sábado, setembro 16, 2023

 Os boticários do Sec.XVIII.em Ílhavo

Curiosamente o nome “Fradinho” tem-me assaltado ultimamente,amiúde.Não porque procure saber algo sobre as figuras do Séc. XVIII e XIX, com aquele nome ,de relevante importância na terra,mas porque várias pessoas mo vêm reportando,perguntando-me o que sei sobre "os Fradinhos"

Agora, uma nota curiosa de 1770,indica que  os boticários Francisco Luís Gomes e José Santos Fradinho, de Ílhavo, teriam sido  notificados pelo meirinho do Bispado de Aveiro, para encerrarem as suas boticas, aos Domingos e Dias de Feriado, sob pena de prisão se tal não cumprissem.

Fica-se a saber, pois, que nesta data existiriam já duas boticas na Villa.Onde? não tenho para já a resposta. Dos “Gomes boticários” já o sabia. Do Fradinho, fiquei agora a saber.

Curioso é que os ditos boticários não se ficaram. E logo reclamaram a El Rei, baseando a sua reclamação no facto de, dizerem ”serem as boticas um caso especial de negócio” que deve estar sempre aberto ,em qualquer dia, para assim satisfazerem uma qualquer emergência.

Travou-se então uma luta entre Bispado e a lei Real,sabendo-se que o referido Bispo, afirmava”terem os Bispos poder de prender em certas circunstâncias”. 

A luta será longa, tendo os referidos boticários, levado a sua avante.

SF

segunda-feira, setembro 04, 2023

 


O Aveirense
Fernão Oliveira: simplesmente um génio.




Quando criamos um livro obrigados a consultar várias matérias, estudando novos perfis (ou aprofundando já conhecidos), não temos tempo a conceder a certos factos ou figuras que nos surgem e que nos despertam viva atenção. Deixamos então, “para depois”, uma procura, uma investigação sobre a personalidade ou facto que nos captou a atenção, para um estudo mais aprofundado.

Assim aconteceu na feitura do livro “Saberes que tornaram possíveis as Grandes Navegações Marítimas Portuguesas”. Ressaltaram-me entre outras, as figuras de Piri Reis e do “aveirense” Fernão de Oliveira.


Deixemos Piri Reis para outra emposta e abordemos Fernão de Oliveira.


A genialidade em Fernão de Oliveira torna difícil a abordagem à sua personagem , tanta é a obra espalhada por saberes tão diversos,  numa vida  tão irrequieta e inconformada  Homem inquieto e irrequieto, resistente às tentativas para o fazerem calar e soçobrar, difusor de palavras amargas, permanente gerador de conflitos  criados pela sua notável inteligência, toda esta truculência é acompanhada pela feitura de obra impar, em matérias de que é percursor a nível nacional e ou e até, europeu.


Difícil um especialista numa só matéria, analisar toda a obra  por onde Fernão Oliveira  fez “navegar” o seu conhecimento..  Estudos feitos foram quase sempre de análises fragmentadas, num ou noutro ramo de saber, difundido nos escritos de Oliveira. O seu feitio onde reinava em excesso, a intuição e indisciplina (mas simultaneamente supremos tiques de génio), fê-lo dispersar-se por matéria muito diferentes, por vezes nada tendo linhas de rumo comuns, ou próximas.


A abordagem à necessidade de “criar” uma nova língua portuguesa  que fosse o suporte do “império” em formação, afastando-a tanto quanto possível da mão latina,  tendo sido  a primeira abordagem gramatical portuguesa, anterior a outras tentativas de autores de quinhentos, tem sido das obras sobre as quais mais se têm  debruçado os estudiosos linguísticos, sendo Oliveira reconhecido (apesar de algumas imprecisões técnicas) como um dos gramáticos mais originais de toda a Renascença.


E se os seus trabalhos sobre a “História de Portugal”, são talvez, dos menos apreciados pelos especialistas que lhe têm dado atenção, já a “A Arte da Guerra do Mar”  o único tratado de estratégia naval alguma vez editado em Portugal, sendo unanimemente considerado a mais perfeita obra sobre assuntos bélicos”, (Silva Ribeiro) e o folheto  “Ars Náutica”,são reconhecidamente trabalhos de vulto que lhes garantem  lugar sem comparação  no espaço europeu. 


O “Livro da Fábrica das Naus” (  estudo detalhado da concepção  de carenas – o primeiro tratado científico  de construção naval  surgido em todo o espaço europeu)  é considerado, por especialistas nesse domínio, “ como   nenhuma outra obra, ao tempo, dada a sua   abrangência e aprofundamento ,”repositório metódico  de todos os conhecimentos  então  havidos  sobre  construção naval”. (H.Mendonça).Seja qual for o ângulo de apreciação do livro “A Fábrica das Naus”, há acordo generalizado de nos encontrarmos sobre um trabalho onde ressalta um certo “experiencionalismo” na teorização da construção naval (saber, regulamentação, léxico, tradição “que parte de um conceito de arte em “teoria geral da construção naval”), num alcance disciplinar vasto. Logo no introito, Oliveira afirma: esta arte em regras, e preceptos ordenados, e claros, de maneira que os possa entender, e usar toda a pessoa “.


O livro sobre a viagem de Fernão Magalhães, escrito 30 anos após a conclusão da viagem, não deixa de ser um valioso trabalho. O prólogo explicativo (da autoria de Fernando Oliveira), permitiu-lhe um enquadramento histórico e ideológico do audacioso empreendimento do experimentado navegador português. O autor, no manuscrito, pareceu reduzir a sua intervenção no fazer História, considerando que lhe compete o acto de historiografar a contextualização os factos e o rigor. O manuscrito,  é pois, uma narrativa factual caucionada por um testemunho pessoal de um participante na viagem de circunavegação .


Para lá da importantíssima obra literária Fernão Oliveira, impressiona descortinar na sua multifacetada personalidade: um verdadeiro aventureiro. Talhado para uma educação religiosa praticante (iniciada no Convento de S.Domingos, em Aveiro, e depois enviado para o Convento de Évora da mesma Ordem), Fernão Oliveira não tarda a escapar à reclusão conventual. E dai em diante, irrequieto, ávido de saber, de  estudar novas línguas, conhecer técnicas da arte  naval e da guerra no mar,  de participar em viagens que quase sempre terminaram  em cativeiro de que, espantosamente, se consegue livrar pelo aproveitamento e como “troco” que os seus notáveis conhecimentos, Fernão Oliveira não deixa de criar inimigos de estimação que o levam à condenação pela execrável e impiedosa Inquisição que, contudo, se mostrará  insuficiente para se opor à sua fuga da masmorra, e de novo partir  à aventura. A vida de Fernão de Oliveira seria guião a notável documentário de prodigiosa vida aventureira, enquadrando a pioneira produção literária (aqui e lá fora), prenhe de riqueza e diversidade em múltiplos e variados saberes e ofícios. Verdadeiramente um espírito genial de que Aveiro se deve orgulhar, a justificar evocação histórica ,adequada e compatível com a grandeza da figura.



Senos da Fonseca-Set 2023


domingo, agosto 27, 2023

 O «ílhavo» e o S. Pedro

O “olheiro-mor” 


O «ílhavo», tipo rude e forte, roncão no falar, sempre foi um homem de carácter, cumpridor das suas obrigações e temente a Deus. Era conhecida a óptima relação que tinha com S. Pedro, orago de predilecção das gentes, santinho a quem dedicavam fervoroso e preferencial culto. E a quem, anualmente, com júbilo, pompa e circunstância, rendiam notório e espaventoso festim, para o efeito engalanando a vila e a sua Igreja com colgaduras para receber os visitantes. Muitos os que rumavam a esta santa terrinha, não só e apenas no intuito de gozarem as delícias dos festejos que duravam três dias, mas atraídos, também, pelo bem receber. Apanágio destas gentes remediadas, mãos abertas e coração escancarado, no propósito de fraternal convívio.

Tão boa era a relação desta gentiaga com o porteiro do céu que, corria à boca cheia a faladura, ser bastante a evocação da naturalidade, para que, uma alma, ainda que muito penada e bem pesada, ida daqui, visse escancaradas as portas do Céu por aquele sempre atento fiscal do bom comportamento e virtudes, o S. Pedro. Olheiro astuto, sempre diligente e operoso, no intuito de manter o mar bonançoso do céu, limpo de fraldocos.

Ora num dia em que o S. Pedro foi abrir o portal, deu com um façudo mal-encarado, a quem perguntou:

– Então o que pretendes?

– Entrar no céu.

– E tu mereces a dádiva? O que fizeste para tal? De onde és?

– De Ílhavo.

O S. Pedro mirou… remirou e, muito embora desconfiado, lá lhe disse:

– Entra. Aguarda aí na recepção que eu vou lá dentro confirmar a listagem de embarque, chegada pela última pomba da noite.

Passados uns minutos, quando regressou para dizer ao mal encarado e mentiroso recém-chegado, que não era verdade, ele ser de Ílhavo, mas que estava, sim, na lista de Vagos, constatou que o farjano tinha desaparecido e se infiltrara por uma das entradas laterais, nunca mais sendo visto.

S. Pedro ficou fulo (que os Santos, também só são santos, até certo ponto).

E de si para si, lá foi dizendo: – deixa estar que quando me aparecer cá outro já não me leva assim. Vá lá um santo acreditar nestes safardanas…

Não tardou muito que ouvisse: trás… trás!… trás. Alguém chegava, parecendo ter pressa para não perder a maré da manhã.


– Já lá vai. Se tens pressa vai lá p’ra baixo, que está mais quentinho. Resmungando enquanto entreabria o portão, perguntou:

– Então quem és, e o que queres?

– Oh!… S. Pedro, sou o Zé Cachino, lá da Malhada, e c’ria que m’amabotasse aí p’ra dentro… raio! que venho cansado da viaje e c’riame chichar aí dentro. Avia-te, raios. C’ ainda perco a enchente.

– E donde és tu, ó Cachino?

