terça-feira, dezembro 23, 2014



 

CONTO DE NATAL


Tempo este, descorçoado, vadio,  de cenho arreganhado, tez riscada sem promessa que se cumpra, lua trovejada ,trinta dias será molhada, todos o sabiam, só não sabiam é que  barco amarrado não dá frete. E com este rigor do tempo, os barcos ficaram tolhidos, enxeridos na praia, a olhar o mar, a perguntar: para que serves tu mar?!...sem barcos.
A companha baixara os braços. Desesperada e descorçoada. Vencida da vida. Fora sempre assim: o mar ganhara (!) .O mar era infinito. Não se ganha aos deuses….
O mar era um fundo negrão, sinistro, onde só as gaivotas destoavam num branco imaculado, céu riscado pelos seus devaneios. E contudo a inquietude das gaivotas competia com o negrume do céu negro, apertado para baixo.
Por mais que atirassem o barco ao mar, e largassem artes nas duas milhas – ou até nas cinco !–  era claro que o mar se «esvaziara», num repente.
Redes esgalmidas, com um ou outro lázaro peixito trilhado por desgraça nas suas malhas. Uma ofensa ao S. José, por certo tendo cometido alguma falta celestial. E logo sobre o orago terá caído, por certo, a ira do Senhor. Que nos céus, dizem, não há dividendos…

Era próximo o Natal. O verão e o sol ardente levara com ele os pedaços de peixe seco atados a cordame que atravessavam as ruelas entre os palheiros. Sem tostão nos bolsos, o crédito nos altares das diversas tabernas do acampamento, fora-se. Agora diziam, só com moeda da lei. Ou por troca, com peixe a saltar.
Até o padre Félix, vendo tal penúria, achou por bem recolher-se ao seminário próximo, onde certamente, senhoras bem feitoras, das mãos e dos corpos, não deixariam os créditos por mãos alheias. Estas piedosas senhoras davam então, luz ao estomago enquanto melhoravam o espírito para servidão ao senhor. Os êxtases, eram, aqui, mais evidentes, cómodos e seguros.

O mulherio da praia vira partir os seus homens em busca de sustento. Uns, procurando umas batatas lá pelas gafanhas, em troca de dar a mão, canhestramente, à enxada. Homem do mar não sabe comer o bolo à colher . Outros, colhendo lenha e pinhas, que depois iam vender pelas portas da vila. É certo: o homem não vive, vegeta entre as circunstâncias que o deformam. Mas o maior número deles, esses (!) a quem era dado o sonho maior da embriaguez, encostara-se ao balcão das tascas, fumando tabaquito da onça enrolado em papel de mortalha, enquanto iam escorropichando uns copos de três do  carrascão bairradino, prodigamente batizado com água da fonte da Pedricosa. O que lhe retirava a cor, amainava o efeito, e permitia o excesso….a contarem os sonhos de como peixe  saltitava no enxalavar sem nunca dele sair. Sonhos …que não ilusões….

Na companha só o mulherio. Sentadas, encostadas aos canastros, fazendo contas à vida. Sonâmbulas, como se a vida tivesse contas a dar…Que miragem teriam para lhes acalmar o corpo e espraiar os olhos?
- Bem gente: aqui paradas é que não tapamos buraco nenhum, diz a Elvira «Camaroa»          ,cortando o silêncio sepulcral

-Mas que fazer Elvira? Lá em casa para deitar na panela, já só cordame da rede….Ai meu rico Deus !....,andamos a passar do pior, lamenta-se a Alzira ”Caçada”, ao tempo em que se persignava.
-Olhai raparigas, diz a Eduarda « Beijinha», levantando-se, dando uma ajeitadela às saias, desafiando:

- Isto da sorte na pesca tem muito que se lhe diga. E o Senhor parece zangado c’os nossos homes. Que verdade, de candeias às avessas com «corvo  padreca», sempre  pronto a chupar o melhor quinhão, pouca atenção têm dado,escusando-se a frequentar a Igreja, a pedir a bênção para o lanço. Ora nó somos mulheres de trabalho, já todas pegámos em remo, numa ou noutra ocasião. E quem de nós não pegou, não sabe o que é bom afagar, de mansinho e repetidamente, o dito .Porque não ajeitamos «o pequenino» e vamos nós dar o lanço? Que raio (?!), a Nossa Senhora da Saúde, vai estar connosco….
-E o arrais, onde vamos arranjar o arrais que nos guie? inquire a São«Fradoca», já disposta a tudo…
-Pois vamos bater á porta do velho arrais «Noé»….que alquebrado do espinhaço,se for preciso, a gente leva-o ao colo…
Dito e feito. Bateram à porta, o «Noé» apanhou um susto ao ver tanto mulherio…vai que não pode…já não se atreve,….oh rico!...venha lá senão a desgraça vai dar cabo de nós, vamos todos fugir daqui, por cá fica a nossa alma….ponha-se aqui c’a gente leva-o…ora vai-te ao colo de mulher é que eu nunca andei, pelo menos é mais macio que as ondas do mar….se assim querendas, vamos lá, que me começa a cheirar a peixe.
-Só a peixe…desata a  Auzenda «Chambre »: pelo que vejo, oh! Ti «Noé», o cheiro de mulherio ronca-lhe a guleima…    
A Micas» “abegoeira” logo acudiu com os bois, a amparar os cornudos. Era a sua especialidade. E dizia que mais vale um cornudo na mão que dois mansos a borregar. E logo engatou as   armelas  enquanto um grupo de moçoilas deu mão à muleta para o ultimo impulso. Lestas, cabaços á mostra, que ali não havia homem para espiar, a Elvira salta para o remo meão, e logo as outras lhe seguem a atitude. Falta a mão a um remo. No meio do mulherio imbricado na tarefa, ouve-se a Micas do «Salvador»:
-Dai-me a mão, que eu já para aí pulo…
-Tu estás tonta rapariga: prenha a romperes as augas, vens aqui fazer o quê?
-Cal-te; vou fazer, mais e melhor, que vocês: tísicas. Se auguentei com o furacão do meu Toino em cima de mim, a fazer-me o cachopo  : –aquilo parecia mar revolto a bater-me entre nádegas, desarvorado, parecendo esfomeado de mulher depois de viaje ao bacalhau, só descansando quando deu com os ditos na praia para onde me levou ao engano, a apanhar uns búzios ,que nem um eu tive tempo  de ver para crer, que só tive tempo de querer o que também queria….olha que dificuldade em dar ao remo.
- Ah «Micas» …«Micas»…. Morrias se não o apanhavas….
-Pois, que eu bem sei que vocês, marafonas das esquinas,bem o andavam a desaustinar…
-Vá dá a mão…cuidado com a barriga. Achega-te e dá canto que vou aqui de revezeira ao meão.

