uns tempos, a Ana teve a amabilidade de me enviar umas folhas fotocopiadas, do livro de Castello Branco que tinha encontrado, e onde a ílhava é referenciada (sem dúvida, a referência que foi bastante para fazer luz e permitir ordenar as minhas ideias).

Na visita já feita ao Museu de Marinha, não vi nada de clarificador (o modelo de barco  que o Cap. Marques da Silva reproduziu mais tarde, com o rigor habitual, não estava em exposição.Ou não o descortinei).

Não desisti e da recolha feita (com todas as fotografias que encontrei nos alfarrabistas de Lisboa e Porto, e de outras referências, julguei estar em condições de desenhar, em 2D, as linhas que supunha, serem suficientes  para construir à escala 1/1, uma «ílhava».

Resolvidos os primeiros problemas depois de assumida a Direcção do Clube de Vela da CN, depois de conseguirmos a dadiva do moliceiro, «O Ilhavense», recuperado e posto a navegar, como novo, propus que em partenariado com a SIMRIA, se levasse  a cabo a construção de uma «ílhava». Para o efeito contratámos o mestre Conde, na Gafanha, fornecendo-lhe os planos (muito ténues).Adquirida a madeira, fechámos acordo: – 400 contos, então.

Passados meses, o Mestre Conde contactou-nos, informando que, dadas as dificuldades, desistir da empreitada, propondo-se (honestamente) devolver o dinheiro do custo da madeira.

Que remédio…tivemos de aceitar.

Com a feitura do livro «Embarcações que Tiveram o seu Berço na Laguna», aprofundámos os saberes. Desenhámos já com rigor, então, os planos em 2D de todas as embarcações nele  tratadas (os ex-libris lagunares). Mas talvez influenciado pela necessidade de facilitar a vida a quem quisesse construir, lancei-me, auxiliado por um profissional,  na aventura de arquitectar os planos a 3D. No final, eu próprio fiquei deslumbrado com o resultado do trabalho final.Que demorou três longos anos a concretizar (mas que valeu a pena com o prémio da Academia de Marinha que lhe foi atribuído).

O modelo da «ílhava» à escala 1/27 foi executado (como o foram todos os restantes para estudo pormenorizado). Pareceu-nos na altura correcto, pois havia diversos pormenores (plano vélico, manobra deste, remos, encosto do mastro, etc.), que foram objecto de um longo aprofundamento.

Foi, entretanto, mostrado no Museu o modelo do Cap. Marques da Silva. Reproduzindo exactamente  o modelo existente no Museu de Marinha, que nessa altura era já do meu conhecimento (julgo que no Museu da Marinha está –ou estava – identificado como «Saveiro»). No Blog de então, fiz uma comparação entre as diferenças vislumbradas no meu modelo e aquele. No fundamental, residiam no plano vélico e nas linhas da bica. No resto eram coincidentes.

No ano passado recebi uma convocatória dos AMMI. Foi- me então dado a conhecer a pretensão de mandar construir uma «ílhava». E solicitada a informação sobre a possibilidade, foi-me inquirido se aceitava orientar o mestre construtor e se os planos que tinha eram exequíveis.

Sobre o mestre não havia dúvidas. A minha longa experiência e relação com o mestre Esteves,de Pardilhó, fazia-me indicá-lo, sem qualquer rebuço, como o mestre mais capacitado para a execução. Quase diria, único ,capaz de tal proeza.

 A questão  colocou-se  em tirar os planos da embarcação a uma escala 1/1. Contactada a Martinfer, houve que pôr de parte a ideia. Lembrei-me, então, de procurar junto das empresas em Aveiro, o maior scanner instalado. E encontrei finalmente um, que permitiu tirar, num plano único que mais parecia um lençol ,toda a embarcação (as cavernas no tamanho real tiveram de ser tiradas ao correr com o papel, pois o scanner não permitia outro artificio).

Mas a embarcação no seu tamanho natural, em todas as suas formas e dimensões, plano vélico incluído, estava ali. Era colocar, peça a peça o «desenho» sobre a madeira...e cortar… E depois usar a técnica de construção ancestral. Uma coisa foi desenhar os planos a 3D.Outra foi testar que os mesmos correspondiam ás expectativas. Foi um dia muito gratificante, em que constatei que o tempo nunca me retirou a vontade inabalável(por vezes doentia) para me desafiar em ir mais longe.

Com a D. Ana M. Lopes (nomeada para coordenar a ligação com o mestre) fomos a Pardilhó apresentar os planos. Havia um certo receio de uma nega. Bem ao contrário, ao ver os ditos,o mestre  ficou de imediato encantado e desafiado: nunca tendo ouvido falar naquela embarcação, os desenhos à escala real,facilitavam toda a tarefa: era apenas colocar os desenhos e riscar na madeira. O resto (técnica de construção) sabia o Mestre Esteves, de cor e salteado. Era a mesma técnica da construção das embarcações Lagunares. Mas interessante é que o Mestre mostrou-se vivamente interessado em executar. Apaixonado... para nosso espanto. E ainda mais interessante, constatámos no decorrer da construção que, ao contrário da nossa longa experiência, de nesta ou noutra actividade, ao fazer-se algo novo, ser por vezes  difícil obter a abertura e aceitação do mestre executor, em deixar-se conduzir, certo é que, aqui, nunca verificámos  o mínimo de resistência às indicações dadas. Dizia amiúde: eu quero fazer aquilo que Vos satisfaça.