– Sou d’ibalho, raios! Atão eu ia lá astrigar-me a mentir sobre a minha terra. Nado, bautizado e cebado, em íbalho, saiba vòssomocê, santinho. Astão tu não m’enxergas, não t’ alembras cá do Zé? C’inté no mês passado fui juiz da festa c’a ta fizemos lá na terrinha da lâmpada. És mesmo desconfiado. Mexe-te que estou p’rà aqui todo engaranhido.

– Não é isso, mas é que noutro dia apareceu-me cá um finório de Vagos – daqueles que deixaram o Senhor na rua para acudir ao bacalhau! – que me enloilou com essa de ser «d’Ilhavo…»

– É S. Pedro!… raios, estipor, deixa-me entrar c’«amando-te um xalabar de sardinha bibinha, …a saltar… da restomenga, tenta o Cachina convencer o orago. (Que a corrupção nos céus, não é corrupção, mas dadivazinha, pagamento de promessa… esmolna).

– Entra Cachino, entra; por essa da sardinha « bibinha » a saltar, estás identificado. És mesmo d’Íbalho…


Senos Fonseca 

 O «ílhavo» e o S. Pedro






O “olheiro-mor” 


O «ílhavo», tipo rude e forte, roncão no falar, sempre foi um homem de carácter, cumpridor das suas obrigações e temente a Deus. Era conhecida a óptima relação que tinha com S. Pedro, orago de predilecção das gentes, santinho a quem dedicavam fervoroso e preferencial culto. E a quem, anualmente, com júbilo, pompa e circunstância, rendiam notório e espaventoso festim, para o efeito engalanando a vila e a sua Igreja com colgaduras para receber os visitantes. Muitos os que rumavam a esta santa terrinha, não só e apenas no intuito de gozarem as delícias dos festejos que duravam três dias, mas atraídos, também, pelo bem receber. Apanágio destas gentes remediadas, mãos abertas e coração escancarado, no propósito de fraternal convívio.

Tão boa era a relação desta gentiaga com o porteiro do céu que, corria à boca cheia a faladura, ser bastante a evocação da naturalidade, para que, uma alma, ainda que muito penada e bem pesada, ida daqui, visse escancaradas as portas do Céu por aquele sempre atento fiscal do bom comportamento e virtudes, o S. Pedro. Olheiro astuto, sempre diligente e operoso, no intuito de manter o mar bonançoso do céu, limpo de fraldocos.

Ora num dia em que o S. Pedro foi abrir o portal, deu com um façudo mal-encarado, a quem perguntou:

– Então o que pretendes?

– Entrar no céu.

– E tu mereces a dádiva? O que fizeste para tal? De onde és?

– De Ílhavo.

O S. Pedro mirou… remirou e, muito embora desconfiado, lá lhe disse:

– Entra. Aguarda aí na recepção que eu vou lá dentro confirmar a listagem de embarque, chegada pela última pomba da noite.

Passados uns minutos, quando regressou para dizer ao mal encarado e mentiroso recém-chegado, que não era verdade, ele ser de Ílhavo, mas que estava, sim, na lista de Vagos, constatou que o farjano tinha desaparecido e se infiltrara por uma das entradas laterais, nunca mais sendo visto.

S. Pedro ficou fulo (que os Santos, também só são santos, até certo ponto).

E de si para si, lá foi dizendo: – deixa estar que quando me aparecer cá outro já não me leva assim. Vá lá um santo acreditar nestes safardanas…

Não tardou muito que ouvisse: trás… trás!… trás. Alguém chegava, parecendo ter pressa para não perder a maré da manhã.

– Já lá vai. Se tens pressa vai lá p’ra baixo, que está mais quentinho. Resmungando enquanto entreabria o portão, perguntou:

– Então quem és, e o que queres?

– Oh!… S. Pedro, sou o Zé Cachino, lá da Malhada, e c’ria que m’amabotasse aí p’ra dentro… raio! que venho cansado da viaje e c’riame chichar aí dentro. Avia-te, raios. C’ ainda perco a enchente.

– E donde és tu, ó Cachino?

– Sou d’ibalho, raios! Atão eu ia lá astrigar-me a mentir sobre a minha terra. Nado, bautizado e cebado, em íbalho, saiba vòssomocê, santinho. Astão tu não m’enxergas, não t’ alembras cá do Zé? C’inté no mês passado fui juiz da festa c’a ta fizemos lá na terrinha da lâmpada. És mesmo desconfiado. Mexe-te que estou p’rà aqui todo engaranhido.

– Não é isso, mas é que noutro dia apareceu-me cá um finório de Vagos – daqueles que deixaram o Senhor na rua para acudir ao bacalhau! – que me enloilou com essa de ser «d’Ilhavo…»

– É S. Pedro!… raios, estipor, deixa-me entrar c’«amando-te um xalabar de sardinha bibinha, …a saltar… da restomenga, tenta o Cachina convencer o orago. (Que a corrupção nos céus, não é corrupção, mas dadivazinha, pagamento de promessa… esmolna).

– Entra Cachino, entra; por essa da sardinha bibinha a saltar, estás identificado. És mesmo d’Íbalho…



Senos Fonseca ag 2023



quinta-feira, agosto 24, 2023

 Entre o ontem e o hoje , a Costa-Nova do Prado continua linda....


Bonita, airosa e vistosa, segue vaidosa de ser o mais lindo presépio colorido deste País.



Terra ainda criança, onde apenas lavram (pouco mais) de duzentos anos de historial desde  que o homem violou pela primeira vez a virgindade do seu areal, a Costa Nova do Prado é, talvez, o mais belo rincão pátrio, postado entre o mar e a ria, que lhe deram vida e prazer.

A Costa Nova é um bodo  alargado para o sensório das gentes, inebriadas pelo despertar do  sol garimpando  lá da serra, a fazer ressair o verde da sua paisagem, enquanto vai toldando  de um avermelhado suave, as águas azuis da Ria. 






Tão azuis  que encharcam o olhar dos mirantes. A Costa Nova é uma paleta de pintor consagrado, em que o artista vai, hora a hora, misturando as cores pródigas da natureza, num contínuo mudar de tom. Ao meio dia, o azul das águas, tinge o azulão do céu, onde parecem pairar, olhudos, os anjos que nele habitam, olhando ciosos e ciumentos, a amplidão de frescura que paira cá por baixo.


Enquanto isso, o passeante olha, admirado  e estupefacto, os palheirinhos riscados de cores fortes, encostados beiral com beiral, como para se manterem erectos da trabuzana ameaçadora. Dos beirais  penduram-se  varandas de branco imaculado, púlpitos onde antigamente  se acantonavam mirantes, olhar perdido,embarcados na  proa de um qualquer ronceiro moliceiro, onde se lia ”bamos lá cum Deus”. Era vê-los para cá e para lá, catando pachorrentamente a ria, ensarilhando   os seus cabelos dourados nos ancinhos calados na borda, para com eles engordar as leiras ainda enlodadas, na suada feitura dos largos e deslumbrante milheirais, prados enverdecidos, que  completaram o nome à Costa Nova, postados ali, na Maluca, bem à sua frente.

Hoje, é certo, falta à Costa Nova do Prado, a beira mar ruralizada, prenhe de gente afadigada, num corrupio de entontecer, correndo duna acima, duna abaixo, na entre ajuda, a trazer do mar a rede que o meia-lua, foi lá longe esparralhar. O mirante, hoje, não   observa, arrepiado, o encabritar do barquito na vaga. A apontar a bica ao céu, para logo se enterrar na vagalhoça seguinte, impulsionado por meia centena de rijos pescadores embarcados, obedecendo, fiéis, á ordem do arrais:  Rema!!!!....rema...é agora ...vá...

E o mulherio na praia depois de saber os seus, mar adentro, salvos desta primeira investida, esconjurado o perigo, logo tocam os  bois que parecem descer ao areal para na sua borda lavrarem o mar. Tudo mexe a preparar  a longa e penosa puxada da rede para terra. Até que, porfírio cortado, saco esventrado, nele  ressalte em lampejos cintilantes de mil espelhos prateados, a bela sardinha debatendo-se no estertor do seu fim. Era uma correria atropelada. Onde se esqueciam regras, onde tudo era luta, tumulto, vigor escorrido no ressoar de corpos, para  ganho de pobre espórtula que (mal) dava para viver.

Se é certo que hoje esse espectáculo já não existe, porque o tempo corre célere na mudança, uma coisa não mudou:  o adormecer do sol que, à tardinha, vem, cansado de tão longa volta, espreguiçar-se no mar.

É sempre um bodo o entardecer neste recanto luxuriante onde a natureza foi pródiga em oferta: o azul vivo  do mar tinge-se de um afogueado quente, vivo, que preanuncia o fim do afadigado dia. Momentos únicos onde  a cor permanece em  continua transmutação de vermelhões em variadas gradações, aqui e ali, por vezes, entrecortados por farrapos de uma ou outra nuvem, transmitindo a sensação de por ali existir na paisagem, alma!. Alma de êxtase, que prodigamente se transmite à alma do mirante a deixar-se  envolver por tão soberbo momento. Uma e outra gaivota ziguezagueiam os ares, parecendo com esses requebros doces virem despedir-se do barbazanas de fogo que lentamente vai mergulhando nos confins do horizonte.

  

                               

                                                                   

A Costa Nova, menina ainda, parece adormecer, ao de labaró :suave, docemente, embrulhada na esfarrapada neblina que se estende pela ria.

Mas logo vindo do outro lado desponta uma lua cheia, a reflectir  o vermelhão do astro rei. Sobe às alturas, enquanto à sua volta a mutação e cambiantes de cor são um manjar de enlevo para o olhar. À medida que sobe, desaparecido o “rei”, logo a lua se cobre de um prateado extreme. E é esse prateado que vai tingir uma ria serena, dando-lhe um aspecto de inaudita tranquilidade. Só aqui e ali rompida pelo chape..chape...de um peixito que se deixou apanhar pela traquina gaivota.




                                             


E a noite convida ao repouso.

Embalada neste luar, a Costa-Nova, espreguiça-se no areal ...e adormece o  corpo afadigado .