E o pequeno meia lua achegou-se á vaga. À ré, o Arrais «Noé» temia a escaramuça, e que a força do remo permitisse que o  barco atravessasse. Seria a tragédia.

De repente o arrais que segurava o reçoeiro ,pés bem fincados na antepara, ficou mudo de espanto: o mar aquietara-se.E parecia, repentinamente, campo de repouso azulado, adoçado por uma brisa de maresia  que trazia o cheiro de peixe.
-Vá---rema---rema…oh «Julia»!... madraça… vais a remar ou a fazer cócegas ao remos?
-Bora lhe veio,Ti Noé…, cócegas faço-as a pau que precise. E este remo ,meu Deus, nem as seis nos  astrevemos a pô-lo no sítio….
- C’a sítio ,qual carapuça….bota-o é na auga… e puxa…puxa….
E zás: a Micas que ia de pé ao reveseiro,  ao ouvir a ordem do puxa….puxa… dá um ai... e o  Ti «Noé« olha-lhe para os pés e vê  algo no meio de um charco de sangue. Faz-se um silêncio apenas cortado pelas gaivotas que se desviaram do cardume e chilreiam desalmadamente á volta do barco, alertados pelos berros de uma criança. O arrais, puxa do navalhão, limpa-o à camisete, mergulha-o no balde de água de refrescar a tripulação, e corta, cerce, a ligação umbilical á mãe. Agarra o pimpolho e debruçando-o na borda lava-o na água límpida do mar. E espantado, incrédulo,só então repara que a água estava tépida, morna, ali no meio do mar. Tira o camisolete, embrulha o menino, e com ele nos braços, senta-se no cagarete.
-Dá volta….vá, já estendemos o cerco,  e agora é só levar a mão da barca á praia .Vá …. cia com o direito, e rema com a esquerdo. E tu Micas deita-te aqui neste rolo de rede…
-Não deito não. Tome você mercê conta do rapaz, que eu óguento até terra firme. Vá raparigas…abanai-me esse cu, que tenho pressa.

E tanta pressa havia no ar, que, sem explicação plausível, o meia lua entrou abicado, praia adentro, permitindo que a tripulação saltasse para a praia. Com jeito tiraram a «Micas». E rápidas, colocaram uma serie de enxalabares a fazer escadinha, para que o Arrais «Noé» saísse para terra com o pimpolho nos braços. E logo ali batizado:  Jesus  «das Águas»
Vieram as parelhas .Não só um....E a mão da barca praia acima….eh!!!! já ali vêm os pipos aos càloes... o raio da rede vem pesada, engatou algum ferro perdido…naaaah!!!! vem pesada mas corre bem…puxa…puxa ….olha o pipo  do saco, aí vem ela, a calima
De repente faz-se um silêncio só parecido com o que havia nos cemitérios.
Quando olham para o saco já pousado, todo na praia, este parecia rebentar com tanto peixe  irritado com a sua prisão . O Arrais«Noé» rapa do navalhão, sempre pronto para matar ou dar vida, e corta o porfirio como fizera com o cordão do pequeno «Jesus das Águas». E no interior da sacada via-se peixe prateado saltando em louco estertor. Nunca «Noé», nos quase oitenta anos de vida, vira coisa assim. Que peixe.. que frescura...que dádiva da natureza 
-Milagre…..ouve-se murmurar ao tempo em que todo o mulherio ajoelha erguendo os braços ao céu, em gratidão espelhada no rosto.
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Todos?!

Não…,entre mantas, já agasalhado, o miúdo, vivo, loiro, olhos de um profundo azul amarinhado, como que apartado do milagre, sorri-se....

Como se o milagre fosse já do seu conhecimento
 
SF   Natal 2014

1 comentário:

JR disse...

Uma interessante e inesperada história de Natal, com o seu estilo inconfundível. Parabéns.

De dúvida em dúvida...vamos aprendendo. Se há parte da História de Portugal que nos foi mal “vendida” nos bancos da Escola, foi a da ...