domingo, março 22, 2015




 A Poesia está em qualquer lado...em qualquer dia



 
 

Pela noitinha ia para a janela

Do meu quarto

Que despejava

 para a rua do Loureiro

Ver passar as minhas putas

 No trottoir  vizinho dos seus outeiros.

Mulheres da vida, vencidas

Mulheres da vida, de todos

Mulheres da vida, de nada,

Iam fazer pela vida .

 

Escombros de seres que já foram

Roídos pelo taredo,

Sem dia para carenar,

Deixavam no ar um rasto,um perfume,

Que mais do que cativava,

Enjoava.

 

           

Lírios roxos desmaiados

Pintados, retocados,

Papoilas outrora vermelhas

Hoje caiadas de um esborratado

Zarcão,

Em tempos esbeltas;

Hoje derreadas, a carregarem

Todas as estrelas do céus

Que miraram,

Enquanto delas outros se  iam servindo.

 

 

Nos olhos ia-lhes uma tristeza imensa

Ao verem o corrupio  de  gente

Que passava e não parava,

Sem nunca lhes ter chegado

Aos  ouvidos a serenata

Que delas fizesse

Meninas enamoradas.

 

 

E  Lourdes,a mariposa mais bela

Da rua do Loureiro,

Outrora Rainha no trono

Hoje festim de prazeres,

Esconde no peito

A sua alma negra

Cheia de vícios e de outras façanhas.

Onde já nem um sol pardacento

Brilha,

E pede ao vento:

 
 

Oh vento polidor de estrelas

Vem! Vem dai dessas fráguas,

Vem amaciar minha carne

Vem -me dar o afago do teu corpo 

Vem levar  os arrepios de frio que sinto

Os ais gelados

De quem tudo perdeu

E já nada tem.

Nem respeito nem dignidade

 Só o  agradar a quem me

desagrada.

Vem vento ! E leva para longe

Pedaços do meu coração estilhaçado

 

Vem vento!

Para me levares a mim...

Meu corpo já não se vende

Meu corpo já não me basta

Meu corpo já de nada me serve

Para  deixar de ser  escrava.
 
SF
 
 
(Com a devida vénia ,cito Gabriel Garcia Marques)
 

 

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