Até que de manhã o estrídulo piar de um maçarico errante, ecoa na lusco fusco de uma luz indecisa da madrugada, a despertar no vermelhão que desce lá da serra.

E o bulício recomeça...


Senos da Fonseca



sexta-feira, julho 21, 2023

 

Se
tivesse de fazer um « Prólogo » ao livro « SABERES QUE TORNARAM POSSíVEIS AS GRANDES NAVEGAÇÔES PORTUGUESAS »,seria assim:



Prólogo

Alguns que escrevem livros, acostumam fazer nos princípios prólogos de sua defensão ,o que eu não fiz. E mais quem quem pode dizer mal de mim, que bom seja, pois aos maus não posso fugir, mas por qualquer parte sempre me hão-de maltratar .E contudo, eu não dou licença que alguém possa ser meu juiz ,senão quem ler os livros, senão quem ler os livros que eu li, e com tanto trabalho ,e tão bem, ou melhor, entendidos. Ainda assim a sentença  há-de ser que para emendar meus erros escrevam da mesma matéria outras obras melhores ,nas quais mostrem saber mais que eu, disto falamos.,(.....) e bem sei que não deixam de repreender  senão o que não entendem.(....) E não convido eu, aos que mais sabem , cuidando que os não há aí no mundo ,mas seria eu mais ditoso que as minhas faltas fossem causa do proveito que sua  doutrina pode fazer. Ser eu curto em meu escrever e não ser mui ordenado, com bons exemplos ,e a falta de algumas coisas que deveria escrever e não fiz.E contudo ,o que com razão pode ser repreendido ,eu confesso que o não escrevi com malícia e pode-se emendar. Antes peço a quem conhecer meus erros, que os emende ;e todavia não murmurando em sua casa, porque desfaz em si.


(autor Fernão de Oliveira in « Gramática »)



terça-feira, julho 18, 2023

 Por congostas a requererem muita atenção....


A minha intrusão pelos meandros da considerada “Primeira Gramática Portuguesa” de Fernão de Oliveira, tem sido difícil mas curiosa.Sinto-me perdido naquele emaranhado de explicações de uma língua “nova” que desejava ser imperial,para isso desligando-se da paternidade do latim.

No fundo  subscrevo inteiramente de não estarmos perante uma Gramática, mas um trabalho sobre “A Linguagem  Portuguesa”.



Tem partes (para mim, pobre gramático) rebarbativas. Tem de se andar ,voltar atrás ,decifrar e tentar perceber a ideia (explosiva ) do autor.

Só um pequeno exemplo (poderiam ser muitos...muitos...)

Sobre dicções (Cap XXXIV)

(....). As dicções apartadas (simples ou singelas) são aquelas cujas partes não podem ser dicções inteiras, mas dividem-se somente em sílabas e letras(....) Dividem-se ,pois,as dicções singelas ou apartadas ,como dou, dás, dar  e como és e em sílabas se dividem como damos, somos e andamos, e não se podem dividir em dicções ,como fazer, porque  fa. por si não diz nada e zer tampouco(....)

Vá lá um engenhocas meter-se nesta molhada....

Bem;  adiante...

Às tantas dou com esta pérola - Cap XXXI

(....)porque foram feitas em Aveiro ,nome de lugar porque dantes nesta terra,morava um caçador de aves,ao qual,como de alcunha ,chamaram aveiro....

Ora tomem lá. Andaram tantos filólogos a pregar sobre a origem de Aveiro, e Fernão Oliveira já no Séc XVI o tinha explicado.....

Há sempre tempo de aprender (?---)

Como diz Fde O:

A Linguagem é figura do entendimento,e assim é verdade que a boca diz qunto lhe manda o coração e não outra coisa:antes não devia  a Natureza criar outro mais disforme monstro do que são aqueles que falam o que não têm na vontade(.....).Como dizia Laércio: os bons falam virtudes, e os ,maliciosos ,maldades (...)

Senos da Fonseca


domingo, junho 25, 2023

 Naquele tempo....



Uma notícia,  inserida com destaque, em “O Público”, dava conta da Marinha Portuguesa ter resgatado uma embarcação  em mar alto, embarcação de pesca que teria avaria irremediável no motor.

Lembrei-me do meu tempo em que, no NRP  “ Dourada” patrulhávamos a costa Norte(Figueira a Caminha).Rara era a semana em que não tivéssemos de resgatar uma embarcação (principalmente motoras) e ou, um ou outro tripulante gravemente doente que, era necessário transportar rapidamente,para  terra. Houve situações de resgate muito....muito delicadas.

Uma delas abeirou-se da tragédia quando, dado o estado do mar, de vaga, houve   necessidade de arriar a baleeira, e tentar fazer o transbordo, para  retirar um pescador de um arrastão costeiro  acometido por dor aguda.  Foi dramático. Na primeira tentativa de acostar a baleira ao arrastão , o  “cabo” que me acompanhava - íamos seis tripulantes – ao saltar , caiu à água, entre a baleeira e o navio. Temi a sua perda . Mal lhe estendi a mão, vi (espantado)que ele saltava como tainha para dentro da baleeira (sem eu fazer esforço nenhum, tal a ânsia de se safar).

(.....)

O resgate devido a avaria das motoras era habitual. Tempos muitos difíceis daquela gente que, ainda por cima, via as avarias, frequentemente, a bater-lhes à  porta, dada a escassa ou nenhuma manutenção .Aquilo importunava-me. E numa das situações em que vi estampado o desespero da falta de meios(materiais) para obter a reparação necessária, lembrei-me de convidar um sargento e um “maquinista fogueiro”,da “Dourada”  para irmos, depois da hora, à motora, a darmos um jeito àquela gente .Foi uma festa. Motor reparado ,umas cervejas e aquela gente estava pronta a sair para a faina. Só que a cena tornou-se habitual. E lá fomos acudindo ( com mestria do “meu pessoal” ) dando solução(e ás vezes até, a arranjar ni paiol , um pedaço de tubo de cobre, um rolamento, etc)....E   com isso criámos um ambiente que ,na altura foi muito falado naquele mundo da pesca artesanal.

De tal modo que a Capitania nomeou-me para a Inspector dessas motoras. Foi uma altura de emigração(fuga) para França. A  maior parte não chegava ao destino. 

Ora num dos casos tive de reprovar três vezes a motora em  inspecção. Que eu sabia se preparava para dar o salto.. A embarcação nunca chegaria ao destino se não fossem resolvidos determinados pormenores. As coisas estavam feias. Tensas. A tripulação demonstrava forte ansiedade .E às tantas  foi-me perguntado:

-Porquê ?.... eu que até era um gajo porreiro, desta vez estava a sacaneá-los?

-É que eu quero que vocês cheguem ao destino a salvo, pelos vossos meios. 

À quarta inspecção (e ajuda),finalmente, partiram. Passados dias eis que me aparecem três mulheres ao portaló a pedir para falar comigo. Recebi-as, claro.

-Vimos para lhe dar recado que o meu José chegou a França. E manda-lhe um abraço....(e é que me abraçou mesmo....)

Creio que elas não deram que os meus olhos me traíram. E de que maneira.


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E já agora : mais uma história desse tempo:

Chegado segunda feira a bordo, tenho  um dos sargentos(O mestre) a participar-me que o marinheiro fogueiro A. tinha sido encontrado no fim de semana (onde só ficava o pessoal de serviço) em acto amoroso com a namorada, no estrado da casa da máquina.

Ora uma daquelas é que eu não sabia como resolver....

(o A.  era um dos sempre prontos a ir fazer uma reparação a uma motora em dificuldade). Ainda mais esta....

Mandei-o chamar. Bateu galhardamente continência. Eu talvez tenha respondido sem o olhar frontalmente...

E perguntei, voz dura (?):

-Então o que se passou? Não tinhas outro lugar...para...

-Saiba que não meu tenente...ou melhor:.... poderia ter...mas não tão limpo. O meu tenente sempre nos exigiu que queria aquela casa das máquinas o sítio mais limpo deste navio. O estrado está mais limpo que o mar....A minha R...até disse:  assim sim.....nem a saia emboito....vamos casar para o mês que vem ,e o meu Tenente está desde já convidado.

Fiquei sem argumentos. Não sabia se me devia rir..... se chorar de vaidade...

Chamei o Sargento. E atirei-lhe :

-  Mestre:  o rapaz ,afinal, estava só a mostrar o injector (da máquina) à namorada (que nunca tinha entrado num navio).Logo vamos beber os três umas cervejas para ele se explicar melhor....Eu trato disto com o Comandante ,esteja descansado.

(....)

Este caso trouxe-me à lembrança quando, embarcado na  fragata “Corte Real”, fomos aos Açores e Madeira. À noite havia uma recepção a bordo, ao Consulado Inglês. Os oficiais da “ Corte Real” era um tal carrear de inglesas para lhes “mostrar” a sala de operações (às escuras, luz avermelhada mortiça, com os fogachos de radares, sonares , etc etc.).

Às tantas pedi ao sargento:

- Sargento. F.:  abra aqui a porta para eu mostrar a sala....





Nem foi preciso acabar:

- É p’ra já ---- olhe! ... o tenente V.  já me pediu a chaves seis vezes.....


Senos da Fonseca


quarta-feira, junho 14, 2023

 A HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA DE UM "PIEDOSA" MULHER !

(A dona do bordel dos ministros de Salazar, que deixou a fortuna à Misericórdia. A incrível história da madame Calado, proprietária da casa de prostituição mais exclusiva de Lisboa.

E o testamento escrito por José Hermano Saraiva.

16 Dezembro 2016 • Pedro Jorge Castro)

"Esta senhora, Maria da Piedade Calado, caiu na prostituição por força das circunstâncias. Mas se não soube viver, soube morrer", diz Joaquim Nunes das Neves, antigo funcionário da Santa Casa da Misericórdia do Fundão, que guardou uma cópia do testamento da madame Calado, a dona da casa de passe mais exclusiva de Lisboa nos anos 50 e princípio de 60, frequentada por ministros e directores-gerais.