Semana após semana, lá fomos. Umas vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.


 

 Semana após semana, lá fomos. Umas (poucas) vezes sós – quase sempre com a Ana Maria – e outras com a companhia do precioso  Cap. Marques da Silva, aquando das suas vindas à Gafanha. Sempre disponível para dar a sua abalizada opinião, no definir, esclarecer e permitir uma opção compartilhada, num ou noutro ponto mais esconso  do projecto, quando  não havia referências seguras do mesmo.
 
 

 
 



Recordo a primeira visita que fiz ao estaleiro depois de iniciados os trabalhos. Deparei com as bicas alinhadas e as cavernas mestras colocadas no picadeiro sobre a tábua da quilha. Fiquei extasiado. Ao natural, a embarcação era soberba.
 


 E o mestre também admirado, ia-me relatando as suas impressões. Com a muita confiança tida com o amigo «Pardaleiro» – alcunha do mestre – um dia disse-lhe:
Venha cá Mestre!...olhe-me para estas linhas do fecho da ré. Isto é obra dos «ílhavos»!!!!. Vocês aqui, depois, tentaram copiar e fazer o moliceiro, mas as linhas deste parecem feitas à enxó. (Claro exagerei, pois o moliceiro é também ele, uma obra de arte, inspirada na «ílhava»).
 O « Pardaleiro» riu-se…….
(Cont)   
  



 

 

                  
 
 

3 comentários:

Rui Dias disse...

Quando a paixão se cruza com tanta sabedoria, investigação seria, essa invulgar capacidade de trabalho e uma (como agora se diz) resiliência como a sua, o resultado só pode ser a excelência. Obrigado João Fonseca, por mais este delicioso contributo para a construção da fascinante Historia da nossa Terra. Um abraço do Rui Dias

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

A PROPÓSITO DO SONHO… A BATEIRA "ÍLHAVA"

Deixo um comentário a este post "ílhava", in Blog Terradalampada onde o Engº Fonseca descreve tão habilmente, como nos tem habituado, a sua maravilhosa odisseia com a "ílhava". Sem estória e história o mundo não seria conhecido...

Começo por referir que para uma mente voluntariosa tudo é possível, e que só quando um homem quer de verdade é que consegue atingir os seus objectivos - eis o exemplo….

"Aqui", a descoberta passou à curiosidade que bem aguçada levou à pesquisa. O caminho foi-se percorrendo, sem pressa, a tempo de chegar onde tinha de chegar.

Houve tentativas, frustrações, avanços e recuos - uma estória com um pouco de tudo, mas com um fim vitorioso.

A ideia, o sonho, "o seu", aguçou o engenho e o resultado está à vista - a bateira "ílhava", uma réplica em ambiente museologico, uma parte de um património perdido que voltou à terra que a viu nascer.
Agora, pode observar-se, toca-se, ler-se, escrever-se... ali mesmo, naquela "Sala da Ria", no Museu Marítimo de Ílhavo.

Ele sonhou, acreditou e o Universo levou-lhe a oportunidade para que pudesse concretizar o que tanto ambicionava.

Os Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo (AAMI), representados pelo seu presidente, o Drº Aníbal Paião, junto com o Engº Fonseca, o Capitão Marques da Silva e a Drª Ana Maria formaram a equipa perfeita, que em trabalho de campo, souberam orientar o mestre construtor naval, António Esteves e o mestre de velas, Marco da Silva, nesta ansiada empreitada.

Organizando, projectando, coordenando toda a logística, orçamentando e custeando o projecto, a AAMI fez renascer um artefacto artesanal, pelas mãos do mestre construtor, contando com a equipa de trabalho onde cada elemento entregou o melhor das suas capacidades - fizeram-no com paixão!
Testemunhei-o, aprendi e valorizei cada minuto da sua presença enquanto registava, fotograficamente, a feitura…

Aproveito, ainda, esta intervenção para tecer umas palavras de sincera admiração ao Engº Senos da Fonseca: pelo sonho que não deixou morrer; pela persistência; pela incansável pesquisa; pela feitura dos planos geométricos e de construção e por ter ajudado a dar vida a esta embarcação, junto com os restantes elementos da equipa, coordenados pela Drª Ana Maria Lopes, contando com a preciosa intervenção do Capitão Marques da Silva.

O entusiasmo e a sabedoria de todos deu vida a este projecto - a construção da réplica de uma embarcação que nasceu na laguna, (aponta-se) no século XVIII.

À AAMI, parabéns pela iniciativa!

Com palavras de António Gedeão, in "Pedra Filosofal" fecho este comentário:

" Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida (...) eles não sabem nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança (...)"

Etelvina Almeida | 17-01-2014

De dúvida em dúvida...vamos aprendendo. Se há parte da História de Portugal que nos foi mal “vendida” nos bancos da Escola, foi a da ...