quarta-feira, março 19, 2008

PORQUE ESCREVINHO

Tenho ultimamente abordado este assunto. Dizê-lo melhor que o nosso D Duarte era bem difícil:


Achey po boo e proveitoso remeduio alguas vezes pensar e de mynha mãao screver em esto por requirymento de voontade e folgança que em ello sento ;cá de outra guisa nunca o faria ,porque bem sey quanto pêra mym preta fazello o leixallo de fazer

D. Duarte («ENSINANÇA DE BEM CAVALGAR TODA A SELA»)

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ALÁ É GRANDE.Eu SOU PEQUENO...

Seja no pino do Inverno, seja em Maio, ou até em Agosto, a mínima baixa de temperatura dá-me a oportunidade de, na costa Nova, acender a lareira.

Censuram-me o gesto. Que censurem. Que quando estou bem as censuras parecem-me pregações aos peixes.

Faço-o - eu que me adapto muito melhor ao frio que ao calor: -mais por passatempo que por necessidade, Passatempo para os olhos e para o ecrã onde o que vejo se reflecte. Interiormente.

Coloco-me, estrategicamente na posição que orquestrei quando projectei aquela casa.

Sentado em frente ao fogo que dança em labaredas numa coreografia irrepetível a cada acto, deixo que o brasido vá amorrentando enquanto lanço um olhar inquiridor a norte e a sul. Um simples volteio da cabeça, mo permite.

A tarde abranda; com ela as gaivotas tornam-se mais pachorrentas, menos erráticas. Fico a olhá-las enquanto o sol esmorece e sobre a coroa descoberta pela maré navega uma poalha ténue de neblina. O brilho do ar parece esmaecer.
Chegam os tardios – ou madrugadores – arroteadores do molusco. Abicam as embarcações, não se dando ao trabalho de alçar o barco; a maré desce. E daqui a pouco, toda embarcação ,da bica à ré, estará varada. A estadia está calculada. Horas para a vaza e outras tantas para a flutuação.
Envergando as botifarras que sobem até lhes servirem de albaióis, os navalheiros saltam lestos, prontos para catar o lodo sob o qual «as navalhas», ofegantes, respiram. Dois olhitos denunciam-nas traindo a sua posição. Antes de as borrifarem com o sal, param para acender um cigarrito; olham em volta, parecendo incomodados com a agressão à natureza.Mas encolhem os ombros e atiram-se de novo à cata. Eles procuram apenas a sobrevivência. A sua tarefa tem tanto de agressividade como a do seu antecessor erectus que espetou um Tyrannosaurus com uma lança de sílex.
Estendo o olhar sobre a paisagem. Os borrelhos aterram, dispondo-se estrategicamente alerta, prontos a levantar voo ao menor sinal de perigo. Fixo o seu sentido de auto-defesa. Como o meu. Não gosto que os outros interfiram no meu mundo, especialmente em momentos em que, como este , busco o calor exterior na lareira para compensar a falta do que me vai na alma. Ninguém, nenhum intruso se intrometa, senão levanto voo.

Resmoneando, emborco uma – um dois, ou três…- wiskies .Volto a olhar para longe, preguiçoso de despegar o olhar da paisagem. Vislumbro o Caramulinho recortado no azul avermelhado do lusco-fusco. Amanhã, se aqui vier cedo, vejo-o já todo plasmado num saltarico de verde, empertigado, soberano guardador da paisagem lagunar. As serras enclausuram-me. Vou lá e fujo. A planura lagunar dá-me liberdade. Fico por aqui aguilhado, preso na sua liberdade.

Sinto medo de a perder.

É nestes momentos que me acodem visões de um exército de belzebus, comandados por um al moeda (?) Ibn-el- Oribau, que à frente de uma horda de azenegues nazarenos ou encarnavos se propõe fazer palácios árabes, infiéis, mais altos que o Caramulinho, encarrapitados a boiar sobre a laguna.

Alá é grande! E não consentirá…

Eu sou pequeno .Bebo á saúde de Alá. Dele!.. e louvaminho todos os deuses que não consintam que eu deixe de dormitar à lareira, a descansar os olhos naquele oiro esparrinhado no azul lagunar.

Aladino

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