Nasceu às 3 da manhã de 25 de Novembro de 1894 na freguesia de Boidobra (Fundão), filha de um jornaleiro e de uma doméstica, e foi baptizada na véspera de Natal, tendo adoptado os nomes da madrinha, Piedade Calado, que não assinou o assento de baptismo por não saber escrever.

Fez depois fortuna como meretriz em Lisboa, até a prostituição ser ilegalizada por Salazar em 1963. A partir do dinheiro que acumulava com os negócios do sexo na sua "Pensão" Calado, num primeiro andar da Calçada do Carmo, 25, frente à estação do Rossio, acumulou capital suficiente, por exemplo, para emprestar 550 contos a um comerciante em 1943 (o equivalente a 272 mil euros a preços de hoje). Ele passou-lhe um cheque sem cobertura e ela pôs-lhe um processo, consultado pela revista SÁBADO na Torre do Tombo.

Analfabeta, mas rica.

Mais impressionante ainda, em 1948 era proprietária da Quinta das Águas Livres, que vendeu por 1.800 contos (757 mil euros a preços actuais) a Manuel Santos Sobrinho. O caso deu origem a um novo processo, desta vez porque ela recusou pagar a comissão de 54 contos ao mediador que tratou da venda. Este pôs-lhe um processo a exigir a comissão, onde referia que Maria da Piedade Calado não sabia ler nem escrever, só assinar o nome. Apesar de analfabeta, tinha ainda um prédio na Calçada do Poço dos Mouros, na Penha de França, que arrendava a inquilinos – encarregava um procurador de cobrar as rendas por ela. E vivia num apartamento na Rua Castilho.

A 29 de Abril de 1951, quando tinha 55 anos, casou-se no Santuário de Fátima, com Fernando Filipe Pereira da Silva, do Seixal. Já não tiveram filhos. E separaram-se pouco depois.

No Fundão, Maria da Piedade Calado era proprietária da Casa do Bico, um palacete com um torreão, um elevador interior para a alimentação, um jardim de inverno no quarto e uma casa de banho toda em louça preta. "Tinha um gosto extraordinário e era de um arrojo tremendo, naquela época", recorda Carlos Couto, que viria a alugar o edifício para gerir a Estalagem da Neve. "Tinha um chauffer, que a conduzia num carro preto muito grande, enquanto ela acenava às pessoas. Na altura havia dez ou 15 carros no Fundão, mas o dela era o mais espampanante".

Massagens a meio da noite

Um jardineiro contratado pela Madame Calado no Fundão despediu-se ao fim de um mês. "É maluca. Acorda-me a meio da noite, pede-me massagens e anda nua pela casa", desabafou na altura a outros patrões da terra, conta uma ex-professora da Misericórdia. Outra residente no Fundão descreve-a como uma mulher "alta, loura, forte, de pele branca e rosadinha e que andava sempre bem apresentada, extravagante até".

Em redor da moradia principal, a madame Calado mandou fazer vários pequenos apartamentos que seriam alegadamente usados pelas prostitutas que trabalhavam para ela. Fernando Nogueira Gonçalves, autor do livro Ilustres e desconhecidos, meio século de memórias do Fundão, dedicou-lhe estas rimas: "A madame Calado, // que a Estalagem construiu // foi uma casa de meninas // algumas esbeltas e divinas // e onde muito rico se divertiu".

Mas ao mesmo tempo que explorava as raparigas, ia praticar caridade a 12 km do Fundão, na Boidobra, a terra onde nasceu e onde era proprietária da Quinta Branca. Um familiar afastado contou à SÁBADO: "Chamavam-lhe a rainha das putas, mas foi uma boa senhora para a malta. Tinha uma cozinha, onde mandava fazer sopa, e toda a gente, trabalhadores e crianças pobres da Boidobra, ia ali almoçar de graça".

Na adega desta sua quinta, mandou construir um cofre, enterrado na terra, e que foi descoberto depois da sua morte: estava cheio de jóias.

Viciada em jogo, generosa na missa !

Tinha o vício do jogo – organizava jogos a dinheiro em casa – mas era generosa na missa: "No ofertório notava-se logo, dava uma nota", recorda outra familiar. A conversão total de Maria da Piedade Calado sobressaiu quando fez o testamento. "A dada altura no fim da vida arrependeu-se. Pensou que ia morrer e teve medo de ir para o Inferno. Já tinha feito mal a tantas raparigas levadas para a prostituição, passou a querer livrá-las da prostituição", conta uma ex-professora do Fundão.

Morreu às oito da noite de 9 de Junho de 1964, com um enfarte de miocárdio, no Hospital da Misericórdia do Fundão. Tinha 69 anos. No campo destinado à profissão no assento de óbito, a que a SÁBADO teve acesso, foi identificada como "doméstica".

"Peço perdão por todos os meus pecados"

Dias depois, foi aberto o testamento, escrito por José Hermano Saraiva, advogado com ligações ao Fundão e que viria a ser ministro da Educação com Salazar, embaixador no Brasil com Marcello Caetano, e apresentador de programas de História na RTP depois da revolução.

É um texto dactilografado em sete folhas, extraordinário pelo arrependimento e pelo destino dado à fortuna. Arranca assim: "Sou católica e na hora da minha morte o meu pensamento eleva-se para Deus, a quem peço perdão por todos os meus pecados. Àqueles que ofendi e também a todos aqueles a quem fiz mal ou deixei de fazer bem, peço que perdoem todas as minhas faltas (…) Desejo que todos os meus bens possam contribuir para minorar a pobreza e a dureza da vida das crianças pobres da minha região".

E assim destinou a Casa do Bico à Misericórdia do Fundão, para aí instalar a Casa-mãe de Nossa Senhora da Piedade, um lar para 20 raparigas, com idades entre os dez e os 20 anos, escolhidas entre as crianças mais pobres com maior vocação para o estudo – que assim poderiam evitar cair nas malhas da prostituição.

"Desejo que a casa-mãe não se transforme num asilo. Mas num verdadeiro lar, onde as raparigas possam encontrar o carinho, o respeito e a alegria a que todas as crianças têm direito, mas que infelizmente tantas nunca chegam a conhecer. Por isso não se usará farda, sendo ministrado ensino de costura de forma a que as alunas possam confeccionar o seu próprio vestuário segundo o seu gosto." A casa-mãe ofereceria ainda o vestido de noiva às educandas, uma por ano. Deixou à instituição mais 1.200 contos (416 mil euros a preços actuais) resultantes da venda do prédio em Lisboa, na Calçada do Poço dos Mouros.

Testamento por cumprir

Havia um prazo de dois anos para a casa começar a funcionar, após o que o legado ficaria sem efeito. Nunca chegou a ser instalada, sob o pretexto de que já havia outras instituições para acolher raparigas nos arredores. O bispo da Guarda ainda terá chamado a atenção para o facto de o testamento não estar a ser cumprido. Mas o testamenteiro, José Hermano Saraiva, terá dado o seu acordo para que a herança fosse usada pela Misericórdia do Fundão para outros fins.

Contudo, o testamento da Madame Calado não terminava ali. Deu instruções para que fossem entregues "uma esmola de cem escudos em dinheiro [34 euros] e um cobertor bem quente a todos os pobres da freguesia da Boidobra", escolhidos pelo padre da freguesia. Este receberia ainda 20 contos , para rezar dois trintanários gregorianos de santas missas pela alma da madame Calado, mais uma missa perpétua no aniversário da sua morte e ainda para lançar sobre a sua campa, em cada dia de finados, flores brancas. 250 contos (86.750 euros a preços actuais) seriam para a Igreja da sua terra, a Boidobra. E outros 250 contos seriam entregues ao Ministério da Educação, para construir uma cantina escolar na aldeia.

Por fim, nomeava testamenteiros José Hermano Saraiva, o padre Alfredo Ferraz, do Fundão, e António Paulouro, director do Jornal do Fundão: "Confio em que todos os três, que toda a sua vida têm amado os humildes e os infelizes, me ajudem depois da minha morte a realizar esta obra, que em vida não pude realizar".

Joaquim Nunes das Neves, o ex-funcionário da Misericórdia que guardou este testamento e o facultou à SÁBADO, despediu-se assim no fim da conversa: "Se no seu texto puder dar a entender que ela foi mais do que uma puta, já valeu a pena." Foi. E valeu.




sexta-feira, maio 19, 2023

 Classificação de Documentos 



Esta história da Classificação  documental -hoje  tão badalada e glosada- traz-me à ideia um dos episódios mais curiosos  que vivi há mais de meio século.

Conto...


A determinada altura do cumprimento do serviço militar, na Marinha de Guerra,fui chamado pelo   Almirante Crespo ,então Comandante da flotilha (mais tarde Ministro da Marinha) que  me deu conta  de  que  me iria  destacar,  para “exercer funções de comando” no  caça  minas Stª Maria (em reparação nos estaleiros do Alfeite). Dado o navio estar inactivo, em manutenção, o Comandante do mesmo ,até então, iria ser  destacado para outra missão activa.  O sr. Almirante chamou-me a atenção para as responsabilidades que iria assumir e, entre outras recomendações e instruções  indicou-me a capacidade até onde (eu) poderia ir na abertura da documentação (incluindo correspondência).E assim fui exercer as novas funções que, eram no fundamental ,controlar e acertar com os estaleiros,  os trabalhos de reparação.

Ora em determinada altura recebo na correspondência um carta endereçada pela  PIDE, classificada como “secreto” ( exactamente o limite até onde eu  poderia abrir , acedendo ao conteúdo da sua consulta).Aberta a mesma a mesma,constatei ,estupefacto,  que  “era alertado o Comandante da unidade que o elemento recentemente embarcado,(e especificava o meu nome), era um elemento activo, perigoso para a Nação, exigindo vigilância apertada”.

Li e despachei na  missiva : Tomámos  conhecimento. O referido elemento será vigiado dia e noite ,24 horas por dia. Assinei e reenviei com conhecimento ao comando da flotilha.

Passados dias fui convocado pelo Senhor Almirante. Recebeu-me cordialmente(como era seu timbre ) e logo comentou :” aqueles gajos são mesmo estúpidos. Nem se deram ao trabalho de saber quem e porquê estava o Comando daquele navio. Mas o seu despacho....”

