sábado, setembro 27, 2014


 Quando recordar….irrita….


 

Um telefonema de um amigo de longa data, que comigo caminhou na diáspora que foi o «assalto» dos ílhavos à enseada dos «mouros», ferozmente acantonados no CVCN, onde se julgavam, donos e senhores de tal histórica instituição, trouxe-me à recordação a «estória» desse tempo. E logo,as muitas e variadas peripécias até que, varrida a praça forte dos infiéis ocupantes, foi tempo de refazer o arraial.

O campo que encontrámos, era quase tudo, escombros. Tudo era podre, como eram os ocupantes. O Clube penhorado por todos, sem crédito, sem nem qualquer dose de confiança, caloteiro madraço qb.

Ora entre muitas coisas, feitas num verdadeiro sprint e em com desarcado trabalho (sim, porque há camaradas que pensam que as coisas aparecem feitas por obra e graça do Espirito Santo, que deu no que deu…),mas ainda maior imaginação, mesmo envolvidos num turbilhão continuo de processos judiciais, feita a tomada posse em fim do ano, na primavera seguinte, estava  já o Clube a marear, imparável. Uma Direcção excepcional.
Disposto o CVCN  –como o fez! – a dizer no panorama dos Clubes navais: contém connosco porque queremos ser os melhores.

Bem ,mas nesta véspera da Sr ª da Saúde, esse amigo(por sinal também adversário aquando das famosas caldeiradas) ligou-me a «chorar» de ver o estado de abandono a que o CVCN, chegou. Mete dó, de verdade…De degrau em degrau foi-se afundando, inexoravelmente, e poderá até ser conduzido a um beco sem saída.

Bem …

Algo que a Direcção daquele tempo pôs em marcha, foi trazer à Srª da Saúde a Regata dos Moliceiros, carreando gente para a festa, animando e embelezando a Ria com o colorido estonteante daquelas embarcações do historial lagunar .



      …e lá vieram (Foto Rui Bela)

Poucos saberão como foi trabalhoso, convencer(quer na ideia, quer materialmente),os arrais a virem, pela primeira vez, à Costa-Nova. Gente de trato amigo ( depois de vencido o primeiro contacto, que é sempre muito difícil),foi necessário bater porta a porta, e com muita insistência,dar garantias de serem, arrais e famílias, bem acolhidos. Eles nem sonhavam, o que iria ser !

Julgo que teve importância decisiva, a feijoada das noites de sábado, servida na Garagem Samuel Maia, a Arrais e familiares, mas e também, o desafio inédito da «Melhor Caldeirada».Que veio substituir o estafado concurso de painéis. Com um valor pecuniário que cobria largamente as despesas, havia prémios de certa dimensão para as melhores do concurso. Esta iniciativa levantou grande interesse e curiosidade, e perto do meio dia de Domingo, muitos eram os curiosos, vindos apenas para apreciar, e degustar, as caldeiradas apresentadas a concurso. Verdadeiras obras  primas do cardápio lagunar, tal  o seu vernáculo extremo.
                                         





 



 
 
                                                   Fotos Rui Bela
 
Vinham os familiares e amigos das tripulações, que aproveitavam o fim da tarde de sábado, e a manhã de domingo, para visita ao Orago, mas e também, à célebre feira de então.

Às duas dava-se a partida para regata, em frente da muralha. Era um espectáculo assombroso, empolgante, soberbo, apreciar os inúmeros truques usados por estes mestres da vela a procurar (à  dentada, á paulada, ao achega-te para lá, por todo os meios) a melhor posição de largada.

 

                                     
                         ............................procurando posição (Rui Bela)

 

O povo estendia-se por toda a marginal, participando  com grande alarido  no apoio aos seus mais próximos.As viragens de amur a,executadas ali a dois passos da muralha, estendido o bordo até ao ultimo momento – quando a assistência já gritava e fechava os olhos, prevendo a batidela desastrosa – na pretensão de ganhar barlavento ao que está ali ao lado, são feitas debaixo de imprecações,em alta vozearia. «Agora!»…«agora» (leme)…« mete»(pá)  …e «calca…calca» (calcador) estipôr……maneia-te .E logo do lado vinham gritos :«amuras!....amuras…aaamuras!».



…e assim era o CVCN (Rui Bela)

 

Quiseram os deuses que em certas, das várias regatas, o vento soprou forte, e que o pano retesado, levado ao extremo, conduziu ao raro espectáculo, que era ver um moliceiro em «cuecas»,com os baixos à mostra. Vira!? …não vira?!..Ahhhhhhhhhhh, safaste-te desta. Aquele pessoal sente o barco como o cavaleiro tauromáquico. E governa-o com simples toques (aqui, ali,mais doces ou mais apertados…), que o Moliceiro parece entender, reagindo de imediato ao «desejo» do seu arraias. O Moliceiro, vela a panear, bombordo-estibordo, leme um chinquilho metido, sai ás arrecuas, como ginete em elegante garbo de trote, a dar posição de investida, ao seu cavaleiro.

Depois da regata, atracados, atenuada  a sede, garrafão passado de barco em barco,por ali ficavam até ao receber dos prémio. Que o CVCN, tinha o maior gosto em entregar, orgulhoso  desta iniciativa, que reputo, ser  das mais brilhantes do seu historial. E foi numa dessas conversas que ouvi a Ti Armanda «Russa», descrever-me as virtudes, da proa do Moliceiro para o supremo acto do amor. Onde tinha feito seis filhos: mãos nas «cheleira», pés bem assentes na antepara, e o suave erguer ao céu da proa onde se estendia em espera sôfrega, faziam toda a diferença.....Sabe amigo ,dizia-me marota: agora as fidalgotas chamam-lhe queques.(ou parecido),nós chamávamos -lhe: avia-te!!!..
 
 
                                      
                                   ...alinhados (fotoAML)
 

 A regata custava 500 a 800 contos!!!. Que importa? A « arquitectura económico -financeira, dada ao CVCN, permitia isso, e muito…muito mais….Hoje prefere-se ir aos Bancos, para as despesas corrente!!!!!!. Depois queixem-se…..

Voltando às Regatas :

Chegámos  a um grau de relação tão próxima que as gentes da Murtosa, da Torreira, das Quintas(a quem rendíamos presença, nas suas regatas, como nosso moliceiro « O Ilhavense») que eles nos tinham(e têm), como os amigos da Costa-Nova.E respeito pelos nossos Arrais. (João Senos e Pedro Paião) aquém foram desvendando todos os segredos dessa obra prima lagunar: O Moliceiro.

Recordo pois, sem saudades, mas apenas com o sentimento de uma enorme experiência vivida

e com a sensação de um desafio, cumprido.

Mas voltaremos ao CVCN.

 

SF
Nota; para o êxito destes eventos, foram fundamentais, o saudoso Daniel, e a  directora  TC. 







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