sexta-feira, agosto 15, 2014

Nota .este blog é pessoal, e por isso ,de relativo interesse, senão para a sobrinhada,para memórias futura dos «Fonsecas» em extinção. 

Eu e …. a Srª do Pranto

 PARTE I

São em alguns momentos contraditórias as lembranças que me ocorrem, com o festejos da SRª do Pranto, acontecimento  religioso-pagão, a que, desde sempre,esteve muito ligado a minha família paterna: os «Fonsecas», naquele tempo em que a família era como que um clã, raça irredutivel, emproada e nervosa,que tinha fama de só terem medo de si mesma.

Não tive a felicidade de conhecer o patriarca do séc XIX, o Prof. Fonseca, meu avô, homem de uma personalidade(afirmam) muito vincada e própria, onde a dureza, a exigência e a ética, atingiam valores de excepção. Dizia ele: quando as coisas não se resolvem por convicção,resolvem-se á bengalada,e acabada esta,a tiro.Dele ouvi relatos que muito influíram na minha postura perante a vida. Muito ligado ao Convento, à Capela e à sua remodelação, professor da segunda Escola de Ílhavo, sua propriedade (como o eram as Escolas dos Moitinhos e Gafanha de Aquém) o Avô foi um dos maiores  de Cimo de Vila. Este «maior» ,era um apelido advindo de uma célebre história, a construção da estrada Ílhavo –Gafanha da Maluca, que se pretendeu ser financiada pelos «40 maiores», expressamente convocados para o efeito. Ora, o maior dos maiores, era então, dizia-se, o Padre Manuel Nunes da Fonseca, meu tio avô. Vamos lá saber como o Padre arranjou tal fortuna, e como a transmitiu. Nunca me falaram de tal história.


Mas este Padre ,seu padrinho,acagaçou-se quando ele resolveu casar com a Maria Rosa (minha avó) ,sua criada,e por isso deserdado.Ora num dia aproveitou a presença do Padre na Capela,correu com o sacrista,agarrou na Maria Rosa,fechou a porta à chave,e mandou:
-Pois a coisa é facil: no conluio familiar, Você não quer.Eu também não queria que fosse meu padrinho e aguentei .Você agarrado à saca dos tostões.Eu aos trocos. Agora escolha : ou me casa aqui com a Maria Rosa,ou atiro-o do cimo da igreja...Vá ou case-me ou encomende-se que vai para as catâmbrias, para o inferno. Não me moa a paciência, e poupe aqui a Maria Rosa a espectáculos impróprios para Senhoras
E ao contar-me isto a Ti Vicência, inquiria: julgas que não? Atirava-o mesmo....
Quando um dia a vi, de machado em punho, rebentar com a porta ao Tourega (o mauzão lá de Cima),e este a «borrar-se» a pedir socorro, pensei: - gaita o Padreca devia ter ficado como este...

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A  Família esteve sempre envolvida nos festejos em honra da Senhora (a pietà  á portuguesa).

O meu tio Avô,o Tio Manuel, era um exímio tocado de concertina. E para lá disso, um «cantador ao desafio» de excelência, que parecia ter resposta para todos os introitos colocados na contenda. Vinham cantadores afamados das redondezas, bater-se com ele, em público, em local combinado. O Tio Manel, era o homem que guardava o Arco da Festa, e era na sua imensa eira que o mesmo era reparado, anualmente. Matador de porcos (para lá da sua lavra),quase que diríamos, oficial do ofício, de Cimo de Vila, a cegueira fe-lo passar as facas ao seu filho único, meu primo Manuel  Fonseca. Com a recomendação de, mais tarde, elas passarem para o mais novo «Fonseca».

 

Que era eu!!!...ora vai-te …eu que não me atrevia a matar um frango, ia um dia manusear aqueles facalhões (?!)….O pior é que a família parecia acreditar, e sempre que havia matadela, lá tinha eu de ir ajudar o Manuel, a limpar(lavar os gorgomilos)  ao pobre bicho,a ver se estava bem amarrado pelo pernil, segurar-lhe bem o «pezunho» encolhido para não atrapalhar a faca, e ver o espectáculo horrível do facalhão …uma…duas…três vezes…. ir buscar todo o sangue ao animal. Não aquilo não era espectáculo que me animasse a desejar ser, o herdeiro das facas ,se bem que demonstrasse nata aptidão para com elas proceder ao desmanchar do porco.

E bem: voltemos à Srª do Pranto…

Até certa altura tudo lindo. O pior é que, chegada a idade dos namoricos, estivesse onde estivesse, houvesse o que houvesse – e quase sempre havia: – regatas, bailes etc.  etc. – eu teria de comparecer, ainda que a mau gosto, em Ílhavo, e por ali ficar todo o tempo da festa.

Para lá da parte religiosa, em que não era obrigado a participar – à excepção de uma ou duas vezes acolitar o P.Angelo, na missa –,os festejos tinham o seu cartaz de marca, que os distinguia na emulação bairristra com os de «lá de baixo», na degustação excessiva de vitualhas e iguarias. Senhores de grandes e fartas casa, andava-se de uma para a outra, em visita «das capelinhas» dos primos, parecendo que já não nos víamos  há anos (quando o mais certo era ter lá estado na semana anterior).Só que agora  em visita mais demorada, com ida á «mesa da cozinha de dentro», se o primo ,nesse ano, tivesse recebido a «vara de Juiz».

 Em  casa dos  meus Avós, era uma catrefa de caçoilas pretas ,onde o «chibo» era cozinhado com todo o saber e arte:

 -Oh Virginia (a cozinheira) cuidado :olhe que o Sr Dr. é muito esquisito no carneiro. Oxalá que o Alpoim(o fornecedor do animal) ,nos tenha servido bem. Ferveu bem ,na hortelã? E esta era fresquinha, bem cheirosa ?

As caçoilas depois de prontas, muito tempo antes da festa, eram ensacadas, e depois penduradas, na frescura do poço. Um enorme poço  que mantenho ( embora sem as caçoilas….).


O almoço de 15,feito na casa da Escola, em Cimo de Vila, no pátio enorme, debaixo de frondosa parreira,e era reservado à Família mais chegada. À noite vinham jantar os amigos ( Dr Amilcar, Teiguinha, dr Julio Calisto, Tio Dorindo etc. etc.) Em qualquer das comezainas lá estava a caçoila, depois de previamente fervida três vezes. E tinha de chegar á mesa em cachão. Senão era logo recambiada

(cont)

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