-Senhor Almirante : quem melhor do que eu próprio poderia seguir o elemento. Referido como  perigoso, senão eu? Até para isso dormia com ele,,,

Vi-lhe um claro sorriso maroto na cara ,logo adiantando 

-Já falei e tratei da cretinice...está encerrado .Mas...:

-Posso confiar, senhor tenente?

-Claro que sim ,Senhor Almirante. Lá fora é uma coisa, aqui é outra....

-Então olhe : vou destacá-lo (interinamente)para o draga minas S. Roque, nos estaleiros de Cacilhas. Há receios de problemas possíveis(de facto a situação, ali e arredores, estava politicamente pesada).Vai até terminar a reparação (uns dias ,lembro-me, menos de uma semana)  assumir a responsabilidade da segurança da unidade.Depois volta ao St Maria .

E assim fui... Era verdade:  a situação era tensa e havia muita notícia no ar.. 

 Responsável que sempre fui (em excesso diziam) passei algumas noites , juntamente  com o elemento destacado em serviço para o efeito ,a fazer vigilância na doca....

Fiquei para sempre ligado ao simpático (e excelente) oficial que foi o Almirante Crespo. De tal modo que, quando terminei o serviço militar (passados dois anos deste facto) fui, já civil, despedir-me dele, então já  Ministro  da Marinha .Recebido imediatamente assim que fui  anunciado. Relembrámos então o episódio grotesco. No final veio despedir-se à porta  do gabinete, de um modo bem sorridente e amigável. Não lhe pude fazer continência porque estava à civil....(e talvez ainda bem, porque eu era “fraco” nesse tipo de saudação gestual).


Senos da Fonseca



terça-feira, maio 16, 2023


                                               16 MAIO  1828


AVEIRO BERÇO DA LIBERDADE 


 A minha homenagem,na figura heróica do Cons.Queiroz . a todos os que  lutaram pela Liberdade do jugo MIguelista.


Para ler pique (sff)

no link abaixo 

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Senos da Fonseca

sexta-feira, maio 12, 2023


 


Lutas Liberais


E porque Aveiro decidiu-e bem - recordar as Lutas Liberais, os seus heróis e os seus mártires,aqui vai a minha contribuição:

Pique no Link:

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Senos da Fonseca

segunda-feira, maio 08, 2023

 FILINTO ELÍSEO 


Uma grande parte dos ilhavenses ( senão mesmo a maior...) desconhece Filinto Elíseo.

E contudo, Filinto é uma das maiores figuras da cultura portuguesa do Séc.XVIII E só o não terá sido maior, por ter sido, por vingança por um Pai que com o desterro de Filinto quis limpar a honra de uma. sua filha (D. Maria de Alorna que protagonizou um conturbado e proibido romance amoroso, tido com   Filinto), conseguindo o exílio do poeta para  França, onde acabaria os seus dias.

Filinto Elísio (na ortografia antiga: Filinto Elysio) ,era filho de “ílhavos”.Da pescadeira Maria Manuel e do  arrais Manuel Simões que, por razões da gravidez inesperada, saltaram para Lisboa onde aí se fixaram. Filinto nasceu naquela cidade em 23 de Dezembro de 1734 (vindo a falecer em Paris em 1819) .Foi um poeta, e tradutor,  notável   do Neoclassicismo. O seu verdadeiro nome é Francisco Manuel do Nascimento, que enveredou pelo sacerdócio,  assumindo então,   o  pseudónimo “Filinto Elísio”.Ou também “Niceno”. (que lhe foi atribuído por uma das suas alunas ,a Marquesa de Alorna ,irmã da D.Maria ).

Filinto pretendeu na sua extensa produção literária, recuperar o sonho de Camões :”um povo mais do que um Pov,;uma nação mais do que uma nação,,um território mais que um território.  Filinto anunciou “que um dia chegará a hora do Quinto Império se os portugueses , assim o “quiserem”, como profetizou  P.Ant. Vieira: “então nascerá um novo Portugal ,uma pátria gloriosa(superior ás demais)”,

Difusor entusiasta  das palavras de Rosseau (da igualdade entre os homens),Filinto denunciou  todos ”os malandrins” que alienavam as mentes dos povos ,impedindo-os de ser m livres. Para isso fustigando sem piedade  a” canalha “ fradesca.


Garret reconhece que, nenhum poeta desde Camões , terá feito tantos serviços á língua portuguesa”. Camilo considera ,Filinto  o “opulentador notabilíssimo da língua renovadora “ que alimentou a poesia de Garret e Castilho. E já Eça, descobre Filinto  como o perfeito purista do Séc.XVIII : severo ,rezingão, escabuchador truculento”...”.Hernani Cidade  assume que,“jamais alguém o fizera com tão vigoroso e brutal intensidade”

Um dia desafiei-me a abordar o “meu Filinto”. Li toda a sua obra (duas edições conseguidas),atirei-me  e deliciei-me com as suas cáusticas tiradas(em verso ou prosa).Senti a mágoa do seu desterro, do seu exilio pátrio. E a desdita da separação de seus Pais que viveram um fim amargurado.

Irredutível como sou, tentei numa pequena peça teatral, fazer uma abordagem de Filinto. E porque a editei, aqui a ofereço aos que a quiserem abordar, aos que não tiveram a oportunidade de vê-la representada pelo grupo cénico “ RIBALTA” ) ,ensaiada magistralmente por JJ Fino.


Para ler picar sobre

https://designrr.page/?id=197545&token=803146173&type=FP&h=5148

Senos da Fonseca


terça-feira, abril 25, 2023

 


Fim de tarde de 25 Abril de 2023


Não tenho  emenda.Talvez,é verdade, nunca a tenha querido.Vivo cada dia,cada  hora,  intensamente. Às vezes, com e por coisas que já nem valem a pena (por mim ou para mim).

Todo esse tumulto sinto-o, gasta-me profundamente. Vivo como se arcasse com todas as culpas do mundo,parecendo  que chego sempre atrasado ao fim dos meus sonhos.

Este dia de Abril,foi  o primeiro em que sinto já nada poder fazer,de útil,para atrasar a besta fascista.E ela está aí.Como nunca se mostrou :  tão desafiadora !. A exigir uma pega de caras 

O rebanho começa a acovardar-se.Esta nova ameaça  tem muitas cores misturadas,Por isso dificil de compreender até onde quer ir. Usurpadores do cravo ,ontem,pregado  na lapela só por um dia, misturam-se hoje, já não se descortinando  por que lado começa o circulo. Os extremos deram a chamada volta do cão.

Hoje apenas me parece bem viva a memória que retenho do tempo em que acreditávamos:FASCISMO NUNCA MAIS....ABRIL SEMPRE!...

Mito?! 

Talvez não.

Poema que,afinal, nunca acabei....porque sempre o quis incompleto.Inacabado....E assim era feliz....

Inacabado mas nunca transfigurado.....

E assim, depois de muito hesitar, acabei por fazer o meu   « poema ?!!!!!» o 49º de Abril.
Para cumprir ABRIL.... magoado? desalentado? Talvez incómodo: deveria ter guardado só para mim ,o desalento. meu....

SF


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 ABRIL 2023

       

                                                                                                                                                

                                                                                                                           
Tarde  interior cinzenta

Não sei se anunciadora de morte.                             

Ou de nada mais que ilusão perdida,

Absurdamente traída.


Tarde de melancolia carpida,

Daquele que foi

O dia de todas as alegrias vividas.

A minha alma de hoje

Não é igual à alma de “ontem”.

Hoje já não há gritos, já não há cantares,

Já não há  palavras incontidas

Nem novo futuro  sonhado .



Na minha alma de ontem soava 

Num tambor feito de prata

Do tamanho do meu país,

O grito da  Liberdade,

Então conquistada.


Hoje sai dele um trémulo tlim-tlam

Triste aviso  de  negros augúrios

Advinhados.


SF 2023





segunda-feira, abril 24, 2023

 

   25 de Abril. 2023



Há 49  anos  era asssim:





 Depois   floriu ....  medrou.... cresceu. Parecia que podíamos acreditar. para sempre.




E « ontem » (ainda) era assim...




Só que hoje começamos a despertar do sonho bonito que quisémos. E de novo surge  o pesadelo:




Seremos capazes de o afastar ?????

A maior parte dos que quiseram e lutaram por isso, já cá não estão.E os outros que restam desse tempo, estão de partida. 

O fascismo está ali,ao dobrar da esquina do tempo.

Sei como  foi.....e sei como será.

Mas vejo tantos a não saber do que é capaz a negrura da alma humana doente.




Senos da Fonseca 2023


 


O texto que relato abaixo, produto de uma recolha que ouvi de viva voz (de cor e salteado) do meu sogro Cap João Fernandes Parracho (Vitorino) (neto de arrais das Companhas das Artes)que me assegurou  que , apesar dos boletins já então recebidos,,ainda  utlizado na gíria a bordo. Mais tarde tive acessso a opusculo que contém este arrazoado.Para que se não perca no tempo aqui vai...SF


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Os Borda d’Água


A discussão em volta do círculo onde se fazia o repasto – porque aquela gente das companhas não se sabia fazer ouvir baixo, fosse porque quem fala alto tem sempre razão, fosse com medo que o marulhar do mar lhe comesse os sons e lhe abortasse a ordem – versava não só o azar ou a sorte da pescaria do dia, as peripécias do lanço, mas também as previsões sobre o tempo que faria amanhã. O pescador sabia ler o tempo e ver nos sinais que vão acontecendo, deles retirando as conclusões para o que o espera amanhã em nova arremetida. É um saber adquirido e transmitido de geração em geração, passado de boca em boca, de pais para filhos, expresso em rimas a preceito.

                                 


                                                                   Arrais olhando mar

Absorto, perscrutando insistentemente o mar e o céu, barrete enfiado na cabeça, escupindo a sarreta que lhe unguenta a boca, atento na lua trovejada augoirando que trinta dias será molhada, espera que não venha com vento pois, é certo, com vento do leste não dá nada que preste. A lua e a suas posições servem-lhe para calcular a prenhez da companheira, mas também lhe indiciam o estado do mar. Lua fraca... o tempo irá mudar, pensa...e logo inspira a cachimbada, sorrindo-se do tempo adivinhado.

