quarta-feira, março 26, 2008


PULSO LIVRE


Tive o grato prazer – e até deleite -confesso, em ler com antecipação a edição do opúsculo contendo a mensagem que o nosso conterrâneo, Dr. António Malaquias, irá transmitir aquando da apresentação de «Pulso Livre», de Frederico de Moura.

Bateu certa a minha previsão sobre a pessoa mais indicada para enquadrar o esplêndido livro de Frederico de Moura. Difícil fazer melhor, senão impossível.
Porquanto A.M. junta à prodigalidade da forma como avalia o autor, um conteúdo exaustivo e subtil da personalidade daquele “que o que queria é que fossem libertados os «rústicos» de toda a espécie de grilhetas que os atormentavam». E que não gostava de se ater entre varais, e que até gostava de ter opiniões diferentes. Avaliação fundamentada em um contacto directo, próximo e até familiar, que leva o introdutor à leitura do «Pulso Livre» a sublinhar –o que reforça a nossa opinião –que não chega o passar-lhe os olhos por cima ,à vol d’oiseau ,sendo imperioso lê-lo ,mastigá-lo… e saboreá-lo. Pois só assim poderemos apreender a bonomia das deformações humanas, que sendo no livro (hiper) sublinhadas – que uma leitura apressada nos poderia conduzir a uma acentuação excessiva dos males – são antes uma expressão estética, subtil, de um olhar para o homem como resultado do meio em que se insere, «rústico» na superficialidade, mas xaroposo, doce, na verdade interior. E para o qual F.M. olhava com o mesmo desvelo paternal, idêntico ao que aquelas gentes dispensavam ao bulir do milheiral para lhe retirar as danosas, ou no gadanhar da leira para aconchego dos seus animais.

O opúsculo que em boa hora se entendeu registar, merece, ele também, uma leitura atenta.
Tem momentos de louvável ternura à mistura com outros de deliciosa erudição, orlada de citações tão a propósito, e tão bem enquadradas na prosa doce, que não resta outra atitude que a de nos deixar enlear, até ao fim, na dialéctica deste mestre, algures refugiado na sua toca que pena! – e que dela saiu para nos deliciar com a sua leitura do «Pulso Livre». Mas e fundamentalmente com a leitura que faz do autor, numa elegia à sua inquieta identificação com as raízes e as gentes da sua criação, impermeável a todas as deformações que lhe obliterassem, ou distorcessem, a fidelidade que parecia-e assumia- dever ao seu chão.

Com esta motivação acrescida, conto ansioso pelas horas que faltam para ouvir falar de um Amigo que me tratou, tantas vezes, a mim – rústico de tantos saberes – dos meus excessos racionais, levando-me a entender que o mundo é fascinante desde que o olhemos com óculos adequadamente prescritos.
Senos da Fonseca

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