Mas se o vento norte é rijão, chuva virá à mão; se for suão de Inverno sim, de Verão não.

Se ao pôr do sol estiver vermelho no mar...certo que haverá ‘sol de rachar’.

Quando lá longe vê uma ave que se aproxima e lhe desperta a atenção, logo murmura: em terra a gaivota... é que o temporal a enxota...; mas se descor- tina estrelas a brilhar... então marinheiro, vai para o mar. Se a manhã vem com arco...mal vai o barco, e se há miragem que espante...teremos...vento de levante. À noite, trovão 

solto, no céu reboa... violento temporal, nos apregoa...


                                         

                                                                                Arrais


Dá de emborcar mais um copo, mas com tino, pois quando ao pescador dão de beber, ou já está moído, ou o vão moer.

Eis que a aurora surge rubra... é... vento ou chuva...; se primeiro chuva, e depois vento, à cautela mete dentro; mas se o vento vem antes da chuva...deixa andar que não tem dúvida.

Interrompe o linguajar para olhar o sopro do vento pois sabe que volta direita, vem satisfeita... ao passo que... volta de cão traz furacão. Não tem muita importância, pois sardinha de Abril, pega-lhe no rabo, deixa-a ir e mesmo não é boa a solha que o pão não molha.

O vento é de rachar... aguarda, pois depressa deve calar.
Dia para ele é aquele do rosado sol posto, cariz bem disposto, bem diferente da vermelha alvorada... que vem mal encarada, pois que lua à tardinha, com seu anel, dá chuva à noite, ou vento a granel; é tempo de amarrar o barco e ir-se abrigar, que barco amarrado não ganha frete.

Se há arco-íris ao anoitecer, certo é termos bom dia ao amanhecer; arco-íris ao meio dia, é certo chuva todo o dia.

Tudo ao pescador/arrais serve para ajudar na previsão: o marulhar da onda, o correrio das nuvens, o seu esfarrapar ou o seu engrossamento; os cinzentos, claros ou escuros das massas de algodão, indicam- lhe as probabilidades do lanço de amanhã. O arrais é o guardador do rebanho. Inventar palavras para o descrever (?!): para quê, se já foram escritas as mais belas, por Maia Alcoforado, vertidas com o coração, pois, quando falava do mar, Alcoforado sentia o cachoar enraivecido das suas águas batendo contra a muralha do peito, aniquilando-lhe as saudades.

Do arrais disse. Alcoforado :

Barrete negro, da cor dos aguaceiros, encafuado na cabeça até à encapeladu- ra das orelhas, de borla caída a um lado sobre o ombro, a pendular sorumbática despretensiosa ironia...

Cachimbo à amurada golfejando novelos de fumo em espalhafatosas cabriolas, que até pareciam de carvão a arder na fornalha enorme dum navio de longo curso. E a embrulhar-lhe o peito, mais rijo que um cepo, o blusão de flanela salpica- do de cores, onde arrecada a onça mail’o cachimbo, os lumes e o lenço d’Alcobaça – quase tão grande como as bandeiras do mariato...


Triste é o dia em que o arrais vê chegar o bando de maçaricos, pois é sinal dos céus a indicar que, a faina, está acabada.O Inverno está a chegar. Tempo pobre de privações, de puxar o barco para o cimo das dunas, recolher os bois e safar o cordame. E tempo para se agarrar ao remo do botirão, amanhando-se na ria a pescar uns xarabanecos com que vai matando a fome aos seus. Tempo de botar faladura na taberna, catando as agruras daquela vida estipurada onde um home bom... na medra; vida de perigo, vida sofrida, de dor e raiva, onde se praticaram actos de demência heróica que imortalizaram esses seres de forças hercúleas, figuras talhadas no cerne de pinheiro bravo de onde são feitas as cavernas do seu meia lua. O “ilho” da beira-mar escreveu as páginas mais brilhantes dessa faina, que a alguns hoje parece a menor, mas que – bem pelo contrário! – por ser tão grande, não caberia sequer nas laudas da maior.

Como diria o Ançã: fraldocos!...



Senos Fonseca



sexta-feira, abril 07, 2023

 



O triste espectáculo a que venho assistindo,onde reina a mais absoluta incompetência  a que se junta a mais abjecta   mentira e trafulhice, exploradas sem vergonha por uma comunicação  que não olha a meios para vender a notícia, corrompida por um sensacionalismo vingativo sob o olhar distanciado (ou ausente) de uma Justiça ,tão doente como  o espectro político que emboita o País, revolta-me. E por isso choro este País....que podia bem, ser outro... O prometido mas nunca cumprido.

Vivo assim, na secreta esperança de, neste tempo de Páscoa, ser eu, também, miraculado, e que as chagas dolorosamente expostas ,se curem. E em mim ressurja de novo a esperança  que tive nesta País.

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Choro…


Choro este País 

Do «Grande Afonso» a mais querer que um País.

Partindo em gloriosa cruzada, gladiou com o mouro infiel    

Para fazer do seu Condado, um Portugal de raiz,  

Numa mão a espada, a cruz na outra mão empunhada.

A mim! A mim! gritou Afonso, 

E logo foge o infiel, em debandada.  


Choro este País,

Onde a arraia-miúda se exaltou e se fez graúda

 Parecendo já um povo por inteiro em que se tornou 

Ao expulsar o intruso e pérfido castelhano,

Atirando do cimo da torre, à turba, o castelhano Andeiro:

Aqui há um povo a sonhar com Portugal nas suas mãos.


Choro este País,

Do grande el-rei João Segundo 

Que os mares assombrosos, terríveis e solitários

Mandou serem navegados, e desvendados,

E  logo as trevas e os medos passaram a estórias

A mostrar a grandeza de Portugal ao Mundo.


Choro este País

De onde saíram cabrais

albuquerques e outros tantos gamas,

Heróis a quem o mundo ouviu contar os mistérios, 

Tão grandes como ditosas e louváveis foram, suas famas,

Ao fazer de um País, um  vasto e grandioso Império.


Choro este País

Do imortal vate que nossa epopeia descreveu. 

Em versos vertidos da sua pena prodigiosa

Dando ao mundo a conhecer ínclitos Varões.

E os feitos da gesta brava lusitana, grandiosa (!)

Para sempre ficaram gravados

No lirismo épico do imortal Camões. 


Choro este País

Que teve de Vieira a palavra eloquente

Para defender os fracos dos abusos dos fortes.

Falando aos peixes por mor do Homem ausente,

E aos homens por mor de Deus sempre presente, 

Espalhando a sublime palavra

Botão florido do mais fino recorte.


Choro este País

 De Pessoa, o Mensageiro, 

Poeta desassossegado cuja genialidade por louca, 

Só em si não cabia,

Dispersando-se por outros «eus» que não era o seu.

E por não o ser, foi sempre obra inacabada,

De laborioso mestre a extrair beleza, onde beleza não havia.]      


Mas porque choro, então, País tão grandioso?


Choro este País, não pelo que prometeu ser, mas pelo que é!

Choro o dia em que anunciou não querer, 

Nunca mais! ser escravo.

País onde mais do que mandar, era preciso saber obedecer

A si, e não aos outros. A ser livre.

Não “Senhor” de nenhuma guerra

Aqui era o Povo que mandava 

Aqui era o povo que reinava 


Choro pois, este País, pelo que prometeu ser

E por, afinal, hoje ser

Aquilo que não queria ser.

País este, o meu,

Onde afinal foi mais fácil “explorar” que colher,

Onde cuidámos mais do vício «de ter»,

Do que do «ser»

Em que alimentámos por demais, as ambições dos novos corifeus.



E assim o País que parecia voltar a querer nascer

Não nasceu – Morreu!......


Senos da Fonseca
-Maio 2023



segunda-feira, abril 03, 2023

 A CAMINHO DO 25 de ABRIL....


O texto abaixo está incluido no livroA Caminho do 25 de Abril- 50 Anos  do 3º Congresso da OPosição Democrática  (1973) edição da URAP(União Resiostentes Antifascistas Porugueses)

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(.....
Os Congressos Republicanos (I e II) foram pensados, planeados, arregimentados, incentivados por Mário Sacramento. O III Congresso, chamado da Oposição (por razões que veremos adiante) nasceu, formatou-se e decorreu (apesar de M.S. já não estar, fisicamente, entre nós), sob o seu legado, inspirado no  desejo repetido da  pretensão de unidade entre as forças opositoras ao regime  Salazarista (mesmo que já sem Salazar), pois só unida, a Oposição – pensava e ensinava M.S. –, seria capaz de deitar abaixo o fascismo. A unidade seria necessária, indispensável para derrubar o regime. Depois, a escolha do novo caminho dependeria da vontade (da liberdade de escolha) de cada um.
Terei sido, certamente por mero acaso, das últimas pessoas a falar com M.S. , três dias (se bem me lembro) antes do infausto e abrupto acontecimento da sua morte.  Curioso o facto, porque premonitória foi então a conversa dessa noite. Tinha ido com um amigo (militante radical comunista), como por vezes era habitual, buscar a casa de M.S., propaganda oposicionista e jornais do “Avante” que, depois, noite dentro, íamos depositar numa certa árvore do parque em frente da fábrica da Vista Alegre, que outros militantes recolheriam, e distribuiriam ao operariado fabril.  M.S.  convidou-nos a entrar. Fomos para a sala de jantar (recordo-o perfeitamente) e um pouco surpreendentemente, mais do que habitual, M.S. mostrou-se falador, começando por nos contar a história clínica da família, admitindo haver razões (que certamente sabia bem, excelente médico que era...) para pensar, estar para breve o seu fim. Depois, a conversa virou – tinha de ser – obrigatoriamente para a política. Estava próxima a data da realização do “II Congresso Republicano”. Mário Sacramento, alma matter do fórum, mostrou-se preocupado com a possibilidade de não se conseguir um entendimento entre as forças oposicionistas que iriam estar presentes. Admitia até o surgimento de dissensões graves. Insistiu com o meu amigo (comunista radical) na necessidade de se esquecerem (ou esconderem), por algum tempo, as divergências e, prioritariamente, insistiu na praxis do unir de esforços. E brandamente – como era o seu tom –, mas insistentemente, explicava ao companheiro de jorna que era preciso, era mesmo essencial, transmitir aos militantes da área de Ílhavo (Vista Alegre), essa ideia. Derrotada a oligarquia fascista – salientava – haveria tempo para cada um se alinhar, em plena e assumida liberdade.
O “II Congresso Republicano” realizar-se-ia em 15, 16 e 17 de Maio de 1969, pouco depois da sua morte (27 Março de 1969). Temeu-se, por isso, o pior. Creio que foi evidente que o Congresso não saltou (nem se soltou) das paredes do salão do Teatro Aveirense. Ou se saltou, certo é que logo, muito cedo, as divergências surgiram, incapacitando o combate em listas únicas às “eleições” legislativas de 69. As dissidências foram muitas. O radicalismo nos bastidores do Congresso era de cortar à faca. Sentia-se e vivia-se, mesmo durante o decurso do Congresso. As comunicações muito individuais, talvez excessivamente académicas, teriam pouca repercussão motivadora, fora das élites (restritas) que se postavam à sua volta. Por vezes, muito abstratas e teóricas, defendiam atalhos que apenas dividiam (enfraquecendo) a torrente da acção caudalosa, bastante para derrube do regime.
Certo :– o tema da guerra colonial foi transversal em todas as participações. Havia clara unanimidade sobre a necessidade de se pôr termo à guerra colonial que, a primavera marcelista, pretendia claramente manter. O findar (da) dessa guerra saiu, como evidência unânime, do Congresso.  Logo que terminada, haveria que, sem demoras, descolonizar.  Era certo: a democracia queria-se. Desejava-se. Respirava-se acalorado e de um modo empolgado esse sentimento, entre a massa dos participantes. Saiu do Congresso a ideia de não se vislumbrar, para atingir tal desígnio e fim, outra via, que não o Socialismo. Contudo pairava, surda ou explícita (em restritos grupos), a questão, sem resposta evidente: que tipo de socialismo?
(...)
 Quatro anos falhos de unidade....
Aproximando-se as “eleições” de 73, foi tempo urgente de caminhar para a realização de um III Congresso. Se fisicamente não tivemos a companhia de Mário Sacramento, como mentor, planificador e aglutinador de facções, o certo é que, em espírito, ele esteve sempre presente. O Congresso foi inspirado no seu legado, na sua visão do caminho para atingir o pretendido fim: – a libertação do país da oligarquia fascista, o de caminharmos Todos unos, de braços entrelaçados. Necessário era dividir o país entre nós (todos nós!) e o outro. De um lado, o regime Fascista. Do outro a Oposição. Una no seu todo. 
Desde logo, a mudança do nome do Congresso.  De “Congresso Republicano” passou a “Congresso da Oposição Democrática”. Isso foi um claro sinal.  Clara mensagem da universalidade pretendida, provinda do mundo social, na participação (ou auscultação) diversificada de todos os que assumiam oposição ao regime, visando fortalecer o movimento oposicionista com a alargada adesão das massas populares. Regime que, já sem Salazar, assumia, contudo (perigosamente), numa maneira menos enroupada, dita primaveril, o levar à prática um salazarismo disfarçado, porquanto com o marcelismo, a guerra colonial era para continuar. E em força. A exploração do trabalho não tinha abrandado. Antes aumentara, fruto da concentração do capital, consentida ou até incentivada. A corrupção disparara, ainda muito mais feroz, uma vez ausente o “olheiro” de Stª Comba que, admitindo-a no segredo dos gabinetes, a consentia em círculos mais restritos, menos vulneráveis à exposição pública.
O “III Congresso”, pretendido ser de “toda” a Oposição, alterou, por isso, para tal desígnio, o seu esquema organizativo, em relação aos anteriores. Criaram-se organizações distritais, abriu-se a Comissão Executiva à inclusão, na mesma, de representantes distritais, incentivando um trabalho activo de proximidade, conducente a uma maior e mais representativa abrangência plural de opiniões. Pretendia a Comissão Nacional uma maior mobilização das mais diversas classes (participantes ou ouvidas), de diferentes condições sócio- económicas. Houve a pretensão explícita para a apresentação de comunicações colectivas, em contraponto com as teses individuais, por vezes pouco comunicativas, demasiado intelectualizadas, mais atrativas pelos nomes dos autores do que, propriamente, pelo conteúdo entendível ou perceptível, da exposição. Importante foi ter-se assumido que, fosse na preparação, fosse no desenrolar do próprio Congresso, seria levada à prática uma ampla liberdade nas matérias expostas, quer no conteúdo quer no modo de as apresentar.
O “III Congresso da Oposição Democrática ” foi pois muito mais mobilizador, muito mais participado (perto de 4.500 congressistas, presentes). Desde a primeira hora, a Comissão Nacional traçou as linhas pretendidas (inspiradas pelo espírito tutelar, presente, de Mário Sacramento), assumindo, como fundamental, nas discussões preparatórias, o objectivo final pretendido:  o da unidade. Permitir (ou até desejar) que o Congresso  se tornasse  um fórum opinativo, vivido na mais ampla liberdade de funcionamento, na apresentação dos problemas quotidianamente sentidos e vividos de igual modo por todos, fossem quais fossem as tendências opinativas (os caminhos) a seguir, como solução de soluções. Só a finalidade seria transversal: derrubar o marcelismo.
As conclusões do Congresso assumem claramente a vitória da unidade conseguida no fundamental, quando referem a necessidade de atrair e mobilizar aqueles que sempre lutaram pela democracia (...).  A unidade é um facto real e concreto de uma frente ampla e unitária contra o regime. Um facto que será o único meio capaz de implicar a transferência do poder da oligarquia para as camadas populares.
(.....)
Em boa verdade, facilmente constatável, o programa das Forças Armadas libertadoras de Abril, subscrito por Melo Antunes, inspira-se muito nas premissas incluídas nas dissertações e conclusões do “III Congresso da Oposição.  Democrática”. O derrube do regime, premonitoriamente equacionado na tese de Medeiros Ferreira, como possível consequência de um golpe militar, aconteceria mesmo, mais tarde, contrariando a desconfiança generalizada da proximidade e subserviência, das forças armadas ao regime.  Finalmente(!), em Abril de 74, foi-nos  devolvida a LIBERDADE.
A Liberdade que todos quisemos e desejámos ver. Que muitos outros, bem mais importantes na luta pelo seu alcance, não viram, mas quiseram, tanto ou mais merecidamente, que nós. Para “eles” o meu agradecimento.
Senos da Fonseca


quarta-feira, março 29, 2023

 




À LAIA DE EXPLICAÇÃO  


A Escola Secundária de Vagos  endereçou uma proposta à Câmara Municipal daquele Concelho,em que indicava o nome de Frederico de Moura para PATRONO ,da mesma .

Aquela Câmara que ainda há bem pouco tempo tinha concedido ,a Frederico de Moura, (a titulo póstumo) ,a Medalha de Ouro numa  cerimónia onde, o então (e actual!) Presidente rendeu -como não poderia deixar de ser! –os maiores encómios  a esta singular figura da cultura Distrital –e Nacional - veio agora reprovar a proposta –por unanimidade!- do Conselho Directivo  .

Os critérios lamacentos, pantanosos , em que se movimentam estas enviesadas interferências da cor politica em decisões que deveriam requer o cumprimento estrito de normas valorativas compagináveis com a especificidade do fim –Patrono - revela um clara menoridade de probidade intelectual , cívica , e ainda uma vil ingratidão por uma  figura que se alcandorou muito para lá das tricas politicas da vida.

O  exemplo de Frederico de Moura  ficará para a HISTÒRIA  ; a  «estória» da reprovação da sua indicação para Patrono, pela Câmara de Vagos ,ficará em rodapé .Não tenhamos dúvida.

Entendi por isso enviar uma carta aberta ao Dr Rui Cruz , Presidente da Câmara  Municipal de Vagos . 

Porque a tal me «obrigava» , o reconhecimento por Frederico de Moura .

E Já agora !...

Não fora o deéice cultural nesta terra de Ílhavo ,atingir o desaforo de vergonha colectiva , apeteceria perguntar :- para quando o reconhecimento público àquele ilustre,   pelo  muito que deu à cultura Ilhavense do Séc. XX? 


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CARTA ABERTA

Exmº Sr Dr  Rui Cruz:


Illmº Presidente da Câmara Municipal de Vagos

 Tenho vindo a acompanhar - com alguma perplexidade -, a questão gerada pelo veto dessa Câmara à proposta do Conselho  Directivo da Escola Básica de Vagos , no sentido de, à mesma, ser atribuído o nome de FREDERICO DE MOURA , para seu ilustre Patrono.

 Sobre a reprovação –e desde já quero deixar isto bem claro -desconheço tudo o que, para além  do que vem expresso na Comunicação Social, possa a questão enformar.

 Por isso, da leitura decorrente do que vem sido tornado  público ,  julgo – julgo !- ficar com a percepção  que o não acolhimento da sugestão do referido Conselho Directivo  por parte da Câmara de V Exª , não contará com o « entusiasmo e concordância » de V Exª. E isso, é para mim compreensível , pois, tendo estado presente na justíssima homenagem da entrega da Medalha de Ouro ( a titulo póstumo ) a FREDERICO DE MOURA , tive (aí) o grato prazer de aplaudir V. Exª, aquando   das elogiosas – mas muito justas e bem a propósito – referências, feitas ao homenageado .Devo dizer a V Exª que as aplaudi na essência , na virtude das mesmas ; mas e também, devo confessá-lo, no «acessório», porque  V. Exª ao trazer o elogio ao visado – figura em vida , não alinhada com as cores politicas defendidas  por si - separou-se da mediocridade reinante e transversal que percorre o pais ,  da miopia geral dos anti-valores que se vão ,impunemente ,sentando nas  cadeiras do poder ,  delas fazendo local privilegiado para daí ressumarem o  fel bilioso , sobre quem não é dos seus . V Exª, julgo tê-lo bem presente , salientou –e bem – que Frederico de Moura já não era «deste ou daquele» ,mas de «todos» , pelo exemplo de vida  ,pelo testemunho de cultura viva que nos transmitiu  ,que não tem cor, data , estatuto ,ou especial destinatário, pela exemplar  universalidade da prática cívica, já que  visava,  tão somente, a aproximação entre cidadãos  da comunidade  a que deu o seu melhor..E que pelo valor ,ultrapassou as fronteiras da mesma ,  afirmando-se  com uma dimensão supra distrital , e, até –não tenhamos rebuço na afirmação -,  com estatuto nacional. Cumpre-nos, por isso ,admirar essa figura ; admirá-la e sentirmo-nos – todos!... os que foram tocados pelo magnificat da sua vivência – nós também ,engrandecidos .


 Ora  foi nesta contingência  de Homem lisonjeado que conheci V Exª e, por isso,  não crendo  se tenha dado o caso de V Exª ter-se  transviado de opinião a respeito de Frederico de Moura , sinceramente ,não vejo  razões para uma hesitação deste tipo ,salvo se ,contrariando a sua vontade , alguns próximos do poder de decisão tenham «forçado» ,agora , o caminho ínvio da «deslucidez».

Esgrime-se a justificação da reprovação dessa Câmara à proposta do Conselho Directivo   ,com o facto de existirem outras figuras «Vaguenses» ,merecendo ,elas também, essa titulação . Não duvido…  .

Desconheço, por meu mal – e não porque lhes falte compleição cívica para tal - as referências «encabeçadas»  por tais «Figuras»  para ombrearem com Frederico de Moura   no investimento em papel de tão exigente qualidade –a de Patrono  de um estabelecimento de ensino -, o que exige uma súmula de valores não ao alcance do comum dos Homens . Longe de os julgar,  porém ...  

Mas o que eu penso é que tendo o Conselho Directivo da Escola proposto o nome de Frederico de Moura –e só o dele  ,e não qualquer outro mais - só havia que responder ; ou sim ou não…

Explico-me ..

 Se  a resposta da Câmara de V Exª fosse Sim :- tudo bem , virtude para a escolha da Escola , a principal interessada na bandeira no hastear de tal bandeira  …e fazer gala na sua  mostra.  Se  fosse não , haveria que dilucidar sobre as razões que enformam o veto ,   nunca - entendo eu -, pela evocação de outras hipóteses que não tenham sido sugeridas. E que o não teriam sido ,certamente, por razões de clara opção perante os requisitos a que o  Conselho Directivo pretendeu dar resposta .O NÂO,   por transparência  e frontalidade, deveria vir acompanhado  das razões porque  entende,  essa Câmara ,  não satisfazer   Frederico de Moura  condições  para tal  . Doutro modo não se clarifica , ou  se empresta justiça :- baralha-se …para tornar a dar . 

Sr Presidente : 

V Exª saberá tão bem –ou melhor - que eu , que O Patrono de uma Escola ,é algo singular, muito diferente do acto de «pregar»  uma placa numa ruela ou fontanário, uma referência que pouco maior interesse terá, do que prestar uma boa colaboração aos serviços postais .

No Patrono  de uma Escola  de adolescentes que sobem para a vida ,  pretender-se-á  ver uma   figura de onde jorre húmus suficiente para «povoar» o sonho  desses  jovens que a frequentam , servindo-lhes de exemplo nos anos iniciáticos  da aprendizagem do conhecimento ,instigando-os a uma constante  abertura para  uma formação sólida ,mas e também, diversificada. Ao Patrono «compete» incitar no rasgar de campos de curiosidade , iluminar horizontes de saber  despertar a paixão  das paisagens da cultura onde se não perca a referência a valores, mesmo quando essa juventude se vir ,já embrenhada  na lufa- lufa do quotidiano   

Ora Frederico de Moura foi um exemplo superior dessa inquietação permanente, apostado  numa aprendizagem  continua e prolongada, em verdadeiro sacerdócio « de colher  muito, de muitas coisas». A  formação assim conseguida  enraizava-se   na ânsia desmedida de  conhecer -e dar a conhecer – o resultado do permanente  «diálogo» que travava  com os mestres ,em  cujos livros,  insaciavelmente, abafava a exegese do saber   e  que, depois, incapaz de os «pôr em reclusão» só para  gozo intimista , vertia-os de uma maneira viva e apaixonada sobre  os  companheiros de vida ou, tão só, de esporádica jorna ; tudo e todos, lhe mereciam o acto  fraterno de partilha  . Discorria com uma segurança incrível , não programada , genuína e de momento,  com uma  referência que ia da clareza e disciplina metódica de  Descartes  à filosofia critica   de Kant ,ou ao koinos –logós  Socrático , numa  imensidão temporal  povoada de referências a  «quem pensou e por isso existiu» ; ora  rumando a um outro campo ,para aí  patrocinar «providência cautelar» contra (alguma) novel   literatura de cordel ,  escanzelada se  confrontada com a  arte dos Senhores, de Seide ou  de Tormes ,de Sernancelhe ou  de Anta . Deleitosamente sensível  á criação artística , Frederico de Moura não perdia a ocasião, se ela  se ajustasse ao momento ,de nos dar conta  do contexto económico ,religioso e social vertido na linguagem do maneirismo de Domenikos Greco ,ou, levando-nos pela mão para a “Aula de Anatomia” de Rembrandt, ou ainda , maliciosamente,  descrevendo-nos  as obscenidades de “Las Majas”  de Goya ,   sublinhando-nos a atmosfera –temporal e espacial -  em que se teriam  desenvolvido as mais belas peças saídas do génio artístico do Homem. E quando o voar tinha tectos mais baixos, sublinhava com « ternurenta » amizade a teia, díspar mas frutuosa,  em que se enredou João Carlos, colega de proscénio na profissão e  na cultura  , degustando  com requinte de apreciador insaciável   o multifacetado empenhamento do «ílhavo» na resposta aos sinais que lhe inundavam a imensidão da   inquietude  artística que procurava satisfação nas mais variadas formas em multifacetados   ensaios  (pena ,goiva ou simples lápis)       

Difícil é , em Frederico de Moura ,distinguir o homem do intelectual, pois nele as duas afirmações  conviviam em permanente e absoluta simbiose .Mostrou uma insaciável disponibilidade para tudo quanto à condição humana  se põe em desafio , assumindo o desassossego de uma alma inquietada pala necessidade do renovo permanente do «sujeito» da mesma .   


Era um espírito «em  graça» de recolha de impressões   maravilhadas  da natureza , e nesta , deteve-se  em  particular atenção  ao espaço geográfico onde fincou as suas  raízes  ; desconfio que ninguém –e foram muitos e grandes que o tentaram fazer – descreveu como ele o Homem da Laguna no confronto suado  com a paisagem. Um dia confessou-me emocionado ; “Sabes – disse-me  enquanto  vertíamos o olhar deslumbrado sobre os tons em constante mutação , que a ria nos ia exibindo  –das coisas de que levarei saudade quando me for ,é da maravilha desta ria que me preenche o ser e me desperta o afago de todo o meu olhar”.A admiração é o principio da ciência de todas as ciências ,;mas é-o também da própria transmissão dessa ciência..Isso era –Lhe intrínseco…

Tinha uma minúcia de observação  para a paisagem humana contemporânea   , vincada  nas pinceladas impressionistas com que retratou, numa perfeição  estética sublime, figuras   que o tocaram  profundamente. Tinham um fio comum esses retratos que nos legou : exaltavam com a mesma força com que o escopro deixa ruga na pedra ,   numa minúcia de observação e  de rigor anatómico , de um  modo objectivo ,probo e escrupuloso , os valores vitais dos biografados , catando minuciosamente os sinais com que  justificava a impoluta compleição moral ,intelectual ou humana do retratado.    

 Foi um Homem fiel ao   Povo da Terra  que serviu em sacerdócio de  entrega, com um grau de  competência invulgar .Mais do que invulgar : notável, a excepcional bitola profissional que lhe era reconhecida por todos os Colegas com quem convivia de perto ,e mais ainda ,  por muitos daqueles com quem ,por razão profissional , longe do seu meio , conferenciava . 

Por tudo –e eu sei, que o que  não  sei sobre tal figura ,é imenso !  -  não me restam duvidas que não seriam apenas os alunos a recolher a benfeitorias de exibirem «um tal Patrono» ; Os Mestres, esses também  , teriam em Frederico de Moura um notável exemplo de pedagogo de todas as horas, de todas as circunstância ,em todas as vertentes humanistas . A ciência pode estar contida nos livros ;mas a vida , a largueza de horizontes ,a profundidade  a inteligência ,essa tem de brotar do Mestre ,da sua paternidade espiritual , assegurada pelo prestigio. Quem melhor do que ninguém no caso vertente ,reúne esses requisitos ?:-importaria saber-se…

 Porque , julgo mesmo que  em   Frederico de Moura estava  ,afinal , o excelente pedagogo, o Mestre  de uma matéria multidisciplinar ,complexa exigente a  que se chama, VIDA .  

Espero sinceramente que V Exª tenha a força e coragem suficiente para corrigir   –a bem de Vagos –  tal iniquidade.

Respeitosos e atentos cumprimentos 


Senos da Fonseca

     

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Nota: O texto acima foi  enviado ao então Presidente da Câmara Municipal de Vagos,aquando da polémica decisão daquela Câmara ter negado  o pedido que lhe foi dirigido pela Eecola da Vagos,para atribuir á mesma o nome de FREDERICO DE MOURA ,como  seu Patrono. Porque entendi trazer de novo á lembrança Frederico de Moura,aqui publico a mesma.
 SF

 (do livro PREIA-MAR) DUNA A verdade era que, Aquela música sensual ouvida, Ritmada com a vaga a enrolar, Na areia da praia parada, Parecia...